Raça de Ouriços – O segredo dos seus olhos fechados

“Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.
Y una hermana muy hermosa
que se llama Libertad.”

Pouco mais de um minuto era o tempo que ela levava para adormecer depois do ato sexual. Sobretudo se chegava ao êxtase depois do companheiro. Ulisses já havia percebido isso nas primeiras vezes, mas mesmo dez anos depois da primeira vez que dormiram juntos, isso ainda o impressionava. Encantava-o, na verdade, como tudo o que ela fazia. Suada e com os cabelos ainda colados ao rosto, ela parecia se desligar como uma máquina à vapor, expirando pesadamente e pela boca entreaberta um hálito morno que ela mesma nunca via, mas o fazia se aninhar a frente dela para respirá-lo. Os olhos fechados, porém, eram o símbolo que dava sentido àquele ainda belo corpo nu.

before sunriseOs olhos dela se fechavam algumas vezes durante o ato. Ulisses percebia que não era um ato espontâneo, involuntário, não. Era o recolhimento de um espírito que se ensimesmava e, por alguns segundos, fazia do ato sexual um meio para uma finalidade secreta, obscura, misteriosa, cujo sentido só se permitiria entrever a quem conseguisse entrar na névoa difusa do seu prazer. Mas, para poder fazê-lo, seria primeiro necessário vencer as duas pesadas cortinas que se interpunham entre Ulisses e as janelas da alma de sua companheira. Sentia-se como um físico, tentando adivinhar a essência da partícula fundamental da matéria através de seus inumeráveis indícios, mas proibido de vê-la diretamente.

Essa proibição, porém, é da essência da experiência humana. Ora, se o átomo ou a alma se apresentassem seja através do microscópio ou através do amor, pareceriam uma nova substância que pode ser dividida, medida, classificada e então infinitamente decomposta. Como o átomo, a alma jamais poderá ser vista. Segundo alguns, mesmo o pensamento já a deforma: os místicos medievais pareciam perceber que a experiência inefável é a experiência mais especial e privilegiada que a alma humana pode alcançar. Viam nisso a presença de Deus, seu contato direto conosco. O êxtase místico da companheira de Ulisses, porém, era muito provavelmente sem Deus. O sono que se seguia imediatamente depois do orgasmo – que podia durar dez minutos ou, como certa vez durou, 14 horas! – a levava para algum reino distante, absolutamente desconhecido de Ulisses. Mas que lugar seria esse?

Ulisses não sabia, mas desconfiava. Os anos passados ao lado de sua companheira indicavam que mesmo quando ela estava acordada, às vezes sua alma abandonava a máquina de carne e simplesmente a deixava em um funcionamento automático. Na ocasião mais emblemática, esse recolhimento durou alguns dias: durante uma viagem frustrada de férias para uma praia nudista, sua companheira – que era certamente uma das moças mais bonitas da praia – abandonou o corpo nu às areias e ondas, enquanto pareceu mandar sua alma para outro lugar, outro continente, outro mundo. A alma da moça só voltou no último dia, quando percebeu que iriam embora. Como se tomasse um susto ou acordasse de um transe, percebeu que havia deixado Ulisses “sozinho” durante dias. Sentiu-se nitidamente culpada e redobrou os carinhos. Naquela noite, antes de seguirem viagem, correram nus na praia deserta e foi o único momento em que realmente estiveram juntos naqueles dias.

Em momentos como esse, a companheira de Ulisses não descia necessariamente as pálpebras sobre os globos oculares, mas seu alheamento ao presente era maior e mais nítido do que se fechasse nervosamente os olhos como muitas pessoas fazem. Havia uma pequena variação entre o alheamento cotidiano e os instantes de recolhimento da alma no ato amoroso. Neste havia, ainda que pequena, uma parcela de deliberação. Era um ato intencional. Ela não fugia do lugar por necessidade, mas se recolhia por vontade própria.

Mas para onde ela ia?

Observando-a dormir, Ulisses só sentia mais admiração. Sabia que ela provavelmente não o abandonaria, mas sentia que podia. E que o fazia, a cada sono pesado, em que mergulhava completamente no oceano subterrâneo de si mesma a partir do momento do orgasmo. “Eu preciso ficar sozinha”, ela dizia às vezes ao chegar do trabalho. Soltava a bolsa, tirava o casaco, soltava o cabelo e se deitava no colo de Ulisses. Em um minuto se podia ouvir sua respiração mudar, ficar mais pesada. Estava dormindo.

Qualquer coisa podia motivá-la a se recolher em si mesma. Problemas no trabalho, na família, na política. “Motivos são coisas que a gente inventa quando tem que fazer o que quer”, ela sempre dizia rindo, ironizando em uma frase todos aqueles que vivem e pensam segundo razões rígidas e supõem, assim, poder controlar a vida. Certa vez, por exemplo, chegou entristecida em casa em razão da “feiura do mundo”. Ouvira, em uma fila, uma mãe ensinando a filha a respeitar o marido adúltero, pois ela era mulher e essa era uma tarefa das mulheres segundo a natureza das mulheres. Menstruar, engravidar e aceitar adultérios era a natureza das mulheres. Contou, em uma voz monótona, já sem a indignação juvenil, que pensou em humilhar aquela mãe em público. Imaginou mil abordagens: pedagógica, furiosa, irônica, etc. A monotonia de sua voz era a voz de quem havia desistido de tentar mudar o mundo, mas que ainda tinha esperanças e desejo de vê-lo mudado. Sua alma vivia, mas padecia de um irreversível cansaço. Foi nesse mesmo tom que certa vez ela própria confessou um adultério. Com o mesmo ritual – soltar a bolsa, tirar o casaco, desprender os cabelos – disse apenas: “Eu te traí hoje. Desculpe.” Ulisses olhou para ela atônito. Depois de uns vinte segundos, perguntou se ela queria conversar. “Depois”, ela disse, olhando profundamente nos olhos dele. Ulisses entendeu que ela precisava ficar sozinha. Foi até a estante, retirou um livro e ajeitou-se no sofá a ler, em frente a televisão ligada sem volume. Ela se deitou no colo dele e, como sempre, adormeceu rapidamente.

Veja bem: neste dia, a companheira de Ulisses olhou profundamente em seus olhos. Naquele momento, ela estava integralmente ali, com ele. Precisava saber se, antes de qualquer conversa, ele ia querer ficar com ela antes de qualquer diálogo. Se fosse necessário apostar, ela apostaria que ele iria aceitar que ela descansasse antes de conversar. Não tinha certeza, mas precisava saber. Nesses momentos, ela o olhava quase sem piscar. Essa era sua linguagem secreta, desde os primeiros dias: o olhar. Antes de conversar, se olhavam. Por minutos inteiros. Compartilhavam da convicção de que as palavras não transmitem o essencial mas, no máximo, ratificam o que o olhar comunica. Em momentos como esse, se olhavam em silêncio antes de conversar. As palavras só faziam adivinhar o que o olhar já havia estabelecido em silêncio. Também foi assim no dia em que decidiram morar juntos: ela o olhava, com um sorriso bobo e quase infantil, e olhava para o quarto dele. Ele sabia que ela já não estava à vontade dividindo um apartamento com pessoas quase estranhas. Como que em um ato mágico de telepatia, Ulisses acendeu um cigarro, se deitou e olhando para o teto, disse apenas “Traga suas coisas para cá.” Ela vendeu os móveis e levou sua vida numa caixa de roupas, livros e outras miudezas para a casa de Ulisses. Viveram anos plenos de beleza dividindo o mesmo teto, afinal, ela sabia ficar sozinha no momento que quisesse, mesmo em uma multidão.

No último ano em que ficaram juntos, seus olhares já traíam o destino que os esperava. Repetiam, como jovens, o ritual que os tornou próximos: se deitavam em silêncio, apenas trocando um mútuo olhar fixo, ininterrupto. Às vezes o silêncio era interrompido por uma dupla e melancólica gargalhada, às vezes por não menos melancólicas lágrimas. Às vezes ambos. Amavam-se mais do que nunca, como nos primeiros dias. Mas era o terceiro momento de uma dialética ingrata como só são igualmente ingratos os gêmeos Acaso e Destino. Já haviam vivido tudo o que tinham de viver um com o outro. Agora, tinham amantes. Tinham desejado um filho. Ela perdeu. Sem nenhum drama, não desejaram mais nenhum. Ela queria ir embora daquela cidade. Ulisses tinha um pai doente que ele tinha o dever de acompanhar nos últimos meses de vida. Não fazia nenhuma questão que ela se sacrificasse por ele ficando ali, pois esperava dela a mesma atitude. Em uma manhã fria de domingo, Ulisses acordou e encontrou um porta-retratos novo sobre a mesa de seu escritório. Uma das primeiras fotos que tiraram juntos. Se olhavam sentados em um gramado em uma tarde de sol e sorriam, quase rindo, como crianças. A cama, porém, estava vazia. Os armários e gavetas dela também.

O pai de Ulisses durou mais dois anos. Nesse meio tempo, Ulisses ouviu falar dela mais três vezes. Sabia onde ela estava. Mas, não a procurou. Casou-se com outra mulher e com esta sim teve um filho. Levou mais alguns anos para perceber que vivia uma vida de mentira, com uma mulher que não o amava e que fazia de sua vida um tormento. Não se entristeceu quando ela se mudou, com o filho, para a casa de outro homem. Não podia condenar a frustração de uma mulher que não conseguia viver com um homem que estava sempre tão distante, que fazia tanta questão de estar sozinho.

Uma semana depois da sua separação, a campainha tocou. Quando Ulisses abriu a porta, sentiu toda sua vida pulsando na órbita de seus olhos. Toda a sua vida acumulou-se e transbordou em silenciosas lágrimas. Da parte dela, o mesmo. Desnecessário dizer que choraram, gargalharam e, sem deixarem de se olhar por um instante sequer, fizeram amor durante horas, como dois jovens descobrindo os prazeres da carne. Naquela noite, ela não fechou os olhos nem mesmo durante o orgasmo. Suas unhas se encravaram nas costas de Ulisses enquanto ela gritava, em lágrimas, sorrindo, convulsa e em êxtase. Ulisses viveu a até então a inédita paz de sentir que ambos finalmente estavam onde queriam estar. A vida se concluía.

Infelizmente, a vida dela também se acabava. No dia seguinte, Ulisses ouviu de sua companheira que ela estava condenada. Seus pulmões frágeis haviam finalmente perdido a batalha contra o maço diário de cigarros que ela fumava desde a adolescência. Morreria em meses. Em lágrimas, Ulisses brigou com ela quando soube que ela morreria sem que ele soubesse se, por acaso, ele não estivesse divorciado. Mas, mais uma vez, perceberam que o Acaso e o Destino lhes havia dado a oportunidade de uma última beleza. A doença dela durou um ano. Ulisses se demitiu e viveu de suas economias cada dia de vida que restou à sua companheira. Esteve junto com ela quando ela perdeu os cabelos, quando ela perdeu o controle dos esfíncteres, quando ela pediu pra morrer para que ele não tivesse que vê-la naquele estado e quando ela finalmente compreendeu que mesmo aquele corpo decrépito padecendo sobre uma cama ainda aparecia para Ulisses tão belo quanto o canto das sereias.

Na noite da morte de sua companheira, Ulisses foi comprar cigarros, pois a tensão da situação o motivou a voltar à fumar. Ulisses não sabia que aquele seria o último olhar que trocariam. Quando ela fechou os olhos, Ulisses correu do hospital até o botequim mais próximo, pensando em voltar o mais rápido possível. Quando retornava, ele e outros pedestres foram atropelado por um motorista bêbado. Ele morreu imediatamente, poucas horas antes de sua companheira, que não acordaria mais, respirar lenta e pesadamente pela última vez.

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Excertos do Subsolo – Aviso aos homens do subsolo

Conhecer a si mesmo é talvez o único dever dessa raça de almas mortas que habita o subsolo. Um mínimo de autoconhecimento, senhores, um mínimo. É isso que vos peço e sugiro. Pelo bem-estar daqueles que cruzarem seus caminhos.

É preciso conhecer a própria natureza. Para nós, os ares da superfície são demasiado rarefeitos. Os efeitos da superexposição à eles não podem ser outros: embriaguez, delírio, alucinações! O ar da superfície deve ser fruído com moderação, aspirado delicadamente, degustado como um vinho, como um licor. Não vêem seus efeitos aos homens da superfície? Vivem como crianças. Como poderia ser diferente? Advirto-lhes: nossa consciência cindida – nossa sina – se deve em muito à umidade do pesado ar que respiramos. Senhores, cuidado com os ares da superfície. Se não se convencem, lhes conto uma pequena história do que poderia ter sido um simples passeio.

Certa feita, um homem do subsolo igualzinho a nós – isto é, com uma vida inteira vivida entre aspas – foi passear pela superfície, como alguns de nós têm o costume de fazer. Nesse passeio, distraiu-se em um jardim. Nada mais natural do que se deixar distrair diante da beleza quando se vive no subsolo. Mesmo que alguns de nós tenham desenvolvido o dom da apreciação do próprio subsolo, é perfeitamente compreensível que as cores das flores ainda sejam capazes de cativar as almas mortas. O único equívoco desse distraído homem do subsolo foi ter se perdido nesse jardim. Muito extenso e muito bonito, o jardim se estendia em todas as direções no horizonte. E se o ar da superfície já é embriagante, combinado com o perfume das flores se tornou literalmente venenoso.

Nosso amigo perdeu a noção do tempo no jardim. Não percebeu quando os primeiros sintomas começaram a aparecer. Como sabemos, aqui embaixo há toda uma sorte de coisas que simplesmente não pode sobreviver, nem mesmo nascer. Crenças, por exemplo, não encontram no subsolo nenhum nutriente para que possam, digamos, florir. Valores, da mesma forma, não sobrevivem muito tempo no subsolo. Simplesmente fenecem, custando o tempo que custar. Como nem mesmo nós, homens do subsolo, nascemos aqui, é natural que ainda carreguemos vestígios de crenças e valores. Mas aqui, elas se assemelham à cicatrizes. Já não operam como na superfície. O fenecimento dessas partes da alma fazem parte do processo de adaptação ao subsolo. Aqueles que não conseguem se despojar desses caprichos da superfície sufocam em si mesmos quando passam a viver no ar pesado do subsolo. Contudo, o ar da superfície pode produzir, mesmo em uma alma morta, algo como uma crença ou um valor.

Senhores, nada pode ser mais trágico.

(Desnecessário lhes dizer que não estou afirmando que isso seja ruim. A constatação da tragédia é mais básica do que os juízos de valor. Como vêem, a ideia de tragédia é uma das poucas que sobrevive no subsolo, por ser pesada como o ar daqui. Na superfície, o juízo maniqueísta funciona melhor e combina com o colorido do mundo da superfície)

Em uma alma morta, um valor ou uma crença não podem sobreviver senão como parasitas. Desenvolvem-se, literalmente, como tumores. Assim, só se fazem notar quando o estado da vítima já é terminal. Em desespero, nosso amigo – perdido na imensidão do jardim, embriagado pelo perfume da superfície, pelo azul tão raramente visto (nossos olhos, de homens do subsolo, vêem tudo cinza quando passeamos pela superfície, só vendo o azul quando suficientemente intoxicados de ar puro) e fazendo o esforço de se manter consciente de que o que estava em jogo era sua vida, nosso amigo correu.

Correu destruindo tudo em volta. Seus pés enlameados esmagaram belas flores. Evidentemente, uma pequena destruição. O tempo, no subsolo ou na superfície, destrói e reconstrói tudo o tempo inteiro. Sem saber se teria forças de achar uma boca-de-lobo a tempo, cavou um buraco dentro do jardim e, então, desapareceu nele.

Essa história é uma advertência, meus amigos, pois esse irmão do subsolo até hoje não reapareceu por aqui. Acredito que ele deva estar escavando, devidamente protegido da luz e respirando o ar necessariamente pesado dos subterrâneos. Se ele for bem sucedido, voltará para nos contar como é se deixar embriagar de luz, céu e perfume de flores. Teremos de cuidá-lo de perto, pois não sabemos o quanto as crenças e valores terão crescido em sua alma morta. Sem a luz da superfície, elas fenecerão. Mas isso pode levar muito tempo. Até lá, vamos confiar que sua alma morta se lembre do caminho de retorno. Até lá, brindemos à sua saúde. Brindemos à essa estranha saúde avessa, que só cabe à nós, homens do subsolo.

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Excertos do Subsolo – Instante de Plenitude

À meia-luz do abajur, cuja cortina alaranjada de tênue claridade parecia apenas preservar o calor dos miasmas, o corpo de Amelie ainda reluzia delicadamente, coberto por uma fina camada de seu próprio suor misturado com o de seu amante. A pele morena parecia respirar junto com a moça, cujo arfar pesado exprimia o cansaço e denunciava, assim como os olhos fechados, seu lento e progressivo adormecimento. Seus aromas e perfumes certamente impregnariam os lençóis de Yan que, sentado às costas de Amelie, não podia ser visto pela moça, mas era por ela sentido como sempre estado presente, mesmo em seus sonhos. Diante do corpo da amante nua, o rapaz já devia desejar possuí-la novamente. Assim, após o instante inextenso de êxtase, a dinâmica da existência recolocava os elementos em seus devidos locais: o desejo por Amelie era o desejo por plenitude, e o instante inaprisionável do êxtase dividido seria ainda perseguido por incontáveis vezes. Era sua única janela para a eternidade, para o infinito, para a plenitude da fusão das almas.

O pior de tudo, para Yan – e mesmo para Amelie – era saber disso.

Embora sempre incorra em compromissos epistemológicos provisórios, a psicologia é eventualmente sábia e oferece descrições lúcidas do fenômeno do condicionamento. Isto é: a psicologia sabe que uma pessoa pode ser ajustada para responder de formas específicas em circunstâncias específicas. É possível, neste sentido, adestrar uma pessoa até fazê-la abandonar seus vícios, corrigir seus desajustes. Yan, contudo, se enquadraria na categoria de pessoas que condicionaram a si mesmas para a reflexão.

Ora, mas isso é possível? Desde a aurora dos tempos modernos, a reflexão foi sempre vista como o poder mais característico do espírito humano. Descastes nos ensinou que a reflexão é o símbolo da liberdade, que é capaz de nos arrancar do interior das engrenagens da natureza. Se a natureza é previsível, o espírito é o contrário do previsível: espontâneo e imprevisível, o espírito é pura liberdade. Nem mesmo os deuses podem nada contra o espírito humano quando a liberdade desperta, e isso se evidencia na reflexão: através dela, o espírito se ergue da circunstancialidade pelos próprios cabelos, tal qual o Barão de Munchausen. Só duzentos anos depois de Descartes foi possível desconfiar da reflexão: o temperamento irracionalista de gênios como os de Schopenhauer, Nietzsche e Freud levou décadas para produzir uma suspeita: não será nossa reflexão, ao menos eventualmente, refém de impulsos e paixões? Não será, em última instância, o caso que “desejamos e pensamos que pensamos”?

Yan acreditava que sim, e que tinha suficiente impulso auto-destrutivo para desconfiar de si mesmo. Pois por que outra razão seu humor comum seria essa perene e agridoce melancolia? Não sabia dizer e assumia a existência de um impulso qualquer uma paixão adoecida como sendo o componente a definir o tom no qual vibrava seu espírito. Como não admitir que seu espírito – e, portanto, sua reflexão – era condicionada? Apenas tal compreensão permite que entremos em páginas como essa que se segue, extraída de seu diário de reflexões e escrita em um momento semelhante à esse, depois do amor:

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Há –  ou pode haver? – algo como uma verdadeira empatia?

Nosso espírito é um segredo inescrutável e essa “empatia” analógica de que tanto se fala não poderá jamais senão arranhar o outro, sua casca, sua pele. É por isso que os outros sujeitos – as outras consciências – não poderão jamais senão mais do que se insinuar. Escondidos e dissolvidos na matéria orgânica viva da carne, dos corpos, os espíritos não podem nunca fazer mais que tentar se manifestar através de seus títeres de carne. Seus gestos, contudo, estão à mercê do filtro ativo que é minha visão de mundo, meus conceitos, meus significados, meu horizonte de sentido. Os outros e as coisas não podem passar jamais de coadjuvantes e cenários de minha aventura. Minha solitária aventura, para além da possibilidade de qualquer partilha autêntica. E para viver uma comunhão qualquer, dependo de uma original – isto é, de um engano original, uma ingenuidade original – de que isso seja possível. É necessário inventar a comunhão e a empatia para sobreviver. E o necessário é impossível: a solidão é inultrapassável. E o lamento também é inútil, pois não será jamais plenamente compreendido.

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Esse é o humor que retorna, como um tanque que se enche, logo depois de ser varrido para longe pelo instante de êxtase e plenitude. Esse é o espírito das anotações de Yan que, ainda nu, registrava em seu caderno durante o sono de Amelie. Desta vez, contudo, foi interrompido pela voz da moça.

“Você não consegue descansar nem eu seus próprios sonhos, não é mesmo?”

Virou-se. Amelie estava sentada na cama, mais linda do que nunca. Também estava nua. Recolocava os óculos e acendia um cigarro. Mas… ela não fumava. Por que estaria o fazendo agora? Yan desconfiou e logo confirmou a própria suspeita, ao olhar para o próprio caderno e ver sinais sem sentido ao invés de letras: estava sonhando.

“Você realmente está aqui ou estou conversando comigo mesmo?”

“Eu estou onde sempre estive, onde você me deixou.”

“Quero saber se você veio me visitar no sonho, de verdade, ou se só está aqui por projeção dos meus desejos.”

“Você sabe que não quer saber isso. Sabe que vai acordar antes de descobrir, porque no fundo não quer saber. Você acredita tanto que está irremediavelmente sozinho que me deixou no mundo real e me preserva em sonho como dúvida, porque é só o que você admite que pode possuir com segurança: suas próprias dúvidas.”

Yan silenciou. Sabia que sonhava, mas que se tentasse testar o ambiente e “controlar” a personagem de Amelie, acordaria. Fosse ela uma projeção do seu inconsciente ou a própria Amelie o visitando em sonho, ela e o ambiente desvaneceriam imediatamente ao menor esforço de confirmação e teste de realidade. Levantou-se e foi até a cama. Beijou Amelie com desejo, mas também com a resignação de quem se sabe – ou ao menos se – refém das próprias paixões. Controlava-se, agora, para não testar a realidade, para não tentar descobrir se Amélia era real, para não acordar.

Mas, tentar não pensar em algo exige justamente que se pense nesse algo. Espontaneamente, seu ambiente esmaeceu tão logo quanto surgiu a preocupação em não testá-lo. Ao acordar, estava sozinho em seu quarto material, contraparte física de seu lar onírico, com seu cinzeiro e seu caderno de notas – um diário de sonhos, na verdade. E só desperto, Yan lembrou – ou percebeu – que ele próprio não era Yan, mas Amelie. Amelie que, todas as noites, sonhava que era Yan. Um Yan que queria revê-la, um Yan que sonhava com o amor que, no mundo real, havia decidido abandonar sem aviso ou explicação, um Yan que precisava dela da mesma forma que ela precisava dele todas as noites e todos os dias. Um Yan que a veria como perfeita projeção das próprias necessidades, perfeita e necessária como só nos olhos dele, por um instante inextenso de êxtase, ela se sentiu. Instante no qual ela se sentiu verdadeiramente viva e pelo qual ela permanecerá procurando pelo tempo que for necessário, nem que para isso precise sonhar toda uma existência na qual ela consiga reviver o instante de plenitude de se sentir amada, mesmo que seja por si mesma e através de amores imaginários, sonhados, que não existem. Mesmo que para isso ela própria precise esquecer de si mesma e de sua incurável solidão.

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“Aquém de si” (ou: o desafio da motivação e da expectativa)

É duplamente pesado visitar o texto de Husserl. Primeiro, pela densidade própria do texto. Segundo, porque o leio com lentes sartreanas – como talvez eu sempre faça com tudo. E é difícil não perceber a cada instante as conseqüências existenciais da fenomenologia.

Primeiro, é fácil notar como a intencionalidade, enquanto “investimento de significado”, transforma o sujeito em “senhor e dono” do mundo, como em Descartes. Esse mundo, contudo, é diametralmente oposto ao de Descartes: sem a fundamentação metafísica, a “egologia” de Husserl me sugere um cenário semelhante ao de Waking Life (em uma de suas interpretações possíveis), onde toda a aventura é estritamente individual, solipsista, e consiste em vencer os obstáculos projetados (ou melhor, constituídos) no mundo pelo próprio sujeito. Ao menos em Waking Life há um Deus, ainda que imanente (que, em termos psicanalíticos, não pode ser mais que um útero no qual eu dissolva minha individualidade e, com ela, todos os meus problemas). Husserl desvia do problema. Há a intencionalidade. Que, em um sentido existencial, é o meio pelo qual (e sine qua non) investimos o mundo com significado.

E isso é tudo.

Nenhum mundo real, nenhuma nível metafísico exigido pela razão Apenas um caldeirão de consciências em um caos vetorial de projetos existenciais. Assim sendo, é muito surpreendente que Sartre diga, na esteira de Husserl, que seres humanos se vêem e se tratam como objetos? Há uma razão filosófica para isso! Afinal, a consciência lida todo o tempo com objetos. Os “correlatos intencionais” da consciência são objetos. A alteridade, em sua presença concreta, não pode aparecer senão primeiro objetificada. O outro é um outro vetor consciente no mundo, mas diante da minha consciência ele não pode desobedecer a lei que dita que tudo o que me aparece é objeto. Mesmo o outro tem seu significado concreto constituído. Tem seu sentido investido por mim.

Evidentemente, a trama intencional só aparece na reflexão, e não na vida. Ocorre, contudo, que algumas vidas – para seu próprio prejuízo – se constituem como vidas devotadas à reflexão. Nesse caso, as tramas intencionais não retornam senão raramente ao esquecimento necessário para uma vivência autêntica, estritamente pré-reflexiva. Como se a vida se desdobrasse sobre si, se duplicasse no “eu” que não cessa de refletir e no “eu” que age e vive.

Assim como todo nível do sentido, a expectativa – componente essencial daquilo que existe como projeto, isto é, o ser humano – não tem outra substância senão, precisamente, intencionalidade. E se o objeto do desejo funciona como “móbil” porque promete o preenchimento da falta constitutiva, o reconhecimento do tecido intencional do próprio projeto não desnuda a expectativa de seus véus? A reflexão não desestabiliza para sempre a estrutura da motivação, revelando que ela é um fenômeno de superfície (pois tudo não passa, em suma, de tentativa de preenchimento da falta)? Como agir depois de se ter olhado de frente para a fonte do movimento? Ou, melhor dizendo: como agir, simplesmente, com ou sem esperança? Se Kant dizia que a motivação deve ser racional, Sartre nos ensina que ela não pode ser racional senão, no máximo, superficialmente. Pois ela é fundamentalmente não-racional, é absurda, é “paixão inútil”. E com ou sem esperanças, o movimento da consciência é sua lei, e não cessa ou cessará só para amenizar a angústia de se existir sempre aquém de si mesmo.

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Entre Kant e Sartre

Há alguns meses não anoto nada de “filosófico” por aqui. Pois quero, brevemente, registrar que tenho mais e mais confirmado impressões que, há tempos, já me haviam surgido. Sem nitidez, não mereciam menção. Agora, contudo, depois da constante visita à certos textos – que conheci sobretudo em função da necessidade de suporte teórico para a prática docente – penso que seja conveniente garatujar tais impressões para, quem sabe, iniciar uma conversa com meus três ou quatro leitores (em cujas opiniões confio sempre que quero saber se ainda não perdi totalmente o bom-senso).

(Advirto que o tom do texto será consciente e deliberadamente ensaístico e frouxo em relação ao jargão acadêmico, embora não vá me eximir de discutir definições nos comentários da postagem, caso algum leitor [?] deseje esclarecimentos)

Ocorre que o filósofo cuja obra é meu objeto de pesquisa – Jean-Paul Sartre – é um filósofo do século XX, herdeiro de Husserl e Heidegger e famoso por ser o “capitão” do time dos pensadores existencialistas. Isso faz com que seu cenário e seus objetos de preocupação distem mais de um século daquele com o qual quero compará-lo: o gigante Immanuel Kant.

Kant é uma nascente de um rio que desaguará em absolutamente tudo o que há de relevante em filosofia ainda nos dias atuais. Embora não seja o único (talvez só Aristóteles se compare à Kant nesse sentido), Kant redefiniu para sempre o conceito de filosofia no final do século XVIII. Ensinou à uma tradição de mais de dois mil anos que o pensamento permanecerá irremediavelmente ingênuo enquanto não investigar suas condições de possibilidade. Sutilmente, julgou todos os que vinham antes – e avisou os que viriam depois – que antes de descrever ou explicar o mundo, urgia realizar a tematização do campo transcendental – isto é, o campo das condições de possibilidade do pensamento. Nas palavras de Ernildo Stein, Kant fez uma filosofia cuja preocupação era estritamente lógica-epistemológica, diametralmente oposta à filosofia ontológico-metafísica que até então era só o que havia sido historicamente feito. O mesmo Stein diz que o procedimento de Kant é um “encurtamento” da filosofia. O próprio filósofo de Königsberg talvez concordasse: antes encurtar a filosofia que permitir que ela continue sendo a disciplina na qual se pode livremente predicar sobre o desconhecido.

Esse desconhecido, aliás, é um problema. Um problema que irrita as mentes mais sensíveis, às quais o idealismo kantiano (ou suas variantes) cai indigesto como uma puríssima aguardente. Porque Kant radicaliza uma quebra já realizada por Descartes, a saber, entre realidade e natureza. Ao começar a filosofia pela certeza do “eu”, Descartes precisa recorrer à metafísica para garantir que o mundo que se dá para a experiência é, de fato, real – e não uma ilusão, um sonho, uma quimera qualquer plantada na mente (indiscutivelmente consciente de si mesma) do sujeito por um gênio maligno qualquer. A rigor, Descartes lança mão de uma prova da existência de Deus para garantir a realidade do mundo da experiência, da natureza.

Esse tipo de metafísica é, precisamente, o que Kant proíbe em sua filosofia transcendental. Para a prova da existência de Deus ser possível, Descartes precisa se comprometer com uma promissória que, hoje, nos seria muito alta, a saber, a de que já temos em nossa alma algumas ideias inatas. Mais precisamente, a ideia de Deus. Que inclui infinitude, perfeição e outros predicados especialíssimos, que só Deus pode ter. Em especial existência, elemento sem o qual a perfeição não é possível. Por uma espécie de lógica (da qual Hegel abusará pouco mais de um século depois), Descartes deduz a necessidade da existência de Deus. Para Descartes, Deus precisa existir. Para seus críticos mais mordazes, Deus só precisa existir para que seu precioso sistema epistemológico – e, portanto, o fundamento da ciência – tenha onde ser pendurado.

Kant não se comove com a argumentação cartesiana. Para o alemão, o conhecimento começa na percepção (como só o empirismo inglês poderia ensinar). A mente – ou a consciência, como convenientemente chamarei daqui por diante – só dá as formas aos objetos que se lhe aparecem. Em suma, há toda uma programação na consciência, mas esta é formal, e não material. Ou seja: não há como tirar Deus da cabeça, pois esta só possui algumas indicações formais sobre as condições para o aparecimento dos objetos que se lhe aparecem. E tais condições precisam da experiência para ser explicitadas. Eis o sentido do transcendentalismo: não é um voo puro e platônico para um céu inteligível, mas um exame lógico-epistemológico da experiência sensível organizada.

Assim, o mundo de Kant, para mim, fica mais ou menos assim:

Newton Pink Floyd

… No qual a mente é o prisma, a luz branca é a realidade em-si e as cores obtidas por refração são a natureza, o mundo dos fenômenos, o nível representacional da realidade. Repetindo: é a partição cartesiana levada à suas últimas consequências, já que a metafísica ingênua é impossível depois que descobrimos, com Kant e os empiristas, que o conhecimento começa pela percepção.

Para deixarmos Kant temporariamente, vale dizer que o filósofo de Königsberg não acha que a metafísica ingênua foi obra de reflexões caprichosas ou mal-intencionadas, mas apenas fruto da ingenuidade: por mais que nossa razão procure sempre as respostas definitivas para as questões mais fundamentais, um exame crítico das nossas capacidades de conhecer a realidade nos revelaria a impossibilidade – intrínseca – de respostas positivas à tais perguntas.

Agora, voltemos à Sartre.

Sartre não se vincula diretamente à Kant. Prefere Husserl e Heidegger. Husserl que, para Paul Ricoeur, é apenas um intérprete exageradamente consequente de Descartes: se em Kant ainda temos uma “realidade em si” que aparece como exigência para o pensamento – afinal, a experiência da consciência, embora relativa, deve ser experiência de alguma coisa – em Husserl temos um pólo de correlatividade intencional à consciência. Em um formalismo estratosférico, Husserl tem pretensões tão colossais quanto às de Kant. Contudo, se Kant troca a ontologia metafísica por uma abordagem lógica-epistemológica da consciência, Husserl não consegue fazer mais do que uma egologia ou, como disse um amigo, “uma exploração transcendental do sistema cartesiano, só que sem Deus”. Nem o menor vestígio de metafísica sobrevive na fenomenologia husserliana. Afinal, o mundo colocado em suspenso por Descartes não havia sido explorado, mas sacrificado à um despótico fundamento metafísico. Esse mundo era o rico mundo da vida da consciência!

Mas, Husserl era um matemático, um cientista formal. E só na França o apelo existencial da fenomenologia husserliana poderia se alastrar, como um incêndio. E, nesse sentido, Sartre é filho direto de Husserl.

Assumindo a fenomenologia de Husserl – e, consequentemente, elementos de cartesianismo – Sartre tenta radicalizar “ontologicamente” a fenomenologia (de um modo que Husserl provavelmente lamentaria profundamente!). Dado que à um fenômeno sempre se pode perguntar o que ele é, Sartre acha que da fenomenologia é possível saltar à uma ontologia. E é assim que temos mais um mundo dividido em dois reinos: o reino do ser Para-si (que é o nível ontológico da consciência) e o Em-si (que é o nível ontológico do fenômeno). De modo semelhante à Kant, há uma realidade que não se mostra em si mesma, e um nível posto em relevo pela consciência. A diferença é sutilíssima e, para mim, produz uma imagem mais ou menos assim:

Sun Behind Earth

… Na qual o planeta terra é o nível do mundo “em-si”, a luz (o sol) é a própria consciência e a parte iluminada pela consciência é o que se chama de fenômeno. Essa imagem me parece ser confirmada pela seguinte citação de O Ser e o Nada:

Conhecemos esta divertida ficção com a qual certos divulgadores costumam ilustrar o princípio de conservação de energia: dizem eles que, se ocorresse de um único dos átomos que constituem o universo ser aniquilado, resultaria uma catástrofe que iria estender-se ao universo inteiro, e seria, em particular, o fim da Terra e do sistema solar. Tal imagem pode nos servir aqui: o Para-si aparece como uma diminuta nadificação que se origina no cerne do Ser; e basta esta nadificação para que ocorra ao Em-si uma desordem total. Essa desordem é o mundo.

Ou seja: a consciência surge sobre uma realidade e a relativiza, iluminando com sentidos projetados (Sartre) ou refratando uma natureza organizada mediante categorias do entendimento (Kant). Embora ambas as metáforas eventualmente mereçam pesados ajustes, são mundos muito semelhantes. Embora sejam resultados de olhares e investigações distintas, orientados por princípios distintos, o existencialismo de Sartre e o esclarecimento de Kant tem, ao menos uma preocupação em comum: a liberdade – e, portanto, a dignidade – humana.

E embora eu já queira encaminhar essa postagem para um fechamento, preciso mencionar esse aspecto que demandaria toda uma exploração especial, dedicada à esse tema específico: a liberdade de Kant e de Sartre. Pois ambos são pais severos e castradores, quando nos ensinam que liberdade não é simplesmente fazer o que se deseja. Kant ensina que a verdadeira liberdade é a capacidade de se dar fins racionais, nos quais se exprime nossa dignidade humana. Sartre, mais de um século depois, apenas sugere que a vivência autêntica da liberdade exige assunção da responsabilidade pelo que se faz e, consequentemente, pelo que se é. Ambos acreditam que a ação deve exprimir (ou já exprime, queiramos ou não) um modelo de humanidade. Ambos precisam confiar na separação cartesiana entre o espírito e a natureza, para que nos definamos pelo primeiro e para que alcancemos nossa dignidade orientando nossa vida por e para ele.

Para concluir,  confesso que a imagem do prisma de Newton aplicado à filosofia transcendental me veio de uma frase de Schelling, que afirma precisamente que não somos cristais refratários em função de nossa inexorável liberdade.

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A balada de Lulu e seu professor

É aquele velho clichê, sobre como uma vida pode seguir por caminhos completamente inesperados, imprevisíveis. Sobre como a qualquer momento todo um projeto de vida naufraga e dá lugar a outro. Mas também é sobre aquele velho clichê do quanto a vida pode, às vezes, ser irônica.

Estava com trinta e nove anos e gozava da posição de ser um professor universitário. Enfrentava o segundo casamento. O primeiro havia terminado naturalmente, da mesma forma que se esvai a vida de um vegetal. A diferença de visões de mundo e de anseios relativos ao futuro era tanta que, quando viram, já estavam separados. Mas após a experiência do alegre alívio (e da inconfessa nostalgia do casamento, devidamente afogada em vinho) da primeira semana de solteiro – semana na qual a maioria dos homens se sente como se tivesse 15 anos novamente – convidou uma amiga para passar a noite com ele. Ela passou a noite, o fim de semana e os cinco anos subsequentes. E ainda vivia com ele.

Em um primeiro momento, o professor supôs que assinava a promissória de uma interminável amizade colorida com sua nova amiga. Quase dez anos mais jovem que ele e dona de opiniões bastante ousadas, a moça não lhe parecia um entrave a eventuais revivências da adolescência. Uma vez devidamente instalada em sua casa com seus livros, discos, roupas (que logo ocuparam a maior parte de seu guarda-roupas, deixando-lhe então um espaço pífio), plantas, gatos (a moça tinha quatro gatos, quatro!) e incensos, a moça se tornou a mais convencional das companheiras. Quando o professor se deu conta de que sua companheira tecia comentários pejorativos sobre infidelidades, libertinagem e promiscuidade, percebeu que estava novamente preso.

Se a vida amorosa não lhe dava espaço para realizar impulsos vitais, a vida profissional parecia igualmente fechada a qualquer tipo de empolgação. Passando os dias entre artigos, aulas, orientações e todo o tipo de burocracia, dificilmente o professor tinha a sensação de estar realizando algo real, concreto, genuíno, autêntico. Raramente lia algum trabalho interessante, mas não responsabilizava seus alunos: a estrutura acadêmica parecia mesmo toda construída de uma forma tal que se algo interessante devia acontecer, certamente não devia ser ali.

E, de fato, não era nas salas de aula que ele encontrava a parte mais interessante de seu trabalho. Uma vez por semestre, quando sua esposa viajava para a casa dos pais, o professor dava uma festa de encerramento do semestre em sua própria casa (com o consentimento dela). Do início da noite até o início da manhã seguinte o professor pagava bebidas e lanches para, como um vampiro, sorver a vida e o calor que aquelas histórias, risadas e gracejos juvenis produziam em sua residência. Visto como um professor respeitável e erudito, dificilmente lhe sobrava algum olhar acrescido de segundas intenções. Quando acontecia, geralmente era por alguma mocinha por quem não valeria a pena arriscar sua reputação. Assim foi até a festa oferecida para uma certa aluna que chamaremos de Lulu.

Lulu estava na metade do primeiro ano. Havia abandonado a respeitável faculdade de medicina para se aventurar no campo das humanidades, o que deixara seus pais francamente transtornados. Tinha pouco mais de 20 anos e era a líder das garotas da turma do primeiro ano. Coincidentemente, a festa de fim de semestre era também festa de fim de ano e seria realizada no exato dia do aniversário de Lulu. Assim, muitas semanas antes da festa, estava combinado de que a bebida e a comida era por conta do professor, mas o “ingresso” deveria ser um presente para Lulu.

A noite caiu, e na medida em que os convidados chegavam, se formava na mesa do professor uma pilha de presentes: uma enfadonha pilha de livros (escritos por homens velhos sobre assuntos extremamente abstratos). A falta de originalidade de seus colegas permitiu mesmo que um título fosse repetido por dois colegas que certamente não conversaram antes sobre o presente para Lulu. A moça sequer teria como, na manhã seguinte, levar para sua casa as mais de duas dezenas de livros, já que não tinha carro.

A situação só mudou quando a melhor amiga de Lulu, Estela, chegou na casa do professor. Trazendo na mão uma cesta semelhante a uma cesta de piquenique, Estela animou a noite presenteando Lulu com uma série de acessórios eróticos. Da muito básica lingerie até itens de uso pouquíssimo intuitivo, a cesta para Lulu causou gritinhos, assobios e exaltadas comemorações. Os até então decorosos – e mesmo pouco embriagados – estudantes então reagiam como uma torcida de futebol, celebrando cada item com vivo entusiasmo. Foi assim até o último item da cesta. Terminada a exposição dos presentes de Estela para Lulu, a turma já estava na atmosfera adequada para a fruição da noite.

O presente de Estela para Lulu, desnecessário dizer, foi o mote da festa. A cada silêncio cíclico que acomete os grupos quando um assunto é esgotado, a cesta voltava. Os colegas perguntavam a Lulu como ela usaria esse item, com quem ela usaria aquele outro. Enquetes foram feitas sobre o modo de utilização dos objetos mais inusitados. No meio da madrugada, com a música alta, cada estudante desfilava pela casa em posse de um “brinquedo”. Pouco antes do amanhecer, já cansados, todos os presentes se sentaram em sofás, cadeiras, poltronas e assentos improvisados na sala da residência do professor. Este permanecia em pé, próximo a janela, já com um pouco de calor pelo excesso de vinho. Lulu estava sentada e Estela deitada em seu colo. Ambas estavam docemente embriagadas, e conduziam a conversa que o professor, quando prestou atenção, só pode apreender pela metade:

- Mas é claro que eu iria para a cama com você, Lulu. Você é linda. Mas eu confesso que o ideal é que houvesse um homem com a gente. Porque eu gosto mesmo é de homem! – E gargalhava, ganhando carinhos de Lulu. Mais nova que Lulu, Estela parecia uma mulher muito mais experiente que a amiga. Sua resposta arrancou mais algumas reações efusivas dos colegas ali presentes, e mesmo um desafio lançado por um deles: se de fato as duas garotas estavam falando sério, deveriam dar uma prova qualquer. Sem perguntar, Estela deu um beijo em Lulu. Mais uma ovação foi ouvida – provavelmente até mesmo pelos vizinhos do professor -, mas era uma das últimas: o dia estava nascendo e a bebida estava acabando. Como que em um pacto tácito, os estudantes começaram, um a um, a ir embora. Nesses aproximadamente sessenta minutos entre o beijo de Estela em Lulu e o amanhecer, Estela conseguiu ficar demasiadamente bêbada. O professor decidiu, então, ir de carro com um dos estudantes até a casa de Estela, que não parecia estar em condições de ir para casa sozinha. Lulu pediu para ficar e esperar o professor voltar para a casa. Ficaria arrumando um pouco a bagunça que a festa havia causado. O professor sentiu o coração apertar: a proposta de Lulu deixava entrever segundas intenções? Seria nesse dia que ele, pela primeira vez, trairia sua segunda esposa?

Depois de deixar Estela e o colega – que se encarregou de levar a amiga pelas escadas do prédio onde morava – o professor voltou. Parou o carro em uma lanchonete e pediu uma água com gás. Sentou-se e sorveu cada gole como se fosse uma tragada de cigarro, como fazia outrora para disfarçar os suspiros que a reflexão produzia. Deveria voltar para casa, ou deveria circular de carro por mais uma hora e deixar a aluna entender que ele não queria trair a esposa? Ou deveria voltar imediatamente? Afinal, talvez Lulu fosse apenas uma pessoa prestativa, e não tivesse qualquer intenção dissimulada. Talvez o professor só estivesse profundamente desconectado da empatia necessária para entender os códigos a ser subentendidos no convívio com pessoas de vinte-e-poucos anos. Terminou sua água e voltou para casa.

Lá estava Lulu e a casa razoavelmente arrumada. De toda a turma, apenas ela havia permanecido. Ela estava sentada no mesmo sofá em que havia sido beijada por Estela. Tomava um café em uma caneca estilizada com a foto de um pensador. Havia café fresco na cafeteira. Lulu ofereceu e o professor se serviu de uma caneca.

- Muito obrigado, Lulu. – Disse o professor, se sentando na poltrona defronte àquela na qual estava Lulu. Lulu estava recostada ao braço do sofá, com as pernas sobre este, demonstrando estar muito confortavelmente instalada, sem deixar qualquer indício de que queria ir embora.

- Gosto que o sr. me chame assim, professor.

- Assim como?

- “Lulu”.

- Mas é como seus colegas a chamam, não? Pareceu-me adequado.

- Sim, mas o senhor é meu professor. – Disse sorrindo, olhando profundamente nos olhos do professor. O olhar de Lulu, aliás, mereceria uma menção especial: se Afrodite nasceu da espuma, Lulu nasceu de seu próprio olhar felino. Talvez esse simples olhar penetrante e intimidador tenha feito dessa moça a líder moral de sua turma. O olhar agressivo e intimidatório aliado à voz macia e o jeito infantilizado de falar faziam com que o professor não tivesse dúvidas: aquilo era um jogo. Todas as racionalizações que ele se oferecera a caminho de casa haviam se desmanchado como esculturas de açúcar diante daquela moça quase deitada em seu sofá, e que tinha se dado o direito de preparar café.

(Vale dizer que Lulu não tinha apenas um olhar agressivo: era uma mulher linda. Se mentalmente o professor se via hipnotizado pelo olhar, seu corpo inteiro já reagia às pernas bem torneadas, aos quadris firmes e redondos como a própria lua, à pele morena e que parecia possuir naturalmente o perfume de frutas que se mantinha na sala e dela emanava. Os cabelos negros emolduravam um rosto simétrico e um par de lábios que chegavam a fazer o professor cerrar os dentes, só de se imaginar mergulhando neles. A sensualidade de sua figura deitada sobre o sofá o fazia despir a moça mentalmente e ele já adivinhava como seria seu umbigo, seus pelos, seus pés. Estava completamente pego por aquela moça.)

É aquele velho clichê, sobre como uma vida pode seguir por caminhos completamente inesperados, imprevisíveis. E a de nosso amigo professor começou a mudar durante aquela caneca de café. Após o último gole, subitamente, em um instante quase mágico, o professor se levantou e foi até o sofá onde Lulu, em um misto de caça e caçadora, sorria satisfeita. Ela ainda sorria quando os lábios do professor tocaram os seus. E ainda sorria – agora com o olhar felino cravado no rosto do professor – enquanto este lhe carregava, de modo piegas e desajeitado, para o quarto de casal, deitando sua jovem amante na cama onde dormia com a esposa então ausente. Sentia-se forte, jovem e vigoroso tanto ao carregá-la nos braços quanto por fazer amor durante horas com sua lindíssima aluna – que permanecia perfumada mesmo depois do sexo. Antes de adormecerem, porém, Lulu disse algo que pode ter sido a gota d’água para seu professor.

- Confesse: quando Estela falou em ir para a cama comigo e com um homem, o senhor se imaginou sendo esse homem, não é?

Completamente surpreso, o professor quase se sentou na cama para olhar para o rosto de Lulu. Não, absolutamente! Por uma espécie de virtude – ou vício, mas de qualquer forma uma hábito – de pensamento, o professor não costumava imaginar coisas que não se via como capaz de realizar. E levar duas alunas para a cama, não, isso não lhe parecia nem remotamente possível! Ao perguntar se era isso que ela realmente supunha que ele havia pensado.

- Imaginei que sim. Achei que tinha ficado claro que gostaria que fosse o senhor, depois que lhe olhei daquela forma tão logo ela disse aquilo. – “Daquela forma”. Ela sabia que o olhar felino era, afinal, um instrumento de jogo.

- Você gostaria? Digo, você gostou da ideia de Estela?

- Claro!

O professor estava perplexo. Depois de toda a bebedeira madrugada adentro e das horas de sexo com Lulu, aquela reflexão era como uma dose de anfetamina que lhe acordava. Naquele instante, meio sentado e meio deitado na cama de casal onde dormia com sua segunda esposa, mas acompanhado de sua aluna-amante de frutado aroma, o professor estabeleceu uma nova meta para sua vida: levar, juntas, Lulu e Estela para a cama.

Muito sensível a valores éticos, se separou da mulher. Não queria se sentir traindo ninguém. Sem conseguir se justificar de modo minimamente razoável para a decisão repentina, teve de assistir sua segunda companheira passar a semana levando seus pertences para a casa da mãe. Mesmo fazendo um escândalo por dia e alarmando toda a vizinhança, o professor foi irredutível: queria se separar. Ela levou seus livros, discos, roupas, plantas, incensos. Deixou os gatos, todos, na casa do professor. Que, de volta à vida de solteiro, não tinha a menor paciência com os felinos e suas necessidades: já negligenciava nos primeiros dias a ração e o espaço para as necessidades fisiológicas dos animais. Mas, ao menos, não tinha qualquer nostalgia da união anterior.

Os meses de férias foram transformando a casa do professor em um genuíno pardieiro. Lulu ainda quis encontrá-lo umas duas ou três vezes, mas o professor, com vergonha da própria falta de organização e asseio, já preferia levar sua amiga (que finalmente havia deixado de chamá-lo de “senhor”) para um motel. Some-se à falta de organização do professor o fato de que no único dia em que esperava sua amiga em casa – e já via sua figura surgindo ao longe na rua – sua primeira esposa, ao passar de carro e vê-lo em frente a própria casa, parou para conversar com ele. Ao ver o olhar desesperado do professor, Lulu entendeu que devia esperar. Foi até uma lanchonete e voltou só meia-hora depois. Teve de ouvir um desconcertado professor de meia-idade dando explicações que ela nem sequer havia pedido.

O semestre começou e, durante os meses de aula, a turma viu um professor mais leve do que jamais se vira. Bem humorado e nitidamente empolgado, fazia piadas e brincadeiras que surpreendiam a todos por virem dele, sujeito razoavelmente sóbrio. O que ninguém percebia é que o professor investia, todos os dias, naquela mocinha que sentava à sua frente. Cada vez que via a risada de Estela (uma risada alta, aberta, na qual era quase sempre possível ver até mesmo a úvula da moça goela abaixo) o professor supunha estar mais e mais próximo de levá-la para a cama. Decidiu antecipar as coisas: não esperaria mais o fim do semestre, mas faria uma reunião com a turma em algum bar da cidade. E lá, então, faria a proposta. Lulu parecia ter entendido a intenção do professor e, como sempre, lhe sorria de modo felino à distância.

Depois da primeira prova, a turma se reuniu em um bar, como o professor gostaria. Lulu, ciente do que aconteceria naquela noite, já estava sentada próxima ao professor. Na medida em que iam chegando, o garçom – e depois os garçons, haja visto que era preciso atender quase vinte pessoas – ia juntando mesas e fazendo uma longa fila. Estela chegou e Lulu tratou de chamá-la para perto dela própria. Assim, entre o professor e Estela estava sentada Lulu. O professor já sentia seu coração bater acelerado.

Duas horas e algumas rodadas de bebida depois, o professor já constatava risadinhas de cumplicidade entre Lulu e Estela. Chegou a supor que o terreno estava preparado pela amiga, mas não era o caso. Empolgado, então, pediu para que Lulu trocasse de lugar com Estela, o que foi feito imediatamente. Estela sentou ao lado do professor, entre ele e Lulu. Estava claramente curiosa sobre o que o professor gostaria de compartilhar com ela.

- Então Estela… estávamos aqui pensando, Lulu e eu… se você não gostaria de fazer uma coisa conosco.

- O senhor fuma… digo, o senhor usa…? – Tentava Estela perguntar com expressão de espanto, entendendo que o convite era pra outra coisa. O professor riu e voltou ao ponto.

- Não, não é isso. Estávamos pensando em uma coisa que você disse em minha casa, na festa de encerramento do fim do semestre. – O professor sorria de forma felina, sem perceber, com olhar cáustico e intimidatório pousado sobre a moça que, um pouco confusa, tinha dificuldade em lembrar o que exatamente tinha dito.

- O que exatamente professor? Não estou lembrando…

A atitude da mocinha era honesta. Será que era uma boa ideia continuar com isso? Ora, é claro que sim! Que outra coisa fazer depois que se decidiu reorganizar toda a vida em torno dessa possibilidade (era mesmo uma possibilidade? Algo no interior da consciência do professor – uma vozinha muito baixa – já parecia dizer que não)? Agora era a hora de levar a situação ao seu limite.

- Não se lembra que, no colo de Lulu, pouco antes de lhe dar um beijo, você disse que gostaria de ir para a cama com ela? Mas que o ideal era que junto com vocês houvesse um homem?

O sorriso do professor foi se desfazendo no mesmo ritmo em que a perplexidade de Estela parecia ebulir como uma chaleira, como um vulcão. A menina ficou corada e ofegante em poucos segundos, e se levantou, derrubando a própria cadeira e batendo com o próprio joelho na mesa, fazendo caírem sobre esta alguns dos copos e garrafas que ali estavam. Lulu, que estava virada de costas para Estela enquanto conversava com outro colega, se virou rápido para a amiga (na verdade, o bar inteiro olhava para Estela nesse momento). Foi a primeira vez que o professor viu o olhar felino de Lulu desarmado.

- Seu nojento! Nojento, asqueroso! Meu Deus, meu Deus, que asco! – gritava Estela, enquanto o bar todo já olhava para ela. – E você Lulu, você sabia disso? Sabia? Você faz parte dessa nojeira? Quem vocês pensam que eu sou? O que vocês pensam que eu sou?

Um colega de Estela atravessou a longa mesa formada por mesas encostadas e se aproximou de Estela, perguntando o que houve. Enquanto o professor pagava a conta do que fora consumido até então – e Lulu arrumava suas coisas para, junto com o professor, sair daquele lugar tão logo quanto fosse possível – Estela contava em detalhes sórdidos (que não ocorreram) a proposta obscena e vulgar do professor e da sua até então considerada amiga Lulu. O professor sentia as mãos formigando enquanto pagava a conta. Tinha vontade de estrangular aquela gralha, aquela galinha que não parava de cacarejar, aquele animalzinho (cuja simples imagem mental, agora, lhe causava também asco) parecido com a evolução biológica de algo como uma lagartixa. Foi embora com Lulu mas teve certeza que já fora do estabelecimento ainda conseguia ouvir os xingamentos de Estela abafados pela música do ambiente. Tomou um táxi e foi com Lulu para o motel, pedindo apena para o motorista fazer uma parada para que ele pudesse comprar um maço de cigarros. Chegando ao motel, não fizeram amor e conversaram pouco. Ouviu, surpreso, um pedido de desculpas de Lulu. Segurou-a pelos ombros e lhe beijou a testa, enfatizando que ela não tinha qualquer responsabilidade pelo acontecido. Passou algum tempo olhando pela janela e fumando cigarros.

As semanas seguintes foram algumas das piores da vida do professor. Pediu para um médico amigo seu emitir um laudo que justificasse meses de ausência. Começou a procurar outro emprego e a encaixotar suas coisas para uma mudança. O escândalo de Estela aproximou as vítimas: Lulu e o professor se encontravam quase três vezes por semana. Lulu, que começou sua aluna, se tornou amante e depois amiga, agora tinha momentos em que lhe lembrava uma irmã: em mais da metade das visitas Lulu demonstrava apenas querer ficar por perto, sem qualquer intenção erótica. Ajudava-o a encaixotar coisas ou lavava a louça e as roupas do professor. Também se tornou amiga dos três gatos (um deles havia simplesmente desaparecido), como se fosse secretamente uma felina também. Para fugir ao incômodo de conviver com aquela turma, Lulu havia decidido voltar para a faculdade de medicina.

No semestre seguinte, o professor já estava trabalhando em uma faculdade menos renomada e morando no outro lado da cidade. Lulu lhe contou que ficou sabendo, através de um dos antigos colegas da turma (como assim, ela ainda tinha contatos dentro daquela turma? iria para a cama com algum daqueles moleques?) que em uma noite de bebedeira e aos prantos, Estela havia contado aos colegas – que já estavam acostumados às reações sempre exageradas de Estela – que ela era, na verdade, virgem (aquela cesta de presentes eróticos de Estela era, afinal, uma cesta de souvenirs de um país desconhecido por ela própria). O professor já sabia que Estela devia estar arrependida, mas fazia questão de rasgar a correspondência e deletar os e-mails que ela enviava. À essa altura, Lulu visitava o professor todos os dias e já era mais dona dos gatos que ele. Em um desses dias, depois de ouvir quase uma dezena de comentários de Lulu sobre como deveria viver em sua própria casa, o professor percebeu: estava novamente diante de seu patíbulo. Naquele preciso momento em que ele e Lulu olhavam para o teto depois do amor era o momento mágico no qual ele poderia fazer a opção: ou silenciava e deixava a situação evoluir por si (como uma doença), ou colocava a corda ao redor do próprio pescoço e pedia para Lulu chutar o degrau, tal como faria um personagem de Kafka. O que estava fora de cogitação era pedir para Lulu sair de sua vida: eram irmãos na tragédia, e se alguém devia querer sair da vida do professor era ela. Mas, ele sabia, ela não quereria.

- Quer vir morar comigo? – Disse o professor. Lulu se virou. O olhar felino – seu encanto, sua mágica – estava ausente. O que se via era uma expressão feminina genérica na qual o tempo, irônico, convertia a de todas as suas amantes.

- É isso que você quer?

“Não, não, não! É claro que não! Eu queria você e Estela nuas, na minha cama! E queria que pela manhã vocês tivessem partido para suas próprias vidas! Ah, e também quero meu antigo emprego de volta!”, pensou o professor, enquanto sorria com ar beatífico e respondia “sim”. Lulu sorriu, o beijou languidamente e ele pôde sentir a dor da corda imaginária apertando seu pescoço, enquanto imaginava a si mesmo enforcado, e Lulu, sua amiga, lhe fazendo o último carinho no rosto enquanto sua vida se esvaia.

Em três dias, Lulu havia saído da casa dos pais e já estava devidamente instalada na casa do professor. E o professor estava, pela terceira vez, vivendo junto de uma mulher. E ainda no primeiro semestre em que viviam juntos, houve um episódio muito desagradável: a segunda esposa do professor bateu à porta da nova casa do, agora, novo casal. Foi atendida por Lulu.

- Você é a depravada que vive com meu ex?

Ao ouvir – ao longe, de seu escritório nos fundos da casa – aquela voz tão conhecida quanto já irritante, o professor saiu correndo e foi até a porta da própria casa. Pediu para Lulu sair. Lá estava sua segunda esposa e, atrás dela, na rua, um homem gordo de quase sessenta anos.

- O que você quer?

- O que eu quero? Eu quero meus gatos! Ou você achou que eu ia deixar eles com você? Amooor! – Disse gritando para o gorducho do lado de fora – Traga as gaiolinhas que vamos levar os gatos. – E o professor viu o sujeito pegar quatro gaiolinhas. Três deles estavam guardados, ao que a ex do professor percebeu a falta do quarto gato.

- Cadê o Lulu? – Sim, naquele instante o professor se lembrou que aquele maldito gato idiota (o mais arredio de todos, que vivia lhe arranhando os braços) era chamado de Lulu por sua ex. A Lulu do professor – também felina mas humana – olhou com visível irritação para aquela mulher que levava seus gatos. Com ambas diante do seu campo de visão, o professor sentiu uma vertigem ao perceber o quanto eram fisicamente parecidas: a ex era quase dez anos mais velha que Lulu, e parecia uma versão alternativa desta, vinda do futuro. Era como se ambas só pudessem coexistir por uma espécie de falha na programação da realidade.

- Ele fugiu, ainda na outra casa. Não faço a menor ideia de onde ele esteja.

A ex soltou as gaiolas no chão sem o menor cuidado, ao que se ouviram miados de gatos engaiolados e assustados. A ex estapeava o professor lhe dizendo ofensas sem fim. O gorducho pegou sua ex como se pega um gato, e disse “Calma amor, calma…”. Tinha um olhar submisso e cansado, e o professor sentiu um calafrio: aquele homem era uma versão dele próprio assim como a ex parecia uma versão de Lulu. Ainda era possível ouvir as ofensas de sua ex enquanto seu carro partia. Depois da confusão, o professor olhou para Lulu que, de braços cruzados e recostada à passagem entre sala e cozinha, tinha os olhos cheios de lágrimas. Entendeu na hora: ela já amava aqueles gatos. Se aproximou dela, segurou-a pelos ombros e lhe beijou a testa. Prometeu gatos novos. Ela sorriu, agradeceu e, enquanto tirava o feijão da panela, olhou para o professor sem o menor traço felino no olhar, mas apenas melancolia, e disse:

- Mas certas coisas não são substituíveis, não é professor?

O professor já não sabia. Falava dessas coisas em sala de aula, mas já não sabia. O que é substituível? Suas companheiras não representavam, sucessivamente, a personificação de uma mulher genérica e informe? Não eram precisamente substituídas por uma versão convencional e insossa de si mesmas, na medida em que deixavam de ser o que eram para se transformarem nessa personagem impessoal? Aquele casal que acabava de partir com os gatos não era uma versão deles próprios? Em algum momento de nossas vidas somos indivíduos, ou apenas exemplares de tipos produzidos no atacado por um mundo cego e indiferente? Ainda era cedo para saber como aconteceria com Lulu e ele próprio. O consolo do professor era que o olhar felino de Lulu, vez por outra, escapava dos escombros produzidos pelo gradativo desmoronamento do seu eu. Desnecessário dizer que em pouco tempo Lulu já tecia comentários pejorativos sobre infidelidades, libertinagem e promiscuidade. Como se nada tivesse acontecido. Porque, afinal, também é sobre aquele velho clichê do quanto a vida pode, às vezes, ser irônica. O olhar felino era, percebia o professor, seu único consolo. Afinal, nas festas de final de semestre com os novos alunos, Lulu estava sempre presente.

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Jacques, o fatalista (e seu amo)

Semana passada aconteceu, nas redes sociais, uma brincadeira que consistia em listar os dez livros favoritos e passar a corrente para dez amigos. Fiz a lista. Optei por excluir os livros de filosofia, haja visto que eles sempre se me aparecem metade como prazer, mas metade como dever (e todos sabemos da disjunção exclusiva que existe – e é bom que exista – entre prazer e dever). Um amigo disse que escolhi “uma linha” de literatura para mencionar, dada a aparente familiaridade entre a maior parte dos autores citados. Tive de dizer que na verdade essa “linha” é precisamente dos romances que leio: não há outros. Assim como não li Cervantes, não li Agatha Christie, por exemplo. Segue a lista com pequenos comentários, da mesma forma que postei nas redes:

01. “A Imortalidade”, Milan Kundera – o romance mais inteligente e bem construído que já li.

02. “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera – o clássico do meu autor favorito é, além disso, pra mim, o texto mais “existencialista” já escrito.

03. “O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – uma escola de imoralismo. O tom sentencioso tira o fôlego. Dá vontade de sublinhar todo.

04. “O Lobo da Estepe”, Hermann Hesse – um romance místico e essencial a todos os “habitantes de dois mundos”.

05. “Tom Jones”, Henry Fielding – li por “recomendação do Kundera” e me surpreendi ao descobrir que o romance começou como aventura.

06. “Memórias do Subsolo”, Fiódor Dostoievski – um amigo diz (ou já disse) que a obra de Nietzsche é comentário à Dostoievski. Arrisco dizer que isso procede e se refere a primeira parte desse livro.

07. “O Estrangeiro”, Albert Camus – um verdadeiro laboratório filosófico. Ação gratuita, liberdade de indiferença, está tudo aqui e magistralmente composto.

08. “Noite”, Érico Veríssimo – o romance mais “dark” que já li. Pesado, claustrofóbico e escrito pela pena de um dos melhores escritores da língua portuguesa. Quem gosta de David Lynch (ou até de Silent Hill) deveria ler esse romance.

09. “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Milan Kundera – mais uma obra prima de composição desse tcheco, que demonstra nesse livro que um romance não precisa ser presidido por uma story, mas pode ser organizado em toro do “tema e suas variações”.

10. “A Náusea”, Jean-Paul Sartre – o “discurso do método” do existencialismo demorou a me pegar. Só passei a apreciar quando achei que entendi mais ou menos a filosofia de Sartre.

Menção honrosa: “Jacques, o fatalista, e seu amo”, Denis Diderot (ainda não li todo) – mais uma recomendação do Kundera, esse romance é uma farra, uma brincadeira, um romance cômico onde só se vê uma tempestade de episódios.

Este fim de semana, concluí a leitura do Jacques. E ele tem que entrar nessa lista.

Como disse meu amigo, essa minha lista de dez tem uma “linha”. Tem um “estilo”. Compartilhariam muitas tags, por assim dizer. Exceto talvez pelo Tom Jones de Fielding, lido por mim há seis ou sete anos atrás, todos os demais são livros mais sombrios ou ao menos “existencialistas”. E o Jacques de Diderot se infiltra nessa lista para ampliar a fenda nessa barragem, pois é uma obra que para mim se impôs pela genialidade formal, e não exatamente pelo seu conteúdo.

O enredo seria de simples descrição, caso essa descrição fosse possível, e eis o começo da genialidade: é a história de Jacques e seu amo vindo de não se sabe onde e indodiderot-jacques-le-fataliste-auberge para algum lugar que também ignoramos. O que poderia parecer um tema de mistério é, na verdade, resultado da implosão da barreira entre leitor e escritor: Diderot literalmente brinca o tempo todo, deixando claro que a substância do presente, do passado e do futuro de Jacques e seu amo depende total e inteiramente das escolhas narrativas que ele fizer. Conversando o tempo inteiro com o leitor, Diderot cria um clima completamente favorável para um tipo de fruição completamente desconhecido àqueles que entram na literatura pelo “subsolo”. Diderot conversa, brinca, troça, interrompe constantemente a narrativa de Jacques para falar de qualquer outra coisa, desde episódios reais de sua vida pessoal até digressões completamente irrelevantes para a story de Jacques e seu amo.

Denis Diderot

Denis Diderot

Jacques, o fatalista, e seu amo é reconhecidamente uma obra inspirada em um outro romance famoso por sua liberdade narrativa: The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, de Lawrence Sterne. Os pesquisadores não tem uma posição definitiva sobre se Diderot teria mesmo recebido pessoalmente alguns capítulos de Tristram Shandy do próprio autor, mas têm certeza de que o francês teve contato com a obra do inglês (há mesmo uma referência direta, quase ao final do romance, a Sterne). Embora ainda não tenha lido Sterne (encontra-se na internet uma versão PDF do texto original, em inglês), está na minha lista em função de ser, como foi Tom Jones, um dos romances preferidos de Milan Kundera – que é, por sua vez, meu romancista preferido. Segundo Kundera, Jacques e Tristram Shandy são dois exercícios de liberdade narrativa que injustamente não fizeram escola. Duas obras que têm em germe uma potencialidade inexplorada pela arte romanesca.

Finalmente, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi que Jacques é um fatalista, e a implosão da barreira entre escritor e leitor revela nitidamente os fios através dos quais o escritor de fato “controla” os personagens e o ambiente da narrativa. Se “tudo já está escrito no pergaminho lá de cima” como diz Jacques, essa afirmação tem dois sentidos: metafísica para Jacques e metalinguística para o leitor, que constata nas inúmeras interrupções de Diderot a efetiva onipotência do escritor sobre o cenário.

Ah, eu havia começado a falar do enredo, não? Pois então. O enredo é a história de Jacques e seu amo viajando não se sabe de onde e nem para onde. E enquanto viajam, o par e seu mestre Diderot nos divertem com histórias vividas e narradas. Histórias de amores, de traições e de contendas, regadas à muito vinho. Quais sejam essas histórias que preenchem as duzentos e cinquenta páginas do romance, é o que menos importa. A lição que Diderot me deixa é precisamente essa: que a despeito do eventual fatalismo, as existências individuais podem ser pensadas – e talvez vividas – como sendo constituídas de uma substância tão efêmera e contingente que assumem a forma – e mesmo o conteúdo – que lhes dermos ao lhes narrar.

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PS: Quando comecei a ler Jacques, comecei também a assistir os episódios de Seinfeld. Inevitavelmente imaginei Jacques com a aparência de Michael Richards, ator que faz o papel de Cosmo Kramer.

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