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O existencialismo é um niilismo?

16/05/2013

Segundo Sartre, o existencialismo é um humanismo. A falta de sentido da existência evocada pelo termo “niilismo” no título da postagem, em geral, não é encontrado na pena de autores existencialistas. Ainda que a existência humana não tenha um sentido intrínseco, os autores designados pela etiqueta “existencialismo” parecem sugerir exatamente o contrário: a existência humana é significação, criação de sentido, realização de sentido. Desse modo, o existencialismo seria o contrário do niilismo – e o niilismo seria uma transgressão categorial que consiste em deduzir um certo “dever” de um “ser”: o fato de que os seres humanos não têm à sua disposição um sentido pré-dado à existência significaria que nenhum sentido criado e realizado pelos seres humanos teria valor.

De qualquer modo, o existencialismo serviu de inspiração para mais de um autor niilista. E este parece ter sido o caso de Cormac McCarthy (1933-), ao menos em sua obra The Sunset Limited. Originalmente concebida como texto dramatúrgico, a obra foi adaptada para o cinema há cerca de dois anos. E no papel dos personagens, dois gigantes do cinema contemporâneo: Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones.

O enredo é simples: um dos personagens (nenhum deles aparece nomeado no filme) é um professor de humanidades que acaba de fracassar após uma tentativa de suicídio. O outro é um cristão – aparentemente evangélico – que tenta, através do diálogo, oferecer alguma motivação para o suicida. E em cerca de uma hora e meia de filme, vemos a maestria do texto de McCarthy. Em um diálogo que por vezes lembra A Náusea de Sartre – em um cenário que, por sua vez, é semelhante ao de seu Entre Quatro Paredes – McCarthy mostra como a tentativa de significação da existência simplesmente não funciona se não houver o “salto” da escolha originária pelo sentido.

Advirto que o filme é pesado. Mesmo assim, àqueles que tem interesse ou apreço pelas temáticas do existencialismo, é um exercício tanto filosófico quanto espiritual. Que, em minha opinião, permite ver claramente uma certa tese: a consciência excessiva pode ser um mal. Como em Memórias do Subsolo de Dostoievski, o personagem de Tommy Lee Jones revela que o conhecimento pode não motivar a salvação de uma vida e que a escolha originária pelo sentido ou pela racionalidade de uma existência deve ser da natureza de um ato de fé, uma aposta, um comprometimento. Comprometimento que, uma vez ausente, nos oferece apenas o espetáculo do desmoronamento da existência em “formas vazias”, insossas, insípidas e sem qualquer valor.

Sem mais delongas, deixo aqui os links para as sete partes do filme:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

Parte 5:

Parte 6:

Parte 7:

Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones interpretam o texto de Cormac McCarthy

Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones interpretam o texto de McCarthy, um misto niilista de Entre Quatro Paredes A Náusea de Sartre.

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Velhas ideias sobre “autenticidade”

13/05/2013

Embora este espaço já não seja, como foi outrora, caracterizado por minhas livres reflexões – que são uma figura do espírito e, como toda figura, pode ser superada – penso que eventualmente possa deixar a pena e o pensamento livres. Mesmo sabendo que todo discurso é uma reafirmação de si mesmo, uma reafirmação de um si mesmo que, quando reafirmado, é falsificado. Mesmo sabendo que reafirmar a mesmidade é um dos poucos “pecados” no ideário que alimenta este espaço. Afinal, reafirmar a mesmidade – e flertar com a permanência de traços estáveis em um caráter – é perseguir ideais impossíveis. Atitude que, vez por outra, pode acabar nos iludindo, nos fazendo esquecer que tais ideais são, por natureza e definição, impossíveis. Atitude que pode acabar engendrando o mais franco engano de si mesmo.

A ideia de “autenticidade”, Santo Graal do existencialismo, é uma ideia difícil de entender e seus autores não nos ajudaram muito à explicitá-la. Não ajudaram porque se tivessem empreendido a tentativa de nos oferecer a “narrativa da autenticidade” teriam traído o que há de essencial nessa ideia, a saber, a de que uma existência autêntica não pode ser definida. Assim, nem Sartre nem Camus nos legaram a narrativa da autenticidade. Embora A NáuseaO Estrangeiro sejam textos capitais na bibliografia existencialista, nem Sartre nem Camus querem que sejamos como Roquentin ou Meursault.

Mas, quem frequenta este blog sabe: eu prefiro Milan Kundera. E o prefiro precisamente porque acho que seus romances nos oferecem precisamente o tipo de narrativa que as inteligências filosóficas dos pensadores da tradição simplesmente não conseguiram tecer. O vício pelo pensamento abstrato, próprio da tradição metafísica, dificilmente poderia produzir a narrativa da autenticidade. Mesmo os filósofos continentais são demasiado analíticos diante de um porta-voz da “sabedoria do romance”. E é concordando com Milan Kundera que vejo a arte do romance como lugar privilegiado de exploração do mundo-da-vida e da cotidianidade sempre falsificada pelo conceito filosófico.

Em seu romance mais famoso, A insustentável leveza do ser, Kundera nos mostra o que poderiam ser algumas figuras no caminho da autenticidade. Mais precisamente nos personagens de Sabina e Tomas. A primeira, por sua fixação na traição, conseguiu viver uma vida sem vínculos. Contudo, como se estivesse vendada, acabou conduzindo sua vida para uma leveza insustentável. Essa ameaça Sartre formulou no personagem Mathieu Delarue em Idade da Razão: uma liberdade que não se compromete é uma liberdade vazia. Sabina caiu na última armadilha no caminho da autenticidade: acreditou que a vivência da liberdade exigia a preservação de um campo impessoal, neutro, no qual nenhum vínculo a comprometesse. A liberdade sem compromisso, contudo, é uma das formas mais sofisticadas da má-fé.

Tomas, por outro lado, cai em uma armadilha factual: Tereza. Contudo, ao invés de fazer a manutenção da liberdade ao modo de uma mesmidade, Tomas se reinventa. Vira lavador de janelas, vai pro interior, deixa de ser um cafajeste e abandona mesmo sua profissão de médico, em uma atitude de pleno desprendimento de si – o contrário da manutenção de si mesmo. Ao invés de cultuar uma ideia de liberdade abstrata, Tomas se compromete com novas perspectivas. Parece ser bem sucedido: na última página do romance, afirma que é um alívio perceber que se é livre. Alívio: uma experiência negativa – ou seja, que não trai a ontologia existencialista – mas desejável, agradável. Ora, nenhuma inteligência filosófica do existencialismo foi capaz de tematizar reflexivamente uma experiência agradável como o alívio.

Longe de querer versar sobre Sartre e Kundera como fiz outrora – e ainda mais longe de tentar justificar minha obsessão permanente sobre esses autores – desejo apenas partilhar uma ideia simples. Uma ideia que pode ser até mesmo uma “hipótese de trabalho” acadêmica. Mas que também mostra como um novo olhar pode sempre re-significar os objetos. Uma ideia que meus amigos heideggerianos dizem que já se encontra, de certo modo, em Heidegger. Uma ideia que, enfim, penso que deveria ser óbvia quando se fala em existencialismo: não existem ações autênticas, mas apenas consciências autênticas. E essa ideia é, em minha opinião, ilustrada de forma magistral por Kundera nas figuras de Sabina e Tomas.

Sabina encarnaria o paradigma da “liberdade de má-fé”, a miragem que atinge todos aqueles que, diante do existencialismo, anseiam por uma “lista de atitudes autênticas”. Nada pareceria objetivamente mais sensato do que cultuar a liberdade. Sem o perceber, Sabina fez apenas a manutenção de um personagem estável, estacionado em uma liberdade abstrata e pouco fecunda que, por uma contingência, teve tarde demais uma experiência de tomada de consciência que lhe jogou uma consciência angustiante no colo: estava só. Depois da morte de Tomas e Tereza, Sabina estava sozinha. Sozinha com sua angústia, sozinha com a insustentável leveza da existência.

A vida de Tomas foi ceifada pela contingência, ceifeira incontornável de tudo o que é finito. Sua existência, contudo, se constituiu como livre comprometimento, como um jogo em que apostar nas novas possibilidades reorganizava o próprio jogo em suas regras, a partir dos quais sempre se descortinou um novo sentido de “vencer ou perder”. Ao longo das pouco mais de duzentas páginas do romance, Tomas mudou. Diferentemente de Sabina, que sempre mudou para permanecer a mesma, Tomas empreendeu concretamente novos projetos, jogou-se em novas possibilidades, valorou diferentemente os acontecimentos de sua vida. Sem fazer a manutenção ressentida ou nostálgica do passado, Tomas encarna para mim a figura mais próxima da autenticidade tal como definida pelo existencialismo de Sartre. E isso não diz respeito à sua conduta, mas à consciência que acompanhou essa conduta: uma consciência que não cultuou a liberdade, mas que a realizou constantemente.

Para concluir, vale mencionar que nos últimos anos encontrei um bom número de aproximações do existencialismo e do zen-budismo. Não sem precisão, alguns autores identificam o campo impessoal da consciência tal como descrito por Sartre com a antropologia budista. Contudo, nada é mais avesso à intenção da filosofia sartreana do que um convite à despersonalização ou à “inação”. Assim como não é na manutenção de uma liberdade vazia que a autenticidade se realiza, o homem não precisa se recolher em um mosteiro para descobrir sua liberdade. É no comprometimento, na ação e no mundo que o indivíduo se faz. O indivíduo se realiza em seus projetos e, sobretudo, na perpétua consciência da própria liberdade.

Na adaptação cinematográfica, Philip Kaufmann capta com maestria o alívio de Tomas

Na adaptação cinematográfica do romance de Kundera, o diretor Philip Kaufmann capta com maestria o alívio de Tomas (Daniel Day-Lewis)

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Um “ano de Urano” de Milan Kundera

01/04/2013

Hoje, 1º de abril de 2013, o escritor tcheco Milan Kundera – famoso por sua Insustentável leveza do ser - completa 84 anos. 84 anos, segundo a astronomia, é o tempo aproximado que o planeta Urano leva para orbitar em torno do sol. Esse dado astronômico tem outro significado se observado à luz da astrologia, ciência irmã da astronomia e, hoje, relegada à estupidez dos horóscopos de jornal. Mas se a astrologia perdeu há muito tempo o estatuto de ciência, isso não quer dizer que não  tenha sua própria sabedoria. Ao invés, contudo, de comentar qual possa ser essa sabedoria, transcrevo aqui as ideias de Kundera sobre o assunto. Mais precisamente um trecho da sexta parte de A imortalidade, romance de 1990 que, em minha opinião, é sua melhor obra.

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“Sobre o mostrador de um relógio, os ponteiros giram em círculo. O zodíaco também, como é desenhado pelos astrólogos, tem o aspecto de um mostrador. O horóscopo é um relógio. Quer se acredite ou não nas previsões astrológicas, o horóscopo é uma metáfora da vida, e assim sendo, encerra uma grande sabedoria.

Como é que um astrólogo desenha seu horóscopo? Traça um círculo, a imagem da esfera celeste, e o divide em doze setores cada um representando um signo: Carneiro, Touro, Gêmeos, etc. Em seguida, no círculo zodiacal, ele inscreve os símbolos gráficos do Sol, da Lua e dos sete planetas nos lugares precisos onde estavam esses astros no momento em que você nasceu. Como se, sobre um mostrador de relógio normalmente dividido em doze horas, inscrevesse anormalmente nove números suplementares. Nove ponteiros percorrem esse mostrador: são também o Sol, a Lua e os planetas, mas da maneira como giram no céu durante toda a sua vida. Cada planeta-ponteiro está assim incessantemente numa nova relação com os planetas-números, esses pontos imóveis do seu horóscopo.

A configuração singular que tinham esses planetas no momento em que você nasceu é o tema permanente de sua vida, sua definição algébrica, a impressão digital de sua personalidade; os astros imobilizados sobre seu horóscopo formam entre si ângulos cujo valor em graus tem um significado preciso (positivo, negativo, neutro): imagine, por exemplo, que seu Vênus amoroso se ache em conflito com seu Marte agressivo; que o Sol de sua personalidade seja fortificado por sua conjunção com o enérgico e aventureiro Urano; que a sexualidade simbolizada pela Lua seja sustentada pelo astro delirante que é Netuno, e assim por diante. Porém, durante seu trajeto, os ponteiros dos astros vão tocar cada um dos pontos imóveis do horóscopo, pondo assim em jogo (debilitante, energizante, ameaçador) diversos componentes de seu tema vital. A vida é bem assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.

Urano move-se no céu num passo relativamente lento. Leva sete anos para percorrer um signo. Suponhamos que hoje esteja numa relação dramática com o Sol imóvel no seu horóscopo (digamos que estejam a noventa graus de distância): você terá um ano difícil; em vinte e um anos a situação se repetirá (Urano estando então  a cento e oitenta graus do seu Sol, o que tem o mesmo significado nefasto), mas a repetição será apenas aparente, porque nesse ano, no mesmo momento em que Urano ataca o seu Sol, Saturno no céu se encontrará com Vênus no seu horóscopo num relacionamento tão harmonioso que a tempestade passará por você na ponta dos pés. Como se você fosse atingido por uma mesma doença, mas desta vez sendo tratado num hospital fabuloso, onde, em vez de enfermeiras impacientes, estariam anjos.

A astrologia, parece, nos ensina o fatalismo: você não escapará do seu destino! A meu ver, a astrologia (preste atenção, a astrologia como metáfora da vida) diz uma coisa mais sutil: você não escapará ao tema de sua vida! Isso quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma ‘vida nova’, sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma ‘vida nova’ logo aparecerá como uma simples variação do já vivido.

O horóscopo parece com um relógio, e o relógio é a escola da finitude: assim que um ponteiro completou um círculo para voltar ao lugar de onde partiu, uma fase termina. No mostrador do horóscopo, nove ponteiros giram em velocidades diferentes, marcando a todo instante o fim de uma fase e o começo de outra. Em sua juventude, o homem não está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas primeiras variações.”

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Minha obsessão pelo autor, que todo leitor que acompanha o blog conhece, está quase completando dez anos. Nos últimos seis, escrevi e destruí uma série de postagens sobre suas obras. As que sobreviveram permanecem neste blog, que leva em seu título uma palavra tcheca colhida das páginas de seus romances. À quem interessar possa, as outras postagens estão na “tag” Milan Kundera, que você pode acessar na coluna ao lado (na “nuvem de tags”) ou aqui.

À Milan Kundera, parabéns por seus 84 anos. E por sua imortalidade.

Milan Kundera

PS: recentemente tive a oportunidade de prestar um tributo ao autor, aproveitando um pouco suas obras sob um ponto de vista acadêmico. Tentando conjugar ideias de seus romances e a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, publiquei um artigo que tenta aproximar as ideias de ambos os pensadores. O texto se intitula A insustentável leveza do ser-para-si: uma leitura sartreana de Milan Kundera e pode ser acessado aqui.

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22 anos depois…

04/02/2013

Voltando à (tentar) falar – pois a vida precisa seguir -, não posso silenciar sobre o lançamento do terceiro álbum do My Bloody Valentine, esperado por quase 22 anos.

My Bloody ValentineMy Bloody Valentine é uma banda que inventou, sintetizou e realizou um gênero – o shoegaze – através de um álbum – Loveless -, lançado em 1991, e obnubilado, como toda uma geração, pelo Nevermind do Nirvana. Porém, os caminhos do tempo permitiram que se tenha formado todo um culto em torno deles, e das bandas que, em seu vácuo, ajudaram a constituir a cena shoegaze. É dessa forma, e por essas razões, que My Bloody Valentine se tornou objeto de culto e adoração, sendo mencionada como referência para todo e qualquer noise rock. E foi assim que o terceiro disco – finalmente lançado, intitulado apenas mbv – se tornou, lentamente, uma lenda. Dizer que ele era “esperado” é mentira: ninguém pode razoavelmente esperar 20 anos por algo assim.

Mas, o disco saiu.

mbvO álgum é, sem dúvida, shoegaze. O ponto é que a essência do shoegaze, há 21 anos, é definida pelas 11 faixas do Loveless. Variando sobre elas (LSD And The Search For God), misturando-as com outros elementos (Film School, Belong) ou copiando-as descaradamente (Fleeting Joys), o shoegaze é constituído sobre essas onze notas essenciais, que fazem como que definir os limites do gênero. Desde a quase-ininteligível Touched, passando pela perfeita Sometimes (tão querida por Sofia Coppola) até a balada pop Soon, ali estava o cardápio do que se poderia fazer sob a etiqueta do autêntico shoegaze. Embora distintas, as 11 canções do Loveless são onze hinos e são todas absolutamente essenciais. Em Loveless, só o essencial tem o direito de existir.

Mas essa impressão é, talvez, um fruto histórico de Loveless (embora eu não entenda dessa forma). O ponto é que, comparativamente, mbv não parece “essencial”. Ainda não parece, ao menos. Como se, ao tentar continuar o que eles mesmos fizeram, não tivessem reencontrado a fórmula do essencial. Sem dúvida, mbv é um disco de shoegaze. Um disco de shoegaze que ocupará um lugar para sempre especial na história da cena, por razões mais históricas do que musicais.

Sem dúvida o disco tem a cara da banda. Diferentemente de outras bandas que se apropriaram da fórmula do Loveless e compuseram o shoegaze mais ortodoxo possível (quase plagiando o My Bloody), baseado no que o Loveless ensina, o My Bloody continuou sua obra. Seu terceiro disco é, sem dúvida, uma continuação da obra do My Bloody Valentine. Mas não é a continuação esperada: é um momento novo e inesperado. E talvez aí resida a força desse disco: nos fazer perceber que, mesmo depois de mais de 20 anos, é possível permanecer fecundo, criativo e inovador, sem deixar de ser fiel a si mesmo.

Um verdadeiro elixir de vida na hora em que algo de tal natureza se fazia necessário.

Download (o link remete para uma página de shoegaze de um casal de amigos onde, lá, há um link para o download).

Os "My Bloody Valentine" vinte anos depois.

Os “My Bloody Valentine” vinte anos depois.

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O dia mais triste de nossas vidas

29/01/2013

Eu nunca havia experimentado a verdade da expressão “palavras não conseguem descrever”.

Em certo sentido, foi a pior tragédia que o mundo viu em muito tempo.

E foi na “minha casa”.

Tenho certeza que esse foi o sentimento de muitos santamarienses, de berço ou – como eu – de coração.

Não somos acostumados a aparecer na TV. E, de um modo geral, não somos acostumados à viver tragédias. Somos provincianos, espectadores do mundo. Santa Maria é uma pequena moça bonita que tenta se vestir e se comportar como as moças da capital, mas que não perde seu jeitinho provinciano nem quando tenta parecer moça feita. A verdade é que quase ninguém olha pra ela, embora às vezes ela merecesse pelas coisas bonitas que faz. Mas nos últimos dias, todo mundo olhou.

E foi em razão da coisa mais triste que todos nós já vivemos.

E que, provavelmente, vai ter sido a coisa mais triste que teremos visto por toda nossa vida.

Eu estava na Rua dos Andradas naquela madrugada. Eu já subi incontáveis vezes a Rua dos Andradas. Eu passo, quase todos os dias, na frente do palco desse acontecimento sinistro. E ainda não consigo entender, acreditar, aceitar.

Eu vi mais carros de bombeiros de ambulância naquela noite do que, provavelmente, em toda a minha vida.

Acompanhei uma contagem crescente que, na medida em que crescia, se tornava mais e mais “surreal”. 5, 15, 40, 180. Mais de duzentos.

Não vou mentir: a ficha ainda não caiu. Os olhares do mundo só reforçam a sensação: é um pesadelo. Logo, todos vamos acordar e voltar ao nosso terno anonimato, aos problemas cotidianos, aos pequenos males do mundo, que já são grandes o suficiente para nossos ombros.

Mas, o pesadelo não acaba. Acordamos de nossas noites inquietas, ainda tão recentes, e a coisa ainda está lá. A coisa mais triste de toda nossa vida.

Nunca mais seremos esquecidos. Lições serão tiradas e pequenos aspectos do mundo mudarão em função do sacrifício do qual nossa cidadezinha foi o palco. O mundo mudou um pouco essa semana, e isso aconteceu aqui em Santa Maria.

Mas, sobretudo, nós mudamos. Para sempre. Santa Maria mudou. Nossa consciência mudou. A menina Maria terá crescido para sempre depois de perder mais de 200, entre filhos e enteados. Nós, provincianos do interior do Sul de um país, nunca mais vamos pensar que tragédias são coisas que acontecem pelo mundo, e que assistimos pela TV. Nós nunca mais ousaremos desconfiar que somos meros espectadores do mundo e da vida. Em nome daqueles que nos deixaram, eu rogo a Deus que não deixe essa tragédia, com todas as suas lições, ser esquecida. E que as lições não sejam tão severas com outros como foram conosco.

Eu ainda não consegui entender. Eu ainda não consegui acreditar ou aceitar. Mas, ao menos, eu já consegui chorar.

Santa Maria de luto

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Mr. Nobody: a utopia de viver todas as possibilidades

22/01/2013

Continuando essa sequência de posts, que já se arrasta por tempo demais, comento o terceiro filme que decidi classificar como uma “Utopia do Arrependido”. Trata-se de Mr. Nobody, de Jaco van Dormael, com Jared Leto.

A história é narrada por Nemo Nobody, "o último dos mortais".

A história é narrada por Nemo Nobody, “o último dos mortais”.

Praticamente desconhecido no Brasil, Mr. Nobody é um daqueles filmes que apela mais para o “sentir” do que para o “inteligir’. Ou, ao menos, assim deveria ser para que não se sacrifique sua beleza – ou a possibilidade desta. Porque as promissórias para uma inteligibilidade do filme são consideravelmente caras, e exigem mais do que boa-vontade do espectador: exigem também algum conhecimento básico de física e de ciências em geral, tendo em vista que é o menos auto-explicativo dos filmes – o que, aliás, faz com que Jared Leto apareça mais de uma vez no papel de narrador-comentador ao invés de  simples personagem.

O enredo é muito interessante e cativa na medida em que se desdobra de maneira muito dinâmica: um garoto tem sua vida desdobrada em dois caminhos distintos no instante em que os pais se separam. Uma de suas versões fica com a mãe e outra fica com o pai. Esses dois caminhos alternativos se desdobrarão em mais três, na medida em que outros mundos possíveis surgem quando este decide por se envolver com esta ou aquela garota. Assim, cotejando esses três mundos paralelos em seus relativos desdobramentos, somos conduzidos pelo filme que ainda possui um quarto cenário, no qual o personagem principal é o narrador da própria história, acabou de acordar de um coma, tem mais de 100 anos e é o “último mortal” que morrerá de morte natural. Esta versão anciã narra a própria vida em três registros distintos, o que deixa o entrevistador confuso. No final do filme, temos um aparente acontecimento do “Big Crunch” (a sístole de um universo que ainda sofria as consequências de um diastólico “Big Bang”) e vê-se um movimento de retrocesso físico de todas as coisas: tudo começa a andar para trás. E, de modo surreal, o filme termina nos deixando com o sentimento de que fomos convidados a fazer a existência “valer a pena”.

A física e a metafísica da segunda chance

Como eu disse antes, a presença da “teoria” acompanhando o filme se faz necessária e isso pode ser percebido pela presença de Jared Leto, em intervalos regulares, apresentando de maneira catedrática alguns tópicos de teoria física. Contudo, a teoria não constitui chave para completa compreensão do filme, mas para sua compreensão mínima que, insisto, é apenas pano de fundo para sua verdadeira fruição estética: a contemplação de uma existência desdobrada em diversas variações “quânticas”. Ao invés de apelar para o intelecto, o filme apela para a sensibilidade e serve-se da física dos mundos possíveis como metáfora para explorar esses universos distintos. É o aspecto existencial das escolhas do protagonista que nos interessam, e que nos deixam na ponta do sofá até as últimas cenas, torcendo para um final feliz entre Nemo Nobody (Jared Leto) e Anna (Diane Kruger).

As possibilidades de Nemo já se anunciavam desde sua infância.

As possibilidades de Nemo já se anunciavam desde sua infância.

Sendo talvez tão “colorido” quanto um Efeito Borboleta (que não entrou na minha lista porque, precisamente, é colorido demais), é nas relações amorosas do protagonista que a narrativa é focada, fazendo com que mensuremos o sucesso das diferentes vidas de Nemo pelo sucesso que tem ou não as suas relações amorosas. Assim, vemos Nemo envolvido com a maníaco-depressiva Elise e com a delicadíssima Jean em vidas nas quais, mais ou menos, prosperou financeiramente. O mundo paralelo no qual Nemo fica com Anna é precisamente aquele no qual ele fica com o pai doente, sacrificando sua vida e sua juventude dividido entre o trabalho e os cuidados com o pai. À esta altura do filme, já compreendemos que o principal apelo emocional/sentimental do filme é a possibilidade do reencontro de Nemo e Anna em um mundo no qual se afastaram através dos anos mas no qual também jamais se esqueceram. De qualquer modo, para o espectador, o valor dessa vida possível só se permite elucidar por contraste e comparação com as outras vidas que Nemo leva.

É possível mesmo visualizar elementos de um esoterismo “new age” no filme, na medida em que Nemo e Anna parecem se comunicar – talvez mesmo sem saber – através de pensamentos. Além disso, a sequencia inicial apela para a metáfora dos anjos ao exibir as primeiras memórias de Nemo, justamente antes do nascimento: Nemo é capaz de lembrar que diferentemente do que fazem com todas as crianças, os anjos não colocaram o dedo sob seus lábios e não selaram suas lembranças, o que dá fundamento para os múltiplos caminhos de Nemo no filme, afinal, este seria capaz mesmo de se lembrar de todas suas vidas possíveis.

Uma das mais belas colagens de narrativas que já tive o prazer de assistir, Mr. Nobody é delicadíssimo e sua falta de reconhecimento mainstream se justifica: mesmo “colorido”, Mr. Nobody não nos oferece um fechamento inteligível senão ao custo de promissórias muito caras. De qualquer maneira, as duas horas de filme se prestam com esmero àquela que é uma das principais virtudes de uma narrativa de ficção, a saber, a exploração de possibilidades da existência. Quando a arte faz isso de maneira meta-referencial e sem muitos sacrifícios, merece elogios.

Toby Regbo e Juno Temple nos papéis de Nemo e Anna quando jovens.

Toby Regbo e Juno Temple nos papéis de Nemo e Anna quando jovens.

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Brilho Eterno: a utopia do esquecimento

15/12/2012

Depois de três meses, volto ao prometido comentário dos quatro filmes que batizei de “Utopias do Arrependimento”. E o segundo na lista é o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (no original, Eternal Sunshine of The Spotless Mind).

Não seria maravilhoso simplesmente esquecer daquelas coisas que nos causam sofrimento? Essa é a premissa da qual parte Brilho Eterno: não apenas é maravilhoso como é possível fazê-lo. Basta apenas a submissão à uma espécie de “lobotomia localizada”, que causa tanto esquecimento quanto uma bebedeira, e a pessoa está livre daquela rede de memórias – e, portanto, de afetos – que lhe causam tanto sofrimento. Através de uma empresa fictícia (a Lacuna Inc., parecida com a Life Extension de Vanilla Sky), a pessoa precisa apenas levar até os domínios da empresa alguns objetos relacionados com a memória à ser deletada. Após um rápido exame, os profissionais responsáveis pelo apagamento de lembranças localizam a área cerebral em que estas estão impressas e iniciam o processo de limpeza.

É a esse serviço que Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) recorrem quando seu romance lhes causa mais sofrimento que felicidade. Depois de um mal-sucedido relacionamento amoroso, Joel e Clementine se submetem aos serviços da Lacuna Inc. e tentam esquecer um do outro. O nó narrativo do filme se dá quando os profissionais da Lacuna Inc. estão na casa de Joel, realizando o serviço, e este toma consciência do que está fazendo. Joel, então, se arrepende uma segunda vez e tenta conscientemente impedir que o serviço seja realizado: tentando esconder suas lembranças com Clementine em locais cada vez mais remotos de sua consciência, Joel trava uma verdadeira odisseia na tentativa de salvar sua memória e, portanto, seus sentimentos por Clementine. Após uma série de eventos que envolvem até mesmo os profissionais da Lacuna Inc. no drama de uma vida vivida no esquecimento, Joel e Clementine recebem todos os seus pertences e as fitas gravadas nas quais falavam um sobre o outro. Recebem, assim, uma segunda chance: podem, sabendo quem são, reviver o romance esquecido e sem o risco de frustrarem suas expectativas ou, alternativamente, têm a chance de começar novos projetos. De forma catártica, o filme termina com Joel e Clementine juntos novamente, em uma impossível segunda chance de refazer o já feito.

Esquecimento, Eterno Retorno e o duplo arrependimento

Clementine and JoelFilosoficamente falando, os conceitos com os quais trabalha Brilho Eterno são consideravelmente mais pesados do que aqueles que vimos em Vanilla Sky. O conceito de esquecimento, por exemplo, nos coloca diante de uma realidade na qual elementos reais continuam operando aquém da nossa consciência. Embora tenha sido utilizado através da sutileza de uma ficção científica bem pensada e com a leveza de uma história de amor hollywoodiana, a ideia de que elementos esquecidos permanecem ativos em um domínio inalcançável ao nosso pensamento é uma premissa sem a qual, por exemplo, a obra de Sigmund Freud não seria possível.

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), por sua vez, nos dizia que o esquecimento é um elemento positivo, enquanto a memória é negativa. Do ponto de vista das necessidades vitais, o esquecimento é mais saudável que a memória: lembrar, por assim dizer, é uma atividade patológica. Re-memorar, re-viver o já vivido está no núcleo das atividades psíquicas que caracterização a decadência da humanidade, dando origem à coisas como o ressentimento, por exemplo. Além disso, o esquecimento tem uma estrutura paradoxal: tentar esquecer é lembrar. Não há maneira de se tentar ativa e conscientemente esquecer de algo. Assim, a possibilidade do esquecimento estaria ancorada em forças pré-conscientes, mais fundamentais que o próprio pensamento.

Em Brilho Eterno, vemos realizada uma verdadeira utopia humana: o esquecimento se tornou uma possibilidade concreta, acessível pelo âmbito da deliberação. Se não fossem os acontecimentos proporcionados pela relação dos personagens no filme, o esquecimento mútuo de Joel e Clementine teria sido um perfeito sucesso. A empresa fictícia Lacuna Inc. torna concreta a possibilidade do esquecimento como uma opção. Ainda que seja necessário se submeter à um processo artificial, a Lacuna Inc. torna possível atacar precisamente o locus da memória – evidentemente, pensado em termos neurobiológicos. A Lacuna Inc. torna possível o esquecimento consciente.

O que a Lacuna Inc. não pode garantir é proteção diante da contingentia mundi: a maestria do discreto – porém efetivo – nó narrativo, que faz com que Joel e Clementine terminem por receber as informações sobre seu passado esquecido, cria a possibilidade da “segunda chance”. Mas permite uma reflexão sobre um aspecto filosófico cujo respaldo, novamente, procuro na pena de Friedrich Nietzsche: o Eterno Retorno.

Ideia famosa de Nietzsche, o Eterno Retorno é pensado – entre outras perspectivas – como uma hipótese cosmológica que nos sugere que tudo o que acontece se repetirá. Esse convite fatalista à assunção autêntica da própria existência utiliza a hipótese cosmológica como ameaça: se tudo se repetisse, o que você gostaria que fosse sua vida? Ao responder essa pergunta, o indivíduo faria uma opção derradeira pela vida plena. É essa opção que é atirada no colo dos personagens Joel e Clementine: sabendo quem são e o que acontece quando se relacionam, arriscariam tentar tudo de novo?

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

O filme sugere que sim, e isso desde antes do final: quando Joel começa a tentar reverter o processo de esquecimento realizado pelos profissionais da Lacuna Inc., é possível constatar um arrependimento relativo ao arrependimento originário. Diante da iminência de perder suas lembranças preciosas, Joel começa a enfrentar o processo ao qual se sujeitou ao contratar os serviços da empresa. Esse é o momento áureo do filme e é em função do duplo arrependimento que o filme funciona. O seu final está desde o início anunciado e, embora hollywoodianamente catártico, pode ser lido de maneira quase-nietzscheana: sim, nós faremos tudo de novo. A opção de Joel e Clementine é a de dizer sim para o já vivido, dizer sim para a repetição, de dizer sim para a vida.

Minha única crítica, já realizada aqui mesmo e em um outro momento, embora de forma bem mais fraca, é a de que o filme só funciona porque Joel e Clementine são losers. Personagens quase vazios que, embora verossímeis, são sobretudo pessoas sem mais nada na vida. O amor é quase um prêmio de consolação à um casal carente e solitário. Joel e Clementine parecem mais movidos por suas necessidades do que por seus projetos e desejos. Curiosamente, o esquecimento é rejeitado como opção e diante da utopia oferecida no início do filme, o duplo arrependimento dos personagens faz a opção pelo Eterno Retorno e pela vida. No mais, o filme garante umas duas horas de catarse à quem procure uma história de amor com uma pitada de fantasia.

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