Excertos do subsolo – Compromisso negativo: platonismo e melancolia

É uma condição sofisticada e de difícil descrição. Talvez apenas algum filósofo marxista, psicanalista lacaniano ou outro tipo contemporâneo de mago hermético poderia me dar o conceito do qual necessito. Trata-se de uma etapa do espírito na qual aquilo que é mais necessário é também indesejado.

Evidentemente não me refiro às necessidades mais básicas do corpo e da carne. Essas só torturam até serem devidamente adestradas – e a atmosfera do subsolo as torna presas fáceis aos estratagemas do espírito. Este, por sua vez, tem suas próprias necessidades e parece criá-las a partir de um fundo secreto e misterioso, mas talvez e aparentemente lógico e ordenado como muitos símbolos humanos. Penso no zodíaco, com sua estrutura cíclica e seus inúmeros ponteiros, indicando que a existência humana é uma brincadeira combinatória de forças que jamais mapearemos adequadamente. A metáfora é boa, mas há uma melhor: Ulisses.

Ulisses deseja o desejo. Quer o objeto de seu desejo mas o quer perpétuo, não consumido, inesgotável. Diria mesmo infinito, se o termo não estivesse impregnado de aspectos nobres e edificantes (e a vida no subsolo, sabemos, se trata de desmoronamento sistemático, e não edificação). O doce infinito da fábrica de Willy Wonka, que não sacia nem se esgota, tem a estrutura do objeto dessa fase do espírito. Avançar a fase seria destruir aquilo que lhe dá sentido. Talvez por isso os existencialistas fossem obcecados pela consciência infeliz: a fruição da falta, a doçura da melancolia pode ser uma armadilha derradeira no caminho para onde quer que se vá. Mas há, sem sombra de dúvidas, um desejo de eternidade tão inocente quanto aquele que inspira os grandiloquentes sábios e santos de todos os tempos.

O instante mágico da transformação aconteceu quando fui abandonado no altar. Vestida de branco, ela disse “não” e correu. Correu para algum lugar onde, sei, jamais a encontrarei. Um “não” inesperado, surpreendente e trágico. Na noite anterior eu já havia confessado aos amigos, na despedida de solteiro, de que não seria capaz de fazer a mística e beatífica felicidade durar para sempre. Depois de doses de uísque e quase um maço inteiro de cigarros, confessei à todos algo que supunha ser uma característica universal do espírito humano: nada pode ser mais nocivo à alma do que a cessação do movimento. Disseram-me que eu estava paranoico, mas o “não” confirmava minha teoria. Aquele amor renascia na ausência que crescia na mesma medida em que sua silhueta se afastava no vestido branco.

Evidentemente, essa consciência não foi imediata. Em um primeiro momento, recebi a merecida semana de folga na redação do jornal e em um dos dias especialmente difíceis, voltei à casa de minha ex-esposa, também novamente solteira, para ver se reencontrava qualquer sobra de mim mesmo no cenário no qual eu já havia tentado a vida reta e real. Por ao menos uma noite seus braços e pernas me ajudaram a me despir e esquecer daquela persona fracassada e digna de pena na qual aquela semana havia me transformado. No sétimo e último dia de descanso, porém, uma carta me obrigava a recriar um mundo. Uma carta que me fez lembrar de Leibniz e da sua teoria que diz que esse é o melhor dos mundos possíveis e que nada que acontece poderia acontecer sem uma justa razão. Era como se eu tivesse exorcizado de minha alma sua melhor parte e esta fosse a responsável por cada linha.

Ariadne – esse era um de seus nomes para mim – dizia que teria dito sim, se tivesse certeza de que em mim havia qualquer tipo de certeza. Ela mesma afirmava que estava disposta ao papel de vilã, pois sabia que ela mesma não suportaria o itinerário dos rituais cotidianos que tomaria de assalto nossas vidas. Mas já percebia, há semanas, minha dúvida. Suas palavras faziam todo sentido: nossa vida, já trespassada por algumas intempéries naturais do desenvolvimento da partitura do amor conjugal, havia se renovado de uma forma quase mágica há algumas semanas. Sua paixão por mim parecia ter se restaurado sozinha e por milagre, sem que eu tivesse me esforçado nem um pouco para isso. Voltamos a frequentar os cinemas pelo simples prazer de trocar carícias escondidos nas salas escuras, sem o menor interesse nos filmes. Dormíamos na rede exalando o odor do repelente de insetos e fizemos amor na escuridão de um parque, na volta de uma noitada. A antecipação da perda premeditada fazia com que ela vivesse o que, segundo ela, é a forma mais adequada de se dispor na vida: a doce melancolia. Sempre entendi conceitualmente a ideia, mas não podia imaginar que ela a vivia de forma muito mais intensa e vívida do que eu.

Ela sempre esteve certa, afinal: a efemeridade da vida, derivada da ininterrupta ação destrutiva do tempo, avisa silenciosamente que absolutamente nada resistirá aos ventos da transformação. Mais do que eu, ela vivia com a consciência dessa impermanência de forma radical. Admitia, contudo, uma ilha de salvação provisória contra a desesperadora consciência da atividade corrosiva do tempo: a lembrança dos momentos perfeitos. Segundo Ariadne, era isso que ela me oferecia ao me abandonar no altar: um momento perfeito. Negativamente perfeito, perfeitamente adequado para se inscrever em uma narrativa trágica na qual o maior valor é a simples existência dos acontecimentos, e não sua utilidade para a execução de nossos projetos.

Como que por uma programação automática, meu sangue ferveu com um ódio que não tingiu o espírito. Embora talvez soe estranho, o fato é que a imagem de Ariadne em meus pensamentos continuava tão comovente quanto sempre fora. Encharcado de suor e ofegante, acendi e quase não consegui fumar um cigarro na sacada do apartamento. Mas meus pensamentos e sentimentos eram ternos àquela criatura tão mal-feita, cuja alma havia sido entalhada na mesma forja que a minha. Só eu poderia entendê-la, só ela podia me entender.

Os anos se sucediam e a distância só dava contornos mais nítidos à impressão que eu tinha, de que éramos nascidos um para o outro. Quanto mais distantes estávamos, mais idênticos éramos em nossa doença, em nossa franca impossibilidade de desfrutarmos a felicidade de superfície. Foi por isso que fui atingido por uma incontrolável vertigem quando descobri, indiretamente, que ela havia tido um filho e que, há mais de um ano, havia se casado com um bom e humilde homem.

Quem Ariadne havia se tornado? Porque ela deixara a vida se assentar em uma possibilidade tão distante daquela que éramos um para o outro? Quem poderia ser esse homem capaz de cooptar um espírito arredio ao calor e ao perfume regular de uma vida boa? As questões surgiam de um modo muito especial: surgiam para permanecer, pois não me moviam um milímetro na direção de possíveis respostas. Surgiam como soldados de um inconsciente auto-destrutivo, masoquista e perpetuamente insatisfeito, sempre capaz de colocar em marcha as forças necessárias para decompor o que quer que estivesse à caminho de uma serena sedimentação. Estive por meses inteiros dominado pela angústia de desejar saber sem desejar saber. Desejava entendê-la da mesma forma que desejava tê-la. Naquele instante, todas as estruturas da minha vida se sobrepunham em uma harmonia pré-estabelecida tão coerente quanto fadada ao fracasso: tudo o que eu desejava, desejava permanecer desejando. Queria Ariadne, mas não queria tê-la. Queria entendê-la, mas queria permanecer querendo. Queria descansar da incerteza, mas queria fruir até a última gota da sensação de dúvida.

Reencontrei Ariadne em um café. Havia marcado uma entrevista com um professor e cheguei meia-hora antes para me inteirar do que devia perguntar. Foi quando Ariadne surgiu. Majestosa. Cabelos soltos, sem nenhuma maquiagem. Uma blusa que não ajudava nem um pouco a realçar sua cintura ou seus seios, mas que a deixava ainda mais elegante e precisamente desalinhada, com aquele perpétuo ar de quem não está aqui, de quem não está na superfície, de quem vive no próprio subsolo e não se interessa pelo frívolo suceder de cenas da superfície. Vi o quanto ficou desconcertada quando me viu. Mas, ainda majestosa, sorriu e se sentou diante de mim.

Liguei para o professor, dizendo que não poderia ir ao nosso encontro. Ele disse que não entendia nada, pois havia passado em seu automóvel em frente ao café minutos atrás e me vira lá à sua espera. Disse que não podia mesmo. Quando ele insistiu, lhe disse desaforos, que arrebentaria sua cara se aparecesse, que contaria à todos que tem casos com alunas e que suas publicações cheiravam a charlatanismo. Apavorado, o homem desligou. Aquela brincadeira me renderia um processo e eu perderia meu automóvel para indenizar o sujeito. Mas era um preço justo à ser pago por alguns momentos com Ariadne.

Naquele dia, ela me explicou: me deixara para perpetuar o amor, para não deixar que ele se decompusesse em rancor e tédio ao ser superexposto à infecta atmosfera do cotidiano conjugal. Perguntei, inevitavelmente, porque ela decidira se casar com outro homem e ter um filho. “Uma filha”, ela me corrigiu. Disse que engravidou sem querer e, por conveniência, decidiu viver ao lado do pai de sua filha. Mas que isso tinha data de validade, e que logo desmoronaria por si. Que isso era inevitável e que seu marido já pressentia tal desmoronamento. Eu estava perplexo, mas também compreendia cada palavra, em cada frase, acompanhada de cada olhar e cada suspiro. Ela disse que ainda tinha uma hora até ter de voltar para casa. Acompanhou-me até meu apartamento. Foi a noite mais bonita da minha vida.

Ela continua distante. Livrou-se do marido, que se tornou um bêbado. A filha vive com ela, e é uma menina linda. Posso senti-la aqui e ali, se esgueirando entre as esquinas e os meus pensamentos. Ela não parece mais ter o mesmo interesse em me ver, mas nas duas ou três vezes em que nos encontramos casualmente, pude ter certeza: ela ainda tem o mesmo interesse em querer me ver. Tenho medo de que algo de ruim aconteça à ela, e que eu perca a única coisa que me motiva e se destaca do fundo indiferenciado do cotidiano: vê-la passar por mim e, com um olhar silencioso, confirmar nosso perpétuo, platônico e melancólico compromisso negativo.

Noah Kalina

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Excertos do Subsolo – O desmoronamento

Ninguém estava satisfeito ao ver Clarissa dançando sua valsa de quinze anos com seu pai. Seus jovens amigos, entre atônitos e indignados, sabiam que perdiam novamente a amiga. Contudo, quem mais sofria era Alex. Atrás do balcão da festa, preparando drinques e servindo doses de uísque, sentia seu sangue ferver em intenso rancor. Estela, sua namorada, percebeu nitidamente o ódio no olhar de Alex, e supunha saber a razão: Alex odiava o pai de Clarissa porque fora através dele que Estela descobrira em que cidade Alex estava morando desde que fugira dela própria, e porque Alex não tinha chances de ter o amor de Clarissa se tivesse de disputá-lo com o pai a menina. Ao perceber o ódio no olhar de Alex, Estela tinha a evidência daquilo que preferia não saber. Irritada com a constatação, decidiu que não ficaria mais servindo as mesas do aniversário da insuportável Clarissa. Livrou-se da bandeja e do colete, e se retirou discretamente da festa.

Para Alex, o retorno do pai de Clarissa era a sua maior derrota. Quando ele conheceu a menina, ela se encontrava em um estado psicológico fragilíssimo. Vivia sob a tutela de Estela, sua irmã de criação. Estava devastada mentalmente: apresentava crises nervosas e parecia sofrer de significativa amnésia. Alex estava começando o namoro com Estela, e a fragilidade de Clarissa fazia com que ele próprio não percebesse o quanto Estela também estava frágil. Alex também não percebeu que sua atenção e seu carinho para com a menina fazia com que o coração de Estela se enchesse de ciúmes.

O que o próprio Alex não percebia é que ele próprio estava se apaixonando por Clarissa.

No intento de ajudar a menina, Alex descobriu um renomado psicanalista. Gastava pelo menos um quarto do que ganhava com Clarissa, o que irritava Estela. Alex era proprietário de um pequeno café, que era também uma tabacaria. No salão principal do estabelecimento as mesas eram também tabuleiros de xadrez onde entusiastas da cidade se reuniam, lotando o local. Naquele mês, Alex havia contraído uma dívida por ter adquirido algumas dezenas de caixas de livros usados para deixar apenas como decoração do ambiente. Teve mesmo que “contratar” Estela, não sem antes ter de lidar com sua chantagem emocional: se não a deixasse trabalhar no local, não a amava mais. Sem opção, Alex assistiu Estela “se associar” ao seu pequeno negócio, fazendo uso do dinheiro como se fosse seu, sem sequer pedir.

Para Clarissa, as seções com o psicanalista eram decisivas. Sua memória estava mesmo bloqueada por algum trauma muito intenso do qual ela, naturalmente, parecia se esquivar cada vez que se aproximava. O analista, muito paciente, sempre deixava que Clarissa se esquivasse e conduzisse seu discurso para temas sobre os quais a menina conseguisse falar com tranquilidade. Os efeitos dessa abordagem pareciam satisfatórios tanto para Clarissa quanto para seus amigos – e sobretudo para Alex, que conseguia fazer da nítida melhora de Clarissa uma compensação para algo que descobrira e que muito o incomodava: Estela o traía.

Alex não fazia a menor ideia de quem era o amante de Estela, mas em sua estoica resignação, quase preferia saber que alguém dava à moça a atenção de que ela precisava para se acalmar. Com o tempo, porém, o amante de Estela parecia se tornar um fardo para a própria moça. Estando não raramente bêbada, falava bobagens e mais de uma vez propôs coisas como “encontros à três” para Alex. Incapaz de perceber que Estela queria dele uma atitude enérgica, Alex condescendia que ela tivesse outros amantes, mas não fazia a menor questão de participar das fantasias sórdidas nascidas do desequilíbrio emocional de sua namorada.

Stella Was a Diver And She Was Always DownEstela se enfurecia e se vingava ainda mais. Por que Alex simplesmente não lhe proibia esses pensamentos? Ou, então, porque não experimentava? Sua atitude de desistência só parecia, para Estela, desamor. Aliás, todo o comportamento de Alex lhe parecia desamor. Deixava que ela fizesse tudo o que quisesse. Que atitude poderia ser mais desinteressada do que essa? Somado a isso, havia a superproteção de Clarissa – a eterna preferida de seu pai. Estela extravasava sua raiva gastando todo o dinheiro de Alex, se encontrando com seu amante e, quando nada mais dava certo para aliviar sua alma sedenta por estima verdadeira, tendo ataques dos nervos – aos quais Alex também reagia sempre com triste condescendência, tentando racionalizar a loucura da namorada. Vendo todas as vias de sua vingança fechadas, Estela começou a seduzir secretamente um dos melhores amigos de Clarissa, chamado Jonathan.

Jonathan era o perfeito projeto de um fracassado. Pouco mais velho do que Clarissa, era um daqueles típicos jovens que procurava compensar com uma suposta “inteligência” suas faltas e fracassos nas conquistas típicas dos seus pares. Era uma alma lírica e ultra-romântica que só poderia encontrar colo na castíssima amizade de Clarissa. Alex confiava totalmente em Jonathan, e via nele o melhor amigo que Clarissa poderia ter entre os de sua idade. O que Alex não esperaria é que o também castíssimo rapaz tivesse como ponto fraco justamente aquele domínio no qual todo seu auto-reconhecimento como homem repousava: a sexualidade. Pois se com Clarissa a relação era de uma amizade sagrada e platônica, com Estela – alguns anos mais velha do que ele próprio – Jonathan podia viver experiências das quais sua alma tinha muita necessidade. Foi em encontros noturnos secretos com Estela que Jonathan conheceu as delícias do vinho e do corpo feminino. Em algumas semanas, o rapaz estava irremediavelmente mudado. Mudança que, evidentemente, entristeceu Clarissa e encheu as narrativas da menina para seu analista.

Clarissa 2A situação por si mesma já beirava o insustentável, quando a cortina caiu: em uma sessão fatídica, quando já estava quase plenamente recuperada da relativa “perda” de seu amigo Jonathan, Clarissa descobriu que seu analista era, na verdade, seu pai. A descoberta, feita através da confissão do próprio sujeito para a menina, não apenas destravou as memórias de Clarissa sobre seu passado como também a atirou em um estado mental mil vezes pior do que aquele no qual a menina se encontrava inicialmente, quando Alex e Estela se conheceram. Foi preciso que o sujeito ligasse para Alex e o mandasse buscar a menina em uma praça, próxima ao consultório. Incrédulo no que acontecera, Alex foi ao encontro de Clarissa e a encontrou em uma tarde de sol, sentada em um banco de praça, trêmula, em lágrimas, urinada e incapaz de dizer palavra. Quando entrou em casa com a menina nos braços e explicou a história à Estela, viu a namorada sair em fúria da própria casa. Pensou em ir atrás de Estela, supondo que essa cometeria alguma loucura contra o próprio pai. Mas, foi incapaz de seguir Estela. Ficou cuidando de Clarissa. Não imaginava que Estela não voltaria mais para casa.

Alex mudou de cidade com Clarissa. Vendeu o café-e-tabacaria e entrou em contato com um advogada, para tentar viabilizar uma adoção legal da menina. Clarissa havia,ink face novamente, bloqueado as próprias lembranças. Desta vez, porém, elas voltavam lenta e naturalmente. Alex não sabia o que fazer com a constante e crescente melancolia de Clarissa, sobretudo porque percebia que tal estado de espírito era ocasionado justamente pela ausência do pai. Não era um psicólogo, e não conseguia compreender que tipo de sentimento fazia com que a menina desejasse estar novamente com aquele monstro. Tentava fazer com que Clarissa pensasse no futuro, ignorava deliberadamente os apelos de Clarissa por seu pai e prometia à ela uma bela festa de quinze anos. Clarissa havia feito novos amigos na nova cidade, mas era inevitavelmente vista como uma criaturinha muito estranha num ambiente mais provinciano que o anterior. Jonathan, rapidamente esquecido por Estela e novamente frustrado em qualquer tentativa de viver uma adolescência normal, já havia viajado uma meia-dúzia de vezes para passar o fim-de-semana com Alex e Clarissa, mas mesmo o rapazinho não conseguia mais acompanhar os delírios da sua amiga. Clarissa falava o tempo todo da vida maravilhosa que tivera com seu pai, e de como seriam novamente felizes juntos, no futuro. No entendimento de Jonathan, Clarissa havia enlouquecido completamente. Alex, contudo, não queria se dar por vencido.

Em uma das tardes ensolaradas da semana que precedia a festa de quinze anos de Clarissa, Alex recebeu uma ligação.

- Tudo bem, Alex? Posso falar com você um instante? – Era uma voz masculina. Alex supunha, mas preferia não ter certeza de quem se tratava.

- Com quem eu falo?

- Você sabe com quem está falando.

Era o pai de Clarissa.

- Veja, sei que você vai dar uma festa para Clarissa. Também sei que você não gostaria que eu fosse. Mas não estou lhe dando opção. Na verdade, o objetivo da minha ligação é outro. Estela está precisando de um emprego. Avisei que você está morando aí, e avisei da festa. Providencie algo para que ela possa fazer. E guarde a última valsa de Clarissa para mim.

E desligou.

Alex sofreu a maior vertigem que já sentira em toda sua vida. Sentou-se. Era como se sua própria morte lhe tivesse sido anunciada. Sentia sua vida desmoronando. Recuperou o fôlego e, como um morto-vivo, serviu as pessoas atrás do balcão do bar onde trabalhava na nova cidade. Ao fim do expediente, encontrou Estela à sua espera na porta do bar. Com seus incorrigíveis olhos tristes, a moça não precisou dizer nada. Alex a levou para o pequeno apartamento de um dormitório onde vivia com Clarissa. A jovem não pareceu surpresa ao ver a própria irmã, nem pareceu se incomodar com o fato de que Alex e Estela dividiam uma cama de solteiro ao lado da sua. E nesse ritmo, em silêncio quase sepulcral, os dias se passaram até o dia da festa de Clarissa.

No dia da festa (para a qual o próprio Alex alugou dois ônibus para que os convidados pudessem vir desde a antiga cidade onde moravam), Alex estava uma pilha de nervos. Esperava que o acaso lhe desse alguma ocasião para que ele pudesse “vencer” o pai de Clarissa, mas não conseguia pensar em nada. Havia organizado a festa de modo que Jonathan e em seguida ele próprio dançassem as valsas com Clarissa, mas a menina foi irredutível: só queria dançar com seu pai. Os amigos de Clarissa insistiam com Alex que a menina estava fora de si, que não sabia o que falava, que seu pai jamais apareceria. Jonathan alimentava a esperança de que seria ele, e apenas ele, a dançar com Clarissa. Para a surpresa de todos, o pai de Clarissa surgiu triunfante no salão. Seguiu-se um silêncio. Alex, que não recebera nem ao menos um instante do olhar do pai de Clarissa – totalmente fixo na filha, que o retribuía com fascínio e silenciosas lágrimas – mandou a valsa começar a tocar.

Clarissa e seu pai dançaram. Flutuavam pelo salão, ao som da valsa e do silêncio absoluto de todos os presentes. Foi nesse instante que Estela se retirou, discretamente, da festa. A valsa, que durou alguns minutos, foi suficiente para que os anos de dedicação de Alex para Clarissa desmoronassem, pedra por pedra. Cada passo sincronizado do bizarro casal fazia com que o coração de Alex batesse de forma descompassada. Percebia que não via nada que já não soubesse. Mesmo em seus momentos mais lúcidos, Clarissa deixava entrever que sempre preferiria seu pai. Alex não conseguia imaginar o que seria sua vida a partir daquele instante. De modo mais automático do que jamais fizera, foi ele que puxou as palmas que sucederam imediatamente o fim da valsa. Os presentes, sem entender o que acontecia, acompanharam.

Logo que a valsa acabou, o pai de Clarissa sussurrou algo ao ouvido da filha. A menina meneou a cabeça negativamente mas, como sempre, cedeu. O pai de Clarissa se retirou da festa discretamente. Quando Alex perguntou a Clarissa o que seu pai havia dito, a menina fugiu do assunto. Era irreversível. Alex perdera Clarissa para sempre.

A festa duraria mais algumas horas, mas depois que seu pai se retirou Clarissa não tardou a pedir que Alex a levasse para casa, pois estaria cansada. Alex, sem saber recusar qualquer pedido da menina, cedeu e pediu que Jonathan cuidasse do resto que no dia seguinte o remuneraria. Jonathan, também arrasado, concordou. Alex tomou um táxi e foi com Clarissa para casa. Quando entraram em casa, Clarissa foi direto para o banheiro. No caminho para o quarto, Alex percebeu que havia luz dentro do quarto. A luz do abajur estava ligada e a porta entreaberta. Aproximou-se o mais silenciosamente possível do vão da porta entreaberta e pôde ver o corpo de Estela sobre o do pai de Clarissa, repetindo maquinalmente os mesmos gestos que ele conhecia tão bem. Descobria, enfim, o amante de Estela. Era inacreditável.

Desmoronava o resto da alma de Alex naquele instante. Olhou por mais alguns segundos e olharia até que não sobrasse mais parte nenhuma de sua alma em pé. Então ouviu barulho no banheiro, onde estava Clarissa. Entrou no quarto e fechou a porta por dentro, o que fez com que o casal parasse imediatamente. Olharam para Alex, esperando que este dissesse alguma coisa.

- Recomponham-se. Clarissa está em casa.

Ao ouvir menção ao nome de Clarissa, Estela, ainda nua, se levantou. Teria iniciado um ataque de nervos se, de modo imperativo, não tivesse sido ordenada a se calar pelo outro homem no quarto. De modo incompreensível para Alex, Estela se calou. Vestiram-se rapidamente e ouviram Clarissa batendo na porta. Alex abriu e Clarissa, ao ver seu pai, correu para os braços dele. Estela olhava pela janela, sem olhar para Clarissa ou seu pai. Alex só desejava que a cena acabasse o mais depressa possível. O pai de Clarissa abraçou a filha, se levantou e, com as mãos pousadas sobre os ombros da filha, ainda de vestido branco, disse calmamente:

- Vou levar Clarissa.

Alex, em silêncio, olhou para o pai de Clarissa e, em seguida, para a menina.

- É isso o que você quer, Clarissa?

A menina saiu delicadamente do abraço do pai, parou na frente de Alex e lhe deu um abraço. Olhou novamente para ele e disse. “Sim, mais do que tudo.” Alex sorriu, abraçou Clarissa e abriu a porta. Clarissa estendeu a mão para seu pai, que se aproximou da menina e tocou-lhe a mão. Com a outra, tocou o ombro de Alex.

- Nos veremos novamente, Alex.

O rapaz nada respondeu. Ouviu a porta da frente se abrir e se fechar. Clarissa não voltaria mais. Foi até a janela com Estela e, em silêncio, fumaram os dois últimos cigarros que tinham. Estela esperou alguns minutos e, sob o pretexto de comprar mais cigarros, saiu. Também não voltaria. Alex já sabia.

Alex se despiu, se deitou e depois de um longo e justo ritual de autocomiseração e lágrimas, conseguiu dormir. Não sem antes ajustar o relógio para despertar, pois o dia seguinte era segunda-feira, era necessário trabalhar. Acordou exausto, duas horas antes do despertador tocar, e lamentou que tudo não tivesse passado de um pesadelo. Sua vida estava devastada e nem mesmo havia sobrado um cigarro ou um resto de café em seu armário. No caminho para o trabalho, ligou para Jonathan, para lhe oferecer uma recompensa pela amizade, por ter se encarregado de cuidar do salão de festas. Jonathan recusou qualquer recompensa.

- Mas como, meu amigo? Você me deu uma ajuda e tanto ontem. Deixe eu lhe recompensar!

- Insisto que não precisa, Alex… vamos deixar tudo como está…

- Jonathan, o que é isso? Eu insisto. – Uma voz feminina se interpôs no telefone.

- Ele não quer nada, Alex. Ele não precisa de nada. De nada que venha de você. Aliás, ninguém precisa. Faça o favor de deixar as pessoas viverem suas vidas, Alex. Comece, talvez, arrumando uma para você mesmo.

Alex não teve tempo de responder. Estela desligou. Alex continuou caminhando. Já não havia mais o que desmoronar.

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Clarissa é uma personagem que protagoniza meus contos e habita minha imaginação desde meus dezessete anos. Nasceu, como diria um pensador, de uma necessidade. Permaneceu intocada pelo tempo durante mais de uma década e, se não tem o fim que merece, tem o fim que posso lhe dar. Destruí todas as histórias que teci para ela e a mantive guardada como arquétipo. Por tempo demais. Tempo suficiente para perceber que a ideia por ela encarnada já não é mais necessária, mas que pode ser útil. Se ela reaparecer em minhas narrativas, será como variação eidética, e suas histórias serão sempre variações do mesmo tema, sem encadeamento linear possível. O mesmo vale para seu pai e todos os coadjuvantes que apareceram nessa história. Clarissa sempre retorna para seu pai, que é sempre o mestre do tabuleiro. Estela tem olhos tristes e nenhum autocontrole. Jonathan vive a saga da compensação e sobrevive de migalhas. Alex já foi a personificação da angústia antes que eu conhecesse o próprio conceito, pois ele era o personagem que nunca sabia qual caminho deveria escolher. Hoje, ele é o herói da renúncia, do amor incondicional, que aprende a crescer a cada derrota. É o que lhe restou.

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O desmundo de cada um

A pedra de Sísifo do espírito humano é, sem dúvida, ter de manusear as rédeas dos próprios desejos. Cabe ao espírito tentar guiar esse tropel de impulsos e dar forma ao seu movimento furioso, caótico, desgovernado. E como a existência tem uma aparência de linearidade, cada desejo manejado representa um caminho abandonado, deixado pra trás na poeira do tempo. E mesmo que de vez em quando dê para enveredar por um atalho e se embrenhar por um dos caminhos quase abandonados, sempre chega um tempo em que o próprio tempo já passou, e o caminho preterido se transforma em história, lembrança, trilha aberta até a metade. No fim, a vida parecerá com um mapa incompleto, no qual a estrada principal terá sido mapeada até seu destino final, mas que deixará uma série de veredas que jamais poderão ser exploradas. Afinal, a vida de cada um é única e insubstituível.

Mas se o espírito tem de carregar o pesado fardo das rédeas do desejo, se tem de enfrentar a fúria de seus cavalos selvagens e dar à carreira a impressão de um trote pensado, ao menos lhe foi dado também o dom da fantasia. E não há empresa que dê mais consolo ao espírito do que o devaneio. Há mesmo quem diga que foi pra se consolar que o espírito aprendeu a brincar com as imagens que colhe, com as canções que escuta e com os perfumes que aspira. E o espírito aprende a tecer de um tudo: desde a ideia de que a senda a ser trilhada já está escrita em algum lugar até a ideia de que os caminhos escolhidos e os modos de trilhá-lo podem torná-lo merecedor disso ou daquilo. Hoje, meu espírito descobriu uma ideia que já deve ter sido descoberta por algum outro – o que não lhe tira a alegria da descoberta: se não fosse para descobrir por si as próprias coisas, meu espírito não estaria aqui (e sim, esse é meu consolo).

Retomemos essa ideia do mapa. Um longo e fino caule cheio de galhos curtos. Na existência, cada galho poderia ter sido a continuação do caule, mas permaneceu galho porque foi abandonado ao destino de ser vislumbrado e, depois, abandonado. Mas e se a cada espírito corresponde uma segunda vida? Não uma segunda vida real, nem transcendente, mas uma segunda vida composta precisamente pelo conjunto das ramificações abandonadas?

Bem, evidentemente cada ramificação – cada caminho – certamente teria um sem-fim de consequências imensuráveis. Quando mais o espírito envereda a fantasiar por um desses caminhos, mais se afasta da realidade em detrimento de qualquer coisa como um sonho. As veredas abandonadas conduziriam à terras desconhecidas, isso é certo. Mas e se há – e meu desejo de compensação gostaria que houvesse – um mundo à parte, mesmo que feito de sonho, onde só existem esses caminhos abandonados? Em confuso convívio, desordenado pela falta de familiaridade de uns com os outros. Em comum, só o fato de terem sido abandonados nas margens do caminho principal. Como em um caleidoscópio, os mais efêmeros desejos e os maiores sonhos malogrados e abandonados conviveriam em uma doce desordem, se sucedendo até mesmo sem o enfadonho imperativo da ordem temporal.

Esse, certamente, não poderia ser o mundo de alguém, mas precisamente seu desmundo. Diferentemente da fantasia profunda com as outras vidas possíveis, o desmundo de cada um seria composto daquelas cenas que poderiam ser o germe das outras vidas. Tais cenas podem ser pouquíssimas. Mas também podem ser, em casos mais obscuros, a maior parte das cenas que povoam alguns espíritos. Eis a melancolia: algumas almas passam menos tempo em seu próprio mundo do que em seu desmundo. O desmundo de cada um: eis a ideia desnudada em sua clareza inquieta e outonal.

a vida está em outro lugar

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Raça de Ouriços – O segredo dos seus olhos fechados

“Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.
Y una hermana muy hermosa
que se llama Libertad.”

Pouco mais de um minuto era o tempo que ela levava para adormecer depois do ato sexual. Sobretudo se chegava ao êxtase depois do companheiro. Ulisses já havia percebido isso nas primeiras vezes, mas mesmo dez anos depois da primeira vez que dormiram juntos, isso ainda o impressionava. Encantava-o, na verdade, como tudo o que ela fazia. Suada e com os cabelos ainda colados ao rosto, ela parecia se desligar como uma máquina à vapor, expirando pesadamente e pela boca entreaberta um hálito morno que ela mesma nunca via, mas o fazia se aninhar a frente dela para respirá-lo. Os olhos fechados, porém, eram o símbolo que dava sentido àquele ainda belo corpo nu.

before sunriseOs olhos dela se fechavam algumas vezes durante o ato. Ulisses percebia que não era um ato espontâneo, involuntário, não. Era o recolhimento de um espírito que se ensimesmava e, por alguns segundos, fazia do ato sexual um meio para uma finalidade secreta, obscura, misteriosa, cujo sentido só se permitiria entrever a quem conseguisse entrar na névoa difusa do seu prazer. Mas, para poder fazê-lo, seria primeiro necessário vencer as duas pesadas cortinas que se interpunham entre Ulisses e as janelas da alma de sua companheira. Sentia-se como um físico, tentando adivinhar a essência da partícula fundamental da matéria através de seus inumeráveis indícios, mas proibido de vê-la diretamente.

Essa proibição, porém, é da essência da experiência humana. Ora, se o átomo ou a alma se apresentassem seja através do microscópio ou através do amor, pareceriam uma nova substância que pode ser dividida, medida, classificada e então infinitamente decomposta. Como o átomo, a alma jamais poderá ser vista. Segundo alguns, mesmo o pensamento já a deforma: os místicos medievais pareciam perceber que a experiência inefável é a experiência mais especial e privilegiada que a alma humana pode alcançar. Viam nisso a presença de Deus, seu contato direto conosco. O êxtase místico da companheira de Ulisses, porém, era muito provavelmente sem Deus. O sono que se seguia imediatamente depois do orgasmo – que podia durar dez minutos ou, como certa vez durou, 14 horas! – a levava para algum reino distante, absolutamente desconhecido de Ulisses. Mas que lugar seria esse?

Ulisses não sabia, mas desconfiava. Os anos passados ao lado de sua companheira indicavam que mesmo quando ela estava acordada, às vezes sua alma abandonava a máquina de carne e simplesmente a deixava em um funcionamento automático. Na ocasião mais emblemática, esse recolhimento durou alguns dias: durante uma viagem frustrada de férias para uma praia nudista, sua companheira – que era certamente uma das moças mais bonitas da praia – abandonou o corpo nu às areias e ondas, enquanto pareceu mandar sua alma para outro lugar, outro continente, outro mundo. A alma da moça só voltou no último dia, quando percebeu que iriam embora. Como se tomasse um susto ou acordasse de um transe, percebeu que havia deixado Ulisses “sozinho” durante dias. Sentiu-se nitidamente culpada e redobrou os carinhos. Naquela noite, antes de seguirem viagem, correram nus na praia deserta e foi o único momento em que realmente estiveram juntos naqueles dias.

Em momentos como esse, a companheira de Ulisses não descia necessariamente as pálpebras sobre os globos oculares, mas seu alheamento ao presente era maior e mais nítido do que se fechasse nervosamente os olhos como muitas pessoas fazem. Havia uma pequena variação entre o alheamento cotidiano e os instantes de recolhimento da alma no ato amoroso. Neste havia, ainda que pequena, uma parcela de deliberação. Era um ato intencional. Ela não fugia do lugar por necessidade, mas se recolhia por vontade própria.

Mas para onde ela ia?

Observando-a dormir, Ulisses só sentia mais admiração. Sabia que ela provavelmente não o abandonaria, mas sentia que podia. E que o fazia, a cada sono pesado, em que mergulhava completamente no oceano subterrâneo de si mesma a partir do momento do orgasmo. “Eu preciso ficar sozinha”, ela dizia às vezes ao chegar do trabalho. Soltava a bolsa, tirava o casaco, soltava o cabelo e se deitava no colo de Ulisses. Em um minuto se podia ouvir sua respiração mudar, ficar mais pesada. Estava dormindo.

Qualquer coisa podia motivá-la a se recolher em si mesma. Problemas no trabalho, na família, na política. “Motivos são coisas que a gente inventa quando tem que fazer o que quer”, ela sempre dizia rindo, ironizando em uma frase todos aqueles que vivem e pensam segundo razões rígidas e supõem, assim, poder controlar a vida. Certa vez, por exemplo, chegou entristecida em casa em razão da “feiura do mundo”. Ouvira, em uma fila, uma mãe ensinando a filha a respeitar o marido adúltero, pois ela era mulher e essa era uma tarefa das mulheres segundo a natureza das mulheres. Menstruar, engravidar e aceitar adultérios era a natureza das mulheres. Contou, em uma voz monótona, já sem a indignação juvenil, que pensou em humilhar aquela mãe em público. Imaginou mil abordagens: pedagógica, furiosa, irônica, etc. A monotonia de sua voz era a voz de quem havia desistido de tentar mudar o mundo, mas que ainda tinha esperanças e desejo de vê-lo mudado. Sua alma vivia, mas padecia de um irreversível cansaço. Foi nesse mesmo tom que certa vez ela própria confessou um adultério. Com o mesmo ritual – soltar a bolsa, tirar o casaco, desprender os cabelos – disse apenas: “Eu te traí hoje. Desculpe.” Ulisses olhou para ela atônito. Depois de uns vinte segundos, perguntou se ela queria conversar. “Depois”, ela disse, olhando profundamente nos olhos dele. Ulisses entendeu que ela precisava ficar sozinha. Foi até a estante, retirou um livro e ajeitou-se no sofá a ler, em frente a televisão ligada sem volume. Ela se deitou no colo dele e, como sempre, adormeceu rapidamente.

Veja bem: neste dia, a companheira de Ulisses olhou profundamente em seus olhos. Naquele momento, ela estava integralmente ali, com ele. Precisava saber se, antes de qualquer conversa, ele ia querer ficar com ela antes de qualquer diálogo. Se fosse necessário apostar, ela apostaria que ele iria aceitar que ela descansasse antes de conversar. Não tinha certeza, mas precisava saber. Nesses momentos, ela o olhava quase sem piscar. Essa era sua linguagem secreta, desde os primeiros dias: o olhar. Antes de conversar, se olhavam. Por minutos inteiros. Compartilhavam da convicção de que as palavras não transmitem o essencial mas, no máximo, ratificam o que o olhar comunica. Em momentos como esse, se olhavam em silêncio antes de conversar. As palavras só faziam adivinhar o que o olhar já havia estabelecido em silêncio. Também foi assim no dia em que decidiram morar juntos: ela o olhava, com um sorriso bobo e quase infantil, e olhava para o quarto dele. Ele sabia que ela já não estava à vontade dividindo um apartamento com pessoas quase estranhas. Como que em um ato mágico de telepatia, Ulisses acendeu um cigarro, se deitou e olhando para o teto, disse apenas “Traga suas coisas para cá.” Ela vendeu os móveis e levou sua vida numa caixa de roupas, livros e outras miudezas para a casa de Ulisses. Viveram anos plenos de beleza dividindo o mesmo teto, afinal, ela sabia ficar sozinha no momento que quisesse, mesmo em uma multidão.

No último ano em que ficaram juntos, seus olhares já traíam o destino que os esperava. Repetiam, como jovens, o ritual que os tornou próximos: se deitavam em silêncio, apenas trocando um mútuo olhar fixo, ininterrupto. Às vezes o silêncio era interrompido por uma dupla e melancólica gargalhada, às vezes por não menos melancólicas lágrimas. Às vezes ambos. Amavam-se mais do que nunca, como nos primeiros dias. Mas era o terceiro momento de uma dialética ingrata como só são igualmente ingratos os gêmeos Acaso e Destino. Já haviam vivido tudo o que tinham de viver um com o outro. Agora, tinham amantes. Tinham desejado um filho. Ela perdeu. Sem nenhum drama, não desejaram mais nenhum. Ela queria ir embora daquela cidade. Ulisses tinha um pai doente que ele tinha o dever de acompanhar nos últimos meses de vida. Não fazia nenhuma questão que ela se sacrificasse por ele ficando ali, pois esperava dela a mesma atitude. Em uma manhã fria de domingo, Ulisses acordou e encontrou um porta-retratos novo sobre a mesa de seu escritório. Uma das primeiras fotos que tiraram juntos. Se olhavam sentados em um gramado em uma tarde de sol e sorriam, quase rindo, como crianças. A cama, porém, estava vazia. Os armários e gavetas dela também.

O pai de Ulisses durou mais dois anos. Nesse meio tempo, Ulisses ouviu falar dela mais três vezes. Sabia onde ela estava. Mas, não a procurou. Casou-se com outra mulher e com esta sim teve um filho. Levou mais alguns anos para perceber que vivia uma vida de mentira, com uma mulher que não o amava e que fazia de sua vida um tormento. Não se entristeceu quando ela se mudou, com o filho, para a casa de outro homem. Não podia condenar a frustração de uma mulher que não conseguia viver com um homem que estava sempre tão distante, que fazia tanta questão de estar sozinho.

Uma semana depois da sua separação, a campainha tocou. Quando Ulisses abriu a porta, sentiu toda sua vida pulsando na órbita de seus olhos. Toda a sua vida acumulou-se e transbordou em silenciosas lágrimas. Da parte dela, o mesmo. Desnecessário dizer que choraram, gargalharam e, sem deixarem de se olhar por um instante sequer, fizeram amor durante horas, como dois jovens descobrindo os prazeres da carne. Naquela noite, ela não fechou os olhos nem mesmo durante o orgasmo. Suas unhas se encravaram nas costas de Ulisses enquanto ela gritava, em lágrimas, sorrindo, convulsa e em êxtase. Ulisses viveu a até então a inédita paz de sentir que ambos finalmente estavam onde queriam estar. A vida se concluía.

Infelizmente, a vida dela também se acabava. No dia seguinte, Ulisses ouviu de sua companheira que ela estava condenada. Seus pulmões frágeis haviam finalmente perdido a batalha contra o maço diário de cigarros que ela fumava desde a adolescência. Morreria em meses. Em lágrimas, Ulisses brigou com ela quando soube que ela morreria sem que ele soubesse se, por acaso, ele não estivesse divorciado. Mas, mais uma vez, perceberam que o Acaso e o Destino lhes havia dado a oportunidade de uma última beleza. A doença dela durou um ano. Ulisses se demitiu e viveu de suas economias cada dia de vida que restou à sua companheira. Esteve junto com ela quando ela perdeu os cabelos, quando ela perdeu o controle dos esfíncteres, quando ela pediu pra morrer para que ele não tivesse que vê-la naquele estado e quando ela finalmente compreendeu que mesmo aquele corpo decrépito padecendo sobre uma cama ainda aparecia para Ulisses tão belo quanto o canto das sereias.

Na noite da morte de sua companheira, Ulisses foi comprar cigarros, pois a tensão da situação o motivou a voltar à fumar. Ulisses não sabia que aquele seria o último olhar que trocariam. Quando ela fechou os olhos, Ulisses correu do hospital até o botequim mais próximo, pensando em voltar o mais rápido possível. Quando retornava, ele e outros pedestres foram atropelado por um motorista bêbado. Ele morreu imediatamente, poucas horas antes de sua companheira, que não acordaria mais, respirar lenta e pesadamente pela última vez.

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Excertos do Subsolo – Aviso aos homens do subsolo

Conhecer a si mesmo é talvez o único dever dessa raça de almas mortas que habita o subsolo. Um mínimo de autoconhecimento, senhores, um mínimo. É isso que vos peço e sugiro. Pelo bem-estar daqueles que cruzarem seus caminhos.

É preciso conhecer a própria natureza. Para nós, os ares da superfície são demasiado rarefeitos. Os efeitos da superexposição à eles não podem ser outros: embriaguez, delírio, alucinações! O ar da superfície deve ser fruído com moderação, aspirado delicadamente, degustado como um vinho, como um licor. Não vêem seus efeitos aos homens da superfície? Vivem como crianças. Como poderia ser diferente? Advirto-lhes: nossa consciência cindida – nossa sina – se deve em muito à umidade do pesado ar que respiramos. Senhores, cuidado com os ares da superfície. Se não se convencem, lhes conto uma pequena história do que poderia ter sido um simples passeio.

Certa feita, um homem do subsolo igualzinho a nós – isto é, com uma vida inteira vivida entre aspas – foi passear pela superfície, como alguns de nós têm o costume de fazer. Nesse passeio, distraiu-se em um jardim. Nada mais natural do que se deixar distrair diante da beleza quando se vive no subsolo. Mesmo que alguns de nós tenham desenvolvido o dom da apreciação do próprio subsolo, é perfeitamente compreensível que as cores das flores ainda sejam capazes de cativar as almas mortas. O único equívoco desse distraído homem do subsolo foi ter se perdido nesse jardim. Muito extenso e muito bonito, o jardim se estendia em todas as direções no horizonte. E se o ar da superfície já é embriagante, combinado com o perfume das flores se tornou literalmente venenoso.

Nosso amigo perdeu a noção do tempo no jardim. Não percebeu quando os primeiros sintomas começaram a aparecer. Como sabemos, aqui embaixo há toda uma sorte de coisas que simplesmente não pode sobreviver, nem mesmo nascer. Crenças, por exemplo, não encontram no subsolo nenhum nutriente para que possam, digamos, florir. Valores, da mesma forma, não sobrevivem muito tempo no subsolo. Simplesmente fenecem, custando o tempo que custar. Como nem mesmo nós, homens do subsolo, nascemos aqui, é natural que ainda carreguemos vestígios de crenças e valores. Mas aqui, elas se assemelham à cicatrizes. Já não operam como na superfície. O fenecimento dessas partes da alma fazem parte do processo de adaptação ao subsolo. Aqueles que não conseguem se despojar desses caprichos da superfície sufocam em si mesmos quando passam a viver no ar pesado do subsolo. Contudo, o ar da superfície pode produzir, mesmo em uma alma morta, algo como uma crença ou um valor.

Senhores, nada pode ser mais trágico.

(Desnecessário lhes dizer que não estou afirmando que isso seja ruim. A constatação da tragédia é mais básica do que os juízos de valor. Como vêem, a ideia de tragédia é uma das poucas que sobrevive no subsolo, por ser pesada como o ar daqui. Na superfície, o juízo maniqueísta funciona melhor e combina com o colorido do mundo da superfície)

Em uma alma morta, um valor ou uma crença não podem sobreviver senão como parasitas. Desenvolvem-se, literalmente, como tumores. Assim, só se fazem notar quando o estado da vítima já é terminal. Em desespero, nosso amigo – perdido na imensidão do jardim, embriagado pelo perfume da superfície, pelo azul tão raramente visto (nossos olhos, de homens do subsolo, vêem tudo cinza quando passeamos pela superfície, só vendo o azul quando suficientemente intoxicados de ar puro) e fazendo o esforço de se manter consciente de que o que estava em jogo era sua vida, nosso amigo correu.

Correu destruindo tudo em volta. Seus pés enlameados esmagaram belas flores. Evidentemente, uma pequena destruição. O tempo, no subsolo ou na superfície, destrói e reconstrói tudo o tempo inteiro. Sem saber se teria forças de achar uma boca-de-lobo a tempo, cavou um buraco dentro do jardim e, então, desapareceu nele.

Essa história é uma advertência, meus amigos, pois esse irmão do subsolo até hoje não reapareceu por aqui. Acredito que ele deva estar escavando, devidamente protegido da luz e respirando o ar necessariamente pesado dos subterrâneos. Se ele for bem sucedido, voltará para nos contar como é se deixar embriagar de luz, céu e perfume de flores. Teremos de cuidá-lo de perto, pois não sabemos o quanto as crenças e valores terão crescido em sua alma morta. Sem a luz da superfície, elas fenecerão. Mas isso pode levar muito tempo. Até lá, vamos confiar que sua alma morta se lembre do caminho de retorno. Até lá, brindemos à sua saúde. Brindemos à essa estranha saúde avessa, que só cabe à nós, homens do subsolo.

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Excertos do Subsolo – Instante de Plenitude

À meia-luz do abajur, cuja cortina alaranjada de tênue claridade parecia apenas preservar o calor dos miasmas, o corpo de Amelie ainda reluzia delicadamente, coberto por uma fina camada de seu próprio suor misturado com o de seu amante. A pele morena parecia respirar junto com a moça, cujo arfar pesado exprimia o cansaço e denunciava, assim como os olhos fechados, seu lento e progressivo adormecimento. Seus aromas e perfumes certamente impregnariam os lençóis de Yan que, sentado às costas de Amelie, não podia ser visto pela moça, mas era por ela sentido como sempre estado presente, mesmo em seus sonhos. Diante do corpo da amante nua, o rapaz já devia desejar possuí-la novamente. Assim, após o instante inextenso de êxtase, a dinâmica da existência recolocava os elementos em seus devidos locais: o desejo por Amelie era o desejo por plenitude, e o instante inaprisionável do êxtase dividido seria ainda perseguido por incontáveis vezes. Era sua única janela para a eternidade, para o infinito, para a plenitude da fusão das almas.

O pior de tudo, para Yan – e mesmo para Amelie – era saber disso.

Embora sempre incorra em compromissos epistemológicos provisórios, a psicologia é eventualmente sábia e oferece descrições lúcidas do fenômeno do condicionamento. Isto é: a psicologia sabe que uma pessoa pode ser ajustada para responder de formas específicas em circunstâncias específicas. É possível, neste sentido, adestrar uma pessoa até fazê-la abandonar seus vícios, corrigir seus desajustes. Yan, contudo, se enquadraria na categoria de pessoas que condicionaram a si mesmas para a reflexão.

Ora, mas isso é possível? Desde a aurora dos tempos modernos, a reflexão foi sempre vista como o poder mais característico do espírito humano. Descastes nos ensinou que a reflexão é o símbolo da liberdade, que é capaz de nos arrancar do interior das engrenagens da natureza. Se a natureza é previsível, o espírito é o contrário do previsível: espontâneo e imprevisível, o espírito é pura liberdade. Nem mesmo os deuses podem nada contra o espírito humano quando a liberdade desperta, e isso se evidencia na reflexão: através dela, o espírito se ergue da circunstancialidade pelos próprios cabelos, tal qual o Barão de Munchausen. Só duzentos anos depois de Descartes foi possível desconfiar da reflexão: o temperamento irracionalista de gênios como os de Schopenhauer, Nietzsche e Freud levou décadas para produzir uma suspeita: não será nossa reflexão, ao menos eventualmente, refém de impulsos e paixões? Não será, em última instância, o caso que “desejamos e pensamos que pensamos”?

Yan acreditava que sim, e que tinha suficiente impulso auto-destrutivo para desconfiar de si mesmo. Pois por que outra razão seu humor comum seria essa perene e agridoce melancolia? Não sabia dizer e assumia a existência de um impulso qualquer uma paixão adoecida como sendo o componente a definir o tom no qual vibrava seu espírito. Como não admitir que seu espírito – e, portanto, sua reflexão – era condicionada? Apenas tal compreensão permite que entremos em páginas como essa que se segue, extraída de seu diário de reflexões e escrita em um momento semelhante à esse, depois do amor:

 • • •

Há –  ou pode haver? – algo como uma verdadeira empatia?

Nosso espírito é um segredo inescrutável e essa “empatia” analógica de que tanto se fala não poderá jamais senão arranhar o outro, sua casca, sua pele. É por isso que os outros sujeitos – as outras consciências – não poderão jamais senão mais do que se insinuar. Escondidos e dissolvidos na matéria orgânica viva da carne, dos corpos, os espíritos não podem nunca fazer mais que tentar se manifestar através de seus títeres de carne. Seus gestos, contudo, estão à mercê do filtro ativo que é minha visão de mundo, meus conceitos, meus significados, meu horizonte de sentido. Os outros e as coisas não podem passar jamais de coadjuvantes e cenários de minha aventura. Minha solitária aventura, para além da possibilidade de qualquer partilha autêntica. E para viver uma comunhão qualquer, dependo de uma original – isto é, de um engano original, uma ingenuidade original – de que isso seja possível. É necessário inventar a comunhão e a empatia para sobreviver. E o necessário é impossível: a solidão é inultrapassável. E o lamento também é inútil, pois não será jamais plenamente compreendido.

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Esse é o humor que retorna, como um tanque que se enche, logo depois de ser varrido para longe pelo instante de êxtase e plenitude. Esse é o espírito das anotações de Yan que, ainda nu, registrava em seu caderno durante o sono de Amelie. Desta vez, contudo, foi interrompido pela voz da moça.

“Você não consegue descansar nem eu seus próprios sonhos, não é mesmo?”

Virou-se. Amelie estava sentada na cama, mais linda do que nunca. Também estava nua. Recolocava os óculos e acendia um cigarro. Mas… ela não fumava. Por que estaria o fazendo agora? Yan desconfiou e logo confirmou a própria suspeita, ao olhar para o próprio caderno e ver sinais sem sentido ao invés de letras: estava sonhando.

“Você realmente está aqui ou estou conversando comigo mesmo?”

“Eu estou onde sempre estive, onde você me deixou.”

“Quero saber se você veio me visitar no sonho, de verdade, ou se só está aqui por projeção dos meus desejos.”

“Você sabe que não quer saber isso. Sabe que vai acordar antes de descobrir, porque no fundo não quer saber. Você acredita tanto que está irremediavelmente sozinho que me deixou no mundo real e me preserva em sonho como dúvida, porque é só o que você admite que pode possuir com segurança: suas próprias dúvidas.”

Yan silenciou. Sabia que sonhava, mas que se tentasse testar o ambiente e “controlar” a personagem de Amelie, acordaria. Fosse ela uma projeção do seu inconsciente ou a própria Amelie o visitando em sonho, ela e o ambiente desvaneceriam imediatamente ao menor esforço de confirmação e teste de realidade. Levantou-se e foi até a cama. Beijou Amelie com desejo, mas também com a resignação de quem se sabe – ou ao menos se – refém das próprias paixões. Controlava-se, agora, para não testar a realidade, para não tentar descobrir se Amélia era real, para não acordar.

Mas, tentar não pensar em algo exige justamente que se pense nesse algo. Espontaneamente, seu ambiente esmaeceu tão logo quanto surgiu a preocupação em não testá-lo. Ao acordar, estava sozinho em seu quarto material, contraparte física de seu lar onírico, com seu cinzeiro e seu caderno de notas – um diário de sonhos, na verdade. E só desperto, Yan lembrou – ou percebeu – que ele próprio não era Yan, mas Amelie. Amelie que, todas as noites, sonhava que era Yan. Um Yan que queria revê-la, um Yan que sonhava com o amor que, no mundo real, havia decidido abandonar sem aviso ou explicação, um Yan que precisava dela da mesma forma que ela precisava dele todas as noites e todos os dias. Um Yan que a veria como perfeita projeção das próprias necessidades, perfeita e necessária como só nos olhos dele, por um instante inextenso de êxtase, ela se sentiu. Instante no qual ela se sentiu verdadeiramente viva e pelo qual ela permanecerá procurando pelo tempo que for necessário, nem que para isso precise sonhar toda uma existência na qual ela consiga reviver o instante de plenitude de se sentir amada, mesmo que seja por si mesma e através de amores imaginários, sonhados, que não existem. Mesmo que para isso ela própria precise esquecer de si mesma e de sua incurável solidão.

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“Aquém de si” (ou: o desafio da motivação e da expectativa)

É duplamente pesado visitar o texto de Husserl. Primeiro, pela densidade própria do texto. Segundo, porque o leio com lentes sartreanas – como talvez eu sempre faça com tudo. E é difícil não perceber a cada instante as conseqüências existenciais da fenomenologia.

Primeiro, é fácil notar como a intencionalidade, enquanto “investimento de significado”, transforma o sujeito em “senhor e dono” do mundo, como em Descartes. Esse mundo, contudo, é diametralmente oposto ao de Descartes: sem a fundamentação metafísica, a “egologia” de Husserl me sugere um cenário semelhante ao de Waking Life (em uma de suas interpretações possíveis), onde toda a aventura é estritamente individual, solipsista, e consiste em vencer os obstáculos projetados (ou melhor, constituídos) no mundo pelo próprio sujeito. Ao menos em Waking Life há um Deus, ainda que imanente (que, em termos psicanalíticos, não pode ser mais que um útero no qual eu dissolva minha individualidade e, com ela, todos os meus problemas). Husserl desvia do problema. Há a intencionalidade. Que, em um sentido existencial, é o meio pelo qual (e sine qua non) investimos o mundo com significado.

E isso é tudo.

Nenhum mundo real, nenhuma nível metafísico exigido pela razão Apenas um caldeirão de consciências em um caos vetorial de projetos existenciais. Assim sendo, é muito surpreendente que Sartre diga, na esteira de Husserl, que seres humanos se vêem e se tratam como objetos? Há uma razão filosófica para isso! Afinal, a consciência lida todo o tempo com objetos. Os “correlatos intencionais” da consciência são objetos. A alteridade, em sua presença concreta, não pode aparecer senão primeiro objetificada. O outro é um outro vetor consciente no mundo, mas diante da minha consciência ele não pode desobedecer a lei que dita que tudo o que me aparece é objeto. Mesmo o outro tem seu significado concreto constituído. Tem seu sentido investido por mim.

Evidentemente, a trama intencional só aparece na reflexão, e não na vida. Ocorre, contudo, que algumas vidas – para seu próprio prejuízo – se constituem como vidas devotadas à reflexão. Nesse caso, as tramas intencionais não retornam senão raramente ao esquecimento necessário para uma vivência autêntica, estritamente pré-reflexiva. Como se a vida se desdobrasse sobre si, se duplicasse no “eu” que não cessa de refletir e no “eu” que age e vive.

Assim como todo nível do sentido, a expectativa – componente essencial daquilo que existe como projeto, isto é, o ser humano – não tem outra substância senão, precisamente, intencionalidade. E se o objeto do desejo funciona como “móbil” porque promete o preenchimento da falta constitutiva, o reconhecimento do tecido intencional do próprio projeto não desnuda a expectativa de seus véus? A reflexão não desestabiliza para sempre a estrutura da motivação, revelando que ela é um fenômeno de superfície (pois tudo não passa, em suma, de tentativa de preenchimento da falta)? Como agir depois de se ter olhado de frente para a fonte do movimento? Ou, melhor dizendo: como agir, simplesmente, com ou sem esperança? Se Kant dizia que a motivação deve ser racional, Sartre nos ensina que ela não pode ser racional senão, no máximo, superficialmente. Pois ela é fundamentalmente não-racional, é absurda, é “paixão inútil”. E com ou sem esperanças, o movimento da consciência é sua lei, e não cessa ou cessará só para amenizar a angústia de se existir sempre aquém de si mesmo.

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