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Prova de Filosofia – Vestibular UFSM Dezembro 2011

15/12/2011

Há quase dois anos comentei (muito mal, diga-se de passagem) as questões de filosofia da prova do vestibular da UFSM. Volto à fazê-lo.

Minha primeira observação é que as questões desse ano foram elaboradas de forma que consegui distingui-las das demais disciplinas sem muita dificuldade, o que considero um mérito dos elaboradores. Evidentemente, a capacidade de pensar questões filosóficas dentro do registro de outras disciplinas (ou seja, a posse de um mínimo de erudição) pode ser considerado um dos elementos que distinguem um bom professor/filósofo de um mau. Mas penso que o sacrifício da disciplina na dissolução de sua especificidade não precisa ser realizado.

Das oito questões, penso que havia uma difícil, uma fácil e seis “médias”. Vamos à elas.

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Questão interessante. Sobretudo por apresentar uma legítima questão filosófica dentro do contexto da literatura universal. Tendo em vista que algumas perspectivas filosóficas considerarão a literatura uma espécie de “laboratório filosófico” (para desespero das pessoas das Letras), questões acerca de moralidade na obra de Tolstói – tão rica de questões filosóficas – foi um excelente achado. Embora não fosse uma questão “fácil”, parece-me que sua solução não dependia de muito mais do que leitura e compreensão textual, bem como relativa apropriação de conceitos como “subjetivo” e “objetivo”, palavras que não são exatamente “propriedade” de filósofos.

Bela questão. Dias atrás, discutia com alguns colegas sobre uma espécie de “empobrecimento do campo de experiências” mediante falta de vocabulário. Fazia referência especificamente ao conceito de “metáfora” que, em minha opinião, pode constituir um verdadeiro reino intermediário entre a Verdade e a Mentira. Questão média, que pedia o conhecimento do que seja um “argumento indutivo”.

Appiah é um dos principais expoentes da filosofia na África. Mas a questão, se não estou exagerando, não pede mais do que conhecimentos básicos sobre a moral kantiana. A questão do racismo, tal como apresentada por Appiah, é passada pelo crivo do Imperativo Categórico e apresentada em sua impossibilidade de universalização.

Embora meu “primeiro filósofo” tenha sido Schopenhauer e a relação entre arte e filosofia seja uma das coisas que mais me interessa, essa foi para mim a questão mais difícil da prova. Pois o parágrafo, em minha opinião, apresenta três perspectivas sobre expressão artística: em Aristóteles, a arte é uma expressão humana. Mas em Schopenhauer (e aparentemente em Hsun Tzu também) a arte é expressão também, mas expressão de uma realidade metafísica. Titubeei um pouco nessa questão provavelmente em função do meu relativo “excedente” de conhecimento necessário para solucionar a questão. Mesmo assim eu acrescentaria, só por precaução, a palavra “humana” depois de “expressão”.

Essa, por sua vez, me pareceu a questão mais fácil. Exige que se saiba o que seja uma “conseqüência lógica”. Mas um candidato um pouco mais maroto pode ter percebido, sem estudar filosofia, que a única alternativa que se deduzia da proposição na caixa cinza era a última, pois todas as outras exigiam um pouco mais de informação e/ou não se seguiam da afirmação do ordenado da questão.

Essa questão exigia um pouquinho de trânsito por manuais e textos de filosofia, no mínimo. Na primeira afirmação hipotética sobre o texto, encontramos a expressão “apenas suficiente”. Eis um dos temas mais interessantes de se explorar em prova: a relação entre as condições – lógicas ou epistemológicas – de necessidade e suficiência. Questão interessante sobre a importância antropológica da linguagem e sua relação com a instauração da própria humanidade. Tendo-se prestado atenção às aulas certas e sabendo-se ler um texto, uma questão de dificuldade média.

Ok, aqui eu confesso que se não fosse a expressão “linguagem proposicional” eu teria falhado em identificar a questão como “questão de filosofia”. Mesmo assim, é uma boa questão que se ancora no tamanho expressivo do enunciado da questão anterior e pede pouco, sem muita frescura. Pensei e repensei, porque as três alternativas pareciam corretas. Mas realmente estavam, segundo o gabarito. Quem prestou vestibular para filosofia, gostou dessa questão e for aprovado já pode ir se encaminhando para a filosofia da linguagem.

Essa foi minha questão preferida. Não sei se foi porque se trata de uma questão de “filosofia e filosofia” que, sobretudo, pensa a natureza de uma outra disciplina e usa vocabulário técnico – ou seja, prima pelo conhecimento do conteúdo, não apenas pela capacidade de ler e compreender um texto. Também pode ter sido porque depois de acertar as outras sete, acertei essa só passando o olho, como fiz com a questão 34. De dificuldade média, os termos especificamente filosóficos fazem com que seja uma questão que só foi fácil pra quem estudou pra prova de filosofia.

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Se eu estivesse fazendo vestibular hoje em dia e fosse uma pessoa que prefere as disciplinas sociais e humanas, não teria me assustado muito com a prova de filosofia. Mas, vou fazer o teste com algumas pessoas e verificar se já não é a impressão distorcida de quem lida com isso há quase dez anos.

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Bagageiro, felicidade e outros mistérios

07/12/2011

Não, ainda não abandonei este blog – embora já o tenha tentado algumas vezes.

Prometi a mim mesmo que só voltaria a escrever assim que estivesse satisfeito com meu ritmo de redação da dissertação. Acho que atingi algumas metas que estabeleci para mim mesmo. Assim, volto a falar por aqui em um dia de relativa importância, pois hoje foi provavelmente a última aula de um ciclo que se iniciou em março de 2004. Hoje, as 17h, quando o prof. Noeli Rossato encerrou a disciplina que ofereceu neste semestre para os alunos da pós-graduação em filosofia da UFSM, percebi que era a última.

Na verdade, eu já sabia que era a última desde o momento em que pisei no CCSH 74 hoje pela manhã. Sabia que era a última quando conversei com os colegas sobre o futuro profissional e sabia que era a última quando almocei no RU. Tinha consciência disso enquanto rememorava alguns episódios prosaicos desses últimos anos. Rememorava mas não “re-sentia”, ou pelo menos não “re-sentia” no sentido mais negativo do verbo. Lembranças melancólicas repovoavam alguns locais onde histórias aconteceram. Outros locais, contudo, sequer existem mais: rememorar episódios é recriar também os cenários, pelo menos por alguns instantes.

Mas, voltando ao presente, já que o que importa é sempre o futuro… Sem dúvida o momento mais “intenso” desde minha última manifestação por aqui foi o emblemático episódio do assalto à excursão que nos levaria à Toledo. Assalto que vivi apenas parcialmente, pois dormia um sono tão pesado que só percebi o que se passava enquanto era educadamente conduzido até o bagageiro do ônibus onde, ao lado de todos os colegas, deveria esperar os assaltantes fugirem. Tive medo de que minha claustrofobia fosse me matar, confesso, e não esbocei reação. Não pensei em nada, e não imaginava como escapar daquela situação. Sequer meu telefone foi roubado, mas mesmo assim foi inútil: não consegui sequer ligar para a polícia de dentro do bagageiro, pois não havia sinal. Felizmente, um colega arrebentou a porta por dentro e saímos. Mas não fomos mais à Toledo e não pudemos apresentar nossos trabalhos. Confesso que passado o susto, minha maior e egoística tristeza foi a de constatar que não poderia “desvendar o mistério da liberdade” em Toledo. Nem tampouco – e principalmente – pude ter a felicidade de passar na cidade uma semana agradável como foi a visita de 2010.

Felicidade, aliás, foi o assunto da semana anterior, pois um professor, durante palestra, teve a ideia de mencionar minha humilde pessoa em uma lista de “filósofos que não acreditam na felicidade” ou talvez, mais precisamente, “filósofos que não acreditam que a filosofia produza felicidade”. Algo assim. Não sei, pois não estando presente, só soube do fato segundo relatos de colegas. Confesso que não entendi. Mas, começo a aceitar que não se deve ficar ofendido quando se é mal-compreendido. Pois recordo que disse mesmo que a filosofia não tem o dever de pensar a felicidade. Em primeiro lugar, porque filosofia pode ser “filosofia da matemática”, por exemplo, e não ter nada a ver com ideias de “felicidade”. E em segundo lugar porque outros domínios da cultura – como a religião ou a arte – podem ter muito mais a oferecer no que diz respeito à proporcionar felicidade, bem-estar, etc, do que a reflexão filosófica. Afinal, a menos que felicidade seja uma ideia necessariamente atrelada à de esclarecimento e libertação – e sabemos que não é – não creio que toda a desconstrução conceitual e transformação pessoal que o estudo da filosofia pode oferecer seja uma garantia ou sinônimo de felicidade. Que a filosofia possa pensar a felicidade, isso é indiscutível. Que ela seja uma fonte da mesma, discordo: a reflexão filosófica parece possuir, por excelência, o poder de esclarecer e emancipar o pensar. Pode – ou não – fazê-lo feliz. A filosofia parece comprometida com a tarefa de corrigir o pensar, não de alegrá-lo.

Infelizmente, não pude ir para Toledo falar da correção do pensar (e do viver) à qual Jean-Paul Sartre nos convida com sua filosofia. Como alguns poucos leitores aqui sabem, é disso que me ocupo, é isso que estudo. “O Mistério da Liberdade” é um título propositalmente metafísico (praticamente místico) que escolhi, carinhosamente, em tempos em que a metafísica me parece, cada vez mais, o domínio onde toda forma de metáfora sobre a condição humana encontra sua morada legítima, pois é onde é compreendida. A tese é relativamente simples: ao propor que a liberdade não é uma propriedade do arbítrio, mas fundamento deste e também da paixão, Sartre desautoriza concepções que pensem o plano motivacional como determinante da ação. Assim, as razões do agir – motivos e móbeis – não exercem qualquer “força magnética” sobre a escolha, exceto a força que a própria escolha lhe confere, pois é contemporânea à esta. Em suma: as motivações de uma pessoa também são responsabilidade da pessoa e não podem, sob hipótese alguma, servir de “pretextos” ou “desculpas” para a ação na medida em que são livremente aceitas (portanto, escolhidas). Contudo, se a liberdade escolhe até mesmo sua motivação, escolhe “motivada” pelo quê? Escolhe a partir de onde? Eis o mistério da liberdade: a liberdade (a pessoa) cria a si mesma a partir do nada. O que faz com que a antropologia de Sartre seja a de uma realidade humana – individual, singular, pessoal – que exige a constante manutenção (ou eventual transformação) de seu sentido. Ser humano é fazer-se humano e há, na filosofia de Sartre, um forte apelo à tomada de consciência da liberdade, a despeito da angústia que decorre da consciência de se saber criador solitário do sentido da própria existência. Há sempre a perpétua possibilidade de descansar em crenças que proporcionem a ilusão de substancialidade – e talvez, sobretudo, estabilidade – para a qual a realidade humana tende perpetuamente sem poder realizá-la (a chamada má-fé), mas a verdade profunda da necessidade de se refazer constantemente, a verdade da autoria do sentido da própria realidade pode assaltar o indivíduo a qualquer momento, colocando todo um projeto existencial em jogo, podendo fazê-lo implodir por inteiro.

É claro que sempre se pode tentar a manutenção de uma ruína. O convite de Sartre, contudo, é à verdade, e não à felicidade: é um convite à assunção do mistério da própria liberdade.

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My Bloody Valentine – Loveless

19/09/2011

Tento imaginar a experiência de quem, em 1991, comprou esse disco…

… Depois de ter ouvido o aclamado Isn’t Anything de 1988 e EPs como You Made Me Realise, de 1988/89. Então a pessoa pegou o disco…

… E naturalmente colocou o Lado A pra tocar. Imagino alguém de vinte-e-poucos anos, terminando a faculdade ou em um emprego mediano, sem filhos – ou com no máximo um – e morando em um apartamento pequeno. Essa pessoa – rapaz ou moça – provavelmente foi fazer um café, pegou um cigarro e, enquanto esperava o café ficar pronto, deu uma olhada na capa.

Provavelmente, o que esse jovem rapaz, ou essa jovem moça estava ouvindo era isso:

E é aqui que eu começo a me perguntar pelo tipo de experiência que essa pessoa estava tendo. Porque se essa pessoa ouviu o Isn’t Anything, ela pode ter ouvido também SisterDaydream Nation e o Goo do Sonic Youth. Com alguma sorte ela pode ter ouvido alguma coisa de Slowdive, Chapterhouse e Ride. Com muita sorte ela já conhecia os Psychocandy e Darklands do The Jesus and Mary Chain. Se era essa a situação, essa pessoa de sorte não voltou até a loja e pediu para trocar o disco por outro exemplar quando, na quarta faixa, ouviu isso:

Afinal, Loveless, do My Bloody Valentine, conseguiu repetir a proeza do Psychocandy e mandou muitos desavisados de volta para a loja, para trocar o disco porque as músicas estavam todas com “chiado”. Chiado que não é senão o “pink fuzz” milimetricamente planejado por um Kevin Shields que, especula-se, esgotou financeiramente a Creation Records para a produção do genial Loveless.

A imagem de Kevin Shields, com sua aparência frágil, em um estúdio, com fones de ouvido e girando infinitos botões é outra imagem emblemática, que só posso imaginar. Um gênio incompreendido. Acrescentando cortinas sonoras à melodias às vezes quase pop, como Soon, ou absolutamente nada convencionais e quase ininteligíveis, como Touched. Um gênio que inventava, nesse disco de capa cor-de-rosa, um gênero musical: o shoegaze, como ficou conhecido o gênero de tantas bandas que tocavam olhando para os próprios pés, tímidos, incapazes de encarar o público enquanto sussurravam, em meio a nuvens sonoras, suas delicadas letras sobre sentimentos frágeis. Se não inventava o gênero – que ninguém sabe dizer se começou no próprio Isn’t Anything, no Psychocandy ou até mesmo em Garlands, primeiro disco dos Cocteau Twins – conseguia reunir e sintetizar toda a cena em torno desse disco, realização máxima do estilo, o sentido da história de toda chiadeira daqueles anos. Kevin Shields. Um gênio de vinte-e-poucos anos que atrasou UM ANO INTEIRO o lançamento do disco porque provavelmente não achava nunca que as camadas sonoras estivessem da forma que seu gênio musical concebia, mas custava a realizar. Um gênio que, como se pode perceber, antecipou e certamente influenciou um The Smashing Pumpkins em sua sonoridade, como em Sometimes

… Que, em 2003, foi escolhida à dedo por Sofia Coppola para estar na trilha de seu Lost in Translation (Encontros e Desencontros). Que canção era aquela do Smashing que, afinal, ninguém conhecia? Não era Smashing. Era My Bloody Valentine. Era o Loveless tocando, doze anos depois. Fazendo trilha sonora para as memoráveis atuações de Bill Murray e Scarlett Johansson perdidos em Tóquio. Para quem já conhecia o My Bloody Valentine, era o Loveless tocando enquanto se esperava, há doze anos (que hoje já completam vinte) o terceiro disco da banda.

Loveless sintetiza a cena shoegaze que acontecia até o momento. É seu sentido. É como se todas as outras bandas fossem coadjuvantes de um My Bloody Valentine que vai na frente, carregando todas em seu vácuo. Quem é que duvida que a cena se extingue e cai no esquecimento por quase dez anos justamente pela falta do terceiro disco dos MBV? Sim, certamente não foi o rápido declínio da cena e o desmanche de várias bandas do gênero que determinou o não-lançamento do terceiro disco do My Bloody, mas precisamente o contrário. Pois de um lado as sementes lançadas pelo shoegaze podiam ser percebidas no pop-rock/grunge do Smashing, por outro lado a quase-ininteligibilidade de Shields motivava a criação de bandas como Lovesliescrushing, onde as nuvens sonoras são levadas as últimas consequências. Em suma, o shoegaze estava sustentado e possuiria público consumidor em mais de um círculo musical. Mas o terceiro disco não veio, e Loveless ficou sendo para sempre o disco para o qual todo o shoegaze rumava, conspirava, ascendia, e onde afinal o gênero finalmente se realizou. A última canção do disco, Soon (Logo)…

… Poderia dar a impressão de um breve retorno. Feliz ou infelizmente, não foi o que aconteceu. A magia da dupla Kevin Shields & Bilinda Butcher não se repetiu, pelo menos em estúdio. O My Bloody Valentine se reuniu algumas vezes e realizou alguns concertos. Os fãs de vinte anos atrás acreditaram, como crianças, que isso era um sinal do terceiro disco. Muito provavelmente, não é. Eu não ouvi o Loveless quando foi lançado, pois tinha seis anos de idade, ou seja, teria que ter muita sorte de ter crescido ouvindo My Bloody Valentine por conta de outros. Mas eu devia essa “resenha” – meio romanceada e apaixonada, é verdade – ao disco pelo qual sou mais obsessivamente apaixonado há mais ou menos uns três anos. Aqui o Loveless arrebatou, com sua delicadeza, um ouvinte do som quadrado, analítico e soturno do Joy Division. E embora o shoegaze seja post-punk, My Bloody Valentine não tem nada a ver com Joy Division. A melancolia serena das nuvens sonoras do Loveless, suas letras que flutuam entre o erótico e o romântico, as vozes de Shields e Bilinda se fundindo à massa sonora de suas canções, é tudo milimetricamente perfeito em Loveless, planejado por um gênio que sabia exatamente que tipo de sentimentos desejava suscitar em seu ouvinte. “Onírico”, “etéreo” e tantos outros adjetivos exaustivamente utilizados pelos fãs constituem um clichê, é verdade, mas não por isso menos verdadeiro: My Bloody Valentine, em seu Loveless, é tudo isso, e tudo isso faz com que este álbum seja meu momento favorito dos últimos vinte anos de rock. Meu álbum favorito.

1 – Only Shallow
2 – Loomer
3 – Touched
4 – To Here Knows When
5 – When You Sleep
6 – I Only Said
7 – Come in Alone
8 – Sometimes
9 – Blown a Wish
10 – What You Want
11 – Soon

Link pra Download: Não vou colocar. Acho que a Creation Records caça, até hoje, os links para download do My Bloody Valentine (já tive um vídeo retirado do YouTube por usar música do MBV como fundo). Mas, sempre tem por aí. No mais, linkei tudo para o LastFM, onde se pode ouvir tudo direto da rede, com assinatura ou aplicativos para navegadores.

Agradecimento ao blog VinilGrafias de onde “roubei” as belas imagens do disco em vinil.

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Nossa escolha é a euforia

31/08/2011

Eis uma passagem simplesmente memorável de um livro que sobre o qual já falei aqui em uma outra oportunidade. Fiz um recorte que torna o diálogo quase teatral, distorcendo um pouco o sentido que ele assume dentro do romance, com todas as involuções narrativas que o autor realiza nas páginas em que ele acontece. No entanto, penso que não sacrifiquei demais o sentido da passagem. Ei-la abaixo.

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Leroy: “Ora, nosso século nos fez compreender uma coisa enorme: o homem não é capaz de mudar o mundo e nunca irá mudá-lo. É a conclusão fundamental de minha experiência de revolucionário. Conclusão, aliás, tacitamente aceita por todos. Mas há uma outra que vai além. Ela é teológica e diz: o homem não tem o direito de mudar aquilo que Deus criou. É preciso ir até o fim dessa interdição.”

Chantal: “De acordo, também acho que todas as mudanças são nefastas. Nesse caso, seria nosso dever proteger o mundo contra as mudanças. Infelizmente, o mundo não sabe parar o fluxo louco de suas transformações…”.

Leroy: “… do qual o homem, no entanto, não passa de um simples instrumento. A intenção de uma locomotiva contém o germe do plano de um avião que, inelutavelmente, leva a um foguete espacial. Essa lógica está contida nas próprias coisas, em outras palavras, faz parte do projeto divino. Você pode substituir completamente a humanidade por uma outra, isso não impedirá que continue intacta a evolução que vai da bicicleta ao foguete. O homem não é o autor dessa evolução, é simplesmente um executante. E mesmo um pobre executante, já que ele não conhece o sentido daquilo que executa. Esse sentido não nos pertence, pertence apenas a Deus e só estamos aqui para obedecer a ele a fim de que possa fazer aquilo que lhe agrada.”

Senhora distinta: “Mas, nesse caso, porque estamos aqui na terra? Por que vivemos?”

Leroy: “Por que vivemos? Para fornecer a Deus a carne humana. Pois a Bíblia não nos pede, cara senhora, que encontremos o sentido da vida. Ele nos pede que procriemos. Amai-vos e procriai. Entenda bem: o sentido desse ‘amai-vos’ é determinado por esse ‘procriai’. Esse ‘amai-vos’, portanto, não significa absolutamente amor caritativo, misericordioso, espiritual ou passional, mas quer dizer simplesmente: ‘fazei amor!”, ‘copulai!’. ‘Trepai!’ É nisso e apenas nisso que consiste o sentido da vida humana. Todo o resto é besteira.”

Senhora distinta: “Estamos descendo.”

Chantal: “Para o inferno.”

Senhora distinta: “Estamos descendo cada vez mais fundo.”

Chantal: “Lá onde está a verdade”.

Leroy: “Lá onde se encontra a resposta para sua pergunta: por que vivemos? o que é essencial na vida? O essencial, na vida, é perpetuar a vida: é o parto, e aquilo que o precede, o coito, e o que precede o coito, a sedução, isto é, os beijos, os cabelos soltos ao vento, as calcinhas, os sutiãs bem cortados, mais tudo o que torna as pessoas aptas para o coito, isto é, a comida, não a grande cozinha, essa coisa supérflua que ninguém mais aprecia, mas a comida que todo mundo compra, e com a comida a defecação, pois a senhora sabe, minha cara senhora, minha bela senhora adorada, a senhora sabe que lugar importante ocupa na nossa profissão o elogio do papel higiênico e das fraldas. Papel higiênico, fraldas, sabão em pó, comida. É o círculo sagrado do homem, e nossa missão é não apenas descobrí-lo, aprendê-lo e delimitá-lo, mas torná-lo belo, transformá-lo em canto. Graças à nossa influência o papel higiênico é quase exclusivamente de cor rosa e esse é um fato altamente edificante sobre o qual lhe recomendo, minha cara e ansiosa senhora, meditar bastante.”

Senhora distinta: “Mas então é a miséria, a miséria! É a miséria maquiada! Nós somos os maquiadores da miséria!”.

Leroy: “Sim, exatamente.”

Senhora distinta: “Mas, nesse caso, onde está a grandeza da vida? Se estamos condenados à comida, ao coito, ao papel higiênico, o que somos? E, se somos capazes apenas disso, que orgulho podemos sentir pelo fato de sermos, como dizem que éramos, seres livres?”

Leroy: “A liberdade? Ao viver a sua miséria, a senhora pode ser infeliz ou feliz. É nessa escolha que consiste sua liberdade. A senhora é livre para dissolver sua individualidade na panela da multidão com um sentimento de derrota, ou então com euforia. Nossa escolha, minha cara senhora, é a euforia.”

Em A Identidade, de Milan Kundera. Imagem retirada do site Decadent Lifestyle.

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Pele de Asno, novamente!

29/08/2011

Eu devia ser proibido de fazer resenha sobre a Pele de Asno, mas já vou fazer a segunda. Se na primeira tentei ser econômico ao tecer algumas palavras sobre a Demo que eles lançaram, dessa vez isso será impossível.

Intitulado simplesmente “Pele de Asno”, o disco de estréia da banda homônima conta com 13 faixas que eu classificaria em um Lado A, um Lado B e uma bônus track.

O Lado A – as seis primeiras músicas – contudo, são o verdadeiro Lado B. As quatro primeiras faixas mantém o ouvinte em uma atmosfera afetiva entre a melancolia e a serenidade. “Que Sorte há de Vir”, a primeira faixa, já dá o tom do que será o disco. A cadência das melodias deixando a voz de Luciana flutuar suas letras, sintetizando todos os elementos e dando unidade ao som da Pele. É imediatamente seguida por “Naufrágio”, onde a guitarra de Ronaldo Palma me fez lembrar as dos Los Hermanos em seu 4.  ”Sala de Esperar” é pura poesia intimista, com uma levada hipnótica e misteriosa. “Ladeira da Consolação” é uma jóia de delicadeza, e parece contar com batida eletrônica fazendo fundo à frases como “acho que Deus não vai suportar”.

“Monstro”, a 5ª música, é a primeira que começa a fazer bater o pé do ouvinte vulgar como eu. O chiado da guitarra – um “tiquinho de shoegaze” – também me fez ouvi-la mais de uma vez. “Fado”, a sexta música, parece ter cumprido bem seu papel: fecha o “primeiro lado” de forma densa e pesada.

Aqui, meu destaque e ênfase para aquela que é, para mim, a melhor música do disco e da Pele de Asno até agora: “Desengano”. Os teclados melancólicos fazem o fundo para uma guitarra que vai do início ao fim “lacrimejando” riffs. A letra é impecável e nos oferece uma “dialética do ‘mas não’”. Percebi mesmo um som de vento ao fundo? Daquelas de ficar ouvindo no repeat, no escuro, acompanhado de uma bebida forte e um cigarro. A voz de Luciana Alves está perfeita. Ponto alto, divisor de águas do album, não se encaixando nem no “lado A”, nem no “lado B”. Ou talvez pertencendo à ambos, como ponto de virada.

Depois de nos comover paulatinamente, o pessoal da Pele nos deixa descontrair na segunda metade do álbum. “Lenço de Papel”, por exemplo, eu tive o prazer de ouvir em uma versão bastante rudimentar. A versão final é talvez a canção onde a banda esteja mais entrosada, cada elemento caprichado de forma que fica difícil prestar atenção em um elemento em separado. “Doze Badaladas” me fez pensar até mesmo em qualquer coisa de Ennio Morricone. “Nada Mais Que Uma Cor” dói, como uma lamúria, e a voz de Luciana Alves merece novamente minhas considerações (confesso ter achado que o vocal dessa canção soou bem próximo de uma Maria Rita). Mas é o último golpe da Pele em nosso coração. Em “Tudo é Verão”, ouvimos o teclado de Daniel Stringini fazendo com que toda a música seja tocada dentro de uma nuvem sonora. A bateria de Braziliano é empolgante, e o baixo de Lucas Machado me parece nitidamente inspirado no post-punk. O vocal e a letra dão, porém, o tempero necessário: uma certa “brasilidade”,  a identidade da Pele. O disco termina com “Noites Quentes” – “Dizem que a distância é o esquecimento”, é o até logo que a Pele de Asno nos dá enquanto o baixo caminha entre as nuvens que o teclado emite. A guitarra do Los Hermanos 4 de Ronaldo Guerche volta para nos dar esse até logo.

Um prematuro salto qualitativo em relação à Demo, que já me agradava bastante e que havia me fisgado com pelo menos umas três músicas que sei, há quase um ano, assobiar de cabeça. Altamente recomendável. Falaria mais sobre cada uma das canções. Para não ficar ainda mais extenso, reitero que são os melhores de Santa Maria e tem algumas canções na minha lista de favoritas.

“Pele de Asno” (2011)

1. Que Sorte Há de Vir
2. Naufrágio
3. Sala de Esperar
4. Ladeira da Consolação
5. Monstro
6. Fado
7. Desengano
8. Infância em Casa
9. Lenço de Papel
10. Doze Badaladas
11. Nada Mais que uma cor
12. Tudo É Verão
13. Noites Quentes

Download

Pele de Asno é formada por Luciana Alves (vocal), Ronaldo Guerche (guitarra), Braziliano (bateria), Daniel Stringini (teclado) e Lucas Machado (baixo).

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Divertissement: Nuvens Sonoras e o Desejo de Ser Deus

22/08/2011

Uma das partes mais interessantes e mais misteriosas de todo O Ser e o Nada é o capítulo intitulado “Da Qualidade como Reveladora do Ser”. Nestas poucas páginas, que seguem imediatamente aquelas que versam sobre a “psicanálise existencial”, Sartre segue de perto o pensamento de Gaston Bachelard e pretende poder reconhecer, nas qualidades dos objetos, sentidos ontológicos que poderão orientar a psicanálise existencial. Voltando seus olhos para as qualidades dos entes naturais, Sartre se permite analisar o sentido ontológico da “fluidez” e da “viscosidade”, por exemplo. Através da análise o filósofo supõe poder reconhecer certa possibilidade de paralelismo entre aspectos da consciência humana e aspectos da natureza. A especulação e o trabalho imaginativo de Sartre é de tal ordem que ele acabará por comparar o movimento da consciência com a fluidez e a transparência de um curso de água, associando a viscosidade com a má-fé, ou seja, com a “agonia do líquido”, com um estado no qual o líquido começa a sofrer uma “solidificação” e abandonar as características que lhe são mais próprias, assim como a consciência faz quando começa a escorregar para a má-fé.

Por mais mirabolante que isso pareça, a coisa começa a fazer sentido depois que você a lê pela décima vez. E embora isso mais pareça uma espécie de mística do que qualquer outra coisa, parece realmente possível reconhecer na natureza certas qualidades que, se utilizadas como categorias para pensar a condição humana, ajudam a explicar a existência tal como concebida por Sartre.

Introduzo rapidamente essa teoria apenas para compartilhar aqui uma música. Música de um tipo muito especial, cuja beleza eu não teria sido capaz de compreender sem o recurso dessa “psicanálise da natureza” que Sartre parece estar propondo.

Uma das principais características da música “shoegaze” é precisamente essa síntese e dissolução de todos os elementos melódicos em verdadeiras nuvens sonoras. Quando isso teve início, na música do My Bloody Valentine, a chiadeira ainda se apresentava – exceto por três ou quatro canções mais ousadas – como pano de fundo de uma fórmula melódica comum, típica da música pop. Contudo, essa “orientação” aberta no final dos anos 80 teve diversas continuações. Algumas muito mais pop e fáceis de ouvir. Outras, contudo, mergulharam irreversivelmente na chiadeira indiscernível e produziram “coisas” como essa, que acabo de compartilhar.

Para não desperdiçar a utilização do pensamento sartreano nesta postagem, lembremos que para o filósofo francês uma das maneiras mais apropriadas de descrever a condição humana é pensá-la como “desejo de ser Deus”, isto é, desejo de ser consciência e substância ao mesmo tempo. “Desejo ontológico” de poder realizar a síntese entre existir como consciência e possuir qualidades estáveis e essenciais. Maior do que o desejo de “participar” do ser, esse anseio metafísico que constitui a realidade humana é um anseio por ser maior que o ser (pois é desejo de não perder a consciência ao alcançar o ser) e superar definitivamente o nada (estancando a temporalidade que dissolve toda e qualquer possibilidade de estabilidade).

Pois bem. Sem pretender me comparar à um genial Schopenhauer, que dá à música um papel de destaque em sua metafísica, permito-me levantar uma questão: músicas como essa, que se configuram como síntese de elementos que se dissolvem em uma unidade quase absoluta, não seriam uma das expressões mais vívidas desse desejo de ser Deus?

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O ressentimento voltou!

13/08/2011

É isso mesmo, o ressentimento voltou. Ou talvez nunca tenha realmente ido à lugar nenhum.

Sete meses depois de “fechar” o blog e quatro meses depois de tentar outra forma de me expressar, volto. E volto homenageando minha querida irmã. O texto é dela. Publico hoje porque hoje é seu aniversário de 21 anos. Parabéns, mana!

Sem mais até o momento, me despeço. Até a próxima postagem.

“Sabina, o seu chapéu-coco me faz querer chorar”

Pois bem. Para mim, quando Tomas fala de seu chapéu, ele está se referindo a muito mais que isso. Não fala apenas do chapéu como falaria de um acessório de vestuário, ou como um item de recordação, embora traga boas lembranças a vocês dois. Não se trata só disso. Acredito, sim, que seu chapéu é quase como algo que fale por você, de você para Tomas, qualquer coisa de único. Não se ofenda, mas entendo seu chapéu como metáfora de sua personalidade. Mais ainda: como o que tem em você que mais comove Tomas. É como se seu chapéu fosse à personificação de algo que você escolheu como seu melhor, e que Tomas através do próprio olhar legitimou.

A partir disso, penso que todos, talvez, possuímos um chapéu. No entanto, dependemos dos olhos dos outros para que ele seja percebido. A diferença entre você e Tomas é que acontece algo raro: ele legitimou, ao comover-se com seu chapéu, sua escolha de si. E ainda entendo que quando o contrario acontece, as relações tendem a se tornar um verdadeiro ínferno, e sei que foi por isso que você fugiu de Franz. E ainda que de certo entre você e Tomas, creio que é o mal do resto do mundo.

Todos nós elegemos o nosso chapéu minha cara, contudo, não vejo esse como o problema, mas sim o fato de esperar que outrem o legitime de alguma forma. A eterna dependência do olhar do outro é o próprio inferno que cultivamos em nós.

Sinto ser realmente gravíssimo quando não há sequer uma pessoa que seja capaz de percebê-lo do mesmo modo que nós. Essa falta de inteligibilidade que possa nos legitimar é capaz de levar um ser as piores conseqüências, de diversas formas possíveis. Acredite, sei bem o que digo. Mas o que fazer em um mundo com excedente na produção desses acessórios individuais? Enlouquecer na solidão, ou acompanhado?

Calma minha cara, você deve estar se perguntando o porquê que voltei a escrever depois de tanto tempo, e ainda escrevo-lhe assim, em devaneios, mas vou explicar. A consciência que tive sobre essas relações, e sobre do que elas dependem é recente, portanto um pouco imatura ainda. Mas garanto que me convencem o suficiente, pois, consigo ver o mundo sob essa perspectiva. E o que você tem a ver com isso?!

Você, Tomas e esse maldito chapéu me fazem ainda crer que posso encontrar alguma consciência capaz de captar o “meu chapéu”. Alguém para quem, o que sinto de mais especial em mim, possa comover também, e não sei se quero continuar acreditando que esse alguém exista. Acho triste pensar que tenho que dar as costas a tudo que não se comove comigo, o que não legitime minha comoção. Não quero isso. Quero aprender a viver sem necessitar disso.

Obrigada pela atenção querida, desculpe se pareço hostil, não foi à intenção. Ainda admiro a você e Tomas, mesmo que  me causem esses sentimentos as vezes. Além disso, o que creio mais admirável – e confesso, inquietante – é que mesmo que não tenham conseguido ficar juntos, Tomas conseguiu “enxergar” seu chapéu-coco!

Atenciosamente,

Sua distante amiga Agnes.

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O texto é de Tatiane Costa.

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Finitude Café

04/04/2011

Entretenimento existencialista.

http://victordafilosofia.wordpress.com/

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Um agradecimento. E um adeus.

09/01/2011

Três anos e meio. Três anos e meio e, parece, é tempo de encerrar um ciclo. Um ciclo composto de uma série de “semi-ciclos”, momentos vividos sob a égide de um mantra: ressentimento.

Nascido sob o claro signo de uma influência kundera-nietzscheana, o Litost serviu, por três anos, como escoadouro de uma série de idéias desconexas cuja única unidade era conferida por meus interesses pessoais. Filosofia, música, cinema, literatura e mesmo um pouco de política (e uma ou duas notas sobre futebol, vejam) ilustraram as páginas de um blog que precisa e deve ter um fim. “Precisa e deve” ter um fim porque meu compromisso com a Finitude exige: mesmo aquilo que pode e dura uma Vida inteira acabará com a Vida, ainda que sobreviva como Memória e História.

Durante esses três anos e meio recebi (a maioria via buscas no Google) quase 74.000 visitas, o que dá uma média de mais ou menos 65 visitações por dia. Considero isso um relativo sucesso e me dou por satisfeito. Contudo, o mantra do ressentimento não precisa e não deve mais ser entoado por mim.

As fases de uma vida só são claramente visualizadas no futuro, quando elas já se transformaram em passado. É um momento raro, e eventualmente único, a consciência do início de uma nova fase em sua aurora. É uma experiência desse tipo que motiva o encerramento de meu compromisso com o ressentimento e com a vertigem que significa a Litost do título: Litost é uma espécie de vertigem, uma espécie de desejo de queda, uma palavra tcheca que, segundo Milan Kundera, exprime uma categoria fundamental da experiência humana, sem a qual a compreensão correta da condição humana ficaria incompleta. Pois bem: é chegado o tempo de desejar o fim dessa queda e o início de uma verdadeira ascensão. De uma autêntica criação.

Quem acompanha as postagens pode estar estarrecido com a estranha espécie de otimismo que parece motivar essa postagem, bem como o fechamento do blog. Assim, assumo que é realmente “uma estranha espécie de otimismo” que me faz desejar o rompimento com certo tipo de expressão de idéias e sentimentos que, apesar de inegavelmente verdadeiros (ou provavelmente pretensiosos), são, em grande parte, completamente inúteis.

O “ressentimento” foi escolhido, há três anos e meio, porque representa, para Nietzsche, a experiência fundamental (e silenciosa) através da qual os grupos humanos criam seus valores a partir da fraqueza. A Vertigem que traduz a “Litost” do tcheco não é senão um desejo de sucumbir à essa fraqueza na forma de espetáculo. E nada, nada pode ser mais nocivo à Vida do que a fraqueza. Assim, abandono oficial e publicamente esse compromisso com o espetáculo da fraqueza. Em uma atitude que divertiria qualquer psicanalista, abandono cerca de dez anos de compromisso – primeiramente irrefletido, conscientemente assumidos em segundo momento – com toda uma visão de mundo que, hoje vejo, não eram mais do que uma espécie de engano, de auto-engano, de má-fé (para respeitar um Sartre ao qual já não tenho nenhum amor, mas algum bom débito).

Não, ainda não tenho um projeto claro sobre a continuação das minhas desconexas expressões virtuais. O principal elemento que governa o impulso de fechar o Litost é uma espécie de desejo negativo: não quero mais escrever sob o signo do ressentimento.

Àqueles que me acompanharam nas intermináveis digressões e disparates que constituem o corpo substancial deste blog, deixo aqui meus mais sinceros agradecimentos, bem como uma espécie de adeus, um adeus que é antes um até logo.

Vítor H. R. Costa

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Adeus, 2010!

31/12/2010

Lembro perfeitamente do que estava fazendo há exatamente um ano atrás: estabelecendo metas. 2010 deveria ter sido o “Ano da Disciplina” e meu primeiro exercício de disciplina seria manter, rigorosamente, um diário. Depois de um 2009 virtualmente inútil (o primeiro ano desde 1992 em que eu não estava matriculado em escola ou universidade) marcado por um fracasso nos exames para ingresso na pós-graduação em filosofia, 2010 teria de ser diferente.

E foi.

O ano que se despede vai deixando um relicário de boas lembranças. Foi um ano leve. Foi um ano bonito. Não apenas porque tenho uma matrícula e uma responsabilidade novamente, mas porque penso não ter semeado muitos arrependimentos nos últimos doze meses. Se o diário tivesse sido continuado (continuado? se tivesse sido escrito!) eu talvez pudesse falar mais, em uma postagem mais longa e enfadonha. Por sorte, 2010 não foi o ano da disciplina.

É por isso que não quero fazer nenhum plano, projeto, estabelecer nenhuma meta. Que venha esse ano novo. Quero aqui só me despedir desse 2010 que ficará guardado com carinho na memória. Assim, compartilho aqui uma reflexão precisamente sobre esse tema, a memória. O texto é de Milan Kundera e está em um de seus poucos livros que eu ainda não havia lido, A ignorância.

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A memória, ela também não pode ser compreendida sem uma abordagem matemática. O dado fundamental é a relação numérica entre o tempo da vida vivida e o tempo de vida armazenado na memória. Nunca se tentou calcular essa relação e aliás não existe nenhum meio técnico de fazer isso; no entanto, sem grande risco de engano, posso supor que a memória não guarda senão um milionésimo ou um bilionésimo, em suma, uma parcela ínfima da vida vivida. Isso também faz parte da essência do homem. Se alguém pudesse reter na memória tudo o que viveu, se pudesse a qualquer momento evocar qualquer fragmento do passado que quisesse, não teria nada a ver com os humanos: nem seus amores, nem suas amizades, nem suas raivas, nem sua faculdade de perdoar ou de se vingar se pareceriam com os nossos.

Poder-se-iam criticar indefinidamente aqueles que deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que aumentam a importância de um acontecimento, se calam a respeito de outro; essas críticas são justas (não podem deixar de ser) mas não têm grande importância se não são precedidas por uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana como tal. Do que essa pobre coitada é capaz? Ela só pode reter uma pequena parcela do passado, sem que ninguém saiba por que justamente aquela e não outra, pois essa escolha, cada um de nós a faz misteriosamente, sem o controle de nossa vontade e de nossos interesses. Nada compreenderemos da vida humana se persistirmos em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade tal qual quando ela existiu não existe mais; sua restituição é impossível.

(…)

Imagino a emoção de dois seres que se reencontram depois de muitos anos. Outrora se freqüentavam e portanto pensavam que estavam ligados pelas mesma experiência, pelas mesmas lembranças. As mesmas lembranças? É aqui que começa o mal-entendido: eles não têm as mesmas recordações; ambos retêm do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um retêm as suas; suas lembranças não se parecem; não se encontram; e, mesmo quantitativamente, não são comparáveis: um se lembra do outro mais do que este se lembra dele; primeiro porque a capacidade da memória de cada um difere de um indivíduo para outro (o que ainda seria uma explicação aceitável para cada um deles), e também (e é mais penoso admitir isto) porque eles não têm, um para o outro, a mesma importância.

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Feliz 2011.

PS: Um abraço especial à Galera da Finitude.

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Pele de Asno

24/12/2010

Depois do fim da Dolores/Palo que me deixou em um hiato de alguns anos sem acreditar na possibilidade de ouvir boa música santamariense, meu colega Ronaldo Guerche (Filosofia UFSM da safra 2004) acaba de me presentear com os MP3 de sua nova banda, a Pele de Asno.

Nas nove canções que tive o prazer de ouvir em sua Demo, a Pele de Asno nos oferece um trip-hop esperto e enxuto, com elementos do que eu chamaria de um post-rock flertando com o shoegaze (Ronaldo vai me perdoar, tenho ouvido shoegaze em qualquer chiado de guitarra).

Formada por Luciana Alves – (voz), Ronaldo Guerche – (guitarra), Braziliano – (bateria), Daniel Stringini – (piano) e Lucas Machado – (baixo), a Pele de Asno tem cerca de um ano de atividades, embora (pra meu desgosto) tenha realizado poucas apresentações pela cidade. Tão poucas que, para meu azar, ainda não tive oportunidade de assistir nenhuma.

Ronaldo e Braziliano eu já conhecia desde os tempos em que compunham a Dolores/Palo. Em minha primeira audição, esperava que a presença desses monstros sagrados da cena alternativa santamariense fosse garantia de um som semelhante ao que eu já conhecia e sabia que eles faziam. Contudo, a Pele de Asno tem uma levada e uma atmosfera diferenciada: o vocal etéreo e hipnótico de Luciana é, segundo o próprio Ronaldo, um desafio até na hora das gravações, já que fica difícil prestar atenção nos próprios instrumentos quando ela começa a cantar. Posso imaginar. A bateria do Braziliano não apresenta aquele nervosismo “punk-rocker” do período da Dolores, mas cadencia e dita o ritmo desse trip-hop apropriadíssimo para dias de chuva e fins de tarde. O baixo de Lucas e o piano de Daniel fazem a “liga” que dá a atmosfera na qual o próprio Ronaldo (do qual não vou falar muito para não ser puxa-saco) eventualmente frita a guitarra e eventualmente “riffa” melodias cheias de melancolia.

Meu destaque vai para as faixas que abrem e fecham o disco: “Oeste Neon” e “Epílogo”. A primeira tem uma quebra de andamento genial, que faz com que a canção seja quase duas (ainda quero ver isso ao vivo, Ronaldo!). E “Epílogo” é uma explosão caleidoscópica de sentimentos que fecha a Demo e nos faz esperar logo por novas canções. Cada elemento na canção está absolutamente impecável, e será daquelas que ficará no repeat do meu player por algum tempo.

Com a autorização de Ronaldo, deixo aqui um presente de Natal para quem quiser: as nove faixas da Demo, para download.

MySpace da Banda: http://www.myspace.com/peledeasno

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Talking with Pearce

07/12/2010

Não resisti à tentação e roubei os vídeos gravados por James Evans nos dias do III Colóquio de Ética e Ética Aplicada: Evolução e Transumanismo. Roubei e ainda os joguei no YouTube. Neles, pode-se ver minha tentativa de discutir algumas questões com o filósofo, em um inglês relativamente joelsantânico. Também estrelam os vídeos a querida colega Lauren Nunes, o jovem e promissor talento Jonathan Dalmolin (que confessou, ontem, que traiu o clã fenomenológico-hermenêutico, fato pelo qual ainda não consegui conter as lágrimas), o professor Ricardo Bins di Napoli, o idealizador, realizador e organizador Gabriel Garmendia e grande elenco. A estrela, claro, é David Pearce; James Evans, com a câmera em mãos, não aparece. Pra quem quiser dar uma conferida, seguem os vídeos.

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Excertos do subsolo – A moça que fuma

04/12/2010

Sou um homem do subsolo. Portanto, como todo homem do subsolo, forjado no ressentimento. Uma incapacidade de fruir as alegrias simples dos homens comuns deveria me fazer odiá-los, mas até isso já passou: uma espécie de “princípio de compostura” me ensinou a simular um homem comum ao ponto em que conduta e fingimento se tornaram um. Curei-me do ressentimento. Sem ele, perdi minha interioridade e tornei-me personagem de mim, por trás do qual já não há ator (embora “títere”, penso, seja uma metáfora mais apropriada). Mas, por costume e por não saber (ou querer) fazer diferente, permaneço no subsolo, com meu cigarro e minha finitude. E como qualquer ser humano, ajo segundo a correção moral e quero ser exemplo. O curioso é que quero ser exemplo negado: nada me aborrece mais do que meus iguais, os homens do subsolo. São vocês, os homens comuns, que me divertem com o espetáculo da sua ingenuidade: crêem na felicidade, no amor, na liberdade e eventualmente crêem viver tais ilusões como se fossem realidades – pior, como se fossem possibilidades! Nos tempos do ressentimento confesso que os invejei. Hoje, não saberia viver sem a umidade do subsolo, sem assisti-los escondido nos bueiros, sem os ocasionais passeios na superfície quando, disfarçado de gente, me faço passar por um de vocês. Já não desejo que cada um de vocês passe uma temporada no subsolo, vocês se tornariam enfadonhos se sobrevivessem. Vocês me divertem tanto que eu quase seria capaz de prometer que ergueria a mão em sua defesa diante de qualquer tirano que desejasse salvá-los de si mesmos e, portanto, me privar de minha única diversão, a saber, essa brincadeira que vocês tornam perigosa levando a sério e chamam “vida”.

Mas, devo confessar: sou péssimo em cumprir promessas. Prometi – a mim mesmo, o que é um contra-senso – que não falaria mais das mulheres que fumam. Sobretudo dessas, que fumam em cafés, compenetradas em suas leituras ou escritos, magras, de cabelos negros, de olhar angustiado e marcadas pela finitude e pela insatisfação. Essas mulheres do século XX, de cabelos negros e olhos delineados, que cultivam o hábito masculino de alimentar o espírito. Em primeiro lugar, porque elas deixaram de existir antes de existir e, mesmo assim, as procuro todos os dias. Minto: as espero, apenas, mesmo que seja uma esperança convicta do próprio fracasso, plena da certeza de que não as encontrarei. Acostumei-me a esperá-las porque mesmo que elas não existam, acabam vez ou outra esbarrando em mim nas filas, nos restaurantes e nas madrugadas. E as noites que posso passar em seus braços aspirando esse aroma misto de finitude e insatisfação que seus corpos exalam são, sem dúvida, a melhor justificativa para os passeios na superfície. Vejam bem: refiro-me aqui a lábios, seios, pernas e pêlos que não existem e que talvez, apenas por não existirem, possam ser justificativa de qualquer coisa.

O leitor comum pode – e deveria! – estar perturbado com todo esse flerte com a contradição, o que não é surpreendente: esconder contradições profundas com contradições superficiais faz parte dessa atitude levar a sério as brincadeiras – que, aliás, já é uma contradição. A diferença é que no subsolo nós vivemos em paz com a contradição. Talvez seja a umidade, a escuridão ou a claustrofobia essencial de viver encerrado em si. Não pensem, aliás, que não incorremos no mesmo pecado que vocês: nosso próprio ressentimento cumpre para nós o papel que vocês destinam, por exemplo, ao amor. Eu mesmo não teria aprendido isso sem os passeios pela superfície, enquanto procurava (esperava, melhor dizendo) encontrar as mulheres que fumam e me via obrigado a esquivar das que guincham (ou, alternativamente, contentar-me com elas).

Na hipótese de estar sendo lido por uma dessas mulheres (das que existem e, portanto, guincham) sou capaz de antever as objeções: “Há, homem do subsolo, tão diferente dos homens da superfície e, no entanto, só quer ver-se aninhado entre um belo par de pernas!”. Quisera ouvir essa crítica em pessoa, para poder sorrir e dar a única resposta possível: “Querida, somos homens do subsolo, mas somos homens!”. Talvez a diferença é que não desejamos entupir suas entranhas com sementes e desesperos e produzir essas gerações híbridas que o século XX viu, década após década, oscilar entre o subsolo e a superfície, em um desajuste perpétuo. Conhecemos o perigo: essas gerações de meninos e meninas, compostos por dois sangues opostos, cheios de energia e frígidos para os prazeres da superfície poderão – e quase sempre o fazem – tornar-se seus algozes, tiranos e profetas. São os tipos que enfiam uma espingarda na boca e acabam com a brincadeira quando se vêem cercados de tudo o que queriam, só por perceber que não valia nada, afinal. Pobres criaturas híbridas, lamento seu destino.

Volto, porém, à moça no café. Ela fuma, lê, escreve, bebe café, tem cabelos negros e as linhas dos olhos acentuadas por maquiagem. Veste preto. Seu olhar oscila a atenção entre a leitura e as páginas que escreve. Folhas brancas, sem linha. O que lê? Não faço idéia. É literatura. Literatura universal, daquela que não tem fronteiras, que é da humanidade. Dostoievski? Kafka? Talvez Camus ou Sartre? Dificilmente estará lendo a obra de outra mulher (exceto se for Virginia Woolf), pois mesmo a mulher que fuma é rival das que guincham. Não, a mulher que fuma não é a mulher do subsolo: os homens da superfície são amigos, se abraçam; os do subsolo andam em bandos, como corvos e odeiam os da superfície, que em geral nem imaginam que existimos. As mulheres que fumam, que guincham, que gostam de flores, as que são mães, filhas, belas, horrendas, as velhas, as meninas em flor, as famosas e – arrisco dizer – as que não nasceram ainda ou já morreram se odeiam mutuamente, todas. “E as mulheres do subsolo?”, perguntaria qualquer uma destas, ferida em sua vaidade. “São nossas irmãs.”. Não são, portanto, mulheres.

A moça no café fechou o livro. Apagou o cigarro no cinzeiro. A xícara já estava vazia. Ela não olha para os lados, senão muito rapidamente. Evidentemente, me olha. Não existe, mas me olha. É preciso não existir para poder ver os que existem pela metade, semitransparentes, fantasmagóricos e esmaecidos pela pressão atmosférica do subsolo. Nos olhos de uma moça que não existe um homem do subsolo, como eu, ganha plenitude. Em seus lábios, com sabor de café e cigarro, um homem do subsolo como eu ganha substância. Para facilitar, digo que ela me conhece. Felizmente até as moças que não existem são incapazes de detectar o odor do subsolo, nem sabem que ele existe (mesmo nossas irmãs do subsolo vivem em outra dimensão e tomam o subsolo pelo cume de um monte, mas essa é outra história). Sorrio, e isso basta. Ela se aproxima e eu descubro o que ela estava lendo e escrevendo. Conversamos. Eu falo do subsolo, através de um bueiro, e a vejo na superfície. Na superfície, ela vê apenas meu fantasma, substancializado e pleno, e julga estar comigo. Encantá-la é fácil e é impossível não agitar, como um satélite, as marés de seus sentimentos: mesmo que eu afirmasse que sentimentos são melhores experimentados quando ela lê seu romance ou ouve música, dizer isso já é magnético. A insatisfação fundamental da moça que fuma faz com que suas marés estejam sempre a espera de alguma Lua. Assim, não me surpreendo em ver-me logo em seu quarto, em seus lençóis, envolvido em seus braços e pernas, fruindo seu aroma de cigarro e perfume de flores, aromas que tornam o ar da superfície respirável. Com melancolia, sou obrigado a confessar: acabo de assistir, do subsolo, meu fantasma deitar-se com uma moça que não existe.

Não há salvação: abandono a moça que fuma e retorno ao subsolo onde, como sempre, acordo. A moça permanecerá naquele café, com seu cigarro, seus olhos delineados, vestindo preto. Permanecerá lendo, escrevendo e soprando com angústia a fumaça do cigarro. Permanecerá não existindo. Quanto a mim, estarei no subsolo, dividindo meu tempo entre espioná-la e passear na superfície. Força do hábito? Não sei, mudar é difícil. Mas não o desejo, de qualquer forma. Agrada-me que tudo seja assim.

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Cadernos Sartre, novamente!

01/12/2010

Tenho em mãos, pela segunda vez, uma nova edição dos Cadernos Sartre, organizado pelo GES (Grupo de Estudos Sartre) da Universidade Estadual do Ceará. Novamente com nove artigos, a terceira edição dos Cadernos Sartre oferece um amplo leque de temáticas sartreanas, trabalhadas pelos autores nas diversas perspectivas em que este polivalente filósofo pensava: ontologia, fenomenologia, psicologia, história e literatura.

Meu destaque nesta edição vai para o artigo do professor Simeão Donizeti Saas. Professor na UFU, Prof. Saas manipula com maestria os conceitos das fenomenologias de Sartre e de seu mestre Husserl, aproximando do pensamento sartreano a noção de “vivência”. Através dessa aproximação é possível visualizar com clareza a perspectiva a partir da qual Sartre critica a primazia epistemológica que a filosofia francesa do século XX herdara do pensamento moderno.

Confesso que as atribulações de fim-de-semestre não me permitiram uma leitura adequada de todos os artigos. Chamo atenção também para dois trabalhos em psicologia das emoções presentes na edição: no primeiro, Zuleica Pretto, Fabíola Langaro e Maria Aparecida Oltramari – todas as três autoras oriundas da área da psicologia – nos oferecem a descrição de um momento “clínico” de psicanálise existencial através da articulação da noção de “projeto de ser” com o papel das emoções dentro deste. No segundo, Jéferson Passig – também da psicologia e com formação em psicologia existencialista pelo NUCA – versa sobre o “Esboço Para uma Teoria das Emoções”, texto clássico e anterior ao Ser e o Nada, onde Sartre esboça uma psicologia fenomenológica das emoções.

Se na edição anterior Francisco Júnior Damasceno Paiva e eu discorremos sobre temáticas parecidas, desta vez Paiva nos oferece uma leitura sobre a atualidade da “Crítica da Razão Dialética” e seu debate contemporâneo nas penas de filósofos como Frederic Jameson e Leandro Konder. Meu próprio artigo não é senão uma breve reconstrução das três noções centrais que constituem o conceito de má-fé na ontologia fenomenológica de Sartre, a saber, mentira, crença e conduta.

Temos ainda, completando a lista, José João Neves Barbosa Vicente com “A Fenomenologia de Husserl e o problema da liberdade em Sartre”, Danilo Linard Teodosco e Sônia Meneses com “A problemática do engajamento literário no conto ‘O Muro’ (1938) de Jean-Paul Sartre”, Carolina Mendes Campos e Fernanda Alt versando sobre determinismo e liberdade em “Os Dados Estão Lançados” e Ariane Patrícia Ewald e Tais de Lacerda Gonçalves falando de compreensão de existência e narrativa literária.

Para entrar em contato com o GES da UECE, o e-mail é sartre@uece.br

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Admirável Mundo Novo?

23/11/2010

A natureza não é um idílio, mas um inferno: a quantidade de sofrimento presente a cada instante na natureza é incomparavelmente maior que a quantidade de satisfação ou prazer. Tente comparar o prazer do predador que devora uma presa, com a agonia desta. A única salvação é suprimir, de uma vez por todas, esse sofrimento. Não, esta não é uma postagem sobre Schopenhauer, mas sobre o transumanismo de David Pearce.

David Pearce é um filósofo inglês utilitarista. Ele e seu amigo James Evans estiveram, por cinco dias, participando do III Colóquio de Ética e Ética Aplicada: “Evolução e Transumanismo”. Pearce foi a estrela das manhãs do evento, discursando sobre o chamado “Projeto Abolicionista”, a saber, um projeto de “engenharia do paraíso” que encontra representação em não poucos setores da ciência. O projeto pretende, em termos gerais, abolir todas as formas de sofrimento do espectro da experiência humana através da engenharia genética, da farmacologia e da tecnologia em geral.

Confesso que, desde o primeiro momento, fui mal-intencionado para o evento. Já conhecia alguma coisa sobre o assunto, por ter como interlocutor o colega Gabriel Garmendia (idealizador, organizador e realizador do evento, aliás), que pesquisa tais assuntos. A idéia da manipulação genética para realização de fins tais como interrupção do envelhecimento, abolição da experiência de sofrimento e promoção de um tipo totalmente novo e indescritível de experiência – pensada a partir do binômio prazer/mais-prazer – representava para mim a destruição da espécie humana. Qualquer um que estivesse comprometido com tal projeto era, em algum sentido, um suicida que queria acabar com aquilo que lhe constituía mais fundamentalmente. O desejo de acabar com todos os males deste mundo só poderia ser explicado por um completo desajuste com o mundo tal como está; um juízo de valor que aposenta toda nossa história, cultura e civilização como um enfado a ser esquecido em um paraíso futuro. Não sei se perdi tais impressões, mas tenho que confessar: David Pearce e James Evans eram “very nice guys”.

Depois da primeira conferência de Pearce, pela manhã de quarta-feira, fiz minha primeira pergunta para o sujeito: como pensar a ação humana para além do binômio prazer/dor? Porque realmente não consigo pensar a ação humana sem a experimentação da lacuna a ser preenchida como sofrimento em algum nível. Pearce me falou alguma coisa sobre cérebros e receptores que meu inglês limitado e meus conhecimentos em biologia ainda mais limitados não permitiram que eu compreendesse. Depois, falou que o binômio “prazer/mais-prazer” (na verdade um gradiente de múltiplos níveis) reproduz as condições motivacionais necessárias para a ação humana. E finalmente disse que pessoas felizes querem ficar mais felizes, enquanto pessoas depressivas permanecem presas em um círculo de sofrimento que as vezes não pode ser rompido sequer quimicamente, portanto, era moralmente aceitável uma intervenção em nível genético para prevenção de tal sofrimento.

Também quis saber, como bom gótico que sou, sobre a experimentação prazerosa de certas formas de sofrimento, como a melancolia, por exemplo. Para argumentar, propus uma idéia minimamente bidimensional de ser humano, com um nível profundo e um superficial, onde, em nível profundo, seria impossível negar que “sempre desejamos um bem”, mas que isso assume formas absolutamente diversas em um nível superficial (eu me referia, por exemplo, ao tabaco, que não parece o melhor exemplo de “bem em si mesmo” mas que aparece como desejável para muitas pessoas). Ele concordou em parte, mas admitiu que o transumano tem justamente a intenção de planificar esses dois níveis, e fazer coincidir esse bem formal com o bem prático. Isso me soou totalitário. Pearce então confessou uma fé na possibilidade de que um aprimoramento da condição humana possibilitará uma pluralidade indescritível no nível da singularização e da pessoalidade. E foi politicamente correto: falou que a abolição do sofrimento pode ser uma “abolição do sofrimento involuntário”, que o transumano preserva e potencializa a liberdade a tal ponto que quem quiser continuar experimentando esse “sofrimento gostosinho” poderá fazê-lo. Não consegui me livrar da impressão de que esse argumento é político e que, depois de algumas gerações de pessoas mais-felizes, existencialistas góticos como eu desapareceriam da face da terra. Em última instância, depois do almoço com a colega Lauren Nunes, fiquei com a impressão de que pertenço à uma espécie em marcha de extinção, a saber, a espécie humana.

Depois, entre a tarde de quarta-feira e a noite de domingo, tive quatro dias de cicerone e veganismo: evidentemente, como um abolicionista, Pearce é vegano e não admite causar sofrimento à outro ser senciente. O sofrimento é o fundamento de sua ética global. Durante esses dias, entre conferências, cafés, almoços, jantares e passeios, fui convidado diversas vezes “to join the cause” da abolição do sofrimento. Fiz e vi muitas outras questões pertinentes serem levantadas: benefícios genéticos não podem promover uma civilização dividida entre transumanos imortais e escravos mortais? Transumanos, por sua condição, serão necessariamente mais morais que nós e poderão impedir o estabelecimento de uma burguesia – ou mesmo de uma aristocracia – perpétua à servir-se de uma classe inferior – os humanos? Como lidar com o paradoxo de uma transumanidade que controla sua reprodução e seu envelhecimento? Como lidar com o dilema moral de que o abolicionismo exige um progresso técnico para o qual o sofrimento de animais, como objetos de experiências científicas, é imprescindível? Trabalhar na construção de um futuro indescritível não é apostar, jogar dados? E em uma linha que segue Heidegger e Huxley, o que dizer sobre o sentido de uma existência sustentada pela técnica e para a técnica? Não nos transformamos, no fim, em meios e objetos de e para uma técnica-sujeito?

Foram questões discutidas, como eu disse, em meio à uma agradável e amistosa atmosfera de fruição (hedonista?) de momentos belíssimos, que deixaram boas lembranças. Quando, na última conferência – um debate entre Pearce e dois biólogos brasileiros – Pearce foi confrontado com os limites e as dificuldades do estado-da-arte de nossas ciências, não vi tanto um filósofo, pensador ou cientista à responder, mas um profeta. Um profeta que, armado de consciência histórica e fé, acredita que podemos tomar nós mesmos as rédeas da evolução e transformar lobos em ovelhas, construir uma comunidade global de criaturas superiores. Domingo, pela noite, ao nos despedirmos de David e James, no Morotin da faixa nova, fiquei ao lado de James na última foto. Dessa vez, diferentemente das outras fotografias, não dissemos “vegan cheeeese” para aparecer sorrindo nas fotos. James, ao meu lado, entoava – ou invocava, como em uma oração – os valores transumanistas: “infinite bliss”, “love”, e mais algumas sete ou oito palavras que expressavam sua fé em nossa capacidade de evoluir racionalmente. Senti que estávamos nos despedindo de dois profetas de um mundo novo.

De um admirável mundo novo.

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Crédito das imagens: Gabriel Garmendia.

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“Ladeira abaixo”

09/11/2010

“A verdade é que essa excelente opinião sobre mim mesmo decaiu bastante. Hoje me sinto vulgar e, em alguns aspectos, indefeso. Suportaria melhor meu estilo de vida se não tivesse consciência de que (apenas mentalmente, claro) estou acima dessa vulgaridade. Saber que tenho ou tive em mim mesmo elementos suficientes para me alçar a outra possibilidade, saber que sou superior, não em demasia, à minha esgotada profissão, às minhas poucas diversões, ao meu ritmo de diálogo: saber tudo isso não me ajuda por certo a me tranqüilizar, pelo contrário, faz com que eu me sinta ainda mais frustrado, mais inapto para sobrepujar as circunstâncias. O pior de tudo é que não me ocorreram coisas terríveis que me cercassem (bem, a morte de Isabel é algo forte, mas não posso chamá-la de terrível; depois de tudo, existe alguma coisa mais natural do que partir deste mundo?), que freassem meus melhores impulsos, que impedissem meu desenvolvimento, que me prendessem à uma rotina anestesiante. Eu mesmo fabriquei a minha rotina, mas pelo caminho mais simples: a acumulação. A segurança de saber-me talhado para algo melhor colocou em minhas mãos a postergação, que no final das contas é uma arma terrível e suicida. Daí que minha rotina não tenha tido nunca caráter nem definição; sempre foi provisória, sempre constituindo um rumo precário, a ser seguido apenas enquanto durava a postergação, apenas para agüentar o dever da jornada durante esse período de preparação que, ao que parece, eu considerava imprescindível, antes de me lançar, em definitivo, à cobrança de meu destino. Que bobagem, não? O resultado agora é que não tenho vícios (fumo pouco, e vez por outra, quando estou enfadado, tomo um traguinho), mas creio que já não poderia deixar de me postergar: este é meu vício, por outro lado incurável. Porque, se agora mesmo eu decidisse garantir por meio de uma espécie tardia de juramento: “Vou ser exatamente o que quis ser”, seria inútil. Primeiro, porque sinto a escassez de minhas forças para realizar qualquer mudança de vida e, depois, porque de que vale para mim aquilo que eu quis ser? Seria algo assim como me lançar conscientemente em uma senilidade prematura. O que desejo agora é muito mais modesto do que aquilo que desejava há trinta anos e, sobretudo, importa-me muito menos obtê-lo. Aposentar-me, por exemplo. É uma aspiração, naturalmente, mas uma aspiração ladeira abaixo. Sei que chegará, que virá por conta própria, sei que não será preciso que eu faça nada. Assim é fácil, assim vale a pena entregar-se e tomar decisões.”

Em A Trégua, de Mario Benedetti.

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Dialética do Desejo

08/10/2010

TESE

Felizmente era permitido fumar no mezanino. Deus sabe o que eu teria feito se não tivesse podido dissipar meus sentimentos na fumaça daqueles cigarros. Sem eles, eu não teria sequer conseguido enfrentar os dias que se seguiram àquela experiência. Como era possível que uma situação completamente fortuita tivesse transformado tão completamente minha vida? A resposta eu sabia: sempre estive esperando por aquilo, mesmo que não soubesse disso. Saber disso, lhes aviso, não torna menos desesperador o momento em que a coisa acontece e você tem de lidar com ela. Alerto-lhes, sobretudo, para isso: tomem cuidado, pode acontecer a qualquer momento.

Não houve preâmbulo, não houve nada que preparasse as centenas de espectadores para aquilo. Quando uma beldade, ainda que seja pouco mais que uma menina, surge completamente nua no palco e entoa a maior apologia do hedonismo que se pode ouvir, é absolutamente milagroso que a platéia não lhe caia em cima, como uma nuvem de abutres, tomados de desejo. Foi assim que vi Anna pela primeira vez.

Seu discurso não era nada simples. Era uma defesa melancólica do prazer como última ilha de sentido em uma vida finita que, como ela, era completamente nua, despida de qualquer razão de ser. A cada frase, que fumegava de seu belíssimo rosto angustiado, aquela mulher – aquela menina!? – tocava seu corpo e convidava a platéia metafórica e literalmente, para o gozo. Seus seios, seus pêlos, seu corpo se ajoelhando e abrindo os braços implorando por calor estava deixando o público mais que inquieto. Nesse ponto eu já tremia e chorava.

Eis que seu solilóquio é interrompido por um interlocutor imaginário. Um mal-feitor, um estuprador invisível que dobra seu corpo, se debruça sobre ela. Está ali, todos o vemos juntos, mas é invisível. Seu corpo, agora tão delicado, é a imagem de sua liberdade violada. Chora, grita, tenta soltar-se das garras daquele monstro, a quem todos queremos matar. Não sei o que impediu um daqueles senhores das primeiras filas de saltar ao palco e cair de socos no ar sobre o corpo nu daquela moça. É violentada, seu corpo se contorce e ela chora. Quer morrer. Queremos morrer com ela, porque não queremos viver em um mundo onde um anjo como ela sofre com tal violação.

O vilão, tão imundo quanto etéreo, se satisfaz. O que resta é uma moça nua em um palco de madeira, com os cabelos em desalinho e o corpo coberto por arranhões e poeira. Ela ainda chora. Eu já morri por ela e não sou mais o mesmo, só perceberia quando alcançasse a calçada, minutos depois. Mas ela precisa mostrar que nos transformou. Certamente não a todos: muitos terão que deixar esta experiência escorregar para o esquecimento para poder continuar com a vida. Alguns, como eu, não terão uma vida que possa fazer aquilo ser esquecido. Ela nos conta sua solidão. Nos conta que seu hedonismo é uma fuga e sua liberdade o capricho que distingue aquele estupro de tantas outras noites de falsos amores. Sua recusa era a única maneira de fazer o desejo dos homens mostrar sua verdadeira face. Chorava a dor de sua solidão e o amor que sentia por aquele violador sincero. As luzes se apagaram. Com um cigarro aceso, desabei histericamente em lágrimas. Todos a entendíamos, todos a amávamos.

 

ANTÍTESE

Nunca imaginei que depois de ter concluído meus estudos voltaria a vê-la. Mesmo assim, se eu estava ali era por causa dela: jamais teria procurado a verdade do desejo na psicologia se ela não tivesse me mostrado seu belo corpo ávido de verdade naquele palco. O que aquela atriz teria a me confessar no divã?

Era precisamente o contrário. Sua completa incapacidade de se relacionar as outras pessoas se dissimulava sorrateiramente sob uma personalidade magnânima. Atraía a todos, como um ímã. Mas não lhes desejava nada: nem mentira, nem verdade. Honestamente, a companhia dos outros era sempre enfadonha e ela não podia ser sincera. Mas algo não fazia sentido: falava como se não fosse sujeita a mesma torrente de necessidades dos demais. Não falava de pessoas. Falava de um rebanho que, em seu discurso, parecia se suceder com a velocidade de grãos de areia ao vento sobre a terra. Não fazia distinção entre homens, mulheres ou crianças – todos eram, na verdade, um pouco crianças. Precisava de um novo propósito, uma companhia com quem pudesse dividir sua perspectiva. Nesse momento, senti minha espinha enregelar: ela não viera perguntar, nem me oferecer material para análises intelectuais. Era um convite. Um segundo momento que confirmava o primeiro, no palco, e lhe dava sentido. Aquela peça fora um campo de caça e eu, uma das presas. Teria tentado outras? Nunca soube. Mas, evidentemente, não resisti quando ela me ofereceu um lugar a seu lado pelo resto de minhas noites. Era para isso que, afinal, eu tinha me preparado.

Despiu-se do vestido e fui tomado pela vertigem de ver aquele corpo, meu mais absoluto objeto de desejo e raiz última de todos os traços vagamente estáveis de meu caráter. Desejei seu corpo. Ela, por sua vez, queria minha vida, por inteiro. A metáfora tinha mais poder do que eu supunha, mas devo confessar que, por anos, Anna me ofereceu as melhores noites que eu jamais pudera imaginar.

 

SÍNTESE

A tarde cinzenta é a imagem da melancolia. Quando vem acompanhada do vento frio, leva para longe qualquer aura de resignação, nos atirando na mais pura angústia: é a certeza de que algo precisa ser feito e de que nada dará certo. Então, fica o aviso: jamais exponha o amor ao vento das tardes cinzentas, sob a pena de vê-lo afastar-se para sempre no horizonte inatingível.

Evidentemente, eu não soube disso desde sempre. Mas a verdade é que eu e Anna já não tinhamos mais o que falar. Dividíamos a nossa vida, ela me transformou nela própria e por algum tempo se divertiu com o que eu tinha a oferecer. Narcisismo masoquista, o prazer de transformar os outros no nada que se é. Mas, em nosso modo de viver, é impossível evitar para sempre os caminhos desertos do tempo. Caminhávamos de mãos dadas, sentávamos, olhávamos as nuvens, as crianças, as árvores, os pássaros. O desejo, imagem incendiária de seu corpo nu e depois descoberto como farsa, estava ausente de nossa vida em tons-de-cinza. Já não havia nada que pudéssemos querer. Já não havia nada que pudéssemos oferecer um ao outro. E o pior, é claro, é que sabíamos disso.

Foi naquela tarde que decidi falar. Ela já havia vivido mais tempo do que eu e, sem a Morte para esperar no final, a cada dia nos tornamos melhores mestres da paciência (é de se estranhar que a vida acabe se tornando esse deserto cinzento?). Estávamos sentados à grama e o vento soprava.

“Vou embora.”

“Pra onde?”

“Pra longe de você. Precisamos de algo diferente. Estamos mortos.”

Ela riu. Eu não sabia, naquele instante, o que ela poderia dizer.

“Há muito que estamos mortos.”

“Não. É recente.” Eu diria mais alguma coisa, mas ela riu de novo. Olhava-me com terna compreensão, quase compaixão.

“Não diga mais nada. Dê-me um último beijo. Eu prometo que antes de poder tornar esta separação mais dramática, você estará livre de mim. Beije-me e, quando abrir os olhos, eu terei desaparecido.”

Eu não havia percebido até então. Depois de dizer aquilo, Anna estava nua. E as nuvens melancolicamente coloridas, em tons róseos que davam à tudo o terrível tom onírico que eu temia. Ela estava certa: se eu percebesse que não estávamos de fato ali, tornaria tudo mais difícil. Segurei seu rosto e fechei os olhos. Não queria mais abri-los. Mas, quando o fiz, tive de constatar triste e inutilmente que Anna havia ido embora antes que eu pudesse acordar, levando junto minhas ilusões e me deixando seu destino.

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Sobre cinco ou seis discos

20/09/2010

Há algum tempo eu não falo de música por aqui. Mas o lançamento recente de alguns álbuns por parte de alguns artistas que acompanho motivou algumas palavrinhas.

Arcade Fire – The Suburbs

Tenho que começar mencionando aquele que achei o menos interessante dos álbuns lançados recentemente. Depois de um primeiro álbum genial e de um segundo não menos cativante, o Arcade Fire parece ter perdido a sensibilidade. Não é sem sofrimento que critico aquela que é uma das minhas bandas favoritas e, em minha opinião, uma das melhores da década que passou. A impressão que tive ao ouvir The Suburbs foi a mesma que tive ao ouvir o In Rainbows do Radiohead: os caras juntaram um balaio de músicas fracas demais pra entrar nos discos anteriores e, se aproveitando da fama, do público e da respeitabilidade consequentemente adquiridas, deram um sentido pro entulho acomulado em meia década de produção. São assim euforicamente acolhidos pela legião de fãs e atendem as demandas de produção que, infelizmente, não poupam nem mesmo a arte dita alternativa.

Interpol – Interpol

Se o The Suburbs representa uma queda na pequena história do Arcade Fire, o quarto disco do Interpol é um verdadeiro salto evolutivo na discografia da banda. Resgatando alguns elementos daquilo que se pode chamar de “post-punk revival” que caracterizavam o primeiro disco, o Interpol nos presenteia com um quarto álbum que é muito mais difícil de ouvir que o Antics e o Our Love to Admire, mas justamente por exprimir uma maturidade alcançada depois de dez anos de atividade. A voz de Paul Banks já não soa trovejante como antigamente, e suas letras manifestam sentimentos que não encontravamos nos discos anteriores (como o despeito e a resignação das duas músicas que encerram o disco). Podemos notar até mesmo que o disco se divide em um lado A, mais fácil de ouvir, e que transfigura-se em um nítido lado B a partir da faixa 6, exatamente como era no primeiro, Turn on The Bright Lights. Imperdível, altamente recomendável.

Film School – Fissions

Mais uma banda com cerca de dez anos e que chega a seu quarto disco, o Film School foi minha porta de entrada no shoegaze. O primeiro disco, Brilliant Career, é simples. Os dois que o seguiram – Film School e Hideout - constituem um bloco de genialidade quase indiscernível, cheios de músicas capazes de arrebatar não apenas os fãs do gênero shoegaze como os ouvintes do mais nervoso indie rock. O quarto disco, contudo, parece uma tentativa de popularizar ainda mais o som. Tentativa que, em minha opinião, descaracterizou aquele misto de noise e indie ao optar por uma fórmula mais pop. O disco é bom, contudo, e continua agradando os fãs de ambos os gêneros. Mas provavelmente não arrebatará os ouvintes com aquela avalanche de hits-por-disco dos dois anteriores.

Escarlatina Obsessiva – Endemic

Depois da pandemia, a endemia. O disco mais curto mostra que a doença está mais localizada. Mas continua intensa. Diferentemente das bandas anteriormente citadas, o post-punk da Escarlatina Obsessiva não é “revival”, é puro: seu rock punk-gótico permanece cheio da mesma vitalidade que abre o primeiro disco com o baixo perturbador e a bateria punk que catapultam o ouvinte para a batcave e para os anos 80. E a vitalidade da Escarlatina Obsessiva percorre todos os três discos de forma contínua e crescente, para chegar ao quarto disco de maneira impecável. Para quem quiser conferir o trabalho daquela que é a melhor banda de “rock gótico” em terras tupiniquins, vale dizer que é possível fazer o download de canções dos dois últimos discos diretamente da página da banda na Last.fm.

Você pega o Endemic aqui.

Loomer – Mind Drops & Coward Soul

Mais uma banda brasileira que exige menção honrosa aqui. Não pelo fato de ser a única que tive o prazer de ver ao vivo, mas por ter, em seus dois EPs, produzido uma pequena, mas sensivelmente rica, amostra do mais puro shoegaze noventista. Se Escarlatina Obsessiva nos faz passar a noite na batcave dos 80s, nada melhor do que ouvir o som da Loomer na ressaca ensolarada do dia e da década seguinte. Séries de cortinas sonoras de um My Bloody Valentine, somadas à pegada de um Dinosaur Jr e o nervosismo noise do Sonic Youth são coroados pelos vocais etéreos se sobrepondo em avalanche e formando uma unidade enfeitada com riffs ou barulheira pura de forma muito esperta. Tudo isso é genialmente mesclado em dois EPs que, não obstante, nos oferecem um som cheio de personalidade e identidade.

Você pega o Mind Drops aqui e o Coward Soul aqui.

PS: Seus problemas acabaram, você pode ouvir toda a música que quiser na vida, você é livre pra isso agora graças ao “Fantastic and Awesome Last.fm Free Music Player for Google Chrome“, que é uma extensão para o Chrome que, uma vez instalado, permite que você ouça as músicas inteiras direto da página do Last.fm através de um recurso que, se entendi direito, recorre à servidores russos com direito à scrooble e tudo (porque na União Soviética a música faz scrooble em você). Se você gosta do Chrome, então, pode dar um “Shift + Del” nos gigas de MP3 que você tem no PC.

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O platonismo do aroma de Patrick Süskind

01/09/2010
Ao lado do Das Glasperlenspiel de Hermann Hesse, o livro mais interessante que li esse ano é, sem dúvida, O Perfume (Das Parfum, die Geschichte eines Mörders), do escritor alemão Patrick Süskind.
Publicado em 1985, o livro nos apresenta um enredo com pelo menos um pé no fantástico: na Paris do século XVIII nasce, no meio do lodo de uma feira de peixe, Jean-Baptiste Grenouille, sujeito dotado de uma capacidade olfativa absolutamente extraordinária. Essa capacidade olfativa determinará Grenouille de um modo dramático: odores e aromas constituirão a única categoria de objetos do desejo de Grenouille. Mais precisamente um tipo especial de aroma. Tal condição levará Grenouille a se transformar em um assassino, obsessivo pela idéia de colher a fragrância de um certo tipo de pessoa (a saber, virgens ruivas dos olhos verdes) que simplesmente lhe causa um intenso prazer.
A narrativa de Süskind é impregnada de uma ironia que realça os contornos do fato de que Grenouille viverá perpetuamente alienado dos interesses humanos, incapaz mesmo de estabelecer um único vínculo pessoal com quem quer que seja. É verdade que Grenouille se torna, no decorrer do romance, o maior perfumista que poderia existir, através das lições de Giuseppe Baldini, perfumista outrora renomado, mas então incapaz de produzir um só perfume de qualidade. Contudo, esse vínculo só será mantido na medida em que é interessante à Grenouille o aprendizado da técnica da conservação do aroma. Quando finalmente se apropria de tais técnicas, Grenouille só tem um objetivo: compor um perfume que sintetize os diversos aspectos do único aroma que lhe atrai. Depois de mais de vinte assassinatos de jovens donzelas e da extração do aroma de seus corpos, Grenouille é preso. Contudo, quando seria executado em praça pública, Grenouille perfuma a si mesmo com uma gota do perfume composto pelas essências das jovens virgens. O suficiente para fazer a multidão inteira de espectadores da execução simplesmente cair em êxtase de admiração e louvor à Grenouille, completamente seduzidos por seu perfume. O êxtase de encanto dá lugar à uma orgia coletiva da qual Grenouille se aproveita para simplesmente fugir.
Munido de um frasco de seu perfume, Grenouille está convencido de que pode dominar o mundo pela majestade do aroma que compôs. Porém, está evidente de que ele próprio está impossibilitado de viver a experiência do arrebatamento que seu perfume é capaz de provocar. Assim, ao encontrar um bando de famintos ao redor de uma fogueira, Grenouille despeja sobre si mesmo todo o conteúdo do frasco. O que primeiro se torna um fascínio coletivo no qual cada um dos presentes precisa simplesmente tocar em Grenouille evolui para uma vontade de se apropriar daquele anjo. Grenouille é então devorado vivo pelos famintos e o romance acaba.
Em alguns lugares da rede é possível encontrar comentários à obra de Süskind que o vinculam à Freud e a psicanálise. Contudo, vejo antes um elemento essencialmente platônico na personagem de Grenouille e em seu dom. Pois se por um lado Grenouille não distingue entre aromas bons ou maus (marca distinta dos animais civilizados para a psicanálise) e acaba com isso habitando uma região a-moral a existência, onde o único valor advém de seu objeto de desejo (ou seja, é um psicopata em sentido estrito), a objetividade do valor do aroma amarra Grenouille à Platão de uma forma muito peculiar. Vou explicar.
Grenouille não se sentiu arrebatado por um cheiro entre outros, seu encanto não foi fruto de uma organização subjetiva de valores. Grenouille sentiu, nas virgens ruivas, aquele que é o melhor aroma de todos entre os humanos. E a prova disso é o efeito que seu perfume exerceu sobre as multidões: Grenouille era, portanto, anormalmente capaz de reconhecer o perfume objetivamente “bom”, de um modo impossível aos seres humanos. Com sua capacidade extra-normal de manipular aromas e lembranças de aromas para as quais sequer existiam nomes, Grenouille foi capaz de construir uma espécie de “aroma do Bem”, em analogia à idéia platônica de Bem.
[Com relação às "lembranças de aromas" para as quais "não haviam nomes", penso que seja um tema interessante de filosofia: a relação entre percepção e linguagem. Não obstante Süskind nos impressiona ao descrever os sete anos em que Grenouille vive em uma caverna e que sua única ocupação é fantasiar imaginariamente a composição e mistura desses aromas que, mesmo sem nome, Grenouille é capaz de reconhecer e singularizar.]
Mas há um elemento de irracionalismo que poder ligar mesmo Süskind à Freud – ou talvez à Nietzsche e a idéia de êxtase dionisíaco: seu perfume, objetivamente bom, derruba imediatamente a razão humana – o elemento apolíneo em Nietzsche – e os atira no êxtase, sem mediação, onde todos participam da festa do desejo, nos limites da consciência individual. O êxtase – seja de natureza sexual ou agressiva –  é de tal intensidade que os indivíduos retornam dele sem lembranças nítidas do que lhes acometeu, como se o perfume se comunicasse com uma dimensão muito essencial das pessoas, tão essencial que lhes escapa à memória, como um sonho.
Com este quadro em mente, penso que há condições razoáveis para refletir sobre a questão que, para mim, é a principal do romance: o fato de que Grenouille se tornou um assassino pode ser explicado por sua capacidade olfativa? Isto é, não haveria outro caminho para Grenouille? Pois no intento de compor o perfume ideal, Grenouille sacrificou seres humanos. Perceba-se que o desejo de conservar o aroma das virgens ruivas foi durante muito tempo a única motivação de Grenouille. A despeito disso, mesmo com seu olfato poderoso – e talvez mesmo por isso – era-lhe vedado o prazer absoluto que a fragrância despertava nos demais seres humanos. Em última instância, não é exagerado dizer que Grenouille estava impossibilitado de experimentar uma vasta gama de experiências propriamente humanas. Tal incapacidade, contudo, poderia ser derivada de seu excedente sensorial? A força de atração dos aromas para Grenouille, bem como a riqueza de sua experiência olfativa obliterava o domínio para uma experiência mais humana e, conseqüentemente, mais moral?
Penso que a resposta é não, pois a literatura fantástica e a ficção de um modo geral transborda de exemplos em que o personagem principal não partilha da condição humana e onde o tema principal é quase sempre, justamente, o esforço de vivenciar uma humanidade rudimentar. Qualquer (boa) história de vampiro, por exemplo, onde o personagem é por natureza uma criatura condenada ao pecado e vive uma odisséia pessoa de busca por redenção já demonstra que nem mesmo uma natureza assassina poderia empurrar para a imoralidade. Grenouille, assim, é responsável por sua obsessão? Ou pelo menos responsável pelo modo através do qual deicidiu lidar com essa obsessão?
De qualquer modo, essas reflexões devem ficar para um segundo plano. Süskind compôs sobretudo um livro empolgante, cujo enredo cativa àqueles que gostam de um bom thriller, e a escrita irônica mas quase impessoal de Süskind não deve nada à sua capacidade imaginativa. O enredo possui uma tonalidade tal que, como era de se esperar, deu origem em 2006 à um interessante filme, com as presenças de Dustin Hoffman e Alan Rickman.
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Os créditos por minha descoberta dessa obra são de Sieglynnd Stock.
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A identidade, de Milan Kundera

21/08/2010

Neste 20 de agosto, um de meus mais estimados amigos e colegas dos tempos da graduação em filosofia – já homenageado em outra ocasião por aqui – encerra mais um ciclo de estudos, concluindo seu mestrado com uma dissertação acerca do tema da “identidade pessoal” na obra de Paul Ricoeur. Tendo isto em mente, decidi presenteá-lo com um pequeno livro do meu autor preferido, um livro que eu próprio não havia lido até então. Mais precisamente A identidade, de Milan Kundera. Pode ser de extremo mau gosto usufruir de um presente antes de entregá-lo, mas não pude resistir. E a leitura de um livro de Milan Kundera simplesmente não poderia passar em branco aqui neste blog que leva como título um termo da obra deste pensador.
O romance, concluído em 1996 (quando Kundera tinha quase setenta anos) se encaixa naquilo que eu chamaria de uma “segunda fase” da obra de Kundera, precedido por A imortalidade, A lentidão e sucedido por A ignorância (que também não li, problema que estou resolvendo). Segunda fase caracterizada por uma inconfessa preocupação filosófica da parte do autor no tratamento dos temas centrais da narrativa, preocupação que substitui nitidamente a então obsessão com regime soviético do qual Kundera foi vítima e por força do qual “se exilou” na França em 1975.
Escrito em uma forma que o próprio Kundera chama de vaudeville (em oposição à sua “arquitetônica das sete partes”), o romance é curto, de rápida leitura e avassalador. E embora o título pareça apontar para uma problemática em voga no cenário filosófico, o tratamento dado ao tema pelo romancista difere dramaticamente do tipo de reflexão que minha modesta competência filosófica reconhece nas páginas dos filósofos contemporâneos. Mestre na arte de tornar inteligíveis ao grande público algumas das mais refinadas formas de narração, Kundera constrói uma história que assume, de maneira extremamente delicada, contornos cada vez mais oníricos, fazendo com que o leitor escorregue, quase sem perceber, da mais absoluta verossimilhança cotidiana para uma atmosfera cada vez mais surreal – empreitada que eu ainda não havia visto ser realizada dessa forma pelo autor.
A trama central orbita por temas clássicos dos romances de Kundera: relações amorosas, mais precisamente relações conjugais. Chantal, a heroína do romance, é uma mulher de meia idade que, em um dia fortuito, percebe que os homens já não olham para ela. Sensibilizado, seu marido Jean-Marc aceita que a auto-estima da esposa dependa mais dos olhares de desejo dos estranhos do que de seu olhar devoto e monogâmico. Assim, começa a enviar cartas anônimas à própria esposa, no intento de restaurar sua estima de si mesma. Assim vemos uma mulher de meia idade deslizar para experiências quase esquecidas, próprias de meninas mais jovens. Quando, porém, Chantal descobre que é seu marido o autor das cartas anônimas, sequer imagina que o marido apenas quer lhe fazer se sentir bem consigo mesma: Jean-Marc está pregando-lhe uma armadilha para poder acusá-la de adultério e, desse modo, se separar dela. Desse modo Chantal decide que ela mesma irá embora antes, e em uma torrente de ações que beiram o irracional, Chantal e Jean-Marc assistem o desabamento do sentido e da estabilidade de suas vidas através de inusitados eventos que já não permitem que se perceba se a narrativa nos oferece fatos, sonhos ou devaneios, até uma misteriosa e nada esclarecedora conclusão onde vemos Chantal vigiar o sono de Jean-Marc nas últimas linhas do romance.
A temática da identidade pessoal se impõe nos momentos em que Chantal e Jean-Marc não se reconhecem mutuamente através de suas ações, fazendo com que lentamente se tornem simulacros de si mesmos aos olhos do outro. O passado de Chantal, sua vida conjugal apresentada pela personagem da cunhada que surge para além de qualquer bom-senso com uma legião de crianças insuportáveis, suas atitudes para com seus colegas de trabalho e até mesmo suas atitudes diante das ações de Jean-Marc – que não entende como Chantal poderia ficar tão ofendida diante do gesto de amor que foram as cartas de amor – fazem com que Chantal apareça como uma estranha aos olhos de seu companheiro. O próprio Jean-Marc – que insiste que sua vida estável ao lado de Chantal é uma contingência e que seu destino é a marginalidade – vive a crise da própria identidade na medida em que Chantal anuncia a saída de sua vida: sem Chantal, Jean-Marc não existe, pois é só através do amor que sente por ela que Jean-Marc julga possível se sentir parte do gênero humano.
Como eu já disse, o romance é curto, de rápida leitura e possui o final mais avassalador que já encontrei nas obras de Kundera. A temática do sonho recorre em seus romances, mas jamais a ponto de fazer com que a barreira entre sonho e realidade desapareça: mesmo em O livro do riso e do esquecimento, quando Tamina vai parar em uma totalmente inverossímil ilha de crianças, o tom onírico é utilizado apenas como elemento, não como base sobre a qual a narrativa se desenrola. A maestria com que Kundera lentamente intensifica o tom surreal da narrativa faz com que o leitor viva com os personagens o desabamento do sentido de suas experiências, sem perceber o quanto tais experiências são na verdade inusitadas.
Há ainda outra passagem memorável do romance, que não pode deixar de ser mencionada: o discurso de LeRoy, chefe de Chantal, que subverte o sentido do “amai-vos uns aos outros” cristão em um “trepai” último, usado como tese a partir da qual o personagem pretende demonstrar que não é a felicidade o sentido último da existência humana, mas apenas a perpetuação da espécie. Espécie humana que, segundo o personagem, não é senão o executor de uma força história que a transcende e a domina, e que pode ser vista no progresso da civilização – expressão dos desejos de um suposto Deus Criador. Ou seja, através da figura de um publicitário Kundera nos permite refletir sobre temas centrais e ainda muito atuais do pensamento contemporâneo.
A obsessão anti-comunista de Kundera ainda deixa seus vestígios no romance, embora de maneira sutil e incorporada à uma reflexão mais ampla: fazendo seus personagens refletirem sobre um trotskista, Kundera sussurra a tese da impossibilidade de se salvar a humanidade. Através da imagem publicitária de um feto praticando felação em si mesmo ainda no útero materno, Kundera ironiza todo o conjunto das finalidades da cultura como um resíduo do imperativo divino da perpetuação da espécie. A única escolha que parece sobrar à todo ser humano é a de aceitar ou de se indispor com essa verdade fundamental da existência nua e crua. A imagem de Chantal e Jean-Marc em seu leito, em uma vigília obsessiva é antes um prêmio de consolação do que uma redenção: em um mundo onde a identidade pessoal é instável e que não admite finalidades além da perpetuação da espécie senão em caráter de auto-engano, o olhar de Chantal e Jean-Marc parece uma tentativa desesperada de lançar uma âncora em um universo caótico onde o amor representa uma pequena ilha, frágil e instável, em um universo de contingência pura, onde nem o sentido da realidade está garantido.

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