Atividade e Passividade

Para o pensador francês Jean-Paul Sartre, atividade e passividade são categorias que só fazem sentido dentro do mundo humano. A natureza, por assim dizer, está para além/aquém da atividade e da passividade. É o olhar humano que determina e interpreta um fenômeno como ativo ou passivo. Em si mesma, a dimensão das aparências possui uma unidade de fundamento transfenomenal e os fenômenos só travam relações efetivas entre si em um nível bastante superficial, este sim ao alcance da inteligência humana. Assim, se um raio cai sobre uma árvore, é a consciência humana que determina qual elemento deste evento é ativo e qual é passivo. Em si mesmos, tanto o raio quanto a árvore encerram uma transfenomenalidade semelhante. Nem ativa, nem passiva.
Contudo, no reino humano, a passividade torna-se problemática. A consciência, núcleo da própria condição humana, é atividade pura. Assim sendo, a passividade seria uma forma de atividade da consciência? A ontologia fenomenológica de Sartre parece autorizar essa perspectiva, haja visto que passividade é só ausência e negação da atividade, e a negação exige sempre “um fundo de ser” sobre a qual possa se depositar.
Vejamos uma passagem extremamente ilustrativa de O Ser e o Nada:

“Mas que é passividade? Sou passivo quando recebo uma modificação da qual não sou a origem – quer dizer, não sou o fundamento nem o criador. Assim, meu ser sustenta uma maneira de ser da qual não é a fonte. Só que, para sustentá-la, é necessário que eu exista, e, por isso, minha existência se situa sempre para além da passividade. “Suportar passivamente”, por exemplo, é uma conduta que tenho e compromete minha liberdade tanto quanto o “rejeitar resolutamente”. Se hei de ser para sempre “aquele-que-foi-ofendido”, é preciso que eu persevere em meu ser, quer dizer, assuma eu mesma minha existência. Mas, por isso, retomo de certo modo, por minha conta, e assumo minha ofensa, deixando de ser passivo em relação a ela. Daí a alternativa: ou bem não sou passivo em meu ser, e então me converto em fundamento das minhas afecções, mesmo que não tenham se originado em mim – ou sou afetado de passividade até em minha existência mesmo, meu ser é um ser recebido, e então tudo desaba no nada. Assim, a passividade é fenômeno duplamente relativo: relativo à tividade daquele que atua e à existência daquele que padece. Isso presume que a passividade não diga respeito ao ser do existente passivo: é relação de um ser a outro ser e não de um ser ao nada.”.

(Em primeiro lugar, tangencio o assunto para louvar meu querido sapo vesgo pela excelente fórmula atraves da qual ele ilustra a conduta do ressentimento. Trata-se da sustentação da condição de ser “aquele-que-foi-ofendido”. Em outras palavras, a reposição constante e consciente dos pensamentos ou sentimentos que outrora causaram desagrado.)
Voltando a questão da relação entre passividade e atividade, parece que Sartre quer dizer sim que a passividade repousa sobre um fundo necessário de atividade. É impossível que “meu ser” seja recebido, justamente pela presença entrópica da consciência no cerne da condição humana. Nenhum ser pode se instalar sobre a consciência, exceto aquele que a consciência assume.
Não compreendo bem o que Sartre quer dizer com “minhas afecções que não se originaram em mim”. Porque se as afecções exigem manutenção consciente – não existem como pedras que lá permanecerão caso as esqueçamos – são plena responsabilidade da atividade da consciência. Mas tenho um palpite sobre o sentido dessa frase: de fato, é possível que a contingência do mundo acabe produzindo uma afecção ou um estado, pois não é absurdo que uma pessoa se surpreenda diante de uma situação e seja afetada por ela. Mas isso só é possível porque o solo sobre o qual essa afecção floresce foi perfeitamente arado dentro de um Projeto Existencial individual e – por que não? – pessoal. Se uma situação faz com que eu me ressinta e não produz essa afecção em outrem, é porque preparei o solo para o ressentimento, fiz-me ressentido. Assim, a afecção pode ser semeada em meu solo. Mas apenas porque eu o preparei.
Quanto a passividade não dizer respeito ao “existente passivo”, aqui é preciso definir os termos e o objeto do discurso do filósofo francês. “Existente passivo” não se refere à qualquer tipo de conduta humana, mas justamente àquilo que existe e perdura por si, “na natureza”. Em certo sentido, o filósofo quer apenas dizer que as coisas não são passivas nem ativas em si mesmas até o olhar humano pôr em relevo um aspecto de atividade ou passividade, conforme seu interesse.
Acho genial o truque ontológico de Sartre, e acho que é uma das portas através das quais podemos nos acostumar à um dos lugares mais comuns e necessários da filosofia contemporânea: a exigência da precedência do ser sobre o nada. Sartre analisa essa questão no início de O Ser e o Nada, e mostra como supostamente outros pensadores (como Hegel) se equivocaram ao equiparar o ser e o nada em termos ontológicos. O nada exige o ser sobre o qual será “nada de ser”. Assim, a passividade é uma forma de atividade. Eis a lição: não se sofre nada passivamente no mundo humano. O sofrimento é ativamente sustentado pelo espírito.
É evidente que questões se depreendem necessariamente dessa conclusão: e quando a contingência do mundo faz com que sejamos vítimas do acaso? Quando a violência gratuita, por exemplo, nos atinge? O quanto temos de atividade e responsabilidade em uma agressão da qual somos vítimas?
Essas questões exigem uma nova reflexão e, consequentemente, uma nova postagem futura.

Sobre Victor da Filosofia

Metade de mim é ressentimento. E a outra metade, má-fé.
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