Prova de Filosofia I – Vestibular UFSM 2010

Assim que a Coperves disponibilizou a prova do Vestibular 2010 da UFSM para download, não resisti. Estava bastante ansioso por ler a prova e ver se pelo menos seria capaz de reconhecer as questões de filosofia. Confesso que estava esperando não-reconhecê-las, mas não foi preciso mais do que uma rápida olhada para captar o vocabulário estritamente filosófico distinguindo as questões de filosofia das demais disciplinas – o que é um ponto positivo.
Em um segundo momento, me debrucei sobre cada questão a fim de ver se eu, enquanto indivíduo graduado em filosofia e recentemente aprovado para o mestrado na instituição que compôs a prova, tinha condições de resolvê-las. Vejamos caso por caso:
1ª – Questão 03
O enunciado já deixa clara a premissa da qual se está partindo: ao falar da extinção de uma civilização, podemos identificar processos naturais – isto é, que acontecem a despeito da ação humana – e eventos produzidos pela ação humana, como a guerra. Em seguida, pede-se que se preencha as lacunas identificando o tipo de raciocínio/argumentação segundo o qual se pretende que o desmatamento seja um mal irreversível e o tipo de mal que é o próprio desmatamento.
Apostei todas as minhas fichas (isso quer dizer: não tive certeza) de que a argumentação que pretende que o desmatamento seja um mal irreversível seja de tipo “indutivo”, pois é um tipo de raciocínio que parte dos eventos empiricamente considerados e constrói uma hipótese acerca de suas prováveis conseqüências. Um raciocínio que acrescenta informação em sua conclusão (afinal, a irreversibilidade do mal que é o desmatamento será uma novidade até o dia em que for empiricamente constatável).
A segunda lacuna eu preencheria, evidentemente, com a opção “moral”. Afinal, é um evento causado pela ação humana. Logo, letra E.
2ª – Questão 44
Mais uma questão de lógica que eu não saberia responder com nenhuma certeza. Em primeiro lugar porque está dissolvida em física e a última vez que eu devo ter pensado em algo como um “campo elétrico” foi ao ver o Magneto no filme dos X-Men. Então é bastante difícll pra mim visualizar um campo elétrico, o que quer que seja um. De qualquer modo, a prova nos oferece uma imagem disso (através de um mecanismo de impressoras) na questão anterior.
Temos, no enunciado da questão, uma proposição do tipo condicional: se P então Q. Uma proposição do tipo daquelas que usamos ao iniciar um relacionamento: “se você for fiel, então serei fiel”. “se você sair sozinha, então sairei sozinho”. Parece-me que no caso dessa questão apenas a opção II atende as exigências de uma negação da proposição inteira, pois no caso da opção III a negação não atinge a conclusão. No caso da opção I, parece-me que ela não atinge em nada a proposição do enunciado pelo simples fato de que ela não é uma condicional, pelo fato de que ela é antes, no máximo, premissa para uma nova argumentação. Logo, letra B.
3ª – Questão 45
A questão é extensa e eu nem sei como analisar. O pior é que há duas alternativas que, a meu ver, podem servir como conclusão do parágrafo, a saber, as opções C e E. Eu marcaria a opção E por ser mais razoável e por se ater ao enunciado da questão, porque a alternativa C parte da observação do comportamento dos animais diante de um tsunami e sai concluindo que olhar elefantes pode quase nos ensinar a evitar o próprio apocalipse, em uma generalização que eu vejo como mais do que apressada.
4ª – Questão 46
Essa é pra mim a questão mais estranha. A opção “I” parece cair de espaçonave na questão: a que tópicos de filosofia se pretende estar fazendo referência? A opção “II” pede um conhecimento que é muito mais relativo aos domínios da biologia do que à eventuais teorias filosóficas. Pede um conhecimento prévio que o enunciado não está oferecendo. E a opção “III”, também mais próxima da biologia do que da filosofia, não me dá muita escolha senão especular: qual seria o ápice da atenuação dos instintos? Os animais domésticos ou o próprio ser humano? Por eliminação das alternativas que me parecem absurdas (não absurdas, mas não propriamente filosóficas) eu marcaria a opção B.
5ª – Questão 50
Uma questão sobre silogismo. Parece simples. No caso de “I”, acho que ambas as proposições entre aspas são premissas cuja conclusão seria algo como “Logo, os povos africanos são alguns dos povos para os quais a revolução técnico-científica não trouxe nenhum benefício”. A “II” é absurda até para quem não tem o domínio técnico da lógica clássica, coisas que a própria linguagem comum por sua lógica conceitual simplesmente não permite: se para alguns X é Y, logo não pode ser verdadeiro que para nenhum X seja Y. E a “III” seria a opção correta, o que me levaria forçosamente a escolher a alternativa B.
6ª – Questão 52.
Ok, aqui eu admito um equívoco. Dá pra acreditar que a questão 46 seja de filosofia e a questão 45, que pede para que seja identificada uma conclusão e que não cobra nada que esteja além do enunciado, seja de Geografia?
A questão 52 me pegou, admito. Acho que a opção correta é a C. Ou a B? Talvez a B. É, eu marcaria a B por achar que não é muito conseqüente aquele que ignora os recursos naturais em nome do progresso. O segundo tipo de avaliação ética é do tipo que “deve porque acha que deve”, algo que para mim parece um pouco com Kant (ou com o Capitão Planeta, mais provavelmente): protejo a natureza porque devo, e devo porque “acho” que devo (aqui os kantianos me sacrificam em nome do Imperativo Categórico). É, eu marcaria a B.
Conferindo no gabarito, o que eu acertaria e o que erraria: Erraria a 44, que é a opção A. Erraria também a de Geografia, que é a opção D. E erraria a questão 52, que é a opção C. Acertaria a estranha questão 46, contudo.
Ainda não vi as questões da prova II, então não tecerei nenhuma conclusão precipitada. Ainda acho que a questão 46 não é mais filosofia do que a questão 45 (de geografia). E acho que está mais do que na hora de assistir menos X-Men e estudar um pouco mais de lógica.

Sobre Vítor Costa

Metade de mim é ressentimento. E a outra metade, má-fé.
Esse post foi publicado em Filosofança e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

13 respostas para Prova de Filosofia I – Vestibular UFSM 2010

  1. Bruno R. Mendonça disse:

    Ainda não parei pra analisar cada uma delas. Mas olhando bem por cima, concordo quanto à questão 46. Pra mim há um grande problema ali que você já mais ou menos indicou: o comando da questão está mal feito. Ele não indica sobre que base o aluno deve pensar. Sem referencial nenhum, numa prova objetiva – em que não se necessita dar justificações – o céu é o limite.

    Abraço, Bruno.

  2. daniel disse:

    Muito bom as tuas observaçoes. Cara! Sou professor de turmas do 1º e 2º ano do Ensino Médio. Uma aula por semana com o 1º ano e duas com as turmas do 2º ano. Ambas nunca havia tido qualquer contato com a Filosofia. A disciplina foi introduzida recentemente. Tendo por base as questoes do vestibular, sou levado a repensar todo os proposito e proposta do ensino de Filosofia. Terei de orientar para a Lógica? Complicado. Como trabalhar isso em uma, no máximo duas horas semanais de aula, onde em cada aula o máximo de tempo que sobra entre a movimentação de uma sala para outra, da burocracia escolar (chamada), de se buscar encantar a turma, restam, ao final, 30 minutos. Expor, instigar, debater, ouvir, realizar atividades em grupos… Não, sei. Sinto-me de antemão frustrado pois os alunos irao se deparar com estas questões e, certamente, ficarão “boiando”.

  3. Gisele disse:

    Victor. Muito saudável tua preocupação em tentar resolver as questões do vestibular, sem ranço de “filosofia não pode ter avaliação objetiva”, parabéns!
    Farei alguns comentários, a ver se te auxilio em alguma compreensão que não tiveste.
    A primeira questão que avaliaste é uma previsão, que como bem observaste está baseada nas observações empíricas. Sendo assim, é uma indução. Creio que tua resposta está certa (não consigo acessar o site da Coperves para pegar as provas e Gabaritos, deve estar over).
    Quanto à questão do condicional, é simples assim: de acordo com a interpretação clássica da Lógica Proposicional, um condicional é verdadeiro somente se afirma-se o antecedente e nega-se co conseqüente. Costumo dizer a meus alunos que se o condicional for: “Se prometer, então vou à festa” só será falsa em caso de prometer (antecedente verdadeiro) e não ir (conseqüente falso). Portanto o gabarito correto é letra A. Ah, sim. Para nada serve nesse caso o conteúdo de física. É uma questão formal, não de conteúdo, como sói ser a lógica.
    A terceira eu diria que pelo texto, especialmente a última frase dele, é letra C. E também porque não se diz no texto que os tsunamis são mais comuns no Pacífico e no Índico, tampouco que só os animais podem perceber antes as ondas chegando: os detectores artificiais o fazem, mas não existia nenhum deles à disposição no momento. Concordas? Bem, eu achei muito estranha a linguagem utilizada na formulação das alternativas. Daí corri para o final da tua postagem e conferi: é uma questão de geografia, UFA! Daí se entende o gabarito oficial, a reflexão que querem da gurizada, o povo da geo…

    Bem, teu comentário à quarta questão me deixou um pouco confusa. Primeiro porque a mim parece claro que alguém que esteja estudando filosofia deva saber qual o domínio, o escopo da disciplina. E investigar a diferença entre os comportamentos humanos e animas parece fulcral para a ética, não? E para as discussões acerca da posse de linguagem, conhecimento, e por aí vai… Assim, seria falsa a primeira asserção. A segunda é igualmente falsa, e não exige conhecimentos de biologia, não. O texto fala o que a autora deixa a entender, a saber. Que “a presença de comportamentos instintivos nos animais ocorre desigualmente”. Lendo o texto com atenção, pode-se concluir que apenas a terceira é verdadeira, já que os instintos dos animais domésticos tende a se atenuar. Para mim é uma questão de interpretação de texto e que exige conhecimentos “filosóficos” apenas para negar a verdade da primeira asserção.
    A próxima questão tu analisaste mais ou menos bem. Talvez devesses ter dito que a primeira asserção é falsa porque não pode ser válido (ao menos dedutivamente) um argumento por generalização. Tu disseste que é uma questão sobre silogismo, mas não sei, não. Eu diria que é uma questão sobre as inferências imediatas, uma parte da doutrina do silogismo tal como foi desenvolvida pelos medievais a partir da Lógica aristotélica. A falácia em questão Seria uma generalização apressada, de “alguns” não se pode concluir “Todos” (implícito no uso do artigo definido “os” em “os povos africanos”). Não seria nem um silogismo, porque não possui ai menos uma premissa universal, não sendo, portanto, uma dedução. E silogismos são raciocínios dedutivos, né?
    Quanto à última, me pareceu a mais óbvia para quem sabe as classificações no interior da ética: consequencialistas são chamadas as teorias que defendem que as escolhas devem ser feitas tendo em vistas suas conseqüências (com as variantes mais variáveis quanto ao que se considera boa conseqüência, claro), e deontológicas as à la Kant, para quem o cumprimento incondicional do dever está acima de todas as outras obrigações, condicionadas pelos desejos e interesses pessoais. Com isso, o Gabarito é letra C.
    Bem, vou analisar as tuas análises do segundo dia. Como eu gosto disso!

  4. Adriano Kurle disse:

    Apenas pequenos coemntários.

    A primeira questão, apesar de parecer fácil, nos confunde muito, pois mesmo que consideremos que o “desmatamento indiscriminado” é um “mal moral” (?), ele também pode ser causa de um mal natural. Assim a ação moral é causa de algo que pode se tornar (ou causar) um “mal natural”. Pra ser sincero acho essa definição de “mal moral” quase absurda. Dizer que é fruto da “ação humana” não é o suficiente pra definir a moral. (nem mesmo no vestibular). Eu como, cago e durmo todos os dias, isso não deixa de ser “ação humana” (ainda que imposta pela natureza), e de nenhuma maneira pode ser considerada uma ação moral (a não ser que se escolha avaliar COMO eu cago, COMO eu como, etc).

    A segunda questão é bem clara e a Gisele já explicou.

    Felizmente a terceira questão é de geografia, porque, ao meu entender (que talvez seja falho) não é sequer parecido afirmar que os “animais domésticos tem os instintos atenuados” e afirmar que “a atenuação progressiva dos isntintos atinge seu apice na domesticação”, a não ser que se tenha já definido “instinto” e este seja um conceito já oposto ao viver humano (“doméstico”).

    Sem comentarios para a quarta questão, bem simples.

    Concordo com a observação de que não seria uma raciocínio inteligentemente consequencialista aquele que usufrui do progresso industrial se levar em consideração que eles podem causar males ao meio ambiente e, consequentemente, ao próprio homem. Mas não é isto que o texto expressa. Ela diz apenas que as pessoas a usufruem por causa de seus benefícios (consequencia). Não questiona o que é tomado por “benefício”.

    A questão de geografia só pode ser levada em consideração se houver, em algum tema de geografia, uma definição do que se entende por “instinto”. Que ela não é um tema da filosofia enquanto avaliação do comportamento dos animais (biologia) é evidente, mas “instinto” enquanto um conceito geral ou algo que busca-se a conceitualização pode ser sim. Mas não acredito que seja essencial para ética discutir “instinto”, e sim a possibilidade de homem agir com liberdade (coisa que um ser que atue apenas por instinto obviamente não tem).

  5. Gisele disse:

    Adriano, let’s go!
    Olha só, tens razão na tua interpretação da primeira questão se estiveres dizendo que algo (uma ação intencional, o que me parece ser fundamental na caracterização do que é agir moralmente, de modo que respirar, excretar, nutrir-se e tudo o mais que sejam necessidades naturais não seriam em princípios colocadas nesse saco) como o desmatamento indiscriminado pode ter conseqüências na natureza. Mas a própria idéia de “mal” natural já descarta os comportamentos naturais (como seriam os dos animais, tema polêmico da questão acerca do instinto) da esfera da moral. E isso está claro na primeira parte da questão, não? Eu não estou dizendo que a gente não possa criticar justamente essa formulação inicial, mas acho que poderíamos pensar: dado o enunciado, que apresenta a distinção entre mal natural e moral, a resposta é clara.
    Tu falas em condições suficientes para “definir a moral”, mas não me parece que seja esse o ponto na questão. É mais relacionada ao que se pode ou não caracterizar como ação moral. É menos, embora não insignificante pras reflexões morais, a meu ver.

    Teu comentário à questão do consequencialismo em oposição à deontologia me parece confundir as coisas, asism como o de Victor. Não se trata de dizer o que é ou não “inteligentemente consequencialista”, mas apenas de destacar a diferença entre escolher agir com base na previsão das conseqüências (sejam elas o prazer, a maximização da felicidade para o maior número de pessoas et cetera) da ação ou com base na obediência ao dever, independentemente das conseqüências.

    Quanto à questão do instinto, não vejo porque tanto alarde. Se justamente tu não acreditas “que seja essencial para ética discutir “instinto”, e sim a possibilidade de homem agir com liberdade (coisa que um ser que atue apenas por instinto obviamente não tem)”, como tu caracterizarias a liberdade senão em oposição ao que é “instintivo”, natural, causalmente determinado? A liberdade pode ser entendida de várias maneiras, sabemos, mas basicamente, coisa de baby class de aula de ética, é tentar diferenciar o comportamento animal, causalmente, instintivamente, naturalmente, determinado, do comportamento humano que pode ser AUTOdeterminado, culturalmente determinado, et cetera, et cetera…

  6. Victor disse:

    Gisele disse: “investigar a diferença entre os comportamentos humanos e animas parece fulcral para a ética, não?”

    Sem sombra de dúvida. Mas não é uma questão de ética, não faz comparação entre comportamento instintual e comportamento humano. Como eu disse na postagem seguinte, falo como um antigo leitor de Schopenhauer, pensador azedinho que adorava colocar o ser humano e a lontra no mesmo balaio de gato. Não tenho problemas com a questão do instinto, se ela for pensada em um âmbito propriamente filosófico. Essa questão parece pertencer ao domínio de uma “teoria da biologia”. Se o divertido em ser um ser humano é ser livre e não ter instintos – ou ter uma relação absolutamente diferente com seus instintos – isso pode ser discutido filosoficamente.

    Com relação à questão do conseqüêncialismo, admito: raciocinei como um filósofo de boteco. Quem investe no progresso sem pensar nos recursos naturais não é consequente, logo não pode ser consequencialismo. Estou me chicoteando até agora por ter cometido tamanho lapso. Fiz o que eu chamo, categoricamente, de burrice. =)

  7. Agora vou argumentar só sobre a questão 46. Por partes, vou citar a Gisele e com ajuda dela mostrar minha opinião:

    “Bem, teu comentário à quarta questão me deixou um pouco confusa. Primeiro porque a mim parece claro que alguém que esteja estudando filosofia deva saber qual o domínio, o escopo da disciplina. E investigar a diferença entre os comportamentos humanos e animas parece fulcral para a ética, não? E para as discussões acerca da posse de linguagem, conhecimento, e por aí vai… Assim, seria falsa a primeira asserção. A segunda é igualmente falsa, e não exige conhecimentos de biologia, não. O texto fala o que a autora deixa a entender, a saber. Que “a presença de comportamentos instintivos nos animais ocorre desigualmente”. Lendo o texto com atenção, pode-se concluir que apenas a terceira é verdadeira, já que os instintos dos animais domésticos tende a se atenuar. Para mim é uma questão de interpretação de texto e que exige conhecimentos “filosóficos” apenas para negar a verdade da primeira asserção.”

    Ok, concordo que quem está estudando filosofia deva saber sobre seu domínio, mas apenas aproximadamente, não conheço nenhuma tentativa feliz de definir a filosofia ou seu escopo em contraste com outras áreas, concordaria que a filosofia diferencia-se dos outros ramos apenas gradualmente (pensado em uma escala de cores… escala de cinza, etc). Mas isso é secundário aqui.

    Concordo novamente que discutir comportamento humano e animais é importante para as áreas que a Gisele citou e outras mais. Falsa a I, mesmo com uma ressalva.. que é a mesma do Vítor, não gosto do emprego do termo “tópicos”, ele soa como algo engessado…”os tópicos da filosofia são tais e tais”, talvez seja só uma questão de estilo…eu empregaria “assunto”. Mas tudo bem, a I é falsa, instinto é um “tópico” de filosofia. Fácil de responder para um vestibulando, mesmo com conhecimentos básicos de filosofia (o que é uma reclamação recorrente).

    A opção II: o enunciado da questão diz “a presença de comportamentos instintivos nos animais ocorre desigualmente” até aí tudo bem… mas a opção diz: “As ações instintivas tendem a ser idênticas na ESPÉCIE e invariáveis de indivíduo para indivíduo” dessa forma está adicionado um termo técnico da Biologia, a saber, ESPÉCIE, que não consta no enunciado nem no texto da questão anterior, na qual está parcialmente baseada, por isso precisamos sim de conhecimentos de Biologia pra responder corretamente a questão… a resposta do gabarito consta como somente a II estando correta (ou seja, resposta B)

    p.s: as ações instintivas tendem a ser idênticas em indivíduos da mesma espécie (um animal que sai do cativeiro tende a recuperar o instinto atenuado no cativeiro [isso está no início da "Origem das Espécies" do Darwin, com vários exemplos... pombas, se minha memória não falha] e invariáveis de indivíduo para indivíduo…. (aqui precisaria constar “da mesma espécie”, mas tudo bem…)

    A opção III: está errada, apesar do enunciado falar que os instintos tendem a ficar atenuados nos animais domésticos, não menciona que o ápice ocorra nos animais domésticos. Creio que isso também é um assunto disputado dentro da Biologia, precisamos de provas empíricas desse ápice e pelo termo técnico “instinto” ser um daqueles termos teóricos bastante vagos, ele implique categóricos observacionais difíceis de serem verificados quanto a sua verdade.

    Ao final… a questão tem um tema de biologia (que poderia muito bem ser usado em uma questão de filosofia sem maiores problemas) o que ocorre é que a resposta da questão no gabarito é a B (apenas a II) e a resposta B não se segue do enunciado, precisa pra resposta correta… de conhecimentos de biologia (talvez quem formulou a questão não atentou para “espécie” e “indivíduo” dentro da Biologia serem termos técnicos). A questão manteria um caráter filosófico (mesmo que esse caráter não seja determinado, como já falei acima) se estrutura lógica da questão possibilitasse a resposta apenas do enunciado. Mas de fato ela não faz isso. A pergunta foi arriscada… tentou envolver conhecimentos de outras áreas e filosofia mas devido sua resposta, ela não manteve o mérito. Esse risco seria diminuído se a filosofia tratasse de temas mais clássicos. Enfim.. essa tática é uma opção da Filosofia no vestibular da UFSM, como expressa a questão 45, o que, como já foi dito por alguém, é um mérito mas os méritos precisam do risco e algumas vezes pode acontecer o que aconteceu com essa questão.

    Posso estar completamente enganado… é o risco :}. Vejamos se concordam comigo.

    Abraço a todos.

  8. E mais uma birra adicional. Vítor, teu blog melhorou consideravelmente com a introdução do fundo branco (eu entendo os motivos pessoais… mas a legibilidade deve ser considerada). Se o teu cérebro está apodrecendo dentro do crânio… gostaria que meus olhos não apodrecessem com ele: aumenta essa fonte!

  9. Gisele disse:

    Victor.
    A essa altura do sábado só me resta dizer para tomar cuidado com o chicote ;)

    Mas sobre a questão… podemos dizer que num certo sentido não é mesmo sobre Ética, mas sobre um pressuposto importante em boa parte das discussões em Ética.
    Acho que pensar em modelos de questões, como Gilson sugeriu no comentário da postagem acima, é um exercício e tanto! Pode ser bom pra gente (eu mesma já devo ter inventado, nos últimos anos, mais de 50 questões, e acnselho a tentarem) e pra quem lê o blog querendo saber as repercussões da prova entre pelo menos alguma parte do povo da filosofia de Santa Maria.
    Como, se é que se interessariam, vocês fariam uma questão sobre o conceito de instinto e seu lugar nas reflexões éticas?

  10. Victor disse:

    Gilson: concordo com quase tudo o que tu disseste, exceto a questão da fonte. Acho uma fonte grande deselegante. Faça como eu, use óculos. =D
    Com relação à questão do instinto e da filosofia, te prometo uma postagem falando do assunto e de como eu o compreendo.

    Gisele: quando eu dava aulas no Alternativa, apliquei uma prova surpresa com 9 questões objetivas. Bastante simplórias, inaceitáveis para um pré-vestibular. Mas acho que uma opção seria pegar um filósofo ou uma filosofia que admite o instinto na condição humana (penso em Nietzsche ou Schopenhauer, mas acho que vale pra qualquer filósofo moderno que explique tudo o que não for racional a partir de uma outra dimensão qualquer da condição humana) e contrapô-lo a idéia de liberdade, apontando, a seguir, alguns casos em que o homem pode ser explicado a partir do instinto ou a partir da razão. Mas não me ocorre nada neste momento. Não prometo que vou pensar sobre o assunto – não tenho ranço em responder questões objetivas, mas elaborá-las exige uma perícia que, penso, me escape.

  11. Adriano disse:

    Respondendo a Gisele: continuo não aceitando a questão do “instinto” ser essencial à discussão ética. Primeiro, não existem claras definições sobre “instinto”: alguns colocam a ação humana como parte instintiva (como por exemplo, comer), outros fazem uma definição mais específica: aquilo que é próprio de uma espécie (de toda espécie e somente dela). Uma coisa, assim, é avaliar a ação determinada por agentes externos (nesse caso, a causalidade natural) outra é chamar isto de “instinto”, o que vejo como muito problemático. A questão da liberdade não precisa (apesar de em alguns casos aparecer assim) ser posta desta maneira: humanidade versus animalidade. A única coisa necessária, o único pressuposto, é a possibilidade da liberdade, e quanto a isto pouco faz diferença, se o homem é livre, se o elefante também é ou não: basta saber, o homem é livre e pode agir moralmente.
    Continuando a primeira questão: ainda acho que a elaboração da questão causa muitas ambiguidades, e outra que me veio agora é que coloca, imediatamente como “mal” o desmatamento: e daí surgiria a questão que ela só seria um mal por ter como consequencia o mal natural, e não em si mesma (a não ser que se encontrasse um princípio ético, e ele fosse apresentado na questão, para colocar o “desmatamento desenfreado” como um mal ou contrário a este princípio).

    “mas apenas de destacar a diferença entre escolher agir com base na previsão das conseqüências (sejam elas o prazer, a maximização da felicidade para o maior número de pessoas et cetera) da ação ou com base na obediência ao dever, independentemente das conseqüências.” Não discordo disto.
    Mas quem pensa no próprio prazer pode avaliar as consequencias de varias maneiras, por exemplo: fico rico se derrubar 500 árvores para vender a madeira, mas morro sufocado por me faltar oxigênio para respirar por conta disto. Não se pode fazer aí uma diferença entre as “consequencias”, logo fazer distinção entre uma previsão bem feita e outra não? Minha observação foi em cima da observação do Vítor, é claro que a questão não exige mais que a simples distinção, mas justamente ISTO CONFUNDE e pode confundir MUITO na hora de resolver a prova. É claro que pra quem já decorou os “macetes” do vestibular (ou seja, os absoerveu no cursinho ou sabe decor o que é tido por “senso entre filósofos que elaboram questões objetivas para o vestibular”-o que me soa estranho) qualquer questão deve ser aceita como bem elaborada e fácil. Mas não para quem apenas estudou FILOSOFIA. Minha crítica às questões do Vestibular sempre vai ser a mesma enquanto não mudar: deve ser clara e ÓBVIA a resposta, para aquele que pode resolver. Sendo um CONCURSO PÚBLICO, deve ser legível não apenas aqueles que tem acesso ao cursinho ou que conhecem o histórico e o posicionamento desta determinada prova. Mostrar que “outras também são assim” não resolve o problema. Qualquer ambiguidade ou problema deve anular a validade da questão. Assim, ao menos que se façam menos confusas as respostas, isso já ajuda. Não estou dizendo que “filosofia não pode ser objetiva”, mas as questões devem ser formuladas com maior cudiado para que realmente sejam objetivas e válidas em um concurso.

  12. Pessoal, achei o post procurando no google sobre a questão 44 (do Se-então). Escrevi recentemente em meu blog sobre, de forma mais detalhada e voltada a estudantes do ensino médio. Não li antentamente todos os comentários, mas…

    Só uma correção ao que a Gisele disse no primeiro comentário (deve ter passado despercebido):

    “Quanto à questão do condicional, [...] um condicional é -> verdadeiro <- somente se afirma-se o antecedente e nega-se co conseqüente. "

    Ele, é na verdade FALSO nesse caso, como corretamente apostado no exeplo na sequência:

    "Costumo dizer a meus alunos que se o condicional for: “Se prometer, então vou à festa” só será falsa em caso de prometer (antecedente verdadeiro) e não ir (conseqüente falso). Portanto o gabarito correto é letra A. Ah, sim. Para nada serve nesse caso o conteúdo de física."

    Com o dito acima concordo plenamente. Não precisa entender física, se trata de forma.

  13. Gisele disse:

    Sim, Marcelo. Obrigada pela correção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s