Prova de Filosofia – Vestibular UFSM Dezembro 2011

Há quase dois anos comentei (muito mal, diga-se de passagem) as questões de filosofia da prova do vestibular da UFSM. Volto à fazê-lo.

Minha primeira observação é que as questões desse ano foram elaboradas de forma que consegui distingui-las das demais disciplinas sem muita dificuldade, o que considero um mérito dos elaboradores. Evidentemente, a capacidade de pensar questões filosóficas dentro do registro de outras disciplinas (ou seja, a posse de um mínimo de erudição) pode ser considerado um dos elementos que distinguem um bom professor/filósofo de um mau. Mas penso que o sacrifício da disciplina na dissolução de sua especificidade não precisa ser realizado.

Das oito questões, penso que havia uma difícil, uma fácil e seis “médias”. Vamos à elas.

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Questão interessante. Sobretudo por apresentar uma legítima questão filosófica dentro do contexto da literatura universal. Tendo em vista que algumas perspectivas filosóficas considerarão a literatura uma espécie de “laboratório filosófico” (para desespero das pessoas das Letras), questões acerca de moralidade na obra de Tolstói – tão rica de questões filosóficas – foi um excelente achado. Embora não fosse uma questão “fácil”, parece-me que sua solução não dependia de muito mais do que leitura e compreensão textual, bem como relativa apropriação de conceitos como “subjetivo” e “objetivo”, palavras que não são exatamente “propriedade” de filósofos.

Bela questão. Dias atrás, discutia com alguns colegas sobre uma espécie de “empobrecimento do campo de experiências” mediante falta de vocabulário. Fazia referência especificamente ao conceito de “metáfora” que, em minha opinião, pode constituir um verdadeiro reino intermediário entre a Verdade e a Mentira. Questão média, que pedia o conhecimento do que seja um “argumento indutivo”.

Appiah é um dos principais expoentes da filosofia na África. Mas a questão, se não estou exagerando, não pede mais do que conhecimentos básicos sobre a moral kantiana. A questão do racismo, tal como apresentada por Appiah, é passada pelo crivo do Imperativo Categórico e apresentada em sua impossibilidade de universalização.

Embora meu “primeiro filósofo” tenha sido Schopenhauer e a relação entre arte e filosofia seja uma das coisas que mais me interessa, essa foi para mim a questão mais difícil da prova. Pois o parágrafo, em minha opinião, apresenta três perspectivas sobre expressão artística: em Aristóteles, a arte é uma expressão humana. Mas em Schopenhauer (e aparentemente em Hsun Tzu também) a arte é expressão também, mas expressão de uma realidade metafísica. Titubeei um pouco nessa questão provavelmente em função do meu relativo “excedente” de conhecimento necessário para solucionar a questão. Mesmo assim eu acrescentaria, só por precaução, a palavra “humana” depois de “expressão”.

Essa, por sua vez, me pareceu a questão mais fácil. Exige que se saiba o que seja uma “conseqüência lógica”. Mas um candidato um pouco mais maroto pode ter percebido, sem estudar filosofia, que a única alternativa que se deduzia da proposição na caixa cinza era a última, pois todas as outras exigiam um pouco mais de informação e/ou não se seguiam da afirmação do ordenado da questão.

Essa questão exigia um pouquinho de trânsito por manuais e textos de filosofia, no mínimo. Na primeira afirmação hipotética sobre o texto, encontramos a expressão “apenas suficiente”. Eis um dos temas mais interessantes de se explorar em prova: a relação entre as condições – lógicas ou epistemológicas – de necessidade e suficiência. Questão interessante sobre a importância antropológica da linguagem e sua relação com a instauração da própria humanidade. Tendo-se prestado atenção às aulas certas e sabendo-se ler um texto, uma questão de dificuldade média.

Ok, aqui eu confesso que se não fosse a expressão “linguagem proposicional” eu teria falhado em identificar a questão como “questão de filosofia”. Mesmo assim, é uma boa questão que se ancora no tamanho expressivo do enunciado da questão anterior e pede pouco, sem muita frescura. Pensei e repensei, porque as três alternativas pareciam corretas. Mas realmente estavam, segundo o gabarito. Quem prestou vestibular para filosofia, gostou dessa questão e for aprovado já pode ir se encaminhando para a filosofia da linguagem.

Essa foi minha questão preferida. Não sei se foi porque se trata de uma questão de “filosofia e filosofia” que, sobretudo, pensa a natureza de uma outra disciplina e usa vocabulário técnico – ou seja, prima pelo conhecimento do conteúdo, não apenas pela capacidade de ler e compreender um texto. Também pode ter sido porque depois de acertar as outras sete, acertei essa só passando o olho, como fiz com a questão 34. De dificuldade média, os termos especificamente filosóficos fazem com que seja uma questão que só foi fácil pra quem estudou pra prova de filosofia.

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Se eu estivesse fazendo vestibular hoje em dia e fosse uma pessoa que prefere as disciplinas sociais e humanas, não teria me assustado muito com a prova de filosofia. Mas, vou fazer o teste com algumas pessoas e verificar se já não é a impressão distorcida de quem lida com isso há quase dez anos.

Sobre Vítor Costa

Metade de mim é ressentimento. E a outra metade, má-fé.
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2 respostas para Prova de Filosofia – Vestibular UFSM Dezembro 2011

  1. Lauren disse:

    Aí Vitor. Essa é a ideia. ;)

  2. Aline disse:

    Muito bom o teu comentário sobre a prova,estudei filosofia sozinha nesse último mês e consegui gabaritar a prova,já que no ano passado não fui nada bem,também me parece que esse ano a prova foi mais fácil,talvez porque a prova exigiu mais interpretação,ou porque aprendi direitinho :)

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