A trama e seus tecidos | Parte I – “Que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores!”

– O dia será quente, tórrido, haverá tempestade, diz o primeiro, que o outro interrompe, fazendo graça:
– Não é possível! O primeiro responde no mesmo tom:
– Mas sim, Bernardo. Sinto muito, mas não há escolha. Um pouco de coragem! Bernardo cai na gargalhada e declara:
– Eis o castigo de nossos pecados. E o primeiro:
– Por que, Bernardo, tenho de sofrer pelos seus pecados? Então Bernardo ri ainda mais, para deixar claro para os ouvintes de que pecado se trata, e eu o compreendo: existe apenas uma coisa que todos desejamos: que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores! Que nossos vícios sejam comparados aos temporais, às tempestades, aos furacões!
– Milan Kundera, A imortalidade

Narrar e descrever são duas atitudes discursivas distintas e quem conhece a obra de um intelectual francês chamado Paul Ricoeur pode eventualmente ter se inteirado não apenas dessa diferença como também dos embaraços a ela inerentes.

O que um psicanalista deve escutar no relato da pessoa em seu divã? Deve escutar o mesmo que um psiquiatra? E se ao invés de um profissional em psicologia ou medicina, a pessoa procura um padre? Ou um amigo? Parece óbvio que se a recepção for feita por um juiz, por exemplo, o relato que organiza as vivências oferecerá outros relevos, se prestará à outras topografias, em suma, não será o mesmo relato. Em alguns casos, o relato será mesmo destituído de seu caráter narrativo e será decomposto e reorganizado segundo uma inteligência descritiva, oferecendo, por exemplo, um caldo onde serão pinçados alguns poucos elementos “mais objetivos” mais “sólidos”, mais facilmente organizáveis em uma lista, em um cardápio, em uma base para diagnóstico ou condenação.

A voz de Paul Ricoeur no burburinho acerca da natureza e do estatuto dessas formas de discurso soa mansa mas, ao mesmo tempo, contundente: a vida de uma pessoa humana, em sua inalienável singularidade, exige a forma narrativa do discurso. Isto é: só a história de uma vida nos oferece uma imagem ampla através da qual é possível ver, precisamente, uma pessoa, e não um objeto decomposto em características. Só uma narrativa, digamos assim, é capaz de oferecer uma imagem de uma vida humana que também leve em conta sua temporalidade específica e constitutiva. A voz descritiva tem sua função específica, sua jurisdição regional, e serve muito bem quando o caso é apresentar entidades de outras naturezas (a ciência, por exemplo, pode e deve ser descritiva e explicativa, na maior parte das vezes), mas suas garras não são capazes de envolver e apanhar o tecido no qual é tramada uma subjetividade.

Se a narração é melhor que a descrição para abordar a singularidade das vidas humanas, isto se dá por várias razões. Uma delas é a já citada especialidade da temporalidade que a narrativa permite que apareça – e que na verdade é constituída no decurso da elaboração da trama, do enredo que estrutura uma história – e que é a temporalidade específica da existência humana. Outra razão é, porém, mais embaraçosa: a narração é maior que a descrição porque a narração incorpora outra forma de discurso: a prescrição. Mais do que isso: a narração entrelaça, de forma indissociável, o elemento descritivo através do qual aparecem os acontecimentos que compõe uma história com o elemento prescritivo mediante o qual tais acontecimentos são vividos mediante um sentido ético, mediante uma perspectiva sempre impregnada de valores, desejos e crenças morais sem os quais, em última instância, os seres humanos não podem ser pensados.

A história de uma vida, portanto, faz o que nenhuma abordagem conceitual jamais conseguiria fazer: organiza os episódios importantes mediante um itinerário, mediante um enredo que mostra como uma pessoa, através de suas escolhas, se tornou quem é ao agir e sofrer as circunstâncias de sua vida. E tentar contar a história de uma vida para além ou para aquém da dimensão das motivações e finalidades morais nos mostra sobretudo o quanto tal cenário não nos causa senão estranheza: dificilmente alguém se defrontaria com O Estrangeiro de Albert Camus ou com qualquer obra de Samuel Beckett e não vivenciaria um mínimo estranhamento – eventualmente até mesmo catártico. Diminuir ao máximo o elemento prescritivo – isto é, o espaço para o discurso no qual serão pensadas as motivações e finalidades de uma vida singular – produz um vertiginoso efeito de estranhamento, estranheza. O Meursault de Camus é um estrangeiro à todos os homens e mulheres que caminham com ele sobre o mundo, pois vive além ou aquém dos seus motivos e fins.

Embora correndo o risco de me estender mais do que gostaria, preciso intervir cirurgicamente no ponto que acabo de apresentar. Preciso mover minha pena contra Ricoeur, com todo o respeito à ele, mas é preciso fazer uma pergunta decisiva à esse pensador para respeitá-lo como ele merece. E minha pergunta é: será mesmo que esse aspecto prescritivo da narração não seria, digamos assim, negociável?

Vamos dar uma olhada no setting conceitual com o qual Ricoeur aborda a dimensão moral da constituição narrativa de nossas identidades pessoais. Qualquer pessoa que abra a caixa de ferramentas com a qual esse intelectual francês aborda a dimensão moral da narração encontrará nada menos do que elementos dos dois kits provavelmente mais completos que já foram engendrados para essa tarefa: a ética de Aristóteles e a ética de Kant. A primeira, concebida pelo pensador mais potente e completo da aurora do pensamento ocidental, pensa o ser humano integralmente na direção de sua realização plena – ou, também assim chamada, de sua felicidade. A segunda, concebida na cabeça de um pequenino pensador alemão do século XVIII (e que foi, provavelmente, no sentido profissional e técnico que o termo tem hoje, o maior filósofo de todos os tempos), encarna a austeridade alemã e o espírito iluminista ao estabelecer seu núcleo na noção de critérios universais para a correção moral. Para Ricoeur, em suma, entendendo a noção de felicidade ou realização tal como Aristóteles a concebe (a ideia de uma “vida boa”) e a organização racional de nossas obrigações e deveres tal como Kant nos ensinou, temos um bom bisturi para penetrar no tecido na narrativa e, assim, mostrar o nervo prescritivo que trama a dimensão moral de nossas vidas.

Por que, então, desejamos ser vistos como grandes pecadores?

Não pretendo questionar aqui a opção de Ricoeur pelas magnânimas éticas de Aristóteles e Kant. Afinal, se o caso é tentar pensar a dimensão moral das vidas humanas, nada mais sensato do que se valer do que de melhor foi produzido historicamente em termos de reflexão sobre o assunto. Porém, parece razoável, nesse ponto, perguntar: não haverá, nessa escolha de Ricoeur, uma opção pelo prescritivo em detrimento do descritivo no que tange aos ingredientes que serão usados no cozimento do tecido narrativo? Mais ainda: não será possível conceber que um outro âmbito seja mais profundo e mesmo estruturante do nível moral da narrativa de uma vida?

Ora, é evidente que sim. Uma vida pode ser pensada e vivida como uma obra de arte.

E essa é apenas uma das possibilidades de deslocar a ética para o segundo plano da estruturação de uma vida. Marx tenta nos convencer de que a dimensão ética das vidas humanas é um subproduto de relações econômicas. Freud sugere que nossos valores são resíduos de vivências esquecidas mas ainda operantes em um plano pulsional muito mais profundo que o valorativo. E mesmo que Ricoeur argumente que a dimensão moral seja irredutível, para sermos justos com ele é preciso que não façamos as concessões que ele solicita apenas porque ele as solicita. Minha hipótese é a de que uma outra configuração, uma outra medida dos ingredientes é possível e pode oferecer um outro nuance da ideia de que uma vida é uma narrativa pois uma vida pode ser lida  e vivida em perspectiva estética.

Evidentemente essa não é a única maneira de refundar a dimensão moral em outras bases. Já mencionei a opção política de Marx, a opção psicanalítica de Freud e, para abordar essa perspectiva estética, uma das opções mais famosas seria a opção pelo pensamento de Nietzsche. Optarei, porém, por uma opção muito mais modesta mas que me mais cara e muito mais familiar, a saber, a prosa romanesca de Milan Kundera. Pois se podemos, eventualmente, desejar que nossa biografia seja contada de forma que pareçamos grandes pecadores, se podemos querer que o reconhecimento nos seja conferido pelos nossos vícios e não por nossas virtudes, isso significa que podemos, em certo sentido, querer o mal. Temos então um significativo entrave à racionalidade ética através da qual nossa vida moral seria compreensível.

Esse será o tema da próxima postagem.

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As mãos dadas III – O adeus ao subsolo

Algumas histórias são difíceis de contar. É difícil saber onde elas começam, onde terminam. Mais do que isso: é difícil dizer a que gênero de histórias pertencem. Ainda mais do que isso: desde o momento em que estão sendo vividas, algumas histórias – ainda em sua condição embrionária de vivências – já anunciam que talvez serão para sempre estranhas, excêntricas, de natureza indeterminada.

Esse sentimento – de que é difícil elaborar a narração de certas histórias – é apenas uma estrela em uma constelação afetiva muito maior. Algumas pessoas consideram difícil contar histórias porque aquilo que vivenciaram não parece familiar. Os fatos não parecem conectados e o mundo e a vida se apresentam como uma totalidade indiferenciada, confusa, estranha. Esse era o sentimento predominante de Clarissa nos períodos em que sua memória se escondia de sua consciência e ela não conseguia se lembrar de quem ela própria era.

Houve uma época da amnésia de Clarissa em que ela trabalhou junto com Alex e Estela no café-tabacaria deles. Atendia os clientes, os ajudava na cozinha e no caixa. Era ela a encarregada de, eventualmente, fazer as compras daquilo que também eventualmente faltava no estabelecimento. Foi em um desses dias em que eu a encontrei.

Sempre fiz questão de não frequentar muito o café-tabacaria de Alex e Estela. Assim, estávamos Sofia e eu em uma lanchonete próxima ao café-tabacaria quando Clarissa passou. Havíamos convidado Lilah para passar algumas horas conosco naquela tarde. Foi quando decidi que as histórias de Clarissa e seu pai mereciam ser narradas. Lilah simplesmente havia me intimado: eu devia escrever um livro! Prometi que o faria, embora tenha mentido (desculpe Lilah!). Logo depois dessa promessa, vimos Clarissa passando na rua.

– Chame a menina para sentar conosco por uns instantes. – Sugeriu Sofia, com um riso doce e os lábios levemente corados pelo vinho.

– Clarissa está trabalhando agora. – Respondi, sem conseguir disfarçar que não tinha vontade de conversar com a jovem naquele momento.

– Esperem… – Disse Lilah, rindo com surpresa e empolgação. – Vocês estão dizendo que aquela é Clarissa? Que ela é real?

Apenas rimos. Para não ter de responder, gritei o nome de Clarissa. A menina virou o rosto em nossa direção e então pôs-se à caminhar ao nosso encontro, com seu sorriso tão triste quanto completamente apaixonante. Sentou-se conosco. Apresentamos Lilah à menina e perguntamos como estava o trabalho, como estavam Alex e Estela.

– Está tudo bem. Acho que eles estão trabalhando demais, talvez. Mas tudo vai bem.

Não era verdade e eu sabia que não era verdade. Mesmo Sofia e Lilah, que não a conheciam direito, podiam perceber que não estava tudo bem. Eu sabia que Clarissa estava vivendo sob o fogo cruzado das intermináveis brigas do casal, e que a despeito de tudo era consumida por uma saudade inominável e estranha de seu pai, de seu perverso pai que tão mal ela própria conhecia.

Na época em que o pai de Clarissa encontrou a filha e percebeu que a jovem estava sem memória, deixou a menina sob os cuidados de Alex. Alex já vivia com Estela e já considerava suficientemente pesado ter de conviver com uma alma destruída. Considerava que Estela se tornara uma mulher ressentida e dominada por ódio em função do convívio com o pai de Clarissa. Quando este delegou à Alex os cuidados de Clarissa, o rapaz pensou em se revoltar, em despejar todo seu rancor sobre esse Demiurgo, esse gênio maligno, esse enxadrista perverso que era o pai de Clarissa. Mas, em sua cruzada pessoal contra os próprios ressentimentos, Alex respirou fundo e aceitou. Sem esconder a raiva do olhar, aceitou Clarissa em sua casa. Preferiu conceder de forma servil às vontades do pai de Clarissa.

(Em uma história anterior onde Alex aparecia, um amigo me disse que sem saber eu reescrevia o Livro de Jó, embora sem redenção possível para o personagem. Demorei, mas depois de reler algumas histórias sobre Alex, admiti para mim mesmo: Alex é um Jó contemporâneo, uma espécie de Jó que não vê a hora de que as provações do diabo – o pai de Clarissa – terminem logo.)

Após alguns minutos de conversa descontraída, Clarissa pediu desculpas e disse que tinha de ir ao armazém, pois faltava açúcar no café-tabacaria. Arriscou uma interpretação da situação dizendo que talvez Estela não tenha comprado o açúcar porque queria irritar Alex: culpava-o pelo terceiro olho que havia nascido na testa dela na semana anterior.

– Eu não acredito… – Disse Lilah. – Estela é uma das pessoas em quem apareceu o terceiro olho?

– Sim. – Respondeu Clarissa, com os olhos fixos no chão, mas certamente perscrutando suas então poucas lembranças, todas referentes aos dias em que conviveu com o casal. – Mas ela já andava irritada antes disso acontecer.

– Nada pode ser mais oportuno para alguém cheio de ódio do que uma razão para o ódio. Esse terceiro olho é o menor dos problemas dessa moça… – Arriscou Sofia, com sua languidez habitual. Sofia já conhecia um pouco da história de Alex e Estela através de mim. Lilah e eu rimos e talvez Clarissa também, embora sem muita convicção. Quando a menina se foi, conversamos sobre a história dos terceiros olhos pois há uma semana, sem qualquer explicação aparente, uma em cada sete pessoas no mundo havia acordado com um terceiro-olho na testa.

– Essa moça, Estela, está no movimento dos três-olhos? – Perguntou Lilah.

– Sim. Está. Esteve mesmo na “marcha dos ciclopes” que acontecei aqui na cidade semana passada. Nunca a vi tão à vontade. Parecia ter nascido pra isso. Está muito envolvida, acompanhando de forma atenta as medidas governamentais de proteção dos ciclopes ao redor do mundo. Acha que em nosso país as pessoas com o terceiro olho serão prejudicadas e oprimidas e que as leis elaboradas são insuficientes e mesmo equivocadas.

– Naturalmente… Tudo estará sempre insuficiente e equivocado para ela – Disse Sofia, ajeitando o óculos e bebendo mais um gole de vinho, enquanto acendia outro cigarro discretamente, para que o garçom não nos visse fumando. – Pois se seus problemas fossem resolvidos ela perderia a razão da queixas. Teria de se olhar no espelho e ver apenas a nuvem de mágoas que precisa manter coesa para que ela própria não desapareça. – Disse Sofia, rindo laconicamente. Lilah também riu e disse que Sofia era uma espécie de Dorian Grey. O garçom percebeu a fumaça que emanava de nossos cigarros e risadas e ordenou que apagássemos os cigarros (e as risadas também, me pareceu), pois se quiséssemos fumar em ambiente fechado havia um café-tabacaria, onde era permitido fumar, há uns duzentos metros dali. Sofia disse que seria uma boa alternativa. Jogou uma nota de dinheiro sobre a mesa e, sem apagar o cigarro, me convidou para irmos justamente para o café-tabacaria. Embora não tivesse a menor vontade de ver Alex e Estela, aceitei. Lilah disse que tinha outros compromissos e reafirmou: eu devia escrever um livro. Confesso que já começava a considerar seriamente a ideia. Saímos de onde estávamos e Sofia e eu nos dirigimos para o café-tabacaria de Alex e Estela. Encontramos Clarissa voltando para o estabelecimento e acompanhamos a menina. Esta entrou cabisbaixa. Alex nos viu e moveu levemente a cabeça, em cumprimento, como se esta pesasse quinhentos quilos. Estela, que já teve o mais lindo par de olhos tristes, agora nos fulminava com um olhar lançado por três olhos raivosos.

• • •

Penélope estava, com Estela, na “marcha dos ciclopes”. Diferentemente de Estela, porém, Penélope não tinha acordado com um terceiro olho na testa. Era apenas solidária à causa dos ciclopes, como era solidária à muitas causas.

Meses antes de determinar que Clarissa ficaria sob os cuidados de Alex, o pai de Clarissa havia pedido que Penélope cuidasse da menina. Penélope, na época, havia justamente se separado de Alex por estar apaixonada pelo pai de Clarissa e não imaginava que tanto tempo depois, por intermédio de Estela, reencontraria Alex. Aconteceu quando Estela convidou a nova amiga para um café em seu estabelecimento. Qual não foi a surpresa quando os olhos de Penélope encontraram os de Jó, digo, os de Alex. Estela não imaginava que Alex e Penélope já se conheciam e apenas achou um pouco estranho que Clarissa reconhecesse Penélope, ainda que graças à sua amnésia o reconhecimento não pudesse ser mais do que uma vaga impressão de conhecê-la.

Penélope se sentou ao balcão e pediu uma xícara grande de café expresso sem açúcar e acendeu um cigarro. Sua expressão não era a de quem reencontrasse um grande amor nem tampouco a de alguém que sentisse culpa por tê-lo deixado. Era, pelo contrário, uma expressão quase beatífica, mista de serena cumplicidade e um estranho mas evidente cansaço.

Ao perceber que Alex e Penélope conversavam de modo quase animado, Estela voltou da cozinha e acendeu um cigarro, ficando ao lado de Alex atrás do balcão, determinando daquele momento em diante que Alex não ficaria à sós com a bela moça. De forma enérgica começou então a tecer comentários sobre a marcha dos ciclopes e sobre a luta nascente das pessoas de três olhos. Afirmava, com veemência e entonação adequadas ao papel de militante, que não compreendia como Alex não se sentia empático e inclinado à defender a causa dos ciclopes.

– Eu não consigo controlar minha indignação, nem quero. Sinto uma raiva tomar conta de mim quando vejo essa gente má nos tratando como se fôssemos diferentes por termos o terceiro olho. Acredita que há relatos de que o olhar do terceiro olho tem até mesmo uma função medicinal? Há comunidades em Madagascar, na Indonésia e no Haiti relatando que por lá os ciclopes estão sendo respeitados e até mesmo venerados! Aqui, temos que lutar por nossos direitos. Não há como não se indignar, não há como não se revoltar.

Estela, em suma, afirmava a onipotência de suas paixões políticas e morais: não, não podia controlar a própria indignação, a própria revolta. Tentava ser racional, mas o sentimento era mais poderoso. Era, em suma, uma afirmação viva de uma ideia quase mitológica: a ideia de que a vontade e as paixões se digladiam em nosso interior. Penélope conhecia bem esse modo de pensar e sentiu uma infinita preguiça de explicar para a nova amiga o quanto essa exortação das paixões não passava quase sempre de uma refinada maneira de dividir a própria alma com o intuito de não se responsabilizar senão por parte dela.

Todos conhecemos bem essa história: nossa alma tem partes e algumas são mais nobres do que outras. Platão foi o primeiro a dizer que a razão deve prevalecer sobre os desejos. O cristianismo levou essa ideia à sua apoteose: há anjos e demônios – falanges e legiões! – sussurrando em nossos ouvidos, disputando a influência das nossas almas, sedentos por nos salvar ou nos corromper, a despeito de nossas preferências pessoais. A psicologia moderna, de forma mais elegante mas menos poética, sugere que a deliberação racional deve vencer as inclinações. Eis uma imagem do ser humano esclarecido: austero, íntegro, totalmente controlado e metódico, com um verdadeiro caldeirão infernal de impulsos fervilhando em seu subsolo, perfeitamente domado pelo poder da vontade.

Ora, essa fábula já viveu seus dias e talvez merecesse um lugar honroso nas prateleiras da história do pensamento. Mas não compreende nada da alma humana quem supõe que algum dia será possível superar essa figura dualista da alma cindida, pois em todos os tempos haverão multidões de pessoas interessadas em agir segundo desejos nos quais não gostam de se reconhecer. Onde quer que haja uma, uma única alma incapaz de assumir seus desejos, de se reconhecer mesmo nos mais impróprios, ou seja, onde quer que haja uma alma tirânica e embriagada pela imagem que faz de si, lá estará uma compreensão mistificada e inapropriada do desejo. É assim que Eros, esse poderoso aliado em nossa tarefa de exploração da existência, se transforma em inimigo mortal da tirania (e da covardia, que são irmãs gêmeas) e do narcisismo: é preciso que o desejo vexatório não seja meu, mas de um outro: da natureza humana, dos condicionantes sociais, do demônio! Mas não, não meu, jamais meu. Mas voltemos ao café-tabacaria, porque enquanto nos perdemos nessa meditação, Estela não parou de falar por um instante sequer. O que fez Clarissa, pela primeira vez – na memória dela, ao menos – perder o controle e a paciência.

– Estela, cale a boca! Você não percebe que ninguém mais aguenta você?

Clarissa abaixou a cabeça diante do olhar triplamente raivoso de Estela que, depois de Clarissa encontrou Alex como alvo. O rapaz, incapaz de tomar uma decisão que fosse, abaixou a cabeça da mesma forma que a jovem. Talvez se naquele instante o arrastassem como um cadáver de um lado para o outro ele não reagisse, tamanha sua apatia e dificuldade de tomar decisões nessas circunstâncias. Estela atirou no chão o pano com o qual secava uma xícara e saiu em passos firmes pela porta do café-tabacaria. Era a décima ou vigésima vez que fazia isso na semana. Clarissa, com os olhos marejados, subiu para o segundo andar, pois era onde ficava a casa de Alex e Estela.

– Pra onde Estela vai? – Perguntou Penélope um pouco desconfortável com a situação. Alex falou baixo, para que Clarissa não escutasse.

– Provavelmente para a casa da mãe de Clarissa. Lá ela pode falar o que quiser, vinte e quatro horas por dia, sem ser interrompida.

Penélope subiu para cuidar de Clarissa. Sofia e eu, depois de assistirmos aquela cena, decidimos que não voltaríamos tão cedo ao café-tabacaria de Alex e Estela. Naquele dia, porém, ficamos até o estabelecimento fechar. Não pudemos deixar de ouvir, como duas harpias empoleiradas, Penélope e Alex combinando de ir para a casa dela própria, com Clarissa. Pelos seus olhares eu poderia apostar que naquela noite Penélope e Alex fizeram amor como nos velhos tempos.

• • •

“Não existe a relação sexual”, disse Lacan certa vez. Ele poderia ter ido além e dito: não existe relação nenhuma. Ora, o que são as outras pessoas e mesmo tudo o mais no mundo senão meios para que um certo circuito se feche? E esse circuito tem o ponto de chegada no seu ponto de partida: o próprio eu.

Estela explicava para a mãe de Clarissa porque saíra tão indignada de casa naquela noite. Clarissa, por sua vez, explicava para Penélope e Alex que não queria ter perdido o controle e respondido daquela forma. Alex teria se desmanchado em justificativas para Penélope: teria contado, longamente, como deixou sua vida naufragar daquela forma. Mas sabia que a partida de Penélope tinha um significado secreto: ela própria abominava justificativas, de qualquer tipo, de qualquer natureza. Assim como não pedia explicações, não tinha a menor vontade de prestar contas de nada para ninguém, pois já havia descoberto mais um segredo da existência, mais um desses desconfortáveis: as pessoas acreditam no que quiserem, bem como só perdoam as faltas contra elas cometidas caso queiram perdoar. Explicações, justificativas, desculpas, nada disso fazia sentido nenhum pois não poderiam produzir uma desculpa, pois o mundo é apenas um meio através do qual nos relacionamos conosco mesmos, o tempo todo.

Evidentemente é difícil perceber que é consigo mesmo que cada pessoa se relaciona. Difícil porque desagradável. Difícil e desagradável porque essa percepção, como uma reação em cadeia, desmobiliza uma por uma nossas estruturas, nossos órgãos espirituais que se desenvolvem para preservar nosso eu na aventura da existência. A complexidade das relações, como um castelo de cartas, desmorona e põe a nu o núcleo a partir do qual se estrutura a personalidade de cada um de nós: escolhas.

Como eu disse antes, algumas histórias são difíceis de contar. Mas não para Penélope. Tendo operado essa transformação em si mesma é só muito raramente que ela se sente cativa dos próprios afetos (afinal, mesmo um observador treinado dos movimentos da própria alma tem seus momentos de sonolência e esquecimento). Quando Sofia e eu entramos, já um pouco embriagados, no café-tabacaria de Alex e Estela, vimos Penélope acompanhada do pai de Clarissa sentados à uma mesa. Acho que eu sou a única pessoa que ele olha com algum incômodo nesse mundo. Talvez seja porque ele sabe que é um personagem fictício, que a matéria de sua existência é minha imaginação. De qualquer modo, nos convidou para nos sentarmos com eles. Antes mesmo que nos instalássemos, Estela foi embora irritada como sempre e deixou Alex cuidando sozinho do bar. Providenciei que Alex também fosse embora, bem como todos os demais clientes. Pedi que Sofia acompanhasse Penélope e disse que seria divertido se elas se conhecessem melhor. Sofia me olhou com um olhar cúmplice, mas raro: o de quem pede para que eu não faça nada precipitado ou impulsivo – mesmo que saiba que em minha cabeça essa linguagem não passe de uma fábula. Também providenciei que o pai de Clarissa e eu, sentados naquele banco, não estivéssemos mais no café-tabacaria, mas no balanço que havia na frente da casa onde Clarissa morou em uma época que ainda não sei agenciar cronologicamente. Estávamos, enfim, o pai de Clarissa e eu olhando para a estrada infinita que se estendia em frente àquela casa solitária no meio dos nadas elíseos onde a concebi pela primeira vez.

– Estamos chegando no final, não é mesmo?

– Estamos.

Houve um silêncio. Olhávamos para o horizonte.

– Você vai seguir o conselho de Lilah? Escreverá essa história?

Acendi um cigarro. O pai de Clarissa fumava um charuto.

– Como eu poderia evitar? Eu já os amo. Não poderia mais viver sem vocês.

– Você está bêbado.

– Que seja. Isso não torna menos verdadeiro o que eu falei.

Continuamos fumando, em silêncio.

– O que faremos com Clarissa? – Perguntou o pai da menina.

– Você sabe muito bem. No final ela sempre voltará para você.

– Eu sei. De qualquer forma, obrigado. – Disse pela primeira vez, em dez mil anos, o pai de Clarissa. Houve mais um silêncio e ele se levantou. Eu permaneci ali sentado. Ele se virou pra mim e perguntou, pela primeira e última vez:

– Imagino que não nos veremos mais, estou certo?

– Está. – Respondi, o vendo enfim sorrir e desaparecer na bruma que havia descido sobre o lugar. Também tomei meu rumo, pois era preciso ajudar Clarissa a se lembrar de quem era. Era preciso ajudar Alex à despertar da personagem covarde e submissa na qual se transformara. Era preciso ajudar Estela à sair do curto-circuito de ressentimento no qual ela se metera. Eu também devia, desde aquele dia, um livro para Lilah. Também precisava ver Penélope, de vez em quando, ainda que fosse na forma de um pássaro negro no céu noturno. E era hora de voltar, pois Sofia estava grávida e nada nos fazia mais felizes naqueles dias do que caminhar de mãos dadas naqueles fins de tarde de outono.

Algumas histórias são difíceis de contar. É difícil saber onde elas começam, onde terminam. Mais do que isso: é difícil dizer a que gênero de histórias pertencem. E ainda mais difícil do que isso: é difícil de saber se elas acontecem em algum lugar do universo ou apenas em nossos pensamentos, se apenas em nossos pensamentos ou em algum lugar do universo.

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Excertos do subsolo – Sobre a necessidade, sobre o esquecimento

Enquanto Clarissa não recuperava a memória, seu pai incumbiu Montserrat de aparecer na casa de Alex, onde Clarissa então morava, para conversar com ela de modo que ela não percebesse que estava sendo submetida à uma terapia. Como a desconfiança de Clarissa era muito ampla (parecia-lhe que todo mundo lhe tratava com excessivo cuidado nas atitudes e palavras) Montserrat não estava à salvo dessa desconfiança. A jovem, porém, não desconfiava que o psicanalista, todas as noites, elaborava uma narrativa para seu pai ao mesmo tempo em que procurava razões e soluções para sua amnésia.

Em uma noite qualquer Alex viu o pai de Clarissa, mais uma vez, surgir sem ser convidado. Montserrat ainda estava na sala, com Alex e Clarissa, e naturalmente levantou-se de súbito para cumprimentar o recém chegado. Clarissa sempre achou estranho o efeito que seu pai causava em Montserrat mas como todo seu cotidiano era perpassado por uma atmosfera plena de estranhamento, aquele cenário era apenas mais um elemento do surrealismo que mais e mais impregnava a compreensão com a qual Clarissa vivenciava seus dias ou os sonhos de suas noites. Seu pai então pediu que Alex levasse Clarissa para o centro da cidade, para que fizessem algumas compras. Sem ousar questionar, Alex obedeceu. Montserrat ficou então à sós com o pai de Clarissa que, como sempre, queria saber o que Clarissa havia lhe contado dessa vez.

– Acho que Clarissa está melhorando. Acho que alguma coisa aconteceu, mas ainda não sei o que. Ela finalmente está oferecendo uma narrativa com unidade acerca de si mesma. Em suma, as vivências novas não estão se dissipando diariamente como estava acontecendo.

O pai da menina olhou fixamente nos olhos de Montserrat. E perguntou-lhe, como se já soubesse a resposta, se ela relatara alguma nova amizade, alguma pessoa nova surgindo em seu cotidiano.

– Ela mencionou uma mulher. Mas não sei se é alguém real ou, o que temo, uma fantasia, um delírio. Uma mulher que aparece de forma sempre providencial demais para ser uma pessoa real. O senhor acha que isso já era esperado? – Sem responder a pergunta do psicanalista, o pai da menina apenas perguntou se essa mulher que Clarissa mencionava tinha, em seus relatos, algum nome.

– Morgana. – Disse Montserrat visivelmente nervoso.

O pai de Clarissa se levantou subitamente, saindo da casa de Alex e chaveando a porta, deixando Montserrat preso dentro da casa. Entre a casa e a rua havia um amplo gramado, e o céu estava tão limpo quanto a noite estava silenciosa. Como sempre, não havia ninguém nas calçadas ou nas janelas das casas. Apenas uma mulher, sentada no balanço que o pai de Clarissa fizera no lado de fora da residência de Alex. Olhava para o homem e sorria, serenamente.

– Francamente, como você demorou a perceber minha presença. O que mais eu precisaria fazer para você me notar, querido?

Era difícil ver o pai de Clarissa com uma expressão tão sisuda, tão séria. Mesmo assim, a seriedade não durou: um malicioso sorriso surgiu em seus lábios enquanto, sem mover o olhar um instante sequer, o pai de Clarissa foi até o balanço e deu um beijo na testa de Morgana. Sentou-se, então, à seu lado.

51

– Eu sabia que se algum dia alguém poderia me surpreender e escapar à minha visão, seria você.

– Eu aprendi a espionar com você.

Morgana fazia referência à primeira vez que vira o pai de Clarissa. Aconteceu em tempos imemoriais, onde certamente seus nomes não eram esses ou talvez nenhum dos dois tivesse qualquer coisa como um nome. Morgana se banhava à beira de um rio e, ao perceber que era espionada, continuou seu banho apenas dizendo:

– Você definitivamente não deveria estar aqui. E mesmo que nunca tenha me visto, aposto que já sabe o quanto não gosto de ser observada. Mas aposto que também sabe que eu não poderia resistir à você, nem negar que gosto dessa sua petulância, que já a esperava. E aposto que sabia que eu ia dizer tudo isso.

O pai de Clarissa surgiu do bosque em que estava escondido e pôs-se nu. Morgana virou-se para ele. Olharam um para o outro durante muito, muito tempo. Com o mesmo sorriso que tinham então enquanto se balançavam na frente da casa de Alex.

– Eu sei, você sabe, nós dois sempre soubemos que não viveríamos sob o signo do acaso. Bem como sabemos o que vai acontecer. O que, honestamente, não torna nada menos provido da beleza. Mesmo esse nosso encontro, tão necessário, tão incontornável, tem a beleza da unicidade.

– Venha logo, meu amor, que há muito eu o esperava. – Disse Morgana, enquanto o pai de Clarissa se unia à ela no rio do esquecimento.

Clarissa foi, assim, concebida, sob o signo da necessidade e do esquecimento, mas principalmente sob o signo da unicidade. É por isso que ela caminha de maneira tão pouco civilizada nas lojas, segurando no braço de Alex: tem horror às prateleiras. Olha fixamente para o chão e tenta não prestar atenção em nada daquilo que é produzido em série. Sabe, mas quase não se importa, que todos olham para ela e Alex com certa piedade. Afinal, aquela menina sofre por alguma razão.

– Você vai ter que me soltar, Clarissa. Seu pai pediu que eu comprasse uma coisa que não posso carregar com você assim pendurada em mim.

A garota ouviu mas não tinha forças para atender o pedido de Alex. Assim, o rapaz viu-se obrigado a andar com uma menina pendurada em um braço e um enorme espelho sendo carregado com o outro.

– Sabe que é melhor que conversemos em outro lugar, não é mesmo? – perguntou o pai de Clarissa para Morgana, quando ouviu que muito, muito longe o carro de Alex já rumava de volta para casa.

– Sei, e sei que você sabe para onde vamos. E que você no fundo sabia que eu ia voltar, mas que não consegue acreditar que tenha esquecido. Mas que também sabe que esquecer de mim todo esse tempo era necessário.

– Sim, Morgana. Nós sabemos de tudo isso. Mas mesmo assim…

– Mesmo assim é bonito. Eu sei.

O pai de Clarissa sorriu novamente. Alex e Clarissa voltaram, e Morgana e o pai da menina já não estavam lá. Ouviam gritos horrendos vindos de dentro da casa. Com o espelho em mãos, Alex correu. Clarissa o acompanhou e, como em outros momentos, se lembrou de quem ela própria era. Parou por um instante e olhou para aquela casa, aquela rua deserta, aquela noite eterna e impecavelmente limpa e sentiu como se despertasse. Reparou que o balanço ainda se movia, como se alguém estivesse ali sentado há poucos instantes. Alex já estava em casa e tentava, inutilmente, ajudar Montserrat. Clarissa sabia o que fazer. Enquanto Alex tentava falar com um Montserrat que aos gritos estava ao chão em posição fetal, Clarissa entrou. Viu o espelho recostado à parede. Pegou um cinzeiro e o atirou no meio do espelho. Alex olhou para Clarissa. A menina fechava seus olhos e respirava profunda e lentamente. Montserrat, subitamente, se acalmou. A menina estendeu a mão. O psicanalista tinha o rosto manchado do sangue de que eram feitas suas próprias lágrimas. Calmamente, Clarissa conduziu Montserrat até a frente do espelho quebrado e o fez se olhar no mesmo. A imagem estilhaçada de ambos surgiu. “Fique calmo, meu amigo. Fique calmo. É a minha vez de lhe ajudar. Você não vai se esquecer de quem você é, eu prometo”.

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Excertos do subsolo – Um vinho para Clarissa

Essa história aconteceu na época que Clarissa não se lembrava com nitidez quem ela própria era. Assim, não é fácil precisar se foi de fato a primeira vez que encontrou Morgana, mas tudo se passa como se fosse.

Era o velório de Sigmund. Victória estava desolada e era amparada pelos presentes. Comovia a todos quando repetia que não entendia como aquilo era possível e o quanto parecia, enquanto estavam juntos, que o mundo era só deles. Alex estava emocionalmente exausto e só pôde descansar quando, depois do entardecer, Montserrat apareceu para ajudar a cuidar da jovem viúva. Pôde, então, voltar a se dedicar da tarefa que mais lhe consumia o tempo e as forças: cuidar de Clarissa em tempo integral.

Clarissa viu Morgana nesse ínterim, enquanto Alex a deixava sozinha por alguns instantes para cuidar de Victória. Quando a viu, Morgana estava próxima às pessoas que se aglomeravam ao redor da cova recém fechada, mas no lado oposto em que estava a própria Clarissa. Chamou-lhe atenção que Morgana não parecia prestar muita atenção ao velório ou às narrativas que se entrecruzavam e que, para Clarissa, pareciam se referir à muitos indivíduos diferentes. Já sabia que conhecia Sigmund desde antes de perder a memória, mas por não ter tais lembranças não conseguia dar unidade aos vários personagens que os retalhos narrativos que os presentes compartilhavam sobre o morto. Ao perceber que Morgana parecia prestar atenção apenas nela própria – pois mesmo em um velório lhe dirigia um discreto mas notável sorriso acompanhado de um olhar fixo – Clarissa decidiu, discretamente, se aproximar de Morgana.

“Olá. Eu a conheço, não?”, perguntou Clarissa. Morgana disse que sim, há muito tempo, mas que isso não importava agora. Conversavam sobre Sigmund, Victória, Alex, Montserrat e mesmo sobre o pai de Clarissa. Esta preferiu não insistir em perguntar de onde afinal ela conhecia seu pai e ela própria e escutou atentamente as palavras que lhe eram dirigidas. O que Clarissa achava estranho é que mesmo não lembrando satisfatoriamente de seu passado, as palavras de Morgana faziam-na sentir uma estranha familiaridade, um permanente deja vu que, mais do que incomodá-la, deixava Clarissa à vontade e livre daquela permanente sensação de não saber direito onde estava e o que estava acontecendo afinal. Era como se Morgana fosse a única pessoa com quem Clarissa falava até agora que não lhe passava a estranha impressão de estar medindo as palavras. Às vezes, sentia-se paranoica: talvez ninguém estivesse escondendo nada. Por que estariam? O que Clarissa não poderia ou deveria saber sobre seu próprio passado? A sensação de familiaridade que Morgana lhe transmitia, porém, eram um poderoso contraponto ao suspense que sua amnésia parecia lhe obrigar a viver.

Clarissa e Morgana pararam de falar por alguns momentos e prestaram atenção às palavras de Victória.  Victória dizia que Sigmund havia dito, naquela semana, que era a primeira vez na vida em que se sentia como se tivesse finalmente conquistado o coração de Victória. E que então já poderia morrer, pois havia alcançado a meta da sua vida, a única coisa que realmente queria. Victória também disse que esse desejo pode ter mesmo produzido a morte de Sigmund: há muito tempo ambos estavam convictos de que seus pensamentos, de alguma maneira, faziam com que os fatos acontecessem quase sempre segundo sua vontade, mais cedo ou mais tarde.

Clarissa ouviu atentamente e sentiu a mão de Morgana tocando seu ombro. “Mais tarde eu vou lhe procurar”, disse a moça e desapareceu. Nesse instante Clarissa viu o olhar preocupado de Alex procurá-la entre as pessoas no velório, olhar que só descansou quando encontrou Clarissa. Naquele instante, Clarissa sentiu algo que estava recorrente nos últimos dias: sentiu que já estava cansada de se sentir um fardo na vida de Alex. Decidiu voltar para perto do rapaz e esperar do seu lado pelo fim da cerimônia. Também naquele instante todos, mesmo Victória, ficaram em silêncio sepulcral, pois o pai de Clarissa também chegava para o velório. Prestou suas homenagens e pôs-se ao lado de um Montserrat tão intimidado quanto raramente se via. O pai de Clarissa disse que Alex levasse Clarissa para casa pois ele próprio acompanharia aqueles que ofereceriam amparo à Victória. Alex saiu então do velório antes dos demais. Levou Clarissa para casa. Lá chegando, constatou que havia esquecido de comprar cigarros. Clarissa se ofereceu para fazê-lo e Alex aceitou, mesmo a contragosto, que Clarissa saísse sozinha, forçando a si mesmo a dar mais autonomia e liberdade para a jovem. Clarissa vestiu um casaco e saiu na direção do café mais próximo da casa de Alex. Quando lá chegou, se surpreendeu: Morgana estava sentada à uma mesa. Com o mesmo discreto sorriso de antes.

Morgana estava sozinha e seria possível dizer que já esperava Clarissa. Clarissa sorriu e foi até o balcão. Comprou o cigarro e antes de ir decidiu trocar mais uma palavra com a moça que de forma impassível lhe sorria. Morgana convidou Clarissa para se sentar com ela. Conversou novamente sobre o velório e ambas tiveram de concordar que não podiam chorar pela morte de Sigmund: uma não o conhecia direito, outra não se lembrava dele. Depois de alguns minutos, Clarissa não se conteve e perguntou novamente de onde se conheciam.

“Você não se lembra mesmo? De nada?”, perguntou Morgana, fitando Clarissa sem piscar uma vez sequer.

“Desculpe, mas eu não lembro”, respondeu Clarissa. Morgana disse que resolveria esse problema e foi até o balcão novamente. Enquanto falava com o taberneiro, apontou para Clarissa. A menina não conseguia ouvir o que diziam, mas viu que Morgana apontou na sua direção. O taberneiro consentia com a cabeça. Foi até o interior do local e voltou com uma garrafa escura, sem rótulos ou marcas, de algo que parecia vinho. Morgana convidou Clarissa para mais um passeio. A jovem percebeu que Morgana trazia duas taças. Ao saírem do estabelecimento, Morgana serviu uma taça para cada uma e pediu que Clarissa a acompanhasse por mais alguns minutos naquela noite fria.

Naqueles quarteirões que atravessaram bebericando aquela estranha bebida – Clarissa pensou que fosse vinho, mas o sabor frutado lhe lembrava muito o de morangos – foi onde a noção do tempo provavelmente começou a se perder para a jovem. Depois do segundo ou do terceiro copo, Clarissa sentia uma estranha euforia. Além disso, a sensação de familiaridade e pertencimento ao mundo haviam lhe tomado por inteira: a vida parecia uma aventura a ser vivida. Parecia-lhe mesmo que em qualquer esquina alguma coisa lhe apareceria e lhe faria lembrar, afinal, quem ela própria era. Não sabia se era a bebida, a presença da nova amiga ou qualquer fator desconhecido na atmosfera. Provavelmente um misto de tudo isso. Foi assim que, por convite de Morgana, Clarissa decidiu entrar em um cassino com sua nova amiga.

Rapidamente Clarissa percebeu que não tinha muito dinheiro e que, portanto, não jogaria por muito tempo. A primeira rodada na roleta lhe levaria quase um terço de tudo o que tinha. Mas, por nunca ter jogado, decidiu apostar. E apostou tudo em apenas um número.

Venceu.

Eufórica, pediu mais um copo daquele estranho vinho para Morgana. Sua nova amiga apenas sorria, condescendente, e lhe servia. Não jogava. Apenas acompanhava Clarissa na euforia de alguém que parecia descobrir o mundo e vivenciar os sentimentos mais puros e intensos pela primeira vez. Clarissa jogou e venceu novamente. E novamente. E novamente. E novamente…

… E quando percebeu, havia multiplicado em pelo menos cem vezes a soma inicial que trazia consigo. Não fazia ideia de quanto tempo havia passado, mas a presença da nova amiga e o sabor daquele elixir mágico a faziam se sentir muito bem, como há muito não se sentia. Morgana, pela primeira vez na noite, não parecia condescendente com a situação, e não sorria. Não recusava a Clarissa sempre mais um copo do estranho vinho que deixava Clarissa eufórica – e, honestamente, irreconhecível. A menina não apenas não percebia que seu estranho vinho nunca lhe era negado – e que, portanto, não parecia ter fim – como também não percebeu que era o centro das atenções de todo o cassino. Por mais que aquele róseo elixir lhe deixasse cada vez mais lúcida e eufórica, os vapores proporcionados pela bebida haviam feito Clarissa ultrapassar em muito os limites de si mesma. Sentia-se onipotente. A sensação era, simultaneamente, a de que estava mais desperta do que nunca, desperta o suficiente para perceber que aquilo só podia ser um estranho sonho. Percebia os rostos hostis e arquetípicos dos presentes, senhores e senhoras caricatos lhe observando com desconfiança. Não pareciam pessoas, mas bonecos que desde sempre e para sempre jogavam naquele cassino sem janelas, e que o próprio cassino realizava seus jogos em um espaço fora do tempo. Não se deixava intimidar, porém. Fazia apostas cada vez mais altas e, um copo após o outro, ficava cada vez mais rica. Pedia para que Morgana cuidasse de suas fichas, pois eram tantas que já não cabiam na mesa de jogo.

A cada sucessiva e estatisticamente impossível vitória, os valores se multiplicavam. O tempo havia passado de forma difusa e imensurável. Clarissa pegou a garrafa da mão de Morgana e bebeu com a sede de alguém que se perdeu em um deserto. Seus olhos não saíam da mesa de jogo e sua lucidez parecia ter se convertido em loucura: não queria admitir que não era nada, nada razoável que há tantas e tantas rodadas cada uma de suas jogadas fosse recompensada com uma vitória imediata. Não fazia sentido mas, francamente, não lhe interessava nem um pouco o sentido. Queria vencer. Queria sair rica pela porta daquele cassino! Milionária, para ser onipotente como sentia que podia ser! Não tinha muitas lembranças acerca de quem era, nem sabia se dinheiro era algo que lhe importava. Mas se saísse com tanto dinheiro daquele cassino, pouco importava quem tivesse sido antes de perder a memória. Poderia ser quem quisesse!

Em um determinado momento da noite, Morgana pôs a mão sobre a de Clarissa:

“Clarissa… Vamos embora. É hora de parar.”

“Não!”, disse a menina com olhos em chamas. “Eu não quero parar, eu não quero querer parar!”

Morgana não disse nada. Clarissa jogou mais uma volumosa soma e, pela primeira vez na noite, perdeu. Irritada, jogou novamente. Perdeu novamente. Contrariada pela mudança repentina de sua sorte, jogou uma nova soma. Perdeu mais uma vez. Quando voltou-se para Morgana, percebeu que estava sozinha lá, que sua nova amiga havia sumido. Foi beber mais um gole de seu elixir mágico mas, para sua surpresa, a garrafa estava vazia. Foi nesse exato momento que todo o passado de Clarissa se descortinou e a menina se lembrou de quem ela própria era. Lembrou-se de seu passado, de seu pai, de Alex, do céu, do inferno, de tudo. E teve de reviver, em um só instante, o escoamento de todas as suas lembranças para dentro de sua alma. Sentiu uma vertigem. Caiu.

As risadas de escárnio dos presentes ecoaram pelo ambiente ao mesmo tempo em que Clarissa, em lágrimas, contemplava a própria vida, a própria memória agora recuperada. As fichas de Clarissa, na mesa de jogo, foram então disputadas à tapas, socos, mordidas, golpes com garrafas, copos, taças. Um festim de violência desenfreada acometeu os presentes que disputavam cada ficha que Clarissa, desfalecida no chão, não tinha como defender dos abutres que se jogaram sobre seu corpo, enfiando as mãos nos bolsos de seu casaco, de suas calças, dentro de sua roupa. O último gatuno, um rapaz alto e magro, pálido como um cadáver animado, encontrou apenas um maço de cigarros no bolso de Clarissa. Com uma expressão de nojo, jogou o maço sobre o rosto da menina.

Devastada, a menina ergueu-se. Com os cachos dourados em desalinho, apenas apanhou o maço de cigarros que deveria levar para Alex e decidiu sair dali. Em passos trôpegos, procurou a saída do cassino. Não conseguia pensar direito em mais nada e agora – estranhamente livre dos efeitos do estranho vinho, como se tivesse vertido o mesmo através das próprias lágrimas – parecia que todos os presentes sabiam quem ela própria era, pois cada um por quem passava lhe olhava, apontava, ria, gargalhava, injuriava. Uma vez finalmente na porta do cassino, Clarissa sentia que se esquecia de alguma coisa. Tinha o estranho sentimento de que havia deixado, com todo o dinheiro perdido, mais alguma coisa para trás. Não tinha como perceber o que perdera: acabava de esquecer, mais uma vez, quem ela própria era.

Em passos tão lentos quanto imersos em confusão, Clarissa voltou pra casa. Sentia-se cansada, exausta. Já não havia em sua alma nenhum sentimento de familiaridade com nada, e o mundo voltava a parecer apenas áspero e ameaçador. Lembrava-se unicamente que quase tinha ficado rica e que havia sido violentamente roubada em um cassino. Mas tudo lhe parecia tão surreal que decidiu que não contaria à ninguém a experiência pela qual passara. Porém, o sentimento que lhe acompanharia a partir de então e até o dia em que se lembrasse quem ela própria era seria o sentimento de que havia perdido algo muito, muito importante. Sabia que haviam levado todo seu dinheiro, mas por alguma razão o estranho sentimento que se instalara não parecia coincidir com essa perda.

Chegou em casa e ouviu uma voz feminina contando, aos prantos, uma história. Falava de um morto que havia dito, no leito de morte, que tudo se passava como ele imaginava que se passaria: sua vida inteira transcorria, como cenas recortadas de um filme, diante da consciência antes do momento final. E como ele imaginava, não passava em ordem cronológica, mas em ordem de importância. E o último momento era ao mesmo tempo o momento mais perfeito, o momento mais importante, pois acontecia simultaneamente no delírio e na realidade: poder estar com a pessoa amada na hora da morte. Era Victória falando de Sigmund, na sala casa de Alex. Clarissa adentrou o recinto e logo todos os presentes pararam de falar por um instante. Olhavam para ela em silêncio. Igualmente calada, Clarissa caminhou até Alex, entregou-lhe o maço de cigarros e, se recostando ao peito do amigo que então a abraçava, pôde novamente cair em prantos pela primeira vez naquele dia tão triste que, finalmente, terminava.

red wine

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87 anos de insustentável leveza

Aproveito a ocasião do aniversário de Milan Kundera para, mais uma vez, prestar uma pequena homenagem àquele que de longe, no horizonte, inspira meus pensamentos. Assim, comentarei brevemente algumas de suas obras no intento de, eventualmente, instigar o leitor à leitura das mesmas.

A brincadeira é o primeiro romance de Kundera. Único romance escrito em primeira pessoa pelo autor, o romance nos apresenta a história de um indivíduo que retorna à sua cidade natal depois de 15 anos. Eu definiria o romance inaugural de Kundera como sendo uma elegante, embora não muito sutil, história acerca de como uma atitude impensada pode, em um único instante, arruinar a vida de uma pessoa. A história se passa na República Tcheca com o pano de fundo da invasão dos russos e das consequências cotidianas dessa invasão na vida do povo tcheco. O tema permeará todos os primeiros romances de Kundera e, nas palavras do próprio autor, não é senão um recurso artístico e narrativo, não devendo conduzir a leitura do romance para um viés político.

O livro do riso e do esquecimento é uma obra escrita sob a convicção de que um romance não precisa ser presidido por uma história centrada em personagens, mas em temas. Assim, Kundera cria uma narrativa que versa simultaneamente sobre a luta do ser humano contra o esquecimento bem como sobre as diferentes atitudes que podemos ter diante da vida e a expressão dessas atitudes nas formas como rimos. Formalmente sofisticado, O livro do riso e do esquecimento é às vezes considerado uma coletânea de contos costurada por um tema comum. Kundera, porém, enquanto artífice e comentador da própria obra, nos apresenta um romance organizado a partir de premissas exaustivamente elaboradas que podem, para alguns, parecer um pouco excêntricas.

A insustentável leveza do ser é, sem dúvida, o romance mais famoso de Milan Kundera. O romance é focado em quatro personagens através dos quais Kundera visa ilustrar a insuportável leveza da existência humana: como suportar uma existência na qual tudo é sempre feito pela primeira vez, onde cada instante pode determinar todo o futuro, onde nunca sabemos suficientemente qual é o destino par o qual marchamos com nossas escolhas, onde a morte pode surgir de forma inesperada e pondo fim à existência de forma absurda? Kundera conta que pensou em chamar o romance de “O planeta da inexperiência”. Aparentemente não gostou da adaptação que Philip Kaufmann fez do romance para o cinema, com participação de Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche, pois não permitiu que nenhuma outra obra fosse adaptada.

Risíveis amores é, este sim, uma coletânea de sete contos acerca das ironias e efemeridades dos afetos humanos. Escrita de forma mais leve e menos digressiva do que as demais obras, Kundera explora diferentes aspectos do desejo, da sexualidade e da existência humana em contos onde as ironias do destino e do desejo perpassam as pequenas aventuras cotidianas dos personagens.

A imortalidade é, para mim, um marco estético na obra de Kundera. O romance se agiganta em inteligência e domínio formal na arte da composição romanesca. Kundera mescla ficção, variação ficcional sobre figuras históricas, digressão filosófica, história, relato biográfico e aparece mesmo de corpo presente como personagem do próprio romance, rompendo a fronteira entre ficção, sonho e realidade como já anunciava nos romances anteriores e voltaria a fazer em obras posteriores. Nesta obra Kundera, atuando como personagem do próprio romance, chega a dizer que este livro é que deveria ter sido chamado de A insustentável leveza do ser.

A identidade é uma narrativa rápida e intensa na qual Kundera, novamente atenuando a separação entre sonho e realidade, conta a história de uma mulher que, de repente, se sente velha demais. A jornada dessa mulher que subitamente se vê destituída daquela que era sua identidade conduz o leitor em uma viagem que embriaga durante todo o trajeto e termina de forma surpreendente. É um dos livros mais “rápidos” de Kundera, escrito em forma que ele mesmo chama de vaudeville.

A arte do romance, A Cortina e Os Testamentos Traídos são, todos os três, ensaísticos. Neles Kundera comenta tanto suas próprias obras quanto obras de outros grandes romancistas. É possível notar na redação das três obras um núcleo de preocupações temáticas, estilísticas, estéticas e históricas acerca da arte do romance. Além de romancista, Kundera é um entusiasta da ideia de que o romance tem uma sabedoria que própria e insubstituível e que só aparece quando o romancista é genuinamente um artista e se deixa desaparecer por trás de suas obras. Só nesse caso a autêntica arte do romance acontece. É essa sabedoria que caracterizou uma história que nasce com Rabelais e Cervantes e atravessa os séculos até os dias atuais.

Há outros romances que poderiam ser comentados – como A festa da insignificância, publicado ano passado depois de um longo hiato – mas me detenho nessas sugestões específicas porque acho que umas duas ou três delas já são suficientes para se tornarem leituras inesquecíveis. No mais, desejo ainda longos, saudáveis e criativos anos para Milan Kundera.

Milan Kundera

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“Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft

Quase três anos atrás assisti, por sugestão de um professor dos tempos de graduação e mestrado, um filme chamado The Sunset Limited, adaptado de peça homônima de Cormac Mccarthy. No filme, Tommy Lee Jones interpreta um professor que tentara suicídio na estação onde o personagem de Samuel L. Jackson trabalha como gari. Sem nome, os personagens apenas entabulam um diálogo de noventa minutos no qual o gari tenta devolver ao professor, pela via da religião, o sentido da vida. Falei sobre esse filme aqui. Falo disso porque ontem concluí a leitura de um livro que me lembrou muito o filme. Trata-se de “Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft.

Quando adquiri o livro já havia ouvido falar de Kreeft. Seus livros são recomendados por uma certa figura pública da mídia brasileira, autoproclamado filósofo, cujo nome prefiro nem mencionar para que seus admiradores (ou aqueles que dispensam tempo para falar mal dele, tão chatos quanto os admiradores) não venham parar aqui no meu blog. O livro que essa figura pública recomenda é intitulado “Como Vencer a Guerra Cultural” e na obra aparentemente Kreeft conclama os cristãos à uma guerra cultural contra… Tudo que não seja conservadoramente cristão. Também sabia que Kreeft tinha livros do mesmo gênero – pensadores se encontrando com Sócrates – sobre Marx, Kant e outros pensadores detestados pelo conservadorismo. Não fui para a leitura, portanto, esperando nada senão um massacre de Sócrates contra Sartre.

Ledo engano, divertida surpresa.

O Sartre de Kreeft é charmoso. Arrogante, histérico e intransigente, o Sartre de Kreeft é verossímil para quem tenha lido algumas biografias sobre o autor. Diferente do Sartre chapa-branca, edificante e boa-praça que parece se impor ideologicamente à alguns que se dedicam à estudá-lo academicamente. O Sartre que Kreeft apresenta é, nas palavras de Sócrates, o melhor amigo dos sacerdotes: oferece uma imagem da condição humana tão aterrorizante que deixaria qualquer um desconfortável em viver e pensar como um verdadeiro ateu, o que faria as pessoas correrem para as religiões. O próprio existencialismo se resume, mais ou menos por metade do livro, àquela “tentativa de extrair as consequências de uma posição ateia coerente” – definição usada por Sartre, é verdade, mas en passant n’o Existencialismo é um Humanismo (Kreeft, aliás, evita o máximo que pode discutir O Ser e o Nada, por sua demasiada e desnecessária complexidade). O existencialismo, em suma, seria uma doutrina impossível de ser vivida.

O livro tem quase 180 páginas de diálogo entre Sócrates e Sartre. Kreeft faz seu Sartre admitir que há, no seu existencialismo, uma opção pelo absurdo. Que a gratidão e o amor são impossíveis no existencialismo, que Sartre não parece crer no absurdo que prega pois não seria capaz de viver. Há mesmo alguns argumentos filosoficamente relevantes no meio da conversa. Kreeft faz Sócrates revelar à Sartre, por exemplo, que sua ideia do que seja a experiência cotidiana mediana da maior parte das pessoas é completamente delirante. Também faz Sócrates mostrar à Sartre como as pessoas, em geral, não experimentam, na ocasião de uma decisão, a escolha dos valores segundo os quais tais decisões se justificam moralmente – ideia central do existencialismo sartreano no que tange a natureza do valor e ao alcance da própria liberdade. Em suma, Kreeft é bem sucedido ao apresentar Sartre como alguém que, diante de um filósofo metafísico moralmente conservador, encarna perfeitamente bem o papel de um vilão: segundo Kreeft, Sartre mente que o existencialismo ateu apreciaria a existência de Deus porque a Sua existência resolveria o problema da angústia, o desespero e o desamparo humanos. Kreeft – ou melhor, seu Sócrates – afirma que Sartre aprecia o absurdo que prega, o desconforto que causa e não consola, a ausência de Deus. Afirmações sobre Sartre que acho bastante plausíveis.

O ponto fraco do livro de Kreeft é, sem dúvida, seu Sócrates. Transformado em um guardião da salvação da alma na antecâmara da eternidade, o pai da filosofia foi transformado em uma espécie de cão de guarda do conservadorismo cristão. Tomando parte por Aristóteles contra Platão não poucas vezes e muito preocupado em julgar Sartre segundo ideias mais medievais do que gregas, Sócrates também é pouco maiêutico: em certos momentos Sócrates fala mais do que pergunta. A licença poética permite que Kreeft faça o uso que preferir de Sócrates ou de Sartre. Minha impressão é a de que Sócrates, mais que Sartre, foi descaracterizado ao ser destituído de sua conhecida posição de buscador obsessivo da verdade. Talvez o público alvo de Kreeft não seja mesmo eu, que já poderia ser visto por ele como um fruto de uma educação filosófica pervertida por um dos lados da guerra cultural. Mas mesmo eu – que não sou nem leitor nem mesmo apreciador dos diálogos platônicos – fiquei espantado com o Sócrates de Kreeft.

Aliás, espanto e perplexidade marcam o final do livro. Sócrates – ou seja, Kreeft – não destrói Sartre em seu diálogo. No máximo faz seu diabólico Sartre afirmar que caso fosse mesmo um agente duplo do cristianismo – que entraria no ateísmo para assustar os ateus com a ameaça do absurdo – não poderia se revelar. Encaixando Sartre em uma grande narrativa divina na qual mesmo Judas Iscariotes tem seu lugar como antagonista, Kreeft encerra o livro fazendo Sócrates dizer que nunca encontrara um filósofo como Sartre. Tal como o personagem religioso de Mccarthy termina desconsolado em The Sunset Limited, Sócrates sai atordoado da conversa com Sartre. E se Kreeft – através de Sócrates – afirma que a felicidade é um fim e a filosofia é um meio, o Sartre de Kreeft é mais filósofo do que seu Sócrates ao ser intransigentemente coerente com suas premissas do absurdo da vida, da liberdade radical, da responsabilidade pela criação dos valores – e, portanto, pouco preocupado com felicidade. Se Kreeft vê no filósofo francês um agente duplo da religião ao criar um ateísmo assustador, Kreeft me pareceu um agente duplo do existencialismo ao apresentar um Sartre menos adestrado ou politicamente correto e mais comprometido com as verdades desconfortáveis do existencialismo do que se pode ver em muitas publicações mais sérias sobre o assunto.

Peter Kreeft

Peter Kreeft

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As mãos dadas II – O adeus de Penélope

O carro estava indo talvez um pouco rápido demais para que Alex o conduzisse com uma única mão. Mas não queria soltar a mão de Penélope. E se dirigir segurando a mão da moça já não era imprudência suficiente, Alex aproveitava para espiá-la, várias vezes por minuto, enquanto ela se deixava embalar pela velocidade e, em um aparente transe, se deleitava com a vista que se oferecia pela janela aberta do automóvel. Seus cabelos, então mais curtos do que outrora já foram, escapavam mecha por mecha do rabo de cavalo que a moça improvisara. A fumaça do cigarro segurado com a outra mão quase não se deixava entrever, pois mal deixava a ponta do mesmo e se perdia no turbilhão de ar causado no interior do veículo pela velocidade. Alex tinha de se concentrar, pois quanto estava com Penélope parecia contagiado pela mesma maldição que a acometia, a saber, a de se deixar arrebatar quase que completamente por qualquer sentimento. Naquele momento, enquanto o espírito de Penélope parecia se perder no cinza daquele fim de tarde, o de Alex se perdia no rosto e na pele de Penélope. Mas se perdia por pouco tempo, pois a combinação de estrada e velocidade exigiam sua atenção.

Depois de longos minutos, Penélope percebeu que era observada e sorriu com seu encantador sorriso sempre meio triste e completamente autossuficiente, de uma tristeza assumida com serenidade. Alex se perguntava se ela fazia ideia do quanto ele gostava dela, e preferia manter a questão em silêncio: era preciso silenciar. Se Penélope desconfiasse do que Alex sentia por ela, escaparia para longe como a fumaça do cigarro. Para evitar mesmo pensar nisso – pois às vezes desconfiava que a moça podia ler seus pensamentos – comentou sobre a beleza do céu cinzento. Penélope concordou:

“E não é?”, disse sorrindo.

Vejam: o arrebatamento de Penélope não é com o céu cinza. Nem consigo mesma. Era com o sentimento proporcionado por aquela circunstância que parecia elaborada por um demiurgo melancólico. Estavam indo embora da cidade onde viviam, depois de muitos anos. Não sei por que razão precisa iam embora, nem para onde. Mas a velocidade com que Alex guiava mostrava o quanto ambos fruíam a sensação de estar deixando para trás um mundo inteiro. E Penélope, através daquela paisagem seca e daquele céu cinza, voltava a si mesma. Alex não conseguia saber o que exatamente preenchia os pensamentos da moça, mas sabia que fosse o que fosse, o fazia do ponto de vista de alguém que não sabe o que fazer consigo mesma na própria vida. Podia captar, quase sentir junto com Penélope o sentimento dela, como se sente o calor de uma fogueira da qual se está próximo. Poder sentir isso era, para Alex, um privilégio. Às vezes queria ficar preso para sempre em um desses instantes que tinha com Penélope, onde se irmanava com ela em uma bruma indefinida e impossível de ser traduzida em palavras. Mesmo quando Penélope pegou no sono, Alex sabia: seus sonhos estavam embebidos daquela incerteza nebulosa sobre o que seria a vida dali para a frente. Alex também sentia o mesmo. Naquele momento, porém, ao menos uma certeza ele tinha: desejava segurar a mão de Penélope para sempre.

• • •

A noite caiu e Penélope continuava dormindo. De modo muito habilidoso, Alex colocou música para embalar o sono da moça. Sem, porém, soltar sua mão. Os acordes de guitarra e a voz da vocalista da banda de rock estavam entre algumas das coisas que Alex mais gostava no mundo naqueles dias. Penélope não gostava tanto daquelas canções, mas como o próprio Alex ela sabia apreciar o deleite do amigo. Enquanto dirigia com uma mão só, Alex cantarolava a canção:

My Future is static
It’s already had it
I could tuck you in
And we can talk about it
I had a dream
And it split the scene
But I got a hunch
It’s coming back to me

A guitarra soou repetitivamente, como Alex tanto apreciava, algumas notas nervosas. Nervosismo e repetição. Era como se ele e a música fossem espelhos um do outro. Embora vivesse um momento completamente novo em sua vida (era a primeira vez que ele dava um salto no incerto de maneira tão franca) sentia que essa incerteza era uma nota repetitiva que retornava como uma bola de borracha lançada repetitivamente ao fundo de uma piscina, voltando sempre à tona. A presença de Penélope o enchia de forças e ele se prevenia mentalmente desse conforto: não devia contar com a certeza da companhia dela nem devia deixar que ela visse que ele lutava contra si mesmo para se prevenir da esperança. Enquanto pensava nisso, em uma curva qualquer, Alex perdeu o controle do carro.

• • •

Alex não lembra quando exatamente conheceu Penélope, mas lembra quando foi que se apaixonou por ela. Era uma festa ao ar livre, cheia de jovens e pessoas envolvidas com a transformação da sociedade. Socialistas discutiam a dialética da história e analisavam a conjuntura política do país ao sabor de cerveja barata enquanto punks enchiam a cara sem esperança e com bebida mais barata ainda. Penélope estava com outras moças, próxima à um aparelho que tocava música popular. Dançavam e bebiam, como quase todos ali. Alex lhe pediu um cigarro, mas quem puxou assunto foi ela: queria saber se ele tinha um certo livro que ela queria ler. Ele tinha. Conversaram sobre o livro um fim de tarde inteiro e Penélope dedicou então toda sua atenção ao rapaz. Sem outras acomodações, assistiram deitados na grama o alaranjado do crepúsculo dar lugar à penumbra do entardecer. Foi essa a primeira vez em que se deram as mãos e foi de mãos dadas que viram a noite chegar. Esperar de mãos dadas o anoitecer foi a metáfora que encontraram para tudo o que aconteceria desde então.

Ambos já viviam há tempo demais naquela cidade e sua aproximação permitiu que vissem que já não havia nada que desejavam realizar por ali. Foi na noite do mesmo dia, depois de se separarem no início da mesma, que Penélope tocou a campainha da casa de Alex pela primeira vez. Era, na verdade, o início da madrugada e Alex estava em casa um pouco embriagado – ou ao menos supunha estar – escrevendo justamente sobre Penélope. Tinha o livro que ela pedira em frente ao computador em que ela escrevia e não pôde negar à moça que ela lesse o que ele estava escrevendo. Era uma espécie de conto, ou talvez uma crônica. Certamente um texto tão etéreo quanto este. Foi nessa noite que se beijaram pela primeira vez.

Esse beijo seria o primeiro de muitos, bem como a própria companhia noturna se tornaria uma constante para ambos. Ainda que ambos estivessem envolvidos em relacionamentos com outras pessoas (Alex tinha um namoro conturbado enquanto Penélope se envolveu com outras duas pessoas nesse ínterim) suas noites compartilhadas seriam o bálsamo de seus dias. De forma que seria inevitavelmente obscena em algumas narrativas, Alex e Penélope compartilharam seus corpos e almas em repetidos encontros que logo foram reconhecidos pelos dois como espaços de fuga: encontraram, um no outro, ilhas de tranquilidade, de leveza e liberdade diante das expectativas que se depositavam sobre eles e permeavam todos os demais âmbitos de suas vidas. Embora estivessem próximos o suficiente para terem cultivado reciprocamente algumas pequenas expectativas, o fato de seus encontros serem um espaço de exceção às exigências afetivas de um mundo demasiado confuso fez com que fossem prudentes: era como se tivessem feito um acordo silencioso de que sua relação não degradaria pelas mesmas razões que degradaram todas as demais que viviam e sobre as quais tanto falavam. Estabeleceram uma relação estranha, semelhante à um parentesco incestuoso, nascido do acaso mas eficaz contra o tédio. A relação durou apenas algumas semanas, precisamente o tempo que Penélope levou para ler o livro. E como se imitassem os personagens do livro, ao final da leitura de Penélope ambos concordaram que deviam ir embora.

Não sei exatamente como decidiram, nem sei exatamente o que levaram no porta-malas do carro. Não foi, porém, nada planejado. Ao entrarem no carro de Alex, deixavam para trás aquela parte de nós mesmos que é justamente a que nasce quando ficamos tempo demais em contato com algum solo. Talvez nenhum dos dois percebesse o quanto tal parte de si mesmos era fundamental e decisiva, mas não pareciam se importar. No espaço de poucos dias, decidiram que nada mais do que haviam vivido importava, mas sim o que iriam viver dali para a frente. Iriam embora. Não sei mesmo se decidiram o destino para o qual estavam rumando, mas vejo nos sorrisos aliviados – um tanto quanto melancólicos, é verdade – a convicção de que uma vida nova, nem boa nem má, era então possível e desejável. Deram as mãos e Alex deu a partida no carro, guiando com uma mão só.

• • •

O carro saiu da estrada e desceu algumas dezenas de metros por um declive, parando muito longe da estrada. Não sabiam onde estavam. Não haviam se machucado, porém. Penélope tentava telefonar para pedir ajuda enquanto Alex providenciava uma fogueira improvisada. Penélope chamou o resgate e Alex acendeu a fogueira. Não faziam ideia de onde estavam e só lhes restava esperar. O céu, anteriormente cinzento, se exibia vaidosamente repleto de potos luminosos. Sentaram no chão.

“Terá sido um sinal de que não devemos ir embora? Será que não devemos ficar e suportar, como mártires, os fardos que a vida nos legou?”

Penélope ria. Achava engraçado o modo como Alex fingia – ma non troppo – sentir e pensar a vida quase misticamente. Não respondeu nada, porém. Preferiu perguntar para Alex se ele ainda tinha algum cigarro. Haviam restado dois. Cada um acendeu um cigarro e se deitaram no chão como na primeira vez. E se deram as mãos novamente.

“Está com medo, Penélope?”

“Não.”, diz ela, esticando a vogal como quem respondesse enquanto ainda pondera e se examina. “Medo não. É uma sensação diferente. É uma impressão de que não se tratava final de fugir do lugar, mas de que algo diferente precisava ser feito.”

“Como assim?”

“Não é um novo cenário que vai nos salvar de nós mesmos.”, disse, antes de soltar em um sopro contínuo a fumaça que então se iluminava pela luz da fogueira.

“Eu sei. E você sabe que eu sei.”

“Não há como voltar. E eu nem quero. Só quero dizer que ir embora… Não basta.”

“O que é preciso, então? O que devemos fazer?”

Alex percebeu o deslize. Conjugou um verbo de modo equivocado, no plural. Seu inconsciente o traiu e deixou que Penélope percebesse que a levava em consideração em seus difusos planos. Ele percebeu que ela percebeu que ele havia percebido e em um instante, as cartas estavam viradas. O coração de Alex bateu mais rápido e o rapaz teve a impressão de que ela podia escutá-lo. Ela, de fato, podia sentir – como ele próprio fazia com relação à ela – exatamente o que ele estava sentindo. A estranha comunhão não se dissolvia mas, ambos sabiam, estava irremediavelmente transformada e já não seria suficiente para os manter próximos. Penélope terminou o cigarro e soltou a mão de Alex.

Alex ficou parado, deitado no chão, por alguns instantes. Depois se sentou. Sentia uma estranha preguiça. Uma espécie de cansaço, ou talvez de tristeza. Não sabia definir. Via Penélope de costas para ele. Ela se despia. Tirou a blusa, o short e as roupas íntimas. Virou-se então para Alex com o mesmo sorriso de sempre. Um sorriso inexoravelmente fatalista, com a sabedoria dos milênios que habitavam aquela alma. Caminhou até Alex e se curvou, lhe dando um último beijo.

“Não basta ir embora, não é? Você precisa se transformar.”

Ela concordou, com a aparente falta de convicção de quem está sempre incerto. Depois, voltou à paz habitual de quem sabe que não precisa, jamais, se justificar. Encolheu-se ao lado da fogueira por um instante, abraçando as próprias pernas e olhando para o fogo. A luz da chama iluminou seu rosto e seus cabelos. Olhou novamente para Alex e, mais uma vez, sorriu. Sorriu como ela às vezes fazia: como a criança que, em algum lugar, ela ainda era e sempre seria.

“Esse instante vai durar para toda a eternidade, Penélope.”, disse Alex sorrindo também, já resignado.

“Que bom.”, ela respondeu, com a voz um pouco manhosa e cheia de ternura. Seus olhos se encontraram uma última vez. Penélope, então, se transformou em um pássaro negro e alçou voo. Sua nova forma não demorou a se perder totalmente na escuridão. As luzes dos carros de resgate já podiam ser vistas ao longe. Alex riu alto, com os olhos marejados, em um pequeno instante de um estranho tipo de desespero. Mas retomou a resignação e disse um “sim”, total e definitivo, para as coisas tais como elas são. Apagou a fogueira que orientava os carros de resgate que, ao chegarem ao local, não encontraram senão um carro abandonado e nenhum sinal da presença do casal que os havia chamado.

Penélope

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