Sobre Formação e Vocação

“A integração da filosofia nas Instituições Científicas está sofrendo uma degeneração. Ela entrou desarmada na competição das especializações. Os modelos do pensamento científico parecem ter esvaziado as perscrutações filosóficas. A máquina científica move-se nestes modelos, enquanto a filosofia os questiona e os despedaça pelo seu interrogar sempre mais longe. Por isso, o vácuo no qual foram sugados os pensadores. Além de caros demais, eles mesmos não vencem o complexo de serem incestuosos. Que fará a sociedade atual, tão segura de seus critérios de ‘relevância’, com estes virtuoses do ‘acessório’? Para que servirá, afinal de contas, uma atividade que, tantas vezes, se perde numa auto-reprodução da história de seu pensamento? E a quem ainda convence a desculpa de que a nobreza da filosofia consiste precisamente em ser um fim em si mesma?”

– Ernildo Stein, em 1976

“A quem não conseguir suportar virilmente o destino da nossa época há que dizer: Regresse, em silêncio, lhana e simplesmente, sem a habitual e pública propaganda dos renegados, aos amplos e compassivos braços das velhas Igrejas. Estas não lhe levantarão dificuldades.”

– Max Weber, em 1917

De 20 a 22 de junho de 2007 aconteceu, em um pequeno e bucólico vale na região central do Rio Grande do Sul, o III Simpósio Internacional de Filosofia. O evento reuniu profissionais e estudantes de filosofia e foi centrado numa temática intitulada “identidade pessoal e reconhecimento”. Vale Vêneto – o nome da localidade onde tal evento foi realizado – foi ocupada por três dias por gente que mexe com filosofia. Sob uma parceria realizada entre a Universidade Federal de Santa Maria e a Faculdade Palotina, o evento foi organizado, entre outras pessoas, pelos professores Robson Ramos dos Reis, da UFSM, e André Cremonezi, da FAPAS. Para alguns dos presentes (para mim, especialmente, que orbito em torno do tema da identidade pessoal mais ou menos desde essa ocasião) o episódio foi sem par. Para os citados organizadores, segundo relatos que chegaram até mim, parecia uma ocasião de consolidação de uma parceria, mesmo de um projeto de prazo mais longo. Mas, os ventos da mudança sopram muito acima das nossas expectativas e por diversas razões – que não caberiam num texto dessa dimensão e talvez exigissem um livro inteiro – aquela iniciativa não foi continuada.

Hoje é sábado, 27 de maio de 2017. Estou em Santa Maria, em um dia chuvoso e frio. Em Vale Vêneto, nesse momento, estão os professores Robson Ramos dos Reis e André Cremonezi. Mais ou menos como há dez anos atrás.

A configuração dos elementos, porém, hoje, é totalmente outra. O professor André Cremonezi já não trabalha na FAPAS – onde eu, atualmente, leciono – mas no Instituto Federal do Paraná, em Curitiba. E do IFPR o professor Cremonezi trouxe um grupo de voluntariosas pessoas, entre colegas, alunos e ex-alunos, que o tem auxiliado a dar corpo para um projeto intitulado Programa Bildung, iniciado há uns três ou quatro anos. E foi assim que o Programa Bildung realizou seu primeiro colóquio, com as participações dos professores Antônio Augusto Passos Videira (Física – UERJ), Ronai Pires da Rocha (Filosofia – UFSM), o já citado Robson Ramos dos Reis (Filosofia – UFSM), entre outros. O professor Ernildo Stein, cuja citação abre esse texto, não pôde comparecer por razões de saúde.

O tema do colóquio foi o texto “A ciência como vocação”, do pensador alemão Max Weber. O texto, que completa seu primeiro centenário este ano, é um belíssimo documento – um “réquiem”, nas palavras do professor Videira – para um modelo de universidade e de ciência que encontrava seu ocaso no início do século XX. O modelo de cátedra, pavimento e plataforma de uma ciência que não se furtava em pensar o sentido do próprio fazer científico e da vida humana em geral no contexto da civilização ocidental e de seus destinos, era substituído pelo modelo departamental de especialização da pesquisa científica, de inspiração norte-americana. Weber, como uma biruta que indica a direção dos ventos da mudança, sinalizava que os novos tempos da ciência eram tempos onde esta já não poderia mais oferecer significantes norteadores do fazer humano. Segundo as palavras do prof. Robson Ramos dos Reis, o texto de Weber nos sugere um profilático estoicismo no trato com um mundo desencantado pela ciência desencantada. O “universo em desencanto” weberiano, porém, seria um novo universo no qual o “valor universal do conhecimento” – trocadilho cunhado pelo professor Ronai Rocha e incorporado em seu novo livro, no prelo, do qual o próprio professor falou na ocasião do evento – poderia enfim fulgurar. Se o universo – ou a universidade – da Bildung alemã onde o modelo de cátedras encontrava seu ocaso ao ser arrastado pelos ventos da mudança do modelo departamental de especialistas, ironicamente, a nova vocação científica da qual Weber falou – ironicamente em uma livraria, e não em um ambiente universitário – seria uma vocação que deixaria para outros domínios da reflexão e da ação humanas a resposta para a pergunta pelo sentido da vida, individual ou coletiva. E se, ironicamente, a ciência especializada realizada em departamentos tem uma similaridade estrutural com a democracia ao permitir dentro de si um espaço lógico para o discurso de suas próprias negações (assim como a democracia tolera o discurso autoritário que não a toleraria, a ciência também tolera o discurso irracionalista ou antiintelectual que a nega), foi sob o signo da Bildung alemã do XIX que foi possível, nas últimas quinta e sexta-feiras, falar sobre o valor universal do conhecimento, da formação e da vocação para a ciência. E se a universidade brasileira convive com diversos antagonismos externos (como o autoritarismo e o antiintelectualismo) e internos (as fragilidades que se seguem dos cenários produzidos, nas palavras do professor Ronai, “quando ninguém educa”), o Programa Bildung já aparece como um espaço, ainda que periférico a universidade, onde o sentido do conhecimento – ou seja, a herança da tradição universitária – ainda pode ser pensada. Um pequeno espaço onde a chama da qualidade de vida intelectual permanece acesa.

Além das palestras, o evento contou – ou contaria, na medida do permitido pelas temperamentais condições climáticas da região centro do estado – com um momento de observação astronômica e com um tour pelo Seminário Menor Rainha dos Apóstolos promovido pelo próprio professor Cremonezi. Com as atividades encerradas em 2006, o seminário é um monumento histórico que se agiganta no pequeno vale de tão doces ventos. Conduzindo alunos, ex-alunos e amigos através de cada cômodo da instalação, as palavras do professor Cremonezi produziam nas mentes dos presentes algumas imagens do que pode ter sido o seminário em seu funcionamento. Histórias de vida, paixão, fé, vocação e formação ficaram impregnadas nas paredes do seminário e eram reanimadas pelo relato do professor.

Weber disse que aqueles que não suportassem estoicamente o destino de sua época deviam, talvez, voltar às velhas igrejas. Ironicamente, foi dentro da velha igreja e sob o signo da Formação – que, embora em sua acepção alemã seja humanista e não exatamente cristã (ironicamente, o fechamento do velho seminário em 2006 foi selado com palavras talvez proféticas do Pe. Lino: “continuarmos favorecendo para que o local cumpra a sua finalidade formativa“) – que a vocação para a ciência foi relembrada pelo seu centenário histórico. Da minha parte – isto é, de da parte de alguém que retorna ao vale dos ventos, dos ventos da mudança, e que há 13 anos engatinha em sua formação acadêmica e profissional – foi novamente decisivo pensar sobre formação, vocação e sobre, afinal, minha própria identidade nesse cenário. Pois se a universidade tem tantos e tão intencionados inimigos dentro e fora dela que, pelos mais diversos motivos a querem reformada, transformada, descaracterizada, vendida ou mesmo destruída, é importante saber que aqui e ali – e eventualmente até mesmo nos bancos das velhas igrejas – será possível sentir o calor doce dos ventos da mudança e, não sem ironia e algum estoicismo, meditar sobre a própria formação humana, sobre a própria vocação profissional, sobre o valor universal do conhecimento.

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“O livro do idílio e da nostalgia”, de Milan Kundera

A nova e surpreendente obra de Milan Kundera, já quase um nonagenário, corre o risco de se tornar um best-seller como foi A insustentável leveza do ser já que aos 88 anos Kundera surpreende a todos com um romance complexo que certamente será considerado um dos pontos altos de sua obra romanesca.

Se em O livro do riso e do esquecimentoA insustentável leveza do ser Kundera já praticava uma polifonia que encontraria seu acabamento estético em A imortalidade, em O livro do idílio e da nostalgia Kundera, quase trinta anos depois, mostra um trabalho que certamente demandou tempo e esforço para ser construído. Com cerca de trezentas páginas divididas em sete partes, Kundera mostra uma lucidez talvez incomparável mesmo àquela exibida em A imortalidade. Passeando pelos perpétuos temas do erotismo, das ironias trágicas da existência e dos paradoxos da vida na modernidade, Kundera opera como um verdadeiro sismógrafo, mostrando quais placas tectônicas de memória impregnada se movem quando as sempre surpreendentes crises irrompem mudando nosso mundo.

Como é de praxe, Kundera satura sua prosa de meditação reflexiva. Quem o acompanha na maior parte do tempo dessa vez são os existencialistas – influências sempre implícitas no clima de suas obras e em seu imaginário mas, dessa vez, trazidas à ribalta. Comentando os romances, teorias e vidas de pessoas como Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Kundera medita sobre ideias como “liberdade”, “responsabilidade”, “absurdo”, “gênero”, “revolta”. Ironico e impiedoso como habitualmente, Kundera dispara contra os existencialistas assim como outrora já disparou contra os surrealistas: ávidos por uma vida autêntica e transparente, dominados pelo afã de modernidade, os existencialistas são, na pena de Kundera, um privilegiado observatório daquilo que Hannah Arendt chamaria de “fragilidade das coisas humanas”. É em torno deles que a palavra “idílio” do título orbita.

Mas lembramos que O livro do idílio e da nostalgia é uma obra romanesca e, portanto, tem personagens. Sua heroína derradeira é Alexa, uma emigrada descendente de decadentes aristocratas russos. Para que essa resenha não revele demais do enredo, diremos o mínimo sobre Alexa que, tendo vivido na República Tcheca desde a infância, sentiu na própria pele a invasão dos russos à República Tcheca antes de poder voltar já adulta, nos anos 90, para Moscou. Kundera nos oferece um dos mais ricos panoramas da descontinuidade de ritmos na qual os tempos modernos passam nas diferentes partes do mundo através dos diálogos de Alexa: seu berço aristocrata e sua formação de historiadora fazem o que nenhum personagem de Kundera jamais fez, a saber, apanhar o próprio autor em um enquadramento reflexivo acerca de sua prática e dos entornos dela. O diálogo final entre Alexa e o próprio Kundera parece um testamento definitivo do autor acerca de sua própria prática, uma prática nostálgica de um esteta hedonista em um mundo onde o cerco se fecha, mais uma vez, para tipos como ele.

O livro do idílio e da nostalgia já nasce um clássico definitivo, embora lhe falte talvez a característica mais fundamental: a existência.

Milan Kundera

Hoje é aniversário de Milan Kundera. E essa brincadeira de primeiro de abril é meu registro da admiração por sua obra, por sua prosa, por seu pensamento.

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“Depois da Virtude”, de Alasdair MacIntyre

Nossas teorias e práticas morais estão fadadas ao fracasso: nosso vocabulário é inapropriado, as sociedades ocidentais submergem num caldo de ficções onde a burocracia vende uma eficiência ilusória. As ciências sociais disfarçam o fato de que não tem poder de previsibilidade para não perderem seu lugar ao sol. Os filósofos modernos nos legaram uma galeria exemplar de modos do fracasso da reflexão moral. Diante desse cenário não resta nada senão voltar nossos olhos e ouvidos para os ensinamentos de Aristóteles e Tomás de Aquino enquanto esperamos um novo São Bento nos salvar do naufrágio que é a modernidade.

Essa é uma maneira injusta, mas talvez não incorreta, de resumir a mensagem contida no excelente Depois da Virtude, de Alasdair MacIntyre.

Topei com a obra de MacIntyre nos idos da graduação, quando não raramente alguma seção da referida obra era pinçada para a bibliografia de alguma disciplina onde seu apelo à “unidade narrativa de uma vida” era elemento para cotejo com as reflexões de Paul Ricoeur sobre o mesmo tema. Mas nunca tinha enfrentado todos os capítulos do livro por vontade própria, o que decidi fazer nessas férias.

MacIntyre nos oferece uma jornada que parte dos escombros da nossa vida moral contemporânea – porque segundo o autor nossos pensamentos e práticas morais não são senão uma colcha de retalhos, um amontoado de escombros semânticos de noções que não podem funcionar longe dos contextos nos quais emergiram. Para MacIntyre, a exigência de universalidade das éticas modernas é tão abstrata que as torna carentes de fundamento sólido, concreto, sociológico. E a modernidade não é o pior dos males: o vocabulário da filosofia moral clássica, aristotélico-tomista, atravessou uma ponte chamada “modernidade” e, nos dias de hoje, nos abandonou a um cenário onde só o que pode imperar é uma perspectiva moral que MacIntyre chama de “emotivismo”, ou seja, a ideia de que crenças e valores morais são eminentemente – e infelizmente – compreendidas como preferências pessoais de indivíduos. A moral clássica, inseparável da reflexão política e sociológica, percorreu um triste caminho pela modernidade fazendo com que, nos dias de hoje, não possa ser mais compreendida senão como fruto das escolhas de indivíduos sempre concebidos como ontologicamente anteriores às comunidades. Meu queridíssimo existencialismo é, para MacIntyre, uma perfeita expressão desse emotivismo – o existencialismo é um emotivismo, seria possível dizer, parodiando o título de uma famosa palestra de Sartre.

Se os indivíduos passaram a ser compreendidos no horizonte de um “esquecimento da comunidade”, digamos assim, a própria comunidade – as sociedades modernas – passaram por um processo crescente de burocratização, onde certos personagens sociais exemplificam a ilusão da eficiência administrativa. Dessa forma, o administrador e o terapeuta são exemplares privilegiados dessa perspectiva de mundo burocratizado onde o que importa é a ilusão da eficiência e do controle em um mundo constituído de tal forma que não há nem poderia haver ninguém no controle. As próprias ciências sociais – sociologia, economia, política – são denunciadas em seu pífio poder de previsibilidade. Fico com a imagem de que as sociedades ocidentais são como transatlânticos onde ninguém sabe pilotar a embarcação mas muitos – bárbaros, segundo MacIntyre – tentam e fingem saber, sem saber que do modo que a embarcação foi construída, foi construída para naufragar.

Como isso não é uma resenha – ou, talvez, no máximo, um comentário crítico – não posso me furtar de mencionar o tom piegas da conclusão da obra. O elogio das éticas de Aristóteles e Tomás de Aquino, o alerta contra os estoicismos e emotivismos, a menção ao salutar pessimismo de um Trotsky e a sugestão de que só um novo São Bento nos salvaria de um mundo que desmorona como desmoronou o Império Romano expõem mais uma alma ferida pela barbárie do mundo contemporâneo do que um pensador que realmente nos teria algo a sugerir como salvação. Talvez valha para MacIntyre – como penso que vale para muitos, muitos pensadores – aquilo que ele fala sobre Nietzsche: o valor de seu pensamento está em sua sagacidade e no esforço de sua investigação muito mais do que em suas frívolas propostas de solução.

À guisa de conclusão, deixo a forte sugestão de leitura do livro para todos que se interessem por ética, sociologia ou história da modernidade. Pois se a proposta prescritiva de MacIntyre é a nostalgia de uma vida comunitária, suas análises da ética filosófica moderna e da sociedade contemporânea são de uma sagacidade fecunda.

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Em “A Vila”, uma pequena comunidade vive afastada da sociedade e cultiva costumes pré-modernos

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A trama e seus tecidos | Interlúdio – Tempo suspenso de um estado provisório

Visitei o Museu de Arte de São Paulo (MASP) pela primeira vez nesse dezembro de 2016. E pela primeira vez vi alguns quadros que antes, para mim, eram apenas imagens em formato digital localizáveis por buscas na internet. Renoir, Van Gogh, Picasso, Delacroix e muitos outros nomes consagrado pela história da arte estavam lá, presentes em espírito.

A obra que mais me causou um incômodo, porém, foi a de um cavalete quebrado. Sim, isso mesmo: a obra intitulada Tempo suspenso de um estado provisório, de um artista chamado Marcelo Cidade, foi a obra que mais me chamou a atenção pelo simples fato de estar em uma exposição aparentemente pautada pela apresentação de grandes clássicos da arte figurativa.

A exposição é organizada por Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi e os cavaletes são de concepção de Lina. Na página do museu, encontramos a afirmação de que Lina e Pietro tinham uma resistência à arte abstrata em função dos “efeitos despolitizadores da abstração, durante a promoção da abstração geométrica realizada pelos Estados Unidos em sua ‘política de boa vizinhança’ durante a Guerra Fria”.

Sem pretender verificar a plausibilidade da atribuição de “efeitos despolitizadores” para qualquer tipo de arte o que me chama a atenção é justamente algo muito comum, a saber, a ideia de que a arte pode – ou que deveria, ou que já o faz de forma implícita – inspirar e orientar os comportamentos humanos. Tal ideia, que é muito comum em pensadores ou praticantes de política, também pode ser encontrada na reflexão do filósofo francês Paul Ricoeur.

Ricoeur concebe a identidade pessoal dos seres humanos como sendo constituída ao modo de uma narrativa e para mostrar os meandros dessa ideia ele se serve da Poética de Aristóteles e da teoria narrativa contemporânea. Ricoeur também afirma que a narração jamais pode ser “moralmente neutra”. Isto é: narração não é mera descrição, mas agenciamento de acontecimentos especificamente humanos e, portanto, atravessados de ponta a ponta pelo interesse moral dos seres humanos em viver o que Aristóteles chamava de “vida boa”. Essa convicção de Ricoeur implica em uma antipatia por certos tipos de narração que a tradição chama de “fluxo de consciência”, constituídas pela tentativa de captar a vida subjetiva dos indivíduos em sua pura espontaneidade. Para Ricoeur, tais narrativas oferecem uma imagem da subjetividade caracterizada por uma fragmentação da personalidade que, mais do que inverossímil, é perniciosa do ponto de vista moral.

Portanto, uma narração pode ser moralmente perniciosa e uma peça de arte abstrata pode ter efeito despolitizador. Porém, a quem interessa essa regulação do domínio artístico pela ética e pela política?

O romancista tcheco Milan Kundera, por sua vez, tem uma antipatia francamente evidenciada em seus romances: uma antipatia pela regulação moral e política da arte. Kundera viveu sob a égide da invasão russa ao seu país natal, a República Tcheca. Kundera viu o “realismo socialista” transformar os romances em histórias pueris e de mau gosto onde o grande nó narrativo era qualquer coisa como a história um casal que se desentende e que depois de duzentas páginas descobre o mal-entendido e celebra a possibilidade de viver um amor no melhor dos regimes políticos possíveis.

Kundera afirma ter visto e vivido a tão veementemente proclamada “morte do romance”: o romance morre quando é regulado por uma dimensão que lhe é exterior, quando sua vocação mais íntima é cerceada de saída por valores e critérios que lhe são totalmente estranhos.

Para Kundera, um romance deve obedecer um único critério: deve descobrir um território novo da existência humana. Por menor que seja esse território, essa é a vocação do romance. Assim, um romance jamais merecerá ser chamado de romance caso sua narrativa se constitua, por exemplo, em “propaganda política romanceada”. Política, moral ou religiosa, a o fantasma da regulação espreita e se serve da forma estética do romance desde a aurora de sua história.

A descoberta de um território novo da existência, porém, não se dá apenas em função do conteúdo narrativo que um romance apresenta, mas de como ele apresenta o que apresenta. A questão da forma – isto é, da arte da composição – é incontornável e inseparável da possibilidade do próprio romance (bem como da possibilidade de uma genuína crítica literária que não seja mera propaganda de romances que, por sua vez, também são propaganda romanceada).

Kundera não pensa que tudo o que vale para o romance também valha para outras práticas artísticas. Porém, pensando com o romancista tcheco é possível afirmar duas coisas: 1) o interdito político pode matar a prática artística e 2) a prática artística pode falhar ao se converter em algo que foge à sua vocação mais íntima. Cercear a prática da narração do fluxo de consciência ou da figuração abstrata em função de valores ou critérios éticos e políticos pode levar à uma espécie de morte da arte por razões externas à arte. Mas a arte também é capaz de morrer sozinha quando se coloca voluntariamente à serviço de uma vocação que não é aquela que lhe é mais íntima, a saber, explorar a existência.

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Uma última observação, de inspiração “feyerabendiana”: aceito que talvez empreender essa reflexão analógica entre romance e outro domínio artístico seja temerário. Que, no fundo, não haja qualquer coisa como “a arte” e que as reflexões sobre o romance não sejam imediatamente aplicáveis para as artes plásticas – ou paraa a dramaturgia, para a música, para o cinema, etc. Porém, quando Feyerabend reflete sobre o conceito de ciência, reflete sobre um campo que é o domínio da racionalidade analítica, explicativa, descritiva. Não me parece que dizer que não havendo qualquer coisa como “a arte em geral” estejamos flertando com um colapso da mesma natureza. Mas esse é assunto para outro momento.

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A trama e seus tecidos | Parte I – “Que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores!”

– O dia será quente, tórrido, haverá tempestade, diz o primeiro, que o outro interrompe, fazendo graça:
– Não é possível! O primeiro responde no mesmo tom:
– Mas sim, Bernardo. Sinto muito, mas não há escolha. Um pouco de coragem! Bernardo cai na gargalhada e declara:
– Eis o castigo de nossos pecados. E o primeiro:
– Por que, Bernardo, tenho de sofrer pelos seus pecados? Então Bernardo ri ainda mais, para deixar claro para os ouvintes de que pecado se trata, e eu o compreendo: existe apenas uma coisa que todos desejamos: que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores! Que nossos vícios sejam comparados aos temporais, às tempestades, aos furacões!
– Milan Kundera, A imortalidade

Narrar e descrever são duas atitudes discursivas distintas e quem conhece a obra de um intelectual francês chamado Paul Ricoeur pode eventualmente ter se inteirado não apenas dessa diferença como também dos embaraços a ela inerentes.

O que um psicanalista deve escutar no relato da pessoa em seu divã? Deve escutar o mesmo que um psiquiatra? E se ao invés de um profissional em psicologia ou medicina, a pessoa procura um padre? Ou um amigo? Parece óbvio que se a recepção for feita por um juiz, por exemplo, o relato que organiza as vivências oferecerá outros relevos, se prestará à outras topografias, em suma, não será o mesmo relato. Em alguns casos, o relato será mesmo destituído de seu caráter narrativo e será decomposto e reorganizado segundo uma inteligência descritiva, oferecendo, por exemplo, um caldo onde serão pinçados alguns poucos elementos “mais objetivos” mais “sólidos”, mais facilmente organizáveis em uma lista, em um cardápio, em uma base para diagnóstico ou condenação.

A voz de Paul Ricoeur no burburinho acerca da natureza e do estatuto dessas formas de discurso soa mansa mas, ao mesmo tempo, contundente: a vida de uma pessoa humana, em sua inalienável singularidade, exige a forma narrativa do discurso. Isto é: só a história de uma vida nos oferece uma imagem ampla através da qual é possível ver, precisamente, uma pessoa, e não um objeto decomposto em características. Só uma narrativa, digamos assim, é capaz de oferecer uma imagem de uma vida humana que também leve em conta sua temporalidade específica e constitutiva. A voz descritiva tem sua função específica, sua jurisdição regional, e serve muito bem quando o caso é apresentar entidades de outras naturezas (a ciência, por exemplo, pode e deve ser descritiva e explicativa, na maior parte das vezes), mas suas garras não são capazes de envolver e apanhar o tecido no qual é tramada uma subjetividade.

Se a narração é melhor que a descrição para abordar a singularidade das vidas humanas, isto se dá por várias razões. Uma delas é a já citada especialidade da temporalidade que a narrativa permite que apareça – e que na verdade é constituída no decurso da elaboração da trama, do enredo que estrutura uma história – e que é a temporalidade específica da existência humana. Outra razão é, porém, mais embaraçosa: a narração é maior que a descrição porque a narração incorpora outra forma de discurso: a prescrição. Mais do que isso: a narração entrelaça, de forma indissociável, o elemento descritivo através do qual aparecem os acontecimentos que compõe uma história com o elemento prescritivo mediante o qual tais acontecimentos são vividos mediante um sentido ético, mediante uma perspectiva sempre impregnada de valores, desejos e crenças morais sem os quais, em última instância, os seres humanos não podem ser pensados.

A história de uma vida, portanto, faz o que nenhuma abordagem conceitual jamais conseguiria fazer: organiza os episódios importantes mediante um itinerário, mediante um enredo que mostra como uma pessoa, através de suas escolhas, se tornou quem é ao agir e sofrer as circunstâncias de sua vida. E tentar contar a história de uma vida para além ou para aquém da dimensão das motivações e finalidades morais nos mostra sobretudo o quanto tal cenário não nos causa senão estranheza: dificilmente alguém se defrontaria com O Estrangeiro de Albert Camus ou com qualquer obra de Samuel Beckett e não vivenciaria um mínimo estranhamento – eventualmente até mesmo catártico. Diminuir ao máximo o elemento prescritivo – isto é, o espaço para o discurso no qual serão pensadas as motivações e finalidades de uma vida singular – produz um vertiginoso efeito de estranhamento, estranheza. O Meursault de Camus é um estrangeiro à todos os homens e mulheres que caminham com ele sobre o mundo, pois vive além ou aquém dos seus motivos e fins.

Embora correndo o risco de me estender mais do que gostaria, preciso intervir cirurgicamente no ponto que acabo de apresentar. Preciso mover minha pena contra Ricoeur, com todo o respeito à ele, mas é preciso fazer uma pergunta decisiva à esse pensador para respeitá-lo como ele merece. E minha pergunta é: será mesmo que esse aspecto prescritivo da narração não seria, digamos assim, negociável?

Vamos dar uma olhada no setting conceitual com o qual Ricoeur aborda a dimensão moral da constituição narrativa de nossas identidades pessoais. Qualquer pessoa que abra a caixa de ferramentas com a qual esse intelectual francês aborda a dimensão moral da narração encontrará nada menos do que elementos dos dois kits provavelmente mais completos que já foram engendrados para essa tarefa: a ética de Aristóteles e a ética de Kant. A primeira, concebida pelo pensador mais potente e completo da aurora do pensamento ocidental, pensa o ser humano integralmente na direção de sua realização plena – ou, também assim chamada, de sua felicidade. A segunda, concebida na cabeça de um pequenino pensador alemão do século XVIII (e que foi, provavelmente, no sentido profissional e técnico que o termo tem hoje, o maior filósofo de todos os tempos), encarna a austeridade alemã e o espírito iluminista ao estabelecer seu núcleo na noção de critérios universais para a correção moral. Para Ricoeur, em suma, entendendo a noção de felicidade ou realização tal como Aristóteles a concebe (a ideia de uma “vida boa”) e a organização racional de nossas obrigações e deveres tal como Kant nos ensinou, temos um bom bisturi para penetrar no tecido na narrativa e, assim, mostrar o nervo prescritivo que trama a dimensão moral de nossas vidas.

Por que, então, desejamos ser vistos como grandes pecadores?

Não pretendo questionar aqui a opção de Ricoeur pelas magnânimas éticas de Aristóteles e Kant. Afinal, se o caso é tentar pensar a dimensão moral das vidas humanas, nada mais sensato do que se valer do que de melhor foi produzido historicamente em termos de reflexão sobre o assunto. Porém, parece razoável, nesse ponto, perguntar: não haverá, nessa escolha de Ricoeur, uma opção pelo prescritivo em detrimento do descritivo no que tange aos ingredientes que serão usados no cozimento do tecido narrativo? Mais ainda: não será possível conceber que um outro âmbito seja mais profundo e mesmo estruturante do nível moral da narrativa de uma vida?

Ora, é evidente que sim. Uma vida pode ser pensada e vivida como uma obra de arte.

E essa é apenas uma das possibilidades de deslocar a ética para o segundo plano da estruturação de uma vida. Marx tenta nos convencer de que a dimensão ética das vidas humanas é um subproduto de relações econômicas. Freud sugere que nossos valores são resíduos de vivências esquecidas mas ainda operantes em um plano pulsional muito mais profundo que o valorativo. E mesmo que Ricoeur argumente que a dimensão moral seja irredutível, para sermos justos com ele é preciso que não façamos as concessões que ele solicita apenas porque ele as solicita. Minha hipótese é a de que uma outra configuração, uma outra medida dos ingredientes é possível e pode oferecer um outro nuance da ideia de que uma vida é uma narrativa pois uma vida pode ser lida  e vivida em perspectiva estética.

Evidentemente essa não é a única maneira de refundar a dimensão moral em outras bases. Já mencionei a opção política de Marx, a opção psicanalítica de Freud e, para abordar essa perspectiva estética, uma das opções mais famosas seria a opção pelo pensamento de Nietzsche. Optarei, porém, por uma opção muito mais modesta mas que me mais cara e muito mais familiar, a saber, a prosa romanesca de Milan Kundera. Pois se podemos, eventualmente, desejar que nossa biografia seja contada de forma que pareçamos grandes pecadores, se podemos querer que o reconhecimento nos seja conferido pelos nossos vícios e não por nossas virtudes, isso significa que podemos, em certo sentido, querer o mal. Temos então um significativo entrave à racionalidade ética através da qual nossa vida moral seria compreensível.

Esse será o tema da próxima postagem.

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As mãos dadas III – O adeus ao subsolo

Algumas histórias são difíceis de contar. É difícil saber onde elas começam, onde terminam. Mais do que isso: é difícil dizer a que gênero de histórias pertencem. Ainda mais do que isso: desde o momento em que estão sendo vividas, algumas histórias – ainda em sua condição embrionária de vivências – já anunciam que talvez serão para sempre estranhas, excêntricas, de natureza indeterminada.

Esse sentimento – de que é difícil elaborar a narração de certas histórias – é apenas uma estrela em uma constelação afetiva muito maior. Algumas pessoas consideram difícil contar histórias porque aquilo que vivenciaram não parece familiar. Os fatos não parecem conectados e o mundo e a vida se apresentam como uma totalidade indiferenciada, confusa, estranha. Esse era o sentimento predominante de Clarissa nos períodos em que sua memória se escondia de sua consciência e ela não conseguia se lembrar de quem ela própria era.

Houve uma época da amnésia de Clarissa em que ela trabalhou junto com Alex e Estela no café-tabacaria deles. Atendia os clientes, os ajudava na cozinha e no caixa. Era ela a encarregada de, eventualmente, fazer as compras daquilo que também eventualmente faltava no estabelecimento. Foi em um desses dias em que eu a encontrei.

Sempre fiz questão de não frequentar muito o café-tabacaria de Alex e Estela. Assim, estávamos Sofia e eu em uma lanchonete próxima ao café-tabacaria quando Clarissa passou. Havíamos convidado Lilah para passar algumas horas conosco naquela tarde. Foi quando decidi que as histórias de Clarissa e seu pai mereciam ser narradas. Lilah simplesmente havia me intimado: eu devia escrever um livro! Prometi que o faria, embora tenha mentido (desculpe Lilah!). Logo depois dessa promessa, vimos Clarissa passando na rua.

– Chame a menina para sentar conosco por uns instantes. – Sugeriu Sofia, com um riso doce e os lábios levemente corados pelo vinho.

– Clarissa está trabalhando agora. – Respondi, sem conseguir disfarçar que não tinha vontade de conversar com a jovem naquele momento.

– Esperem… – Disse Lilah, rindo com surpresa e empolgação. – Vocês estão dizendo que aquela é Clarissa? Que ela é real?

Apenas rimos. Para não ter de responder, gritei o nome de Clarissa. A menina virou o rosto em nossa direção e então pôs-se à caminhar ao nosso encontro, com seu sorriso tão triste quanto completamente apaixonante. Sentou-se conosco. Apresentamos Lilah à menina e perguntamos como estava o trabalho, como estavam Alex e Estela.

– Está tudo bem. Acho que eles estão trabalhando demais, talvez. Mas tudo vai bem.

Não era verdade e eu sabia que não era verdade. Mesmo Sofia e Lilah, que não a conheciam direito, podiam perceber que não estava tudo bem. Eu sabia que Clarissa estava vivendo sob o fogo cruzado das intermináveis brigas do casal, e que a despeito de tudo era consumida por uma saudade inominável e estranha de seu pai, de seu perverso pai que tão mal ela própria conhecia.

Na época em que o pai de Clarissa encontrou a filha e percebeu que a jovem estava sem memória, deixou a menina sob os cuidados de Alex. Alex já vivia com Estela e já considerava suficientemente pesado ter de conviver com uma alma destruída. Considerava que Estela se tornara uma mulher ressentida e dominada por ódio em função do convívio com o pai de Clarissa. Quando este delegou à Alex os cuidados de Clarissa, o rapaz pensou em se revoltar, em despejar todo seu rancor sobre esse Demiurgo, esse gênio maligno, esse enxadrista perverso que era o pai de Clarissa. Mas, em sua cruzada pessoal contra os próprios ressentimentos, Alex respirou fundo e aceitou. Sem esconder a raiva do olhar, aceitou Clarissa em sua casa. Preferiu conceder de forma servil às vontades do pai de Clarissa.

(Em uma história anterior onde Alex aparecia, um amigo me disse que sem saber eu reescrevia o Livro de Jó, embora sem redenção possível para o personagem. Demorei, mas depois de reler algumas histórias sobre Alex, admiti para mim mesmo: Alex é um Jó contemporâneo, uma espécie de Jó que não vê a hora de que as provações do diabo – o pai de Clarissa – terminem logo.)

Após alguns minutos de conversa descontraída, Clarissa pediu desculpas e disse que tinha de ir ao armazém, pois faltava açúcar no café-tabacaria. Arriscou uma interpretação da situação dizendo que talvez Estela não tenha comprado o açúcar porque queria irritar Alex: culpava-o pelo terceiro olho que havia nascido na testa dela na semana anterior.

– Eu não acredito… – Disse Lilah. – Estela é uma das pessoas em quem apareceu o terceiro olho?

– Sim. – Respondeu Clarissa, com os olhos fixos no chão, mas certamente perscrutando suas então poucas lembranças, todas referentes aos dias em que conviveu com o casal. – Mas ela já andava irritada antes disso acontecer.

– Nada pode ser mais oportuno para alguém cheio de ódio do que uma razão para o ódio. Esse terceiro olho é o menor dos problemas dessa moça… – Arriscou Sofia, com sua languidez habitual. Sofia já conhecia um pouco da história de Alex e Estela através de mim. Lilah e eu rimos e talvez Clarissa também, embora sem muita convicção. Quando a menina se foi, conversamos sobre a história dos terceiros olhos pois há uma semana, sem qualquer explicação aparente, uma em cada sete pessoas no mundo havia acordado com um terceiro-olho na testa.

– Essa moça, Estela, está no movimento dos três-olhos? – Perguntou Lilah.

– Sim. Está. Esteve mesmo na “marcha dos ciclopes” que acontecei aqui na cidade semana passada. Nunca a vi tão à vontade. Parecia ter nascido pra isso. Está muito envolvida, acompanhando de forma atenta as medidas governamentais de proteção dos ciclopes ao redor do mundo. Acha que em nosso país as pessoas com o terceiro olho serão prejudicadas e oprimidas e que as leis elaboradas são insuficientes e mesmo equivocadas.

– Naturalmente… Tudo estará sempre insuficiente e equivocado para ela – Disse Sofia, ajeitando o óculos e bebendo mais um gole de vinho, enquanto acendia outro cigarro discretamente, para que o garçom não nos visse fumando. – Pois se seus problemas fossem resolvidos ela perderia a razão da queixas. Teria de se olhar no espelho e ver apenas a nuvem de mágoas que precisa manter coesa para que ela própria não desapareça. – Disse Sofia, rindo laconicamente. Lilah também riu e disse que Sofia era uma espécie de Dorian Grey. O garçom percebeu a fumaça que emanava de nossos cigarros e risadas e ordenou que apagássemos os cigarros (e as risadas também, me pareceu), pois se quiséssemos fumar em ambiente fechado havia um café-tabacaria, onde era permitido fumar, há uns duzentos metros dali. Sofia disse que seria uma boa alternativa. Jogou uma nota de dinheiro sobre a mesa e, sem apagar o cigarro, me convidou para irmos justamente para o café-tabacaria. Embora não tivesse a menor vontade de ver Alex e Estela, aceitei. Lilah disse que tinha outros compromissos e reafirmou: eu devia escrever um livro. Confesso que já começava a considerar seriamente a ideia. Saímos de onde estávamos e Sofia e eu nos dirigimos para o café-tabacaria de Alex e Estela. Encontramos Clarissa voltando para o estabelecimento e acompanhamos a menina. Esta entrou cabisbaixa. Alex nos viu e moveu levemente a cabeça, em cumprimento, como se esta pesasse quinhentos quilos. Estela, que já teve o mais lindo par de olhos tristes, agora nos fulminava com um olhar lançado por três olhos raivosos.

• • •

Penélope estava, com Estela, na “marcha dos ciclopes”. Diferentemente de Estela, porém, Penélope não tinha acordado com um terceiro olho na testa. Era apenas solidária à causa dos ciclopes, como era solidária à muitas causas.

Meses antes de determinar que Clarissa ficaria sob os cuidados de Alex, o pai de Clarissa havia pedido que Penélope cuidasse da menina. Penélope, na época, havia justamente se separado de Alex por estar apaixonada pelo pai de Clarissa e não imaginava que tanto tempo depois, por intermédio de Estela, reencontraria Alex. Aconteceu quando Estela convidou a nova amiga para um café em seu estabelecimento. Qual não foi a surpresa quando os olhos de Penélope encontraram os de Jó, digo, os de Alex. Estela não imaginava que Alex e Penélope já se conheciam e apenas achou um pouco estranho que Clarissa reconhecesse Penélope, ainda que graças à sua amnésia o reconhecimento não pudesse ser mais do que uma vaga impressão de conhecê-la.

Penélope se sentou ao balcão e pediu uma xícara grande de café expresso sem açúcar e acendeu um cigarro. Sua expressão não era a de quem reencontrasse um grande amor nem tampouco a de alguém que sentisse culpa por tê-lo deixado. Era, pelo contrário, uma expressão quase beatífica, mista de serena cumplicidade e um estranho mas evidente cansaço.

Ao perceber que Alex e Penélope conversavam de modo quase animado, Estela voltou da cozinha e acendeu um cigarro, ficando ao lado de Alex atrás do balcão, determinando daquele momento em diante que Alex não ficaria à sós com a bela moça. De forma enérgica começou então a tecer comentários sobre a marcha dos ciclopes e sobre a luta nascente das pessoas de três olhos. Afirmava, com veemência e entonação adequadas ao papel de militante, que não compreendia como Alex não se sentia empático e inclinado à defender a causa dos ciclopes.

– Eu não consigo controlar minha indignação, nem quero. Sinto uma raiva tomar conta de mim quando vejo essa gente má nos tratando como se fôssemos diferentes por termos o terceiro olho. Acredita que há relatos de que o olhar do terceiro olho tem até mesmo uma função medicinal? Há comunidades em Madagascar, na Indonésia e no Haiti relatando que por lá os ciclopes estão sendo respeitados e até mesmo venerados! Aqui, temos que lutar por nossos direitos. Não há como não se indignar, não há como não se revoltar.

Estela, em suma, afirmava a onipotência de suas paixões políticas e morais: não, não podia controlar a própria indignação, a própria revolta. Tentava ser racional, mas o sentimento era mais poderoso. Era, em suma, uma afirmação viva de uma ideia quase mitológica: a ideia de que a vontade e as paixões se digladiam em nosso interior. Penélope conhecia bem esse modo de pensar e sentiu uma infinita preguiça de explicar para a nova amiga o quanto essa exortação das paixões não passava quase sempre de uma refinada maneira de dividir a própria alma com o intuito de não se responsabilizar senão por parte dela.

Todos conhecemos bem essa história: nossa alma tem partes e algumas são mais nobres do que outras. Platão foi o primeiro a dizer que a razão deve prevalecer sobre os desejos. O cristianismo levou essa ideia à sua apoteose: há anjos e demônios – falanges e legiões! – sussurrando em nossos ouvidos, disputando a influência das nossas almas, sedentos por nos salvar ou nos corromper, a despeito de nossas preferências pessoais. A psicologia moderna, de forma mais elegante mas menos poética, sugere que a deliberação racional deve vencer as inclinações. Eis uma imagem do ser humano esclarecido: austero, íntegro, totalmente controlado e metódico, com um verdadeiro caldeirão infernal de impulsos fervilhando em seu subsolo, perfeitamente domado pelo poder da vontade.

Ora, essa fábula já viveu seus dias e talvez merecesse um lugar honroso nas prateleiras da história do pensamento. Mas não compreende nada da alma humana quem supõe que algum dia será possível superar essa figura dualista da alma cindida, pois em todos os tempos haverão multidões de pessoas interessadas em agir segundo desejos nos quais não gostam de se reconhecer. Onde quer que haja uma, uma única alma incapaz de assumir seus desejos, de se reconhecer mesmo nos mais impróprios, ou seja, onde quer que haja uma alma tirânica e embriagada pela imagem que faz de si, lá estará uma compreensão mistificada e inapropriada do desejo. É assim que Eros, esse poderoso aliado em nossa tarefa de exploração da existência, se transforma em inimigo mortal da tirania (e da covardia, que são irmãs gêmeas) e do narcisismo: é preciso que o desejo vexatório não seja meu, mas de um outro: da natureza humana, dos condicionantes sociais, do demônio! Mas não, não meu, jamais meu. Mas voltemos ao café-tabacaria, porque enquanto nos perdemos nessa meditação, Estela não parou de falar por um instante sequer. O que fez Clarissa, pela primeira vez – na memória dela, ao menos – perder o controle e a paciência.

– Estela, cale a boca! Você não percebe que ninguém mais aguenta você?

Clarissa abaixou a cabeça diante do olhar triplamente raivoso de Estela que, depois de Clarissa encontrou Alex como alvo. O rapaz, incapaz de tomar uma decisão que fosse, abaixou a cabeça da mesma forma que a jovem. Talvez se naquele instante o arrastassem como um cadáver de um lado para o outro ele não reagisse, tamanha sua apatia e dificuldade de tomar decisões nessas circunstâncias. Estela atirou no chão o pano com o qual secava uma xícara e saiu em passos firmes pela porta do café-tabacaria. Era a décima ou vigésima vez que fazia isso na semana. Clarissa, com os olhos marejados, subiu para o segundo andar, pois era onde ficava a casa de Alex e Estela.

– Pra onde Estela vai? – Perguntou Penélope um pouco desconfortável com a situação. Alex falou baixo, para que Clarissa não escutasse.

– Provavelmente para a casa da mãe de Clarissa. Lá ela pode falar o que quiser, vinte e quatro horas por dia, sem ser interrompida.

Penélope subiu para cuidar de Clarissa. Sofia e eu, depois de assistirmos aquela cena, decidimos que não voltaríamos tão cedo ao café-tabacaria de Alex e Estela. Naquele dia, porém, ficamos até o estabelecimento fechar. Não pudemos deixar de ouvir, como duas harpias empoleiradas, Penélope e Alex combinando de ir para a casa dela própria, com Clarissa. Pelos seus olhares eu poderia apostar que naquela noite Penélope e Alex fizeram amor como nos velhos tempos.

• • •

“Não existe a relação sexual”, disse Lacan certa vez. Ele poderia ter ido além e dito: não existe relação nenhuma. Ora, o que são as outras pessoas e mesmo tudo o mais no mundo senão meios para que um certo circuito se feche? E esse circuito tem o ponto de chegada no seu ponto de partida: o próprio eu.

Estela explicava para a mãe de Clarissa porque saíra tão indignada de casa naquela noite. Clarissa, por sua vez, explicava para Penélope e Alex que não queria ter perdido o controle e respondido daquela forma. Alex teria se desmanchado em justificativas para Penélope: teria contado, longamente, como deixou sua vida naufragar daquela forma. Mas sabia que a partida de Penélope tinha um significado secreto: ela própria abominava justificativas, de qualquer tipo, de qualquer natureza. Assim como não pedia explicações, não tinha a menor vontade de prestar contas de nada para ninguém, pois já havia descoberto mais um segredo da existência, mais um desses desconfortáveis: as pessoas acreditam no que quiserem, bem como só perdoam as faltas contra elas cometidas caso queiram perdoar. Explicações, justificativas, desculpas, nada disso fazia sentido nenhum pois não poderiam produzir uma desculpa, pois o mundo é apenas um meio através do qual nos relacionamos conosco mesmos, o tempo todo.

Evidentemente é difícil perceber que é consigo mesmo que cada pessoa se relaciona. Difícil porque desagradável. Difícil e desagradável porque essa percepção, como uma reação em cadeia, desmobiliza uma por uma nossas estruturas, nossos órgãos espirituais que se desenvolvem para preservar nosso eu na aventura da existência. A complexidade das relações, como um castelo de cartas, desmorona e põe a nu o núcleo a partir do qual se estrutura a personalidade de cada um de nós: escolhas.

Como eu disse antes, algumas histórias são difíceis de contar. Mas não para Penélope. Tendo operado essa transformação em si mesma é só muito raramente que ela se sente cativa dos próprios afetos (afinal, mesmo um observador treinado dos movimentos da própria alma tem seus momentos de sonolência e esquecimento). Quando Sofia e eu entramos, já um pouco embriagados, no café-tabacaria de Alex e Estela, vimos Penélope acompanhada do pai de Clarissa sentados à uma mesa. Acho que eu sou a única pessoa que ele olha com algum incômodo nesse mundo. Talvez seja porque ele sabe que é um personagem fictício, que a matéria de sua existência é minha imaginação. De qualquer modo, nos convidou para nos sentarmos com eles. Antes mesmo que nos instalássemos, Estela foi embora irritada como sempre e deixou Alex cuidando sozinho do bar. Providenciei que Alex também fosse embora, bem como todos os demais clientes. Pedi que Sofia acompanhasse Penélope e disse que seria divertido se elas se conhecessem melhor. Sofia me olhou com um olhar cúmplice, mas raro: o de quem pede para que eu não faça nada precipitado ou impulsivo – mesmo que saiba que em minha cabeça essa linguagem não passe de uma fábula. Também providenciei que o pai de Clarissa e eu, sentados naquele banco, não estivéssemos mais no café-tabacaria, mas no balanço que havia na frente da casa onde Clarissa morou em uma época que ainda não sei agenciar cronologicamente. Estávamos, enfim, o pai de Clarissa e eu olhando para a estrada infinita que se estendia em frente àquela casa solitária no meio dos nadas elíseos onde a concebi pela primeira vez.

– Estamos chegando no final, não é mesmo?

– Estamos.

Houve um silêncio. Olhávamos para o horizonte.

– Você vai seguir o conselho de Lilah? Escreverá essa história?

Acendi um cigarro. O pai de Clarissa fumava um charuto.

– Como eu poderia evitar? Eu já os amo. Não poderia mais viver sem vocês.

– Você está bêbado.

– Que seja. Isso não torna menos verdadeiro o que eu falei.

Continuamos fumando, em silêncio.

– O que faremos com Clarissa? – Perguntou o pai da menina.

– Você sabe muito bem. No final ela sempre voltará para você.

– Eu sei. De qualquer forma, obrigado. – Disse pela primeira vez, em dez mil anos, o pai de Clarissa. Houve mais um silêncio e ele se levantou. Eu permaneci ali sentado. Ele se virou pra mim e perguntou, pela primeira e última vez:

– Imagino que não nos veremos mais, estou certo?

– Está. – Respondi, o vendo enfim sorrir e desaparecer na bruma que havia descido sobre o lugar. Também tomei meu rumo, pois era preciso ajudar Clarissa a se lembrar de quem era. Era preciso ajudar Alex à despertar da personagem covarde e submissa na qual se transformara. Era preciso ajudar Estela à sair do curto-circuito de ressentimento no qual ela se metera. Eu também devia, desde aquele dia, um livro para Lilah. Também precisava ver Penélope, de vez em quando, ainda que fosse na forma de um pássaro negro no céu noturno. E era hora de voltar, pois Sofia estava grávida e nada nos fazia mais felizes naqueles dias do que caminhar de mãos dadas naqueles fins de tarde de outono.

Algumas histórias são difíceis de contar. É difícil saber onde elas começam, onde terminam. Mais do que isso: é difícil dizer a que gênero de histórias pertencem. E ainda mais difícil do que isso: é difícil de saber se elas acontecem em algum lugar do universo ou apenas em nossos pensamentos, se apenas em nossos pensamentos ou em algum lugar do universo.

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Excertos do subsolo – Sobre a necessidade, sobre o esquecimento

Enquanto Clarissa não recuperava a memória, seu pai incumbiu Montserrat de aparecer na casa de Alex, onde Clarissa então morava, para conversar com ela de modo que ela não percebesse que estava sendo submetida à uma terapia. Como a desconfiança de Clarissa era muito ampla (parecia-lhe que todo mundo lhe tratava com excessivo cuidado nas atitudes e palavras) Montserrat não estava à salvo dessa desconfiança. A jovem, porém, não desconfiava que o psicanalista, todas as noites, elaborava uma narrativa para seu pai ao mesmo tempo em que procurava razões e soluções para sua amnésia.

Em uma noite qualquer Alex viu o pai de Clarissa, mais uma vez, surgir sem ser convidado. Montserrat ainda estava na sala, com Alex e Clarissa, e naturalmente levantou-se de súbito para cumprimentar o recém chegado. Clarissa sempre achou estranho o efeito que seu pai causava em Montserrat mas como todo seu cotidiano era perpassado por uma atmosfera plena de estranhamento, aquele cenário era apenas mais um elemento do surrealismo que mais e mais impregnava a compreensão com a qual Clarissa vivenciava seus dias ou os sonhos de suas noites. Seu pai então pediu que Alex levasse Clarissa para o centro da cidade, para que fizessem algumas compras. Sem ousar questionar, Alex obedeceu. Montserrat ficou então à sós com o pai de Clarissa que, como sempre, queria saber o que Clarissa havia lhe contado dessa vez.

– Acho que Clarissa está melhorando. Acho que alguma coisa aconteceu, mas ainda não sei o que. Ela finalmente está oferecendo uma narrativa com unidade acerca de si mesma. Em suma, as vivências novas não estão se dissipando diariamente como estava acontecendo.

O pai da menina olhou fixamente nos olhos de Montserrat. E perguntou-lhe, como se já soubesse a resposta, se ela relatara alguma nova amizade, alguma pessoa nova surgindo em seu cotidiano.

– Ela mencionou uma mulher. Mas não sei se é alguém real ou, o que temo, uma fantasia, um delírio. Uma mulher que aparece de forma sempre providencial demais para ser uma pessoa real. O senhor acha que isso já era esperado? – Sem responder a pergunta do psicanalista, o pai da menina apenas perguntou se essa mulher que Clarissa mencionava tinha, em seus relatos, algum nome.

– Morgana. – Disse Montserrat visivelmente nervoso.

O pai de Clarissa se levantou subitamente, saindo da casa de Alex e chaveando a porta, deixando Montserrat preso dentro da casa. Entre a casa e a rua havia um amplo gramado, e o céu estava tão limpo quanto a noite estava silenciosa. Como sempre, não havia ninguém nas calçadas ou nas janelas das casas. Apenas uma mulher, sentada no balanço que o pai de Clarissa fizera no lado de fora da residência de Alex. Olhava para o homem e sorria, serenamente.

– Francamente, como você demorou a perceber minha presença. O que mais eu precisaria fazer para você me notar, querido?

Era difícil ver o pai de Clarissa com uma expressão tão sisuda, tão séria. Mesmo assim, a seriedade não durou: um malicioso sorriso surgiu em seus lábios enquanto, sem mover o olhar um instante sequer, o pai de Clarissa foi até o balanço e deu um beijo na testa de Morgana. Sentou-se, então, à seu lado.

51

– Eu sabia que se algum dia alguém poderia me surpreender e escapar à minha visão, seria você.

– Eu aprendi a espionar com você.

Morgana fazia referência à primeira vez que vira o pai de Clarissa. Aconteceu em tempos imemoriais, onde certamente seus nomes não eram esses ou talvez nenhum dos dois tivesse qualquer coisa como um nome. Morgana se banhava à beira de um rio e, ao perceber que era espionada, continuou seu banho apenas dizendo:

– Você definitivamente não deveria estar aqui. E mesmo que nunca tenha me visto, aposto que já sabe o quanto não gosto de ser observada. Mas aposto que também sabe que eu não poderia resistir à você, nem negar que gosto dessa sua petulância, que já a esperava. E aposto que sabia que eu ia dizer tudo isso.

O pai de Clarissa surgiu do bosque em que estava escondido e pôs-se nu. Morgana virou-se para ele. Olharam um para o outro durante muito, muito tempo. Com o mesmo sorriso que tinham então enquanto se balançavam na frente da casa de Alex.

– Eu sei, você sabe, nós dois sempre soubemos que não viveríamos sob o signo do acaso. Bem como sabemos o que vai acontecer. O que, honestamente, não torna nada menos provido da beleza. Mesmo esse nosso encontro, tão necessário, tão incontornável, tem a beleza da unicidade.

– Venha logo, meu amor, que há muito eu o esperava. – Disse Morgana, enquanto o pai de Clarissa se unia à ela no rio do esquecimento.

Clarissa foi, assim, concebida, sob o signo da necessidade e do esquecimento, mas principalmente sob o signo da unicidade. É por isso que ela caminha de maneira tão pouco civilizada nas lojas, segurando no braço de Alex: tem horror às prateleiras. Olha fixamente para o chão e tenta não prestar atenção em nada daquilo que é produzido em série. Sabe, mas quase não se importa, que todos olham para ela e Alex com certa piedade. Afinal, aquela menina sofre por alguma razão.

– Você vai ter que me soltar, Clarissa. Seu pai pediu que eu comprasse uma coisa que não posso carregar com você assim pendurada em mim.

A garota ouviu mas não tinha forças para atender o pedido de Alex. Assim, o rapaz viu-se obrigado a andar com uma menina pendurada em um braço e um enorme espelho sendo carregado com o outro.

– Sabe que é melhor que conversemos em outro lugar, não é mesmo? – perguntou o pai de Clarissa para Morgana, quando ouviu que muito, muito longe o carro de Alex já rumava de volta para casa.

– Sei, e sei que você sabe para onde vamos. E que você no fundo sabia que eu ia voltar, mas que não consegue acreditar que tenha esquecido. Mas que também sabe que esquecer de mim todo esse tempo era necessário.

– Sim, Morgana. Nós sabemos de tudo isso. Mas mesmo assim…

– Mesmo assim é bonito. Eu sei.

O pai de Clarissa sorriu novamente. Alex e Clarissa voltaram, e Morgana e o pai da menina já não estavam lá. Ouviam gritos horrendos vindos de dentro da casa. Com o espelho em mãos, Alex correu. Clarissa o acompanhou e, como em outros momentos, se lembrou de quem ela própria era. Parou por um instante e olhou para aquela casa, aquela rua deserta, aquela noite eterna e impecavelmente limpa e sentiu como se despertasse. Reparou que o balanço ainda se movia, como se alguém estivesse ali sentado há poucos instantes. Alex já estava em casa e tentava, inutilmente, ajudar Montserrat. Clarissa sabia o que fazer. Enquanto Alex tentava falar com um Montserrat que aos gritos estava ao chão em posição fetal, Clarissa entrou. Viu o espelho recostado à parede. Pegou um cinzeiro e o atirou no meio do espelho. Alex olhou para Clarissa. A menina fechava seus olhos e respirava profunda e lentamente. Montserrat, subitamente, se acalmou. A menina estendeu a mão. O psicanalista tinha o rosto manchado do sangue de que eram feitas suas próprias lágrimas. Calmamente, Clarissa conduziu Montserrat até a frente do espelho quebrado e o fez se olhar no mesmo. A imagem estilhaçada de ambos surgiu. “Fique calmo, meu amigo. Fique calmo. É a minha vez de lhe ajudar. Você não vai se esquecer de quem você é, eu prometo”.

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