Desejo, imitação e 89 anos de Milan Kundera

Domingo de páscoa e de aniversário do meu romancista e pensador preferido. Normalmente eu escreveria qualquer coisa sobre ele. Dessa vez, porém, vou colar aqui links para coisas que já escrevi, no ano passado, sobre Kundera, ainda que indiretamente: resenhas d’O livro da imitação e do desejo, de Trevor Merrill, sobre a exemplaridade da obra de Kundera para fins de observação da teoria do desejo mimético de René Girard. Uma das resenhas foi publicada no blog Miméticos e outra na revista Litterarius da Faculdade Palotina de Santa Maria. Seguem os links e vida longa à Milan Kundera.

No blog Miméticos aqui.

Na revista Litterarius aqui.

Não é fracasso não ultrapassar as próprias possibilidades

 

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“Os Sonâmbulos”, de Hermann Broch

Meses atrás, publiquei por aqui um texto sobre o primeiro romance da trilogia Os Sonâmbulos, de Herman Broch. Naturalmente, deveria falar agora do segundo. Mas não deu: acabei terminando a trilogia e prefiro comentar o conjunto da obra.

Depois das 947 páginas da tradução de Marcelo Backes – sempre encerradas por um posfácio deste sobre o texto – não houve como não ficar relativamente atordoado. A força da narrativa e a inteligência de Broch são tão cintilantes quanto opressivas: há como viver em um mundo marcado de tal forma pela decadência dos valores? Com Broch, aliás, é possível se perguntar: não será a História humana a história da decadência dos valores? A resposta parece incontornavelmente positiva em Broch, na medida em que sua narrativa sobre três gerações de pessoas – e, mais especificamente, três indivíduos – não postula nenhuma Era de Ouro que não exista senão no imaginário dos próprios personagens. Pelo contrário, se inicia justamente no poente da ensolarada tarde dos valorosos valores que estão sempre, no presente, a decair. E embora Broch escolha um recorte eminentemente cronológico para construir sua ficção – 1888, 1903, 1918 – Os Sonâmbulos parecem servir de maneira exemplar como observatório das atitudes possíveis diante da – perpetuamente passível de constatação – decadência dos valores.

Se esse papel de observatório é uma das razões pelas quais a imaginação de Broch merece nossa admiração, sua maestria na arte da composição atinge um patamar fora do alcance de qualquer comparação possível no terceiro volume da trilogia: misturando, ao longo dos capítulos, ao menos cinco linhas melódicas distintas, Broch cerca o tema da decadência dos valores de uma forma tal que sua polifonia – exaltada pelo meu queridíssimo Milan Kundera – cria uma perspectiva na qual é difícil pensar o romance sem uma daquelas vozes. Em especial a coletânea de ensaios A Decadência dos Valores – que compõe uma das cinco linhas melódicas do terceiro romance – quase poderia ser lida em separado, não fossem seus capítulos finais demonstrarem que o entrelaçamento entre a linha narrativa e a linha de ensaio e digressão é simplesmente necessário desde que se iluminam mutuamente.

Foram, como eu disse, 947 páginas. Mas se houvesse um outro tomo – embora seja impossível pensar a arquitetônica da obra de Broch distinta daquela que ela apresenta – eu provavelmente estaria lendo este quarto tomo. Assim, ao invés de comentar o enredo, prefiro tergiversar e comentar a tese explicitamente sustentada por Broch desde o olhar oferecido por uma combinação de pensadores de cujas ideias tomei conhecimento só muito recentemente.

Em 1979, Reinhart Koselleck escreveu uma obra chamada Futuro Passado desde a qual sugeriu, em seu último capítulo, que a experiência histórica pode ser pensada desde a articulação de dois conceitos, a saber, espaço de experiênciahorizonte de expectativa. Para Koselleck, tais noções nomeiam duas estruturas, digamos assim, transcendentaisformaisestruturais de nossa experiência histórica. Embora as noções só possam ser detectadas desde aquele momento histórico onde a tensão desde a qual funcionam fica mais expressamente evidente – a saber, a modernidade – seu potencial explicativo parece ter um alcance retroativo: sempre há, houve e haverá, onde quer que haja experiência histórica, uma tensão entre o campo da experiência histórica do presente e os futuros que podem ser vislumbrados, seja pela esperança ou pelo medo, desde esse campo de experiências. Considerados por Paul Ricoeur como conceitos fecundos para fins de orientação de uma hermenêutica da consciência histórica, os conceitos de Koselleck permitem mostrar, por exemplo, como a história do agir e do padecer humanos simplesmente assumem outra feição – outro gênero narrativo, se preferirmos – em diferentes regimes de organização da experiência do tempo. É no sentido de contribuir com Koselleck que François Hartog falará, já no século XXI, em regimes de historicidade e na possibilidade de que essa organização seja pautada pela busca de exemplos nas galerias do passado, pela paixão pelo progresso na busca por utopias futuras ou mesmo do insulamento em um presente integralmente episódico sem passado e sem futuro.

O texto de Broch, nesse chave interpretativa, opera desde a completa ausência de futuro. Escrito nas vésperas da segunda grande guerra, pode talvez ser lido como operando todo inteiro entre o passado áureo e o presente vazio em um mundo onde o futuro se tornou impossível. Assim, se Joachim von Pasenow é o romantismo da exaltação das tradições que já não encontram qualquer morada no presente e August Esch é a imagem da paixão pura por quaisquer ideais que eclipsem o devastador vazio de perspectivas, o grande antagonista da narrativa de Broch é Wilhelm Huguenau, o sujeito pragmático capaz de abraçar o vazio e viver ao sabor das exigências do presente, sem qualquer sentimento de enredo a viver ou obra a realizar. Os Sonâmbulos é, assim, a um só tempo, uma narrativa sobre o desmoronamento dos escombros de um mundo sem utopias na vertiginosa direção do nada onde apenas o sujeito vazio pode se sentir em casa. Vazio de crenças, de desejos, de valores ou finalidades, Huguenau é o único sujeito bem sucedido em um mundo que não é senão a ocasião para observação da decadência dos valores.

Paul Ricoeur sugere que um romance é, em certo sentido, um ato comunicativo, um convite do romancista ao leitor para que o mundo possa ser visto e lido desde sua perspectiva – o que ocasiona sempre uma colisão desses mundos ou, em linguagem mais doce e gadameriana, uma fusão dos horizontes do leitor e da obra. O gênero narrativo produzido pela história de decadência que Broch nos conta é certamente compatível com aquele entoado por muitas outras vozes da Alemanha do início do XX, onde um mundo dava adeus antes de cumprir as promessas que fizera e deixava todo um futuro passado como estrada abandonada e não percorrida pelos destinos humanos. Certamente é um olhar soturno que pode, certamente ainda hoje, promover não apenas o repertório de pretextos para a fúria indolente conservadora que se satisfaz na queixa e se identifica negativamente por tudo aquilo que supostamente falta no mundo mas, principalmente, o texto de Broch pode servir como um buraco de fechadura para observação dos modos de organização do tempo em suas estruturas mais íntimas. Um buraco pelo qual podemos espiar não só a atmosfera afetiva mas também a atitude que talvez não nasça da decadência mas, principalmente, que permite que esta apareça como nó explicativo da realidade.

Hermann Broch

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A horizontalidade como vocação

Em um dos melhores capítulos de Quando Ninguém Educa, o professor Ronai Rocha faz algumas distinções, pensando com Basil Bernstein, sobre os tipos de discurso e de conhecimento humanos e as implicações que os usos de um certo tipo de conhecimento pode ter quando um certo potencial de sua gramática fraca é mobilizado para a prática de um populismo pedagógico. Não vou reconstruir a argumentação do autor aqui. Recomendo a leitura do livro. Vou, no caso, desenvolver algumas de minhas impressões mais antigas porque, recentemente, elas estão com roupas novas.

Escutei, recentemente, no contexto de uma exposição sobre Thomas Kuhn e seu conceito de paradigma, que as Ciências Sociais e Humanas, coitadinhas, ainda não estão em um estágio de desenvolvimento que as permita operar segundo paradigmas. Enunciada de modo muito respeitoso e comedido, a ideia é parente e conterrânea daquela que, na paróquia da filosofia, tende a dizer que a filosofia continental é meramente expressiva, confusa e sem sentido. O enunciado, aos meus olhos, parece mais do que um enunciado pois deixa entrever os pré-conceitos, no sentido gadameriano, operativos em sua própria elaboração. Conhecimento, nesse sentido, só pode ser pensado em termos daquilo que Ronai Rocha, com Bernstein, chamaria de gramática forte. As Ciências Humanas estariam ainda engatinhando na medida em que produzem gramáticas que se acumulam mas não se integram em princípios, que produzem conhecimento de forma insular e que não raramente servem para que professores – pouco weberianos, vale dizer – possam grasnar gracejos compensatórios escamoteando uma reflexão epistemológica acerca da própria prática.

Eu ri quando ouvi que as Ciências Sociais e Humanas estariam em um estágio inferior de desenvolvimento, mas ri porque é verdade e é, talvez, uma tragédia. Um Cientista Social e Humano não é um físico nem um poeta, isto é, não opera nem desde uma gramática forte e dura como a gravidade, nem desde um âmbito discursivo mais expressivo do que informativo. Ricoeur diz que um dos maiores desserviços já feitos à hermenêutica foi a separação entre compreensão e explicação operada por Dilthey. Penso, com Ronai e Bernstein, que o resultado disso é justamente a perda de um momento vertical na elaboração discursiva das humanidades. O Muro de Berlim filosófico que Ronai avisara em 2000 que já havia caído há muito tempo, porém, deixa ainda visíveis os escombros de suas bases a partir das quais pode se ver de um lado uma tendência para a dissipação sentimental em narrações e testemunhos de vivências e, de outro, a imitação de um modelo científico que, nas Sociais e Humanas, se tornam não raramente caricaturais.

Sustento que para superar essa ausência de paradigma e atraso no seu desenvolvimento, as Ciências Sociais e Humanas deveriam elaborar o luto do sonho com um estatuto impossível e parar de pagar os juros dessa dívida externa com as Ciências Naturais. Isso, talvez, evidenciaria a impossibilidade de aplicação de conceitos como o de paradigma em um âmbito discursivo que, por natureza, não tem essa vocação eclipsada pelas imitações ora da ciência, ora da arte que as Humanidades não raramente empreendem. Humanidades que ousassem dizer seu nome talvez solucionassem os efeitos colaterais e os problemas importados pela tentativa de prestação de contas há muito já quitadas. Afinal, assim como há quem mobilize um certo potencial compensatório das humanidades através de sentimentalismos, também houve e haverá quem compreenda que as “artes, letras e humanidades” são um tipo de discurso que gozam de um valor intrínseco enquanto discursos e saberes.

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“Pasenow ou o romantismo | 1988”, primeiro romance da trilogia “Os Sonâmbulos”, de Herman Broch

“… Até se dar conta, assustado, de que não conseguia mais abranger a massa difusa e gasosa da vida e que escorregava cada vez mais rápido e mais fundo em fantasmagorias absurdas que tornavam tudo incerto.” – Hermann Broch, Os Sonâmbulos

O primeiro livro da trilogia Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, é uma verdadeira obra prima e seu autor, em sua realização, dá um testemunho de domínio brutal de compreensão não só dos mecanismos da mente humana mas, também, das situações mais típicas da existência humana. Além disso, se faz necessário perceber a sagacidade de Broch na percepção da textura de um tempo histórico específico – a saber, o final do século XIX na Alemanha – marcado por uma profunda transformação daquilo que um Koselleck chama de relação entre “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”: através de personagens emblemáticos, Broch explora as possibilidades terminais de um mundo que encontra seu ocaso.

O enredo é tão prosaico quando pode e deve ser o enredo de um bom romance quando este se debruça sobre o âmbito prosaico da existência para fazer dele observatório de temas e motivos que exemplificam possibilidades humanas fundamentais. Centrado nas angústias de um militar que de maneira muito caricata se agarra ao próprio uniforme como se este fosse uma âncora da solidez dos valores que realmente tem valor e solidez em um mundo sendo violentamente arrastado pela força da transformação histórica, o romance de Broch narra a história do tenente Joachim von Pasenow em um curto período de tempo onde este é obrigado a fazer escolhas capitais acerca de sua vida. Pasenow é confrontado com a imposição de ter de escolher entre se casar ou não com a honrada Elisabeth ou, eventualmente, seguir seu desejo mais profundo e se atirar nos braços da vulgar e intensa Ruzena. Também lhe é imposto decidir se assume ou não a fazenda do pai, se segue ou não a carreira militar e, principalmente, se dá ou não ouvidos aos conselhos de seu amigo Bertrand, pessoa que, para Pasenow, é a própria encarnação da decadência ao ser alguém que não compreende o quanto é desonroso viver uma vida civil sem, ao menos, sentir um mal-estar profundo por desfrutar de tão decaída posição social.

Bertrand merece, aliás, uma menção especial e é peça-chave na trama. Funcionando como uma espécie de psicopompo às avessas, Bertrand é simultaneamente cínico e cético, existindo à distância de si mesmo na maior parte do tempo, como se o mundo fosse todo inteiro um complexo de utensílios disponíveis para sua manipulação e administração. Distante dos infortúnios que eventualmente o atingem pessoalmente, Bertrand parece viver para além do bem e do mal e sua amizade com Pasenow é tão difícil de ser explicada em termos pessoais quanto é uma viva ilustração do choque entre duas épocas, entre dois mundos, entre duas Weltanschauung distintas: se Pasenow, como sugere o título do romance, encarna o romantismo, Bertrand é uma espécie de  anti-herói weberiano em um mundo romântico, pensando a realidade em termos práticos e operacionais, sem o aparente compromisso de vivê-lo de forma intensa, genuína, autêntica.

A intensidade da vida interior de Pasenow é um dos melhores observatórios da arte de Broch. Descrevendo os resultados do monólogo interior de Pasenow sem nos obrigar a viver dentro da cabeça do personagem, o romance oferece uma comicidade que não se confunde com o alívio cômico pois, pelo contrário, revela com o microscópio mental romanesco a profunda incompreensão em que Pasenow experimenta sua própria vida, incompreensão que só se apresenta direta e incontornavelmente em momentos muito raros, ilustrando experiências que freudianos considerariam falhas das operações de racionalização ou nas quais existencialistas veriam os arroubos da angústia que permanentemente ameaça uma vida de má-fé.

Uma outra famigerada ótica que pode se deitar e se refestelar sobre o romance de Broch é a teoria do desejo mimético, de René Girard: tendo em vista que os desejos são em geral mediados por modelos exteriores que inspiram a ação, a constatação se torna automática: Pasenow não parece senão escravo de desejos importados por modelos muito próximos a ele – Bertrand, por exemplo – ou, já em linguagem lacaniana, não parece senão ser agido por um Outro que o encarna e o controla, o que faz de nosso protagonista um exemplar um tanto quanto trágico da aventura que é a mais humana de todas, a de ser alguém.

Do ponto de vista formal, além do esetoscópio mental que Broch desce até a cabeça de Pasenow para depois nos descrever, de forma sintética, o que está escutando, me chamam a atenção o uso de algumas técnicas muito interessantes: fluxos de consciência que ilustram momentos de profunda aflição; cenas oníricas onde somos forçadamente arrancados da perspectiva dos personagens e nos tornamos alvos da narração direta que nos toma por “você” para sermos, então, novamente, catapultados novamente para o terreno da ação em seu interior; cenas cuja riqueza de descrição é equilibrada a ponto de percebermos a penumbra azulada detrás das árvores sem sermos convidados ao desperdício de imaginação para conceber um abajur que componha o cenário e, por fim, uma conclusão quase que em forma de deboche com o leitor. Mesmo sabendo que é o terceiro volume de Os Sonâmbulos que consagra a inteligência de Broch na arte da polifonia da composição formal, o primeiro volume já deixa maravilhado qualquer um que passeia por suas quase trezentas páginas.

Se Girard sugere que todo romance é um observatório do desejo mimético eu, de minha parte, sugiro que todo romance pode ser um observatório daquilo que Sartre chamava de má-fé. E se o romance é essa mancha de Rorschach onde as teorias filosóficas podem experimentar seus instrumentos de análise e interpretação, é muito provavelmente em função do fato de que o romance é, ainda hoje, como diria Milan Kundera, um oásis de síntese intelectual onde as inteligências sedentas podem se refrescar – muito embora, saibamos que, não raramente, as inteligências não se saciam com o frescor da inteligência romanesca e tentem fincar palanques e demarcar um espaço de apropriação e colonização do território narrativo. Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, é certamente um desses oásis de inteligência.

Hermann Broch

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“Quando Ninguém Educa”, de Ronai Rocha

O que acontece com o ensino quando o imperativo da desconstrução vem antes da ideia de transmissão da herança cultural? O que pode ser a própria escola quando um silêncio constrangedor acerca do currículo só é interrompido por sussurros de slogans tão simpáticos quanto vazios? Como é possível que o aspecto epistemológico da aprendizagem seja negligenciado em nome de valores e projetos que entendem a escola de forma tão distraída? Aliás, como é possível se estar tão distraído a ponto de, por assim dizer, “fugir ao tema da redação” e, por décadas, confundir um livro sobre política com um livro sobre escola? Essas e outras reflexões são oportunizadas pela leitura do lúcido e bem-humorado livro do professor Ronai Pires da Rocha, Quando Ninguém Educa, lançado pela editora Contexto.

capa_quando_ninguem_educa_webCom capa de garrafais letras vermelhas sob fundo escuro e subtitulado com a frase “Questionando Paulo Freire”, o livro parece prometer alguma repercussão mesmo que possa vir a ser alvo de algum silêncio estratégico que o próprio texto parece admitir como possibilidade de resposta na medida em que apresenta um panorama onde a discordância só parece emergir sob um fundo de concordâncias profundas. A promessa de repercussão parece de possível porque, por exemplo, no momento em que digito estas linhas, o livro já foi comentado na famigerada revista Veja. Se eu fosse o autor, já estaria temeroso – e quase convicto – de que o livro será lido de forma tão predatória quanto é predatória a leitura hegemônica da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.

O livro parece composto de algumas, digamos assim, “linhas melódicas” que se recombinam e se retroalimentam, se revezando nas funções de “figura e fundo”, como se fizesse um permanente “zoom in” e “zoom out” para depois mergulhar novamente em “zoom in”, revezando a montagem de um panorama com a análise mais minuciosa de cenários mais básicos. Em uma polifonia de análise de documentos, digressões, apresentações de ideias de autores e relatos de experiência pessoal, o professor Ronai Rocha passeia pelos escombros de uma realidade pedagógica que sofre de, como ele mesmo diz, “penúrias” e “misérias”. O esquecimento do currículo, a antipatia pela ideia de disciplinas, a demasiada politização do ensino, o privilégio da desconstrução sobre a transmissão e a negação do arendtiano caráter conservador da educação são alguns dos temas sobre os quais a pena do autor passeia.

Do ponto de vista da circulação do livro, o elemento que mais e melhor se presta para a publicidade e para a propaganda das 153 páginas que estão chegando pelo custo de aproximados 30 reais às livrarias do Brasil é, sem dúvida, o ataque ao maior ídolo do imaginário pedagógico brasileiro: Paulo Freire. Ou talvez, para fazer justiça ao texto e dizer melhor, o ataque ao modo como as ideias de Freire circularam nos contextos de cursos de Pedagogia, no vocabulário e no imaginário de quem “trabalha com educação” nas últimas décadas. Se eu tivesse que vender o livro, diria que o livro é sobre como profissionais do ensino “zerariam a redação por fuga do tema” ao aplicar de forma frenética o conceituário freireano ao ambiente escolar quando, na verdade, o livro versa sobre a postura da esquerda diante do dirigismo revolucionário no trato com as massas. Em suma, o elogio da horizontalidade no trato com as massas – donde sai o slogan freireano de que “ninguém educa ninguém”, alvo da brincadeira que dá título ao livro – diz respeito ao modo como proceder na dimensão do engajamento político. O livro, em suma, não é sobre escola – que não aparece senão uma meia dúzia de vezes em toda a Pedagogia do Oprimido.

Por ter sido aluno do professor Ronai Rocha no curso de filosofia da UFSM, não considero que eu tenha isenção suficiente para resenhar o livro sem poluir o comentário que faço com minha apreciação por sua reflexão, sobretudo em tempos onde o imperativo da crítica acaba eventualmente operando no vazio produzido pela primazia da própria crítica sobre o conteúdo. A despeito disso, o livro não é um livro de polêmica e denúncia, como se vê no capítulo sobre epistemologia, onde o professor Ronai Rocha explicita os pressupostos epistemológicos do ensino e da aprendizagem que são desde sempre impossibilitados por posturas que privilegiam justamente uma sociologia do conhecimento que, inspirada por sentimentos meio milenaristas, privilegia a desconstrução em ambientes onde ainda não há nada erigido. O autor, que há vinte anos lançava uma obra, cuja a atmosfera era a de um fim de tarde de outono, acerca da situação da universidade brasileira, retorna talvez para nos lembrar, a nós, professores, que se ninguém educa ninguém, não devemos ficar surpresos quando a falta de sentimentos de pertencimento, de enredo e de obra se tornam hegemônicos e criam sentimentos de inverno onde a mística do professor se torna, no presente, quando ninguém educa, um antipático anacronismo, uma espécie de capricho, uma imagem tão fria e conservadora quanto, em suma, a ideia de educação.

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Sobre Formação e Vocação

“A integração da filosofia nas Instituições Científicas está sofrendo uma degeneração. Ela entrou desarmada na competição das especializações. Os modelos do pensamento científico parecem ter esvaziado as perscrutações filosóficas. A máquina científica move-se nestes modelos, enquanto a filosofia os questiona e os despedaça pelo seu interrogar sempre mais longe. Por isso, o vácuo no qual foram sugados os pensadores. Além de caros demais, eles mesmos não vencem o complexo de serem incestuosos. Que fará a sociedade atual, tão segura de seus critérios de ‘relevância’, com estes virtuoses do ‘acessório’? Para que servirá, afinal de contas, uma atividade que, tantas vezes, se perde numa auto-reprodução da história de seu pensamento? E a quem ainda convence a desculpa de que a nobreza da filosofia consiste precisamente em ser um fim em si mesma?”

– Ernildo Stein, em 1976

“A quem não conseguir suportar virilmente o destino da nossa época há que dizer: Regresse, em silêncio, lhana e simplesmente, sem a habitual e pública propaganda dos renegados, aos amplos e compassivos braços das velhas Igrejas. Estas não lhe levantarão dificuldades.”

– Max Weber, em 1917

De 20 a 22 de junho de 2007 aconteceu, em um pequeno e bucólico vale na região central do Rio Grande do Sul, o III Simpósio Internacional de Filosofia. O evento reuniu profissionais e estudantes de filosofia e foi centrado numa temática intitulada “identidade pessoal e reconhecimento”. Vale Vêneto – o nome da localidade onde tal evento foi realizado – foi ocupada por três dias por gente que mexe com filosofia. Sob uma parceria realizada entre a Universidade Federal de Santa Maria e a Faculdade Palotina, o evento foi organizado, entre outras pessoas, pelos professores Robson Ramos dos Reis, da UFSM, e André Cremonezi, da FAPAS. Para alguns dos presentes (para mim, especialmente, que orbito em torno do tema da identidade pessoal mais ou menos desde essa ocasião) o episódio foi sem par. Para os citados organizadores, segundo relatos que chegaram até mim, parecia uma ocasião de consolidação de uma parceria, mesmo de um projeto de prazo mais longo. Mas, os ventos da mudança sopram muito acima das nossas expectativas e por diversas razões – que não caberiam num texto dessa dimensão e talvez exigissem um livro inteiro – aquela iniciativa não foi continuada.

Hoje é sábado, 27 de maio de 2017. Estou em Santa Maria, em um dia chuvoso e frio. Em Vale Vêneto, nesse momento, estão os professores Robson Ramos dos Reis e André Cremonezi. Mais ou menos como há dez anos atrás.

A configuração dos elementos, porém, hoje, é totalmente outra. O professor André Cremonezi já não trabalha na FAPAS – onde eu, atualmente, leciono – mas no Instituto Federal do Paraná, em Curitiba. E do IFPR o professor Cremonezi trouxe um grupo de voluntariosas pessoas, entre colegas, alunos e ex-alunos, que o tem auxiliado a dar corpo para um projeto intitulado Programa Bildung, iniciado há uns três ou quatro anos. E foi assim que o Programa Bildung realizou seu primeiro colóquio, com as participações dos professores Antônio Augusto Passos Videira (Física – UERJ), Ronai Pires da Rocha (Filosofia – UFSM), o já citado Robson Ramos dos Reis (Filosofia – UFSM), entre outros. O professor Ernildo Stein, cuja citação abre esse texto, não pôde comparecer por razões de saúde.

O tema do colóquio foi o texto “A ciência como vocação”, do pensador alemão Max Weber. O texto, que completa seu primeiro centenário este ano, é um belíssimo documento – um “réquiem”, nas palavras do professor Videira – para um modelo de universidade e de ciência que encontrava seu ocaso no início do século XX. O modelo de cátedra, pavimento e plataforma de uma ciência que não se furtava em pensar o sentido do próprio fazer científico e da vida humana em geral no contexto da civilização ocidental e de seus destinos, era substituído pelo modelo departamental de especialização da pesquisa científica, de inspiração norte-americana. Weber, como uma biruta que indica a direção dos ventos da mudança, sinalizava que os novos tempos da ciência eram tempos onde esta já não poderia mais oferecer significantes norteadores do fazer humano. Segundo as palavras do prof. Robson Ramos dos Reis, o texto de Weber nos sugere um profilático estoicismo no trato com um mundo desencantado pela ciência desencantada. O “universo em desencanto” weberiano, porém, seria um novo universo no qual o “valor universal do conhecimento” – trocadilho cunhado pelo professor Ronai Rocha e incorporado em seu novo livro, no prelo, do qual o próprio professor falou na ocasião do evento – poderia enfim fulgurar. Se o universo – ou a universidade – da Bildung alemã onde o modelo de cátedras encontrava seu ocaso ao ser arrastado pelos ventos da mudança do modelo departamental de especialistas, ironicamente, a nova vocação científica da qual Weber falou – ironicamente em uma livraria, e não em um ambiente universitário – seria uma vocação que deixaria para outros domínios da reflexão e da ação humanas a resposta para a pergunta pelo sentido da vida, individual ou coletiva. E se, ironicamente, a ciência especializada realizada em departamentos tem uma similaridade estrutural com a democracia ao permitir dentro de si um espaço lógico para o discurso de suas próprias negações (assim como a democracia tolera o discurso autoritário que não a toleraria, a ciência também tolera o discurso irracionalista ou antiintelectual que a nega), foi sob o signo da Bildung alemã do XIX que foi possível, nas últimas quinta e sexta-feiras, falar sobre o valor universal do conhecimento, da formação e da vocação para a ciência. E se a universidade brasileira convive com diversos antagonismos externos (como o autoritarismo e o antiintelectualismo) e internos (as fragilidades que se seguem dos cenários produzidos, nas palavras do professor Ronai, “quando ninguém educa”), o Programa Bildung já aparece como um espaço, ainda que periférico a universidade, onde o sentido do conhecimento – ou seja, a herança da tradição universitária – ainda pode ser pensada. Um pequeno espaço onde a chama da qualidade de vida intelectual permanece acesa.

Além das palestras, o evento contou – ou contaria, na medida do permitido pelas temperamentais condições climáticas da região centro do estado – com um momento de observação astronômica e com um tour pelo Seminário Menor Rainha dos Apóstolos promovido pelo próprio professor Cremonezi. Com as atividades encerradas em 2006, o seminário é um monumento histórico que se agiganta no pequeno vale de tão doces ventos. Conduzindo alunos, ex-alunos e amigos através de cada cômodo da instalação, as palavras do professor Cremonezi produziam nas mentes dos presentes algumas imagens do que pode ter sido o seminário em seu funcionamento. Histórias de vida, paixão, fé, vocação e formação ficaram impregnadas nas paredes do seminário e eram reanimadas pelo relato do professor.

Weber disse que aqueles que não suportassem estoicamente o destino de sua época deviam, talvez, voltar às velhas igrejas. Ironicamente, foi dentro da velha igreja e sob o signo da Formação – que, embora em sua acepção alemã seja humanista e não exatamente cristã (ironicamente, o fechamento do velho seminário em 2006 foi selado com palavras talvez proféticas do Pe. Lino: “continuarmos favorecendo para que o local cumpra a sua finalidade formativa“) – que a vocação para a ciência foi relembrada pelo seu centenário histórico. Da minha parte – isto é, de da parte de alguém que retorna ao vale dos ventos, dos ventos da mudança, e que há 13 anos engatinha em sua formação acadêmica e profissional – foi novamente decisivo pensar sobre formação, vocação e sobre, afinal, minha própria identidade nesse cenário. Pois se a universidade tem tantos e tão intencionados inimigos dentro e fora dela que, pelos mais diversos motivos a querem reformada, transformada, descaracterizada, vendida ou mesmo destruída, é importante saber que aqui e ali – e eventualmente até mesmo nos bancos das velhas igrejas – será possível sentir o calor doce dos ventos da mudança e, não sem ironia e algum estoicismo, meditar sobre a própria formação humana, sobre a própria vocação profissional, sobre o valor universal do conhecimento.

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“O livro do idílio e da nostalgia”, de Milan Kundera

A nova e surpreendente obra de Milan Kundera, já quase um nonagenário, corre o risco de se tornar um best-seller como foi A insustentável leveza do ser já que aos 88 anos Kundera surpreende a todos com um romance complexo que certamente será considerado um dos pontos altos de sua obra romanesca.

Se em O livro do riso e do esquecimentoA insustentável leveza do ser Kundera já praticava uma polifonia que encontraria seu acabamento estético em A imortalidade, em O livro do idílio e da nostalgia Kundera, quase trinta anos depois, mostra um trabalho que certamente demandou tempo e esforço para ser construído. Com cerca de trezentas páginas divididas em sete partes, Kundera mostra uma lucidez talvez incomparável mesmo àquela exibida em A imortalidade. Passeando pelos perpétuos temas do erotismo, das ironias trágicas da existência e dos paradoxos da vida na modernidade, Kundera opera como um verdadeiro sismógrafo, mostrando quais placas tectônicas de memória impregnada se movem quando as sempre surpreendentes crises irrompem mudando nosso mundo.

Como é de praxe, Kundera satura sua prosa de meditação reflexiva. Quem o acompanha na maior parte do tempo dessa vez são os existencialistas – influências sempre implícitas no clima de suas obras e em seu imaginário mas, dessa vez, trazidas à ribalta. Comentando os romances, teorias e vidas de pessoas como Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Kundera medita sobre ideias como “liberdade”, “responsabilidade”, “absurdo”, “gênero”, “revolta”. Ironico e impiedoso como habitualmente, Kundera dispara contra os existencialistas assim como outrora já disparou contra os surrealistas: ávidos por uma vida autêntica e transparente, dominados pelo afã de modernidade, os existencialistas são, na pena de Kundera, um privilegiado observatório daquilo que Hannah Arendt chamaria de “fragilidade das coisas humanas”. É em torno deles que a palavra “idílio” do título orbita.

Mas lembramos que O livro do idílio e da nostalgia é uma obra romanesca e, portanto, tem personagens. Sua heroína derradeira é Alexa, uma emigrada descendente de decadentes aristocratas russos. Para que essa resenha não revele demais do enredo, diremos o mínimo sobre Alexa que, tendo vivido na República Tcheca desde a infância, sentiu na própria pele a invasão dos russos à República Tcheca antes de poder voltar já adulta, nos anos 90, para Moscou. Kundera nos oferece um dos mais ricos panoramas da descontinuidade de ritmos na qual os tempos modernos passam nas diferentes partes do mundo através dos diálogos de Alexa: seu berço aristocrata e sua formação de historiadora fazem o que nenhum personagem de Kundera jamais fez, a saber, apanhar o próprio autor em um enquadramento reflexivo acerca de sua prática e dos entornos dela. O diálogo final entre Alexa e o próprio Kundera parece um testamento definitivo do autor acerca de sua própria prática, uma prática nostálgica de um esteta hedonista em um mundo onde o cerco se fecha, mais uma vez, para tipos como ele.

O livro do idílio e da nostalgia já nasce um clássico definitivo, embora lhe falte talvez a característica mais fundamental: a existência.

Milan Kundera

Hoje é aniversário de Milan Kundera. E essa brincadeira de primeiro de abril é meu registro da admiração por sua obra, por sua prosa, por seu pensamento.

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