Menos maniqueísmo e mais empatia

Talvez tudo o que eu vá dizer agora diga mais respeito à mim mesmo – que não sei o que sentir nem depois de ser assaltado e agredido – do que ao caso do qual vou falar. Mas, vamos “reflexionar” nesse lindo domingo de sol e melancolia.

Dunga, o técnico da seleção brasileira e ex-jogador, deu uma declaração muito infeliz e completamente racista dias atrás. Daquelas que permitem que se entreveja o quanto um sujeito pode simular um comportamento sem absolutamente o compreender. O racismo “cordial” que impregnou as palavras do ex-jogador mostra o quanto ele sabe que deve evitar certas palavras e ações e mostra também o quanto ele não tem nenhuma empatia ou compreensão da questão, embora saiba que será vaiado se cometer algum deslize.

Mas, o comportamento de Dunga é infelizmente a regra em nosso país. Essa falta de boa-vontade para tentativa de diálogo e compreensão do outro define o tom maniqueísta da opinião pública. Eu não sei nada sobre o que faz o Dunga fora de campo, e é aí que quero chegar: a rapidez com a qual se conclui sobre sua eventual “maldade” diz mais sobre a forma que estamos pensando do que, talvez, sobre os alvos de nossos juízos.

Dunga muito provavelmente pode praticar uma cretinice por semana e posso estar sendo pueril aqui. Mas se não for o caso, essa pressa – e essa espécie de euforia raivosa – em colocar um indivíduo numa “lista de inimigos” já mostra qual é a possibilidade de redenção do inimigo numa perspectiva maniqueísta como a nossa: nenhuma. Ao “inimigo”, ao “vilão” parece possível apenas a admissão da insustentável culpa de ser quem é, seguida da prática religiosa de uma tentativa permanente dessa expiação impossível do mal cometido.

Já não falo aqui apenas sobre o Dunga. O episódio de sua declaração foi, pra mim, o estopim de uma tomada de consciência nada agradável: enquanto aqueles que tem espírito crítico não escaparem do pântano do dogmatismo e do maniqueísmo, serão apenas o reverso da moeda de um senso comum perverso. Enquanto o humanismo comemorar a morte de seus adversários e não tiver menos pressa em pregá-los no calvário do desprezo, esse humanismo não será nada além do que o reverso do seu “inimigo”.

Dungão

Repito: eu não sei quem é o Dunga. Apenas fiquei sabendo o que ele fez. Admito que posso estar sendo ingênuo. Mas, essa pressa do julgamento e essa euforia da condenação parecem práticas preguiçosas e narcísicas, empreendidas por grupos de indivíduos que, ávidos por reconhecimento mútuo, parecem não ver problema em condenar um bode expiatório qualquer apenas para confirmarem reciprocamente sua própria “bondade”.

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A Tempestade, Parte II – Transcendência (ou: A Breve Temporada de Clarissa no Subsolo)

Nunca havia pensado em Clarissa morta. Ocorre-me que depois de todos esses anos, talvez apenas assim seja possível compreender sua história. Talvez apenas o período em que Clarissa estava morta explique o que ela se tornou depois de retornar.

Clarissa na Tempestade

Sempre tentei ser sutil e disfarçar ao máximo o fato de que Clarissa não é exatamente um ser humano. Prefiro não dizer o que penso que ela seja, mas para orientar o leitor, pense nela como sendo algo de uma natureza parecida com os anjos de Wim Wenders, cujo único poder sobrenatural seja o de trazer alento àqueles que sofrem. Contudo, Clarissa passeia em um corpo físico e material no mundo humano. A história que vou contar agora se passa em um tempo em que Clarissa desfrutou precisamente da condição de ser apenas isso: um espírito, uma sombra, uma alma errante em uma dimensão sombria, semelhante mas ao mesmo tempo diferente deste mundo, seu espelho negro.

Os habitantes dessa região sem vida onde Clarissa passou uma curta temporada são precisamente os miasmas de autoconsciência que foram despidos de suas vestes carnais. Tais espólios sombrios de almas outrora vivas vagam entre nós que estamos no mundo vivo, mas uma vez condenados a subsistirem como simulacros conscientes de lembranças e sentimentos, já não podem senão ver precisamente o reflexo sombrio do mundo onde estamos. Assim, vejo Clarissa sentada em frente ao portão pichado de uma loja, junto com outras aparições, invisíveis aos olhos de um grupo de jovens que, em carne e osso, não podem ver que estão acompanhados por espectros invisíveis muito semelhantes a eles mesmos. Observando os vivos se embriagarem com vinho barato e esvaziarem maços de cigarro, os mortos se regozijam em sua desesperada ânsia de provar ao menos migalhas dos prazeres daqueles que permanecem aptos a, se preferirem, desperdiçar a própria saúde, o próprio tempo e a própria vida. O que sugere fortemente que nossa diferença para com esses espíritos invisíveis é mais sutil do que parece: se o que mantém uma alma presa ao plano da existência é seu leque de desejos e anseios não-realizados, a morte e a vida são apenas diferentes tons no espectro da experiência possível ao espírito humano. Mas, paremos de especular, voltemos a Clarissa.

Clarissa morreu em um acidente que seu pai não conseguiu evitar. Voltou dez anos depois, em sua nova forma – a forma que seu pai, por sua própria natureza, menos desejava que ela assumisse. A breve história que conto se passa nesse ínterim.

Clarissa tentava apanhar, inutilmente, um cigarro ainda aceso e fumado quase até o final por um dos jovens que ali estavam. Evidentemente, seus dedos etéreos não entravam em contato com o objeto desejado. Distraída, ouviu um amigo invisível lhe perguntar algo que, caso Clarissa ainda tivesse um coração, faria este acelerar e sentir uma falta de ar.

“Clarissa… Aquele ali não é seu pai?”

Era.

pai de clarissaDepois de meses de espera, Clarissa finalmente via seu pai novamente. Ele havia encontrado a filha no submundo. Por mais doce e pura que fosse a alma de Clarissa, a falta que sentia de seu pai não permitiu que sua alma seguisse o caminho que naturalmente seguem almas como a dela. Vê-lo na outra esquina, com um cigarro aceso e todo vestido de preto a fez correr para seus braços. Mesmo morta, Clarissa ainda conseguia chorar e chorou copiosamente enquanto esteve suspensa no abraço mais desejado. “Está tudo bem agora”, ele dizia. Ela não conseguia falar. Quando desceu dos braços do pai, este lhe entregou o cigarro – que não era, obviamente, um cigarro – e, acariciando seu rosto, disse as palavras que Clarissa mais desejava ouvir.

“Eu vim buscar você.”

Passeando pelo submundo com sua filha – e fazendo com que os outros mortos se comportassem como animais espectrais, sentindo sua presença nefasta e se afastando temerosos – o pai de Clarissa explicou o que seria necessário para que Clarissa pudesse alcançar a transcendência. Motivo de especulação no mundo dos mortos, ninguém sabia exatamente o que acontecia com as almas que transcendiam. Por medo do desaparecimento total, as aparições preferiam permanecer imersas na atmosfera infecta de suas existências desesperadas à fundir-se em um todo divino e místico. A fusão com a plenitude e o limbo do desaparecimento total pareciam duas vias idênticas de encontro com o nada e entre o nada absoluto e aquela subsistência miserável, a consciência individual parece preferir permanecer ancorada no existir, mesmo que seja acorrentada pela mais profunda angústia – o que faz com que eu insista que os vivos e os mortos sejam parentes mais próximos do que suporíamos. Ao contar para sua filha o segredo do que havia depois da transcendência, o pai de Clarissa oferecia para a menina uma motivação concreta para uma jornada de purificação e enfrentamento das sombras da própria alma.

“Veja, meu amor… Boa parte do que você precisa já está aqui. Sei que o que mantém você acorrentada nesse submundo é o desejo de estar comigo novamente. Mas você não pode permanecer nesse plano imundo e asqueroso. Infelizmente, quando você sair daqui, irá para o lugar que mais desprezo e no qual não posso entrar. Mesmo assim, é mais fácil tirar você de lá do que protegê-la nesse subsolo infecto. E eu vou fazer o que for necessário para buscar você. E então, teremos novamente todo o tempo do mundo para ficar juntos…”

De início, Clarissa resistiu a ideia de que devia deixar de querer estar ali, já que tinha quase tudo o que queria. Mesmo os cigarros e o vinho que desejava seu pai podia oferecer e, por algumas semanas, ela viveu uma espécie de paraíso pessoal em pleno purgatório, pois a presença de seu pai não tingia de cores o mundo cinzento, mas fazia com que a atmosfera sombria de seu novo mundo possuísse uma beleza singular. Com o tempo, porém, Clarissa aceitou que aquele simulacro sombrio de uma existência genuína precisava ser superado. Escutou atentamente seu pai e despiu-se de todos os desejos mundanos que ainda projetavam sombra em sua alma. Perto do final do processo, porém, seu pai disse que o ressurgimento dela no lugar para o qual ela iria chamaria atenção de todos os seus habitantes, pois aconteceria algo que é muito raro: ela seria uma das raras almas que chegariam lá sem a lembrança de quem ela própria era. E essa condição permaneceria até que ele pudesse encontrá-la.

Naqueles dias, o a jornada para a transcendência empreendida por Clarissa simplesmente estacionou. Não lhe interessava nem um pouco ir para qualquer lugar onde não apenas não teria a companhia de seu pai, mas não poderia sequer ter as memórias daquele que ela mesma mais amava. De qualquer modo, a esperança e a confiança de que seu pai a encontraria e a faria ser novamente quem ela desejava ser a fizeram enfrentar o desafio. Em uma tarde cinzenta como inevitavelmente são cinzentas as tardes no submundo, deitada no colo de seu pai e tendo os cabelos afagados por ele, Clarissa fechou os olhos. Estava mais corada e vestia um casaco vermelho (sim, os mortos vêem a si mesmos e se comportam como se ainda estivessem vivos). Enquanto lhe dava orientações e sussurrava palavras de alento, o pai de Clarissa sentiu a filha desaparecer de seu colo e do toque de seus dedos. Clarissa transcendera. Iniciava-se então o tempo da espera. Era preciso mover sabiamente as peças de seu xadrez e negociar com os habitantes mais desajustados daquele plano odioso onde Clarissa reapareceria. Felizmente, para ele próprio, ele dispunha de algumas cartas na manga e se não podia invadir reinos proibidos com passos imperiais, seria sinuoso e discreto. O pai de Clarissa sempre conseguia o que queria.

Clarissa e seu pai

Clarissa ressurgiu dez anos depois e a história de seu amor e de seu reencontro com seu pai começa nesse ponto. Não nos ocuparemos dela agora. Resta dizer que não raro Clarissa, em sua nova condição, vez por outra visita o submundo com seu pai. A maior parte dos habitantes do mundo inferior não reconhece a natureza desses estranhos visitantes e não sabem que existe uma rara, raríssima saída desejável para sua nefasta condição. Aqueles que a conheceram ficam felizes – na medida em que seus resquícios de confusa e atormentada consciência conseguem sentir alguma alegria genuína – quando esses dois estranhos personagens, trazendo vinho e cigarros, decidem passear no mundo cinzento onde os mortos habitam.

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A Tempestade, Parte I – Areias Negras

Cada época e cada lugar têm a metafísica que merece. Eu faço parte de um cenário onde já nenhuma é possível.

Não sei há quantos dias caminhamos nesse deserto. Também não sei se são dias, ou se são anos e perdemos a noção do tempo. Não é um deserto normal, pois aqui a noite não dá nunca lugar ao dia. Aqui, a noite é eterna e o frio é insuportável. Já não lembramos se a areia é negra como a vemos sob esse céu – avermelhado por um aparente eclipse que nunca se desfaz – ou se ela tinha outras cores. Já não tenho certeza de que existem outras cores.
Caminho com alguns companheiros que sobraram. Muitos morreram de fome e sede. Outros foram devorados por feras cuja selvageria os fez desaparecerem nos instantes em que conseguimos arranjar forças para correr até não conseguirmos mais ouvir os gritos dos companheiros apanhados desprevenidos. Alguns foram canibalizados por aqueles dentre nós que caíram no desespero e não hesitaram em devorar um companheiro. Fugimos desses como fugimos das feras e penso que as areias negras os consumiram. Prefiro que tenha sido assim. Às vezes, porém, tenho a impressão de que esses companheiros não são senão frutos de minha imaginação, e que terminarei vagando sozinho rumo ao horizonte que nunca chega e que não parece levar à lugar nenhum.
Ainda lembro de como vim parar aqui, embora não tenha certeza de quem eu mesmo era antes do deserto. As memórias se confundem em um turbilhão que prefiro evitar que reapareça e por isso mesmo tenho evitado tentar lembrar – embora esses raros momentos de reflexão sejam, por vezes, os únicos em que me sinto vivo ou, ao menos, real. Parece mesmo que isso é parte do teste – se é que é possível chamar de teste algo que não parece ter solução, saída ou fim – e que recordar quem eu fui, ou talvez quem eu deveria ter sido, é precisamente aquilo que eu deveria fazer para poder sair daqui. Mas tenho medo do que encontraria caso minha reflexão topasse com uma memória verdadeira. Sinto que ficaria tão horrorizado que preferia deixar de existir e que, nesse momento, um gênio maligno realizaria meu único desejo.
Lembro que posso ter sido um alfaiate que violentava a própria mulher, mas também lembro de ser um oficial da lei corrupto e perverso que não raro causou mal à inocentes. Também lembro de falar para multidões, em um púlpito, e que minha fala – cujo conteúdo me escapa – era acompanhada pela sensação de mentira. Por incrível que pareça, as imagens que compõem tais recordações são tão desagradáveis que prefiro prestar atenção na dor de meus pés que já não cicatrizam as queimaduras ocasionadas pelas areias negras e ferventes (e que não amenizam o frio do violentíssimo vento que nunca cessa). A dor física ameniza a dor da alma, embora eu já desconfie que não possuo mais um corpo – ou, afinal, já teria morrido de sede e inanição como muitos companheiros.
Às vezes, desmaio. Desmaio e sonho. E os sonhos parecem durar tanto tempo que, no início, era lamentável acordar. Agora, quando sonho já sei que sonho. Mas não me é dada a dádiva que para alguns transforma o sonho em um verdadeiro parque de diversões, onde é possível se fazer o que se quiser. O tecido desse aparente inferno onde estou jogado faz com que os pesadelos já tenham se tornado também um tipo de sofrimento para o qual a marcha do Sísifo que é a própria pedra em um deserto infinito seja preferível ao caos das memórias aleatórias que acentuam a dolorosa condição de viver como um condenado. O sonho se tornou uma opção tão dolorosa que acabei preferindo nunca mais dormir. E que isso seja possível só acentua a impressão de que, há muito tempo, já não vivo como um ser humano.
Serei o eu-onírico de um paciente terminal? Ou será esse deserto um elemento da geografia de um purgatório? Ou do próprio inferno? Deverei alimentar esperanças de que é possível sair daqui? Ou, justamente, a esperança só faria acentuar o sofrimento em uma condição permanente e inescapável. Não tenho sequer o direito de procurar sinais em um lugar homogêneo, onde o sol negro como o chão e o céu vermelho como o sangue se estendem de forma homogênea para todas as direções no horizonte…
Wraith The Oblivion

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Sobre música e desejo

A fenomenologia ensina que nossa atenção faz “recortes”. Destaca certas figuras de um fundo indiferenciado, por exemplo. Não terá essa afirmação um valor musicológico? Afinal, há na música erudita, sobretudo em seu período clássico, toda uma agenda de elementos mobilizados como um meio para que uma linha melódica, protagonista, se destaque desse fundo indiferenciado.

É o que parece acontecer na vida: a vida não pode obedecer o que Milan Kundera, em seu A arte do romance e em homenagem à Leos Janacek, chama de “Imperativo Janacekiano”, onde “só o que é essencial tem o direito de existir”. Para Kundera, Janacek supera o paradigma da música que se dobra sobre notas inúteis, que preenchem espaços mas “nada nos dizem”. Para nossa tristeza – e provavelmente para a tristeza de Arthur Schopenhauer, que pode ter feito o que foi o maior elogio filosófico da música – o plano da mera existência não é preenchido senão por uma densa massa de elementos coadjuvantes, contingentes, inessenciais, mera combinação de coisas genéricas que fazem o papel de fundo daquilo que recortamos quando narramos a vida. Acho que Schopenhauer entende a música como uma espécie de “atalho”, que nos faz sentir de modo imediato aquilo para o que a vida não é senão um meio imperfeito, isso é, o acesso à certos sentimentos. E Schopenhauer ainda vai além: ao nos permitir o acesso a tais afetos pela via estética, estamos em uma experiência quase mística, descolados da dimensão “material”, “física”, “carnal”, onde o que nos define é a torturante experiência do desejo – esse demônio que turva nossa percepção e nos revela que o objeto, quando obtido (ou seja, o desejo quando realizado), não era aquele que desejamos: por sorte ou azar, nossa ilusão se dissolve quando o desejo se realiza e percebemos que era o desejo o responsável pelos predicados que tornavam o objeto aparentemente desejável.

Qual seria a verdadeira o modo mais apropriado de vivenciar o desejo então, senão como o meio de experimentar certos afetos, sentimentos, emoções?

Bem, se o desejo é essa estrutura suicida, autodestrutiva e condenada ao fracasso, na música temos o meio de acesso privilegiado àquilo que supomos querer. Os sentimentos sempre foram o fim, os objetos sempre foram meios. A música nos dá diretamente os sentimentos que buscamos de modo confuso e desastrado nas aventuras da mera existência.

Janáček

PS: se a especulação de Kundera tem alguma verdade, bem, Janacek – na esteira de Beethoven – faz exatamente o que a música deve fazer: ir direto ao essencial, sem rodeios. Realiza a música perfeita, que nos dá o que realmente queremos mesmo que, de imediato, não saibamos.

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Excertos do subsolo – Sobre universais e prateleiras

Sentada à sombra de um guarda-sol na areia de uma praia qualquer, Clarissa ouvia mais do que falava enquanto Ariadne comentava sobre a beleza ou feiura dos corpos masculinos. Para tentar entrar entrar no espírito da brincadeira, teceu um comentário sobre um rapaz aleatório, um pouco magro e alto demais e um tanto desajeitado. Ariadne imediatamente retorquiu:

– Aquele menino? Certamente você é a única a olhar para ele nessa praia inteira.

Clarissa não saberia explicar, mas aquela frase encheu seu peito de uma estranha felicidade. Continuou olhando para o rapaz e desejou saber se existiam outros “como ele”. Esperava que não. Esperava que ele fosse, de fato, especial e único como já passava, discretamente, a se-lo em sua fantasia. Só interrompeu tal fantasia quanto refletiu e percebeu que estava fantasiando. Clarissa já sabia que era desse misto de fantasia e embriaguez, que era desse descuido que nascia aquilo que todos chamavam de amor.

O que Clarissa não nota é que esse desejo por um objeto único e especial já se manifestava em sua mais tenra infância. Como ela não teve lembranças da própria infância durante boa parte de sua juventude, não se lembrava do episódio em que, entrando com seu pai em uma loja de brinquedos, viu uma prateleira com dezenas de bonecas iguais àquela tão especial e única – que batizou de Melody – que seu pai lhe dera semanas antes. Na ocasião, Clarissa gritou em pânico diante da prateleira cheia de exemplares idênticos à sua amada boneca. Teve de ser levada para fora da loja nos braços por seu pai. Chegando em casa, a primeira coisa que Clarissa fez foi, chorando, jogar sua boneca no lixo depois de olhar para ela uma última vez, por vários minutos, em lágrimas e franca mágoa. Seu pai, em silêncio, observava e compreendia exatamente o que estava acontecendo. O que ele não previu foi que a partir daquele dia Clarissa carregaria para sempre aquele semblante melancólico e distante, de alguém que passa a maior parte do tempo procurando ou esperando algo especial e único, que jamais chegará.

Ora, acaso alguém vive de modo diferente de Clarissa? Não é a tragédia humana esperar e querer sempre o que não está presente? Aliás, ao invés de trágico, não será justamente esse aspecto do nosso eterno desejar uma das coisas mais triviais sobre a condição humana? Evidentemente que sim. Mas Clarissa, desde muito cedo, mostrou que tinha dificuldades em se deixar enganar.

(A capacidade de enganar a si mesmo é a mesma capacidade de crer e, assim, dela depende nossa capacidade de amar. Se Clarissa fracassava no amor era sobretudo porque sempre percebia muito rápido suas emoções, sem se deixar sequestrar por elas. Por não conseguir crer, sentia tudo pela metade, inclusive o amor.)

Pouco antes do colapso mental de Clarissa, a menina se viu dominava por um asco que se estendeu sistematicamente à todos os universais. Começou não conseguindo mais ir ao supermercado: tinha pânico das prateleiras, da produção em massa. Não tardou para o pânico se estender às palavras: desejava poder criar suas próprias palavras. Não poderia dividi-las com ninguém, porém, e sentia que dessa forma tal linguagem era impossível. Montserrat, seu psicanalista, supôs que o o colapso mental de Clarissa tinha sido disparado quando Clarissa notou que as cores, aromas, texturas e tudo o que percebia eram, também, universais. Clarissa teria percebido que tudo era público, nada era seu. Teria então se sentido como se aquele mundo fosse obra de um demiurgo fordista e preguiçoso. Montserrat supunha que a mente de Clarissa, em choque, teria fugido para as próprias trevas interiores quando, tomada de asco de toda a matéria da vida consciente, percebeu que não existia absolutamente nada singular e especial no universo.

Muitos anos se passaram desde então e hoje Clarissa não tem mais nenhum asco patológico e nem sequer mais do que meras lembranças fugidias daquele período. Contudo, ela mesma não parece notar a dificuldade que sente em diferenciar as pessoas, coisas e lugares, seja na percepção ou na memória. Ariadne elogia o peito desse rapaz, o traseiro daquele outro, o modo de caminhar de um terceiro, e Clarissa tenta acompanhar as indicações e descrições da amiga, mas isso lhe cansa a mente. Como não cansaria? Diante do tipo de diferença que ela espera e que lhe foi proibida desde a infância, aquelas que Ariadne elenca distraidamente são pequenas demais, superficiais demais, parecidas demais. Para tentar interromper o fluxo de atenção que Ariadne exige, Clarissa pede licença à amiga e vai até um quiosque buscar uma bebida.

De longe, Clarissa olha para a praia. Há anos seu semblante melancólico povoa minha imaginação. Hoje, finalmente entrevejo parte do que a entristece de forma tão constante. Invisível, a vejo de perto e aprecio o vento que faz balançarem seus cabelos enquanto seus olhos perscrutam o presente a procura do ausente. Entendo Clarissa e sei como ela suporta viver: já que não se pode trocar de alma nem de mundo, é preciso ceder e aceitar a supremacia do comum sobre o especial, do inessencial sobre o essencial. Talvez essa seja a sina de Clarissa, nascida para ser única e educada para ser especial. Talvez seja um capricho da menina-do-papai insistir em querer um mundo que não pode existir. Contudo, ainda consigo ver nos olhos tristes dessa menina imaginada o eco do choro da criança que muito cedo percebia que este mundo é o mundo do comum e da cópia, da cópia e do vulgar, da imitação, do inessencial, do contingente. Daquilo que é, no fundo, sem razão de ser.

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“Se eu quisesse que você fosse como eu…” – um diálogo em ‘House, M.D.’

– “Noradrenalina e as experiências quase-morte.” Meu Deus. Você viu Deus?
– Ela viu. Ela quer voltar ao monastério.
– Então você está preparando uma apresentação de PowerPoint para mantê-la em seu jardim de delícias. Você é um idiota.
– Por eu ter encontrado alguém que eu amo?
– Porque você é um idiota. Ao menos os dois têm isso em comum. Sentimentos baseados em um processo químico. Você acabou de dormir com ela. Seu cérebro está explodindo com ocitocina. Acha que isso irá durar por anos?
– Ela está jogando a vida fora por uma fé cega.
– Assim como você! Ela achou algo para construir a vida dela. É uma ilusão, mas parece que ela aceitará uma leve ignorância. E você quer tirar isso dela?
– Quantas vezes você jogou a verdade na cara das pessoas?
– Porque é a verdade, não porque viverão felizes para sempre. Ou o seu relacionamento acaba como qualquer outro romance sem magia, ou ela fica com você mas o culpa por retirar o significado da vida dela.
– Isso não tem nada a ver com a verdade. Você não gosta de eu estar reavaliando minha vida. Que eu quero mudá-la, que eu posso mudá-la.
– Qualquer um pode bagunçar uma vida. Eu nunca disse que não fosse possível.
– Você é incapaz de uma conexão humana, então quer que todos sejam como você.
– Se eu quisesse que você fosse como eu… Eu estaria insistindo que você fizesse uma estúpida e teimosa decisão que estragará a sua vida e o deixará sozinho e infeliz. Você reavalia a sua vida quando você comete erros. Você não cometeu.

House and Chase12º episódio da 8ª temporada. Imagem meramente ilustrativa.

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Excertos do Subsolo – Klam*

Era dia de São Valentim quando, por acaso, o pai de Clarissa encontrou as cartas da filha guardadas em uma caixa esquecida em um fundo de porão. Sentou-se e, por mais de uma hora, leu mais de uma dezena de cartas da filha. Datavam dos primeiros dias em que se conheceram, o que já fazia então muito tempo. E a cada nova carta lida novamente, mais o pai de Clarissa percebia o quanto, sem que ele tivesse percebido, sua filha havia mudado.

abbiecornishQuando Clarissa conheceu seu pai, tinha menos de 15 anos e um problema sério de amnésia. Assim, Clarissa não tinha exatamente uma identidade, mas no máximo um temperamento e uma difusa orientação de como devia se comportar no mundo. Sua doçura e ingenuidade a tornavam algo próximo de uma personagem arquetípica saída diretamente de um conto de fadas. Incapaz de mentir, incapaz de odiar, Clarissa sempre agia segundo um forte senso de dever e se encantava facilmente com as pequenas belezas da vida. Como ninguém sabia de onde ela tinha vindo ou com quem havia aprendido a ser assim, atribuíam tal doçura e ingenuidade à sua alma pura, seu bom caráter, sua luminosa essência.

Curiosamente, o drama da vida de Clarissa nesses dias não era muito diferente do drama da vida de cada um de nós. Afinal, somos todos herdeiros de um vasto manancial de crenças, valores e gestos dos quais nos apropriaremos, sem perceber, de um pequeno repertório. Assim, se rimos muito alto em público, acreditamos em justiça cósmica ou se costumamos distribuir esmolas, tudo isso aponta diretamente para uma época de sonâmbula formação da personalidade. Nesse sentido, não estamos melhores que Clarissa, que padecia de amnésia: não sabemos rastrear muito bem quando ou onde nos apropriamos daqueles traços que nos definem. E se Clarissa era doce, nesse momento era impossível detectar se o era porque era sua “essência” ou se esse repertório de gestos e essa visão foi assumido por puro instinto de sobrevivência. Afinal, para alguém sem memória, a sociedade é perigosa como uma selva.

A experiência de passar muito tempo longe de uma pessoa pode causar uma estarrecedoraAbbie_Cornish tomada de consciência: aquela pessoa que conhecemos não existe mais. Seja em fotos, cartas ou simplesmente na memória, aqueles que conhecemos no passado permanecerão lá, habitando sonhos e lembranças, em um mundo desaparecido para sempre, substituídos por variações distorcidas daquelas pessoas que esperávamos reencontrar. O choque dessa tomada de consciência será sempre tão forte quanto for importante aquilo que se perdeu e deu lugar à outra coisa. A experiência do pai de Clarissa, contudo, foi oposta a essa: passou tanto tempo ao lado de Clarissa que não percebeu que, traço a traço, ela havia se transformado lentamente em outra pessoa.

Ler as cartas da filha para ele fez com que, ao final da leitura, o pai de Clarissa constatasse melancolicamente: a menina que ele havia amado tanto não existia mais. O pai de Clarissa percebeu, não sem tristeza, que o amor que ele ainda investia sobre a mulher que a filha havia se tornado se endereçava na verdade àquela menina que ela um dia fora, e que estava soterrada e esquecida sob as diversas camadas de vivências que ajudaram Clarissa a se tornar uma pessoa de verdade. Com um sorriso amargo e balançando negativamente a cabeça, com as cartas ainda em mãos, o pai de Clarissa constatava: a filha que ele amara talvez tenha existido apenas em sua fantasia.

somersaultEnquanto pensava nisso, ouvia Clarissa chegar em casa acompanhada de alguém. Falava alto e ria de uma forma que, percebia agora seu pai, seria impensável àquela menina que ele conhecera. Porém, como a história de Clarissa começa com sua condição amnésica, é preciso notar que todos os traços assumidos pela menina naqueles dias eram sim traços provisórios como os gestos desajeitados de uma criança que aprende a andar. Fosse qual fosse a “verdadeira natureza” de Clarissa, essa se revelava com o tempo. Ouvindo Clarissa ligar o rádio e cantar junto com a música, seu pai percebia: havia amado, durante todo esse tempo, uma nuvem de gestos provisórios e apavorados. Uma nuvem que se dissipou com o tempo. Era pior do que amar alguém que não existia mais: com as cartas de Clarissa na mão e a voz da filha vindo da sala junto com uma música bastante ruim, o pai de Clarissa percebeu: amou sim, por muito tempo, alguém que nunca existiu – ou que quase existiu. Amou uma miragem.

Guardou as cartas na caixa e, com o mesmo meio-sorriso amargo e resignado, pegou o pacote do presente que havia comprado para a filha. Subiu as escadas e a encontrou sentada à mesa da sala de estar com sua amiga Ariadne. Tomavam um drinque à base de vodca e o sol as iluminava através das janelas. Clarissa estava – como seu pai sempre achou – linda. Cumprimentou ambas e entregou o presente para a filha. Ela agradeceu e quando abriu foi inevitável para seu pai perceber o misto de ternura e compaixão de Clarissa que, evidentemente, não havia considerado aquele o presente mais adequado: um delicado vestido, parecidíssimo com os que ela usava quando tinha catorze anos e nenhuma noção de quem era ou do que gostava, mas apenas do que devia fazer para ser razoável e aceitável entre seus pares. Agradeceu o pai com um beijo e um abraço. Combinaram de jantar juntos. Depois Clarissa e Ariadne iriam à uma boate com alguns amigos.

Não costumo pensar em Clarissa dessa forma. Assim, não sei bem onde vai e o que vai fazer seu pai quando se despede das jovens na sala de estar. Vejo-o fumando sucessivos cigarros enquanto caminha lentamente em um parque, observando os transeuntes. Nessa tarde seu coração será assaltado por uma ligeira sensação de arrependimento. A rigor, o pai de Clarissa não acredita – e ensinou isso à filha – que o arrependimento deva ser cultivado, na medida em que tudo o que foi vivido foi necessário para que tenhamos nos tornado quem somos no presente. “Quem se arrepende”, ele diz, “não suporta a si mesmo”. Contudo, nessa tarde ele não consegue evitar a pequena e risonha decepção que sente com relação à si mesmo por ter se deixado se enganar por tanto tempo. Pela noite, depois do jantar, se despediu de Clarissa e Ariadne e guardou em uma gaveta da filha o vestido que ela provavelmente nunca usaria, e que havia esquecido na cadeira em que estava onde o recebeu, pela tarde, na sala de estar.

*Klam, em tcheco, significa miragem.

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