Sobre música e desejo

A fenomenologia ensina que nossa atenção faz “recortes”. Destaca certas figuras de um fundo indiferenciado, por exemplo. Não terá essa afirmação um valor musicológico? Afinal, há na música erudita, sobretudo em seu período clássico, toda uma agenda de elementos mobilizados como um meio para que uma linha melódica, protagonista, se destaque desse fundo indiferenciado.

É o que parece acontecer na vida: a vida não pode obedecer o que Milan Kundera, em seu A arte do romance e em homenagem à Leos Janacek, chama de “Imperativo Janacekiano”, onde “só o que é essencial tem o direito de existir”. Para Kundera, Janacek supera o paradigma da música que se dobra sobre notas inúteis, que preenchem espaços mas “nada nos dizem”. Para nossa tristeza – e provavelmente para a tristeza de Arthur Schopenhauer, que pode ter feito o que foi o maior elogio filosófico da música – o plano da mera existência não é preenchido senão por uma densa massa de elementos coadjuvantes, contingentes, inessenciais, mera combinação de coisas genéricas que fazem o papel de fundo daquilo que recortamos quando narramos a vida. Acho que Schopenhauer entende a música como uma espécie de “atalho”, que nos faz sentir de modo imediato aquilo para o que a vida não é senão um meio imperfeito, isso é, o acesso à certos sentimentos. E Schopenhauer ainda vai além: ao nos permitir o acesso a tais afetos pela via estética, estamos em uma experiência quase mística, descolados da dimensão “material”, “física”, “carnal”, onde o que nos define é a torturante experiência do desejo – esse demônio que turva nossa percepção e nos revela que o objeto, quando obtido (ou seja, o desejo quando realizado), não era aquele que desejamos: por sorte ou azar, nossa ilusão se dissolve quando o desejo se realiza e percebemos que era o desejo o responsável pelos predicados que tornavam o objeto aparentemente desejável.

Qual seria a verdadeira o modo mais apropriado de vivenciar o desejo então, senão como o meio de experimentar certos afetos, sentimentos, emoções?

Bem, se o desejo é essa estrutura suicida, autodestrutiva e condenada ao fracasso, na música temos o meio de acesso privilegiado àquilo que supomos querer. Os sentimentos sempre foram o fim, os objetos sempre foram meios. A música nos dá diretamente os sentimentos que buscamos de modo confuso e desastrado nas aventuras da mera existência.

Janáček

PS: se a especulação de Kundera tem alguma verdade, bem, Janacek – na esteira de Beethoven – faz exatamente o que a música deve fazer: ir direto ao essencial, sem rodeios. Realiza a música perfeita, que nos dá o que realmente queremos mesmo que, de imediato, não saibamos.

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Excertos do subsolo – Sobre universais e prateleiras

Sentada à sombra de um guarda-sol na areia de uma praia qualquer, Clarissa ouvia mais do que falava enquanto Ariadne comentava sobre a beleza ou feiura dos corpos masculinos. Para tentar entrar entrar no espírito da brincadeira, teceu um comentário sobre um rapaz aleatório, um pouco magro e alto demais e um tanto desajeitado. Ariadne imediatamente retorquiu:

– Aquele menino? Certamente você é a única a olhar para ele nessa praia inteira.

Clarissa não saberia explicar, mas aquela frase encheu seu peito de uma estranha felicidade. Continuou olhando para o rapaz e desejou saber se existiam outros “como ele”. Esperava que não. Esperava que ele fosse, de fato, especial e único como já passava, discretamente, a se-lo em sua fantasia. Só interrompeu tal fantasia quanto refletiu e percebeu que estava fantasiando. Clarissa já sabia que era desse misto de fantasia e embriaguez, que era desse descuido que nascia aquilo que todos chamavam de amor.

O que Clarissa não nota é que esse desejo por um objeto único e especial já se manifestava em sua mais tenra infância. Como ela não teve lembranças da própria infância durante boa parte de sua juventude, não se lembrava do episódio em que, entrando com seu pai em uma loja de brinquedos, viu uma prateleira com dezenas de bonecas iguais àquela tão especial e única – que batizou de Melody – que seu pai lhe dera semanas antes. Na ocasião, Clarissa gritou em pânico diante da prateleira cheia de exemplares idênticos à sua amada boneca. Teve de ser levada para fora da loja nos braços por seu pai. Chegando em casa, a primeira coisa que Clarissa fez foi, chorando, jogar sua boneca no lixo depois de olhar para ela uma última vez, por vários minutos, em lágrimas e franca mágoa. Seu pai, em silêncio, observava e compreendia exatamente o que estava acontecendo. O que ele não previu foi que a partir daquele dia Clarissa carregaria para sempre aquele semblante melancólico e distante, de alguém que passa a maior parte do tempo procurando ou esperando algo especial e único, que jamais chegará.

Ora, acaso alguém vive de modo diferente de Clarissa? Não é a tragédia humana esperar e querer sempre o que não está presente? Aliás, ao invés de trágico, não será justamente esse aspecto do nosso eterno desejar uma das coisas mais triviais sobre a condição humana? Evidentemente que sim. Mas Clarissa, desde muito cedo, mostrou que tinha dificuldades em se deixar enganar.

(A capacidade de enganar a si mesmo é a mesma capacidade de crer e, assim, dela depende nossa capacidade de amar. Se Clarissa fracassava no amor era sobretudo porque sempre percebia muito rápido suas emoções, sem se deixar sequestrar por elas. Por não conseguir crer, sentia tudo pela metade, inclusive o amor.)

Pouco antes do colapso mental de Clarissa, a menina se viu dominava por um asco que se estendeu sistematicamente à todos os universais. Começou não conseguindo mais ir ao supermercado: tinha pânico das prateleiras, da produção em massa. Não tardou para o pânico se estender às palavras: desejava poder criar suas próprias palavras. Não poderia dividi-las com ninguém, porém, e sentia que dessa forma tal linguagem era impossível. Montserrat, seu psicanalista, supôs que o o colapso mental de Clarissa tinha sido disparado quando Clarissa notou que as cores, aromas, texturas e tudo o que percebia eram, também, universais. Clarissa teria percebido que tudo era público, nada era seu. Teria então se sentido como se aquele mundo fosse obra de um demiurgo fordista e preguiçoso. Montserrat supunha que a mente de Clarissa, em choque, teria fugido para as próprias trevas interiores quando, tomada de asco de toda a matéria da vida consciente, percebeu que não existia absolutamente nada singular e especial no universo.

Muitos anos se passaram desde então e hoje Clarissa não tem mais nenhum asco patológico e nem sequer mais do que meras lembranças fugidias daquele período. Contudo, ela mesma não parece notar a dificuldade que sente em diferenciar as pessoas, coisas e lugares, seja na percepção ou na memória. Ariadne elogia o peito desse rapaz, o traseiro daquele outro, o modo de caminhar de um terceiro, e Clarissa tenta acompanhar as indicações e descrições da amiga, mas isso lhe cansa a mente. Como não cansaria? Diante do tipo de diferença que ela espera e que lhe foi proibida desde a infância, aquelas que Ariadne elenca distraidamente são pequenas demais, superficiais demais, parecidas demais. Para tentar interromper o fluxo de atenção que Ariadne exige, Clarissa pede licença à amiga e vai até um quiosque buscar uma bebida.

De longe, Clarissa olha para a praia. Há anos seu semblante melancólico povoa minha imaginação. Hoje, finalmente entrevejo parte do que a entristece de forma tão constante. Invisível, a vejo de perto e aprecio o vento que faz balançarem seus cabelos enquanto seus olhos perscrutam o presente a procura do ausente. Entendo Clarissa e sei como ela suporta viver: já que não se pode trocar de alma nem de mundo, é preciso ceder e aceitar a supremacia do comum sobre o especial, do inessencial sobre o essencial. Talvez essa seja a sina de Clarissa, nascida para ser única e educada para ser especial. Talvez seja um capricho da menina-do-papai insistir em querer um mundo que não pode existir. Contudo, ainda consigo ver nos olhos tristes dessa menina imaginada o eco do choro da criança que muito cedo percebia que este mundo é o mundo do comum e da cópia, da cópia e do vulgar, da imitação, do inessencial, do contingente. Daquilo que é, no fundo, sem razão de ser.

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“Se eu quisesse que você fosse como eu…” – um diálogo em ‘House, M.D.’

– “Noradrenalina e as experiências quase-morte.” Meu Deus. Você viu Deus?
– Ela viu. Ela quer voltar ao monastério.
– Então você está preparando uma apresentação de PowerPoint para mantê-la em seu jardim de delícias. Você é um idiota.
– Por eu ter encontrado alguém que eu amo?
– Porque você é um idiota. Ao menos os dois têm isso em comum. Sentimentos baseados em um processo químico. Você acabou de dormir com ela. Seu cérebro está explodindo com ocitocina. Acha que isso irá durar por anos?
– Ela está jogando a vida fora por uma fé cega.
– Assim como você! Ela achou algo para construir a vida dela. É uma ilusão, mas parece que ela aceitará uma leve ignorância. E você quer tirar isso dela?
– Quantas vezes você jogou a verdade na cara das pessoas?
– Porque é a verdade, não porque viverão felizes para sempre. Ou o seu relacionamento acaba como qualquer outro romance sem magia, ou ela fica com você mas o culpa por retirar o significado da vida dela.
– Isso não tem nada a ver com a verdade. Você não gosta de eu estar reavaliando minha vida. Que eu quero mudá-la, que eu posso mudá-la.
– Qualquer um pode bagunçar uma vida. Eu nunca disse que não fosse possível.
– Você é incapaz de uma conexão humana, então quer que todos sejam como você.
– Se eu quisesse que você fosse como eu… Eu estaria insistindo que você fizesse uma estúpida e teimosa decisão que estragará a sua vida e o deixará sozinho e infeliz. Você reavalia a sua vida quando você comete erros. Você não cometeu.

House and Chase12º episódio da 8ª temporada. Imagem meramente ilustrativa.

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Excertos do Subsolo – Klam*

Era dia de São Valentim quando, por acaso, o pai de Clarissa encontrou as cartas da filha guardadas em uma caixa esquecida em um fundo de porão. Sentou-se e, por mais de uma hora, leu mais de uma dezena de cartas da filha. Datavam dos primeiros dias em que se conheceram, o que já fazia então muito tempo. E a cada nova carta lida novamente, mais o pai de Clarissa percebia o quanto, sem que ele tivesse percebido, sua filha havia mudado.

abbiecornishQuando Clarissa conheceu seu pai, tinha menos de 15 anos e um problema sério de amnésia. Assim, Clarissa não tinha exatamente uma identidade, mas no máximo um temperamento e uma difusa orientação de como devia se comportar no mundo. Sua doçura e ingenuidade a tornavam algo próximo de uma personagem arquetípica saída diretamente de um conto de fadas. Incapaz de mentir, incapaz de odiar, Clarissa sempre agia segundo um forte senso de dever e se encantava facilmente com as pequenas belezas da vida. Como ninguém sabia de onde ela tinha vindo ou com quem havia aprendido a ser assim, atribuíam tal doçura e ingenuidade à sua alma pura, seu bom caráter, sua luminosa essência.

Curiosamente, o drama da vida de Clarissa nesses dias não era muito diferente do drama da vida de cada um de nós. Afinal, somos todos herdeiros de um vasto manancial de crenças, valores e gestos dos quais nos apropriaremos, sem perceber, de um pequeno repertório. Assim, se rimos muito alto em público, acreditamos em justiça cósmica ou se costumamos distribuir esmolas, tudo isso aponta diretamente para uma época de sonâmbula formação da personalidade. Nesse sentido, não estamos melhores que Clarissa, que padecia de amnésia: não sabemos rastrear muito bem quando ou onde nos apropriamos daqueles traços que nos definem. E se Clarissa era doce, nesse momento era impossível detectar se o era porque era sua “essência” ou se esse repertório de gestos e essa visão foi assumido por puro instinto de sobrevivência. Afinal, para alguém sem memória, a sociedade é perigosa como uma selva.

A experiência de passar muito tempo longe de uma pessoa pode causar uma estarrecedoraAbbie_Cornish tomada de consciência: aquela pessoa que conhecemos não existe mais. Seja em fotos, cartas ou simplesmente na memória, aqueles que conhecemos no passado permanecerão lá, habitando sonhos e lembranças, em um mundo desaparecido para sempre, substituídos por variações distorcidas daquelas pessoas que esperávamos reencontrar. O choque dessa tomada de consciência será sempre tão forte quanto for importante aquilo que se perdeu e deu lugar à outra coisa. A experiência do pai de Clarissa, contudo, foi oposta a essa: passou tanto tempo ao lado de Clarissa que não percebeu que, traço a traço, ela havia se transformado lentamente em outra pessoa.

Ler as cartas da filha para ele fez com que, ao final da leitura, o pai de Clarissa constatasse melancolicamente: a menina que ele havia amado tanto não existia mais. O pai de Clarissa percebeu, não sem tristeza, que o amor que ele ainda investia sobre a mulher que a filha havia se tornado se endereçava na verdade àquela menina que ela um dia fora, e que estava soterrada e esquecida sob as diversas camadas de vivências que ajudaram Clarissa a se tornar uma pessoa de verdade. Com um sorriso amargo e balançando negativamente a cabeça, com as cartas ainda em mãos, o pai de Clarissa constatava: a filha que ele amara talvez tenha existido apenas em sua fantasia.

somersaultEnquanto pensava nisso, ouvia Clarissa chegar em casa acompanhada de alguém. Falava alto e ria de uma forma que, percebia agora seu pai, seria impensável àquela menina que ele conhecera. Porém, como a história de Clarissa começa com sua condição amnésica, é preciso notar que todos os traços assumidos pela menina naqueles dias eram sim traços provisórios como os gestos desajeitados de uma criança que aprende a andar. Fosse qual fosse a “verdadeira natureza” de Clarissa, essa se revelava com o tempo. Ouvindo Clarissa ligar o rádio e cantar junto com a música, seu pai percebia: havia amado, durante todo esse tempo, uma nuvem de gestos provisórios e apavorados. Uma nuvem que se dissipou com o tempo. Era pior do que amar alguém que não existia mais: com as cartas de Clarissa na mão e a voz da filha vindo da sala junto com uma música bastante ruim, o pai de Clarissa percebeu: amou sim, por muito tempo, alguém que nunca existiu – ou que quase existiu. Amou uma miragem.

Guardou as cartas na caixa e, com o mesmo meio-sorriso amargo e resignado, pegou o pacote do presente que havia comprado para a filha. Subiu as escadas e a encontrou sentada à mesa da sala de estar com sua amiga Ariadne. Tomavam um drinque à base de vodca e o sol as iluminava através das janelas. Clarissa estava – como seu pai sempre achou – linda. Cumprimentou ambas e entregou o presente para a filha. Ela agradeceu e quando abriu foi inevitável para seu pai perceber o misto de ternura e compaixão de Clarissa que, evidentemente, não havia considerado aquele o presente mais adequado: um delicado vestido, parecidíssimo com os que ela usava quando tinha catorze anos e nenhuma noção de quem era ou do que gostava, mas apenas do que devia fazer para ser razoável e aceitável entre seus pares. Agradeceu o pai com um beijo e um abraço. Combinaram de jantar juntos. Depois Clarissa e Ariadne iriam à uma boate com alguns amigos.

Não costumo pensar em Clarissa dessa forma. Assim, não sei bem onde vai e o que vai fazer seu pai quando se despede das jovens na sala de estar. Vejo-o fumando sucessivos cigarros enquanto caminha lentamente em um parque, observando os transeuntes. Nessa tarde seu coração será assaltado por uma ligeira sensação de arrependimento. A rigor, o pai de Clarissa não acredita – e ensinou isso à filha – que o arrependimento deva ser cultivado, na medida em que tudo o que foi vivido foi necessário para que tenhamos nos tornado quem somos no presente. “Quem se arrepende”, ele diz, “não suporta a si mesmo”. Contudo, nessa tarde ele não consegue evitar a pequena e risonha decepção que sente com relação à si mesmo por ter se deixado se enganar por tanto tempo. Pela noite, depois do jantar, se despediu de Clarissa e Ariadne e guardou em uma gaveta da filha o vestido que ela provavelmente nunca usaria, e que havia esquecido na cadeira em que estava onde o recebeu, pela tarde, na sala de estar.

*Klam, em tcheco, significa miragem.

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Excertos do Subsolo – Os olhos tristes de Estela (revisitado)

Da última vez que falei de Clarissa e daqueles que a circundam, entreguei minha chave de leitura de meus próprios personagens. Embora as definições apresentadas possam ser consideradas provisórias e parciais, penso que foram mais ou menos adequadas para seus propósitos. Arrisco tais definições sem muito receio ou pudor: mesmo sabendo que o conceito engessa e eventualmente empobrece a narração, só muita pretensão intelectual permite que aquele que escreve se envolva voluntariamente em um ar de mistério.

Volto a falar de Clarissa para falar de uma época bastante especial de sua vida: a época em que teve que dividir a atenção de seu pai com sua irmã, Estela.

Como se sabe, Clarissa era a queridinha do papai. Perdoada desde o princípio pelo que quer que fizesse, Clarissa estava sempre certa. Estela, por sua vez, obcecada pela ideia de que sem o amor do pai ela mesma seria uma pessoa incompleta, fazia tudo para agradar o pai. Imitava-lhe os gestos e gostos. Supunha estar, dessa forma, agindo da maneira mais adequada para ganhar o amor do pai. Ou, para ser mais preciso: supunha, com sua jornada, estar se tornando merecedora desse amor. Eis a triste armadilha na qual havia caído Estela: ao perseguir o mérito, sua ação deixava de ser espontânea, natural, autêntica. Tornava-se o simulacro de uma conduta que lhe caía mal como uma roupa pouco ajustada às suas formas. Ao repetir gestos que não compreendia, se tornava um personagem caricato, risível, enfadonho. Perdia para Clarissa, assim, todos os dias, um pouco mais do terreno que desejava no coração de seu pai.

Clarissa, por sua vez, vivia triste. Mas também vivia feliz. O que não é nem um pouco contraditório: a oscilação de humor é não raro o sinal de superabundância de vida e esse era precisamente o caso de Clarissa. Da expressão mais taciturna e do olhar mais perdido no próprio interior, Clarissa conseguia ir para a euforia mais pura em um simples instante. Ou o contrário: estava absolutamente eufórica entre amigos e se recolhia em ares soturnos diante de qualquer visão – ou mesmo pensamento – sombrio que lhe surgisse. Tal espontaneidade irritava profundamente Estela: quatro anos mais velha que sua irmã, não raro dizia a quem pudesse ouvir que Clarissa era dissimulada e que fingia uma espontaneidade calculada só para ganhar o amor do pai. Queria acreditar nisso e quase conseguia, embora não poucas vezes constatasse, com a cabeça no travesseiro, que projetava sua própria conduta no juízo que fazia sobre o comportamento de Clarissa. Como o sonho da vida de Estela era agradar seu próprio pai, porém, conseguia, com raro sucesso entre os mortais, se enganar por longos períodos: se convencia do próprio valor e se perdia, mais e mais, no próprio personagem. Emulava para si mesma a tristeza que supunha dever sentir para tentar ser quem achava que devia.

Esse período da vida das irmãs foi também o período em que Alex teve de conviver com as duas. E por mais honestas e sinceras que fossem as atitudes e os pensamentos de Alex para consigo mesmo, não foi capaz de resistir à tentação de salvar Clarissa da má influência de seu pai. E embora fosse Estela que estivesse sob a tutela de Alex naqueles dias, era Clarissa que ocupava seus pensamentos. O que Alex não percebia acerca de si mesmo era a própria fragilidade na qual ele mesmo se encontrava. Foi por essa razão que ele mesmo não foi capaz de perceber a profunda compaixão que Clarissa lhe destinou, um misto de reconhecimento do valor de Alex com a própria carência, impossível de ser sanada pelo amor do pai. Assim, foi em um dia ensolarado e inofensivo em seu café-tabacaria, que Alex tentou, pela única vez, enfrentar o pai de Clarissa. Pelo bem das duas irmãs.

Alex, em um fim de tarde que deveria ser como qualquer outro, arrumava as mesas de seu café-tabacaria – que eram também tabuleiros de xadrez – para acomodar o torneio que promovia semanalmente. Com a paciência e a displicência de alguém que tem todo o tempo do mundo, arrumava pessoalmente as trinta e duas peças em cada uma das mesas, enquanto pedia licença para os frequentadores ali colocados dirigirem-se, por gentileza, ao balcão. Aconteceriam doze jogos simultâneos, e provavelmente o torneio transcorreria até a madrugada. Ele próprio estava entusiasmado para jogar e, enquanto arrumava a mesa central, pensou que desmaiaria – antes: pensou que sonhava, que aquilo não estava acontecendo – quando vislumbrou o rosto cínico do pai de Clarissa conduzindo Estela pelo café-tabacaria, em sua direção.

Foi apresentado, pelo pai de Clarissa, para Estela. No olhar da moça se via que algo estava diferente: não reconhecia Alex, como se nunca o tivesse visto. Estela supostamente desejava um emprego. Era, sem dúvida, verdade: cumprimentou Alex com beijos no rosto que expressavam absoluto esquecimento de seu rosto, de sua pessoa. Alex chamou uma de suas funcionárias para atender Estela enquanto fitava, atônito, o pai de Clarissa em sua expressão irônica de vitória. Sentaram-se à uma mesa, sem romper os olhares mútuos. Com naturalidade, o pai de Clarissa tirou a caixa de peças de xadrez da mão de Alex e começou a postar as peças no tabuleiro. As brancas para Alex, as pretas para ele próprio.

– Sei que você prefere jogar com as pretas, Alex.

– O que significa isso? O que você fez com Estela?

– Você não me considera um monstro, um corruptor? Eis sua única oportunidade de provar para mim que eu pratiquei ou pratico o que você chama de “mal”. Não vejo desafio mais interessante do que esse. Embora, infelizmente, você vá fracassar. Eu já venci.

– Eu odeio você.

– Não odeia. Mesmo que odiasse, logo deixaria de odiar. Sou tudo que você tem.

Alex moveu o peão de sua dama para a quarta casa da coluna da dama. O pai de Clarissa respondeu o movimento movendo o cavalo do rei para a terceira casa na coluna do bispo. Acendeu um charuto.

– Diga-me, Alex… Quantas vezes por dia você tem pensado em “jogar com as pretas”? – Viu então o peão do bispo da dama branca ir para a quarta casa desta coluna.

– Muitas. Mas sempre chego a conclusão de que é preferível ter, a cada ocasião, a liberdade de escolher as peças com que se pretende jogar. – O peão do rei do pai de Clarissa ocupou então a quarta casa da coluna do rei negro. Moveu então, certamente de modo apressado o peão da dama para a quinta casa desta coluna, ao que o pai de Clarissa responde antes com um sorriso do que com um movimento. Deu mais uma tragada em seu charuto.

– Você mesmo não acredita no que está dizendo, Alex, e sabe que não acredita. Tem, mais do que nunca, dois caminhos: pode envenenar aquela que pode ser o amor de sua vida com os valores que você pensa que tem e segundo os quais você pensa que age. Pode, no entanto, fazer dela sua porta para a verdadeira liberdade. Sua e dela própria. – Bispo do rei na quarta casa do bispo da dama negra e uma nuvem de fumaça dissipando-se lentamente em torno do pai de Clarissa.

– E por que justamente minha ideia do que é a liberdade é que está errada? Em minha opinião, você corrompe, destrói e suja tudo aquilo em que toca, e sabe que o faz. – O bispo da dama das brancas vai à quinta casa da coluna do cavalo do rei. O cavalo negro está pregado pelo bispo, não pode sair dali à custa da dama. Mas é justamente a peça que o pai de Clarissa move, entregando a dama ao próximo movimento do bispo. Move seu cavalo negro para a quinta casa da coluna do rei. E assiste a captura precipitada da própria dama pelo bispo branco.

– Sabe como eu meço o valor de minhas ideias quando lido com você, Alex? Pelo sucesso de minhas ações. – O bispo negro ataca o peão do bispo do rei branco. Protegido pelo cavalo. Xeque-mate. – E é uma maneira bastante errada de pensar. Mas seria saudável para essa sua alma ingênua sair dessa fantástica jornada de busca por merecimento em que você está metido há tanto tempo. Salvei Estela dessa fantasia, como você vê, mas sobretudo porque ela havia se tornado um enfado para mim.

Alex olhava o tabuleiro com um misto de tristeza e ódio. Reproduzia, sem saber, o mesmo sentimento que Estela tinha por Clarissa cada vez que essa vencia sem saber as pequenas batalhas diárias pelo coração de seu pai. Tinha vontade de esmurrar a cara do pai de Clarissa, abrir sua garganta com uma faca, descarregar uma arma em seu peito. Não, não: se o matasse, a derrota seria perpétua. Tinha vontade de machucar, torturar, levar o pai de Clarissa à uma agonia na qual ele pedisse perdão por tudo o que havia feito. Foi desperto de seu delírio de ódio pela risada do pai de Clarissa.

– A vida de Estela é sua agora, Alex. – Disse o pai de Clarissa levantando-se. – Mas principalmente, sua vida é sua. E não minta a si mesmo fingindo que o fato de ter todo o tempo do mundo o liberta da própria liberdade: esperar já é decidir, você sabe. Nada seria capaz de silenciar o mal-estar de que somos feitos.

O pai de Clarissa deixou, então, Alex sozinho sentado ao tabuleiro. Ao lado, a dama negra e um mero peão branco, um simples peão. Sentada ao balcão, com um cigarro entre os dedos, uma xícara de café e um livro aberto: lá estava Estela. Estela e seus olhos, infinita e eternamente tristes. Tristes como sempre pareceram. Tristes como ela sabia que devia parecer para poder merecer amor e, assim, ser alguém. Tristes como ela acabava de redescobrir que devia parecer. Parecendo tristes como mil vezes pareceriam se ela tivesse mil chances…

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Acordo e desacordo, silêncio e amor

O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além de nossa compreensão e experiência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.

– Milan Kundera

Essa passagem retirada d’A Insustentável leveza do ser me oferece uma chave de leitura não apenas para a história da filosofia como também para a própria condição humana. Como alguém que se ocupa de filosofia, parece tentador separar os protagonistas da história da filosofia nessas duas classes. Como alguém que se ocupa de existencialismo, é duplamente tentador dizer que aqueles que aderem a condição humana flertam com a má-fé. Porém, como alguém que vê a existência como a oportunidade para uma jornada de (auto)conhecimento, é absolutamente tentador dizer que para aprender o que seja a existência faz-se mister primeiro aceita-la como ela é. Eis uma de minhas aporias, uma de minhas antinomias teóricas cuja tomada de posição reverbera inevitavelmente no campo da prática, mesmo que de modo meramente interior.

Alguns pensadores sugeriram fortemente que nossa dignidade humana está vinculada ao pensamento, à liberdade. Pensar com eles é pensar em uma esteira que nos separa definitivamente da natureza, da animalidade, da totalidade do universo. Outros sugerem que a existência só é plenamente vivida quando se compreende o próprio lugar em um sistema integrado de entidades das quais não somos tão diferentes pelo mero fato de sermos autoconscientes. Os primeiros são pais severos que, eventualmente, desejarão que imitemos a beatitude etérea dos anjos. Os segundos podem não raro se apresentar como expressões do arquétipo do “sábio”, caro às filosofias orientais, nos sugerindo humildade e serenidade diante da natureza de todas as coisas. Os primeiros nos convidam à purificação das intenções e ao merecimento de uma bem-aventurança que os segundos sugerem que deve ser experimentada de forma concreta e sublunar. Haverá como sintetizar posições tão diametralmente opostas? Haverá como integrar o ser humano livre, digno, pensante e espiritual em uma grande cadeia de entidades que obedecem as mesmas regras, mesmo que estas se tornem setorialmente tão distintas e complexas que pareçam outras? O próprio desejo de sintetizar tais posições em uma só não nos joga imediatamente no segundo grupo dos pensadores, que desejam nos ensinar como participar da totalidade?

Não acho que tais questões tenham uma resposta teórica, mas talvez prática. Acho que a assunção de uma ou outra posição diz mais sobre o tipo de pessoa – filósofo ou não – que assume tal posição do que sobre a verdade ou falsidade da posição assumida. Creio mesmo que o pensamento especulativo não tem condições de responder tais questões, e que uma espécie de silêncio interior sobre tais questões seria a única atitude legítima para com elas. Acho que tal silêncio – místico – é um ponto de intersecção real entre esses dois compromissos possíveis, pois só através de um silêncio desse tipo tais compromissos metafísicos podem esmaecer em posições meramente metodológicas. Só através de um sincero silêncio – acompanhado ou não de fé verdadeira ou apostas de Pascal – sobre as questões maiores se torna possível um compromisso com o mundo sublunar no qual a existência se dá, onde as atitudes podem se purificar e se tornarem autênticas.

Apelar para o silêncio é apelar para uma subcategoria do absurdo: o pensamento, humildemente, se recolhe diante das questões magnas. Mas o silêncio não é a única subcategoria do absurdo que me é cara. Penso que outra se faz necessária para que o silêncio não se torne uma fuga niilista do que há de mais essencial de nossa condição. Essa outra subcategoria do absurdo é o amor.

Aqui eu silencio, porém. Qualquer teorização sobre o amor no último dia de um ano corre o sério risco de se tornar melodramática, cafona, kitsch. Deixo o apelo para que tal categoria seja assumida na existência, vivida nos atos e no dia-a-dia. Um apelo que conta com a quase-certeza de que tal conceito faz vibrar um acorde específico em cada coração. Sem ousar explorar quais seriam os pressupostos teóricos da possibilidade – ou impossibilidade – de tal experiência na vida intersubjetiva e social de cada um, desejo que essa experiência não falte à nenhum dos meus seis ou sete leitores.

Feliz 2015.

Le_Saut_Dans_le_Vide

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Esboço de uma fenomenologia do sentimento ‘kitsch’

Se há um tópico no qual acho que Jean-Paul Sartre é interessantíssimo – mais interessante do que talvez correto – é nas suas descrições psicológico-fenomenológicas dos sentimentos e emoções. Quando fala de fenômenos como a tristeza, Sartre é brilhante em emparelhar a vivência das emoções e dos sentimentos com a representação cômica dos mesmos. Um sentimento vivido e um sentimento fingido são, segundo ele, quase indistinguíveis.

Pessoas que tem muita estima pela imagem que fazem de si mesmas (e isso inclui aquelas vaidosas condutas de auto-depreciação) são geralmente bem-sucedidas na prática daquilo que Sartre chama de “reflexão cúmplice”: refletem sempre a favor de si mesmas, incorrendo em inescapável má-fé. Criam aquilo que precisam sem se dar conta disso. Produzem, pela reflexão e em série, aquilo que for necessário para a manutenção da própria auto-imagem. Isso inclui a supervalorização da vida interior.

E é aí que entra Milan Kundera.

Kundera usa o termo kitsch para se referir ao paradigma de mau-gosto que cria todo um imaginário e simbolismo estético totalmente artificiais, baseado em uma imitação sentimentalista da vida que, para ele, instaura uma ditadura do coração: em nome do que “sentem”, pessoas e grupos são capazes de fazer qualquer coisa.

Ora, o sentimentalismo kitsch é um solo fértil para tomadas de posição irracionais, fundamentadas no injustificável e com um perigoso efeito colateral: como os sentimentos são aquilo que confere o reconhecimento de si desejado pelo sujeito que os vive/encena, nenhum tipo de experiência proporcionará uma “tomada de consciência” até que o sujeito deseje libertar a própria reflexão da cumplicidade e da conveniência necessárias para a manutenção da auto-imagem. O sentimentalista kitsch não sentirá culpa, pudor ou vergonha de tomar posições e atitudes que poderão ir do meramente patético ao monstruoso. O sentimentalismo kitsch pode ser usado para ler Álvares de Azevedo, a história de Abraão e seu filho ou a biografia de Stalin.

Voltando a Sartre, penso que ele pode ser positivo no seguinte sentido: ao nos informar que nossas vivências emocionais são feitas da mesma matéria da qual seria feita uma encenação cômica das mesmas, Sartre nos coloca um espelho límpido diante de nós cada vez que sentimos a emoção nos “tomar passivamente”. Somos responsáveis pela comédia. Como se uma voz na consciência perguntasse: você precisa mesmo representar essa comédia? Você quer mesmo acreditar nesses sentimentos patéticos? Você precisa desse gestual exagerado e desse vocabulário quase litúrgico, que torna sagrada sua vaidosa, narcísica tristeza? Sartre e Kundera nos ajudam a nos libertar desse vaidoso espelho sujo do sentimentalismo kitsch.

kitsch

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