Acabou.

Chega de ressentimento.

(Atualização para quem veio parar aqui e reclamou do fim, continuei por aqui, ainda que diferentemente e de maneira bem menos regular: https://ipseidadepura.home.blog/ )

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Os 90 anos e a atualidade de Milan Kundera

Hoje o romancista tcheco Milan Kundera completa seus 90 anos de idade. E como já li aqui e ali, é provável que não sejamos agraciados com uma manifestação pública desse autor que, há quase trinta anos, quase não se comunica com o mundo público exceto pela via dos seus romances. Conhecido por sua escrita carregada de digressões filosóficas e reflexões sobre o próprio ofício do romancista que não apenas permeiam seus romances mas aparecem reunidos em pelo menos quatro obras que reúnem seus ensaios, Kundera se tornou mundialmente conhecido nos anos 80, na ocasião da publicação de seu romance mais famoso, A insustentável leveza do ser – que recebeu mesmo uma adaptação cinematográfica com direção de Philip Kaufmann e atuações de Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin.
Os temas da prosa romanesca de Kundera estampam os títulos de seu romance: a brincadeira, o riso e o risível, o esquecimento, o adeus, a identidade, a insignificância, a leveza da existência. E se tais temas que comparecem nas capas de seus livros poderiam supor uma aproximação do autor com uma visão de mundo existencialista, a recepção de suas obras, porém, foi mais marcada por um outro elemento que perpassa suas narrativas: as consequências existenciais dos regimes totalitários. E se seu romance inaugural, A brincadeira, foi lançado antes da Primavera de Praga e de seu fim abrupto em agosto de 68, tudo se passa como se a realidade histórica oferecesse de forma cíclica e repetida a oportunidade de que a obra de Kundera funcione como observatório privilegiado dessa realidade. Não é nem um pouco casual que no início do ano em que comemora seu 90º aniversário, Kundera tenha emprestado seu nome a uma lista de intelectuais europeus que, através de um manifesto, repudiaram os rumos políticos de uma Europa novamente e cada vez mais xenófoba, intolerante e autoritária.
Para Kundera, o romance é uma arte que nasce como que de um eco do riso de Deus que ri ao constatar o quanto a realidade escapa ao pensamento humano. Rabelais e Cervantes, nessa teologia kunderiana, seriam os grandes profetas de uma arte que, para o autor, é um dos grandes tesouros dos Tempos Modernos. E embora não raramente o romancista tcheco tenha sublinhado o caráter finito dos empreendimentos humanos e como esse caráter finito não poupará nem o romance e nem os próprios Tempos Modernos, há um outro tipo de ameaça que o autor reconhece como sendo capaz de matar, em sua raiz, o romance: o totalitarismo. Nesse sentido, Kundera afirma categoricamente que o romance já morreu muitas vezes e morrerá muitas mais: onde quer que o totalitarismo lance sua sombra, o espírito do romance se apaga e morre.
Para Kundera, a incompatibilidade entre a arte do romance e o totalitarismo é ontológica: na arte do romance reinam a incerteza e a ambiguidade. Os juízos morais se suspendem e a condição humana aparece em seu risível caráter de leveza, insignificância e acaso que nenhum valor poderá jamais mascarar completamente. No mundo do totalitarismo, a visão de mundo romanesca não é nada menos que proibida: há uma verdade e um conjunto de valores estabelecido desde e sempre e para sempre no mais puro, como diria Jean-Paul Sartre, espírito de seriedade.
Se o totalitarismo é o maior inimigo do romance, isso não significa que o afã progressista possa medrar no solo romanesco. Como um dos expedientes mais próprios da modernidade, a ideia de progresso também exige comprometimento, adesão e engajamento total por parte daqueles que a valorizam. Não é casual que o desejo de progresso tenha eventualmente se misturado de modo indiscernível com a forma totalitária da política: Mesmo a estética progressista – inseparável do kitsch e do sentimentalismo para o romancista tcheco – produz formas aberrantes que incidem sobre a arte do romance: da literatura engajada ao realismo socialista soviético, o romance conheceu suas formas bizarras correspondentes aos anseios daqueles que, segundo Nietzsche, pretendiam melhorar o mundo mesmo ao custo das mais indesejáveis consequências.
Kundera nunca gostou de ser visto como um autor político, embora sempre tenha sido significativamente lido nessa chave. Porém, em suas páginas encontramos algumas das mais ricas e vivas imagens dos aspectos existenciais da política e da História. Seus protagonistas são quase sempre antiheróis cujas visões de mundo sarcásticas, hedonistas ou meramente incompatíveis com a mentalidade ora progressista, ora totalitária do mundo moderno são simplesmente atropeladas pela avalanche das realidades que lhes tolhem o lugar que ocupavam no mundo e produzem cenários que lhes destituem de suas identidades e expectativas.
Leio e releio Milan Kundera há mais ou menos 15 anos. Porém, mais do que nunca, suas páginas me parecem urgentes e obrigatórias. Mesmo que tenham sido escritas no arco dos últimos cinquenta anos, os romances de Kundera são refúgios para todas aquelas pessoas que não experimentam um sentimento de enredo na trama da história moderna. Como atos comunicativos cifrados em chave romanesca de um emigrado para o qual a vida se tornou impossível em seu país natal, Kundera sugere que não está sozinho quem simplesmente não se reconhece nem se identifica nos sonhos do ocidente acerca de um mundo melhor. Sonhos que, não raramente, se realizam mesmo ao custo de tanques e coturnos.

Kundera na janela

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O tempo é o horizonte do ser?

Ler um texto clássico de filosofia de capa a capa é, paradoxalmente, uma tarefa tão necessária quanto eventualmente improvável no horizonte dos estudos de graduação em filosofia. Na medida em que a especialização profissionalizante tende a encontrar seu habitat natural no contexto dos estudos de pós-graduação, uma graduação em filosofia tende – se bem conduzida – a oferecer uma familiarização mais ampla e generalista acerca dos mais diversos domínios de questões filosóficas que, então, poderão ser percorridas nos túneis da pesquisa especializada. Assim, se é provável que o estudante seja instado a ler textos como O Príncipe de Maquiavel e atacar de maneira mais estratégica algumas partes de Leviatã de Thomas Hobbes, isto se dá mais em razão de certos limites, tanto de ordem antropológica (a vida é curta, os livros são longos) quanto institucionais (a graduação dura quatro anos, a leitura adequada de um “catatau” clássico pode bem ocupar um semestre inteiro). E digo tudo isso sem o menor interesse de alimentar quaisquer cantilenas acerca de sofrimentos psíquicos na pesquisa científica ou problemas estruturais da academia. Quero, pelo contrário, celebrar o fato de que apenas muito tarde tive a oportunidade de fazer uma dessas primeiras leituras, de capa a capa, de uma das obras mais decisivas e imponentes que o pensamento filosófico já produziu. Estou falando de Ser e Tempo, de Martin Heidegger.
Se falo em termos de “primeiras leituras” é em função da convicção de que a leitura que acabo de realizar certamente não está concluída pelo fato de que virei a última página do livro. Quem está mais ou menos familiarizado com a pesquisa em filosofia, letras, ciências sociais ou outras humanidades está também familiarizado com o fato de que não é nada incomum que certos livros sejam lidos por anos, décadas, por uma vida inteira de inesgotáveis consultas e pesquisas, alvos de intermináveis rabiscos, sublinhados e anotações que se sobrepõem e disputam espaço nas margens e orelhas das páginas. É assim que já antevejo o amarelamento das páginas de meu exemplar de Ser y Tiempo.
Optei pela leitura do exemplar em espanhol porque, como é de conhecimento dos leitores de Heidegger no Brasil, tanto a edição de Márcia de Sá Cavalcante Schuback quanto a de Fausto Castilho possuem suas polêmicas acerca de escolhas de tradução. Já tive exemplares dessas duas traduções, lançadas no Brasil pela editora Vozes, e em algum momento me desfiz delas. A opção pela tradução de Jorge Rivera, porém, não significará que estarei eximido, em consultas subsequentes, da comparação com outras traduções, da familiarização com certos termos do original alemão e da consulta aos dicionários de filosofia, pois esta parece ser uma das prerrogativas mais interessantes do texto de Heidegger: um cuidado meticuloso com a linguagem que vai além de meros melindres estilísticos ou semânticos. O cuidado de Heidegger com a linguagem tem um profundo sentido filosófico que, sabidamente, perpassa de diferentes formas sua obra na medida em que permanece uma preocupação constante deste filósofo.
Para quem não conhece o texto – eu mesmo não tinha senão realizado os ataques estratégico-predatórios a diferentes partes da obra – Ser e Tempo surge no seio da então nascente escola fenomenológica de filosofia, inaugurada por seu mestre Edmund Husserl, mas rapidamente extrapola os limites de uma reverberação meramente regional: considerada uma daquelas obras seminais do pensamento ocidental do século XX, é possível contar nos dedos os textos que se equiparam a Ser e Tempo em importância histórica. Tudo isso assim se passa porque desde suas páginas se torna possível vislumbrar uma reorganização no modo de pensar e fazer filosofia que encontra poucos pares em termos de estatura nos dois mil anos de existência da disciplina. Concebendo a origem do pensamento filosófico desde o âmbito originário da existência humana, Heidegger permite a realização do balanço de uma orientação de dois milênios de filosofia. Atentando para temas existenciais que jamais haviam sido considerados metodologicamente tão importantes para o pensamento filosófico, Heidegger abre uma senda de reflexões que açambarcam desde a angústia diante da morte e a decadência humana nos modos impessoais da existência cotidiana até aquelas tradicionalmente consideradas como mais metafisicamente decisivas, como a que preside a intenção de toda a obra: a relação entre ser e tempo.
Se a vulgata existencialista fez com que o pensamento de Heidegger assumisse tintas dramáticas – especialmente na França, onde Sartre produziu não apenas uma variação do pensamento de Heidegger na filosofia como também em seus romances e peças de teatro – a importância de Ser e Tempo no contexto da história da metafísica e do conhecimento ocidental tem uma dimensão significativamente mais formal, embora talvez não menos dramática. Ao incorporar na fenomenologia de Husserl elementos da tradição hermenêutica de inspiração diltheyana, Heidegger apresenta em Ser e Tempo nada menos do que uma proposta de reconfiguração da compreensão sobre o que seja o ser humano, o mundo e a relação do ser humano com o mundo. A reconfiguração dessa compreensão envolve, me parece, uma reconfiguração da compreensão acerca do que seja compreensão: se o grito hermenêutico de Dilthey no século XIX pretendia reivindicar para as ciências do espírito uma cientificidade capaz de arrostar as desde então vitoriosas e hegemônicas ciências naturais, essa pretensão tinha como conceito chave o conceito de compreensão como expediente específico das ciências do espírito. O entendimento duro ficava com a natureza enquanto a plasticidade do espírito humano não poderia senão ser captada pelas malhas da compreensão. Nesse sentido, a compreensão seria nada mais do que um tipo de conhecimento – e a hermenêutica uma epistemologia mais flexível.
A reconfiguração que Heidegger permite, em Ser e Tempo, da própria compreensão humana envolve, como já mencionei, uma nova compreensão sobre o que seja “compreensão”: de raiz existencial – e não meramente epistêmica -, a compreensão envolve simplesmente todo nosso trato e lida “prática” com o mundo. Todas as condutas e comportamentos presumem um nível existencial de compreensão que pode, eventualmente, ganhar suas elaborações discursivas – e, nesse sentido, eventualmente teóricas. Muito mais do que arrostar um modelo epistemológico, Heidegger arruma a casa e reorganiza as categorias da teoria e da prática, oferecendo um conceito de filosofia que se não se tornou hegemônico, certamente se tornou incontornável.
Não tenho a competência técnica para tratar da questão mais eminente e que preside a reflexão de Heidegger, a saber, as relações entre as categorias que dão título a obra. Porém, quando se concebe que esse texto lançado em 1927 está baseado na ideia de que “o tempo é o horizonte do ser” – e que, com isso, há a liberação de uma série de finitudes recalcadas ao longo de dois mil anos de uma tradição que não se furtou em eclipsar o tempo sob a eternidade e a finitude sob o infinito – fica a impressão de que Heidegger cumpriu um papel de profeta tardio, encontrando uma estrutura ontológica que já foi escondida nas engrenagens do mundo material, nas cavernas do mundo das sombras ou nas armações da própria mente humana mas que, depois de Ser e Tempo, não pode mais ser escondida. Leio Ser e Tempo e confirmo uma velha impressão: a de que o tempo é uma “besta desamarrada” por Martin Heidegger.

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80 anos de “A Náusea”

Para René Girard, uma obra romântica e não romanesca. Para Milan Kundera, uma aula de filosofia disfarçada de literatura e que roubou o lugar do Ferdydurke de Gombrowicz na história do romance. Para Alasdair MacIntyre, uma perversão imperdoável e tipicamente moderna do papel da narrativa na vida. Para François Hartog, um exemplo do regime de historicidade presentista que viria a vigir no século XXI. Para Galen Strawson, um livro que ilustra em partes o que é um personalidade episódica. Para Arthur Danto, uma exploração ficional do que seria uma visão de mundo inspirada na filosofia humeana. Para Gerd Bornheim, a variação existencialista do Discurso do método de Descartes. Para Philip Thody, um texto que traduz uma visão de mundo e a atmosfera de uma época. Para meu orientador de doutorado, uma possibilidade de ver em Sartre um místico do nada. Para o próprio autor, originalmente se chamaria Melancolia. E para mim, um pouco disso tudo é A Náusea, de Jean-Paul Sartre, publicada há oitenta anos atrás.

A Náusea

Sartre ganhou o Nobel de literatura em 1964 por As Palavras, um texto significativamente amargo onde expõe e destrói publicamente sua imagem (e sua autoimagem) de escritor, em um revés completamente avesso ao espírito existencialista: apresentando uma compreensão da própria personalidade radicada nos primeiros anos de vida, Sartre narra e se narra em um viés pouco ou nada parecido com aquele proposto e consagrado nos textos da primeira fase de sua obra, marcada pelo método fenomenológico e por uma Weltanschauung existencialista. É verdade que Sartre recusou o prêmio. Porém, talvez o merecesse menos por esse libelo de autocrítica masoquista do que pelo romance que, ao lado de O Estrangeiro de Albert Camus, é talvez a obra literária mais estritamente existencialista que já se escreveu.

O fiapo de enredo é completamente voltado para o processo de desmoronamento do sentido do cotidiano do historiador Antoine Roquentin. No decurso da narrativa – composta na forma dos diários desse historiador – acompanhamos a odisseia solitária de um personagem que se torna, no decorrer de umas duzentas páginas, incapaz de comungar do sentido da existência prosaica dos seres humanos. Se no início da narrativa não temos condições de elaborar qualquer suspeita acerca de quais eram os desejos profundos e as motivações cotidianas do historiador, ao final do diário o que vemos são restos de uma personalidade desmoronada e incapaz de conviver, interagir e, no limite, de existir. A existência em seu estado puro é o que Roquentin experimenta desde que recebe a dádiva diabólica de experimentar o vácuo de sentido que existe sob as superfícies dos comportamentos humanos.

Há quem diga que o existencialismo migrou para uma visão ontológico-metafísica da realidade em função da desconfiança que a segunda guerra mundial causou no campo intelectual europeu. Nesse sentido, nada mais apropriado do que descrever a perda de sentido experimentada por um biógrafo-historiador que percebe que a única ocupação que tem é a de recriar a narrativa de um homem morto é o frágil disfarce da falta de sentido de sua própria existência singular. De fato, o que surge é uma personalidade que, na medida em que desmorona, parece mesmo preparar o terreno para o surgimento do Meursault de Camus – este, por sua vez, totalmente incapaz de experimentar qualquer tipo de motivação razoável. Sartre dramatiza uma condição que em Camus estará normalizada e em Beckett alcançará a apoteose da banalidade.

Embora tenha sido publicado meia década antes do que o colossal ensaio de ontologia fenomenológica intitulado O Ser e o Nada – este totalmente inscrito na tradição das sumas metafísicas desde que pesa cerca de um quilo de papel impresso – A Náusea pode ser vista como um espaço de interlúdio entre a existência inautêntica explorada no tratado de filosofia e uma existência eventualmente autêntica e provavelmente impossível de ser narrada, descrita ou talvez até mesmo conceituada. A experiência da náusea pela qual passa Roquentin é da ordem das grandes experiências existenciais – angústia, tédio, desespero, desamparo, melancolia – que podem ser vistas como o sucedâneo existencial das evidências intelectuais e sensíveis das filosofias modernas. Desde essas experiências reveladoras, capazes de pôr a nu os nervos estruturais da existência, se torna possível uma tomada de consciência desde a qual é possível a reorientação para um outro modo de compreender e experimentar a existência.

Talvez o valor literário da obra seja questionável. Mas se acompanhamos as ideias de Simone de Beauvoir em seu ensaio intitulado Literatura e metafísicaA Náusea realiza uma síntese necessária, a saber, aquela entre pensamento conceitual e narrativa ficcional. Se a filosofia faz uma elipse por fora do mundo concreto das existências singulares para poder aceder ao mundo dos universais conceituais, a narração ficcional faz uma elipse por fora da filosofia e recupera aspectos do âmbito originário desde o qual o pensamento é possível, isto é, a existência prosaica em sua finitude incontornável.

Já perdi as contas de quantas vezes li ou imagino que vou reler A Náusea. Penso porém que sua denúcia da má-fé e do autoengano da sociedade francesa da fictícia Bouville tornam o texto brutalmente atual. Por outro lado, a descrição de uma experiência existencial privilegiada desde a qual o sentido do prosaico se suspende atribui ao romance de Sartre um valor provavelmente perene – ainda que estejamos falando de perenidade na finitude, seja lá o que isso possa significar…

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Desejo, imitação e 89 anos de Milan Kundera

Domingo de páscoa e de aniversário do meu romancista e pensador preferido. Normalmente eu escreveria qualquer coisa sobre ele. Dessa vez, porém, vou colar aqui links para coisas que já escrevi, no ano passado, sobre Kundera, ainda que indiretamente: resenhas d’O livro da imitação e do desejo, de Trevor Merrill, sobre a exemplaridade da obra de Kundera para fins de observação da teoria do desejo mimético de René Girard. Uma das resenhas foi publicada no blog Miméticos e outra na revista Litterarius da Faculdade Palotina de Santa Maria. Seguem os links e vida longa à Milan Kundera.

No blog Miméticos aqui.

Na revista Litterarius aqui.

Não é fracasso não ultrapassar as próprias possibilidades

 

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“Quando Ninguém Educa”, de Ronai Rocha

O que acontece com o ensino quando o imperativo da desconstrução vem antes da ideia de transmissão da herança cultural? O que pode ser a própria escola quando um silêncio constrangedor acerca do currículo só é interrompido por sussurros de slogans tão simpáticos quanto vazios? Como é possível que o aspecto epistemológico da aprendizagem seja negligenciado em nome de valores e projetos que entendem a escola de forma tão distraída? Aliás, como é possível se estar tão distraído a ponto de, por assim dizer, “fugir ao tema da redação” e, por décadas, confundir um livro sobre política com um livro sobre escola? Essas e outras reflexões são oportunizadas pela leitura do lúcido e bem-humorado livro do professor Ronai Pires da Rocha, Quando Ninguém Educa, lançado pela editora Contexto.

capa_quando_ninguem_educa_webCom capa de garrafais letras vermelhas sob fundo escuro e subtitulado com a frase “Questionando Paulo Freire”, o livro parece prometer alguma repercussão mesmo que possa vir a ser alvo de algum silêncio estratégico que o próprio texto parece admitir como possibilidade de resposta na medida em que apresenta um panorama onde a discordância só parece emergir sob um fundo de concordâncias profundas. A promessa de repercussão parece de possível porque, por exemplo, no momento em que digito estas linhas, o livro já foi comentado na famigerada revista Veja. Se eu fosse o autor, já estaria temeroso – e quase convicto – de que o livro será lido de forma tão predatória quanto é predatória a leitura hegemônica da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.

O livro parece composto de algumas, digamos assim, “linhas melódicas” que se recombinam e se retroalimentam, se revezando nas funções de “figura e fundo”, como se fizesse um permanente “zoom in” e “zoom out” para depois mergulhar novamente em “zoom in”, revezando a montagem de um panorama com a análise mais minuciosa de cenários mais básicos. Em uma polifonia de análise de documentos, digressões, apresentações de ideias de autores e relatos de experiência pessoal, o professor Ronai Rocha passeia pelos escombros de uma realidade pedagógica que sofre de, como ele mesmo diz, “penúrias” e “misérias”. O esquecimento do currículo, a antipatia pela ideia de disciplinas, a demasiada politização do ensino, o privilégio da desconstrução sobre a transmissão e a negação do arendtiano caráter conservador da educação são alguns dos temas sobre os quais a pena do autor passeia.

Do ponto de vista da circulação do livro, o elemento que mais e melhor se presta para a publicidade e para a propaganda das 153 páginas que estão chegando pelo custo de aproximados 30 reais às livrarias do Brasil é, sem dúvida, o ataque ao maior ídolo do imaginário pedagógico brasileiro: Paulo Freire. Ou talvez, para fazer justiça ao texto e dizer melhor, o ataque ao modo como as ideias de Freire circularam nos contextos de cursos de Pedagogia, no vocabulário e no imaginário de quem “trabalha com educação” nas últimas décadas. Se eu tivesse que vender o livro, diria que o livro é sobre como profissionais do ensino “zerariam a redação por fuga do tema” ao aplicar de forma frenética o conceituário freireano ao ambiente escolar quando, na verdade, o livro versa sobre a postura da esquerda diante do dirigismo revolucionário no trato com as massas. Em suma, o elogio da horizontalidade no trato com as massas – donde sai o slogan freireano de que “ninguém educa ninguém”, alvo da brincadeira que dá título ao livro – diz respeito ao modo como proceder na dimensão do engajamento político. O livro, em suma, não é sobre escola – que não aparece senão uma meia dúzia de vezes em toda a Pedagogia do Oprimido.

Por ter sido aluno do professor Ronai Rocha no curso de filosofia da UFSM, não considero que eu tenha isenção suficiente para resenhar o livro sem poluir o comentário que faço com minha apreciação por sua reflexão, sobretudo em tempos onde o imperativo da crítica acaba eventualmente operando no vazio produzido pela primazia da própria crítica sobre o conteúdo. A despeito disso, o livro não é um livro de polêmica e denúncia, como se vê no capítulo sobre epistemologia, onde o professor Ronai Rocha explicita os pressupostos epistemológicos do ensino e da aprendizagem que são desde sempre impossibilitados por posturas que privilegiam justamente uma sociologia do conhecimento que, inspirada por sentimentos meio milenaristas, privilegia a desconstrução em ambientes onde ainda não há nada erigido. O autor, que há vinte anos lançava uma obra, cuja a atmosfera era a de um fim de tarde de outono, acerca da situação da universidade brasileira, retorna talvez para nos lembrar, a nós, professores, que se ninguém educa ninguém, não devemos ficar surpresos quando a falta de sentimentos de pertencimento, de enredo e de obra se tornam hegemônicos e criam sentimentos de inverno onde a mística do professor se torna, no presente, quando ninguém educa, um antipático anacronismo, uma espécie de capricho, uma imagem tão fria e conservadora quanto, em suma, a ideia de educação.

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Sobre Formação e Vocação

“A integração da filosofia nas Instituições Científicas está sofrendo uma degeneração. Ela entrou desarmada na competição das especializações. Os modelos do pensamento científico parecem ter esvaziado as perscrutações filosóficas. A máquina científica move-se nestes modelos, enquanto a filosofia os questiona e os despedaça pelo seu interrogar sempre mais longe. Por isso, o vácuo no qual foram sugados os pensadores. Além de caros demais, eles mesmos não vencem o complexo de serem incestuosos. Que fará a sociedade atual, tão segura de seus critérios de ‘relevância’, com estes virtuoses do ‘acessório’? Para que servirá, afinal de contas, uma atividade que, tantas vezes, se perde numa auto-reprodução da história de seu pensamento? E a quem ainda convence a desculpa de que a nobreza da filosofia consiste precisamente em ser um fim em si mesma?”

– Ernildo Stein, em 1976

“A quem não conseguir suportar virilmente o destino da nossa época há que dizer: Regresse, em silêncio, lhana e simplesmente, sem a habitual e pública propaganda dos renegados, aos amplos e compassivos braços das velhas Igrejas. Estas não lhe levantarão dificuldades.”

– Max Weber, em 1917

De 20 a 22 de junho de 2007 aconteceu, em um pequeno e bucólico vale na região central do Rio Grande do Sul, o III Simpósio Internacional de Filosofia. O evento reuniu profissionais e estudantes de filosofia e foi centrado numa temática intitulada “identidade pessoal e reconhecimento”. Vale Vêneto – o nome da localidade onde tal evento foi realizado – foi ocupada por três dias por gente que mexe com filosofia. Sob uma parceria realizada entre a Universidade Federal de Santa Maria e a Faculdade Palotina, o evento foi organizado, entre outras pessoas, pelos professores Robson Ramos dos Reis, da UFSM, e André Cremonezi, da FAPAS. Para alguns dos presentes (para mim, especialmente, que orbito em torno do tema da identidade pessoal mais ou menos desde essa ocasião) o episódio foi sem par. Para os citados organizadores, segundo relatos que chegaram até mim, parecia uma ocasião de consolidação de uma parceria, mesmo de um projeto de prazo mais longo. Mas, os ventos da mudança sopram muito acima das nossas expectativas e por diversas razões – que não caberiam num texto dessa dimensão e talvez exigissem um livro inteiro – aquela iniciativa não foi continuada.

Hoje é sábado, 27 de maio de 2017. Estou em Santa Maria, em um dia chuvoso e frio. Em Vale Vêneto, nesse momento, estão os professores Robson Ramos dos Reis e André Cremonezi. Mais ou menos como há dez anos atrás.

A configuração dos elementos, porém, hoje, é totalmente outra. O professor André Cremonezi já não trabalha na FAPAS – onde eu, atualmente, leciono – mas no Instituto Federal do Paraná, em Curitiba. E do IFPR o professor Cremonezi trouxe um grupo de voluntariosas pessoas, entre colegas, alunos e ex-alunos, que o tem auxiliado a dar corpo para um projeto intitulado Programa Bildung, iniciado há uns três ou quatro anos. E foi assim que o Programa Bildung realizou seu primeiro colóquio, com as participações dos professores Antônio Augusto Passos Videira (Física – UERJ), Ronai Pires da Rocha (Filosofia – UFSM), o já citado Robson Ramos dos Reis (Filosofia – UFSM), entre outros. O professor Ernildo Stein, cuja citação abre esse texto, não pôde comparecer por razões de saúde.

O tema do colóquio foi o texto “A ciência como vocação”, do pensador alemão Max Weber. O texto, que completa seu primeiro centenário este ano, é um belíssimo documento – um “réquiem”, nas palavras do professor Videira – para um modelo de universidade e de ciência que encontrava seu ocaso no início do século XX. O modelo de cátedra, pavimento e plataforma de uma ciência que não se furtava em pensar o sentido do próprio fazer científico e da vida humana em geral no contexto da civilização ocidental e de seus destinos, era substituído pelo modelo departamental de especialização da pesquisa científica, de inspiração norte-americana. Weber, como uma biruta que indica a direção dos ventos da mudança, sinalizava que os novos tempos da ciência eram tempos onde esta já não poderia mais oferecer significantes norteadores do fazer humano. Segundo as palavras do prof. Robson Ramos dos Reis, o texto de Weber nos sugere um profilático estoicismo no trato com um mundo desencantado pela ciência desencantada. O “universo em desencanto” weberiano, porém, seria um novo universo no qual o “valor universal do conhecimento” – trocadilho cunhado pelo professor Ronai Rocha e incorporado em seu novo livro, no prelo, do qual o próprio professor falou na ocasião do evento – poderia enfim fulgurar. Se o universo – ou a universidade – da Bildung alemã onde o modelo de cátedras encontrava seu ocaso ao ser arrastado pelos ventos da mudança do modelo departamental de especialistas, ironicamente, a nova vocação científica da qual Weber falou – ironicamente em uma livraria, e não em um ambiente universitário – seria uma vocação que deixaria para outros domínios da reflexão e da ação humanas a resposta para a pergunta pelo sentido da vida, individual ou coletiva. E se, ironicamente, a ciência especializada realizada em departamentos tem uma similaridade estrutural com a democracia ao permitir dentro de si um espaço lógico para o discurso de suas próprias negações (assim como a democracia tolera o discurso autoritário que não a toleraria, a ciência também tolera o discurso irracionalista ou antiintelectual que a nega), foi sob o signo da Bildung alemã do XIX que foi possível, nas últimas quinta e sexta-feiras, falar sobre o valor universal do conhecimento, da formação e da vocação para a ciência. E se a universidade brasileira convive com diversos antagonismos externos (como o autoritarismo e o antiintelectualismo) e internos (as fragilidades que se seguem dos cenários produzidos, nas palavras do professor Ronai, “quando ninguém educa”), o Programa Bildung já aparece como um espaço, ainda que periférico a universidade, onde o sentido do conhecimento – ou seja, a herança da tradição universitária – ainda pode ser pensada. Um pequeno espaço onde a chama da qualidade de vida intelectual permanece acesa.

Além das palestras, o evento contou – ou contaria, na medida do permitido pelas temperamentais condições climáticas da região centro do estado – com um momento de observação astronômica e com um tour pelo Seminário Menor Rainha dos Apóstolos promovido pelo próprio professor Cremonezi. Com as atividades encerradas em 2006, o seminário é um monumento histórico que se agiganta no pequeno vale de tão doces ventos. Conduzindo alunos, ex-alunos e amigos através de cada cômodo da instalação, as palavras do professor Cremonezi produziam nas mentes dos presentes algumas imagens do que pode ter sido o seminário em seu funcionamento. Histórias de vida, paixão, fé, vocação e formação ficaram impregnadas nas paredes do seminário e eram reanimadas pelo relato do professor.

Weber disse que aqueles que não suportassem estoicamente o destino de sua época deviam, talvez, voltar às velhas igrejas. Ironicamente, foi dentro da velha igreja e sob o signo da Formação – que, embora em sua acepção alemã seja humanista e não exatamente cristã (ironicamente, o fechamento do velho seminário em 2006 foi selado com palavras talvez proféticas do Pe. Lino: “continuarmos favorecendo para que o local cumpra a sua finalidade formativa“) – que a vocação para a ciência foi relembrada pelo seu centenário histórico. Da minha parte – isto é, de da parte de alguém que retorna ao vale dos ventos, dos ventos da mudança, e que há 13 anos engatinha em sua formação acadêmica e profissional – foi novamente decisivo pensar sobre formação, vocação e sobre, afinal, minha própria identidade nesse cenário. Pois se a universidade tem tantos e tão intencionados inimigos dentro e fora dela que, pelos mais diversos motivos a querem reformada, transformada, descaracterizada, vendida ou mesmo destruída, é importante saber que aqui e ali – e eventualmente até mesmo nos bancos das velhas igrejas – será possível sentir o calor doce dos ventos da mudança e, não sem ironia e algum estoicismo, meditar sobre a própria formação humana, sobre a própria vocação profissional, sobre o valor universal do conhecimento.

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As mãos dadas III – O adeus ao subsolo

Algumas histórias são difíceis de contar. É difícil saber onde elas começam, onde terminam. Mais do que isso: é difícil dizer a que gênero de histórias pertencem. Ainda mais do que isso: desde o momento em que estão sendo vividas, algumas histórias – ainda em sua condição embrionária de vivências – já anunciam que talvez serão para sempre estranhas, excêntricas, de natureza indeterminada.

Esse sentimento – de que é difícil elaborar a narração de certas histórias – é apenas uma estrela em uma constelação afetiva muito maior. Algumas pessoas consideram difícil contar histórias porque aquilo que vivenciaram não parece familiar. Os fatos não parecem conectados e o mundo e a vida se apresentam como uma totalidade indiferenciada, confusa, estranha. Esse era o sentimento predominante de Clarissa nos períodos em que sua memória se escondia de sua consciência e ela não conseguia se lembrar de quem ela própria era.

Houve uma época da amnésia de Clarissa em que ela trabalhou junto com Alex e Estela no café-tabacaria deles. Atendia os clientes, os ajudava na cozinha e no caixa. Era ela a encarregada de, eventualmente, fazer as compras daquilo que também eventualmente faltava no estabelecimento. Foi em um desses dias em que eu a encontrei.

Sempre fiz questão de não frequentar muito o café-tabacaria de Alex e Estela. Assim, estávamos Sofia e eu em uma lanchonete próxima ao café-tabacaria quando Clarissa passou. Havíamos convidado Lilah para passar algumas horas conosco naquela tarde. Foi quando decidi que as histórias de Clarissa e seu pai mereciam ser narradas. Lilah simplesmente havia me intimado: eu devia escrever um livro! Prometi que o faria, embora tenha mentido (desculpe Lilah!). Logo depois dessa promessa, vimos Clarissa passando na rua.

– Chame a menina para sentar conosco por uns instantes. – Sugeriu Sofia, com um riso doce e os lábios levemente corados pelo vinho.

– Clarissa está trabalhando agora. – Respondi, sem conseguir disfarçar que não tinha vontade de conversar com a jovem naquele momento.

– Esperem… – Disse Lilah, rindo com surpresa e empolgação. – Vocês estão dizendo que aquela é Clarissa? Que ela é real?

Apenas rimos. Para não ter de responder, gritei o nome de Clarissa. A menina virou o rosto em nossa direção e então pôs-se à caminhar ao nosso encontro, com seu sorriso tão triste quanto completamente apaixonante. Sentou-se conosco. Apresentamos Lilah à menina e perguntamos como estava o trabalho, como estavam Alex e Estela.

– Está tudo bem. Acho que eles estão trabalhando demais, talvez. Mas tudo vai bem.

Não era verdade e eu sabia que não era verdade. Mesmo Sofia e Lilah, que não a conheciam direito, podiam perceber que não estava tudo bem. Eu sabia que Clarissa estava vivendo sob o fogo cruzado das intermináveis brigas do casal, e que a despeito de tudo era consumida por uma saudade inominável e estranha de seu pai, de seu perverso pai que tão mal ela própria conhecia.

Na época em que o pai de Clarissa encontrou a filha e percebeu que a jovem estava sem memória, deixou a menina sob os cuidados de Alex. Alex já vivia com Estela e já considerava suficientemente pesado ter de conviver com uma alma destruída. Considerava que Estela se tornara uma mulher ressentida e dominada por ódio em função do convívio com o pai de Clarissa. Quando este delegou à Alex os cuidados de Clarissa, o rapaz pensou em se revoltar, em despejar todo seu rancor sobre esse Demiurgo, esse gênio maligno, esse enxadrista perverso que era o pai de Clarissa. Mas, em sua cruzada pessoal contra os próprios ressentimentos, Alex respirou fundo e aceitou. Sem esconder a raiva do olhar, aceitou Clarissa em sua casa. Preferiu conceder de forma servil às vontades do pai de Clarissa.

(Em uma história anterior onde Alex aparecia, um amigo me disse que sem saber eu reescrevia o Livro de Jó, embora sem redenção possível para o personagem. Demorei, mas depois de reler algumas histórias sobre Alex, admiti para mim mesmo: Alex é um Jó contemporâneo, uma espécie de Jó que não vê a hora de que as provações do diabo – o pai de Clarissa – terminem logo.)

Após alguns minutos de conversa descontraída, Clarissa pediu desculpas e disse que tinha de ir ao armazém, pois faltava açúcar no café-tabacaria. Arriscou uma interpretação da situação dizendo que talvez Estela não tenha comprado o açúcar porque queria irritar Alex: culpava-o pelo terceiro olho que havia nascido na testa dela na semana anterior.

– Eu não acredito… – Disse Lilah. – Estela é uma das pessoas em quem apareceu o terceiro olho?

– Sim. – Respondeu Clarissa, com os olhos fixos no chão, mas certamente perscrutando suas então poucas lembranças, todas referentes aos dias em que conviveu com o casal. – Mas ela já andava irritada antes disso acontecer.

– Nada pode ser mais oportuno para alguém cheio de ódio do que uma razão para o ódio. Esse terceiro olho é o menor dos problemas dessa moça… – Arriscou Sofia, com sua languidez habitual. Sofia já conhecia um pouco da história de Alex e Estela através de mim. Lilah e eu rimos e talvez Clarissa também, embora sem muita convicção. Quando a menina se foi, conversamos sobre a história dos terceiros olhos pois há uma semana, sem qualquer explicação aparente, uma em cada sete pessoas no mundo havia acordado com um terceiro-olho na testa.

– Essa moça, Estela, está no movimento dos três-olhos? – Perguntou Lilah.

– Sim. Está. Esteve mesmo na “marcha dos ciclopes” que acontecei aqui na cidade semana passada. Nunca a vi tão à vontade. Parecia ter nascido pra isso. Está muito envolvida, acompanhando de forma atenta as medidas governamentais de proteção dos ciclopes ao redor do mundo. Acha que em nosso país as pessoas com o terceiro olho serão prejudicadas e oprimidas e que as leis elaboradas são insuficientes e mesmo equivocadas.

– Naturalmente… Tudo estará sempre insuficiente e equivocado para ela – Disse Sofia, ajeitando o óculos e bebendo mais um gole de vinho, enquanto acendia outro cigarro discretamente, para que o garçom não nos visse fumando. – Pois se seus problemas fossem resolvidos ela perderia a razão da queixas. Teria de se olhar no espelho e ver apenas a nuvem de mágoas que precisa manter coesa para que ela própria não desapareça. – Disse Sofia, rindo laconicamente. Lilah também riu e disse que Sofia era uma espécie de Dorian Grey. O garçom percebeu a fumaça que emanava de nossos cigarros e risadas e ordenou que apagássemos os cigarros (e as risadas também, me pareceu), pois se quiséssemos fumar em ambiente fechado havia um café-tabacaria, onde era permitido fumar, há uns duzentos metros dali. Sofia disse que seria uma boa alternativa. Jogou uma nota de dinheiro sobre a mesa e, sem apagar o cigarro, me convidou para irmos justamente para o café-tabacaria. Embora não tivesse a menor vontade de ver Alex e Estela, aceitei. Lilah disse que tinha outros compromissos e reafirmou: eu devia escrever um livro. Confesso que já começava a considerar seriamente a ideia. Saímos de onde estávamos e Sofia e eu nos dirigimos para o café-tabacaria de Alex e Estela. Encontramos Clarissa voltando para o estabelecimento e acompanhamos a menina. Esta entrou cabisbaixa. Alex nos viu e moveu levemente a cabeça, em cumprimento, como se esta pesasse quinhentos quilos. Estela, que já teve o mais lindo par de olhos tristes, agora nos fulminava com um olhar lançado por três olhos raivosos.

• • •

Penélope estava, com Estela, na “marcha dos ciclopes”. Diferentemente de Estela, porém, Penélope não tinha acordado com um terceiro olho na testa. Era apenas solidária à causa dos ciclopes, como era solidária à muitas causas.

Meses antes de determinar que Clarissa ficaria sob os cuidados de Alex, o pai de Clarissa havia pedido que Penélope cuidasse da menina. Penélope, na época, havia justamente se separado de Alex por estar apaixonada pelo pai de Clarissa e não imaginava que tanto tempo depois, por intermédio de Estela, reencontraria Alex. Aconteceu quando Estela convidou a nova amiga para um café em seu estabelecimento. Qual não foi a surpresa quando os olhos de Penélope encontraram os de Jó, digo, os de Alex. Estela não imaginava que Alex e Penélope já se conheciam e apenas achou um pouco estranho que Clarissa reconhecesse Penélope, ainda que graças à sua amnésia o reconhecimento não pudesse ser mais do que uma vaga impressão de conhecê-la.

Penélope se sentou ao balcão e pediu uma xícara grande de café expresso sem açúcar e acendeu um cigarro. Sua expressão não era a de quem reencontrasse um grande amor nem tampouco a de alguém que sentisse culpa por tê-lo deixado. Era, pelo contrário, uma expressão quase beatífica, mista de serena cumplicidade e um estranho mas evidente cansaço.

Ao perceber que Alex e Penélope conversavam de modo quase animado, Estela voltou da cozinha e acendeu um cigarro, ficando ao lado de Alex atrás do balcão, determinando daquele momento em diante que Alex não ficaria à sós com a bela moça. De forma enérgica começou então a tecer comentários sobre a marcha dos ciclopes e sobre a luta nascente das pessoas de três olhos. Afirmava, com veemência e entonação adequadas ao papel de militante, que não compreendia como Alex não se sentia empático e inclinado à defender a causa dos ciclopes.

– Eu não consigo controlar minha indignação, nem quero. Sinto uma raiva tomar conta de mim quando vejo essa gente má nos tratando como se fôssemos diferentes por termos o terceiro olho. Acredita que há relatos de que o olhar do terceiro olho tem até mesmo uma função medicinal? Há comunidades em Madagascar, na Indonésia e no Haiti relatando que por lá os ciclopes estão sendo respeitados e até mesmo venerados! Aqui, temos que lutar por nossos direitos. Não há como não se indignar, não há como não se revoltar.

Estela, em suma, afirmava a onipotência de suas paixões políticas e morais: não, não podia controlar a própria indignação, a própria revolta. Tentava ser racional, mas o sentimento era mais poderoso. Era, em suma, uma afirmação viva de uma ideia quase mitológica: a ideia de que a vontade e as paixões se digladiam em nosso interior. Penélope conhecia bem esse modo de pensar e sentiu uma infinita preguiça de explicar para a nova amiga o quanto essa exortação das paixões não passava quase sempre de uma refinada maneira de dividir a própria alma com o intuito de não se responsabilizar senão por parte dela.

Todos conhecemos bem essa história: nossa alma tem partes e algumas são mais nobres do que outras. Platão foi o primeiro a dizer que a razão deve prevalecer sobre os desejos. O cristianismo levou essa ideia à sua apoteose: há anjos e demônios – falanges e legiões! – sussurrando em nossos ouvidos, disputando a influência das nossas almas, sedentos por nos salvar ou nos corromper, a despeito de nossas preferências pessoais. A psicologia moderna, de forma mais elegante mas menos poética, sugere que a deliberação racional deve vencer as inclinações. Eis uma imagem do ser humano esclarecido: austero, íntegro, totalmente controlado e metódico, com um verdadeiro caldeirão infernal de impulsos fervilhando em seu subsolo, perfeitamente domado pelo poder da vontade.

Ora, essa fábula já viveu seus dias e talvez merecesse um lugar honroso nas prateleiras da história do pensamento. Mas não compreende nada da alma humana quem supõe que algum dia será possível superar essa figura dualista da alma cindida, pois em todos os tempos haverão multidões de pessoas interessadas em agir segundo desejos nos quais não gostam de se reconhecer. Onde quer que haja uma, uma única alma incapaz de assumir seus desejos, de se reconhecer mesmo nos mais impróprios, ou seja, onde quer que haja uma alma tirânica e embriagada pela imagem que faz de si, lá estará uma compreensão mistificada e inapropriada do desejo. É assim que Eros, esse poderoso aliado em nossa tarefa de exploração da existência, se transforma em inimigo mortal da tirania (e da covardia, que são irmãs gêmeas) e do narcisismo: é preciso que o desejo vexatório não seja meu, mas de um outro: da natureza humana, dos condicionantes sociais, do demônio! Mas não, não meu, jamais meu. Mas voltemos ao café-tabacaria, porque enquanto nos perdemos nessa meditação, Estela não parou de falar por um instante sequer. O que fez Clarissa, pela primeira vez – na memória dela, ao menos – perder o controle e a paciência.

– Estela, cale a boca! Você não percebe que ninguém mais aguenta você?

Clarissa abaixou a cabeça diante do olhar triplamente raivoso de Estela que, depois de Clarissa encontrou Alex como alvo. O rapaz, incapaz de tomar uma decisão que fosse, abaixou a cabeça da mesma forma que a jovem. Talvez se naquele instante o arrastassem como um cadáver de um lado para o outro ele não reagisse, tamanha sua apatia e dificuldade de tomar decisões nessas circunstâncias. Estela atirou no chão o pano com o qual secava uma xícara e saiu em passos firmes pela porta do café-tabacaria. Era a décima ou vigésima vez que fazia isso na semana. Clarissa, com os olhos marejados, subiu para o segundo andar, pois era onde ficava a casa de Alex e Estela.

– Pra onde Estela vai? – Perguntou Penélope um pouco desconfortável com a situação. Alex falou baixo, para que Clarissa não escutasse.

– Provavelmente para a casa da mãe de Clarissa. Lá ela pode falar o que quiser, vinte e quatro horas por dia, sem ser interrompida.

Penélope subiu para cuidar de Clarissa. Sofia e eu, depois de assistirmos aquela cena, decidimos que não voltaríamos tão cedo ao café-tabacaria de Alex e Estela. Naquele dia, porém, ficamos até o estabelecimento fechar. Não pudemos deixar de ouvir, como duas harpias empoleiradas, Penélope e Alex combinando de ir para a casa dela própria, com Clarissa. Pelos seus olhares eu poderia apostar que naquela noite Penélope e Alex fizeram amor como nos velhos tempos.

• • •

“Não existe a relação sexual”, disse Lacan certa vez. Ele poderia ter ido além e dito: não existe relação nenhuma. Ora, o que são as outras pessoas e mesmo tudo o mais no mundo senão meios para que um certo circuito se feche? E esse circuito tem o ponto de chegada no seu ponto de partida: o próprio eu.

Estela explicava para a mãe de Clarissa porque saíra tão indignada de casa naquela noite. Clarissa, por sua vez, explicava para Penélope e Alex que não queria ter perdido o controle e respondido daquela forma. Alex teria se desmanchado em justificativas para Penélope: teria contado, longamente, como deixou sua vida naufragar daquela forma. Mas sabia que a partida de Penélope tinha um significado secreto: ela própria abominava justificativas, de qualquer tipo, de qualquer natureza. Assim como não pedia explicações, não tinha a menor vontade de prestar contas de nada para ninguém, pois já havia descoberto mais um segredo da existência, mais um desses desconfortáveis: as pessoas acreditam no que quiserem, bem como só perdoam as faltas contra elas cometidas caso queiram perdoar. Explicações, justificativas, desculpas, nada disso fazia sentido nenhum pois não poderiam produzir uma desculpa, pois o mundo é apenas um meio através do qual nos relacionamos conosco mesmos, o tempo todo.

Evidentemente é difícil perceber que é consigo mesmo que cada pessoa se relaciona. Difícil porque desagradável. Difícil e desagradável porque essa percepção, como uma reação em cadeia, desmobiliza uma por uma nossas estruturas, nossos órgãos espirituais que se desenvolvem para preservar nosso eu na aventura da existência. A complexidade das relações, como um castelo de cartas, desmorona e põe a nu o núcleo a partir do qual se estrutura a personalidade de cada um de nós: escolhas.

Como eu disse antes, algumas histórias são difíceis de contar. Mas não para Penélope. Tendo operado essa transformação em si mesma é só muito raramente que ela se sente cativa dos próprios afetos (afinal, mesmo um observador treinado dos movimentos da própria alma tem seus momentos de sonolência e esquecimento). Quando Sofia e eu entramos, já um pouco embriagados, no café-tabacaria de Alex e Estela, vimos Penélope acompanhada do pai de Clarissa sentados à uma mesa. Acho que eu sou a única pessoa que ele olha com algum incômodo nesse mundo. Talvez seja porque ele sabe que é um personagem fictício, que a matéria de sua existência é minha imaginação. De qualquer modo, nos convidou para nos sentarmos com eles. Antes mesmo que nos instalássemos, Estela foi embora irritada como sempre e deixou Alex cuidando sozinho do bar. Providenciei que Alex também fosse embora, bem como todos os demais clientes. Pedi que Sofia acompanhasse Penélope e disse que seria divertido se elas se conhecessem melhor. Sofia me olhou com um olhar cúmplice, mas raro: o de quem pede para que eu não faça nada precipitado ou impulsivo – mesmo que saiba que em minha cabeça essa linguagem não passe de uma fábula. Também providenciei que o pai de Clarissa e eu, sentados naquele banco, não estivéssemos mais no café-tabacaria, mas no balanço que havia na frente da casa onde Clarissa morou em uma época que ainda não sei agenciar cronologicamente. Estávamos, enfim, o pai de Clarissa e eu olhando para a estrada infinita que se estendia em frente àquela casa solitária no meio dos nadas elíseos onde a concebi pela primeira vez.

– Estamos chegando no final, não é mesmo?

– Estamos.

Houve um silêncio. Olhávamos para o horizonte.

– Você vai seguir o conselho de Lilah? Escreverá essa história?

Acendi um cigarro. O pai de Clarissa fumava um charuto.

– Como eu poderia evitar? Eu já os amo. Não poderia mais viver sem vocês.

– Você está bêbado.

– Que seja. Isso não torna menos verdadeiro o que eu falei.

Continuamos fumando, em silêncio.

– O que faremos com Clarissa? – Perguntou o pai da menina.

– Você sabe muito bem. No final ela sempre voltará para você.

– Eu sei. De qualquer forma, obrigado. – Disse pela primeira vez, em dez mil anos, o pai de Clarissa. Houve mais um silêncio e ele se levantou. Eu permaneci ali sentado. Ele se virou pra mim e perguntou, pela primeira e última vez:

– Imagino que não nos veremos mais, estou certo?

– Está. – Respondi, o vendo enfim sorrir e desaparecer na bruma que havia descido sobre o lugar. Também tomei meu rumo, pois era preciso ajudar Clarissa a se lembrar de quem era. Era preciso ajudar Alex à despertar da personagem covarde e submissa na qual se transformara. Era preciso ajudar Estela à sair do curto-circuito de ressentimento no qual ela se metera. Eu também devia, desde aquele dia, um livro para Lilah. Também precisava ver Penélope, de vez em quando, ainda que fosse na forma de um pássaro negro no céu noturno. E era hora de voltar, pois Sofia estava grávida e nada nos fazia mais felizes naqueles dias do que caminhar de mãos dadas naqueles fins de tarde de outono.

Algumas histórias são difíceis de contar. É difícil saber onde elas começam, onde terminam. Mais do que isso: é difícil dizer a que gênero de histórias pertencem. E ainda mais difícil do que isso: é difícil de saber se elas acontecem em algum lugar do universo ou apenas em nossos pensamentos, se apenas em nossos pensamentos ou em algum lugar do universo.

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87 anos de insustentável leveza

Aproveito a ocasião do aniversário de Milan Kundera para, mais uma vez, prestar uma pequena homenagem àquele que de longe, no horizonte, inspira meus pensamentos. Assim, comentarei brevemente algumas de suas obras no intento de, eventualmente, instigar o leitor à leitura das mesmas.

A brincadeira é o primeiro romance de Kundera. Único romance escrito em primeira pessoa pelo autor, o romance nos apresenta a história de um indivíduo que retorna à sua cidade natal depois de 15 anos. Eu definiria o romance inaugural de Kundera como sendo uma elegante, embora não muito sutil, história acerca de como uma atitude impensada pode, em um único instante, arruinar a vida de uma pessoa. A história se passa na República Tcheca com o pano de fundo da invasão dos russos e das consequências cotidianas dessa invasão na vida do povo tcheco. O tema permeará todos os primeiros romances de Kundera e, nas palavras do próprio autor, não é senão um recurso artístico e narrativo, não devendo conduzir a leitura do romance para um viés político.

O livro do riso e do esquecimento é uma obra escrita sob a convicção de que um romance não precisa ser presidido por uma história centrada em personagens, mas em temas. Assim, Kundera cria uma narrativa que versa simultaneamente sobre a luta do ser humano contra o esquecimento bem como sobre as diferentes atitudes que podemos ter diante da vida e a expressão dessas atitudes nas formas como rimos. Formalmente sofisticado, O livro do riso e do esquecimento é às vezes considerado uma coletânea de contos costurada por um tema comum. Kundera, porém, enquanto artífice e comentador da própria obra, nos apresenta um romance organizado a partir de premissas exaustivamente elaboradas que podem, para alguns, parecer um pouco excêntricas.

A insustentável leveza do ser é, sem dúvida, o romance mais famoso de Milan Kundera. O romance é focado em quatro personagens através dos quais Kundera visa ilustrar a insuportável leveza da existência humana: como suportar uma existência na qual tudo é sempre feito pela primeira vez, onde cada instante pode determinar todo o futuro, onde nunca sabemos suficientemente qual é o destino par o qual marchamos com nossas escolhas, onde a morte pode surgir de forma inesperada e pondo fim à existência de forma absurda? Kundera conta que pensou em chamar o romance de “O planeta da inexperiência”. Aparentemente não gostou da adaptação que Philip Kaufmann fez do romance para o cinema, com participação de Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche, pois não permitiu que nenhuma outra obra fosse adaptada.

Risíveis amores é, este sim, uma coletânea de sete contos acerca das ironias e efemeridades dos afetos humanos. Escrita de forma mais leve e menos digressiva do que as demais obras, Kundera explora diferentes aspectos do desejo, da sexualidade e da existência humana em contos onde as ironias do destino e do desejo perpassam as pequenas aventuras cotidianas dos personagens.

A imortalidade é, para mim, um marco estético na obra de Kundera. O romance se agiganta em inteligência e domínio formal na arte da composição romanesca. Kundera mescla ficção, variação ficcional sobre figuras históricas, digressão filosófica, história, relato biográfico e aparece mesmo de corpo presente como personagem do próprio romance, rompendo a fronteira entre ficção, sonho e realidade como já anunciava nos romances anteriores e voltaria a fazer em obras posteriores. Nesta obra Kundera, atuando como personagem do próprio romance, chega a dizer que este livro é que deveria ter sido chamado de A insustentável leveza do ser.

A identidade é uma narrativa rápida e intensa na qual Kundera, novamente atenuando a separação entre sonho e realidade, conta a história de uma mulher que, de repente, se sente velha demais. A jornada dessa mulher que subitamente se vê destituída daquela que era sua identidade conduz o leitor em uma viagem que embriaga durante todo o trajeto e termina de forma surpreendente. É um dos livros mais “rápidos” de Kundera, escrito em forma que ele mesmo chama de vaudeville.

A arte do romance, A Cortina e Os Testamentos Traídos são, todos os três, ensaísticos. Neles Kundera comenta tanto suas próprias obras quanto obras de outros grandes romancistas. É possível notar na redação das três obras um núcleo de preocupações temáticas, estilísticas, estéticas e históricas acerca da arte do romance. Além de romancista, Kundera é um entusiasta da ideia de que o romance tem uma sabedoria que própria e insubstituível e que só aparece quando o romancista é genuinamente um artista e se deixa desaparecer por trás de suas obras. Só nesse caso a autêntica arte do romance acontece. É essa sabedoria que caracterizou uma história que nasce com Rabelais e Cervantes e atravessa os séculos até os dias atuais.

Há outros romances que poderiam ser comentados – como A festa da insignificância, publicado ano passado depois de um longo hiato – mas me detenho nessas sugestões específicas porque acho que umas duas ou três delas já são suficientes para se tornarem leituras inesquecíveis. No mais, desejo ainda longos, saudáveis e criativos anos para Milan Kundera.

Milan Kundera

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O adeus de Penélope

O carro estava indo talvez um pouco rápido demais para que Alex o conduzisse com uma única mão. Mas não queria soltar a mão de Penélope. E se dirigir segurando a mão da moça já não era imprudência suficiente, Alex aproveitava para espiá-la, várias vezes por minuto, enquanto ela se deixava embalar pela velocidade e, em um aparente transe, se deleitava com a vista que se oferecia pela janela aberta do automóvel. Seus cabelos, então mais curtos do que outrora já foram, escapavam mecha por mecha do rabo de cavalo que a moça improvisara. A fumaça do cigarro segurado com a outra mão quase não se deixava entrever, pois mal deixava a ponta do mesmo e se perdia no turbilhão de ar causado no interior do veículo pela velocidade. Alex tinha de se concentrar, pois quanto estava com Penélope parecia contagiado pela mesma maldição que a acometia, a saber, a de se deixar arrebatar quase que completamente por qualquer sentimento. Naquele momento, enquanto o espírito de Penélope parecia se perder no cinza daquele fim de tarde, o de Alex se perdia no rosto e na pele de Penélope. Mas se perdia por pouco tempo, pois a combinação de estrada e velocidade exigiam sua atenção.

Depois de longos minutos, Penélope percebeu que era observada e sorriu com seu encantador sorriso sempre meio triste e completamente autossuficiente, de uma tristeza assumida com serenidade. Alex se perguntava se ela fazia ideia do quanto ele gostava dela, e preferia manter a questão em silêncio: era preciso silenciar. Se Penélope desconfiasse do que Alex sentia por ela, escaparia para longe como a fumaça do cigarro. Para evitar mesmo pensar nisso – pois às vezes desconfiava que a moça podia ler seus pensamentos – comentou sobre a beleza do céu cinzento. Penélope concordou:

“E não é?”, disse sorrindo.

Vejam: o arrebatamento de Penélope não é com o céu cinza. Nem consigo mesma. Era com o sentimento proporcionado por aquela circunstância que parecia elaborada por um demiurgo melancólico. Estavam indo embora da cidade onde viviam, depois de muitos anos. Não sei por que razão precisa iam embora, nem para onde. Mas a velocidade com que Alex guiava mostrava o quanto ambos fruíam a sensação de estar deixando para trás um mundo inteiro. E Penélope, através daquela paisagem seca e daquele céu cinza, voltava a si mesma. Alex não conseguia saber o que exatamente preenchia os pensamentos da moça, mas sabia que fosse o que fosse, o fazia do ponto de vista de alguém que não sabe o que fazer consigo mesma na própria vida. Podia captar, quase sentir junto com Penélope o sentimento dela, como se sente o calor de uma fogueira da qual se está próximo. Poder sentir isso era, para Alex, um privilégio. Às vezes queria ficar preso para sempre em um desses instantes que tinha com Penélope, onde se irmanava com ela em uma bruma indefinida e impossível de ser traduzida em palavras. Mesmo quando Penélope pegou no sono, Alex sabia: seus sonhos estavam embebidos daquela incerteza nebulosa sobre o que seria a vida dali para a frente. Alex também sentia o mesmo. Naquele momento, porém, ao menos uma certeza ele tinha: desejava segurar a mão de Penélope para sempre.

• • •

A noite caiu e Penélope continuava dormindo. De modo muito habilidoso, Alex colocou música para embalar o sono da moça. Sem, porém, soltar sua mão. Os acordes de guitarra e a voz da vocalista da banda de rock estavam entre algumas das coisas que Alex mais gostava no mundo naqueles dias. Penélope não gostava tanto daquelas canções, mas como o próprio Alex ela sabia apreciar o deleite do amigo. Enquanto dirigia com uma mão só, Alex cantarolava a canção:

My Future is static
It’s already had it
I could tuck you in
And we can talk about it
I had a dream
And it split the scene
But I got a hunch
It’s coming back to me

A guitarra soou repetitivamente, como Alex tanto apreciava, algumas notas nervosas. Nervosismo e repetição. Era como se ele e a música fossem espelhos um do outro. Embora vivesse um momento completamente novo em sua vida (era a primeira vez que ele dava um salto no incerto de maneira tão franca) sentia que essa incerteza era uma nota repetitiva que retornava como uma bola de borracha lançada repetitivamente ao fundo de uma piscina, voltando sempre à tona. A presença de Penélope o enchia de forças e ele se prevenia mentalmente desse conforto: não devia contar com a certeza da companhia dela nem devia deixar que ela visse que ele lutava contra si mesmo para se prevenir da esperança. Enquanto pensava nisso, em uma curva qualquer, Alex perdeu o controle do carro.

• • •

Alex não lembra quando exatamente conheceu Penélope, mas lembra quando foi que se apaixonou por ela. Era uma festa ao ar livre, cheia de jovens e pessoas envolvidas com a transformação da sociedade. Socialistas discutiam a dialética da história e analisavam a conjuntura política do país ao sabor de cerveja barata enquanto punks enchiam a cara sem esperança e com bebida mais barata ainda. Penélope estava com outras moças, próxima à um aparelho que tocava música popular. Dançavam e bebiam, como quase todos ali. Alex lhe pediu um cigarro, mas quem puxou assunto foi ela: queria saber se ele tinha um certo livro que ela queria ler. Ele tinha. Conversaram sobre o livro um fim de tarde inteiro e Penélope dedicou então toda sua atenção ao rapaz. Sem outras acomodações, assistiram deitados na grama o alaranjado do crepúsculo dar lugar à penumbra do entardecer. Foi essa a primeira vez em que se deram as mãos e foi de mãos dadas que viram a noite chegar. Esperar de mãos dadas o anoitecer foi a metáfora que encontraram para tudo o que aconteceria desde então.

Ambos já viviam há tempo demais naquela cidade e sua aproximação permitiu que vissem que já não havia nada que desejavam realizar por ali. Foi na noite do mesmo dia, depois de se separarem no início da mesma, que Penélope tocou a campainha da casa de Alex pela primeira vez. Era, na verdade, o início da madrugada e Alex estava em casa um pouco embriagado – ou ao menos supunha estar – escrevendo justamente sobre Penélope. Tinha o livro que ela pedira em frente ao computador em que ela escrevia e não pôde negar à moça que ela lesse o que ele estava escrevendo. Era uma espécie de conto, ou talvez uma crônica. Certamente um texto tão etéreo quanto este. Foi nessa noite que se beijaram pela primeira vez.

Esse beijo seria o primeiro de muitos, bem como a própria companhia noturna se tornaria uma constante para ambos. Ainda que ambos estivessem envolvidos em relacionamentos com outras pessoas (Alex tinha um namoro conturbado enquanto Penélope se envolveu com outras duas pessoas nesse ínterim) suas noites compartilhadas seriam o bálsamo de seus dias. De forma que seria inevitavelmente obscena em algumas narrativas, Alex e Penélope compartilharam seus corpos e almas em repetidos encontros que logo foram reconhecidos pelos dois como espaços de fuga: encontraram, um no outro, ilhas de tranquilidade, de leveza e liberdade diante das expectativas que se depositavam sobre eles e permeavam todos os demais âmbitos de suas vidas. Embora estivessem próximos o suficiente para terem cultivado reciprocamente algumas pequenas expectativas, o fato de seus encontros serem um espaço de exceção às exigências afetivas de um mundo demasiado confuso fez com que fossem prudentes: era como se tivessem feito um acordo silencioso de que sua relação não degradaria pelas mesmas razões que degradaram todas as demais que viviam e sobre as quais tanto falavam. Estabeleceram uma relação estranha, semelhante à um parentesco incestuoso, nascido do acaso mas eficaz contra o tédio. A relação durou apenas algumas semanas, precisamente o tempo que Penélope levou para ler o livro. E como se imitassem os personagens do livro, ao final da leitura de Penélope ambos concordaram que deviam ir embora.

Não sei exatamente como decidiram, nem sei exatamente o que levaram no porta-malas do carro. Não foi, porém, nada planejado. Ao entrarem no carro de Alex, deixavam para trás aquela parte de nós mesmos que é justamente a que nasce quando ficamos tempo demais em contato com algum solo. Talvez nenhum dos dois percebesse o quanto tal parte de si mesmos era fundamental e decisiva, mas não pareciam se importar. No espaço de poucos dias, decidiram que nada mais do que haviam vivido importava, mas sim o que iriam viver dali para a frente. Iriam embora. Não sei mesmo se decidiram o destino para o qual estavam rumando, mas vejo nos sorrisos aliviados – um tanto quanto melancólicos, é verdade – a convicção de que uma vida nova, nem boa nem má, era então possível e desejável. Deram as mãos e Alex deu a partida no carro, guiando com uma mão só.

• • •

O carro saiu da estrada e desceu algumas dezenas de metros por um declive, parando muito longe da estrada. Não sabiam onde estavam. Não haviam se machucado, porém. Penélope tentava telefonar para pedir ajuda enquanto Alex providenciava uma fogueira improvisada. Penélope chamou o resgate e Alex acendeu a fogueira. Não faziam ideia de onde estavam e só lhes restava esperar. O céu, anteriormente cinzento, se exibia vaidosamente repleto de potos luminosos. Sentaram no chão.

“Terá sido um sinal de que não devemos ir embora? Será que não devemos ficar e suportar, como mártires, os fardos que a vida nos legou?”

Penélope ria. Achava engraçado o modo como Alex fingia – ma non troppo – sentir e pensar a vida quase misticamente. Não respondeu nada, porém. Preferiu perguntar para Alex se ele ainda tinha algum cigarro. Haviam restado dois. Cada um acendeu um cigarro e se deitaram no chão como na primeira vez. E se deram as mãos novamente.

“Está com medo, Penélope?”

“Não.”, diz ela, esticando a vogal como quem respondesse enquanto ainda pondera e se examina. “Medo não. É uma sensação diferente. É uma impressão de que não se tratava final de fugir do lugar, mas de que algo diferente precisava ser feito.”

“Como assim?”

“Não é um novo cenário que vai nos salvar de nós mesmos.”, disse, antes de soltar em um sopro contínuo a fumaça que então se iluminava pela luz da fogueira.

“Eu sei. E você sabe que eu sei.”

“Não há como voltar. E eu nem quero. Só quero dizer que ir embora… Não basta.”

“O que é preciso, então? O que devemos fazer?”

Alex percebeu o deslize. Conjugou um verbo de modo equivocado, no plural. Seu inconsciente o traiu e deixou que Penélope percebesse que a levava em consideração em seus difusos planos. Ele percebeu que ela percebeu que ele havia percebido e em um instante, as cartas estavam viradas. O coração de Alex bateu mais rápido e o rapaz teve a impressão de que ela podia escutá-lo. Ela, de fato, podia sentir – como ele próprio fazia com relação à ela – exatamente o que ele estava sentindo. A estranha comunhão não se dissolvia mas, ambos sabiam, estava irremediavelmente transformada e já não seria suficiente para os manter próximos. Penélope terminou o cigarro e soltou a mão de Alex.

Alex ficou parado, deitado no chão, por alguns instantes. Depois se sentou. Sentia uma estranha preguiça. Uma espécie de cansaço, ou talvez de tristeza. Não sabia definir. Via Penélope de costas para ele. Ela se despia. Tirou a blusa, o short e as roupas íntimas. Virou-se então para Alex com o mesmo sorriso de sempre. Um sorriso inexoravelmente fatalista, com a sabedoria dos milênios que habitavam aquela alma. Caminhou até Alex e se curvou, lhe dando um último beijo.

“Não basta ir embora, não é? Você precisa se transformar.”

Ela concordou, com a aparente falta de convicção de quem está sempre incerto. Depois, voltou à paz habitual de quem sabe que não precisa, jamais, se justificar. Encolheu-se ao lado da fogueira por um instante, abraçando as próprias pernas e olhando para o fogo. A luz da chama iluminou seu rosto e seus cabelos. Olhou novamente para Alex e, mais uma vez, sorriu. Sorriu como ela às vezes fazia: como a criança que, em algum lugar, ela ainda era e sempre seria.

“Esse instante vai durar para toda a eternidade, Penélope.”, disse Alex sorrindo também, já resignado.

“Que bom.”, ela respondeu, com a voz um pouco manhosa e cheia de ternura. Seus olhos se encontraram uma última vez. Penélope, então, se transformou em um pássaro negro e alçou voo. Sua nova forma não demorou a se perder totalmente na escuridão. As luzes dos carros de resgate já podiam ser vistas ao longe. Alex riu alto, com os olhos marejados, em um pequeno instante de um estranho tipo de desespero. Mas retomou a resignação e disse um “sim”, total e definitivo, para as coisas tais como elas são. Apagou a fogueira que orientava os carros de resgate que, ao chegarem ao local, não encontraram senão um carro abandonado e nenhum sinal da presença do casal que os havia chamado.

Penélope

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In Treatment: um elogio do autoconhecimento e um convite à reinvenção de si mesmo

Acabo de assistir o último episódio da última temporada de uma das séries mais charmosas e peculiares que já tive o prazer de assistir. A discreta In Treatment – inspirada em uma série israelense e inspiradora de versões no Brasil e na Argentina – tem uma estrutura extremamente simples: apresentar alguns momentos da semana de um psicólogo em sua atividade de atendimento clínico. Assim, as três temporadas acompanham Gabriel Byrne fazendo o papel do Dr. Paul Weston dedicando cerca de meia-hora de significativa atividade psicanalítica e terapêutica com os mais diversos tipos de pessoas. Seja o clássico caso de uma paciente jovem e bonita apaixonada por seu analista, de um indiano de meia-idade, recém viúvo e potencialmente perigoso por ser incapaz de viver no ocidente com o filho ou de um paciente que o culpa pelos 20 últimos anos dos quais se arrepende, o espectro dos pacientes de Paul Weston e sua interação com eles mostra o quanto a atividade terapêutica e psicanalítica pode ser extenuante e ao mesmo tempo edificante para os pacientes e para o próprio terapeuta.

Paul and Alex

Gabriel Byrne encarnando o psicólogo Paul Weston

Evidentemente, a série provavelmente não seria capaz de se manter – e não teria sido elogiada e premiada – caso se resumisse em uma espécie televisiva de psicodrama. A linha narrativa mais interessante da série é aquela oferecida pela apresentação dos próprios dramas de Paul que, no curso de três temporadas, vivencia o desmoronamento de um casamento de 30 anos, a reavaliação da própria atividade profissional e os primeiros passos da reorganização de sua própria vida. Nesse horizonte, a série mostra o próprio Paul saindo da posição de terapeuta e assumindo a de paciente uma vez por semana onde vemos toda sua fragilidade diante de sua terapeuta e antiga supervisora, a terapeuta aposentada Gina Toll (Diane Wiest), que então se dedicava à arriscar seus primeiros passos na carreira de romancista.

Acompanhar Paul diante de Gina ou mesmo de Adele – a nova terapeuta, procurada por Paul na última temporada – bem como acompanhar suas relações com seus familiares em cenas curtas e intensas que, durante as três temporadas, se mesclam em harmonioso contraponto narrativo com aquelas que mostram sua atividade terapêutica nos permite visualizar o ser humano que há por trás de cada profissional de psicologia. Se com seus pacientes Paul é lúcido, analítico e seguro, diante de Gina, Adele ou de sua família Paul é uma pessoa comum, enfrentando as situações de sua vida com a mesma a incerteza, instabilidade e passionalidade de seus pacientes.

Gina Toll e Paul Weston

Gina Toll e Paul Weston

No curso das três temporadas, In Treatment passeia por um grande número de temas e conceitos oriundos não apenas da psicanálise como também e principalmente de todo o amplo universo da psicologia em seu ambiente profissional. Vemos pacientes apaixonadas por Paul (transferência), Paul apaixonado por pacientes ou por suas terapeutas (contratransferência), suicidas potenciais em atividade de negação, recalque de acontecimentos significativos completamente soterrados no esquecimento, pacientes que preferem fármacos à psicoterapia e mesmo a típica resistência dos próprios pacientes ou familiares quanto à efetividade ou importância das sessões com Paul. Nas privilegiadas sessões em que Paul é paciente e não terapeuta – ou seja, onde dois psicólogos estão frente à frente -, é possível contemplar questões internas à própria atividade do psicólogo: o psicólogo deve ser rígido e impessoal ou deve, ocasionalmente, transpor o limite clínico e ser apenas outro ser humano diante do paciente? A terapia deve visar a decifração de uma personalidade ou a reinvenção do sentido de uma existência inviabilizada? Essas e outras questões acompanham a jornada de Paul e seus pacientes, enquanto estes oportunizam um verdadeiro laboratório reflexivo para aquele que tenta, em sessões semanais de meia-hora, ajudá-los à viver suas próprias vidas.

Penso que In Treatment é um drama arquetípico. Trata-se, em última instância, da jornada espiritual de uma pessoa presa no círculo vicioso da repetição de certos padrões de comportamento que, de muitas formas, inviabilizam qualquer realização vital concreta. O final da série é tão insuportável quanto também é o único possível: Paul não sabe o que fazer de sua própria vida. Porém, depois de três temporadas de desmoronamentos e acúmulos de pequenos fracassos e sucessos clínicos e existenciais, Paul parece ao menos saber o que não quer: não quer mais ter pacientes ou ser um paciente. Longe de ser uma conclusão cética com relação ao valor da psicoterapia, In Treatment é um elogio, uma apologia das sessões de terapia: mostra como a análise e a terapia psicológica podem ser vitais não apenas para os pacientes que dela se servem como também e principalmente para o próprio psicólogo. No caso de Paul, o envolvimento com as ciências da alma foram o caminho encontrado para dar sentido à uma vida até então baseada em tragédias familiares e frustrações pessoais. Ao fim da jornada de três temporadas vemos a sutil e progressiva tomada de consciência de Paul Weston com relação aos rumos que dá à própria vida. Longe de nos oferecer uma convencional conclusão catártica, In Treatment nos mostra como um ser humano pode perceber que vive anos – ou mesmo décadas – na doce embriaguez das narrativas que assume. Sem qualquer exaltação ou euforia catártica, assistimos Paul Weston reavaliar seus padrões e seus comprometimentos para, em seguida, sob os escombros de uma vida esgotada e condenada, se abrir para a então incontornável contingência do existir humano: sem saber o que vai fazer da própria vida, Paul sai do consultório de sua terapeuta abandonando, à um só tempo, ambos os papéis. Não será mais terapeuta ou paciente. A impressão que temos nas últimas cenas é que, enfim, o guia espiritual seguirá os próprios conselhos: romperá com narrativas e padrões confortáveis e se permitirá correr os riscos dos quais se protegia ao mantê-los.

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Àqueles que são apaixonados pela alma humana, In Treatment é certamente fascinante. Acompanhar Paul Weston na senda de seu próprio autoconhecimento até as portas da reinvenção de si mesmo é acompanhar uma ficção que, se não alcança a excelência de uma obra de arte, cumpre uma das funções mais elevadas que a ficção pode cumprir, a saber, a de laboratório existencial. Sejamos muito ou pouco dados à reflexão acerca de nós mesmos, é impossível não se identificar ora com Paul, ora com seus pacientes. In Treatment toca no núcleo daquele que é o drama de todos os seres humanos: escolher os rumos e o sentido da própria vida. Quem tiver disposição para enfrentar os 106 episódios de vinte-e-poucos minutos provavelmente sairá um pouco diferente dessa experiência.

Vida longa às ciências da alma!

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A balada de Lulu e seu professor

É aquele velho clichê, sobre como uma vida pode seguir por caminhos completamente inesperados, imprevisíveis. Sobre como a qualquer momento todo um projeto de vida naufraga e dá lugar a outro. Mas também é sobre aquele velho clichê do quanto a vida pode, às vezes, ser irônica.

Estava com trinta e nove anos e gozava da posição de ser um professor universitário. Enfrentava o segundo casamento. O primeiro havia terminado naturalmente, da mesma forma que se esvai a vida de um vegetal. A diferença de visões de mundo e de anseios relativos ao futuro era tanta que, quando viram, já estavam separados. Mas após a experiência do alegre alívio (e da inconfessa nostalgia do casamento, devidamente afogada em vinho) da primeira semana de solteiro – semana na qual a maioria dos homens se sente como se tivesse 15 anos novamente – convidou uma amiga para passar a noite com ele. Ela passou a noite, o fim de semana e os cinco anos subsequentes. E ainda vivia com ele.

Em um primeiro momento, o professor supôs que assinava a promissória de uma interminável amizade colorida com sua nova amiga. Quase dez anos mais jovem que ele e dona de opiniões bastante ousadas, a moça não lhe parecia um entrave a eventuais revivências da adolescência. Uma vez devidamente instalada em sua casa com seus livros, discos, roupas (que logo ocuparam a maior parte de seu guarda-roupas, deixando-lhe então um espaço pífio), plantas, gatos (a moça tinha quatro gatos, quatro!) e incensos, a moça se tornou a mais convencional das companheiras. Quando o professor se deu conta de que sua companheira tecia comentários pejorativos sobre infidelidades, libertinagem e promiscuidade, percebeu que estava novamente preso.

Se a vida amorosa não lhe dava espaço para realizar impulsos vitais, a vida profissional parecia igualmente fechada a qualquer tipo de empolgação. Passando os dias entre artigos, aulas, orientações e todo o tipo de burocracia, dificilmente o professor tinha a sensação de estar realizando algo real, concreto, genuíno, autêntico. Raramente lia algum trabalho interessante, mas não responsabilizava seus alunos: a estrutura acadêmica parecia mesmo toda construída de uma forma tal que se algo interessante devia acontecer, certamente não devia ser ali.

E, de fato, não era nas salas de aula que ele encontrava a parte mais interessante de seu trabalho. Uma vez por semestre, quando sua esposa viajava para a casa dos pais, o professor dava uma festa de encerramento do semestre em sua própria casa (com o consentimento dela). Do início da noite até o início da manhã seguinte o professor pagava bebidas e lanches para, como um vampiro, sorver a vida e o calor que aquelas histórias, risadas e gracejos juvenis produziam em sua residência. Visto como um professor respeitável e erudito, dificilmente lhe sobrava algum olhar acrescido de segundas intenções. Quando acontecia, geralmente era por alguma mocinha por quem não valeria a pena arriscar sua reputação. Assim foi até a festa oferecida para uma certa aluna que chamaremos de Lulu.

Lulu estava na metade do primeiro ano. Havia abandonado a respeitável faculdade de medicina para se aventurar no campo das humanidades, o que deixara seus pais francamente transtornados. Tinha pouco mais de 20 anos e era a líder das garotas da turma do primeiro ano. Coincidentemente, a festa de fim de semestre era também festa de fim de ano e seria realizada no exato dia do aniversário de Lulu. Assim, muitas semanas antes da festa, estava combinado de que a bebida e a comida era por conta do professor, mas o “ingresso” deveria ser um presente para Lulu.

A noite caiu, e na medida em que os convidados chegavam, se formava na mesa do professor uma pilha de presentes: uma enfadonha pilha de livros (escritos por homens velhos sobre assuntos extremamente abstratos). A falta de originalidade de seus colegas permitiu mesmo que um título fosse repetido por dois colegas que certamente não conversaram antes sobre o presente para Lulu. A moça sequer teria como, na manhã seguinte, levar para sua casa as mais de duas dezenas de livros, já que não tinha carro.

A situação só mudou quando a melhor amiga de Lulu, Estela, chegou na casa do professor. Trazendo na mão uma cesta semelhante a uma cesta de piquenique, Estela animou a noite presenteando Lulu com uma série de acessórios eróticos. Da muito básica lingerie até itens de uso pouquíssimo intuitivo, a cesta para Lulu causou gritinhos, assobios e exaltadas comemorações. Os até então decorosos – e mesmo pouco embriagados – estudantes então reagiam como uma torcida de futebol, celebrando cada item com vivo entusiasmo. Foi assim até o último item da cesta. Terminada a exposição dos presentes de Estela para Lulu, a turma já estava na atmosfera adequada para a fruição da noite.

O presente de Estela para Lulu, desnecessário dizer, foi o mote da festa. A cada silêncio cíclico que acomete os grupos quando um assunto é esgotado, a cesta voltava. Os colegas perguntavam a Lulu como ela usaria esse item, com quem ela usaria aquele outro. Enquetes foram feitas sobre o modo de utilização dos objetos mais inusitados. No meio da madrugada, com a música alta, cada estudante desfilava pela casa em posse de um “brinquedo”. Pouco antes do amanhecer, já cansados, todos os presentes se sentaram em sofás, cadeiras, poltronas e assentos improvisados na sala da residência do professor. Este permanecia em pé, próximo a janela, já com um pouco de calor pelo excesso de vinho. Lulu estava sentada e Estela deitada em seu colo. Ambas estavam docemente embriagadas, e conduziam a conversa que o professor, quando prestou atenção, só pode apreender pela metade:

– Mas é claro que eu iria para a cama com você, Lulu. Você é linda. Mas eu confesso que o ideal é que houvesse um homem com a gente. Porque eu gosto mesmo é de homem! – E gargalhava, ganhando carinhos de Lulu. Mais nova que Lulu, Estela parecia uma mulher muito mais experiente que a amiga. Sua resposta arrancou mais algumas reações efusivas dos colegas ali presentes, e mesmo um desafio lançado por um deles: se de fato as duas garotas estavam falando sério, deveriam dar uma prova qualquer. Sem perguntar, Estela deu um beijo em Lulu. Mais uma ovação foi ouvida – provavelmente até mesmo pelos vizinhos do professor -, mas era uma das últimas: o dia estava nascendo e a bebida estava acabando. Como que em um pacto tácito, os estudantes começaram, um a um, a ir embora. Nesses aproximadamente sessenta minutos entre o beijo de Estela em Lulu e o amanhecer, Estela conseguiu ficar demasiadamente bêbada. O professor decidiu, então, ir de carro com um dos estudantes até a casa de Estela, que não parecia estar em condições de ir para casa sozinha. Lulu pediu para ficar e esperar o professor voltar para a casa. Ficaria arrumando um pouco a bagunça que a festa havia causado. O professor sentiu o coração apertar: a proposta de Lulu deixava entrever segundas intenções? Seria nesse dia que ele, pela primeira vez, trairia sua segunda esposa?

Depois de deixar Estela e o colega – que se encarregou de levar a amiga pelas escadas do prédio onde morava – o professor voltou. Parou o carro em uma lanchonete e pediu uma água com gás. Sentou-se e sorveu cada gole como se fosse uma tragada de cigarro, como fazia outrora para disfarçar os suspiros que a reflexão produzia. Deveria voltar para casa, ou deveria circular de carro por mais uma hora e deixar a aluna entender que ele não queria trair a esposa? Ou deveria voltar imediatamente? Afinal, talvez Lulu fosse apenas uma pessoa prestativa, e não tivesse qualquer intenção dissimulada. Talvez o professor só estivesse profundamente desconectado da empatia necessária para entender os códigos a ser subentendidos no convívio com pessoas de vinte-e-poucos anos. Terminou sua água e voltou para casa.

Lá estava Lulu e a casa razoavelmente arrumada. De toda a turma, apenas ela havia permanecido. Ela estava sentada no mesmo sofá em que havia sido beijada por Estela. Tomava um café em uma caneca estilizada com a foto de um pensador. Havia café fresco na cafeteira. Lulu ofereceu e o professor se serviu de uma caneca.

– Muito obrigado, Lulu. – Disse o professor, se sentando na poltrona defronte àquela na qual estava Lulu. Lulu estava recostada ao braço do sofá, com as pernas sobre este, demonstrando estar muito confortavelmente instalada, sem deixar qualquer indício de que queria ir embora.

– Gosto que o sr. me chame assim, professor.

– Assim como?

– “Lulu”.

– Mas é como seus colegas a chamam, não? Pareceu-me adequado.

– Sim, mas o senhor é meu professor. – Disse sorrindo, olhando profundamente nos olhos do professor. O olhar de Lulu, aliás, mereceria uma menção especial: se Afrodite nasceu da espuma, Lulu nasceu de seu próprio olhar felino. Talvez esse simples olhar penetrante e intimidador tenha feito dessa moça a líder moral de sua turma. O olhar agressivo e intimidatório aliado à voz macia e o jeito infantilizado de falar faziam com que o professor não tivesse dúvidas: aquilo era um jogo. Todas as racionalizações que ele se oferecera a caminho de casa haviam se desmanchado como esculturas de açúcar diante daquela moça quase deitada em seu sofá, e que tinha se dado o direito de preparar café.

(Vale dizer que Lulu não tinha apenas um olhar agressivo: era uma mulher linda. Se mentalmente o professor se via hipnotizado pelo olhar, seu corpo inteiro já reagia às pernas bem torneadas, aos quadris firmes e redondos como a própria lua, à pele morena e que parecia possuir naturalmente o perfume de frutas que se mantinha na sala e dela emanava. Os cabelos negros emolduravam um rosto simétrico e um par de lábios que chegavam a fazer o professor cerrar os dentes, só de se imaginar mergulhando neles. A sensualidade de sua figura deitada sobre o sofá o fazia despir a moça mentalmente e ele já adivinhava como seria seu umbigo, seus pelos, seus pés. Estava completamente pego por aquela moça.)

É aquele velho clichê, sobre como uma vida pode seguir por caminhos completamente inesperados, imprevisíveis. E a de nosso amigo professor começou a mudar durante aquela caneca de café. Após o último gole, subitamente, em um instante quase mágico, o professor se levantou e foi até o sofá onde Lulu, em um misto de caça e caçadora, sorria satisfeita. Ela ainda sorria quando os lábios do professor tocaram os seus. E ainda sorria – agora com o olhar felino cravado no rosto do professor – enquanto este lhe carregava, de modo piegas e desajeitado, para o quarto de casal, deitando sua jovem amante na cama onde dormia com a esposa então ausente. Sentia-se forte, jovem e vigoroso tanto ao carregá-la nos braços quanto por fazer amor durante horas com sua lindíssima aluna – que permanecia perfumada mesmo depois do sexo. Antes de adormecerem, porém, Lulu disse algo que pode ter sido a gota d’água para seu professor.

– Confesse: quando Estela falou em ir para a cama comigo e com um homem, o senhor se imaginou sendo esse homem, não é?

Completamente surpreso, o professor quase se sentou na cama para olhar para o rosto de Lulu. Não, absolutamente! Por uma espécie de virtude – ou vício, mas de qualquer forma uma hábito – de pensamento, o professor não costumava imaginar coisas que não se via como capaz de realizar. E levar duas alunas para a cama, não, isso não lhe parecia nem remotamente possível! Ao perguntar se era isso que ela realmente supunha que ele havia pensado.

– Imaginei que sim. Achei que tinha ficado claro que gostaria que fosse o senhor, depois que lhe olhei daquela forma tão logo ela disse aquilo. – “Daquela forma”. Ela sabia que o olhar felino era, afinal, um instrumento de jogo.

– Você gostaria? Digo, você gostou da ideia de Estela?

– Claro!

O professor estava perplexo. Depois de toda a bebedeira madrugada adentro e das horas de sexo com Lulu, aquela reflexão era como uma dose de anfetamina que lhe acordava. Naquele instante, meio sentado e meio deitado na cama de casal onde dormia com sua segunda esposa, mas acompanhado de sua aluna-amante de frutado aroma, o professor estabeleceu uma nova meta para sua vida: levar, juntas, Lulu e Estela para a cama.

Muito sensível a valores éticos, se separou da mulher. Não queria se sentir traindo ninguém. Sem conseguir se justificar de modo minimamente razoável para a decisão repentina, teve de assistir sua segunda companheira passar a semana levando seus pertences para a casa da mãe. Mesmo fazendo um escândalo por dia e alarmando toda a vizinhança, o professor foi irredutível: queria se separar. Ela levou seus livros, discos, roupas, plantas, incensos. Deixou os gatos, todos, na casa do professor. Que, de volta à vida de solteiro, não tinha a menor paciência com os felinos e suas necessidades: já negligenciava nos primeiros dias a ração e o espaço para as necessidades fisiológicas dos animais. Mas, ao menos, não tinha qualquer nostalgia da união anterior.

Os meses de férias foram transformando a casa do professor em um genuíno pardieiro. Lulu ainda quis encontrá-lo umas duas ou três vezes, mas o professor, com vergonha da própria falta de organização e asseio, já preferia levar sua amiga (que finalmente havia deixado de chamá-lo de “senhor”) para um motel. Some-se à falta de organização do professor o fato de que no único dia em que esperava sua amiga em casa – e já via sua figura surgindo ao longe na rua – sua primeira esposa, ao passar de carro e vê-lo em frente a própria casa, parou para conversar com ele. Ao ver o olhar desesperado do professor, Lulu entendeu que devia esperar. Foi até uma lanchonete e voltou só meia-hora depois. Teve de ouvir um desconcertado professor de meia-idade dando explicações que ela nem sequer havia pedido.

O semestre começou e, durante os meses de aula, a turma viu um professor mais leve do que jamais se vira. Bem humorado e nitidamente empolgado, fazia piadas e brincadeiras que surpreendiam a todos por virem dele, sujeito razoavelmente sóbrio. O que ninguém percebia é que o professor investia, todos os dias, naquela mocinha que sentava à sua frente. Cada vez que via a risada de Estela (uma risada alta, aberta, na qual era quase sempre possível ver até mesmo a úvula da moça goela abaixo) o professor supunha estar mais e mais próximo de levá-la para a cama. Decidiu antecipar as coisas: não esperaria mais o fim do semestre, mas faria uma reunião com a turma em algum bar da cidade. E lá, então, faria a proposta. Lulu parecia ter entendido a intenção do professor e, como sempre, lhe sorria de modo felino à distância.

Depois da primeira prova, a turma se reuniu em um bar, como o professor gostaria. Lulu, ciente do que aconteceria naquela noite, já estava sentada próxima ao professor. Na medida em que iam chegando, o garçom – e depois os garçons, haja visto que era preciso atender quase vinte pessoas – ia juntando mesas e fazendo uma longa fila. Estela chegou e Lulu tratou de chamá-la para perto dela própria. Assim, entre o professor e Estela estava sentada Lulu. O professor já sentia seu coração bater acelerado.

Duas horas e algumas rodadas de bebida depois, o professor já constatava risadinhas de cumplicidade entre Lulu e Estela. Chegou a supor que o terreno estava preparado pela amiga, mas não era o caso. Empolgado, então, pediu para que Lulu trocasse de lugar com Estela, o que foi feito imediatamente. Estela sentou ao lado do professor, entre ele e Lulu. Estava claramente curiosa sobre o que o professor gostaria de compartilhar com ela.

– Então Estela… estávamos aqui pensando, Lulu e eu… se você não gostaria de fazer uma coisa conosco.

– O senhor fuma… digo, o senhor usa…? – Tentava Estela perguntar com expressão de espanto, entendendo que o convite era pra outra coisa. O professor riu e voltou ao ponto.

– Não, não é isso. Estávamos pensando em uma coisa que você disse em minha casa, na festa de encerramento do fim do semestre. – O professor sorria de forma felina, sem perceber, com olhar cáustico e intimidatório pousado sobre a moça que, um pouco confusa, tinha dificuldade em lembrar o que exatamente tinha dito.

– O que exatamente professor? Não estou lembrando…

A atitude da mocinha era honesta. Será que era uma boa ideia continuar com isso? Ora, é claro que sim! Que outra coisa fazer depois que se decidiu reorganizar toda a vida em torno dessa possibilidade (era mesmo uma possibilidade? Algo no interior da consciência do professor – uma vozinha muito baixa – já parecia dizer que não)? Agora era a hora de levar a situação ao seu limite.

– Não se lembra que, no colo de Lulu, pouco antes de lhe dar um beijo, você disse que gostaria de ir para a cama com ela? Mas que o ideal era que junto com vocês houvesse um homem?

O sorriso do professor foi se desfazendo no mesmo ritmo em que a perplexidade de Estela parecia ebulir como uma chaleira, como um vulcão. A menina ficou corada e ofegante em poucos segundos, e se levantou, derrubando a própria cadeira e batendo com o próprio joelho na mesa, fazendo caírem sobre esta alguns dos copos e garrafas que ali estavam. Lulu, que estava virada de costas para Estela enquanto conversava com outro colega, se virou rápido para a amiga (na verdade, o bar inteiro olhava para Estela nesse momento). Foi a primeira vez que o professor viu o olhar felino de Lulu desarmado.

– Seu nojento! Nojento, asqueroso! Meu Deus, meu Deus, que asco! – gritava Estela, enquanto o bar todo já olhava para ela. – E você Lulu, você sabia disso? Sabia? Você faz parte dessa nojeira? Quem vocês pensam que eu sou? O que vocês pensam que eu sou?

Um colega de Estela atravessou a longa mesa formada por mesas encostadas e se aproximou de Estela, perguntando o que houve. Enquanto o professor pagava a conta do que fora consumido até então – e Lulu arrumava suas coisas para, junto com o professor, sair daquele lugar tão logo quanto fosse possível – Estela contava em detalhes sórdidos (que não ocorreram) a proposta obscena e vulgar do professor e da sua até então considerada amiga Lulu. O professor sentia as mãos formigando enquanto pagava a conta. Tinha vontade de estrangular aquela gralha, aquela galinha que não parava de cacarejar, aquele animalzinho (cuja simples imagem mental, agora, lhe causava também asco) parecido com a evolução biológica de algo como uma lagartixa. Foi embora com Lulu mas teve certeza que já fora do estabelecimento ainda conseguia ouvir os xingamentos de Estela abafados pela música do ambiente. Tomou um táxi e foi com Lulu para o motel, pedindo apena para o motorista fazer uma parada para que ele pudesse comprar um maço de cigarros. Chegando ao motel, não fizeram amor e conversaram pouco. Ouviu, surpreso, um pedido de desculpas de Lulu. Segurou-a pelos ombros e lhe beijou a testa, enfatizando que ela não tinha qualquer responsabilidade pelo acontecido. Passou algum tempo olhando pela janela e fumando cigarros.

As semanas seguintes foram algumas das piores da vida do professor. Pediu para um médico amigo seu emitir um laudo que justificasse meses de ausência. Começou a procurar outro emprego e a encaixotar suas coisas para uma mudança. O escândalo de Estela aproximou as vítimas: Lulu e o professor se encontravam quase três vezes por semana. Lulu, que começou sua aluna, se tornou amante e depois amiga, agora tinha momentos em que lhe lembrava uma irmã: em mais da metade das visitas Lulu demonstrava apenas querer ficar por perto, sem qualquer intenção erótica. Ajudava-o a encaixotar coisas ou lavava a louça e as roupas do professor. Também se tornou amiga dos três gatos (um deles havia simplesmente desaparecido), como se fosse secretamente uma felina também. Para fugir ao incômodo de conviver com aquela turma, Lulu havia decidido voltar para a faculdade de medicina.

No semestre seguinte, o professor já estava trabalhando em uma faculdade menos renomada e morando no outro lado da cidade. Lulu lhe contou que ficou sabendo, através de um dos antigos colegas da turma (como assim, ela ainda tinha contatos dentro daquela turma? iria para a cama com algum daqueles moleques?) que em uma noite de bebedeira e aos prantos, Estela havia contado aos colegas – que já estavam acostumados às reações sempre exageradas de Estela – que ela era, na verdade, virgem (aquela cesta de presentes eróticos de Estela era, afinal, uma cesta de souvenirs de um país desconhecido por ela própria). O professor já sabia que Estela devia estar arrependida, mas fazia questão de rasgar a correspondência e deletar os e-mails que ela enviava. À essa altura, Lulu visitava o professor todos os dias e já era mais dona dos gatos que ele. Em um desses dias, depois de ouvir quase uma dezena de comentários de Lulu sobre como deveria viver em sua própria casa, o professor percebeu: estava novamente diante de seu patíbulo. Naquele preciso momento em que ele e Lulu olhavam para o teto depois do amor era o momento mágico no qual ele poderia fazer a opção: ou silenciava e deixava a situação evoluir por si (como uma doença), ou colocava a corda ao redor do próprio pescoço e pedia para Lulu chutar o degrau, tal como faria um personagem de Kafka. O que estava fora de cogitação era pedir para Lulu sair de sua vida: eram irmãos na tragédia, e se alguém devia querer sair da vida do professor era ela. Mas, ele sabia, ela não quereria.

– Quer vir morar comigo? – Disse o professor. Lulu se virou. O olhar felino – seu encanto, sua mágica – estava ausente. O que se via era uma expressão feminina genérica na qual o tempo, irônico, convertia a de todas as suas amantes.

– É isso que você quer?

“Não, não, não! É claro que não! Eu queria você e Estela nuas, na minha cama! E queria que pela manhã vocês tivessem partido para suas próprias vidas! Ah, e também quero meu antigo emprego de volta!”, pensou o professor, enquanto sorria com ar beatífico e respondia “sim”. Lulu sorriu, o beijou languidamente e ele pôde sentir a dor da corda imaginária apertando seu pescoço, enquanto imaginava a si mesmo enforcado, e Lulu, sua amiga, lhe fazendo o último carinho no rosto enquanto sua vida se esvaia.

Em três dias, Lulu havia saído da casa dos pais e já estava devidamente instalada na casa do professor. E o professor estava, pela terceira vez, vivendo junto de uma mulher. E ainda no primeiro semestre em que viviam juntos, houve um episódio muito desagradável: a segunda esposa do professor bateu à porta da nova casa do, agora, novo casal. Foi atendida por Lulu.

– Você é a depravada que vive com meu ex?

Ao ouvir – ao longe, de seu escritório nos fundos da casa – aquela voz tão conhecida quanto já irritante, o professor saiu correndo e foi até a porta da própria casa. Pediu para Lulu sair. Lá estava sua segunda esposa e, atrás dela, na rua, um homem gordo de quase sessenta anos.

– O que você quer?

– O que eu quero? Eu quero meus gatos! Ou você achou que eu ia deixar eles com você? Amooor! – Disse gritando para o gorducho do lado de fora – Traga as gaiolinhas que vamos levar os gatos. – E o professor viu o sujeito pegar quatro gaiolinhas. Três deles estavam guardados, ao que a ex do professor percebeu a falta do quarto gato.

– Cadê o Lulu? – Sim, naquele instante o professor se lembrou que aquele maldito gato idiota (o mais arredio de todos, que vivia lhe arranhando os braços) era chamado de Lulu por sua ex. A Lulu do professor – também felina mas humana – olhou com visível irritação para aquela mulher que levava seus gatos. Com ambas diante do seu campo de visão, o professor sentiu uma vertigem ao perceber o quanto eram fisicamente parecidas: a ex era quase dez anos mais velha que Lulu, e parecia uma versão alternativa desta, vinda do futuro. Era como se ambas só pudessem coexistir por uma espécie de falha na programação da realidade.

– Ele fugiu, ainda na outra casa. Não faço a menor ideia de onde ele esteja.

A ex soltou as gaiolas no chão sem o menor cuidado, ao que se ouviram miados de gatos engaiolados e assustados. A ex estapeava o professor lhe dizendo ofensas sem fim. O gorducho pegou sua ex como se pega um gato, e disse “Calma amor, calma…”. Tinha um olhar submisso e cansado, e o professor sentiu um calafrio: aquele homem era uma versão dele próprio assim como a ex parecia uma versão de Lulu. Ainda era possível ouvir as ofensas de sua ex enquanto seu carro partia. Depois da confusão, o professor olhou para Lulu que, de braços cruzados e recostada à passagem entre sala e cozinha, tinha os olhos cheios de lágrimas. Entendeu na hora: ela já amava aqueles gatos. Se aproximou dela, segurou-a pelos ombros e lhe beijou a testa. Prometeu gatos novos. Ela sorriu, agradeceu e, enquanto tirava o feijão da panela, olhou para o professor sem o menor traço felino no olhar, mas apenas melancolia, e disse:

– Mas certas coisas não são substituíveis, não é professor?

O professor já não sabia. Falava dessas coisas em sala de aula, mas já não sabia. O que é substituível? Suas companheiras não representavam, sucessivamente, a personificação de uma mulher genérica e informe? Não eram precisamente substituídas por uma versão convencional e insossa de si mesmas, na medida em que deixavam de ser o que eram para se transformarem nessa personagem impessoal? Aquele casal que acabava de partir com os gatos não era uma versão deles próprios? Em algum momento de nossas vidas somos indivíduos, ou apenas exemplares de tipos produzidos no atacado por um mundo cego e indiferente? Ainda era cedo para saber como aconteceria com Lulu e ele próprio. O consolo do professor era que o olhar felino de Lulu, vez por outra, escapava dos escombros produzidos pelo gradativo desmoronamento do seu eu. Desnecessário dizer que em pouco tempo Lulu já tecia comentários pejorativos sobre infidelidades, libertinagem e promiscuidade. Como se nada tivesse acontecido. Porque, afinal, também é sobre aquele velho clichê do quanto a vida pode, às vezes, ser irônica. O olhar felino era, percebia o professor, seu único consolo. Afinal, nas festas de final de semestre com os novos alunos, Lulu estava sempre presente.

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Jacques, o fatalista (e seu amo)

Semana passada aconteceu, nas redes sociais, uma brincadeira que consistia em listar os dez livros favoritos e passar a corrente para dez amigos. Fiz a lista. Optei por excluir os livros de filosofia, haja visto que eles sempre se me aparecem metade como prazer, mas metade como dever (e todos sabemos da disjunção exclusiva que existe – e é bom que exista – entre prazer e dever). Um amigo disse que escolhi “uma linha” de literatura para mencionar, dada a aparente familiaridade entre a maior parte dos autores citados. Tive de dizer que na verdade essa “linha” é precisamente dos romances que leio: não há outros. Assim como não li Cervantes, não li Agatha Christie, por exemplo. Segue a lista com pequenos comentários, da mesma forma que postei nas redes:

01. “A Imortalidade”, Milan Kundera – o romance mais inteligente e bem construído que já li.

02. “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera – o clássico do meu autor favorito é, além disso, pra mim, o texto mais “existencialista” já escrito.

03. “O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – uma escola de imoralismo. O tom sentencioso tira o fôlego. Dá vontade de sublinhar todo.

04. “O Lobo da Estepe”, Hermann Hesse – um romance místico e essencial a todos os “habitantes de dois mundos”.

05. “Tom Jones”, Henry Fielding – li por “recomendação do Kundera” e me surpreendi ao descobrir que o romance começou como aventura.

06. “Memórias do Subsolo”, Fiódor Dostoievski – um amigo diz (ou já disse) que a obra de Nietzsche é comentário à Dostoievski. Arrisco dizer que isso procede e se refere a primeira parte desse livro.

07. “O Estrangeiro”, Albert Camus – um verdadeiro laboratório filosófico. Ação gratuita, liberdade de indiferença, está tudo aqui e magistralmente composto.

08. “Noite”, Érico Veríssimo – o romance mais “dark” que já li. Pesado, claustrofóbico e escrito pela pena de um dos melhores escritores da língua portuguesa. Quem gosta de David Lynch (ou até de Silent Hill) deveria ler esse romance.

09. “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Milan Kundera – mais uma obra prima de composição desse tcheco, que demonstra nesse livro que um romance não precisa ser presidido por uma story, mas pode ser organizado em toro do “tema e suas variações”.

10. “A Náusea”, Jean-Paul Sartre – o “discurso do método” do existencialismo demorou a me pegar. Só passei a apreciar quando achei que entendi mais ou menos a filosofia de Sartre.

Menção honrosa: “Jacques, o fatalista, e seu amo”, Denis Diderot (ainda não li todo) – mais uma recomendação do Kundera, esse romance é uma farra, uma brincadeira, um romance cômico onde só se vê uma tempestade de episódios.

Este fim de semana, concluí a leitura do Jacques. E ele tem que entrar nessa lista.

Como disse meu amigo, essa minha lista de dez tem uma “linha”. Tem um “estilo”. Compartilhariam muitas tags, por assim dizer. Exceto talvez pelo Tom Jones de Fielding, lido por mim há seis ou sete anos atrás, todos os demais são livros mais sombrios ou ao menos “existencialistas”. E o Jacques de Diderot se infiltra nessa lista para ampliar a fenda nessa barragem, pois é uma obra que para mim se impôs pela genialidade formal, e não exatamente pelo seu conteúdo.

O enredo seria de simples descrição, caso essa descrição fosse possível, e eis o começo da genialidade: é a história de Jacques e seu amo vindo de não se sabe onde e indodiderot-jacques-le-fataliste-auberge para algum lugar que também ignoramos. O que poderia parecer um tema de mistério é, na verdade, resultado da implosão da barreira entre leitor e escritor: Diderot literalmente brinca o tempo todo, deixando claro que a substância do presente, do passado e do futuro de Jacques e seu amo depende total e inteiramente das escolhas narrativas que ele fizer. Conversando o tempo inteiro com o leitor, Diderot cria um clima completamente favorável para um tipo de fruição completamente desconhecido àqueles que entram na literatura pelo “subsolo”. Diderot conversa, brinca, troça, interrompe constantemente a narrativa de Jacques para falar de qualquer outra coisa, desde episódios reais de sua vida pessoal até digressões completamente irrelevantes para a story de Jacques e seu amo.

Denis Diderot

Denis Diderot

Jacques, o fatalista, e seu amo é reconhecidamente uma obra inspirada em um outro romance famoso por sua liberdade narrativa: The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, de Lawrence Sterne. Os pesquisadores não tem uma posição definitiva sobre se Diderot teria mesmo recebido pessoalmente alguns capítulos de Tristram Shandy do próprio autor, mas têm certeza de que o francês teve contato com a obra do inglês (há mesmo uma referência direta, quase ao final do romance, a Sterne). Embora ainda não tenha lido Sterne (encontra-se na internet uma versão PDF do texto original, em inglês), está na minha lista em função de ser, como foi Tom Jones, um dos romances preferidos de Milan Kundera – que é, por sua vez, meu romancista preferido. Segundo Kundera, Jacques e Tristram Shandy são dois exercícios de liberdade narrativa que injustamente não fizeram escola. Duas obras que têm em germe uma potencialidade inexplorada pela arte romanesca.

Finalmente, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi que Jacques é um fatalista, e a implosão da barreira entre escritor e leitor revela nitidamente os fios através dos quais o escritor de fato “controla” os personagens e o ambiente da narrativa. Se “tudo já está escrito no pergaminho lá de cima” como diz Jacques, essa afirmação tem dois sentidos: metafísica para Jacques e metalinguística para o leitor, que constata nas inúmeras interrupções de Diderot a efetiva onipotência do escritor sobre o cenário.

Ah, eu havia começado a falar do enredo, não? Pois então. O enredo é a história de Jacques e seu amo viajando não se sabe de onde e nem para onde. E enquanto viajam, o par e seu mestre Diderot nos divertem com histórias vividas e narradas. Histórias de amores, de traições e de contendas, regadas à muito vinho. Quais sejam essas histórias que preenchem as duzentos e cinquenta páginas do romance, é o que menos importa. A lição que Diderot me deixa é precisamente essa: que a despeito do eventual fatalismo, as existências individuais podem ser pensadas – e talvez vividas – como sendo constituídas de uma substância tão efêmera e contingente que assumem a forma – e mesmo o conteúdo – que lhes dermos ao lhes narrar.

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PS: Quando comecei a ler Jacques, comecei também a assistir os episódios de Seinfeld. Inevitavelmente imaginei Jacques com a aparência de Michael Richards, ator que faz o papel de Cosmo Kramer.

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Please Remember

Seis acasos levaram Tereza até Tomas, em A insustentável leveza do ser. Penso que menos acasos me levaram a descobrir “Please Remember“, canção da banda Deafheaven. Não faço menção a obra de Kundera por acaso ou obsessão, porém: no início da canção, entre camadas e mais camadas de guitarras “atmosfericas”, ouvimos Stéphane Paut – o Neige, da banda Alcest – ler um trecho da referida obra. Cito:

“Twisting and turning beside the slumbering Tereza, he recalled something she had told him a long time before in the course of an insignificant conversation. They had been talking about his friend Z. when she announced, If I hadn’t met you, I’d certainly have fallen in love with him. Even then, her words had left Tomas in a strange state of melancholy, and now he realized it was only a matter of chance that Tereza loved him and not his friend Z. Apart from her consummated love for Tomas, there were, in the realm of possibility, an infinite number of unconsummated loves for other men. We all reject out of hand the idea that the love of our life may be something light or weightless; we presume our love is what must be, that without it our life would no longer be the same; we feel that Beethoven himself, gloomy and awe-inspiring, is playing the Es muss sein! to our own great love.”

Que traduzido para o português, fica mais ou menos assim:

“Virava-se na cama, ao lado de Tereza que já dormia, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ‘Se não tivesse encontrado você, teria me apaixonado por ele.’ Já nessa época, essas palavras o tinham feito mergulhar numa estranha melancolia. Com efeito, compreendera de súbito que Tereza se apaixonara por ele e não por Z. perfeitamente por acaso. Que, para lá do seu amor por Tomas, já realizado, havia no reino dos possíveis um número infinito de amores não realizados por outros homens. Acreditamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu Es muss sein! para nosso grande amor.”

Essa passagem está no décimo sétimo capítulo da primeira parte do romance, que é onde Tomas percebe que sua união com Tereza não é necessária, mas contingente. Ou seja: nada ligava Tomas a Tereza, senão o acaso. Tomas só percebe isso depois de voltar para Tereza. No instante da percepção dessa absoluta contingência, a compaixão sai de cena e o coração – e o estômago, segundo as palavras do próprio Kundera – de Tomas é tomado pelo desespero. Foi preciso voltar para Tereza para perceber que ela não precisava dele, afinal. Após nos oferecer a cena do desespero de Tomas, Kundera encerra a primeira das sete partes do romance.

Tomas e Tereza

Tomas e Tereza

Na canção, a voz sussurrante de Neige murmura o trecho ao som de guitarras oníricas, psicodélicas, delirantes. Repetindo a palavra “love” como um mantra ao final da leitura, somos conduzidos à um clímax de poluição sonora que, em seguida, dá lugar à um melancólico violão acústico, que sustenta por mais três minutos a atmosfera de fragilidade e contingência sugerida pelo trecho recitado. Para quem quiser conferir, segue um link:

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Excertos do Subsolo – “Meu Corpo”

O primeiro significante decisivo foi a expressão “meu corpo”. Naquele momento prestei atenção ao que ela dizia. Ouvi-la dizer “meu corpo” com aquela languidez e displicência trouxe novamente minha atenção àquela conversa. A fumaça do cigarro e o café amargo sobre a mesa já eram, então, significantes gastos: ela os consumia mais por insegurança do que por gosto. Achava que essas coisas conferiam um ar de maturidade, de segurança, até mesmo de inteligência. Mesmo assim, eu entendia: ela era profundamente triste.

Charlotte Gainsbourg

Nunca conheci uma pessoa que se sentisse tão sozinha e não percebesse. Ela evidentemente tinha amigos, colegas, família. Mas ninguém lhe conferia o reconhecimento de que ela precisava para se sentir uma pessoa. Não havia um olhar sequer que a visse como ela era e, assim, lhe conferisse o valor desejado. Sentia-se um peso, um fardo, um inconveniente incômodo que uns e outros carregavam por piedade, e não por amor. E há muito tempo havia empreendido no caminho de tentar cultivar uma personalidade a partir da qual ela pudesse se amar.

Esse culto começou com o corpo. Tinha a sorte de ser bonita, de se achar bonita e se sentir bonita mesmo que soubesse que seu corpo não estivesse nos padrões de excelência das exigências da sociedade. Tinha a melhor das belezas, que é a beleza daqueles que se sentem belos. Durante anos a nudez diante do espelho foi um vício metade secreto, metade dividido com os amantes que tinham a sensibilidade de perceber o tempo excessivo que ela dispensava diante do espelho se examinando, aplicando cosméticos e penteando os cabelos.

Charlotte Gainsbourg

Não tardou, aliás, para que ela descobrisse que o corpo era um modo de tentar fazer as pessoas gostarem dela. E ela tentou. E algumas pessoas, evidentemente, gostaram do seu corpo. Talvez nesse momento – e esse é meu palpite, minha hipótese – ela tenha se “descolado” do próprio corpo, tenha percebido o próprio corpo como objeto de desejo dela própria. Desconfio disso quando a vejo enrodilhar o cabelo ou passar o polegar no lábio inferior, de um lado para o outro, enquanto tenta se lembrar de alguma coisa.

Lembro que a primeira vez que conversei com ela foi em uma reunião na casa de amigos. Ela estava contando sobre um livro que havia lido, um livro muito lido mas que credencia um certo refinamento ao círculo que o lê. Ela falava com uma empolgação desproporcional, era o centro das atenções do grupo de pessoas e sabia que estava linda, chamando atenção com o que dizia enquanto segurava o cigarro e contava como suas próprias vivências eram parecidas com as da narrativa no livro. Em um daqueles momentos mágicos, ela deu uma gargalhada e houve um estrondo. A luz se apagou e vimos que o carro do entregador de pizza havia se chocado contra o poste. Passaríamos a madrugada sem energia elétrica. Comeríamos a pizza e ela, percebi, ficaria de mau humor até ser o centro das atenções novamente. Percebi isso. E ganhei seu “corpo” quando disse que a gargalhada dela havia “causado” aquele episódio como as gargalhadas das feiticeiras produziam raios. Depois disso, vi seu sorriso se abrir em um segundo, e seu corpo em alguns minutos.

Foi naquela noite que ela usou o significante decisivo. A palavra mágica, que a fazia usar o corpo como se fosse um soldado em uma missão de reconhecimento de uma terra à ser conquistada. “Meu corpo”, como se fosse “meu soldado”. Naquela noite, eu era o território. E aquele corpo-soldado enfrentaria sua missão com certa alegria, mas com a expectativa da vitória. Aquele corpo-soldado, conquistador de um território novo, estava a serviço de um general insaciável e quase invisível, que era sua alma. O corpo-soldado sabia se satisfazer, mas o general não. Quando percebi, mantive certa distância.

charlotte gainsbourg_2-592Vi outros territórios sendo conquistados, um a um. E nas próprias reuniões, na casa de amigos, vi seu nome se tornar comentário em função da rápida e fácil troca de amantes com a qual ela se presenteava. Tomavam-na por promíscua, ninfomaníaca, faziam julgamentos morais em cochichos há poucos metros de distância. Duas das moças que comentavam tinham seus namorados e pareciam esquecer que eu já as ouvira falando do quanto se perde em diversão em um relacionamento sério, do quanto sentiam falta da empolgação, da novidade ou mesmo de se sentirem olhadas com desejo por um desconhecido. Ouvindo esses comentários eu quase me sensibilizava. Tinha vontade de dizer àquelas mulheres rancorosas que elas eram as vilãs! Que elas lutavam contra desejos que, por capricho e frescura, reprimiam, enquanto aquela outra sim era uma santa, uma santa que lutava com todas as suas forças para ser alguém. Bêbado, tinha vontade de me jogar aos pés dela e dizer que a entendia, que entendia tudo o que a atormentava, que lhe daria amor até o fim dos seus dias, que viveria com o escravo do qual ela precisava do olhar vigilante para afastar seu medo de desaparecer no esquecimento de todos! Mas, aquela noite ela escolheu outra pessoa e eu fui para a casa de táxi.

(O interessante daquela noite é que ela escolheu a companhia de uma mulher, o que só dá mais força à minha teoria: seu corpo era um soldado em busca de um olhar qualificado, que enxergasse sua alma. Saber apreciar outro corpo feminino explicava também como e porque a expressão mágica “meu corpo” era pronunciada com tanta languidez e sensualidade: ela achava a si mesma uma mulher desejável e sua alma desejava o próprio corpo, como se fosse o corpo de um outro.)

Aquele dia foi decisivo nessa história. Porque levei algumas semanas para tomar consciência de que uma eventual história entre nós não passava de uma companhia imaginária que criei para mim mesmo. Achei que a seduziria com algum mistério e palavras certas, mas nesses jogos de forças ela sempre tinha de ser quase sempre o pólo mais forte, que seduz e decide. Ela não faria, e não fez, nenhum esforço para ficar comigo.

E então se passaram quase dez anos.

E ela permanece absolutamente a mesma. Continuou tomando café sem açúcar e fumando em função do culto de si mesma, tarefa que ainda não completou. Não me surpreende que não lembre com nitidez daqueles dias: estava tão ocupada de si mesma que não teria podido perceber a riqueza do que a cercava. Mesmo hoje, ainda parece um tanto quanto enredada nessa tarefa difícil. Para mim não é difícil notar a tristeza com a qual fala “meu corpo”, como se referisse a um amigo com o qual ela foi negligente e, às vezes, cruel. Se a expressão mágica ainda surge naturalmente em suas palavras, é porque ainda não desistiu desse caminho e segue enviando esse soldado – ainda jovem, mas já cansado – para a batalha em busca de um território no qual possa descansar. Percebo, pelo comentário acerca do seu casamento frustrado e alguns outros, que ela já sabe o suficiente sobre si mesma para perceber que é vista por muitos como uma libertina, uma depravada, embora ela própria já o saiba que não é, mesmo que tal pecha seja conseqüência quase inevitável da vida que leva. Quando demonstro compreendê-la, ela sorri e me olha nos olhos. Desvio rápido. Não quero que ela suponha, por um instante sequer, que nesse momento mágico eu a amo, que a amo com uma compreensão total, e quase com uma devoção. Antes de ela ir embora, peço a última tragada do seu cigarro. Ela não nota, mas o apago delicadamente no cinzeiro, sem amassar o filtro. Nos beijamos no rosto e eu a desejo “tudo de bom”, muita sorte na vida, e essas coisas. Vejo seu corpo desaparecer na avenida, sumindo na multidão, mais linda do que há anos atrás. Guardo aquele filtro de cigarro, com uma delicada mancha de batom, enrolado em um pedaço de papel.

Charlotte Gainsbourg

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A melancolia de Ernildo Stein

Capa do livro

Capa do livro

Algumas leituras serão decisivas, para o resto da vida. No caso de quem se ocupa de filosofia, essa “vida” pode ter pelo menos duas ou três dimensões: pessoal, filosófica e acadêmica. Em alguns casos, essas duas últimas podem coincidir de forma harmônica, quase se sobrepondo, se identificando. Em outros casos, a vida propriamente filosófica poderá se constituir como uma vida paralela – ou até secreta – em relação àquilo que se escreve e publica. Esse comentário está mesmo, penso, em harmonia com a apresentação da obra da qual falarei nesta postagem. E estar falando dessa obra é estar, ao mesmo tempo, tentar construir uma ponte entre a vida filosófica e a vida acadêmica. Não que este espaço seja acadêmico, longe disso. Mas em se tratando de uma obra ensaística da qual já me arrisquei a falar em uma ou duas comunicações, penso que já seja adequado prestar – aqui também, onde tento não ser acadêmico – uma humilde homenagem.

Refiro-me, como a imagem já mostra, à Melancolia, de Ernildo Stein. Obra de 1976, é composta por 14 ensaios escritos entre 1968 e 1976. Escrita de forma leve mas constituída por conteúdo extremamente denso, a obra apresenta as reflexões do autor acerca da articulação dos conceitos de “transcendência” e “finitude” na história da metafísica. Inspirado na metáfora do pombo kantiano – que supõe ingenuamente que seria mais fácil voar sem o vácuo que lhe dá sustento – Stein mostra que é possível recortar a filosofia ocidental a partir do modo através do qual esses conceitos se relacionaram. Assim, teríamos três grandes momentos: 1) o momento mais-que-filosófico (teológico, medieval, cristão), no qual a filosofia cumpria uma função de “secretariado” da teologia; 2) o momento propriamente filosófico (Hegel), no qual o pensar apanha o ser e as estruturas lógicas são também ontológicas; e 3) o momento menos-que-filosófico, no qual a ontologia existencial assume a tarefa do pensamento no horizonte da finitude. Que é, desde Hegel, o que nos resta como tarefa.

Essa tarefa, aliás, parece ser o que dá sentido ao título da obra. Logo no início Stein nos convida a pensar a melancolia como a experiência privilegiada que nos abre para a atmosfera existencial da finitude. Assinalo que talvez essa experiência não seja a única, haja visto a montanha de palavras que um Kierkegaard escreveu sobre a experiência do desespero, por exemplo. Contudo, a melancolia de Stein seria, em minha opinião, a experiência mais autêntica no que tange ao contato com a própria condição de finitude. Assumindo que Heidegger continua e radicaliza a tarefa kantiana de reflexão sobre a finita condição humana, Stein nos sugere que a transcendência é libertadora quando pensada como rescendência, e que na atmosfera da finitude a autêntica tarefa do pensamento genuinamente filosófico se torna possível. Libertos dos significantes despóticos aos quais a filosofia esteve historicamente sujeita, a filosofia, a partir da melancolia e da ontologia existencial, pode se assumir como tarefa humana.

Melancolia é um texto que certamente não pretendia, mas pode ter um caráter exortativo à estudantes, professores e pesquisadores que, “machucados pelo instrumento que manejam”, desejam respirar o ar puro da reflexão original. Por outro lado, para aqueles que reconhecem a eventual diferença entre a vida filosófica e a acadêmica mas reconhecem o relativo valor desta última, Stein nos oferece uma belíssima chave-de-leitura da história da filosofia, seccionada em quatro momentos: filosofia ontológico-metafísica (dos gregos até a modernidade), filosofia lógico-gnosiológica (Kant), filosofia lógico-ontológica (Hegel) e ontologia existencial (Heidegger). Pessoalmente, como leitor e pesquisador de Sartre e que teve sua entrada neste autor pela obra de Gerd Bornheim, Melancolia era o aporte teórico de que eu precisava para ver um pouco mais do iceberg que subjaz à ontologia fenomenológica do filósofo francês. Curiosamente (e o nota o próprio Stein) a obra literária mais famosa de Sartre, seu romance A Náusea, tinha como título provisório justamente “Melancolia”.

Comentar uma obra de 1976 e que, segundo fontes, já não é grandemente estimada mesmo pelo próprio autor parece uma empreitada inútil, e confesso que quero que o seja se isso significa não sacrificar o pensamento filosófico ao valor da utilidade (outro significante que, em minha opinião, pode ser despótico).

Para concluir e infelizmente sem tempo ou condições de comentar um a um os ensaios, me detenho por um instante naquele que parece ser o ensaio em torno do qual todos os outros fizeram sua órbita, embora tenha sido publicado já em 1968. Intitulado A ontologia da finitude e a tarefa da verdade na era do niilismo, o ensaio inicia com uma reflexão acerca de um resultado histórico da metafísica: a morte de Deus, cantada por Nietzsche e explorada por Camus quando este diz que o suicídio é uma questão de primeira ordem. Niilismo é a ausência do fundamento metafísico, mas retornar para a metafísica não parece muito razoável. A filosofia a finitude parece o único caminho através do qual se tornaria possível uma “conquista crítica e responsável da verdade na história humana”.

Com 125 páginas e publicado pela Editora Movimento, o livro parece poder ser encomendado pelo preço de R$25,00 (mas não tenho certeza: o site da editora ainda tem, em sua página inicial, link para o “catálogo 2011”). Tenho certeza de que constitui leitura agradável – e quiçá inesquecível – para interessados em metafísica e história da filosofia.

Crédito da imagem: Suzana Guerra Albornoz

Crédito da imagem: Suzana Albornoz

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Excertos do Subsolo – Monadologia

Eu estou preso em meu próprio mundo. Ele poderia ser um mundo perfeito e bastaria que eu quisesse para que ele fosse perfeito. Mas ele não é, e eu não sei porque eu não quero que seja: bastaria que eu quisesse saber, e saberia. Mas se eu não sei, é porque não quero saber. E sei que se você encontrar essa carta, vai aprender tudo o que eu sei e só poderá me ajudar se quiser dar o passo definitivo que eu não quero, não sei porque não quero e não sei sequer porque não quero saber. Estou preso num loop que arrisco chamar de amor esse, de amor por existir. Temo que no momento em que eu queira descobrir, eu descobrirei. E desaparecerei.

Isso tudo começou quando eu percebi uma regularidade entre meus desejos e as coisas que aconteciam ao meu redor. Quero dizer, não bastava desejar para que acontecesse. Se eu estivesse com sede, cansado ou com sono, não bastava “desejar” para que essas condições fossem sanadas, como se houvesse um gênio da lâmpada invisível ao meu lado. Mas as coisas das quais eu precisava simplesmente “apareciam” ao meu alcance, sem que às vezes eu soubesse como elas tinham ido parar lá. E eu demorei a acreditar, mas acontecia. Eu encontrava meus cadernos perdidos, minhas revistas velhas, um maço de cigarros. Percebi o absurdo da situação quando comecei a querer encontrar objetos impossíveis: desejei encontrar entre minhas coisas as roupas íntimas de uma pessoa com quem, digamos, nunca tive intimidades. E aconteceu. Tenho certeza que aconteceu porque consegui criar uma situação onde a pessoa confessou o desaparecimento do item. Naquele momento eu percebi que a vida que eu conhecia estava lentamente desaparecendo.

Primeiro, preciso me explicar acerca de um detalhe sobre como funciona essa coisa do desejo. Porque eu mesmo descobri por acaso, sem procurar. Descobri, como disse, percebendo uma regularidade. Uma regularidade muito simples: tudo o que eu “projetava” se realizava. Repito: não se trata de desejo como é o desejo por uma coisa específica – um copo de água, o corpo de uma pessoa, etc. Trata-se de algo muito mais sutil e distante: a visualização do futuro. O futuro visualizado é precisamente aquele para o qual estamos nos encaminhando. Como em geral sempre imaginamos intervalos de tempo muito grandes entre nosso presente e nossas realizações, não apenas não percebemos que produzimos o presente lá atrás como não notamos que estamos desenhando o futuro mentalmente agora. É por isso que a maioria de nós simplesmente não nota essa “lei” e acaba fazendo uma bagunça na tela onde, querendo ou não, desenhamos o futuro. E essa “lei” opera o tempo todo, e eu já não sei se ela é uma lei da realidade, uma lei minha ou mesmo o que sou eu. Mas, vamos por partes.

Com o tempo, os objetos foram ficando mais sofisticados. Eu era capaz de, pela força da minha vontade, fazer “surgirem” objetos mais complexos. Desde máquinas simples – uma tesoura, por exemplo – até objetos eletrônicos. Percebi, contudo, que quanto menos eu entendia dos objetos que criava, pior eles funcionavam. Nessa altura eu já admitia que todos os objetos que me cercavam eram feitos da mesma “matéria” que aqueles que eu criava, e me via obrigado a postular explicações parciais de como os responsáveis por sua fabricação ou manufatura tinham de estar razoavelmente informados acerca das etapas do processo de produção desses objetos. Da minha parte, eu conseguia produzir livros sem dificuldade. Romances com histórias inéditas, cujas páginas já apareciam escritas quando eu os criava, mas cujas histórias se revelavam – e, na minha opinião, passavam a existir – na medida em que eu os lia. “Criei” dessa forma alguns contos e dois romances com mais de mil páginas, da estatura de romances de um Tolkien. Eu não sabia, contudo, de onde vinham aquelas histórias. Afinal, eu criava os livros e desejava ser surpreendido por suas páginas. Alguma história deveria “se produzir” e eu não queria que fossem histórias que eu reconhecesse como criadas por minha imaginação consciente. Tive então de aceitar a existência de um inconsciente. Confesso que eu teria me perdido em investigações e especulações neste ponto da minha vida, se não tivesse conhecido Sabrina.

Wynona RiderSabrina era uma artista mas, como eu, trabalhava em um escritório de uma editora. Eu havia cursado faculdade de letras e trabalhava como revisor. Sabrina escrevia, cantava, dançava, tocava instrumentos, encenava e fazia tudo o que fosse necessário para cultivar uma ilha de fantasia que a mantivesse à salvo da feiura do mundo. Sua competência intelectual, contudo, lhe permitia excessos: era a única secretária à quem era permitido certos excessos, como usar roupas extravagantes e cabelos soltos no trabalho. O dono da editora era um desses homens que havia acumulado uma respeitável barriga de prosperidade graças ao sucesso de seus negócios. Como era mais um artista frustrado, simpatizou com ela. Diferentemente do que aconteceu com o resto do pessoal do escritório: um bando de metidos à besta que se vestiam todos segundo um enfadonho estilo rock inglês e não gostavam de Sabrina.

Eu, pessoalmente, me apaixonei por Sabrina. Ela surgia no exato momento em que eu precisava de emoção na minha vida: embora o que eu estivesse descobrindo pudesse ser comparável à um “superpoder”, eu não sabia o que queria ou deveria querer da vida. Assim, Sabrina surgia se destacando de um cotidiano insosso e indiferenciado. Nos tornamos inseparáveis em poucas semanas e fomos almas platônicas siamesas por dois meses. Fomos à shows, peças, uma vernissage e um luau. Redescobrimos todas as lojas de discos e livros usados e a vida parecia um sonho quando eu podia usar meus “poderes” para fazê-la encontrar os livros e discos que procurava. Achei que ela fosse perceber que havia alguma coisa errada quando estranhou o vinil do The Dark Side of The Moon que “criei” para ela. Como nunca fui fã do Pink Floyd, creio que acabei “criando” um objeto mal feito. Ela disse que achava que era uma edição rara, feita de “versões”, e que mostraria à um amigo que era fã de Pink Floyd. Para evitar problemas, “descriei” o disco e ela nunca descobriu onde o “esqueceu”.

Nessa época, percebi que eu desejava – ou seja, visualizava – a vida desejando a permanência de sua imprevisibilidade. Afinal, Sabrina se demitiu. Cobrei satisfações do dono da editora, e ele explicou que simplesmente não sabia porque ela havia se demitido. E parecia honesto. Tentei descobrir se alguém havia armado alguma cilada para ela. Nada. Pensei em me demitir e “criar” dinheiro para sobreviver enquanto procurava por ela. Mas estava ofendido pelo fato de que ela havia partido sem dar explicações – sobretudo e justamente para mim, seu melhor amigo! Depois de considerar as possibilidades, percebi que poderia tentar fazer algo que até então não tinha me ocorrido: usar meus “poderes” com seres humanos.

(Esse parece um passo ilógico nessa experiência: porque eu simplesmente não “criava” dinheiro? Por que não projetava que ele apareceria em grandes quantidades na conta ou na carteira? Eu não saberia explicar. Talvez por uma questão de temperamento. No fundo, acho que só descobri esse atalho mágico pelo simples fato de nunca ter possuído o atalho real, que é o próprio dinheiro. Se eu tivesse nascido rico, provavelmente resolveria o intervalo entre um projeto e sua realização de forma muito mais breve e não teria sequer a ocasião de perceber nada.)

Como eu já disse, não se tratava de desejar, mas de “projetar”. Claro que imediatamente quis que ela batesse na porta do meu apartamento e me desse as explicações. Evidentemente, não aconteceu. Estava irritado e emocionalmente comprometido demais com Sabrina para conseguir fazê-la “aparecer”. Naqueles dias eu ainda tinha medo e pensava que uma Sabrina que “aparecesse” seria “falsa” e que eu queria e precisava da “verdadeira Sabrina”. Então, tive um insight apropriado para aquele momento: devia projetar encontrá-la ao acaso. Ou seja: acreditar que era perfeitamente possível. Esquecer a ideia de que ela não queria me ver, me convencer de que ela saiu da editora por razões que eu entenderia e que, portanto, não havia partido para longe demais. Precisava acreditar que a encontraria na rua, que tomaríamos um café e que a partir de então poderíamos voltar à boa amizade de outrora.

Foi o que eu projetei, portanto, foi o que aconteceu. Com toda a imprevisibilidade e surpresa que eu apreciava. Um dia qualquer, esperando o semáforo abrir para atravessar uma rua. Um “oi” singelo e alegre. E lá estava ela, linda, com seu estilo extravagante e seus cabelos soltos. Sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Evidentemente, tomamos café e perguntei para ela as razões de sua demissão. Ela disse que precisava de emoção. E eu lembrei que ela surgia no exato momento em que eu precisava de emoção na minha vida. Pedi licença e fui até o banheiro lavar o rosto. Eu finalmente entendia o que estava acontecendo.

Evidentemente, Sabrina não era apenas uma “projeção” minha. Era uma pessoa real, com suas características, sua personalidade, sua vida. Sua presença e seu surgimento, sim, eram resultado da minha projeção. Ela surgiu e ela se foi em função do meu desejo de imprevisibilidade. Eu havia feito ela surgir e havia feito ela partir, porque foi o que eu quis. E meu desejo ressoava segundo uma “harmonia pré-estabelecida” com os desejos dela. Era, afinal, o melhor dos mundos possíveis mas nenhum mundo parecia menos real do que esse. Decidi fazer um teste e diante do enorme espelho do banheiro, tentei aquietar ao máximo minhas emoções para poder projetar algo específico e preciso: fazer sexo com ela. Se meu desejo – limpo das emoções e devidamente visualizado – estivesse em harmonia com as possibilidades dela, estaríamos em minha casa ainda naquele dia, nus, sobre a minha cama.

Desde aquele momento, a vida simplesmente começou a passar vertiginosamente rápido. Não apenas dormi com ela como também com muitas outras mulheres. Quando aprendi a diminuir o intervalo entre o projeto e a realização através da simples visualização – quando aprendi a me reprogramar e ver a vida diferentemente em qualquer momento – iniciei um processo cujas consequências eu mesmo não previa. Foi como ter apagado os contornos do mundo. Sabrina desapareceu num oceano difuso de lembranças, como muitas outras mulheres. A facilidade das realizações emparelhou todas as experiências me empurrando para um quietismo que eu mesmo não apreciava. Descobri – embora não venha ao caso como isso pode ser feito – que é possível até mesmo reescrever o próprio passado. Fui capaz de reviver e corrigir, dentro dos limites da “harmonia pré-estabelecia”, uma série de experiências significativas da minha própria vida, com todos os paradoxos que eu imaginava que são próprios das “viagens no tempo”. Nessa nova linha re-escrita, Sabrina reapareceu (como reapareceria em qualquer outro mundo possível). Mas seu lindo rosto e seu lindo corpo – conquistados mediante “truques” – agora eram mais símbolos do que qualquer outra coisa. Símbolos do meu persistente desejo por imprevisibilidade e surpresa. Neste novo mundo reescrito, Sabrina é uma boa amiga, um alter-ego que sabe o que fiz com meu mundo e minha vida, e que me ajuda – porque eu assim desejei – a entender a mim mesmo.

Depois de todo esse tempo, que já não se deixa mensurar, percebi que os objetos já não eram necessários. Eu era um pequeno universo e tudo acontecia dentro desse pequeno universo. As coisas e pessoas perderam gradativamente seu valor e eu entendi que eles eram apenas ocasiões para meu aprendizado intelectual e emocional. A vida na qual eu descobri esse truque ficou distante, em um universo de mundos possíveis. Eu já não vivia, e não conseguia diferenciar a vida de um sonho estranho. As pessoas que me cercavam se assemelhavam a simulacros delas próprias e eu as via como unidades virtuais, guiadas por um problema logarítmico que se expressava emocional e intelectualmente. O quanto eles percebiam isso determinava o quanto esse processo demoraria. Todos eram tão reais quanto todas as suas outras versões possíveis.

Se eu estou aqui, no limite dessa encosta, ao lado de Sabrina e escrevendo essa carta, isso apenas significa que eu ainda não desejei saber. Ainda não visualizei no horizonte um encontro casual com a solução desse mistério. Na verdade, acho que essa solução já está por aí, caminhando entre as pessoas, esperando que eu ou qualquer outro deseje encontrá-la. Mas deseje nesse sentido forte, projetando ser possível e orientando toda sua vida para isso. E cada dia novo que nasce e eu escolho viver é um dia de recusa. Recusa da solução, recusa da resposta. Cada dia que eu escolho afagar os cabelos de Sabrina e permanecer aqui é um dia de recusa do infinito. Essa recusa talvez seja o nosso maior mistério, o nosso maior segredo.

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Um “ano de Urano” de Milan Kundera

Hoje, 1º de abril de 2013, o escritor tcheco Milan Kundera – famoso por sua Insustentável leveza do ser – completa 84 anos. 84 anos, segundo a astronomia, é o tempo aproximado que o planeta Urano leva para orbitar em torno do sol. Esse dado astronômico tem outro significado se observado à luz da astrologia, ciência irmã da astronomia e, hoje, relegada à estupidez dos horóscopos de jornal. Mas se a astrologia perdeu há muito tempo o estatuto de ciência, isso não quer dizer que não  tenha sua própria sabedoria. Ao invés, contudo, de comentar qual possa ser essa sabedoria, transcrevo aqui as ideias de Kundera sobre o assunto. Mais precisamente um trecho da sexta parte de A imortalidade, romance de 1990 que, em minha opinião, é sua melhor obra.

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“Sobre o mostrador de um relógio, os ponteiros giram em círculo. O zodíaco também, como é desenhado pelos astrólogos, tem o aspecto de um mostrador. O horóscopo é um relógio. Quer se acredite ou não nas previsões astrológicas, o horóscopo é uma metáfora da vida, e assim sendo, encerra uma grande sabedoria.

Como é que um astrólogo desenha seu horóscopo? Traça um círculo, a imagem da esfera celeste, e o divide em doze setores cada um representando um signo: Carneiro, Touro, Gêmeos, etc. Em seguida, no círculo zodiacal, ele inscreve os símbolos gráficos do Sol, da Lua e dos sete planetas nos lugares precisos onde estavam esses astros no momento em que você nasceu. Como se, sobre um mostrador de relógio normalmente dividido em doze horas, inscrevesse anormalmente nove números suplementares. Nove ponteiros percorrem esse mostrador: são também o Sol, a Lua e os planetas, mas da maneira como giram no céu durante toda a sua vida. Cada planeta-ponteiro está assim incessantemente numa nova relação com os planetas-números, esses pontos imóveis do seu horóscopo.

A configuração singular que tinham esses planetas no momento em que você nasceu é o tema permanente de sua vida, sua definição algébrica, a impressão digital de sua personalidade; os astros imobilizados sobre seu horóscopo formam entre si ângulos cujo valor em graus tem um significado preciso (positivo, negativo, neutro): imagine, por exemplo, que seu Vênus amoroso se ache em conflito com seu Marte agressivo; que o Sol de sua personalidade seja fortificado por sua conjunção com o enérgico e aventureiro Urano; que a sexualidade simbolizada pela Lua seja sustentada pelo astro delirante que é Netuno, e assim por diante. Porém, durante seu trajeto, os ponteiros dos astros vão tocar cada um dos pontos imóveis do horóscopo, pondo assim em jogo (debilitante, energizante, ameaçador) diversos componentes de seu tema vital. A vida é bem assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.

Urano move-se no céu num passo relativamente lento. Leva sete anos para percorrer um signo. Suponhamos que hoje esteja numa relação dramática com o Sol imóvel no seu horóscopo (digamos que estejam a noventa graus de distância): você terá um ano difícil; em vinte e um anos a situação se repetirá (Urano estando então  a cento e oitenta graus do seu Sol, o que tem o mesmo significado nefasto), mas a repetição será apenas aparente, porque nesse ano, no mesmo momento em que Urano ataca o seu Sol, Saturno no céu se encontrará com Vênus no seu horóscopo num relacionamento tão harmonioso que a tempestade passará por você na ponta dos pés. Como se você fosse atingido por uma mesma doença, mas desta vez sendo tratado num hospital fabuloso, onde, em vez de enfermeiras impacientes, estariam anjos.

A astrologia, parece, nos ensina o fatalismo: você não escapará do seu destino! A meu ver, a astrologia (preste atenção, a astrologia como metáfora da vida) diz uma coisa mais sutil: você não escapará ao tema de sua vida! Isso quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma ‘vida nova’, sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma ‘vida nova’ logo aparecerá como uma simples variação do já vivido.

O horóscopo parece com um relógio, e o relógio é a escola da finitude: assim que um ponteiro completou um círculo para voltar ao lugar de onde partiu, uma fase termina. No mostrador do horóscopo, nove ponteiros giram em velocidades diferentes, marcando a todo instante o fim de uma fase e o começo de outra. Em sua juventude, o homem não está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas primeiras variações.”

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Minha obsessão pelo autor, que todo leitor que acompanha o blog conhece, está quase completando dez anos. Nos últimos seis, escrevi e destruí uma série de postagens sobre suas obras. As que sobreviveram permanecem neste blog, que leva em seu título uma palavra tcheca colhida das páginas de seus romances. À quem interessar possa, as outras postagens estão na “tag” Milan Kundera, que você pode acessar na coluna ao lado (na “nuvem de tags”) ou aqui.

À Milan Kundera, parabéns por seus 84 anos. E por sua imortalidade.

Milan Kundera

PS: recentemente tive a oportunidade de prestar um tributo ao autor, aproveitando um pouco suas obras sob um ponto de vista acadêmico. Tentando conjugar ideias de seus romances e a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, publiquei um artigo que tenta aproximar as ideias de ambos os pensadores. O texto se intitula A insustentável leveza do ser-para-si: uma leitura sartreana de Milan Kundera e pode ser acessado aqui.

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Mr. Nobody: a utopia de viver todas as possibilidades

Continuando essa sequência de posts, que já se arrasta por tempo demais, comento o terceiro filme que decidi classificar como uma “Utopia do Arrependido”. Trata-se de Mr. Nobody, de Jaco van Dormael, com Jared Leto.

A história é narrada por Nemo Nobody, "o último dos mortais".

A história é narrada por Nemo Nobody, “o último dos mortais”.

Praticamente desconhecido no Brasil, Mr. Nobody é um daqueles filmes que apela mais para o “sentir” do que para o “inteligir’. Ou, ao menos, assim deveria ser para que não se sacrifique sua beleza – ou a possibilidade desta. Porque as promissórias para uma inteligibilidade do filme são consideravelmente caras, e exigem mais do que boa-vontade do espectador: exigem também algum conhecimento básico de física e de ciências em geral, tendo em vista que é o menos auto-explicativo dos filmes – o que, aliás, faz com que Jared Leto apareça mais de uma vez no papel de narrador-comentador ao invés de  simples personagem.

O enredo é muito interessante e cativa na medida em que se desdobra de maneira muito dinâmica: um garoto tem sua vida desdobrada em dois caminhos distintos no instante em que os pais se separam. Uma de suas versões fica com a mãe e outra fica com o pai. Esses dois caminhos alternativos se desdobrarão em mais três, na medida em que outros mundos possíveis surgem quando este decide por se envolver com esta ou aquela garota. Assim, cotejando esses três mundos paralelos em seus relativos desdobramentos, somos conduzidos pelo filme que ainda possui um quarto cenário, no qual o personagem principal é o narrador da própria história, acabou de acordar de um coma, tem mais de 100 anos e é o “último mortal” que morrerá de morte natural. Esta versão anciã narra a própria vida em três registros distintos, o que deixa o entrevistador confuso. No final do filme, temos um aparente acontecimento do “Big Crunch” (a sístole de um universo que ainda sofria as consequências de um diastólico “Big Bang”) e vê-se um movimento de retrocesso físico de todas as coisas: tudo começa a andar para trás. E, de modo surreal, o filme termina nos deixando com o sentimento de que fomos convidados a fazer a existência “valer a pena”.

A física e a metafísica da segunda chance

Como eu disse antes, a presença da “teoria” acompanhando o filme se faz necessária e isso pode ser percebido pela presença de Jared Leto, em intervalos regulares, apresentando de maneira catedrática alguns tópicos de teoria física. Contudo, a teoria não constitui chave para completa compreensão do filme, mas para sua compreensão mínima que, insisto, é apenas pano de fundo para sua verdadeira fruição estética: a contemplação de uma existência desdobrada em diversas variações “quânticas”. Ao invés de apelar para o intelecto, o filme apela para a sensibilidade e serve-se da física dos mundos possíveis como metáfora para explorar esses universos distintos. É o aspecto existencial das escolhas do protagonista que nos interessam, e que nos deixam na ponta do sofá até as últimas cenas, torcendo para um final feliz entre Nemo Nobody (Jared Leto) e Anna (Diane Kruger).

As possibilidades de Nemo já se anunciavam desde sua infância.

As possibilidades de Nemo já se anunciavam desde sua infância.

Sendo talvez tão “colorido” quanto um Efeito Borboleta (que não entrou na minha lista porque, precisamente, é colorido demais), é nas relações amorosas do protagonista que a narrativa é focada, fazendo com que mensuremos o sucesso das diferentes vidas de Nemo pelo sucesso que tem ou não as suas relações amorosas. Assim, vemos Nemo envolvido com a maníaco-depressiva Elise e com a delicadíssima Jean em vidas nas quais, mais ou menos, prosperou financeiramente. O mundo paralelo no qual Nemo fica com Anna é precisamente aquele no qual ele fica com o pai doente, sacrificando sua vida e sua juventude dividido entre o trabalho e os cuidados com o pai. À esta altura do filme, já compreendemos que o principal apelo emocional/sentimental do filme é a possibilidade do reencontro de Nemo e Anna em um mundo no qual se afastaram através dos anos mas no qual também jamais se esqueceram. De qualquer modo, para o espectador, o valor dessa vida possível só se permite elucidar por contraste e comparação com as outras vidas que Nemo leva.

É possível mesmo visualizar elementos de um esoterismo “new age” no filme, na medida em que Nemo e Anna parecem se comunicar – talvez mesmo sem saber – através de pensamentos. Além disso, a sequencia inicial apela para a metáfora dos anjos ao exibir as primeiras memórias de Nemo, justamente antes do nascimento: Nemo é capaz de lembrar que diferentemente do que fazem com todas as crianças, os anjos não colocaram o dedo sob seus lábios e não selaram suas lembranças, o que dá fundamento para os múltiplos caminhos de Nemo no filme, afinal, este seria capaz mesmo de se lembrar de todas suas vidas possíveis.

Uma das mais belas colagens de narrativas que já tive o prazer de assistir, Mr. Nobody é delicadíssimo e sua falta de reconhecimento mainstream se justifica: mesmo “colorido”, Mr. Nobody não nos oferece um fechamento inteligível senão ao custo de promissórias muito caras. De qualquer maneira, as duas horas de filme se prestam com esmero àquela que é uma das principais virtudes de uma narrativa de ficção, a saber, a exploração de possibilidades da existência. Quando a arte faz isso de maneira meta-referencial e sem muitos sacrifícios, merece elogios.

Toby Regbo e Juno Temple nos papéis de Nemo e Anna quando jovens.

Toby Regbo e Juno Temple nos papéis de Nemo e Anna quando jovens.

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Brilho Eterno: a utopia do esquecimento

Depois de três meses, volto ao prometido comentário dos quatro filmes que batizei de “Utopias do Arrependimento”. E o segundo na lista é o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (no original, Eternal Sunshine of The Spotless Mind).

Não seria maravilhoso simplesmente esquecer daquelas coisas que nos causam sofrimento? Essa é a premissa da qual parte Brilho Eterno: não apenas é maravilhoso como é possível fazê-lo. Basta apenas a submissão à uma espécie de “lobotomia localizada”, que causa tanto esquecimento quanto uma bebedeira, e a pessoa está livre daquela rede de memórias – e, portanto, de afetos – que lhe causam tanto sofrimento. Através de uma empresa fictícia (a Lacuna Inc., parecida com a Life Extension de Vanilla Sky), a pessoa precisa apenas levar até os domínios da empresa alguns objetos relacionados com a memória à ser deletada. Após um rápido exame, os profissionais responsáveis pelo apagamento de lembranças localizam a área cerebral em que estas estão impressas e iniciam o processo de limpeza.

É a esse serviço que Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) recorrem quando seu romance lhes causa mais sofrimento que felicidade. Depois de um mal-sucedido relacionamento amoroso, Joel e Clementine se submetem aos serviços da Lacuna Inc. e tentam esquecer um do outro. O nó narrativo do filme se dá quando os profissionais da Lacuna Inc. estão na casa de Joel, realizando o serviço, e este toma consciência do que está fazendo. Joel, então, se arrepende uma segunda vez e tenta conscientemente impedir que o serviço seja realizado: tentando esconder suas lembranças com Clementine em locais cada vez mais remotos de sua consciência, Joel trava uma verdadeira odisseia na tentativa de salvar sua memória e, portanto, seus sentimentos por Clementine. Após uma série de eventos que envolvem até mesmo os profissionais da Lacuna Inc. no drama de uma vida vivida no esquecimento, Joel e Clementine recebem todos os seus pertences e as fitas gravadas nas quais falavam um sobre o outro. Recebem, assim, uma segunda chance: podem, sabendo quem são, reviver o romance esquecido e sem o risco de frustrarem suas expectativas ou, alternativamente, têm a chance de começar novos projetos. De forma catártica, o filme termina com Joel e Clementine juntos novamente, em uma impossível segunda chance de refazer o já feito.

Esquecimento, Eterno Retorno e o duplo arrependimento

Clementine and JoelFilosoficamente falando, os conceitos com os quais trabalha Brilho Eterno são consideravelmente mais pesados do que aqueles que vimos em Vanilla Sky. O conceito de esquecimento, por exemplo, nos coloca diante de uma realidade na qual elementos reais continuam operando aquém da nossa consciência. Embora tenha sido utilizado através da sutileza de uma ficção científica bem pensada e com a leveza de uma história de amor hollywoodiana, a ideia de que elementos esquecidos permanecem ativos em um domínio inalcançável ao nosso pensamento é uma premissa sem a qual, por exemplo, a obra de Sigmund Freud não seria possível.

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), por sua vez, nos dizia que o esquecimento é um elemento positivo, enquanto a memória é negativa. Do ponto de vista das necessidades vitais, o esquecimento é mais saudável que a memória: lembrar, por assim dizer, é uma atividade patológica. Re-memorar, re-viver o já vivido está no núcleo das atividades psíquicas que caracterização a decadência da humanidade, dando origem à coisas como o ressentimento, por exemplo. Além disso, o esquecimento tem uma estrutura paradoxal: tentar esquecer é lembrar. Não há maneira de se tentar ativa e conscientemente esquecer de algo. Assim, a possibilidade do esquecimento estaria ancorada em forças pré-conscientes, mais fundamentais que o próprio pensamento.

Em Brilho Eterno, vemos realizada uma verdadeira utopia humana: o esquecimento se tornou uma possibilidade concreta, acessível pelo âmbito da deliberação. Se não fossem os acontecimentos proporcionados pela relação dos personagens no filme, o esquecimento mútuo de Joel e Clementine teria sido um perfeito sucesso. A empresa fictícia Lacuna Inc. torna concreta a possibilidade do esquecimento como uma opção. Ainda que seja necessário se submeter à um processo artificial, a Lacuna Inc. torna possível atacar precisamente o locus da memória – evidentemente, pensado em termos neurobiológicos. A Lacuna Inc. torna possível o esquecimento consciente.

O que a Lacuna Inc. não pode garantir é proteção diante da contingentia mundi: a maestria do discreto – porém efetivo – nó narrativo, que faz com que Joel e Clementine terminem por receber as informações sobre seu passado esquecido, cria a possibilidade da “segunda chance”. Mas permite uma reflexão sobre um aspecto filosófico cujo respaldo, novamente, procuro na pena de Friedrich Nietzsche: o Eterno Retorno.

Ideia famosa de Nietzsche, o Eterno Retorno é pensado – entre outras perspectivas – como uma hipótese cosmológica que nos sugere que tudo o que acontece se repetirá. Esse convite fatalista à assunção autêntica da própria existência utiliza a hipótese cosmológica como ameaça: se tudo se repetisse, o que você gostaria que fosse sua vida? Ao responder essa pergunta, o indivíduo faria uma opção derradeira pela vida plena. É essa opção que é atirada no colo dos personagens Joel e Clementine: sabendo quem são e o que acontece quando se relacionam, arriscariam tentar tudo de novo?

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

O filme sugere que sim, e isso desde antes do final: quando Joel começa a tentar reverter o processo de esquecimento realizado pelos profissionais da Lacuna Inc., é possível constatar um arrependimento relativo ao arrependimento originário. Diante da iminência de perder suas lembranças preciosas, Joel começa a enfrentar o processo ao qual se sujeitou ao contratar os serviços da empresa. Esse é o momento áureo do filme e é em função do duplo arrependimento que o filme funciona. O seu final está desde o início anunciado e, embora hollywoodianamente catártico, pode ser lido de maneira quase-nietzscheana: sim, nós faremos tudo de novo. A opção de Joel e Clementine é a de dizer sim para o já vivido, dizer sim para a repetição, de dizer sim para a vida.

Minha única crítica, já realizada aqui mesmo e em um outro momento, embora de forma bem mais fraca, é a de que o filme só funciona porque Joel e Clementine são losers. Personagens quase vazios que, embora verossímeis, são sobretudo pessoas sem mais nada na vida. O amor é quase um prêmio de consolação à um casal carente e solitário. Joel e Clementine parecem mais movidos por suas necessidades do que por seus projetos e desejos. Curiosamente, o esquecimento é rejeitado como opção e diante da utopia oferecida no início do filme, o duplo arrependimento dos personagens faz a opção pelo Eterno Retorno e pela vida. No mais, o filme garante umas duas horas de catarse à quem procure uma história de amor com uma pitada de fantasia.

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