In Treatment: um elogio do autoconhecimento e um convite à reinvenção de si mesmo

Acabo de assistir o último episódio da última temporada de uma das séries mais charmosas e peculiares que já tive o prazer de assistir. A discreta In Treatment – inspirada em uma série israelense e inspiradora de versões no Brasil e na Argentina – tem uma estrutura extremamente simples: apresentar alguns momentos da semana de um psicólogo em sua atividade de atendimento clínico. Assim, as três temporadas acompanham Gabriel Byrne fazendo o papel do Dr. Paul Weston dedicando cerca de meia-hora de significativa atividade psicanalítica e terapêutica com os mais diversos tipos de pessoas. Seja o clássico caso de uma paciente jovem e bonita apaixonada por seu analista, de um indiano de meia-idade, recém viúvo e potencialmente perigoso por ser incapaz de viver no ocidente com o filho ou de um paciente que o culpa pelos 20 últimos anos dos quais se arrepende, o espectro dos pacientes de Paul Weston e sua interação com eles mostra o quanto a atividade terapêutica e psicanalítica pode ser extenuante e ao mesmo tempo edificante para os pacientes e para o próprio terapeuta.

Paul and Alex

Gabriel Byrne encarnando o psicólogo Paul Weston

Evidentemente, a série provavelmente não seria capaz de se manter – e não teria sido elogiada e premiada – caso se resumisse em uma espécie televisiva de psicodrama. A linha narrativa mais interessante da série é aquela oferecida pela apresentação dos próprios dramas de Paul que, no curso de três temporadas, vivencia o desmoronamento de um casamento de 30 anos, a reavaliação da própria atividade profissional e os primeiros passos da reorganização de sua própria vida. Nesse horizonte, a série mostra o próprio Paul saindo da posição de terapeuta e assumindo a de paciente uma vez por semana onde vemos toda sua fragilidade diante de sua terapeuta e antiga supervisora, a terapeuta aposentada Gina Toll (Diane Wiest), que então se dedicava à arriscar seus primeiros passos na carreira de romancista.

Acompanhar Paul diante de Gina ou mesmo de Adele – a nova terapeuta, procurada por Paul na última temporada – bem como acompanhar suas relações com seus familiares em cenas curtas e intensas que, durante as três temporadas, se mesclam em harmonioso contraponto narrativo com aquelas que mostram sua atividade terapêutica nos permite visualizar o ser humano que há por trás de cada profissional de psicologia. Se com seus pacientes Paul é lúcido, analítico e seguro, diante de Gina, Adele ou de sua família Paul é uma pessoa comum, enfrentando as situações de sua vida com a mesma a incerteza, instabilidade e passionalidade de seus pacientes.

Gina Toll e Paul Weston

Gina Toll e Paul Weston

No curso das três temporadas, In Treatment passeia por um grande número de temas e conceitos oriundos não apenas da psicanálise como também e principalmente de todo o amplo universo da psicologia em seu ambiente profissional. Vemos pacientes apaixonadas por Paul (transferência), Paul apaixonado por pacientes ou por suas terapeutas (contratransferência), suicidas potenciais em atividade de negação, recalque de acontecimentos significativos completamente soterrados no esquecimento, pacientes que preferem fármacos à psicoterapia e mesmo a típica resistência dos próprios pacientes ou familiares quanto à efetividade ou importância das sessões com Paul. Nas privilegiadas sessões em que Paul é paciente e não terapeuta – ou seja, onde dois psicólogos estão frente à frente -, é possível contemplar questões internas à própria atividade do psicólogo: o psicólogo deve ser rígido e impessoal ou deve, ocasionalmente, transpor o limite clínico e ser apenas outro ser humano diante do paciente? A terapia deve visar a decifração de uma personalidade ou a reinvenção do sentido de uma existência inviabilizada? Essas e outras questões acompanham a jornada de Paul e seus pacientes, enquanto estes oportunizam um verdadeiro laboratório reflexivo para aquele que tenta, em sessões semanais de meia-hora, ajudá-los à viver suas próprias vidas.

Penso que In Treatment é um drama arquetípico. Trata-se, em última instância, da jornada espiritual de uma pessoa presa no círculo vicioso da repetição de certos padrões de comportamento que, de muitas formas, inviabilizam qualquer realização vital concreta. O final da série é tão insuportável quanto também é o único possível: Paul não sabe o que fazer de sua própria vida. Porém, depois de três temporadas de desmoronamentos e acúmulos de pequenos fracassos e sucessos clínicos e existenciais, Paul parece ao menos saber o que não quer: não quer mais ter pacientes ou ser um paciente. Longe de ser uma conclusão cética com relação ao valor da psicoterapia, In Treatment é um elogio, uma apologia das sessões de terapia: mostra como a análise e a terapia psicológica podem ser vitais não apenas para os pacientes que dela se servem como também e principalmente para o próprio psicólogo. No caso de Paul, o envolvimento com as ciências da alma foram o caminho encontrado para dar sentido à uma vida até então baseada em tragédias familiares e frustrações pessoais. Ao fim da jornada de três temporadas vemos a sutil e progressiva tomada de consciência de Paul Weston com relação aos rumos que dá à própria vida. Longe de nos oferecer uma convencional conclusão catártica, In Treatment nos mostra como um ser humano pode perceber que vive anos – ou mesmo décadas – na doce embriaguez das narrativas que assume. Sem qualquer exaltação ou euforia catártica, assistimos Paul Weston reavaliar seus padrões e seus comprometimentos para, em seguida, sob os escombros de uma vida esgotada e condenada, se abrir para a então incontornável contingência do existir humano: sem saber o que vai fazer da própria vida, Paul sai do consultório de sua terapeuta abandonando, à um só tempo, ambos os papéis. Não será mais terapeuta ou paciente. A impressão que temos nas últimas cenas é que, enfim, o guia espiritual seguirá os próprios conselhos: romperá com narrativas e padrões confortáveis e se permitirá correr os riscos dos quais se protegia ao mantê-los.

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Àqueles que são apaixonados pela alma humana, In Treatment é certamente fascinante. Acompanhar Paul Weston na senda de seu próprio autoconhecimento até as portas da reinvenção de si mesmo é acompanhar uma ficção que, se não alcança a excelência de uma obra de arte, cumpre uma das funções mais elevadas que a ficção pode cumprir, a saber, a de laboratório existencial. Sejamos muito ou pouco dados à reflexão acerca de nós mesmos, é impossível não se identificar ora com Paul, ora com seus pacientes. In Treatment toca no núcleo daquele que é o drama de todos os seres humanos: escolher os rumos e o sentido da própria vida. Quem tiver disposição para enfrentar os 106 episódios de vinte-e-poucos minutos provavelmente sairá um pouco diferente dessa experiência.

Vida longa às ciências da alma!

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Excertos do Subsolo – Sobre Paloma e Penélope

Paloma e Penélope não se viam há muito tempo até o dia em que se encontraram na emergência de um hospital. Paloma sofria um ataque inédito, fulminante, de uma gastrite que se desenvolvera no último período. Penélope acompanhava Clarissa que se encontrava em observação após um ataque de nervos no qual quase fora atropelada após atravessar uma rua correndo em desatino. Vendo que Clarissa estava aparentemente bem, Penélope se sentou ao lado da amiga e perguntou como esta estava.

– Bem. Acho que é apenas um “ataque de angústia”, você sabe.

Penélope sabia do que Paloma falava, pois “ataque de angústia” era uma expressão cara para ambas as moças anos atrás, em um tempo em que as duas enfrentavam aquelas que eram provavelmente as escolhas mais difíceis de suas vidas. Indagada sobre as razões do mais recente “ataque”, Paloma decidiu responder de forma não muito sucinta, mas suficientemente clara para a amiga.

– Digamos que não consigo mais disfarçar que o fato de que eu saiba exatamente o que quero não me faça uma pessoa privilegiada, senão uma espécie de habitante de outro mundo condenada à viver nesse mundo de incerteza e desamparo.

Para Penélope tal resposta era mais do que suficiente. Paloma sempre fora uma pessoa
excessivamente leve, serena e ao mesmo tempo obstinada. Enquanto Penélope, Clarissa ou a maior parte dos seus amigos padecia da perpétua ansiedade inerente àqueles que sempre visualizam possibilidades melhores – ou ao menos diferentes – nas quais poderiam se jogar e comprometer suas vidas inteiras, Paloma preferia ignorar mesmo a existência dessas possibilidades, certa de que era seu envolvimento que dava o valor àquilo que vivia. A mera contemplação de outras possibilidades era, para Paloma, um vício potencialmente nocivo que, na maior parte das vezes, era causa de desconforto, e não seu efeito. Quer se tratasse de um amor, de um trabalho ou de uma mudança, Paloma encarava a possibilidade escolhida como sendo imbuída de valor pelo próprio ato da escolha. As escolhas de Paloma podiam se justificar em razões objetivas ou em sentimentos, variando ao sabor das diferentes situações. De qualquer modo, Paloma não flertava com o improvável e o charme das outras possibilidades se dissipava diante do poder desagregador da incerteza. Paloma vivia, com leveza, uma vida de cada vez. Vamos à um exemplo.

Anos antes de encontrar casualmente sua amiga Penélope naquela emergência, Paloma
se apaixonou por um rapaz que, meses depois, fora diagnosticado com uma doença terminal. Os médicos disseram que o rapaz não sobreviveria mais do que três meses, o que faria com que não poucas pessoas já passassem a planejar sua futura vida para depois daqueles três meses. O rapaz, contudo, sobrevivera por cinco anos inteiros até que sua saúde se deteriorou e seu frágil corpo pôde enfim descansar do combate contra a enfermidade. Seu grupo de amigos comentava que não poderia ser outra pessoa, senão a própria Paloma, a mais capaz de enfrentar uma situação daquele tipo. Ao invés de se atirar em um frenesi romântico no qual cada dia seria fruído com a melancólica intensidade de um final trágico já anunciado, a tranquilidade de Paloma, diziam, ajudou o rapaz a sobreviver às suas próprias limitações.

Foi nessa época que Penélope conheceu Paloma e que se tornaram amigas. A proximidade de ambas era tanta que, de forma quase natural e espontânea, acabaram se tornando amantes logo depois da morte do namorado de Paloma. O romance não durou mais do que algumas semanas, mas foi suficiente para aproximar ainda mais as duas. Nessa época Penélope se consultava com um psicanalista nada ortodoxo, que atendia pelo turno da noite e que interpretou a amizade de Paloma e Penélope como um raro caso de oposição e complementaridade: enquanto Paloma era toda objetividade e segurança, Penélope era difusa como uma nuvem de incertezas. Mal se decidia a fazer algo e já sentia emergir das profundezas de sua alma uma verdadeira torrente de possibilidades que lhe proibiam de viver a realidade das situações em que estava inserida. Penélope nunca estava exatamente onde estava, pois sua alma estava sempre em muitos lugares ao mesmo tempo. Foi lembrando de como era ansiosa a amiga que Paloma perguntou para a amiga, enquanto sentia suas dores estomacais aliviarem, como afinal ia sua vida.

– Diferentemente de você, minha querida Paloma, eu não tenho a sorte de sentir a angústia toda de uma vez. Você sabe, ela sempre está aqui, como uma nota de contrabaixo, ressoando ao fundo de tudo o que me acontece e tornando menos real cada local onde decido frear meus passos e descansar. Acredite se quiser, mas estive casada nos últimos seis meses!

– Mas que coisa maravilhosa!, exclamou Paloma. – Mas como assim “esteve”? Devo imaginar que você fez o de sempre?

– Sim!, disse Penélope gargalhando. – Sim, sim, sim! Eu fugi! Como sempre, às portas da felicidade, decidi fugir!

Penélope contou que morou por seis meses na casa de um homem mais velho que lhe tratava ao mesmo tempo como pai, amante e mecena. Desde que a conhecera, o sujeito parecia desejar apenas assistir a moça compor suas canções, fazer seus desenhos ou mesmo dançar nua sobre a cama sob o efeito de drogas. Era como um culto: ele oferecia o que ela quisesse, fossem instrumentos musicais, tintas ou drogas. Apenas queria ver Penélope desfilar seu gênio e sua beleza jovem pela casa. Segundo Penélope, o sujeito não era sequer um mau amante. Mas a possibilidade de viver a si mesma em plenitude mas em plena solidão fez com que Penélope, em uma manhã ensolarada, fugisse com as roupas em uma mochila para a casa de uma tia distante.

– Eu já não sei explicar, minha amiga, e nem sei se quero. “Tive tudo o que quis, mas nunca da forma que queria”, como diz um filósofo. É como se houvesse um dispositivo em mim que diante da iminência da realização de algo concreto simplesmente disparasse e, ao disparar, se apoderasse de mim, me obrigando a começar tudo de novo. Ou é isso ou sinto que estou morta. Não sei até quando isso vai ser assim e isso me aflige: não vou ser jovem para sempre. Mas também não penso que terei uma dessas vidas breves e intensas, que resultam em um manancial de histórias a serem contadas. Nada disso. Meu problema é muito mais simples. – Fez uma pausa e desfez, pela primeira vez, seu lindo sorriso. – Meu problema é que talvez eu sempre escolha caminhos sem saída, sempre escolha opções que não podem dar certo. Talvez eu seja minha maior inimiga.

Ambas silenciaram por um instante e antes que Paloma pudesse retomar a palavra, as duas viram o pai de Clarissa adentrar a emergência do hospital. Após cumprimentar as amigas, perguntou sobre Clarissa.

– Acho melhor deixar ela descansar, sr. S. O sr. deve imaginar em que condições a encontrei.

– Posso sim, Penélope. Deixe-me lhe deixar algum dinheiro e lhe fazer um pedido. Cuide dela para mim nos próximos dias, pois além de precisar me ausentar, sei que não sou a melhor companhia para ela nesse momento. Antes de partir, porém, tomem um café comigo, pois há outras coisas sobre as quais gostaria de conversar com vocês.

Paloma recusou gentilmente o café alegando dores estomacais. O pai de Clarissa insistiu
e Paloma sentiu as dores quase cessarem. Paloma ouviu do pai de Clarissa o pedido se estender também à ela, e lhe prometeu que se ajudasse Penélope a cuidar de Clarissa, jamais sentiria novamente aquelas dores. Contrariada, Paloma respondeu que recusava o café e ajudava Clarissa, mas preferia não receber nenhuma ajuda daquele tipo. Dirigiram-se, então, para uma lanchonete do hospital. Lá chegando, receberam advertências sobre como Clarissa iria se comportar nos dias que se seguiriam, sobre o que ela provavelmente diria e sobre o comportamento irregular de sua memória. As moças ouviam atentamente, mas Paloma não desfez sua expressão de contrariedade nem por um instante. O pai de Clarissa pagou o café, deixou uma quantia em dinheiro com Penélope, agradeceu e se foi. Paloma, satisfeita com a permanência da própria dor – que retrocedia graças à ela própria e apenas à ela – disse que detestava o pai de Clarissa. Nem mesmo ele, segundo ela, tinha o direito de tomar decisões tão amplas sobre as vidas de outras pessoas.

– Ah, minha amada Paloma, será que todos nós não faríamos o mesmo se pudéssemos? Digo, veja só: aí está você, enfrentando uma revoada de corvos instalados no seu estômago. Ele é igual à você e sabe o que quer. A diferença é que ele quase não precisa fazer esforço para fazer valer sua vontade.

Paloma escutou atentamente, como sempre fazia, e retorquiu:

– Ele que volte pro lugar dele, que não é aqui. Aqui é lugar de fazer escolhas, errar, e aprender. – Disse Paloma, pedindo um chá. Penélope deu seu delicioso e costumeiro sorriso e complementou o que Paloma disse.

– Concordo, concordo. Nem mesmo que seja para repetir os erros, não é mesmo? Não há erros repetidos que não sejam erros melhores!

Ambas riram e decidiram ir até o leito onde Clarissa era monitorada. Evidentemente, Clarissa estava fisicamente bem. Quando ambas chegaram, Clarissa estava sentada e tomando o lanche oferecido pelo hospital. Sorriu amplamente e disse, com a boca cheia de sanduíche, algo totalmente compatível com aquilo que seu pai havia dito, para Paloma e Penélope, que ela faria:

– Vejam só, não será a tríade sagrada feminina que se reúne nesse quarto? Muito embora me pareça que dentro em breve estarei chamando minha querida Penélope de “mamãe”, hahahahaha!

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Paloma percebeu que, de alguma forma, Clarissa percebia o que ela própria havia notado: Penélope provavelmente cometeria o maior erro de sua vida se envolvendo com o pai de Clarissa. Enquanto Penélope explicava para Clarissa como havia trazido a menina para o hospital, Paloma se permitia supor que não havia acontecido acidente nenhum, que tudo, afinal, corria conforme a vontade perversa do pai de Clarissa. Se não havia como enfrentar o sórdido pai de Clarissa, nada a impediria, porém, de detestá-lo. Clarissa, enquanto tomava seu suco, continuava a dizer suas coisas sem sentido. Sorriu para ambas e declarou:

– Muito me alegra que estejam as duas aqui. Fico muito feliz mesmo. As coisas são, afinal, como papai sempre diz que são: cíclicas. Engana-se quem acha que pode agir diferentemente, pensar diferentemente, ser diferente. Eu queria poder cuidar de vocês como vocês cuidam de mim mas, afinal, que importa o que eu queira? Vamos cometer sempre os mesmos erros, hahahahaha!

Clarissa proferiu muitas outras declarações fatalistas naquela noite, até que as duas amigas recebessem autorização para levá-la embora. E depois de cuidarem de Clarissa por sete dias e sete noites, viram o pai da menina vir buscá-la mais uma vez. Penélope se despediu de Paloma e disse que ajudaria o pai da menina a cuidar da jovem. Paloma sabia, porém, que muito mais do que isso estava em jogo. Curiosamente, quando o trio saiu de sua casa, Paloma sentiu que sua dor estomacal finalmente cessara.

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Menos maniqueísmo e mais empatia

Talvez tudo o que eu vá dizer agora diga mais respeito à mim mesmo – que não sei o que sentir nem depois de ser assaltado e agredido – do que ao caso do qual vou falar. Mas, vamos “reflexionar” nesse lindo domingo de sol e melancolia.

Dunga, o técnico da seleção brasileira e ex-jogador, deu uma declaração muito infeliz e completamente racista dias atrás. Daquelas que permitem que se entreveja o quanto um sujeito pode simular um comportamento sem absolutamente o compreender. O racismo “cordial” que impregnou as palavras do ex-jogador mostra o quanto ele sabe que deve evitar certas palavras e ações e mostra também o quanto ele não tem nenhuma empatia ou compreensão da questão, embora saiba que será vaiado se cometer algum deslize.

Mas, o comportamento de Dunga é infelizmente a regra em nosso país. Essa falta de boa-vontade para tentativa de diálogo e compreensão do outro define o tom maniqueísta da opinião pública. Eu não sei nada sobre o que faz o Dunga fora de campo, e é aí que quero chegar: a rapidez com a qual se conclui sobre sua eventual “maldade” diz mais sobre a forma que estamos pensando do que, talvez, sobre os alvos de nossos juízos.

Dunga muito provavelmente pode praticar uma cretinice por semana e posso estar sendo pueril aqui. Mas se não for o caso, essa pressa – e essa espécie de euforia raivosa – em colocar um indivíduo numa “lista de inimigos” já mostra qual é a possibilidade de redenção do inimigo numa perspectiva maniqueísta como a nossa: nenhuma. Ao “inimigo”, ao “vilão” parece possível apenas a admissão da insustentável culpa de ser quem é, seguida da prática religiosa de uma tentativa permanente dessa expiação impossível do mal cometido.

Já não falo aqui apenas sobre o Dunga. O episódio de sua declaração foi, pra mim, o estopim de uma tomada de consciência nada agradável: enquanto aqueles que tem espírito crítico não escaparem do pântano do dogmatismo e do maniqueísmo, serão apenas o reverso da moeda de um senso comum perverso. Enquanto o humanismo comemorar a morte de seus adversários e não tiver menos pressa em pregá-los no calvário do desprezo, esse humanismo não será nada além do que o reverso do seu “inimigo”.

Dungão

Repito: eu não sei quem é o Dunga. Apenas fiquei sabendo o que ele fez. Admito que posso estar sendo ingênuo. Mas, essa pressa do julgamento e essa euforia da condenação parecem práticas preguiçosas e narcísicas, empreendidas por grupos de indivíduos que, ávidos por reconhecimento mútuo, parecem não ver problema em condenar um bode expiatório qualquer apenas para confirmarem reciprocamente sua própria “bondade”.

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A Tempestade, Parte II – Transcendência (ou: A Breve Temporada de Clarissa no Subsolo)

Nunca havia pensado em Clarissa morta. Ocorre-me que depois de todos esses anos, talvez apenas assim seja possível compreender sua história. Talvez apenas o período em que Clarissa estava morta explique o que ela se tornou depois de retornar.

Clarissa na Tempestade

Sempre tentei ser sutil e disfarçar ao máximo o fato de que Clarissa não é exatamente um ser humano. Prefiro não dizer o que penso que ela seja, mas para orientar o leitor, pense nela como sendo algo de uma natureza parecida com os anjos de Wim Wenders, cujo único poder sobrenatural seja o de trazer alento àqueles que sofrem. Contudo, Clarissa passeia em um corpo físico e material no mundo humano. A história que vou contar agora se passa em um tempo em que Clarissa desfrutou precisamente da condição de ser apenas isso: um espírito, uma sombra, uma alma errante em uma dimensão sombria, semelhante mas ao mesmo tempo diferente deste mundo, seu espelho negro.

Os habitantes dessa região sem vida onde Clarissa passou uma curta temporada são precisamente os miasmas de autoconsciência que foram despidos de suas vestes carnais. Tais espólios sombrios de almas outrora vivas vagam entre nós que estamos no mundo vivo, mas uma vez condenados a subsistirem como simulacros conscientes de lembranças e sentimentos, já não podem senão ver precisamente o reflexo sombrio do mundo onde estamos. Assim, vejo Clarissa sentada em frente ao portão pichado de uma loja, junto com outras aparições, invisíveis aos olhos de um grupo de jovens que, em carne e osso, não podem ver que estão acompanhados por espectros invisíveis muito semelhantes a eles mesmos. Observando os vivos se embriagarem com vinho barato e esvaziarem maços de cigarro, os mortos se regozijam em sua desesperada ânsia de provar ao menos migalhas dos prazeres daqueles que permanecem aptos a, se preferirem, desperdiçar a própria saúde, o próprio tempo e a própria vida. O que sugere fortemente que nossa diferença para com esses espíritos invisíveis é mais sutil do que parece: se o que mantém uma alma presa ao plano da existência é seu leque de desejos e anseios não-realizados, a morte e a vida são apenas diferentes tons no espectro da experiência possível ao espírito humano. Mas, paremos de especular, voltemos a Clarissa.

Clarissa morreu em um acidente que seu pai não conseguiu evitar. Voltou dez anos depois, em sua nova forma – a forma que seu pai, por sua própria natureza, menos desejava que ela assumisse. A breve história que conto se passa nesse ínterim.

Clarissa tentava apanhar, inutilmente, um cigarro ainda aceso e fumado quase até o final por um dos jovens que ali estavam. Evidentemente, seus dedos etéreos não entravam em contato com o objeto desejado. Distraída, ouviu um amigo invisível lhe perguntar algo que, caso Clarissa ainda tivesse um coração, faria este acelerar e sentir uma falta de ar.

“Clarissa… Aquele ali não é seu pai?”

Era.

pai de clarissaDepois de meses de espera, Clarissa finalmente via seu pai novamente. Ele havia encontrado a filha no submundo. Por mais doce e pura que fosse a alma de Clarissa, a falta que sentia de seu pai não permitiu que sua alma seguisse o caminho que naturalmente seguem almas como a dela. Vê-lo na outra esquina, com um cigarro aceso e todo vestido de preto a fez correr para seus braços. Mesmo morta, Clarissa ainda conseguia chorar e chorou copiosamente enquanto esteve suspensa no abraço mais desejado. “Está tudo bem agora”, ele dizia. Ela não conseguia falar. Quando desceu dos braços do pai, este lhe entregou o cigarro – que não era, obviamente, um cigarro – e, acariciando seu rosto, disse as palavras que Clarissa mais desejava ouvir.

“Eu vim buscar você.”

Passeando pelo submundo com sua filha – e fazendo com que os outros mortos se comportassem como animais espectrais, sentindo sua presença nefasta e se afastando temerosos – o pai de Clarissa explicou o que seria necessário para que Clarissa pudesse alcançar a transcendência. Motivo de especulação no mundo dos mortos, ninguém sabia exatamente o que acontecia com as almas que transcendiam. Por medo do desaparecimento total, as aparições preferiam permanecer imersas na atmosfera infecta de suas existências desesperadas à fundir-se em um todo divino e místico. A fusão com a plenitude e o limbo do desaparecimento total pareciam duas vias idênticas de encontro com o nada e entre o nada absoluto e aquela subsistência miserável, a consciência individual parece preferir permanecer ancorada no existir, mesmo que seja acorrentada pela mais profunda angústia – o que faz com que eu insista que os vivos e os mortos sejam parentes mais próximos do que suporíamos. Ao contar para sua filha o segredo do que havia depois da transcendência, o pai de Clarissa oferecia para a menina uma motivação concreta para uma jornada de purificação e enfrentamento das sombras da própria alma.

“Veja, meu amor… Boa parte do que você precisa já está aqui. Sei que o que mantém você acorrentada nesse submundo é o desejo de estar comigo novamente. Mas você não pode permanecer nesse plano imundo e asqueroso. Infelizmente, quando você sair daqui, irá para o lugar que mais desprezo e no qual não posso entrar. Mesmo assim, é mais fácil tirar você de lá do que protegê-la nesse subsolo infecto. E eu vou fazer o que for necessário para buscar você. E então, teremos novamente todo o tempo do mundo para ficar juntos…”

De início, Clarissa resistiu a ideia de que devia deixar de querer estar ali, já que tinha quase tudo o que queria. Mesmo os cigarros e o vinho que desejava seu pai podia oferecer e, por algumas semanas, ela viveu uma espécie de paraíso pessoal em pleno purgatório, pois a presença de seu pai não tingia de cores o mundo cinzento, mas fazia com que a atmosfera sombria de seu novo mundo possuísse uma beleza singular. Com o tempo, porém, Clarissa aceitou que aquele simulacro sombrio de uma existência genuína precisava ser superado. Escutou atentamente seu pai e despiu-se de todos os desejos mundanos que ainda projetavam sombra em sua alma. Perto do final do processo, porém, seu pai disse que o ressurgimento dela no lugar para o qual ela iria chamaria atenção de todos os seus habitantes, pois aconteceria algo que é muito raro: ela seria uma das raras almas que chegariam lá sem a lembrança de quem ela própria era. E essa condição permaneceria até que ele pudesse encontrá-la.

Naqueles dias, o a jornada para a transcendência empreendida por Clarissa simplesmente estacionou. Não lhe interessava nem um pouco ir para qualquer lugar onde não apenas não teria a companhia de seu pai, mas não poderia sequer ter as memórias daquele que ela mesma mais amava. De qualquer modo, a esperança e a confiança de que seu pai a encontraria e a faria ser novamente quem ela desejava ser a fizeram enfrentar o desafio. Em uma tarde cinzenta como inevitavelmente são cinzentas as tardes no submundo, deitada no colo de seu pai e tendo os cabelos afagados por ele, Clarissa fechou os olhos. Estava mais corada e vestia um casaco vermelho (sim, os mortos vêem a si mesmos e se comportam como se ainda estivessem vivos). Enquanto lhe dava orientações e sussurrava palavras de alento, o pai de Clarissa sentiu a filha desaparecer de seu colo e do toque de seus dedos. Clarissa transcendera. Iniciava-se então o tempo da espera. Era preciso mover sabiamente as peças de seu xadrez e negociar com os habitantes mais desajustados daquele plano odioso onde Clarissa reapareceria. Felizmente, para ele próprio, ele dispunha de algumas cartas na manga e se não podia invadir reinos proibidos com passos imperiais, seria sinuoso e discreto. O pai de Clarissa sempre conseguia o que queria.

Clarissa e seu pai

Clarissa ressurgiu dez anos depois e a história de seu amor e de seu reencontro com seu pai começa nesse ponto. Não nos ocuparemos dela agora. Resta dizer que não raro Clarissa, em sua nova condição, vez por outra visita o submundo com seu pai. A maior parte dos habitantes do mundo inferior não reconhece a natureza desses estranhos visitantes e não sabem que existe uma rara, raríssima saída desejável para sua nefasta condição. Aqueles que a conheceram ficam felizes – na medida em que seus resquícios de confusa e atormentada consciência conseguem sentir alguma alegria genuína – quando esses dois estranhos personagens, trazendo vinho e cigarros, decidem passear no mundo cinzento onde os mortos habitam.

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A Tempestade, Parte I – Areias Negras

Cada época e cada lugar têm a metafísica que merece. Eu faço parte de um cenário onde já nenhuma é possível.

Não sei há quantos dias caminhamos nesse deserto. Também não sei se são dias, ou se são anos e perdemos a noção do tempo. Não é um deserto normal, pois aqui a noite não dá nunca lugar ao dia. Aqui, a noite é eterna e o frio é insuportável. Já não lembramos se a areia é negra como a vemos sob esse céu – avermelhado por um aparente eclipse que nunca se desfaz – ou se ela tinha outras cores. Já não tenho certeza de que existem outras cores.
Caminho com alguns companheiros que sobraram. Muitos morreram de fome e sede. Outros foram devorados por feras cuja selvageria os fez desaparecerem nos instantes em que conseguimos arranjar forças para correr até não conseguirmos mais ouvir os gritos dos companheiros apanhados desprevenidos. Alguns foram canibalizados por aqueles dentre nós que caíram no desespero e não hesitaram em devorar um companheiro. Fugimos desses como fugimos das feras e penso que as areias negras os consumiram. Prefiro que tenha sido assim. Às vezes, porém, tenho a impressão de que esses companheiros não são senão frutos de minha imaginação, e que terminarei vagando sozinho rumo ao horizonte que nunca chega e que não parece levar à lugar nenhum.
Ainda lembro de como vim parar aqui, embora não tenha certeza de quem eu mesmo era antes do deserto. As memórias se confundem em um turbilhão que prefiro evitar que reapareça e por isso mesmo tenho evitado tentar lembrar – embora esses raros momentos de reflexão sejam, por vezes, os únicos em que me sinto vivo ou, ao menos, real. Parece mesmo que isso é parte do teste – se é que é possível chamar de teste algo que não parece ter solução, saída ou fim – e que recordar quem eu fui, ou talvez quem eu deveria ter sido, é precisamente aquilo que eu deveria fazer para poder sair daqui. Mas tenho medo do que encontraria caso minha reflexão topasse com uma memória verdadeira. Sinto que ficaria tão horrorizado que preferia deixar de existir e que, nesse momento, um gênio maligno realizaria meu único desejo.
Lembro que posso ter sido um alfaiate que violentava a própria mulher, mas também lembro de ser um oficial da lei corrupto e perverso que não raro causou mal à inocentes. Também lembro de falar para multidões, em um púlpito, e que minha fala – cujo conteúdo me escapa – era acompanhada pela sensação de mentira. Por incrível que pareça, as imagens que compõem tais recordações são tão desagradáveis que prefiro prestar atenção na dor de meus pés que já não cicatrizam as queimaduras ocasionadas pelas areias negras e ferventes (e que não amenizam o frio do violentíssimo vento que nunca cessa). A dor física ameniza a dor da alma, embora eu já desconfie que não possuo mais um corpo – ou, afinal, já teria morrido de sede e inanição como muitos companheiros.
Às vezes, desmaio. Desmaio e sonho. E os sonhos parecem durar tanto tempo que, no início, era lamentável acordar. Agora, quando sonho já sei que sonho. Mas não me é dada a dádiva que para alguns transforma o sonho em um verdadeiro parque de diversões, onde é possível se fazer o que se quiser. O tecido desse aparente inferno onde estou jogado faz com que os pesadelos já tenham se tornado também um tipo de sofrimento para o qual a marcha do Sísifo que é a própria pedra em um deserto infinito seja preferível ao caos das memórias aleatórias que acentuam a dolorosa condição de viver como um condenado. O sonho se tornou uma opção tão dolorosa que acabei preferindo nunca mais dormir. E que isso seja possível só acentua a impressão de que, há muito tempo, já não vivo como um ser humano.
Serei o eu-onírico de um paciente terminal? Ou será esse deserto um elemento da geografia de um purgatório? Ou do próprio inferno? Deverei alimentar esperanças de que é possível sair daqui? Ou, justamente, a esperança só faria acentuar o sofrimento em uma condição permanente e inescapável. Não tenho sequer o direito de procurar sinais em um lugar homogêneo, onde o sol negro como o chão e o céu vermelho como o sangue se estendem de forma homogênea para todas as direções no horizonte…
Wraith The Oblivion

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Sobre música e desejo

A fenomenologia ensina que nossa atenção faz “recortes”. Destaca certas figuras de um fundo indiferenciado, por exemplo. Não terá essa afirmação um valor musicológico? Afinal, há na música erudita, sobretudo em seu período clássico, toda uma agenda de elementos mobilizados como um meio para que uma linha melódica, protagonista, se destaque desse fundo indiferenciado.

É o que parece acontecer na vida: a vida não pode obedecer o que Milan Kundera, em seu A arte do romance e em homenagem à Leos Janacek, chama de “Imperativo Janacekiano”, onde “só o que é essencial tem o direito de existir”. Para Kundera, Janacek supera o paradigma da música que se dobra sobre notas inúteis, que preenchem espaços mas “nada nos dizem”. Para nossa tristeza – e provavelmente para a tristeza de Arthur Schopenhauer, que pode ter feito o que foi o maior elogio filosófico da música – o plano da mera existência não é preenchido senão por uma densa massa de elementos coadjuvantes, contingentes, inessenciais, mera combinação de coisas genéricas que fazem o papel de fundo daquilo que recortamos quando narramos a vida. Acho que Schopenhauer entende a música como uma espécie de “atalho”, que nos faz sentir de modo imediato aquilo para o que a vida não é senão um meio imperfeito, isso é, o acesso à certos sentimentos. E Schopenhauer ainda vai além: ao nos permitir o acesso a tais afetos pela via estética, estamos em uma experiência quase mística, descolados da dimensão “material”, “física”, “carnal”, onde o que nos define é a torturante experiência do desejo – esse demônio que turva nossa percepção e nos revela que o objeto, quando obtido (ou seja, o desejo quando realizado), não era aquele que desejamos: por sorte ou azar, nossa ilusão se dissolve quando o desejo se realiza e percebemos que era o desejo o responsável pelos predicados que tornavam o objeto aparentemente desejável.

Qual seria a verdadeira o modo mais apropriado de vivenciar o desejo então, senão como o meio de experimentar certos afetos, sentimentos, emoções?

Bem, se o desejo é essa estrutura suicida, autodestrutiva e condenada ao fracasso, na música temos o meio de acesso privilegiado àquilo que supomos querer. Os sentimentos sempre foram o fim, os objetos sempre foram meios. A música nos dá diretamente os sentimentos que buscamos de modo confuso e desastrado nas aventuras da mera existência.

Janáček

PS: se a especulação de Kundera tem alguma verdade, bem, Janacek – na esteira de Beethoven – faz exatamente o que a música deve fazer: ir direto ao essencial, sem rodeios. Realiza a música perfeita, que nos dá o que realmente queremos mesmo que, de imediato, não saibamos.

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Excertos do subsolo – Sobre universais e prateleiras

Sentada à sombra de um guarda-sol na areia de uma praia qualquer, Clarissa ouvia mais do que falava enquanto Ariadne comentava sobre a beleza ou feiura dos corpos masculinos. Para tentar entrar entrar no espírito da brincadeira, teceu um comentário sobre um rapaz aleatório, um pouco magro e alto demais e um tanto desajeitado. Ariadne imediatamente retorquiu:

– Aquele menino? Certamente você é a única a olhar para ele nessa praia inteira.

Clarissa não saberia explicar, mas aquela frase encheu seu peito de uma estranha felicidade. Continuou olhando para o rapaz e desejou saber se existiam outros “como ele”. Esperava que não. Esperava que ele fosse, de fato, especial e único como já passava, discretamente, a se-lo em sua fantasia. Só interrompeu tal fantasia quanto refletiu e percebeu que estava fantasiando. Clarissa já sabia que era desse misto de fantasia e embriaguez, que era desse descuido que nascia aquilo que todos chamavam de amor.

O que Clarissa não nota é que esse desejo por um objeto único e especial já se manifestava em sua mais tenra infância. Como ela não teve lembranças da própria infância durante boa parte de sua juventude, não se lembrava do episódio em que, entrando com seu pai em uma loja de brinquedos, viu uma prateleira com dezenas de bonecas iguais àquela tão especial e única – que batizou de Melody – que seu pai lhe dera semanas antes. Na ocasião, Clarissa gritou em pânico diante da prateleira cheia de exemplares idênticos à sua amada boneca. Teve de ser levada para fora da loja nos braços por seu pai. Chegando em casa, a primeira coisa que Clarissa fez foi, chorando, jogar sua boneca no lixo depois de olhar para ela uma última vez, por vários minutos, em lágrimas e franca mágoa. Seu pai, em silêncio, observava e compreendia exatamente o que estava acontecendo. O que ele não previu foi que a partir daquele dia Clarissa carregaria para sempre aquele semblante melancólico e distante, de alguém que passa a maior parte do tempo procurando ou esperando algo especial e único, que jamais chegará.

Ora, acaso alguém vive de modo diferente de Clarissa? Não é a tragédia humana esperar e querer sempre o que não está presente? Aliás, ao invés de trágico, não será justamente esse aspecto do nosso eterno desejar uma das coisas mais triviais sobre a condição humana? Evidentemente que sim. Mas Clarissa, desde muito cedo, mostrou que tinha dificuldades em se deixar enganar.

(A capacidade de enganar a si mesmo é a mesma capacidade de crer e, assim, dela depende nossa capacidade de amar. Se Clarissa fracassava no amor era sobretudo porque sempre percebia muito rápido suas emoções, sem se deixar sequestrar por elas. Por não conseguir crer, sentia tudo pela metade, inclusive o amor.)

Pouco antes do colapso mental de Clarissa, a menina se viu dominava por um asco que se estendeu sistematicamente à todos os universais. Começou não conseguindo mais ir ao supermercado: tinha pânico das prateleiras, da produção em massa. Não tardou para o pânico se estender às palavras: desejava poder criar suas próprias palavras. Não poderia dividi-las com ninguém, porém, e sentia que dessa forma tal linguagem era impossível. Montserrat, seu psicanalista, supôs que o o colapso mental de Clarissa tinha sido disparado quando Clarissa notou que as cores, aromas, texturas e tudo o que percebia eram, também, universais. Clarissa teria percebido que tudo era público, nada era seu. Teria então se sentido como se aquele mundo fosse obra de um demiurgo fordista e preguiçoso. Montserrat supunha que a mente de Clarissa, em choque, teria fugido para as próprias trevas interiores quando, tomada de asco de toda a matéria da vida consciente, percebeu que não existia absolutamente nada singular e especial no universo.

Muitos anos se passaram desde então e hoje Clarissa não tem mais nenhum asco patológico e nem sequer mais do que meras lembranças fugidias daquele período. Contudo, ela mesma não parece notar a dificuldade que sente em diferenciar as pessoas, coisas e lugares, seja na percepção ou na memória. Ariadne elogia o peito desse rapaz, o traseiro daquele outro, o modo de caminhar de um terceiro, e Clarissa tenta acompanhar as indicações e descrições da amiga, mas isso lhe cansa a mente. Como não cansaria? Diante do tipo de diferença que ela espera e que lhe foi proibida desde a infância, aquelas que Ariadne elenca distraidamente são pequenas demais, superficiais demais, parecidas demais. Para tentar interromper o fluxo de atenção que Ariadne exige, Clarissa pede licença à amiga e vai até um quiosque buscar uma bebida.

De longe, Clarissa olha para a praia. Há anos seu semblante melancólico povoa minha imaginação. Hoje, finalmente entrevejo parte do que a entristece de forma tão constante. Invisível, a vejo de perto e aprecio o vento que faz balançarem seus cabelos enquanto seus olhos perscrutam o presente a procura do ausente. Entendo Clarissa e sei como ela suporta viver: já que não se pode trocar de alma nem de mundo, é preciso ceder e aceitar a supremacia do comum sobre o especial, do inessencial sobre o essencial. Talvez essa seja a sina de Clarissa, nascida para ser única e educada para ser especial. Talvez seja um capricho da menina-do-papai insistir em querer um mundo que não pode existir. Contudo, ainda consigo ver nos olhos tristes dessa menina imaginada o eco do choro da criança que muito cedo percebia que este mundo é o mundo do comum e da cópia, da cópia e do vulgar, da imitação, do inessencial, do contingente. Daquilo que é, no fundo, sem razão de ser.

dolls

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