“Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft

Quase três anos atrás assisti, por sugestão de um professor dos tempos de graduação e mestrado, um filme chamado The Sunset Limited, adaptado de peça homônima de Cormac Mccarthy. No filme, Tommy Lee Jones interpreta um professor que tentara suicídio na estação onde o personagem de Samuel L. Jackson trabalha como gari. Sem nome, os personagens apenas entabulam um diálogo de noventa minutos no qual o gari tenta devolver ao professor, pela via da religião, o sentido da vida. Falei sobre esse filme aqui. Falo disso porque ontem concluí a leitura de um livro que me lembrou muito o filme. Trata-se de “Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft.

Quando adquiri o livro já havia ouvido falar de Kreeft. Seus livros são recomendados por uma certa figura pública da mídia brasileira, autoproclamado filósofo, cujo nome prefiro nem mencionar para que seus admiradores (ou aqueles que dispensam tempo para falar mal dele, tão chatos quanto os admiradores) não venham parar aqui no meu blog. O livro que essa figura pública recomenda é intitulado “Como Vencer a Guerra Cultural” e na obra aparentemente Kreeft conclama os cristãos à uma guerra cultural contra… Tudo que não seja conservadoramente cristão. Também sabia que Kreeft tinha livros do mesmo gênero – pensadores se encontrando com Sócrates – sobre Marx, Kant e outros pensadores detestados pelo conservadorismo. Não fui para a leitura, portanto, esperando nada senão um massacre de Sócrates contra Sartre.

Ledo engano, divertida surpresa.

O Sartre de Kreeft é charmoso. Arrogante, histérico e intransigente, o Sartre de Kreeft é verossímil para quem tenha lido algumas biografias sobre o autor. Diferente do Sartre chapa-branca, edificante e boa-praça que parece se impor ideologicamente à alguns que se dedicam à estudá-lo academicamente. O Sartre que Kreeft apresenta é, nas palavras de Sócrates, o melhor amigo dos sacerdotes: oferece uma imagem da condição humana tão aterrorizante que deixaria qualquer um desconfortável em viver e pensar como um verdadeiro ateu, o que faria as pessoas correrem para as religiões. O próprio existencialismo se resume, mais ou menos por metade do livro, àquela “tentativa de extrair as consequências de uma posição ateia coerente” – definição usada por Sartre, é verdade, mas en passant n’o Existencialismo é um Humanismo (Kreeft, aliás, evita o máximo que pode discutir O Ser e o Nada, por sua demasiada e desnecessária complexidade). O existencialismo, em suma, seria uma doutrina impossível de ser vivida.

O livro tem quase 180 páginas de diálogo entre Sócrates e Sartre. Kreeft faz seu Sartre admitir que há, no seu existencialismo, uma opção pelo absurdo. Que a gratidão e o amor são impossíveis no existencialismo, que Sartre não parece crer no absurdo que prega pois não seria capaz de viver. Há mesmo alguns argumentos filosoficamente relevantes no meio da conversa. Kreeft faz Sócrates revelar à Sartre, por exemplo, que sua ideia do que seja a experiência cotidiana mediana da maior parte das pessoas é completamente delirante. Também faz Sócrates mostrar à Sartre como as pessoas, em geral, não experimentam, na ocasião de uma decisão, a escolha dos valores segundo os quais tais decisões se justificam moralmente – ideia central do existencialismo sartreano no que tange a natureza do valor e ao alcance da própria liberdade. Em suma, Kreeft é bem sucedido ao apresentar Sartre como alguém que, diante de um filósofo metafísico moralmente conservador, encarna perfeitamente bem o papel de um vilão: segundo Kreeft, Sartre mente que o existencialismo ateu apreciaria a existência de Deus porque a Sua existência resolveria o problema da angústia, o desespero e o desamparo humanos. Kreeft – ou melhor, seu Sócrates – afirma que Sartre aprecia o absurdo que prega, o desconforto que causa e não consola, a ausência de Deus. Afirmações sobre Sartre que acho bastante plausíveis.

O ponto fraco do livro de Kreeft é, sem dúvida, seu Sócrates. Transformado em um guardião da salvação da alma na antecâmara da eternidade, o pai da filosofia foi transformado em uma espécie de cão de guarda do conservadorismo cristão. Tomando parte por Aristóteles contra Platão não poucas vezes e muito preocupado em julgar Sartre segundo ideias mais medievais do que gregas, Sócrates também é pouco maiêutico: em certos momentos Sócrates fala mais do que pergunta. A licença poética permite que Kreeft faça o uso que preferir de Sócrates ou de Sartre. Minha impressão é a de que Sócrates, mais que Sartre, foi descaracterizado ao ser destituído de sua conhecida posição de buscador obsessivo da verdade. Talvez o público alvo de Kreeft não seja mesmo eu, que já poderia ser visto por ele como um fruto de uma educação filosófica pervertida por um dos lados da guerra cultural. Mas mesmo eu – que não sou nem leitor nem mesmo apreciador dos diálogos platônicos – fiquei espantado com o Sócrates de Kreeft.

Aliás, espanto e perplexidade marcam o final do livro. Sócrates – ou seja, Kreeft – não destrói Sartre em seu diálogo. No máximo faz seu diabólico Sartre afirmar que caso fosse mesmo um agente duplo do cristianismo – que entraria no ateísmo para assustar os ateus com a ameaça do absurdo – não poderia se revelar. Encaixando Sartre em uma grande narrativa divina na qual mesmo Judas Iscariotes tem seu lugar como antagonista, Kreeft encerra o livro fazendo Sócrates dizer que nunca encontrara um filósofo como Sartre. Tal como o personagem religioso de Mccarthy termina desconsolado em The Sunset Limited, Sócrates sai atordoado da conversa com Sartre. E se Kreeft – através de Sócrates – afirma que a felicidade é um fim e a filosofia é um meio, o Sartre de Kreeft é mais filósofo do que seu Sócrates ao ser intransigentemente coerente com suas premissas do absurdo da vida, da liberdade radical, da responsabilidade pela criação dos valores – e, portanto, pouco preocupado com felicidade. Se Kreeft vê no filósofo francês um agente duplo da religião ao criar um ateísmo assustador, Kreeft me pareceu um agente duplo do existencialismo ao apresentar um Sartre menos adestrado ou politicamente correto e mais comprometido com as verdades desconfortáveis do existencialismo do que se pode ver em muitas publicações mais sérias sobre o assunto.

Peter Kreeft

Peter Kreeft

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As mãos dadas II – O adeus de Penélope

O carro estava indo talvez um pouco rápido demais para que Alex o conduzisse com uma única mão. Mas não queria soltar a mão de Penélope. E se dirigir segurando a mão da moça já não era imprudência suficiente, Alex aproveitava para espiá-la, várias vezes por minuto, enquanto ela se deixava embalar pela velocidade e, em um aparente transe, se deleitava com a vista que se oferecia pela janela aberta do automóvel. Seus cabelos, então mais curtos do que outrora já foram, escapavam mecha por mecha do rabo de cavalo que a moça improvisara. A fumaça do cigarro segurado com a outra mão quase não se deixava entrever, pois mal deixava a ponta do mesmo e se perdia no turbilhão de ar causado no interior do veículo pela velocidade. Alex tinha de se concentrar, pois quanto estava com Penélope parecia contagiado pela mesma maldição que a acometia, a saber, a de se deixar arrebatar quase que completamente por qualquer sentimento. Naquele momento, enquanto o espírito de Penélope parecia se perder no cinza daquele fim de tarde, o de Alex se perdia no rosto e na pele de Penélope. Mas se perdia por pouco tempo, pois a combinação de estrada e velocidade exigiam sua atenção.

Depois de longos minutos, Penélope percebeu que era observada e sorriu com seu encantador sorriso sempre meio triste e completamente autossuficiente, de uma tristeza assumida com serenidade. Alex se perguntava se ela fazia ideia do quanto ele gostava dela, e preferia manter a questão em silêncio: era preciso silenciar. Se Penélope desconfiasse do que Alex sentia por ela, escaparia para longe como a fumaça do cigarro. Para evitar mesmo pensar nisso – pois às vezes desconfiava que a moça podia ler seus pensamentos – comentou sobre a beleza do céu cinzento. Penélope concordou:

“E não é?”, disse sorrindo.

Vejam: o arrebatamento de Penélope não é com o céu cinza. Nem consigo mesma. Era com o sentimento proporcionado por aquela circunstância que parecia elaborada por um demiurgo melancólico. Estavam indo embora da cidade onde viviam, depois de muitos anos. Não sei por que razão precisa iam embora, nem para onde. Mas a velocidade com que Alex guiava mostrava o quanto ambos fruíam a sensação de estar deixando para trás um mundo inteiro. E Penélope, através daquela paisagem seca e daquele céu cinza, voltava a si mesma. Alex não conseguia saber o que exatamente preenchia os pensamentos da moça, mas sabia que fosse o que fosse, o fazia do ponto de vista de alguém que não sabe o que fazer consigo mesma na própria vida. Podia captar, quase sentir junto com Penélope o sentimento dela, como se sente o calor de uma fogueira da qual se está próximo. Poder sentir isso era, para Alex, um privilégio. Às vezes queria ficar preso para sempre em um desses instantes que tinha com Penélope, onde se irmanava com ela em uma bruma indefinida e impossível de ser traduzida em palavras. Mesmo quando Penélope pegou no sono, Alex sabia: seus sonhos estavam embebidos daquela incerteza nebulosa sobre o que seria a vida dali para a frente. Alex também sentia o mesmo. Naquele momento, porém, ao menos uma certeza ele tinha: desejava segurar a mão de Penélope para sempre.

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A noite caiu e Penélope continuava dormindo. De modo muito habilidoso, Alex colocou música para embalar o sono da moça. Sem, porém, soltar sua mão. Os acordes de guitarra e a voz da vocalista da banda de rock estavam entre algumas das coisas que Alex mais gostava no mundo naqueles dias. Penélope não gostava tanto daquelas canções, mas como o próprio Alex ela sabia apreciar o deleite do amigo. Enquanto dirigia com uma mão só, Alex cantarolava a canção:

My Future is static
It’s already had it
I could tuck you in
And we can talk about it
I had a dream
And it split the scene
But I got a hunch
It’s coming back to me

A guitarra soou repetitivamente, como Alex tanto apreciava, algumas notas nervosas. Nervosismo e repetição. Era como se ele e a música fossem espelhos um do outro. Embora vivesse um momento completamente novo em sua vida (era a primeira vez que ele dava um salto no incerto de maneira tão franca) sentia que essa incerteza era uma nota repetitiva que retornava como uma bola de borracha lançada repetitivamente ao fundo de uma piscina, voltando sempre à tona. A presença de Penélope o enchia de forças e ele se prevenia mentalmente desse conforto: não devia contar com a certeza da companhia dela nem devia deixar que ela visse que ele lutava contra si mesmo para se prevenir da esperança. Enquanto pensava nisso, em uma curva qualquer, Alex perdeu o controle do carro.

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Alex não lembra quando exatamente conheceu Penélope, mas lembra quando foi que se apaixonou por ela. Era uma festa ao ar livre, cheia de jovens e pessoas envolvidas com a transformação da sociedade. Socialistas discutiam a dialética da história e analisavam a conjuntura política do país ao sabor de cerveja barata enquanto punks enchiam a cara sem esperança e com bebida mais barata ainda. Penélope estava com outras moças, próxima à um aparelho que tocava música popular. Dançavam e bebiam, como quase todos ali. Alex lhe pediu um cigarro, mas quem puxou assunto foi ela: queria saber se ele tinha um certo livro que ela queria ler. Ele tinha. Conversaram sobre o livro um fim de tarde inteiro e Penélope dedicou então toda sua atenção ao rapaz. Sem outras acomodações, assistiram deitados na grama o alaranjado do crepúsculo dar lugar à penumbra do entardecer. Foi essa a primeira vez em que se deram as mãos e foi de mãos dadas que viram a noite chegar. Esperar de mãos dadas o anoitecer foi a metáfora que encontraram para tudo o que aconteceria desde então.

Ambos já viviam há tempo demais naquela cidade e sua aproximação permitiu que vissem que já não havia nada que desejavam realizar por ali. Foi na noite do mesmo dia, depois de se separarem no início da mesma, que Penélope tocou a campainha da casa de Alex pela primeira vez. Era, na verdade, o início da madrugada e Alex estava em casa um pouco embriagado – ou ao menos supunha estar – escrevendo justamente sobre Penélope. Tinha o livro que ela pedira em frente ao computador em que ela escrevia e não pôde negar à moça que ela lesse o que ele estava escrevendo. Era uma espécie de conto, ou talvez uma crônica. Certamente um texto tão etéreo quanto este. Foi nessa noite que se beijaram pela primeira vez.

Esse beijo seria o primeiro de muitos, bem como a própria companhia noturna se tornaria uma constante para ambos. Ainda que ambos estivessem envolvidos em relacionamentos com outras pessoas (Alex tinha um namoro conturbado enquanto Penélope se envolveu com outras duas pessoas nesse ínterim) suas noites compartilhadas seriam o bálsamo de seus dias. De forma que seria inevitavelmente obscena em algumas narrativas, Alex e Penélope compartilharam seus corpos e almas em repetidos encontros que logo foram reconhecidos pelos dois como espaços de fuga: encontraram, um no outro, ilhas de tranquilidade, de leveza e liberdade diante das expectativas que se depositavam sobre eles e permeavam todos os demais âmbitos de suas vidas. Embora estivessem próximos o suficiente para terem cultivado reciprocamente algumas pequenas expectativas, o fato de seus encontros serem um espaço de exceção às exigências afetivas de um mundo demasiado confuso fez com que fossem prudentes: era como se tivessem feito um acordo silencioso de que sua relação não degradaria pelas mesmas razões que degradaram todas as demais que viviam e sobre as quais tanto falavam. Estabeleceram uma relação estranha, semelhante à um parentesco incestuoso, nascido do acaso mas eficaz contra o tédio. A relação durou apenas algumas semanas, precisamente o tempo que Penélope levou para ler o livro. E como se imitassem os personagens do livro, ao final da leitura de Penélope ambos concordaram que deviam ir embora.

Não sei exatamente como decidiram, nem sei exatamente o que levaram no porta-malas do carro. Não foi, porém, nada planejado. Ao entrarem no carro de Alex, deixavam para trás aquela parte de nós mesmos que é justamente a que nasce quando ficamos tempo demais em contato com algum solo. Talvez nenhum dos dois percebesse o quanto tal parte de si mesmos era fundamental e decisiva, mas não pareciam se importar. No espaço de poucos dias, decidiram que nada mais do que haviam vivido importava, mas sim o que iriam viver dali para a frente. Iriam embora. Não sei mesmo se decidiram o destino para o qual estavam rumando, mas vejo nos sorrisos aliviados – um tanto quanto melancólicos, é verdade – a convicção de que uma vida nova, nem boa nem má, era então possível e desejável. Deram as mãos e Alex deu a partida no carro, guiando com uma mão só.

• • •

O carro saiu da estrada e desceu algumas dezenas de metros por um declive, parando muito longe da estrada. Não sabiam onde estavam. Não haviam se machucado, porém. Penélope tentava telefonar para pedir ajuda enquanto Alex providenciava uma fogueira improvisada. Penélope chamou o resgate e Alex acendeu a fogueira. Não faziam ideia de onde estavam e só lhes restava esperar. O céu, anteriormente cinzento, se exibia vaidosamente repleto de potos luminosos. Sentaram no chão.

“Terá sido um sinal de que não devemos ir embora? Será que não devemos ficar e suportar, como mártires, os fardos que a vida nos legou?”

Penélope ria. Achava engraçado o modo como Alex fingia – ma non troppo – sentir e pensar a vida quase misticamente. Não respondeu nada, porém. Preferiu perguntar para Alex se ele ainda tinha algum cigarro. Haviam restado dois. Cada um acendeu um cigarro e se deitaram no chão como na primeira vez. E se deram as mãos novamente.

“Está com medo, Penélope?”

“Não.”, diz ela, esticando a vogal como quem respondesse enquanto ainda pondera e se examina. “Medo não. É uma sensação diferente. É uma impressão de que não se tratava final de fugir do lugar, mas de que algo diferente precisava ser feito.”

“Como assim?”

“Não é um novo cenário que vai nos salvar de nós mesmos.”, disse, antes de soltar em um sopro contínuo a fumaça que então se iluminava pela luz da fogueira.

“Eu sei. E você sabe que eu sei.”

“Não há como voltar. E eu nem quero. Só quero dizer que ir embora… Não basta.”

“O que é preciso, então? O que devemos fazer?”

Alex percebeu o deslize. Conjugou um verbo de modo equivocado, no plural. Seu inconsciente o traiu e deixou que Penélope percebesse que a levava em consideração em seus difusos planos. Ele percebeu que ela percebeu que ele havia percebido e em um instante, as cartas estavam viradas. O coração de Alex bateu mais rápido e o rapaz teve a impressão de que ela podia escutá-lo. Ela, de fato, podia sentir – como ele próprio fazia com relação à ela – exatamente o que ele estava sentindo. A estranha comunhão não se dissolvia mas, ambos sabiam, estava irremediavelmente transformada e já não seria suficiente para os manter próximos. Penélope terminou o cigarro e soltou a mão de Alex.

Alex ficou parado, deitado no chão, por alguns instantes. Depois se sentou. Sentia uma estranha preguiça. Uma espécie de cansaço, ou talvez de tristeza. Não sabia definir. Via Penélope de costas para ele. Ela se despia. Tirou a blusa, o short e as roupas íntimas. Virou-se então para Alex com o mesmo sorriso de sempre. Um sorriso inexoravelmente fatalista, com a sabedoria dos milênios que habitavam aquela alma. Caminhou até Alex e se curvou, lhe dando um último beijo.

“Não basta ir embora, não é? Você precisa se transformar.”

Ela concordou, com a aparente falta de convicção de quem está sempre incerto. Depois, voltou à paz habitual de quem sabe que não precisa, jamais, se justificar. Encolheu-se ao lado da fogueira por um instante, abraçando as próprias pernas e olhando para o fogo. A luz da chama iluminou seu rosto e seus cabelos. Olhou novamente para Alex e, mais uma vez, sorriu. Sorriu como ela às vezes fazia: como a criança que, em algum lugar, ela ainda era e sempre seria.

“Esse instante vai durar para toda a eternidade, Penélope.”, disse Alex sorrindo também, já resignado.

“Que bom.”, ela respondeu, com a voz um pouco manhosa e cheia de ternura. Seus olhos se encontraram uma última vez. Penélope, então, se transformou em um pássaro negro e alçou voo. Sua nova forma não demorou a se perder totalmente na escuridão. As luzes dos carros de resgate já podiam ser vistas ao longe. Alex riu alto, com os olhos marejados, em um pequeno instante de um estranho tipo de desespero. Mas retomou a resignação e disse um “sim”, total e definitivo, para as coisas tais como elas são. Apagou a fogueira que orientava os carros de resgate que, ao chegarem ao local, não encontraram senão um carro abandonado e nenhum sinal da presença do casal que os havia chamado.

Penélope

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As mãos dadas I – O adeus de Lulu

Três anos depois de se tornar esposa de seu professor, Lulu o deixou. Recordemo-nos, pois, da história de Lulu e seu professor.

Bonita e inteligente, Lulu era pelo menos uns cinco anos mais velha do que as meninas de sua turma na faculdade. Lulu fora o pivô da separação de seu professor favorito, de quem ela própria também rapidamente havia se tornado a aluna favorita. Capaz de perceber a instabilidade emocional e a falta de propósito de seu professor, Lulu pôs em marcha um plano que rapidamente fez com que seu amado professor se separasse da esposa e se casasse com ela. Foi com tristeza que a perspicaz aluna percebeu que a rotina do relacionamento transformara o interessante professor em um marido convencional, aborrecido e incapaz de manter interessante a dinâmica de um relacionamento mais longo. Se Lulu se casou com seu professor, teve de viver com um marido que parecia distante do seu ideal de homem.

Um ano depois de ir morar com o professor, Lulu completou seus estudos e conseguiu, através do então marido, seu primeiro emprego na área. O trabalho, porém, consistia em aborrecidas aulas para calouros e não instigava nem um pouco a jovem, que já não se sentia mais tão jovem: os anos de vantagem que levava sobre suas colegas, agora, a faziam se sentir velha e atrasada com relação aos avanços profissionais de suas ex-colegas mais jovens. Sua inteligência também a fazia se sentir deslocada diante das turmas que teve de assumir: perguntas bobas e comportamentos juvenis não eram nem mesmo compensados pelo constante e polido assédio que os jovens alunos praticavam religiosamente com a bonita professora. Foi nessa época em que, dominada pelo seu tédio, pela sensação de tempo desperdiçado e pela impressão de que não sabia para onde sua vida a levaria, que Lulu conheceu o professor Frederico – ou simplesmente Fred, como gostava de ser chamado.

Fred era da idade de Lulu e, portanto, bem mais jovem que o professor. Fred também dava aulas mas vivia ainda a euforia dos primeiros anos de carreira. A energia de Fred contagiou Lulu e deu à moça o ímpeto de que ela precisava para se sentir viva. Fred era bonito, alegre e sarcástico o suficiente para ser o centro das atenções nas festas da turma. Desde as primeiras ocasiões sociais Fred chamou a atenção de Lulu e a admiração foi mútua: muito mais equilibrada, inteligente e mesmo muito mais bonita e charmosa do que suas alunas, Lulu parecia ser a companhia preferida de Fred não apenas para as ocasiões sociais como também durante o dia-a-dia da sala de professores. Lulu percebia a proximidade que se criava entre ela e o rapaz e temia que seu marido e ex-professor percebesse alguma coisa.

Entendamos: Lulu não se sentia culpada. A única coisa que temia era que seu comportamento fosse julgado imoral, inapropriado ou mesmo cruel para com o marido ex-professor que, na opinião de todos, parecia o marido mais dedicado do mundo. Foi assim que, durante uma festa como aquela em que conquistou seu então professor, num sofá como aquele que havia na casa do então marido – e então, agora, também sua casa – e depois de alguns drinques, Lulu beijou Fred pela primeira vez. Os demais presentes pareciam não ter percebido o beijo e também pareciam não ter percebido quando Lulu e Fred se retiraram da sala onde a confraternização acontecia para, em um dos quartos da casa, ficar sozinhos.

No quarto, Fred e Lulu se beijaram mas não fizeram amor. Nem mesmo tiraram suas roupas. Permaneceram deitados, de mãos dadas, conversando durante quase duas horas. Embora a própria Lulu achasse a situação um pouco romântica demais para seu gosto, sem que ela percebesse, foi no momento das mãos dadas que ela percebeu que não podia mais permanecer casada com seu ex-professor. Foi no instante em que suas mãos se tocaram que o subsolo da alma de Lulu se reorganizou integralmente. Lulu pôde viver, sem que percebesse o que vivia, o sentimento de estar viva novamente. Aquele jovem e bonito colega era seu trampolim para que pudesse retornar à si mesma. Tentaram ser discretos ao sair do quarto onde se esconderam para ficar à sós, mas na sala Lulu foi surpreendida pela presença de seu marido, com um copo de uísque na mão, sentado exatamente onde ela e o jovem Fred estavam antes. Naquele instante, Lulu viu o rosto mais triste que já vira em sua vida e percebeu que alguns dos presentes observavam a cena, tão distantes e tão próximos quanto corvos que espreitam uma refeição. Sentou-se ao lado do ex-professor e já então quase-ex-marido certa de que não conseguiria convencê-lo de que nada demais tinha acontecido entre ela e Fred naquele quarto, muito embora o pouco que acontecera já tivesse sido significativo o suficiente.

“Como está, amor?”, disse sorrindo o ex-professor, já visivelmente embriagado. Parecia também bastante nervoso, o que fez com que Lulu temesse a ocorrência de um escândalo em público.

“Tudo bem. Achei que não viria na festa.”

“Ah, mas eu não resisti. Disseram-me que estava muito boa, que eu não podia perder. E está mesmo, não?”

Alguém havia ligado para seu marido e avisado sobre a situação. Corvos, malditos! Por quê? Com que necessidade? Futuramente Lulu agradeceria o anjo que lhe oportunizara um desfecho tão rápido para sua história com o professor. Naquele momento, porém, estava encharcada em piedade por aquele homem tão estúpido que conseguia, com as melhores intenções do mundo, tornar qualquer uma a mais aborrecida das mulheres.

“Diga-me… Por que, Lulu? Por que?”

O professor falava entre os dentes e Lulu temeu por uma cena de violência (temia mais a cena do que a agressão que pudesse sofrer). Não conseguia responder. Tinha vontade de dizer muitas coisas, mas nenhuma delas agora. Agora não queria mais consertar nada. Agora queria que a situação se resolvesse da maneira mais rápida possível, que o professor ficasse bem e que já a tivesse esquecido na semana seguinte. Que lhe desse um tapa no rosto e saísse da festa fazendo um escândalo, mas que tudo acabasse naquele momento. Foi assim que Lulu pensou que um anjo ouvia seus pensamentos quando o professor tomou todo o copo de uísque em um gole e disse apenas que ela teria o dia seguinte para levar suas coisas embora de sua casa. Lulu concordou e percebeu, com tristeza, que o professor tinha os olhos marejados. Assistiu seu já então ex-marido sair trôpego da casa onde a festa acontecia. Ao perceber que o professor havia ido embora, Fred se reaproximou e ouviu de Lulu a história acerca do que acabara de acontecer. Foi Fred que, no dia seguinte, ajudou Lulu a encaixotar suas coisas e se mudar, provisoriamente, para sua própria casa.

Não sei o que aconteceu com Lulu e Fred desde então. Desconfio que podem ter vivido uma história de amor mais longa e viva do que aquela que Lulu vivera com seu ex-professor. Sobre o professor, naquela noite ele dormiu na rua. Bebeu mais em cada bar que encontrou aberto no caminho para a própria casa e, completamente embriagado, se deitou no gramado de uma casa que ficava no caminho de sua própria. Por ironia do destino ou por motivações inconscientes, a casa em frente a qual o professor dormira era, precisamente, a casa de sua primeira ex-esposa, que o levou para dentro, lhe deu banho (com a ajuda de seu atual marido), lhe preparou café e ouviu atentamente cada parte da história. Foi naquela manhã e com ambas as mãos dadas sobre a mesa do café que o professor confidenciou seus novos planos, feitos dos escombros dos sonhos anteriores. Grato e ainda se sentindo mal pela bebedeira da noite anterior, o professor se despediu da primeira ex-esposa (bem como do marido atual desta) e foi para um hotel. Só voltou para casa dois dias depois. Os pertences de Lulu já não estavam mais lá.

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In Treatment: um elogio do autoconhecimento e um convite à reinvenção de si mesmo

Acabo de assistir o último episódio da última temporada de uma das séries mais charmosas e peculiares que já tive o prazer de assistir. A discreta In Treatment – inspirada em uma série israelense e inspiradora de versões no Brasil e na Argentina – tem uma estrutura extremamente simples: apresentar alguns momentos da semana de um psicólogo em sua atividade de atendimento clínico. Assim, as três temporadas acompanham Gabriel Byrne fazendo o papel do Dr. Paul Weston dedicando cerca de meia-hora de significativa atividade psicanalítica e terapêutica com os mais diversos tipos de pessoas. Seja o clássico caso de uma paciente jovem e bonita apaixonada por seu analista, de um indiano de meia-idade, recém viúvo e potencialmente perigoso por ser incapaz de viver no ocidente com o filho ou de um paciente que o culpa pelos 20 últimos anos dos quais se arrepende, o espectro dos pacientes de Paul Weston e sua interação com eles mostra o quanto a atividade terapêutica e psicanalítica pode ser extenuante e ao mesmo tempo edificante para os pacientes e para o próprio terapeuta.

Paul and Alex

Gabriel Byrne encarnando o psicólogo Paul Weston

Evidentemente, a série provavelmente não seria capaz de se manter – e não teria sido elogiada e premiada – caso se resumisse em uma espécie televisiva de psicodrama. A linha narrativa mais interessante da série é aquela oferecida pela apresentação dos próprios dramas de Paul que, no curso de três temporadas, vivencia o desmoronamento de um casamento de 30 anos, a reavaliação da própria atividade profissional e os primeiros passos da reorganização de sua própria vida. Nesse horizonte, a série mostra o próprio Paul saindo da posição de terapeuta e assumindo a de paciente uma vez por semana onde vemos toda sua fragilidade diante de sua terapeuta e antiga supervisora, a terapeuta aposentada Gina Toll (Diane Wiest), que então se dedicava à arriscar seus primeiros passos na carreira de romancista.

Acompanhar Paul diante de Gina ou mesmo de Adele – a nova terapeuta, procurada por Paul na última temporada – bem como acompanhar suas relações com seus familiares em cenas curtas e intensas que, durante as três temporadas, se mesclam em harmonioso contraponto narrativo com aquelas que mostram sua atividade terapêutica nos permite visualizar o ser humano que há por trás de cada profissional de psicologia. Se com seus pacientes Paul é lúcido, analítico e seguro, diante de Gina, Adele ou de sua família Paul é uma pessoa comum, enfrentando as situações de sua vida com a mesma a incerteza, instabilidade e passionalidade de seus pacientes.

Gina Toll e Paul Weston

Gina Toll e Paul Weston

No curso das três temporadas, In Treatment passeia por um grande número de temas e conceitos oriundos não apenas da psicanálise como também e principalmente de todo o amplo universo da psicologia em seu ambiente profissional. Vemos pacientes apaixonadas por Paul (transferência), Paul apaixonado por pacientes ou por suas terapeutas (contratransferência), suicidas potenciais em atividade de negação, recalque de acontecimentos significativos completamente soterrados no esquecimento, pacientes que preferem fármacos à psicoterapia e mesmo a típica resistência dos próprios pacientes ou familiares quanto à efetividade ou importância das sessões com Paul. Nas privilegiadas sessões em que Paul é paciente e não terapeuta – ou seja, onde dois psicólogos estão frente à frente -, é possível contemplar questões internas à própria atividade do psicólogo: o psicólogo deve ser rígido e impessoal ou deve, ocasionalmente, transpor o limite clínico e ser apenas outro ser humano diante do paciente? A terapia deve visar a decifração de uma personalidade ou a reinvenção do sentido de uma existência inviabilizada? Essas e outras questões acompanham a jornada de Paul e seus pacientes, enquanto estes oportunizam um verdadeiro laboratório reflexivo para aquele que tenta, em sessões semanais de meia-hora, ajudá-los à viver suas próprias vidas.

Penso que In Treatment é um drama arquetípico. Trata-se, em última instância, da jornada espiritual de uma pessoa presa no círculo vicioso da repetição de certos padrões de comportamento que, de muitas formas, inviabilizam qualquer realização vital concreta. O final da série é tão insuportável quanto também é o único possível: Paul não sabe o que fazer de sua própria vida. Porém, depois de três temporadas de desmoronamentos e acúmulos de pequenos fracassos e sucessos clínicos e existenciais, Paul parece ao menos saber o que não quer: não quer mais ter pacientes ou ser um paciente. Longe de ser uma conclusão cética com relação ao valor da psicoterapia, In Treatment é um elogio, uma apologia das sessões de terapia: mostra como a análise e a terapia psicológica podem ser vitais não apenas para os pacientes que dela se servem como também e principalmente para o próprio psicólogo. No caso de Paul, o envolvimento com as ciências da alma foram o caminho encontrado para dar sentido à uma vida até então baseada em tragédias familiares e frustrações pessoais. Ao fim da jornada de três temporadas vemos a sutil e progressiva tomada de consciência de Paul Weston com relação aos rumos que dá à própria vida. Longe de nos oferecer uma convencional conclusão catártica, In Treatment nos mostra como um ser humano pode perceber que vive anos – ou mesmo décadas – na doce embriaguez das narrativas que assume. Sem qualquer exaltação ou euforia catártica, assistimos Paul Weston reavaliar seus padrões e seus comprometimentos para, em seguida, sob os escombros de uma vida esgotada e condenada, se abrir para a então incontornável contingência do existir humano: sem saber o que vai fazer da própria vida, Paul sai do consultório de sua terapeuta abandonando, à um só tempo, ambos os papéis. Não será mais terapeuta ou paciente. A impressão que temos nas últimas cenas é que, enfim, o guia espiritual seguirá os próprios conselhos: romperá com narrativas e padrões confortáveis e se permitirá correr os riscos dos quais se protegia ao mantê-los.

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Àqueles que são apaixonados pela alma humana, In Treatment é certamente fascinante. Acompanhar Paul Weston na senda de seu próprio autoconhecimento até as portas da reinvenção de si mesmo é acompanhar uma ficção que, se não alcança a excelência de uma obra de arte, cumpre uma das funções mais elevadas que a ficção pode cumprir, a saber, a de laboratório existencial. Sejamos muito ou pouco dados à reflexão acerca de nós mesmos, é impossível não se identificar ora com Paul, ora com seus pacientes. In Treatment toca no núcleo daquele que é o drama de todos os seres humanos: escolher os rumos e o sentido da própria vida. Quem tiver disposição para enfrentar os 106 episódios de vinte-e-poucos minutos provavelmente sairá um pouco diferente dessa experiência.

Vida longa às ciências da alma!

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Excertos do Subsolo – Sobre Paloma e Penélope

Paloma e Penélope não se viam há muito tempo até o dia em que se encontraram na emergência de um hospital. Paloma sofria um ataque inédito, fulminante, de uma gastrite que se desenvolvera no último período. Penélope acompanhava Clarissa que se encontrava em observação após um ataque de nervos no qual quase fora atropelada após atravessar uma rua correndo em desatino. Vendo que Clarissa estava aparentemente bem, Penélope se sentou ao lado da amiga e perguntou como esta estava.

– Bem. Acho que é apenas um “ataque de angústia”, você sabe.

Penélope sabia do que Paloma falava, pois “ataque de angústia” era uma expressão cara para ambas as moças anos atrás, em um tempo em que as duas enfrentavam aquelas que eram provavelmente as escolhas mais difíceis de suas vidas. Indagada sobre as razões do mais recente “ataque”, Paloma decidiu responder de forma não muito sucinta, mas suficientemente clara para a amiga.

– Digamos que não consigo mais disfarçar que o fato de que eu saiba exatamente o que quero não me faça uma pessoa privilegiada, senão uma espécie de habitante de outro mundo condenada à viver nesse mundo de incerteza e desamparo.

Para Penélope tal resposta era mais do que suficiente. Paloma sempre fora uma pessoa
excessivamente leve, serena e ao mesmo tempo obstinada. Enquanto Penélope, Clarissa ou a maior parte dos seus amigos padecia da perpétua ansiedade inerente àqueles que sempre visualizam possibilidades melhores – ou ao menos diferentes – nas quais poderiam se jogar e comprometer suas vidas inteiras, Paloma preferia ignorar mesmo a existência dessas possibilidades, certa de que era seu envolvimento que dava o valor àquilo que vivia. A mera contemplação de outras possibilidades era, para Paloma, um vício potencialmente nocivo que, na maior parte das vezes, era causa de desconforto, e não seu efeito. Quer se tratasse de um amor, de um trabalho ou de uma mudança, Paloma encarava a possibilidade escolhida como sendo imbuída de valor pelo próprio ato da escolha. As escolhas de Paloma podiam se justificar em razões objetivas ou em sentimentos, variando ao sabor das diferentes situações. De qualquer modo, Paloma não flertava com o improvável e o charme das outras possibilidades se dissipava diante do poder desagregador da incerteza. Paloma vivia, com leveza, uma vida de cada vez. Vamos à um exemplo.

Anos antes de encontrar casualmente sua amiga Penélope naquela emergência, Paloma
se apaixonou por um rapaz que, meses depois, fora diagnosticado com uma doença terminal. Os médicos disseram que o rapaz não sobreviveria mais do que três meses, o que faria com que não poucas pessoas já passassem a planejar sua futura vida para depois daqueles três meses. O rapaz, contudo, sobrevivera por cinco anos inteiros até que sua saúde se deteriorou e seu frágil corpo pôde enfim descansar do combate contra a enfermidade. Seu grupo de amigos comentava que não poderia ser outra pessoa, senão a própria Paloma, a mais capaz de enfrentar uma situação daquele tipo. Ao invés de se atirar em um frenesi romântico no qual cada dia seria fruído com a melancólica intensidade de um final trágico já anunciado, a tranquilidade de Paloma, diziam, ajudou o rapaz a sobreviver às suas próprias limitações.

Foi nessa época que Penélope conheceu Paloma e que se tornaram amigas. A proximidade de ambas era tanta que, de forma quase natural e espontânea, acabaram se tornando amantes logo depois da morte do namorado de Paloma. O romance não durou mais do que algumas semanas, mas foi suficiente para aproximar ainda mais as duas. Nessa época Penélope se consultava com um psicanalista nada ortodoxo, que atendia pelo turno da noite e que interpretou a amizade de Paloma e Penélope como um raro caso de oposição e complementaridade: enquanto Paloma era toda objetividade e segurança, Penélope era difusa como uma nuvem de incertezas. Mal se decidia a fazer algo e já sentia emergir das profundezas de sua alma uma verdadeira torrente de possibilidades que lhe proibiam de viver a realidade das situações em que estava inserida. Penélope nunca estava exatamente onde estava, pois sua alma estava sempre em muitos lugares ao mesmo tempo. Foi lembrando de como era ansiosa a amiga que Paloma perguntou para a amiga, enquanto sentia suas dores estomacais aliviarem, como afinal ia sua vida.

– Diferentemente de você, minha querida Paloma, eu não tenho a sorte de sentir a angústia toda de uma vez. Você sabe, ela sempre está aqui, como uma nota de contrabaixo, ressoando ao fundo de tudo o que me acontece e tornando menos real cada local onde decido frear meus passos e descansar. Acredite se quiser, mas estive casada nos últimos seis meses!

– Mas que coisa maravilhosa!, exclamou Paloma. – Mas como assim “esteve”? Devo imaginar que você fez o de sempre?

– Sim!, disse Penélope gargalhando. – Sim, sim, sim! Eu fugi! Como sempre, às portas da felicidade, decidi fugir!

Penélope contou que morou por seis meses na casa de um homem mais velho que lhe tratava ao mesmo tempo como pai, amante e mecena. Desde que a conhecera, o sujeito parecia desejar apenas assistir a moça compor suas canções, fazer seus desenhos ou mesmo dançar nua sobre a cama sob o efeito de drogas. Era como um culto: ele oferecia o que ela quisesse, fossem instrumentos musicais, tintas ou drogas. Apenas queria ver Penélope desfilar seu gênio e sua beleza jovem pela casa. Segundo Penélope, o sujeito não era sequer um mau amante. Mas a possibilidade de viver a si mesma em plenitude mas em plena solidão fez com que Penélope, em uma manhã ensolarada, fugisse com as roupas em uma mochila para a casa de uma tia distante.

– Eu já não sei explicar, minha amiga, e nem sei se quero. “Tive tudo o que quis, mas nunca da forma que queria”, como diz um filósofo. É como se houvesse um dispositivo em mim que diante da iminência da realização de algo concreto simplesmente disparasse e, ao disparar, se apoderasse de mim, me obrigando a começar tudo de novo. Ou é isso ou sinto que estou morta. Não sei até quando isso vai ser assim e isso me aflige: não vou ser jovem para sempre. Mas também não penso que terei uma dessas vidas breves e intensas, que resultam em um manancial de histórias a serem contadas. Nada disso. Meu problema é muito mais simples. – Fez uma pausa e desfez, pela primeira vez, seu lindo sorriso. – Meu problema é que talvez eu sempre escolha caminhos sem saída, sempre escolha opções que não podem dar certo. Talvez eu seja minha maior inimiga.

Ambas silenciaram por um instante e antes que Paloma pudesse retomar a palavra, as duas viram o pai de Clarissa adentrar a emergência do hospital. Após cumprimentar as amigas, perguntou sobre Clarissa.

– Acho melhor deixar ela descansar, sr. S. O sr. deve imaginar em que condições a encontrei.

– Posso sim, Penélope. Deixe-me lhe deixar algum dinheiro e lhe fazer um pedido. Cuide dela para mim nos próximos dias, pois além de precisar me ausentar, sei que não sou a melhor companhia para ela nesse momento. Antes de partir, porém, tomem um café comigo, pois há outras coisas sobre as quais gostaria de conversar com vocês.

Paloma recusou gentilmente o café alegando dores estomacais. O pai de Clarissa insistiu
e Paloma sentiu as dores quase cessarem. Paloma ouviu do pai de Clarissa o pedido se estender também à ela, e lhe prometeu que se ajudasse Penélope a cuidar de Clarissa, jamais sentiria novamente aquelas dores. Contrariada, Paloma respondeu que recusava o café e ajudava Clarissa, mas preferia não receber nenhuma ajuda daquele tipo. Dirigiram-se, então, para uma lanchonete do hospital. Lá chegando, receberam advertências sobre como Clarissa iria se comportar nos dias que se seguiriam, sobre o que ela provavelmente diria e sobre o comportamento irregular de sua memória. As moças ouviam atentamente, mas Paloma não desfez sua expressão de contrariedade nem por um instante. O pai de Clarissa pagou o café, deixou uma quantia em dinheiro com Penélope, agradeceu e se foi. Paloma, satisfeita com a permanência da própria dor – que retrocedia graças à ela própria e apenas à ela – disse que detestava o pai de Clarissa. Nem mesmo ele, segundo ela, tinha o direito de tomar decisões tão amplas sobre as vidas de outras pessoas.

– Ah, minha amada Paloma, será que todos nós não faríamos o mesmo se pudéssemos? Digo, veja só: aí está você, enfrentando uma revoada de corvos instalados no seu estômago. Ele é igual à você e sabe o que quer. A diferença é que ele quase não precisa fazer esforço para fazer valer sua vontade.

Paloma escutou atentamente, como sempre fazia, e retorquiu:

– Ele que volte pro lugar dele, que não é aqui. Aqui é lugar de fazer escolhas, errar, e aprender. – Disse Paloma, pedindo um chá. Penélope deu seu delicioso e costumeiro sorriso e complementou o que Paloma disse.

– Concordo, concordo. Nem mesmo que seja para repetir os erros, não é mesmo? Não há erros repetidos que não sejam erros melhores!

Ambas riram e decidiram ir até o leito onde Clarissa era monitorada. Evidentemente, Clarissa estava fisicamente bem. Quando ambas chegaram, Clarissa estava sentada e tomando o lanche oferecido pelo hospital. Sorriu amplamente e disse, com a boca cheia de sanduíche, algo totalmente compatível com aquilo que seu pai havia dito, para Paloma e Penélope, que ela faria:

– Vejam só, não será a tríade sagrada feminina que se reúne nesse quarto? Muito embora me pareça que dentro em breve estarei chamando minha querida Penélope de “mamãe”, hahahahaha!

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Paloma percebeu que, de alguma forma, Clarissa percebia o que ela própria havia notado: Penélope provavelmente cometeria o maior erro de sua vida se envolvendo com o pai de Clarissa. Enquanto Penélope explicava para Clarissa como havia trazido a menina para o hospital, Paloma se permitia supor que não havia acontecido acidente nenhum, que tudo, afinal, corria conforme a vontade perversa do pai de Clarissa. Se não havia como enfrentar o sórdido pai de Clarissa, nada a impediria, porém, de detestá-lo. Clarissa, enquanto tomava seu suco, continuava a dizer suas coisas sem sentido. Sorriu para ambas e declarou:

– Muito me alegra que estejam as duas aqui. Fico muito feliz mesmo. As coisas são, afinal, como papai sempre diz que são: cíclicas. Engana-se quem acha que pode agir diferentemente, pensar diferentemente, ser diferente. Eu queria poder cuidar de vocês como vocês cuidam de mim mas, afinal, que importa o que eu queira? Vamos cometer sempre os mesmos erros, hahahahaha!

Clarissa proferiu muitas outras declarações fatalistas naquela noite, até que as duas amigas recebessem autorização para levá-la embora. E depois de cuidarem de Clarissa por sete dias e sete noites, viram o pai da menina vir buscá-la mais uma vez. Penélope se despediu de Paloma e disse que ajudaria o pai da menina a cuidar da jovem. Paloma sabia, porém, que muito mais do que isso estava em jogo. Curiosamente, quando o trio saiu de sua casa, Paloma sentiu que sua dor estomacal finalmente cessara.

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Menos maniqueísmo e mais empatia

Talvez tudo o que eu vá dizer agora diga mais respeito à mim mesmo – que não sei o que sentir nem depois de ser assaltado e agredido – do que ao caso do qual vou falar. Mas, vamos “reflexionar” nesse lindo domingo de sol e melancolia.

Dunga, o técnico da seleção brasileira e ex-jogador, deu uma declaração muito infeliz e completamente racista dias atrás. Daquelas que permitem que se entreveja o quanto um sujeito pode simular um comportamento sem absolutamente o compreender. O racismo “cordial” que impregnou as palavras do ex-jogador mostra o quanto ele sabe que deve evitar certas palavras e ações e mostra também o quanto ele não tem nenhuma empatia ou compreensão da questão, embora saiba que será vaiado se cometer algum deslize.

Mas, o comportamento de Dunga é infelizmente a regra em nosso país. Essa falta de boa-vontade para tentativa de diálogo e compreensão do outro define o tom maniqueísta da opinião pública. Eu não sei nada sobre o que faz o Dunga fora de campo, e é aí que quero chegar: a rapidez com a qual se conclui sobre sua eventual “maldade” diz mais sobre a forma que estamos pensando do que, talvez, sobre os alvos de nossos juízos.

Dunga muito provavelmente pode praticar uma cretinice por semana e posso estar sendo pueril aqui. Mas se não for o caso, essa pressa – e essa espécie de euforia raivosa – em colocar um indivíduo numa “lista de inimigos” já mostra qual é a possibilidade de redenção do inimigo numa perspectiva maniqueísta como a nossa: nenhuma. Ao “inimigo”, ao “vilão” parece possível apenas a admissão da insustentável culpa de ser quem é, seguida da prática religiosa de uma tentativa permanente dessa expiação impossível do mal cometido.

Já não falo aqui apenas sobre o Dunga. O episódio de sua declaração foi, pra mim, o estopim de uma tomada de consciência nada agradável: enquanto aqueles que tem espírito crítico não escaparem do pântano do dogmatismo e do maniqueísmo, serão apenas o reverso da moeda de um senso comum perverso. Enquanto o humanismo comemorar a morte de seus adversários e não tiver menos pressa em pregá-los no calvário do desprezo, esse humanismo não será nada além do que o reverso do seu “inimigo”.

Dungão

Repito: eu não sei quem é o Dunga. Apenas fiquei sabendo o que ele fez. Admito que posso estar sendo ingênuo. Mas, essa pressa do julgamento e essa euforia da condenação parecem práticas preguiçosas e narcísicas, empreendidas por grupos de indivíduos que, ávidos por reconhecimento mútuo, parecem não ver problema em condenar um bode expiatório qualquer apenas para confirmarem reciprocamente sua própria “bondade”.

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A Tempestade, Parte II – Transcendência (ou: A Breve Temporada de Clarissa no Subsolo)

Nunca havia pensado em Clarissa morta. Ocorre-me que depois de todos esses anos, talvez apenas assim seja possível compreender sua história. Talvez apenas o período em que Clarissa estava morta explique o que ela se tornou depois de retornar.

Clarissa na Tempestade

Sempre tentei ser sutil e disfarçar ao máximo o fato de que Clarissa não é exatamente um ser humano. Prefiro não dizer o que penso que ela seja, mas para orientar o leitor, pense nela como sendo algo de uma natureza parecida com os anjos de Wim Wenders, cujo único poder sobrenatural seja o de trazer alento àqueles que sofrem. Contudo, Clarissa passeia em um corpo físico e material no mundo humano. A história que vou contar agora se passa em um tempo em que Clarissa desfrutou precisamente da condição de ser apenas isso: um espírito, uma sombra, uma alma errante em uma dimensão sombria, semelhante mas ao mesmo tempo diferente deste mundo, seu espelho negro.

Os habitantes dessa região sem vida onde Clarissa passou uma curta temporada são precisamente os miasmas de autoconsciência que foram despidos de suas vestes carnais. Tais espólios sombrios de almas outrora vivas vagam entre nós que estamos no mundo vivo, mas uma vez condenados a subsistirem como simulacros conscientes de lembranças e sentimentos, já não podem senão ver precisamente o reflexo sombrio do mundo onde estamos. Assim, vejo Clarissa sentada em frente ao portão pichado de uma loja, junto com outras aparições, invisíveis aos olhos de um grupo de jovens que, em carne e osso, não podem ver que estão acompanhados por espectros invisíveis muito semelhantes a eles mesmos. Observando os vivos se embriagarem com vinho barato e esvaziarem maços de cigarro, os mortos se regozijam em sua desesperada ânsia de provar ao menos migalhas dos prazeres daqueles que permanecem aptos a, se preferirem, desperdiçar a própria saúde, o próprio tempo e a própria vida. O que sugere fortemente que nossa diferença para com esses espíritos invisíveis é mais sutil do que parece: se o que mantém uma alma presa ao plano da existência é seu leque de desejos e anseios não-realizados, a morte e a vida são apenas diferentes tons no espectro da experiência possível ao espírito humano. Mas, paremos de especular, voltemos a Clarissa.

Clarissa morreu em um acidente que seu pai não conseguiu evitar. Voltou dez anos depois, em sua nova forma – a forma que seu pai, por sua própria natureza, menos desejava que ela assumisse. A breve história que conto se passa nesse ínterim.

Clarissa tentava apanhar, inutilmente, um cigarro ainda aceso e fumado quase até o final por um dos jovens que ali estavam. Evidentemente, seus dedos etéreos não entravam em contato com o objeto desejado. Distraída, ouviu um amigo invisível lhe perguntar algo que, caso Clarissa ainda tivesse um coração, faria este acelerar e sentir uma falta de ar.

“Clarissa… Aquele ali não é seu pai?”

Era.

pai de clarissaDepois de meses de espera, Clarissa finalmente via seu pai novamente. Ele havia encontrado a filha no submundo. Por mais doce e pura que fosse a alma de Clarissa, a falta que sentia de seu pai não permitiu que sua alma seguisse o caminho que naturalmente seguem almas como a dela. Vê-lo na outra esquina, com um cigarro aceso e todo vestido de preto a fez correr para seus braços. Mesmo morta, Clarissa ainda conseguia chorar e chorou copiosamente enquanto esteve suspensa no abraço mais desejado. “Está tudo bem agora”, ele dizia. Ela não conseguia falar. Quando desceu dos braços do pai, este lhe entregou o cigarro – que não era, obviamente, um cigarro – e, acariciando seu rosto, disse as palavras que Clarissa mais desejava ouvir.

“Eu vim buscar você.”

Passeando pelo submundo com sua filha – e fazendo com que os outros mortos se comportassem como animais espectrais, sentindo sua presença nefasta e se afastando temerosos – o pai de Clarissa explicou o que seria necessário para que Clarissa pudesse alcançar a transcendência. Motivo de especulação no mundo dos mortos, ninguém sabia exatamente o que acontecia com as almas que transcendiam. Por medo do desaparecimento total, as aparições preferiam permanecer imersas na atmosfera infecta de suas existências desesperadas à fundir-se em um todo divino e místico. A fusão com a plenitude e o limbo do desaparecimento total pareciam duas vias idênticas de encontro com o nada e entre o nada absoluto e aquela subsistência miserável, a consciência individual parece preferir permanecer ancorada no existir, mesmo que seja acorrentada pela mais profunda angústia – o que faz com que eu insista que os vivos e os mortos sejam parentes mais próximos do que suporíamos. Ao contar para sua filha o segredo do que havia depois da transcendência, o pai de Clarissa oferecia para a menina uma motivação concreta para uma jornada de purificação e enfrentamento das sombras da própria alma.

“Veja, meu amor… Boa parte do que você precisa já está aqui. Sei que o que mantém você acorrentada nesse submundo é o desejo de estar comigo novamente. Mas você não pode permanecer nesse plano imundo e asqueroso. Infelizmente, quando você sair daqui, irá para o lugar que mais desprezo e no qual não posso entrar. Mesmo assim, é mais fácil tirar você de lá do que protegê-la nesse subsolo infecto. E eu vou fazer o que for necessário para buscar você. E então, teremos novamente todo o tempo do mundo para ficar juntos…”

De início, Clarissa resistiu a ideia de que devia deixar de querer estar ali, já que tinha quase tudo o que queria. Mesmo os cigarros e o vinho que desejava seu pai podia oferecer e, por algumas semanas, ela viveu uma espécie de paraíso pessoal em pleno purgatório, pois a presença de seu pai não tingia de cores o mundo cinzento, mas fazia com que a atmosfera sombria de seu novo mundo possuísse uma beleza singular. Com o tempo, porém, Clarissa aceitou que aquele simulacro sombrio de uma existência genuína precisava ser superado. Escutou atentamente seu pai e despiu-se de todos os desejos mundanos que ainda projetavam sombra em sua alma. Perto do final do processo, porém, seu pai disse que o ressurgimento dela no lugar para o qual ela iria chamaria atenção de todos os seus habitantes, pois aconteceria algo que é muito raro: ela seria uma das raras almas que chegariam lá sem a lembrança de quem ela própria era. E essa condição permaneceria até que ele pudesse encontrá-la.

Naqueles dias, o a jornada para a transcendência empreendida por Clarissa simplesmente estacionou. Não lhe interessava nem um pouco ir para qualquer lugar onde não apenas não teria a companhia de seu pai, mas não poderia sequer ter as memórias daquele que ela mesma mais amava. De qualquer modo, a esperança e a confiança de que seu pai a encontraria e a faria ser novamente quem ela desejava ser a fizeram enfrentar o desafio. Em uma tarde cinzenta como inevitavelmente são cinzentas as tardes no submundo, deitada no colo de seu pai e tendo os cabelos afagados por ele, Clarissa fechou os olhos. Estava mais corada e vestia um casaco vermelho (sim, os mortos vêem a si mesmos e se comportam como se ainda estivessem vivos). Enquanto lhe dava orientações e sussurrava palavras de alento, o pai de Clarissa sentiu a filha desaparecer de seu colo e do toque de seus dedos. Clarissa transcendera. Iniciava-se então o tempo da espera. Era preciso mover sabiamente as peças de seu xadrez e negociar com os habitantes mais desajustados daquele plano odioso onde Clarissa reapareceria. Felizmente, para ele próprio, ele dispunha de algumas cartas na manga e se não podia invadir reinos proibidos com passos imperiais, seria sinuoso e discreto. O pai de Clarissa sempre conseguia o que queria.

Clarissa e seu pai

Clarissa ressurgiu dez anos depois e a história de seu amor e de seu reencontro com seu pai começa nesse ponto. Não nos ocuparemos dela agora. Resta dizer que não raro Clarissa, em sua nova condição, vez por outra visita o submundo com seu pai. A maior parte dos habitantes do mundo inferior não reconhece a natureza desses estranhos visitantes e não sabem que existe uma rara, raríssima saída desejável para sua nefasta condição. Aqueles que a conheceram ficam felizes – na medida em que seus resquícios de confusa e atormentada consciência conseguem sentir alguma alegria genuína – quando esses dois estranhos personagens, trazendo vinho e cigarros, decidem passear no mundo cinzento onde os mortos habitam.

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