Acabou.

Chega de ressentimento.

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As mãos dadas II – O adeus de Penélope

O carro estava indo talvez um pouco rápido demais para que Alex o conduzisse com uma única mão. Mas não queria soltar a mão de Penélope. E se dirigir segurando a mão da moça já não era imprudência suficiente, Alex aproveitava para espiá-la, várias vezes por minuto, enquanto ela se deixava embalar pela velocidade e, em um aparente transe, se deleitava com a vista que se oferecia pela janela aberta do automóvel. Seus cabelos, então mais curtos do que outrora já foram, escapavam mecha por mecha do rabo de cavalo que a moça improvisara. A fumaça do cigarro segurado com a outra mão quase não se deixava entrever, pois mal deixava a ponta do mesmo e se perdia no turbilhão de ar causado no interior do veículo pela velocidade. Alex tinha de se concentrar, pois quanto estava com Penélope parecia contagiado pela mesma maldição que a acometia, a saber, a de se deixar arrebatar quase que completamente por qualquer sentimento. Naquele momento, enquanto o espírito de Penélope parecia se perder no cinza daquele fim de tarde, o de Alex se perdia no rosto e na pele de Penélope. Mas se perdia por pouco tempo, pois a combinação de estrada e velocidade exigiam sua atenção.

Depois de longos minutos, Penélope percebeu que era observada e sorriu com seu encantador sorriso sempre meio triste e completamente autossuficiente, de uma tristeza assumida com serenidade. Alex se perguntava se ela fazia ideia do quanto ele gostava dela, e preferia manter a questão em silêncio: era preciso silenciar. Se Penélope desconfiasse do que Alex sentia por ela, escaparia para longe como a fumaça do cigarro. Para evitar mesmo pensar nisso – pois às vezes desconfiava que a moça podia ler seus pensamentos – comentou sobre a beleza do céu cinzento. Penélope concordou:

“E não é?”, disse sorrindo.

Vejam: o arrebatamento de Penélope não é com o céu cinza. Nem consigo mesma. Era com o sentimento proporcionado por aquela circunstância que parecia elaborada por um demiurgo melancólico. Estavam indo embora da cidade onde viviam, depois de muitos anos. Não sei por que razão precisa iam embora, nem para onde. Mas a velocidade com que Alex guiava mostrava o quanto ambos fruíam a sensação de estar deixando para trás um mundo inteiro. E Penélope, através daquela paisagem seca e daquele céu cinza, voltava a si mesma. Alex não conseguia saber o que exatamente preenchia os pensamentos da moça, mas sabia que fosse o que fosse, o fazia do ponto de vista de alguém que não sabe o que fazer consigo mesma na própria vida. Podia captar, quase sentir junto com Penélope o sentimento dela, como se sente o calor de uma fogueira da qual se está próximo. Poder sentir isso era, para Alex, um privilégio. Às vezes queria ficar preso para sempre em um desses instantes que tinha com Penélope, onde se irmanava com ela em uma bruma indefinida e impossível de ser traduzida em palavras. Mesmo quando Penélope pegou no sono, Alex sabia: seus sonhos estavam embebidos daquela incerteza nebulosa sobre o que seria a vida dali para a frente. Alex também sentia o mesmo. Naquele momento, porém, ao menos uma certeza ele tinha: desejava segurar a mão de Penélope para sempre.

• • •

A noite caiu e Penélope continuava dormindo. De modo muito habilidoso, Alex colocou música para embalar o sono da moça. Sem, porém, soltar sua mão. Os acordes de guitarra e a voz da vocalista da banda de rock estavam entre algumas das coisas que Alex mais gostava no mundo naqueles dias. Penélope não gostava tanto daquelas canções, mas como o próprio Alex ela sabia apreciar o deleite do amigo. Enquanto dirigia com uma mão só, Alex cantarolava a canção:

My Future is static
It’s already had it
I could tuck you in
And we can talk about it
I had a dream
And it split the scene
But I got a hunch
It’s coming back to me

A guitarra soou repetitivamente, como Alex tanto apreciava, algumas notas nervosas. Nervosismo e repetição. Era como se ele e a música fossem espelhos um do outro. Embora vivesse um momento completamente novo em sua vida (era a primeira vez que ele dava um salto no incerto de maneira tão franca) sentia que essa incerteza era uma nota repetitiva que retornava como uma bola de borracha lançada repetitivamente ao fundo de uma piscina, voltando sempre à tona. A presença de Penélope o enchia de forças e ele se prevenia mentalmente desse conforto: não devia contar com a certeza da companhia dela nem devia deixar que ela visse que ele lutava contra si mesmo para se prevenir da esperança. Enquanto pensava nisso, em uma curva qualquer, Alex perdeu o controle do carro.

• • •

Alex não lembra quando exatamente conheceu Penélope, mas lembra quando foi que se apaixonou por ela. Era uma festa ao ar livre, cheia de jovens e pessoas envolvidas com a transformação da sociedade. Socialistas discutiam a dialética da história e analisavam a conjuntura política do país ao sabor de cerveja barata enquanto punks enchiam a cara sem esperança e com bebida mais barata ainda. Penélope estava com outras moças, próxima à um aparelho que tocava música popular. Dançavam e bebiam, como quase todos ali. Alex lhe pediu um cigarro, mas quem puxou assunto foi ela: queria saber se ele tinha um certo livro que ela queria ler. Ele tinha. Conversaram sobre o livro um fim de tarde inteiro e Penélope dedicou então toda sua atenção ao rapaz. Sem outras acomodações, assistiram deitados na grama o alaranjado do crepúsculo dar lugar à penumbra do entardecer. Foi essa a primeira vez em que se deram as mãos e foi de mãos dadas que viram a noite chegar. Esperar de mãos dadas o anoitecer foi a metáfora que encontraram para tudo o que aconteceria desde então.

Ambos já viviam há tempo demais naquela cidade e sua aproximação permitiu que vissem que já não havia nada que desejavam realizar por ali. Foi na noite do mesmo dia, depois de se separarem no início da mesma, que Penélope tocou a campainha da casa de Alex pela primeira vez. Era, na verdade, o início da madrugada e Alex estava em casa um pouco embriagado – ou ao menos supunha estar – escrevendo justamente sobre Penélope. Tinha o livro que ela pedira em frente ao computador em que ela escrevia e não pôde negar à moça que ela lesse o que ele estava escrevendo. Era uma espécie de conto, ou talvez uma crônica. Certamente um texto tão etéreo quanto este. Foi nessa noite que se beijaram pela primeira vez.

Esse beijo seria o primeiro de muitos, bem como a própria companhia noturna se tornaria uma constante para ambos. Ainda que ambos estivessem envolvidos em relacionamentos com outras pessoas (Alex tinha um namoro conturbado enquanto Penélope se envolveu com outras duas pessoas nesse ínterim) suas noites compartilhadas seriam o bálsamo de seus dias. De forma que seria inevitavelmente obscena em algumas narrativas, Alex e Penélope compartilharam seus corpos e almas em repetidos encontros que logo foram reconhecidos pelos dois como espaços de fuga: encontraram, um no outro, ilhas de tranquilidade, de leveza e liberdade diante das expectativas que se depositavam sobre eles e permeavam todos os demais âmbitos de suas vidas. Embora estivessem próximos o suficiente para terem cultivado reciprocamente algumas pequenas expectativas, o fato de seus encontros serem um espaço de exceção às exigências afetivas de um mundo demasiado confuso fez com que fossem prudentes: era como se tivessem feito um acordo silencioso de que sua relação não degradaria pelas mesmas razões que degradaram todas as demais que viviam e sobre as quais tanto falavam. Estabeleceram uma relação estranha, semelhante à um parentesco incestuoso, nascido do acaso mas eficaz contra o tédio. A relação durou apenas algumas semanas, precisamente o tempo que Penélope levou para ler o livro. E como se imitassem os personagens do livro, ao final da leitura de Penélope ambos concordaram que deviam ir embora.

Não sei exatamente como decidiram, nem sei exatamente o que levaram no porta-malas do carro. Não foi, porém, nada planejado. Ao entrarem no carro de Alex, deixavam para trás aquela parte de nós mesmos que é justamente a que nasce quando ficamos tempo demais em contato com algum solo. Talvez nenhum dos dois percebesse o quanto tal parte de si mesmos era fundamental e decisiva, mas não pareciam se importar. No espaço de poucos dias, decidiram que nada mais do que haviam vivido importava, mas sim o que iriam viver dali para a frente. Iriam embora. Não sei mesmo se decidiram o destino para o qual estavam rumando, mas vejo nos sorrisos aliviados – um tanto quanto melancólicos, é verdade – a convicção de que uma vida nova, nem boa nem má, era então possível e desejável. Deram as mãos e Alex deu a partida no carro, guiando com uma mão só.

• • •

O carro saiu da estrada e desceu algumas dezenas de metros por um declive, parando muito longe da estrada. Não sabiam onde estavam. Não haviam se machucado, porém. Penélope tentava telefonar para pedir ajuda enquanto Alex providenciava uma fogueira improvisada. Penélope chamou o resgate e Alex acendeu a fogueira. Não faziam ideia de onde estavam e só lhes restava esperar. O céu, anteriormente cinzento, se exibia vaidosamente repleto de potos luminosos. Sentaram no chão.

“Terá sido um sinal de que não devemos ir embora? Será que não devemos ficar e suportar, como mártires, os fardos que a vida nos legou?”

Penélope ria. Achava engraçado o modo como Alex fingia – ma non troppo – sentir e pensar a vida quase misticamente. Não respondeu nada, porém. Preferiu perguntar para Alex se ele ainda tinha algum cigarro. Haviam restado dois. Cada um acendeu um cigarro e se deitaram no chão como na primeira vez. E se deram as mãos novamente.

“Está com medo, Penélope?”

“Não.”, diz ela, esticando a vogal como quem respondesse enquanto ainda pondera e se examina. “Medo não. É uma sensação diferente. É uma impressão de que não se tratava final de fugir do lugar, mas de que algo diferente precisava ser feito.”

“Como assim?”

“Não é um novo cenário que vai nos salvar de nós mesmos.”, disse, antes de soltar em um sopro contínuo a fumaça que então se iluminava pela luz da fogueira.

“Eu sei. E você sabe que eu sei.”

“Não há como voltar. E eu nem quero. Só quero dizer que ir embora… Não basta.”

“O que é preciso, então? O que devemos fazer?”

Alex percebeu o deslize. Conjugou um verbo de modo equivocado, no plural. Seu inconsciente o traiu e deixou que Penélope percebesse que a levava em consideração em seus difusos planos. Ele percebeu que ela percebeu que ele havia percebido e em um instante, as cartas estavam viradas. O coração de Alex bateu mais rápido e o rapaz teve a impressão de que ela podia escutá-lo. Ela, de fato, podia sentir – como ele próprio fazia com relação à ela – exatamente o que ele estava sentindo. A estranha comunhão não se dissolvia mas, ambos sabiam, estava irremediavelmente transformada e já não seria suficiente para os manter próximos. Penélope terminou o cigarro e soltou a mão de Alex.

Alex ficou parado, deitado no chão, por alguns instantes. Depois se sentou. Sentia uma estranha preguiça. Uma espécie de cansaço, ou talvez de tristeza. Não sabia definir. Via Penélope de costas para ele. Ela se despia. Tirou a blusa, o short e as roupas íntimas. Virou-se então para Alex com o mesmo sorriso de sempre. Um sorriso inexoravelmente fatalista, com a sabedoria dos milênios que habitavam aquela alma. Caminhou até Alex e se curvou, lhe dando um último beijo.

“Não basta ir embora, não é? Você precisa se transformar.”

Ela concordou, com a aparente falta de convicção de quem está sempre incerto. Depois, voltou à paz habitual de quem sabe que não precisa, jamais, se justificar. Encolheu-se ao lado da fogueira por um instante, abraçando as próprias pernas e olhando para o fogo. A luz da chama iluminou seu rosto e seus cabelos. Olhou novamente para Alex e, mais uma vez, sorriu. Sorriu como ela às vezes fazia: como a criança que, em algum lugar, ela ainda era e sempre seria.

“Esse instante vai durar para toda a eternidade, Penélope.”, disse Alex sorrindo também, já resignado.

“Que bom.”, ela respondeu, com a voz um pouco manhosa e cheia de ternura. Seus olhos se encontraram uma última vez. Penélope, então, se transformou em um pássaro negro e alçou voo. Sua nova forma não demorou a se perder totalmente na escuridão. As luzes dos carros de resgate já podiam ser vistas ao longe. Alex riu alto, com os olhos marejados, em um pequeno instante de um estranho tipo de desespero. Mas retomou a resignação e disse um “sim”, total e definitivo, para as coisas tais como elas são. Apagou a fogueira que orientava os carros de resgate que, ao chegarem ao local, não encontraram senão um carro abandonado e nenhum sinal da presença do casal que os havia chamado.

Penélope

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Excertos do Subsolo – “Meu Corpo”

O primeiro significante decisivo foi a expressão “meu corpo”. Naquele momento prestei atenção ao que ela dizia. Ouvi-la dizer “meu corpo” com aquela languidez e displicência trouxe novamente minha atenção àquela conversa. A fumaça do cigarro e o café amargo sobre a mesa já eram, então, significantes gastos: ela os consumia mais por insegurança do que por gosto. Achava que essas coisas conferiam um ar de maturidade, de segurança, até mesmo de inteligência. Mesmo assim, eu entendia: ela era profundamente triste.

Charlotte Gainsbourg

Nunca conheci uma pessoa que se sentisse tão sozinha e não percebesse. Ela evidentemente tinha amigos, colegas, família. Mas ninguém lhe conferia o reconhecimento de que ela precisava para se sentir uma pessoa. Não havia um olhar sequer que a visse como ela era e, assim, lhe conferisse o valor desejado. Sentia-se um peso, um fardo, um inconveniente incômodo que uns e outros carregavam por piedade, e não por amor. E há muito tempo havia empreendido no caminho de tentar cultivar uma personalidade a partir da qual ela pudesse se amar.

Esse culto começou com o corpo. Tinha a sorte de ser bonita, de se achar bonita e se sentir bonita mesmo que soubesse que seu corpo não estivesse nos padrões de excelência das exigências da sociedade. Tinha a melhor das belezas, que é a beleza daqueles que se sentem belos. Durante anos a nudez diante do espelho foi um vício metade secreto, metade dividido com os amantes que tinham a sensibilidade de perceber o tempo excessivo que ela dispensava diante do espelho se examinando, aplicando cosméticos e penteando os cabelos.

Charlotte Gainsbourg

Não tardou, aliás, para que ela descobrisse que o corpo era um modo de tentar fazer as pessoas gostarem dela. E ela tentou. E algumas pessoas, evidentemente, gostaram do seu corpo. Talvez nesse momento – e esse é meu palpite, minha hipótese – ela tenha se “descolado” do próprio corpo, tenha percebido o próprio corpo como objeto de desejo dela própria. Desconfio disso quando a vejo enrodilhar o cabelo ou passar o polegar no lábio inferior, de um lado para o outro, enquanto tenta se lembrar de alguma coisa.

Lembro que a primeira vez que conversei com ela foi em uma reunião na casa de amigos. Ela estava contando sobre um livro que havia lido, um livro muito lido mas que credencia um certo refinamento ao círculo que o lê. Ela falava com uma empolgação desproporcional, era o centro das atenções do grupo de pessoas e sabia que estava linda, chamando atenção com o que dizia enquanto segurava o cigarro e contava como suas próprias vivências eram parecidas com as da narrativa no livro. Em um daqueles momentos mágicos, ela deu uma gargalhada e houve um estrondo. A luz se apagou e vimos que o carro do entregador de pizza havia se chocado contra o poste. Passaríamos a madrugada sem energia elétrica. Comeríamos a pizza e ela, percebi, ficaria de mau humor até ser o centro das atenções novamente. Percebi isso. E ganhei seu “corpo” quando disse que a gargalhada dela havia “causado” aquele episódio como as gargalhadas das feiticeiras produziam raios. Depois disso, vi seu sorriso se abrir em um segundo, e seu corpo em alguns minutos.

Foi naquela noite que ela usou o significante decisivo. A palavra mágica, que a fazia usar o corpo como se fosse um soldado em uma missão de reconhecimento de uma terra à ser conquistada. “Meu corpo”, como se fosse “meu soldado”. Naquela noite, eu era o território. E aquele corpo-soldado enfrentaria sua missão com certa alegria, mas com a expectativa da vitória. Aquele corpo-soldado, conquistador de um território novo, estava a serviço de um general insaciável e quase invisível, que era sua alma. O corpo-soldado sabia se satisfazer, mas o general não. Quando percebi, mantive certa distância.

charlotte gainsbourg_2-592Vi outros territórios sendo conquistados, um a um. E nas próprias reuniões, na casa de amigos, vi seu nome se tornar comentário em função da rápida e fácil troca de amantes com a qual ela se presenteava. Tomavam-na por promíscua, ninfomaníaca, faziam julgamentos morais em cochichos há poucos metros de distância. Duas das moças que comentavam tinham seus namorados e pareciam esquecer que eu já as ouvira falando do quanto se perde em diversão em um relacionamento sério, do quanto sentiam falta da empolgação, da novidade ou mesmo de se sentirem olhadas com desejo por um desconhecido. Ouvindo esses comentários eu quase me sensibilizava. Tinha vontade de dizer àquelas mulheres rancorosas que elas eram as vilãs! Que elas lutavam contra desejos que, por capricho e frescura, reprimiam, enquanto aquela outra sim era uma santa, uma santa que lutava com todas as suas forças para ser alguém. Bêbado, tinha vontade de me jogar aos pés dela e dizer que a entendia, que entendia tudo o que a atormentava, que lhe daria amor até o fim dos seus dias, que viveria com o escravo do qual ela precisava do olhar vigilante para afastar seu medo de desaparecer no esquecimento de todos! Mas, aquela noite ela escolheu outra pessoa e eu fui para a casa de táxi.

(O interessante daquela noite é que ela escolheu a companhia de uma mulher, o que só dá mais força à minha teoria: seu corpo era um soldado em busca de um olhar qualificado, que enxergasse sua alma. Saber apreciar outro corpo feminino explicava também como e porque a expressão mágica “meu corpo” era pronunciada com tanta languidez e sensualidade: ela achava a si mesma uma mulher desejável e sua alma desejava o próprio corpo, como se fosse o corpo de um outro.)

Aquele dia foi decisivo nessa história. Porque levei algumas semanas para tomar consciência de que uma eventual história entre nós não passava de uma companhia imaginária que criei para mim mesmo. Achei que a seduziria com algum mistério e palavras certas, mas nesses jogos de forças ela sempre tinha de ser quase sempre o pólo mais forte, que seduz e decide. Ela não faria, e não fez, nenhum esforço para ficar comigo.

E então se passaram quase dez anos.

E ela permanece absolutamente a mesma. Continuou tomando café sem açúcar e fumando em função do culto de si mesma, tarefa que ainda não completou. Não me surpreende que não lembre com nitidez daqueles dias: estava tão ocupada de si mesma que não teria podido perceber a riqueza do que a cercava. Mesmo hoje, ainda parece um tanto quanto enredada nessa tarefa difícil. Para mim não é difícil notar a tristeza com a qual fala “meu corpo”, como se referisse a um amigo com o qual ela foi negligente e, às vezes, cruel. Se a expressão mágica ainda surge naturalmente em suas palavras, é porque ainda não desistiu desse caminho e segue enviando esse soldado – ainda jovem, mas já cansado – para a batalha em busca de um território no qual possa descansar. Percebo, pelo comentário acerca do seu casamento frustrado e alguns outros, que ela já sabe o suficiente sobre si mesma para perceber que é vista por muitos como uma libertina, uma depravada, embora ela própria já o saiba que não é, mesmo que tal pecha seja conseqüência quase inevitável da vida que leva. Quando demonstro compreendê-la, ela sorri e me olha nos olhos. Desvio rápido. Não quero que ela suponha, por um instante sequer, que nesse momento mágico eu a amo, que a amo com uma compreensão total, e quase com uma devoção. Antes de ela ir embora, peço a última tragada do seu cigarro. Ela não nota, mas o apago delicadamente no cinzeiro, sem amassar o filtro. Nos beijamos no rosto e eu a desejo “tudo de bom”, muita sorte na vida, e essas coisas. Vejo seu corpo desaparecer na avenida, sumindo na multidão, mais linda do que há anos atrás. Guardo aquele filtro de cigarro, com uma delicada mancha de batom, enrolado em um pedaço de papel.

Charlotte Gainsbourg

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Excertos do Subsolo – Monadologia

Eu estou preso em meu próprio mundo. Ele poderia ser um mundo perfeito e bastaria que eu quisesse para que ele fosse perfeito. Mas ele não é, e eu não sei porque eu não quero que seja: bastaria que eu quisesse saber, e saberia. Mas se eu não sei, é porque não quero saber. E sei que se você encontrar essa carta, vai aprender tudo o que eu sei e só poderá me ajudar se quiser dar o passo definitivo que eu não quero, não sei porque não quero e não sei sequer porque não quero saber. Estou preso num loop que arrisco chamar de amor esse, de amor por existir. Temo que no momento em que eu queira descobrir, eu descobrirei. E desaparecerei.

Isso tudo começou quando eu percebi uma regularidade entre meus desejos e as coisas que aconteciam ao meu redor. Quero dizer, não bastava desejar para que acontecesse. Se eu estivesse com sede, cansado ou com sono, não bastava “desejar” para que essas condições fossem sanadas, como se houvesse um gênio da lâmpada invisível ao meu lado. Mas as coisas das quais eu precisava simplesmente “apareciam” ao meu alcance, sem que às vezes eu soubesse como elas tinham ido parar lá. E eu demorei a acreditar, mas acontecia. Eu encontrava meus cadernos perdidos, minhas revistas velhas, um maço de cigarros. Percebi o absurdo da situação quando comecei a querer encontrar objetos impossíveis: desejei encontrar entre minhas coisas as roupas íntimas de uma pessoa com quem, digamos, nunca tive intimidades. E aconteceu. Tenho certeza que aconteceu porque consegui criar uma situação onde a pessoa confessou o desaparecimento do item. Naquele momento eu percebi que a vida que eu conhecia estava lentamente desaparecendo.

Primeiro, preciso me explicar acerca de um detalhe sobre como funciona essa coisa do desejo. Porque eu mesmo descobri por acaso, sem procurar. Descobri, como disse, percebendo uma regularidade. Uma regularidade muito simples: tudo o que eu “projetava” se realizava. Repito: não se trata de desejo como é o desejo por uma coisa específica – um copo de água, o corpo de uma pessoa, etc. Trata-se de algo muito mais sutil e distante: a visualização do futuro. O futuro visualizado é precisamente aquele para o qual estamos nos encaminhando. Como em geral sempre imaginamos intervalos de tempo muito grandes entre nosso presente e nossas realizações, não apenas não percebemos que produzimos o presente lá atrás como não notamos que estamos desenhando o futuro mentalmente agora. É por isso que a maioria de nós simplesmente não nota essa “lei” e acaba fazendo uma bagunça na tela onde, querendo ou não, desenhamos o futuro. E essa “lei” opera o tempo todo, e eu já não sei se ela é uma lei da realidade, uma lei minha ou mesmo o que sou eu. Mas, vamos por partes.

Com o tempo, os objetos foram ficando mais sofisticados. Eu era capaz de, pela força da minha vontade, fazer “surgirem” objetos mais complexos. Desde máquinas simples – uma tesoura, por exemplo – até objetos eletrônicos. Percebi, contudo, que quanto menos eu entendia dos objetos que criava, pior eles funcionavam. Nessa altura eu já admitia que todos os objetos que me cercavam eram feitos da mesma “matéria” que aqueles que eu criava, e me via obrigado a postular explicações parciais de como os responsáveis por sua fabricação ou manufatura tinham de estar razoavelmente informados acerca das etapas do processo de produção desses objetos. Da minha parte, eu conseguia produzir livros sem dificuldade. Romances com histórias inéditas, cujas páginas já apareciam escritas quando eu os criava, mas cujas histórias se revelavam – e, na minha opinião, passavam a existir – na medida em que eu os lia. “Criei” dessa forma alguns contos e dois romances com mais de mil páginas, da estatura de romances de um Tolkien. Eu não sabia, contudo, de onde vinham aquelas histórias. Afinal, eu criava os livros e desejava ser surpreendido por suas páginas. Alguma história deveria “se produzir” e eu não queria que fossem histórias que eu reconhecesse como criadas por minha imaginação consciente. Tive então de aceitar a existência de um inconsciente. Confesso que eu teria me perdido em investigações e especulações neste ponto da minha vida, se não tivesse conhecido Sabrina.

Wynona RiderSabrina era uma artista mas, como eu, trabalhava em um escritório de uma editora. Eu havia cursado faculdade de letras e trabalhava como revisor. Sabrina escrevia, cantava, dançava, tocava instrumentos, encenava e fazia tudo o que fosse necessário para cultivar uma ilha de fantasia que a mantivesse à salvo da feiura do mundo. Sua competência intelectual, contudo, lhe permitia excessos: era a única secretária à quem era permitido certos excessos, como usar roupas extravagantes e cabelos soltos no trabalho. O dono da editora era um desses homens que havia acumulado uma respeitável barriga de prosperidade graças ao sucesso de seus negócios. Como era mais um artista frustrado, simpatizou com ela. Diferentemente do que aconteceu com o resto do pessoal do escritório: um bando de metidos à besta que se vestiam todos segundo um enfadonho estilo rock inglês e não gostavam de Sabrina.

Eu, pessoalmente, me apaixonei por Sabrina. Ela surgia no exato momento em que eu precisava de emoção na minha vida: embora o que eu estivesse descobrindo pudesse ser comparável à um “superpoder”, eu não sabia o que queria ou deveria querer da vida. Assim, Sabrina surgia se destacando de um cotidiano insosso e indiferenciado. Nos tornamos inseparáveis em poucas semanas e fomos almas platônicas siamesas por dois meses. Fomos à shows, peças, uma vernissage e um luau. Redescobrimos todas as lojas de discos e livros usados e a vida parecia um sonho quando eu podia usar meus “poderes” para fazê-la encontrar os livros e discos que procurava. Achei que ela fosse perceber que havia alguma coisa errada quando estranhou o vinil do The Dark Side of The Moon que “criei” para ela. Como nunca fui fã do Pink Floyd, creio que acabei “criando” um objeto mal feito. Ela disse que achava que era uma edição rara, feita de “versões”, e que mostraria à um amigo que era fã de Pink Floyd. Para evitar problemas, “descriei” o disco e ela nunca descobriu onde o “esqueceu”.

Nessa época, percebi que eu desejava – ou seja, visualizava – a vida desejando a permanência de sua imprevisibilidade. Afinal, Sabrina se demitiu. Cobrei satisfações do dono da editora, e ele explicou que simplesmente não sabia porque ela havia se demitido. E parecia honesto. Tentei descobrir se alguém havia armado alguma cilada para ela. Nada. Pensei em me demitir e “criar” dinheiro para sobreviver enquanto procurava por ela. Mas estava ofendido pelo fato de que ela havia partido sem dar explicações – sobretudo e justamente para mim, seu melhor amigo! Depois de considerar as possibilidades, percebi que poderia tentar fazer algo que até então não tinha me ocorrido: usar meus “poderes” com seres humanos.

(Esse parece um passo ilógico nessa experiência: porque eu simplesmente não “criava” dinheiro? Por que não projetava que ele apareceria em grandes quantidades na conta ou na carteira? Eu não saberia explicar. Talvez por uma questão de temperamento. No fundo, acho que só descobri esse atalho mágico pelo simples fato de nunca ter possuído o atalho real, que é o próprio dinheiro. Se eu tivesse nascido rico, provavelmente resolveria o intervalo entre um projeto e sua realização de forma muito mais breve e não teria sequer a ocasião de perceber nada.)

Como eu já disse, não se tratava de desejar, mas de “projetar”. Claro que imediatamente quis que ela batesse na porta do meu apartamento e me desse as explicações. Evidentemente, não aconteceu. Estava irritado e emocionalmente comprometido demais com Sabrina para conseguir fazê-la “aparecer”. Naqueles dias eu ainda tinha medo e pensava que uma Sabrina que “aparecesse” seria “falsa” e que eu queria e precisava da “verdadeira Sabrina”. Então, tive um insight apropriado para aquele momento: devia projetar encontrá-la ao acaso. Ou seja: acreditar que era perfeitamente possível. Esquecer a ideia de que ela não queria me ver, me convencer de que ela saiu da editora por razões que eu entenderia e que, portanto, não havia partido para longe demais. Precisava acreditar que a encontraria na rua, que tomaríamos um café e que a partir de então poderíamos voltar à boa amizade de outrora.

Foi o que eu projetei, portanto, foi o que aconteceu. Com toda a imprevisibilidade e surpresa que eu apreciava. Um dia qualquer, esperando o semáforo abrir para atravessar uma rua. Um “oi” singelo e alegre. E lá estava ela, linda, com seu estilo extravagante e seus cabelos soltos. Sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Evidentemente, tomamos café e perguntei para ela as razões de sua demissão. Ela disse que precisava de emoção. E eu lembrei que ela surgia no exato momento em que eu precisava de emoção na minha vida. Pedi licença e fui até o banheiro lavar o rosto. Eu finalmente entendia o que estava acontecendo.

Evidentemente, Sabrina não era apenas uma “projeção” minha. Era uma pessoa real, com suas características, sua personalidade, sua vida. Sua presença e seu surgimento, sim, eram resultado da minha projeção. Ela surgiu e ela se foi em função do meu desejo de imprevisibilidade. Eu havia feito ela surgir e havia feito ela partir, porque foi o que eu quis. E meu desejo ressoava segundo uma “harmonia pré-estabelecida” com os desejos dela. Era, afinal, o melhor dos mundos possíveis mas nenhum mundo parecia menos real do que esse. Decidi fazer um teste e diante do enorme espelho do banheiro, tentei aquietar ao máximo minhas emoções para poder projetar algo específico e preciso: fazer sexo com ela. Se meu desejo – limpo das emoções e devidamente visualizado – estivesse em harmonia com as possibilidades dela, estaríamos em minha casa ainda naquele dia, nus, sobre a minha cama.

Desde aquele momento, a vida simplesmente começou a passar vertiginosamente rápido. Não apenas dormi com ela como também com muitas outras mulheres. Quando aprendi a diminuir o intervalo entre o projeto e a realização através da simples visualização – quando aprendi a me reprogramar e ver a vida diferentemente em qualquer momento – iniciei um processo cujas consequências eu mesmo não previa. Foi como ter apagado os contornos do mundo. Sabrina desapareceu num oceano difuso de lembranças, como muitas outras mulheres. A facilidade das realizações emparelhou todas as experiências me empurrando para um quietismo que eu mesmo não apreciava. Descobri – embora não venha ao caso como isso pode ser feito – que é possível até mesmo reescrever o próprio passado. Fui capaz de reviver e corrigir, dentro dos limites da “harmonia pré-estabelecia”, uma série de experiências significativas da minha própria vida, com todos os paradoxos que eu imaginava que são próprios das “viagens no tempo”. Nessa nova linha re-escrita, Sabrina reapareceu (como reapareceria em qualquer outro mundo possível). Mas seu lindo rosto e seu lindo corpo – conquistados mediante “truques” – agora eram mais símbolos do que qualquer outra coisa. Símbolos do meu persistente desejo por imprevisibilidade e surpresa. Neste novo mundo reescrito, Sabrina é uma boa amiga, um alter-ego que sabe o que fiz com meu mundo e minha vida, e que me ajuda – porque eu assim desejei – a entender a mim mesmo.

Depois de todo esse tempo, que já não se deixa mensurar, percebi que os objetos já não eram necessários. Eu era um pequeno universo e tudo acontecia dentro desse pequeno universo. As coisas e pessoas perderam gradativamente seu valor e eu entendi que eles eram apenas ocasiões para meu aprendizado intelectual e emocional. A vida na qual eu descobri esse truque ficou distante, em um universo de mundos possíveis. Eu já não vivia, e não conseguia diferenciar a vida de um sonho estranho. As pessoas que me cercavam se assemelhavam a simulacros delas próprias e eu as via como unidades virtuais, guiadas por um problema logarítmico que se expressava emocional e intelectualmente. O quanto eles percebiam isso determinava o quanto esse processo demoraria. Todos eram tão reais quanto todas as suas outras versões possíveis.

Se eu estou aqui, no limite dessa encosta, ao lado de Sabrina e escrevendo essa carta, isso apenas significa que eu ainda não desejei saber. Ainda não visualizei no horizonte um encontro casual com a solução desse mistério. Na verdade, acho que essa solução já está por aí, caminhando entre as pessoas, esperando que eu ou qualquer outro deseje encontrá-la. Mas deseje nesse sentido forte, projetando ser possível e orientando toda sua vida para isso. E cada dia novo que nasce e eu escolho viver é um dia de recusa. Recusa da solução, recusa da resposta. Cada dia que eu escolho afagar os cabelos de Sabrina e permanecer aqui é um dia de recusa do infinito. Essa recusa talvez seja o nosso maior mistério, o nosso maior segredo.

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Mr. Nobody: a utopia de viver todas as possibilidades

Continuando essa sequência de posts, que já se arrasta por tempo demais, comento o terceiro filme que decidi classificar como uma “Utopia do Arrependido”. Trata-se de Mr. Nobody, de Jaco van Dormael, com Jared Leto.

A história é narrada por Nemo Nobody, "o último dos mortais".

A história é narrada por Nemo Nobody, “o último dos mortais”.

Praticamente desconhecido no Brasil, Mr. Nobody é um daqueles filmes que apela mais para o “sentir” do que para o “inteligir’. Ou, ao menos, assim deveria ser para que não se sacrifique sua beleza – ou a possibilidade desta. Porque as promissórias para uma inteligibilidade do filme são consideravelmente caras, e exigem mais do que boa-vontade do espectador: exigem também algum conhecimento básico de física e de ciências em geral, tendo em vista que é o menos auto-explicativo dos filmes – o que, aliás, faz com que Jared Leto apareça mais de uma vez no papel de narrador-comentador ao invés de  simples personagem.

O enredo é muito interessante e cativa na medida em que se desdobra de maneira muito dinâmica: um garoto tem sua vida desdobrada em dois caminhos distintos no instante em que os pais se separam. Uma de suas versões fica com a mãe e outra fica com o pai. Esses dois caminhos alternativos se desdobrarão em mais três, na medida em que outros mundos possíveis surgem quando este decide por se envolver com esta ou aquela garota. Assim, cotejando esses três mundos paralelos em seus relativos desdobramentos, somos conduzidos pelo filme que ainda possui um quarto cenário, no qual o personagem principal é o narrador da própria história, acabou de acordar de um coma, tem mais de 100 anos e é o “último mortal” que morrerá de morte natural. Esta versão anciã narra a própria vida em três registros distintos, o que deixa o entrevistador confuso. No final do filme, temos um aparente acontecimento do “Big Crunch” (a sístole de um universo que ainda sofria as consequências de um diastólico “Big Bang”) e vê-se um movimento de retrocesso físico de todas as coisas: tudo começa a andar para trás. E, de modo surreal, o filme termina nos deixando com o sentimento de que fomos convidados a fazer a existência “valer a pena”.

A física e a metafísica da segunda chance

Como eu disse antes, a presença da “teoria” acompanhando o filme se faz necessária e isso pode ser percebido pela presença de Jared Leto, em intervalos regulares, apresentando de maneira catedrática alguns tópicos de teoria física. Contudo, a teoria não constitui chave para completa compreensão do filme, mas para sua compreensão mínima que, insisto, é apenas pano de fundo para sua verdadeira fruição estética: a contemplação de uma existência desdobrada em diversas variações “quânticas”. Ao invés de apelar para o intelecto, o filme apela para a sensibilidade e serve-se da física dos mundos possíveis como metáfora para explorar esses universos distintos. É o aspecto existencial das escolhas do protagonista que nos interessam, e que nos deixam na ponta do sofá até as últimas cenas, torcendo para um final feliz entre Nemo Nobody (Jared Leto) e Anna (Diane Kruger).

As possibilidades de Nemo já se anunciavam desde sua infância.

As possibilidades de Nemo já se anunciavam desde sua infância.

Sendo talvez tão “colorido” quanto um Efeito Borboleta (que não entrou na minha lista porque, precisamente, é colorido demais), é nas relações amorosas do protagonista que a narrativa é focada, fazendo com que mensuremos o sucesso das diferentes vidas de Nemo pelo sucesso que tem ou não as suas relações amorosas. Assim, vemos Nemo envolvido com a maníaco-depressiva Elise e com a delicadíssima Jean em vidas nas quais, mais ou menos, prosperou financeiramente. O mundo paralelo no qual Nemo fica com Anna é precisamente aquele no qual ele fica com o pai doente, sacrificando sua vida e sua juventude dividido entre o trabalho e os cuidados com o pai. À esta altura do filme, já compreendemos que o principal apelo emocional/sentimental do filme é a possibilidade do reencontro de Nemo e Anna em um mundo no qual se afastaram através dos anos mas no qual também jamais se esqueceram. De qualquer modo, para o espectador, o valor dessa vida possível só se permite elucidar por contraste e comparação com as outras vidas que Nemo leva.

É possível mesmo visualizar elementos de um esoterismo “new age” no filme, na medida em que Nemo e Anna parecem se comunicar – talvez mesmo sem saber – através de pensamentos. Além disso, a sequencia inicial apela para a metáfora dos anjos ao exibir as primeiras memórias de Nemo, justamente antes do nascimento: Nemo é capaz de lembrar que diferentemente do que fazem com todas as crianças, os anjos não colocaram o dedo sob seus lábios e não selaram suas lembranças, o que dá fundamento para os múltiplos caminhos de Nemo no filme, afinal, este seria capaz mesmo de se lembrar de todas suas vidas possíveis.

Uma das mais belas colagens de narrativas que já tive o prazer de assistir, Mr. Nobody é delicadíssimo e sua falta de reconhecimento mainstream se justifica: mesmo “colorido”, Mr. Nobody não nos oferece um fechamento inteligível senão ao custo de promissórias muito caras. De qualquer maneira, as duas horas de filme se prestam com esmero àquela que é uma das principais virtudes de uma narrativa de ficção, a saber, a exploração de possibilidades da existência. Quando a arte faz isso de maneira meta-referencial e sem muitos sacrifícios, merece elogios.

Toby Regbo e Juno Temple nos papéis de Nemo e Anna quando jovens.

Toby Regbo e Juno Temple nos papéis de Nemo e Anna quando jovens.

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Brilho Eterno: a utopia do esquecimento

Depois de três meses, volto ao prometido comentário dos quatro filmes que batizei de “Utopias do Arrependimento”. E o segundo na lista é o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (no original, Eternal Sunshine of The Spotless Mind).

Não seria maravilhoso simplesmente esquecer daquelas coisas que nos causam sofrimento? Essa é a premissa da qual parte Brilho Eterno: não apenas é maravilhoso como é possível fazê-lo. Basta apenas a submissão à uma espécie de “lobotomia localizada”, que causa tanto esquecimento quanto uma bebedeira, e a pessoa está livre daquela rede de memórias – e, portanto, de afetos – que lhe causam tanto sofrimento. Através de uma empresa fictícia (a Lacuna Inc., parecida com a Life Extension de Vanilla Sky), a pessoa precisa apenas levar até os domínios da empresa alguns objetos relacionados com a memória à ser deletada. Após um rápido exame, os profissionais responsáveis pelo apagamento de lembranças localizam a área cerebral em que estas estão impressas e iniciam o processo de limpeza.

É a esse serviço que Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) recorrem quando seu romance lhes causa mais sofrimento que felicidade. Depois de um mal-sucedido relacionamento amoroso, Joel e Clementine se submetem aos serviços da Lacuna Inc. e tentam esquecer um do outro. O nó narrativo do filme se dá quando os profissionais da Lacuna Inc. estão na casa de Joel, realizando o serviço, e este toma consciência do que está fazendo. Joel, então, se arrepende uma segunda vez e tenta conscientemente impedir que o serviço seja realizado: tentando esconder suas lembranças com Clementine em locais cada vez mais remotos de sua consciência, Joel trava uma verdadeira odisseia na tentativa de salvar sua memória e, portanto, seus sentimentos por Clementine. Após uma série de eventos que envolvem até mesmo os profissionais da Lacuna Inc. no drama de uma vida vivida no esquecimento, Joel e Clementine recebem todos os seus pertences e as fitas gravadas nas quais falavam um sobre o outro. Recebem, assim, uma segunda chance: podem, sabendo quem são, reviver o romance esquecido e sem o risco de frustrarem suas expectativas ou, alternativamente, têm a chance de começar novos projetos. De forma catártica, o filme termina com Joel e Clementine juntos novamente, em uma impossível segunda chance de refazer o já feito.

Esquecimento, Eterno Retorno e o duplo arrependimento

Clementine and JoelFilosoficamente falando, os conceitos com os quais trabalha Brilho Eterno são consideravelmente mais pesados do que aqueles que vimos em Vanilla Sky. O conceito de esquecimento, por exemplo, nos coloca diante de uma realidade na qual elementos reais continuam operando aquém da nossa consciência. Embora tenha sido utilizado através da sutileza de uma ficção científica bem pensada e com a leveza de uma história de amor hollywoodiana, a ideia de que elementos esquecidos permanecem ativos em um domínio inalcançável ao nosso pensamento é uma premissa sem a qual, por exemplo, a obra de Sigmund Freud não seria possível.

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), por sua vez, nos dizia que o esquecimento é um elemento positivo, enquanto a memória é negativa. Do ponto de vista das necessidades vitais, o esquecimento é mais saudável que a memória: lembrar, por assim dizer, é uma atividade patológica. Re-memorar, re-viver o já vivido está no núcleo das atividades psíquicas que caracterização a decadência da humanidade, dando origem à coisas como o ressentimento, por exemplo. Além disso, o esquecimento tem uma estrutura paradoxal: tentar esquecer é lembrar. Não há maneira de se tentar ativa e conscientemente esquecer de algo. Assim, a possibilidade do esquecimento estaria ancorada em forças pré-conscientes, mais fundamentais que o próprio pensamento.

Em Brilho Eterno, vemos realizada uma verdadeira utopia humana: o esquecimento se tornou uma possibilidade concreta, acessível pelo âmbito da deliberação. Se não fossem os acontecimentos proporcionados pela relação dos personagens no filme, o esquecimento mútuo de Joel e Clementine teria sido um perfeito sucesso. A empresa fictícia Lacuna Inc. torna concreta a possibilidade do esquecimento como uma opção. Ainda que seja necessário se submeter à um processo artificial, a Lacuna Inc. torna possível atacar precisamente o locus da memória – evidentemente, pensado em termos neurobiológicos. A Lacuna Inc. torna possível o esquecimento consciente.

O que a Lacuna Inc. não pode garantir é proteção diante da contingentia mundi: a maestria do discreto – porém efetivo – nó narrativo, que faz com que Joel e Clementine terminem por receber as informações sobre seu passado esquecido, cria a possibilidade da “segunda chance”. Mas permite uma reflexão sobre um aspecto filosófico cujo respaldo, novamente, procuro na pena de Friedrich Nietzsche: o Eterno Retorno.

Ideia famosa de Nietzsche, o Eterno Retorno é pensado – entre outras perspectivas – como uma hipótese cosmológica que nos sugere que tudo o que acontece se repetirá. Esse convite fatalista à assunção autêntica da própria existência utiliza a hipótese cosmológica como ameaça: se tudo se repetisse, o que você gostaria que fosse sua vida? Ao responder essa pergunta, o indivíduo faria uma opção derradeira pela vida plena. É essa opção que é atirada no colo dos personagens Joel e Clementine: sabendo quem são e o que acontece quando se relacionam, arriscariam tentar tudo de novo?

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

O filme sugere que sim, e isso desde antes do final: quando Joel começa a tentar reverter o processo de esquecimento realizado pelos profissionais da Lacuna Inc., é possível constatar um arrependimento relativo ao arrependimento originário. Diante da iminência de perder suas lembranças preciosas, Joel começa a enfrentar o processo ao qual se sujeitou ao contratar os serviços da empresa. Esse é o momento áureo do filme e é em função do duplo arrependimento que o filme funciona. O seu final está desde o início anunciado e, embora hollywoodianamente catártico, pode ser lido de maneira quase-nietzscheana: sim, nós faremos tudo de novo. A opção de Joel e Clementine é a de dizer sim para o já vivido, dizer sim para a repetição, de dizer sim para a vida.

Minha única crítica, já realizada aqui mesmo e em um outro momento, embora de forma bem mais fraca, é a de que o filme só funciona porque Joel e Clementine são losers. Personagens quase vazios que, embora verossímeis, são sobretudo pessoas sem mais nada na vida. O amor é quase um prêmio de consolação à um casal carente e solitário. Joel e Clementine parecem mais movidos por suas necessidades do que por seus projetos e desejos. Curiosamente, o esquecimento é rejeitado como opção e diante da utopia oferecida no início do filme, o duplo arrependimento dos personagens faz a opção pelo Eterno Retorno e pela vida. No mais, o filme garante umas duas horas de catarse à quem procure uma história de amor com uma pitada de fantasia.

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Litost

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