Seu jeito de passear… *

Eu estava com saudades dele. Eu estava com tantas saudades que eu comecei a chorar, e eu fiquei chorando por muito tempo. Eu estava na sala do meu apartamento, deitada naquele sofá velho, de dois lugares. O veludo verde que forrava o assento ainda era macio, mas, não sei, eu nem sentia a maciez, porque dentro de mim a dor era tão forte que nenhuma sensação agradável conseguia entrar na minha cabeça. Estava tudo meio escuro. A única luz do ambiente era aquela luminária antiga, com a luz amarelada, no canto da sala. A luz batia na cortina fina e transparente, com um ar triste, assim, e não havia som algum. Estava tudo quieto, do lado de fora e dentro do apartamento. Era como se, na verdade, eu tivesse ficado surda… Quem sabe fiquei surda, mesmo. Não teria muito por que ouvir…

Eu olhava para o teto. Eu deixava os pensamentos irem embora. Irem embora para as minhas memórias, para o tempo que eu tive com ele. Tempo esse que, sei lá… Não volta mais. Eu lembrava de um rosto, assim, de homem, forte, bonito. Tão bonito… Lembrava de um par de olhos, que estavam vermelhos da última vez que os vi. Estavam tão lindos e eu me encantei com eles de tal forma que, por alguns instantes, eu não conseguia pensar em mais nada. Por que pensaria, se aqueles cabelos estavam negros, tão lisos que pareciam se misturar com uma névoa escura ao redor dele? Por que eu pensaria em qualquer coisa além daquela verdadeira miragem que eu estava vendo na minha frente, e que eu toquei, e que eu abracei, como nunca abracei nada, porque eu queria abraçar, eu queria tê-lo de novo, eu queria poder vê-lo e poder sempre estar com ele, sempre que eu quisesse. Eu queria que tudo voltasse a ser como foi um dia. Mas nada voltou a ser como foi. … E, na verdade, eu não sei porque.

Eu sinto falta, sinto falta de quem eu fui.
Sinto falta das coisas que eu dizia, das coisas que eu pensei.
Sinto falta de sentir.
Sinto falta de ter, de ter alguém como eu tive ele, como eu tive o D.
Eu tinha o D.
Ele, talvez, tenha sido a primeira pessoa que eu tive, de verdade, e agora eu falo disso com lágrimas nos olhos, lágrimas que custam a escorrer porque, não sei, porque eu não consigo me esquecer dele, e nem agora, nem agora quando as lágrimas escorrem, eu consigo me esquecer.
Eu não vou me esquecer nunca dele, porque ele foi o homem que eu amei do jeito mais puro, mas que nunca beijei.
Porque ele foi o homem que existia para mim como uma nuvem no céu, que eu acompanhei, lado a lado, nós dois, como duas nuvens, assim, tão calmas, voando, voando, se modificando e aguardando, aguardando, não sei, aguardando pelo momento em que nos transformaríamos em gotas de chuva.
E nos transformamos.
Mas ele se transformou antes de mim…

Ele se transformou, e caiu em um lago congelado e ficou petrificado.
No tempo.
Na memória.
Naquilo que ele não é mais, porque ele não existe mais.
E eu não sei, talvez exista…
Talvez ele esteja por aí, enquanto eu fico aqui, pensando nele e me lembrando dele.
Porque eu sempre vou me lembrar dele…

É assim que eu me lembro de você:
Olhos confortantes, cabelos macios, pele morna, mãos carinhosas, palavras de amor.
É assim que eu quero me lembrar de você, para sempre, porque você foi isso, e não o que você era quando foi embora, quando me deixou, nesse seu jeito de passear. De ir embora, e voltar.
Ou não voltar.

Eu lembro.

Eu estava ali, dormindo, na cama, e eu apareci em outro lugar.
Coisas aconteceram, anjos vieram do céu, o Inferno surgiu feito uma avalanche de pecado e de dor, vindo do horizonte.
Até que ele chegou.
E ele estava ali, na minha frente, e eu pedi um abraço, e ele me deu um abraço, e eu senti ele de novo perto de mim. Eu me senti segura e protegida nos braços dele porque eu sei que ele sempre me protegeu, sempre me quis e sempre zelou por mim, porque era isso que eu fazia por ele. Eu o protegia, do jeito que eu conseguia. Eu sempre tentei protege-lo, porque eu o amava.
Mas eu não consegui protege-lo.
Eu nunca consegui proteger ninguém. Eu sempre falhei. Sempre falhei. E eu estou acostumada com isso. Porque eu sempre deixo as pessoas. Eu sempre acabo ficando longe delas. E, não sei, talvez seja assim mesmo e eu tenha que me acostumar.

Um dia.

Eu voltei, depois de um tempo.
Eu cheguei naquele lugar, e fiquei ali, olhando de cima, dando voltas e voltas, procurando, procurando, querendo pedir perdão, querendo falar que eu o entendia, que eu precisava dele agora, mais do que nunca, porque eu estava sozinha, e porque eu tinha ficado sozinha por muito tempo.

Mas ele não estava mais lá.

E eu caminhei por ali, eu chamei pelo nome dele.
Eu quis que ele voltasse.
Eu pedi.
Eu pedi.

Mas ele não voltou.

E ele não vai mais voltar.

E eu vou ficar aqui, me lembrando dele e de tudo que fomos.
De tudo que construímos e que destruímos, sem perceber.
Nos destruímos.
Eu o destruí e ele me destruiu.
É.
Foi assim mesmo.

Nosso amor foi isso.
Uma bela tragédia que formou a desgraça que foram nossas vidas.
Mas foi amor.
Um grande amor.

– Por K.

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*Este conto é de autoria de uma velha amiga. Concebido em algum momento entre 2003 e 2004, faz parte de uma série de escritos em conjunto nos quais tive o prazer ímpar de tomar parte – sendo eu a parte menos qualificada para fazê-lo, sem sombra de dúvida. Os nomes dos personagens foram omitidos, porque não alteram em nada a qualidade dos escritos – e prefiro que permaneçam no esquecimento, por razões pessoais. Decidi postá-lo aqui por sua qualidade inquestionável e também por ser o último retrato que possuo da época mais bonita de minha vida, uma época que, como todas as outras não vai mais voltar. Decidi postá-lo aqui, principalmente, porque agora compreendo o que a personagem principal sentia naqueles dias…

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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