Existencialismo e Transparência

É divertido que, como assevera Sartre em O Existencialismo é um Humanismo, a palavra “existencialismo” não signifique, rigorosamente, nada. Afinal, o que há em comum entre Heidegger, Camus, Simone de Beauvoir e Milan Kundera?
Milan Kundera?
Sim. Sempre ele. Aliás, em 2004, retirei A Insustentável Leveza do Ser na Biblioteca Central da UFSM sob a sugestão de que era um “romance existencialista”. Agora em 2008, no último ano de curso de filosofia, ainda ouço em aula menções à pertinência da obra de Kundera, em termos filosóficos, como pensador alinhado ao existencislismo.
Que não significa, rigorosamente, nada.
Mas significa sim. Tanto que na sua coletânea de ensaios publicados sob o título de A Arte do Romance, Kundera responde ao entrevistador que “proibe-se” de dizer que seus romances são “fenomenológicos”. O entrevistador perde a deixa – que eu não perderia – de mencionar que em A Brincadeira, Kundera faz seu Ludvik Jahn compreender que seu antigo amor, Lucie, só fora amada em função da situação em que Ludvik encontrava-se. Sim. Situação. Palavra sartreana usada para falar de uma das estruturas fundamentais da realidade humana. Palavra que não poderia surgir por acaso na pena de Kundera. Kundera conhecedor do pensamento e da arte de Sartre.
Kundera não concorda com o que Sartre faz. Submete o romance à condição de instrumento da filosofia. Kundera que consegue ser, como os gigantes da literatura (Dostoievski, Kafka, Joyce), respeitado pela inteligência de sua arte, talvez não seja um pensador da magnitude de Sartre. Mas é a melhor artista. E fica ofendido com essa sujeição do romance à filosofia.
O segundo Sartre – o Sartre comunista, marxista, engajado – pensa a literatura como arma. “Um romance deve envergonhar”, diria Sartre. Envergonhar a humanidade de si mesma, como um espelho. São as palavras de um homem que viveu com o amor de sua vida – Simone de Beauvoir – uma história lendária, uma das mais polêmicas do século XX. Esse homem, que parecia não levar nada a sério, escreveu seriamente. Filosofia séria (O Ser e o Nada, Crítica da Razão Dialética), literatura séria (A Náusea, O Muro, os Caminhos da Liberdade), dramaturgia séria (Entre Quatro Parede, As Moscas).
Não sabia ele que um sermão só é bom quando é desejado? E que, assim, seus sermões só atingiam um público que já não precisava mais deles?

Tomas e Sabina, as imagens da força e da leveza de A Insustentável Leveza do Ser, obra magna de Kundera, são verdadeiramente ofuscados perante a liberdade absoluta de Sartre e Simone em sua vida real. Simone que, após a morte de Sartre, publicou suas cartas, contou ao mundo em A Cerimônia do Adeus que Sartre se urinava nos ultimos dias. Sartre queria ser o mártir da transparência. Destruir a separação entre vida pública e vida privada, entre autor e obra.
Kundera – 24 anos mais jovem que Sartre – e sua esposa Vera vivem na mesma França de Sartre. Desde 1975. Kundera tem 79 anos hoje. Sartre morreu com 75, em 1980. Teria 102.
Será que Kundera molha o lençol à noite? Terá sido infiel à sua esposa? Ou teriam os Kundera participado juntos de orgias com amigos? Não é por acaso que se sabe tão pouco sobre esses detalhes da vida particular de Kundera. Para ele, essa é uma estratégia necessária no mundo de hoje, para que toda a obra de um homem não seja ofuscada por sua imagem pessoal, por seus gostos, suas manias.
O mesmo comunismo totalitário que Sartre abraçou e apoiou foi o comunismo totalitário que que expulsou, com carros de combate, Kundera de seu pequeno país. Exilado por sua ironia, exilado por não levar nada a sério em seus romances, Kundera ri o riso do Diabo. O ceticismo e a acidez de sua arte é inaceitável sob a luz de um projeto de transformação de mundo. Os projetos de transformação de mundo, sob a luz de sua arte, se dissolvem como açúcar.
Kundera continua rindo, em seus romances. Em O Livro do Riso e do Esquecimento (mais uma palavra cara ao existencialismo) concluirá o romance (ele insiste, como romancista e como esteta, que aqueles sete estranhos capítulos possuem uma frágil unidade que lhes permite serem chamados de romance) com uma história sobre, justamente, transparência. Um dos personagens será, como Sartre, apologista da transparência. Sob todos os aspectos, Kundera mostrará, com sua prosa ensaística de compositor e comentador, como o desejo de transparência enquanto idéia progressista e humanista pode ser apenas uma forma travestida de um desejo de mostrar-se, um desejo de nudez.
E mostrará, simultaneamente, uma beleza que morre silenciosamente sob a luz da transparência: a beleza da solidão.
A solidão (tema sartreano) é um mal ou seria antes um direito em um mundo cada vez mais público e impessoal? O jornalista sorri ao ver a queda no avião em A Imortalidade. Vê-se que o desejo humano por cada vez mais progresso, justiça, o desejo de unidade, etc., acabam criando as condições para que desejos mais vergonhosos acabem se disfarçando e, dos bastidores, nos manipulem, tornando risíveis nossas vidas.
Não seria Kundera, sob certo aspecto, o realizador do projeto artístico sartreano na medida em que, em uma dúzia de romances, mapeou inúmeras possibilidades daquele auto-engano que Sartre chamava de “Má-Fé”? Não teria Kundera realizado nesses 40 anos que sua obra completa em 2008, na forma de um melancólico deboche, aquilo que a arte de Sartre tentara na forma de disfarçado sermão?
Eu não sei responder a essa pergunta. Sei, contudo, que minha resposta seria absolutamente interesseira. Sartre e Kundera são, sem dúvida, os dois escritores que mais amo (“proíbo-me” de falar de Nietzsche). Suas obras não me aparecem como objetos de conhecimento ou entretenimento. São alimento do espírito, são evangelhos de uma Bíblia cuja frágil unidade é costurada por uma palavra: “existencialismo”.
Que não significa, rigorosamente, nada.

 

Imagens: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, 1977. Milan Kundera e Vera Kundera, 1973.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Existencialismo e Transparência

  1. Sapacaxa do Agreste disse:

    Vendo essa foto, vejo que foi melhor ter lido Kundera antes de ter visto as fotos. Ele não parece muito inteligente…

  2. Rafaella disse:

    Grata surpresa, texto muito, muito lúcido!

  3. paulo disse:

    Tinha escrito um texto, grandinho até, sobre o sorriso não enferrujado que esbocei ao encontrar seu blog. Mas meu browser fechou sozinho, e infelizmente não vou refaze-lo. =/
    O comentário era sobre a magia, de se reconhecer no outro. A empatia.
    Enfim, puta texto, adorei. Não conhecia Milan Kundera, e já coloquei o filme (A insustentável leveza do ser) para baixar e separei o livro aqui nos favoritos, para comprar quando rolar uma grana.
    To dando uma garimpada nos seus textos aqui, são excelentes;
    Té mais

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