Patrick Marber: Variação de Milan Kundera

“Mas o que acontecera ao certo a Sabina? Nada. Deixara um homem porque queria deixá-lo. Esse homem tinha vindo atrás dela? Tinha querido vingar-se? Não. O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.” – Milan Kundera

Como alguém que se ocupa de filosofia, parece-me que seria mais usual se meu escritor favorito fosse Friedrich Nietzsche ou Jean-Paul Sartre, não Milan Kundera. Quem acompanha as postagens cá no Litost bem sabe que minha relação com esse escritor tcheco, morador de Paris e ainda vivo é uma relação que ultrapassa a admiração, que se trata talvez de uma obsessão (o nome do Blog é o nome de um de seus “contos”). Sua Insustentável Leveza do Ser é um livro que me revela segredos sobre a existência humana. Não é, contudo, à seu romance que quero fazer referência hoje. Quero fazer referência de uma outra obra. Um outro roteiro adaptado.
Quando vi Closer – Perto Demais pela primeira vez, o vi no cinema. Não posso dizer que tive prazer em vê-lo, pois não estava pronto para compreendê-lo. Confesso que minha primeira leitura do filme foi condicionada pelo desejo de preservar uma visão kitsch do amor que, felizmente, não duraria muito mais tempo. Quando o vi pela primeira vez, fiz o esforço de compreendê-lo como uma “visão distorcida e suja” do que era o amor.
Quando o vi pela segunda vez, estava novamente condicionado a não compreendê-lo adequadamente. Identifiquei-me de pronto e por completo pelo personagem Daniel, escritor interpretado por Jude Law. Ao invés de vê-lo como algo risível, via-o como o próprio herói da história e não compreendia suas atitudes (confesso que até a pouco fazia o mesmo com o Tomas de A Insustentável Leveza do Ser, personagem de Daniel Day-Lewis).
Acabo de assistir Closer pela terceira (ou quarta?) vez. Descobri que, como a Insustentável, Closer é um roteiro adaptado. É uma adaptação da peça homônima de um sujeito chamado Patrick Marber. A peça é de 1997. O filme é de 2004. Em minha opinião – para ser fiel à terminologia de Milan Kundera – Closer é uma variação de A Insustentável Leveza do Ser. Uma variação sobre o mesmo tema. Uma variação que – e me dói muito ter de dizer isso – parece-me mais complexa e refinada do que a Insustentável.
(Preciso situar aqui as dimensões em que as obras podem ser comparadas: Kundera escreveu um romance, Philip Kaufmann dirigiu a adaptação do roteiro para o cinema. Marber escreveu a peça e dirigiu a adaptação. A despeito do quanto eu tenha gostado do filme de Kaufmann, Kundera proibiu terminantemente a adaptação de outros romances para o cinema. A menos que eu mencione o romance de Kundera, quando eu falar da Insustentável, estarei falando do filme…)
Nenhum dos personagens de Closer pode ser apaixonante, como Sabina o é para mim. Por uma razão muito simples: de forma ainda mais acentuada do que em A Insustentável Leveza do Ser, Closer nos apresenta quatro personagens humanos, demasiado humanos, onde as relações de forças são flutuantes, não ficam claras. Mais do que em A Insustentável, em Closer não conseguimos localizar os heróis e anti-heróis. Ninguém, em Closer, encarna a Força ou a Fraqueza permanentemente. E, por incrível que pareça – e por mais que isso me irrite – os personagens que detestei outrora, são hoje aqueles com os quais mais me identifico: o médico frio e manipulador e Jane Jones, personagem da brilhante e belíssima Natalie Portman.
Em A Insustentável (que já li e assisti mais vezes do que posso contar), Tomas e Sabina são a Leveza, enquanto Tereza é o peso. Franz – que tem sua importância reduzida no filme – não pode ser comparado nesse aspecto. Sua relação com Sabina só faz com que seu aspecto risível, idealista, kitsch seja revelado. Franz vive em um mundo platônico, hegeliano, onde as coisas ideais, espirituais e etéreas são mais importantes que as realidades concretas. Sabina consegue flutuar pela finitude e suportar sua insustentável leveza. Ao fim da story, contudo, Tomas decide ir para o campo com Tereza. Opta pelo papel de marido, no final das contas. Eu confesso que demorei muito a compreender a escolha de Tomas senão sob a perspectiva nietzscheana da derrota do Forte pelo Fraco, derrota que surge como conseqüência da Compaixão pela fraqueza. Só que os comentários de Pâmela Marques, feitos há cerca de um mês (28/04) após a exibição do filme em um ciclo de cinema do qual participei me impuseram uma nova perspectiva: Tomas e Tereza ao final representam uma síntese. A vida no interior nivela suas forças. As palavras de Tomas na última noite dos dois revelam que, afinal, ele não sente-se derrotado. Sente-se satisfeito por perceber-se livre. Sabina é a última trincheira da leveza. É ela que Kundera deixa viver no final. Mesmo Franz, quando consegue estabelecer-se em uma vida confortável, não tarda a morrer. Seria mais uma vez meu ressentido desejo de condenar os finaiz felizes à morte para preservar meu ceticismo quanto à sua possibilidade? Deixo essa questão para uma próxima ocasião.
(Quando fui assistir o filme, nessa ocasião, estava preparado para detestar os comentários e ver Kundera ser mal-tratado, fosse a comentarista quem fosse. Minha feliz surpresa foi a de ver alguém da área da Antropologia, das Ciências Sociais, falar de um roteiro adaptado de uma obra literária com a competência de não pecar em nenhum aspecto: estético, filosófico, histórico… a obra e o autor foram adequadamente tratados e eu mesmo acabei saindo com a impressão de que tinha uma compreensão um pouco incompleta do romance…)
Vou tentar ler a peça de Marber. Porque, reafirmo, o filme é de uma complexidade delicadíssima. As categorias de Forte e de Fraco dissolvem-se durante o filme inteiro, sendo revezadas pelos quatro personagens. A metáfora da sexualidade (que se realiza infinitamente mais nos diálogos do que nas cenas) é ainda o espaço destinado para a instalação do amor e da própria felicidade na vida dos personagens – o que afasta ainda mais do kitsch a história: ao invés de tratar a sexualidade como uma região da relação amorosa, Marber mostra como ela é não somente a raiz, como também a terra, o tronco e os galhos de um amor que, para além disso, reduz-se a folhagens, flores e frutos: um colorido inessencial para o amor.
Confesso que desde que li Hegel, a dialética do senhor e do escravo me fascinou. Em Sartre, essa dinâmica é instalada no interior das relações humanas. Em Kundera, ela é delicadamente ilustrada nas figuras do Forte e do Fraco (a Leveza e o Peso). Kundera, contudo, além de deixar absolutamente nítida a relação de forças, propõe uma síntese no final: se Tomas e Tereza não morressem, não poderiam ter sido felizes para sempre? Talvez pudessem. Closer é ainda menos kitsch porque a síntese, como em Sartre, é impossível. A intersubjetividade como conflito é levada à seu extremo:
– Daniel (Jude Law) é um escritor que conhece uma estranha (Alice Ayres/Jane Jones), leva-a para morar com ele, mas acaba apaixonando-se por Anna (Julia Roberts) e, depois de deixar Alice/Jane, desce uma espiral descrescente de fracasso e humilhação que culminará por seu total abandono. Terminará sozinho, descobrindo que Alice chamava-se Jane, e que na verdade, vivera uma mentira (sua própria mentira, sua má-fé) por quatro anos.
– Anna (Julia Roberts) é estável do início ao fim. Defende-se como pode de Daniel, conseguindo o pretexto que deseja no fato dele ser comprometido com Jane/Alice. Conhece Larry (Clive Owen) por um acaso proporcionado por Daniel em um bate-papo erótico. Namora com ele. Deixa-o por Daniel. Acaba ao lado de Larry, novamente.
– Larry (Clive Owen) com a frieza de um médico, Larry parece incapaz dos sentimentos dos demais personagens. Namora com Anna até perdê-la para Daniel. Na belíssima cena da casa noturna, Larry deixa entrever uma sentimentalidade que revela-se no final, em sua conversa com Daniel. Larry parece compreender o amor como um jogo, e a humilhação de Daniel, o retorno de Anna e o fato de ter transado com Jane/Alice constituem, para ele, uma vitória: não lhe interessa a ausência de sentimentos alheios, dado que ele próprio não os tem em grande medida.
Jane Jones (Natalie Portman) parece uma moça perdida, carente, abandonada e sozinha. Logo revela que era stripper em outra cidade. Chora diante da câmera de Anna. Chora quando Daniel a deixa. Contudo, ao final da story, é talvez quem consegue suportar a própria existência com maior lucidez: sozinha, não é humilhada por ninguém e consegue terminar o filme como começou, sendo sempre ela quem deixa pra trás as pessoas.
Como em A Insustentável, os personagens se encontram por acaso. Como em A Insustentável, os personagens aparecem deslocados de situações familiares, regionais, etc. São tomados pontualmente pelas características que, com relação às características dos demais, pode-se depreender realidades humanas muito gerais e universais. A story, contudo, que Kundera nos conta é mais grandiloqüente, mais edificante. Closer é mais seco, mais sujo. Mais real?
Compreendo ainda mais claramente minha relação com a Insustentável. O filme de Marber é um filme melhor que A Insustentável pela ausência de seu caráter edificante. O final de Kaufmann para o romance de Kundera nos deixa com um nó na garganta, porque é um final feliz que termina de forma injusta. O final de Marber é um final triste mas que ocorre de forma justa, justíssima. A felicidade que o acaso possibilitou acaba sendo destruída por ele, em Kundera. A atmosfera do absurdo, atmosfera existencialista, de Sartre, de Camus, torna o romance de Kundera (e sua delicada adaptação para o cinema) nobre e expressiva. Em Closer, é a própria estupidez dos personagens que destrói o que o acaso uniu. Os personagens são contraditórios e mesmo seus problemas são confusos e, por vezes, obscuros. Acho que A Insustentável Leveza do Ser pode ser mais profunda, mais densa e mais edificante. Closer, em sua superficialidade, tensão e pela – por assim dizer – pequenez dos personagens é uma história mais mais real.
Todavia, não mais bela.

PS: O título do romance de Kundera refere-se essencialmente à Sabina. É Sabina que, ao final da história, do romance, tem de viver seu destino: a Leveza. Jane, depois de quatro anos com Daniel, deixa-o como, segundo ela, sempre deixara seus amores.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Patrick Marber: Variação de Milan Kundera

  1. CLAUDIA disse:

    Estranho vc falar tanto no filme Insustentável Leveza do Ser, e não no livro, de Milan.. O filme foge muito do livro em vários aspectos. mas concordo com vc que Closer tem muuita coisa em comum com a obra prima de Milan. Aliás achei seu blog digitando no google : Insustentavel leveza do ser + closer.

    • Pâmela disse:

      Olá Vitor! Apenas alguns anos depois encontrei esse belo elogio sobre meus comentários ao “Insustentável…”. Sabe que, ao ser convidada para esse evento (para comentar ESSE filme), temia o mesmo que você? Que jamais, nem rendendo a ele dias e dias, eu poderia falar de Kundera sem parecer limitada. Que bom saber que trouxe uma nova perspectiva a um devoto da tua estirpe! Recentemente reli “A brincadeira” e me deslumbrei como se fosse a primeira vez. Um abraço, Pâmela

  2. Victor da Filosofia disse:

    Com quase quatro anos de atraso, Pâmela. Desde essa época já li e assisti “A Insustentável” mais algumas vezes, e a obsessão passou um pouco. Mas só um pouquinho. Bom ver você por aí. Quem sabe, em alguma ocasião, não podemos fazer uma mesa redonda sobre o filme? Acho que me apropriei de mais alguns conceitos e posso fazer uma leitura um pouco menos comprometida (porque prefiro não falar de isenção).

    Abraço!

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