Brilho Eterno?

Quando Milan Kundera afirma que a única moral que pode ter um romance é a de descobrir algo até então velado, penso que essa afirmação pode ser estendida à outros domínios artísticos, como o cinema. Assim, o ato de assistir um filme pode ser uma experiência de natureza semelhante à leitura de um romance. Paul Ricoeur é o primeiro pensador que me vêm à cabeça quando penso no papel de uma obra de arte na compreensão que temos do mundo e de nós mesmos. Contudo – e como sempre – é na esteira das reflexões de Milan Kundera que tento compreender a experiência estética: ao se ler um romance ou assistir um filme, essa compreensão do mundo e de si mesmos se realiza porque a obra de arte nos revela outras possibilidades da existência.
Foi tendo isso em mente que assisti novamente “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, de Charlie Kaufmann.
Lembro que, quando assisti ao filme pela primeira vez, ele não me interessou muito. Ontem pela madrugada, quando o vi pela segunda vez, o vi com outros olhos, outros interesses. Saí do filme com uma sensação desagradável ao constatar algumas verdades nada convenientes.
O filme em si mesmo é bom na medida em que o enredo promove uma ficção semelhante àquela em que encontramos em Vanilla Sky: uma empresa nos oferece o alívio para o sofrimento mediante alterações mentais. A “Lacuna” (empresa de “Brilho Eterno”), diferentemente da “Life Extension” de Vanilla Sky – que deixava seus clientes em um coma onde sonhavam vidas perfeitas enquanto estavam congelados – é uma empresa que oferece o esquecimento como um serviço. Mediante um capacete e computadores, os profissionais localizam certas lembranças chave que seriam a fonte para sofrimentos e angústias. Promovendo um dano cerebral semelhante ao de uma bebedeira, a empresa oferece ao cliente a possibilidade de “começar de novo”.
O casal central que protagoniza o romance é interpretado por Jim Carrey e Kate Winslet. O personagem de Jim Carrey (cujo nome não me lembro, mas também não importa) envolve-se com Clementina (Kate Winslet) e descobre, depois, que a moça utilizou os serviços da empresa para esquecê-lo. Indignado, ele decide fazer o mesmo. Durante o processo, porém, ele se arrepende e tenta salvar suas lembranças para, quem sabe, tentar novamente o amor com Clementina.
Confesso que em meu apreço adolescente pelo surrealismo, fico encantado em ver uma história bem composta em uma atmosfera de sonho e alucinação, como é “Brilho Eterno”. Os elementos cinematográficos que apresentam o personagem de Jim Carrey dentro de seu sonho, conversando com Clementina em seu próprio inconsciente, tem uma textura interessante. Clementina, representando a voz das profundezas de sua mente, sugere as soluções ao protagonista que, mais de uma vez, precisa esconder-se nos recessos mais sombrios de sua memória, levando-a para engraçadas (como não poderia deixar de ser em se tratando de Jim Carrey) e delicadas cenas constrangedoras da vida do personagem.
Ao fim e ao cabo, por problemas dentro da própria empresa, Clementina e seu ex-namorado recebem gravações realizadas momentos antes de suas operações de esquecimento, gravadas pela própria empresa. Assim, em minutos, estão cientes de tudo o que provavelmente acontecerá caso fiquem juntos. O “tudo bem” do personagem de Carrey deixa o espectador com aquele espírito de que vale a pena tentar tudo novamente, da mesma maneira.

Penso, contudo, que esse final só é possível por um motivo muito especial. Motivo que só se tornou claro na medida em que uma certa intuição – com a qual eu já entrara no filme – só fez amadurecer.
Quando, ontem, vi a personagem de Kate Winslet, reconheci certos traços de caráter muito comuns, muito vulgares, traços que já reconheci em diversas pessoas durante a minha vida. Pessoalmente, Clementina causou-me uma forte irritação – porque por algum motivo, não estava interessado nas razões que levavam-na a comportar-se daquela maneira (nem eu nem Charlie Kaufmann, diga-se de passagem, haja visto o silêncio acerca do passado da personagem no enredo). O fato é que seu comportamento me aparecia como profundamente irritante e que aquela personagem dificilmente poderia oferecer elementos para uma história de amor interessante sem que houvesse o apoio de elementos como a empresa “Lacuna”.
O personagem de Carrey, fazendo o típico papel do fracassado tímido e inteligente (papel que conheço bem) dificilmente poderia se apaixonar por um tipo como Clementina. Antes de me aparecer como uma história de amor, o filme insinuava-se como uma história de desespero e solidão onde as pessoas não escolhem seus relacionamentos, mas entregam-se à qualquer opção desinteressante para, justamente, fugir da própria solidão.
A intuição se confirmou. Convrsando com minha irmã sobre o filme, perguntei o que ela achava dos personagens. Fiquei feliz quando ela disse, sem que eu precisasse conduzir o discurso, que o filme funcionaria com quaisquer tipos de personagens, que em si mesmo o casal não tinha nada de especial ou interessante.
Lembrei, então, de Tomas, da Insustentável.
Por que Tomas procurava diversas amantes? Kundera é explícito (e nietzscheano) ao afirmar que o prazer físico do sexo não era a finalidade do comportamento de Tomas. O objetivo de sua vida libertina era apoderar-se, obsessivamente, do milhonésimo que torna cada pessoa diferente da outra. A idéia reaparecerá nas páginas iniciais de A Imortalidade quando Kundera dirá (seguindo então Heidegger, penso eu) que há tantas pessoas no mundo – e já houveram tantas na história – que as pessoas não possuem propriedades como gestos ou manias. São antes as manias ou as gestos que possuem as pessoas.
Assim sendo, os irritantes traços de caráter de Clementina devem ser detestados em si mesmos? Ela torna-se, nessa perspectiva, um veículo de pensamentos e sentimentos totalmente impessoais, sem nenhuma liberdade? Longe disso: penso que ela seja absolutamente responsável por seu caráter irrritante na medida em que decide de quais impessoalidades se apropriará (e aqui, sigo Sartre).
Não foi isso, contudo, que me entristeceu.
O aspecto triste dessa história que estou contando é que, por diversas vezes fugimos desses elementos que nos causam desagrado – como se houvesse realmente para onde fugirmos, como se eles já não estivessem mesmo dentro de nós próprios. Se os personagens de “Brilho Eterno” são desinteressantes, se são pessoas comuns, sem grandes peculiaridades, é porque, no fundo, somos todos assim: muito parecidos. E o amor é, talvez, a fuga mais desesperada dessa impessoalidade.
Isso o filme mostra muito bem. Quando procuravam os serviços da Lacuna, as pessoas levavam todos os objetos ligados à suas lembranças. Presentes, cartas, utensílios, não importa. Cada uma e pequena coisa que fugia à impessoalidade, que ancorava as pessoas à um espaço em que podiam sentir-se especiais e únicas, se torna imediatamente especial também. São a contraparte física das lembranças, o corpo de que as lembranças são a alma.
O que entristece é que talvez o amor – e talvez a própria história humana – seja composta por esse tipo de esforço, fadado ao fracasso. Não: o que entristece é que, de fato, é assim; e que eventualmente, em momentos e coisas surgidas de outros interesses (como um filme), não possamos escapar à essa verdade tão amarga.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Brilho Eterno?

  1. Gisele disse:

    Vitor,
    o amargo dessa verdade também pode trazer outras coisas, além da tristeza. Em mim, o filme pincelou um tom cítrico sobre a possibilidade de um eterno retorno.

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