A imortalidade de Milan Kundera

Re-lendo A imortalidade, de Milan Kundera eu me convenço, todos os dias, na ingorância dos meus vinte-e-poucos anos, de que talvez eu nunca mais vá realizar leitura tão prazeroza quanto a desse sábio tcheco que ainda vive em algum lugar de Paris.
A imortalidade é, se não o mais belo, o mais inteligente romance que já tive o prazer de saborear. Em sete capítulos (número mágico de capítulos sobre o qual se desdobram todos os seus romances), menos heterogêneos que os sete capítulos de O livro do riso e do esquecimento, Kundera faz aquilo que acha que é função de um romance: explora possibilidades da existência. Com uma maestria que não espero mais encontrar em nenhum romancista que por acaso eu venha a ler, Kundera mistura-se à seus personagens, bem como mistura à ficção pura (?), em uma linha paralela a da story de Agnes (a heroína de seu romance), os personagens de Goethe e Hemingway: sim, gigantes da literatura servem-lhe como personagens. Kundera não apenas explora possibilidades da biografia de Goethe, bem como o faz conversar com Hemingway sobre a imortalidade à que são destinados os grandes escritores.
Confesso que tenho esperança de encontrar em Robert Musil um pensador tão potente quanto Kundera. Contudo, a extensão de sua obra capital (O homem sem qualidades tem mais de mil páginas em caracteres pequenos!) me incomoda e impõe que a leitura espere um pouco mais. Sei, todavia, que não vou encontrar o lirismo do hedonismo amargurado de Kundera em Musil. Por relatos, sei que Musil tratará de um tema que Kundera trata em A imortalidade: a identidade pessoal. Tema, aliás, que me permite fazer uma pequena elipse aqui, para comentar algumas coisas acerca de meus estudos presentes em filosofia.

Depois de dois anos lendo, de modo absolutamente diletante, o pensamento e a literatura de Jean-Paul Sartre, sou confrontado com o desafio de me apoderar de alguns conceitos de filósofos da tradição de língua inglesa, como Ludwig Wittgenstein e Peter Strawson. O primeiro, com sua concepção de filosofia como “terapia conceitual”, promoveu um verdadeiro giro de compreensão da função da filosofia. Paralelamente às considerações ontológicas de Martin Heidegger em Ser e Tempo, talvez a obra de Ludwig Wittgenstein seja o grande marco da filosofia contemporânea. Contudo, as conclusões à que chega Wittgenstein em algumas de suas reflexões são assustadoras: depois de séculos de apologia e releituras do sujeito cartesiano, Wittgenstein nos oferece uma perspectiva na qual o “infinito do mundo interior” (a expressão é de Milan Kundera) torna-se absolutamente irrelevante para o fazer filosófico. O sujeito cartesiano, que nem Nietzsche conseguiu destruir, se não morre torna-se fútil na pena de Wittgenstein. Já não importa mais o rico e “infinito” universo dos sentimentos e pensamentos se estes não couberem na objetividade dos conceitos, das palavras. As sensações, as imagens mentais, toda a miríade de experiências solipsistas tornam-se então um apêndice da condição humana? Talvez não. O fato é que sobre essa dimensão da existência, a filosofia, que não é senão análise dos conceitos, não tem nada a dizer.
P. F. Strawson é mais razoável. Faz um resgate – ainda que absolutamente contemporâneo – da filosofia de Descartes. Com o instrumental oferecido por Wittgenstein, ele pretende que o “conceito de pessoa” seja uma instância que possui precedência lógica sobre os conceitos que empregamos ao falarmos de estados mentais ou realidades materiais. A mente e o corpo são atributos da pessoa humana, que não é senão um conceito que orienta nossa experiência. E é nesses termos que a filosofia da linguagem trata a questão da identidade pessoal.
(Em 2007, participei de um evento belíssimo. Especialistas em filosofia reuniram-se em um vale encantado e durante três dias – e noites – publicizaram seus conhecimentos sobre essa temática. Lembro-me, não sem certa tristeza, de um professor comentando o quanto é decepcionante ver que não há um efetivo progresso filosófico quando um evento simplesmente reúne relatos sobre uma temática tão rica, de modo que Hegel, Heidegger ou mesmo Strawson acabem se transformando em marionetes de um hermetismo que a filosofia, por sua própria natureza, nunca mais irá superar…)

Milan Kundera faz questão de evitar a responsabilidade filosófica. Trata, evidentemente, da questão da identidade pessoal. Por que evidentemente? Porque segundo sua própria concepção de romance (“concepção de romance” é um jargão horroroso, quase filosófico, que o mestre detestaria que eu usasse) um romance também é uma exploração do mistério do “eu”. Kundera propõe questões atualíssimas, de profundidade evidente e relevância filosófica: O que define a pessoalidade? A soma das características de uma pessoa ou algo de essencial que subsiste à abstração de todas essas características? O que possui primazia ontológica: as características ou as pessoas? Isto é: as pessoas possuem suas características ou são possuídas por estas, ao modo de veículos de características que vem à luz da existência junto com o homem?
(Sim, Kundera não é idealista: além de homenagear Heidegger e Husserl – e recusar etiqueta de fenomenólogo ou existencialista – ele não parece flertar com a idéia da “eternidade atemporal” de uma idéia. Parece compreender, como um bom pensador contemporâneo, que a dimensão das idéias emerge à existencia junto com a humanidade…)
Como romancista, Kundera permite-se desenvolver esses temas não apenas em reflexões ensaísticas. Embora diga que um romance pode ser descrito, narrado ou pensado, Kundera serve-se de personagens que nos oferecem uma riqueza diferente da riqueza dos personagens da literatura tradicional: não são suas características, mas suas possibilidades que nos encantam. Enquanto um literato tradicional compõe um personagem segundo uma fórmula e o coloca em um palco onde, feito um boneco de corda, ele desenvolverá certas ações qual um “tipo humano”, Kundera compõe personagens nebulosos e flexíveis, que às vezes desempenham ações contrárias em mundos possíveis paralelos e/ou oníricos. Isso porque esse pensador (pensador, sim!) tcheco não acha que a moral de um romance esteja enraizada na história que ela conta, mas no sentido explorado pelas diversas linhas que podem compô-lo.
Há uma dimensão da existência humana que Kundera privilegia enquanto palco da iluminação de possibilidades: as relações amorosas. As relações amorosas e a sexualidade, por assim dizer. Em todos os romances de Milan Kundera, são as relações amorosas que servem de palco – ou picadeiro, como queiram – da tragicomédia da existencia humana. Uma existência marcadamente ocidental, européia no sentido husserliano do termo. Existência que flerta com o idílio e que assim condena a si mesma ao inevitável fracasso. Existencia que recobre-se de idealismo e acaba corroída por dentro, pela lógica perversa do ceticismo e da ironia.
Ceticismo e ironia – palavras-chave para que se compreenda os romances de Kundera e, segundo ele, a existência humana.
Embora talvez parecesse, não vou falar do romance A Imortalidade. Ainda estou relendo-o. Alguns momentos me comovem, me farão relê-lo ainda uma vez mais, pelo menos. Sua sexta parte, por exemplo, que acabo de re-iniciar, nos traz uma reflexão sobre astrologia. Não uma reflexão científica, mas sobre o papel estético e metafórico dessa estranha arte da qual Kundera já se alimentou nos tempos em que outros empregos eram-lhe proibidos por sua desavença com o comunismo russo que tomara a República Tcheca. Sexta parte que ele prometera, páginas atrás, ser a mais bela e trágica história erótica que ele já escreveu – e que, para minha sorte, já esqueci completamente desde minha primeira leitura.
Infelizmente, A arte do romance é uma coleção de escritos que precedem A imortalidade. Pois este último é o primeiro romance de Kundera que se vê livre de sua mágoa para com o regime comunista que destruíra parte de sua vida e que é delicadamente retratado em seus romances anteriores. A densidade conceitual dessa obra, contudo, talvez excedesse o propósito de A arte do romance, que não é senão um sobrevôo sobre os conceitos que forjam e esboçam uma unidade em seus escritos anteriores. É curioso notar que em certo trecho do romance, o próprio Kundera aparece dizendo que está escrevendo um livro chamado A insustentável leveza do ser. Seu interlocutor, o professor Avenarius, diz-lhe que este nome já fora utilizado. Kundera responde que este, e não o outro, deveria chamar-se assim. Também nota-se que Agnes, a heroína de A Imortalidade, guarda semelhanças com Sabina da Insustentável. E que não obstante a própria posição do autor sobre a relação entre autor e obra, é visível que Agnes compre o papel de um alter-ego do próprio Kundera.
Kundera sabe que fala sobre si, sobre a situação à qual seu gênio o sujeitou quando, neste romance, diz que quando se fala de um homem vivo como se ele já estivesse morto, é porque esse homem já é um imortal. Como um fiel apóstolo – e de modo mais kitsch impossível – contribuo, regularmente, para que esse gênio tcheco não seja esquecido. Para que seja conhecido. Para que talvez ele faça por outras pessoas o qu fez por mim – pois se um estudante de filosofia talvez não encontrasse em Kundera mais do que um bom artista, um bom romancista, eu o procuro como uma pessoa angustiada procura um Paulo Coelho. Mais do que sua arte – que, sei, não disponho de elementos conceituais para julgar apropriadamente – é sua sabedoria que me encanta. Como alguém que ocupa-se apenas de filosofia, talvez eu seja quase cego para a riqueza estética de sua composição romanesca, não ignoro. É a potência de seu intelecto e a beleza – esta sim – de suas reflexões que me serve não apenas como deleite, mas também como amparo.

PS: Para não poluir o blog com uma postagem desnecessária, quero comentar sobre outra coisa que, a dias, não me sai da cabeça. Trata-se desta foto de Milan e Vera tirada em 1973. Como Wittgenstein alertaria, uma imagem não significa, em si mesma, absolutamente nada. Vejo, contudo, o olhar de Vera: ela não olha para a câmera. Enquanto Milan olha para a câmera que o fotografa, Vera parece deleitar-se com a visão de seu amado Milanku (em A lentidão, ele confessa que sua mãe o chamava assim) posando para a fotografia. Seu admirado Milanku, talvez seja a palavra mais apropriada. Idolatrado Milanku seria um exagero? Vê-se, a despeito dos avisos de Wittgenstein, uma alegria nos olhos de Vera? A alegria de ser a mulher de Milan Kundera? Afinal, esse olhar encantado dessa moça (que coincidentemente guarda semelhanças com a Tereza personificada por Juliette Binoche no filme de Philip Kaufmann para a Insustentável) não será o olhar de felicidade de alguém que tem para si um imortal? Ou de alguém que pertence à um imortal?
Certamente são elucubrações exageradas…

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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16 respostas para A imortalidade de Milan Kundera

  1. Kaio prates disse:

    Caramba! Esse é o blog que eu sempre quiz, pesquisei por acaso o nome de Kundera e me deparei com esse cabeçalho do Sandam do Neil Gaiman… Caramba! Ganhei meu dia!

  2. Regina Anthero disse:

    Amo Kundera.
    Feliz por nao ser só nessa escolha.
    Saber q ele vive na França, e nao conhece-lo, é uma grande frustracao q carrego.
    Abraços.

  3. camila disse:

    Ola,li A insustentavel leveza do ser ,e o Livro do riso e do esquecimento e estou buscando a imortalidade por sites,bibliotecas e sebos vida a fora ,mas nao consigo encontra-lo.Por favor,conhece algum site aonde eu possa baixar o livro?
    Grata!
    otimo blog =)

    • Victor da Filosofia disse:

      Pois nunca encontrei em versão digital, Camila. E só o tenho em versão física porque ganhei de presente.

      • Regina Anthero disse:

        Tem poucos meses, comprei meu segundo exemplar pela estante virtual…precisava ter um de reserva…

  4. Alessandra Jungs disse:

    Que belo texto, mais legal ainda saber que é de um doutorando em filosofia da UFSM, também estudo lá, não filosofia, mas enfim…
    Comecei a leitura de “A Imortalidade” ontem, sexto livro que estou lendo desse tcheco incrível! É impressionante como cada livro dele me toca de uma maneira diferente, mas ainda profunda. Nunca canso de ficar extasiada com Kundera. Grande pensador, realmente.

    • Victor da Filosofia disse:

      Curiosamente, voltei a leitura desse romance dias atrás. Um amigo começou a leitura e decidi acompanhá-lo. Não exagero ao dizer que, de tudo o que já li na vida, esse livro é o que mais gosto. :)

  5. Luís disse:

    Partilho em absoluto da mesma opinião. De tudo aquilo que já pude ler na vida, este é o meu livro preferido. ;)

  6. Lindka Mariana disse:

    (por acaso. e sempre abusamos dele, ou ele que abusa de nós. sempre abusado, então)
    Sempre que boto um disco pra rolar na vitrola (ou leio um livro), Olguinha diz: __ Esse aí já morreu, né?
    Tá. Pelo acaso de ler quase sempre autores ( e ouvir cantores) mortos, pensei que o Milan Kundera fosse morto, mas NÃO. Aí leio isso no livro ” A imortalidade”, do mesmo Kundera:
    “quando se fala de um homem vivo como se ele já estivesse morto, é porque esse homem já é um imortal.”
    Moral: Chico, Bethânia, Manoelito de Barros, Kundera……já são imortais pra mim!!!

  7. Lindka Mariana disse:

    ah, meu per-curso é inverso ao seu: de letras para a filosofia ou da des-construção dos conceitos à “da análise dos conceitos”…

  8. Lindka Mariana disse:

    Experimentando Kundera e Italo Calvino juntos!!!!

  9. Pingback: A morte e a imortalidade - O Benedito

  10. moonlua disse:

    Amo Milan kundera. fiquei muito feliz por encontrar outros mais com o mesmo gosto que eu em literatura

  11. julia disse:

    Foi sensacional começar Kundera por A imortalidade. Li muito rápido, e sei que preciso relê-lo. Ainda estou extasiada pela experiência. Abandonei minhas leituras há alguns anos e estou retomando, e na minha imaginação, havia firmado o propósito de ir com calma, mas como, após ler essa obra? A verdade é que estou meio ressaquiada, não sei o que leio a seguir. Estava lendo junto Lorde Jim, que foi abandonado enquanto lia o Kundera. Você me sugere algo que me ajude a recuperar o fôlego?

    • Vítor Costa disse:

      Sugiro mais Kundera, haha. Ou quem sabe, pra equilibrar a conta, Florian Zeller – A Fascinação Pelo Pior. Li há seis anos e ainda passeia pelos meus pensamentos.

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