Nietzsche e a Fábula da Liberdade Inteligível

O mistério da ação humana é um problema filosófico de primeira grandeza, que assumiu diversas formas nos dois mais de dois mil anos de história do pensamento ocidental. Um dos capítulos que eu mais gosto dessa história é aquele construído pelos filósofos da vontade. Mais precisamente por Nietzsche.
Para este filósofo, a compreensão da ação humana está diretamente ancorada à uma certa compreensão do fenômeno moral. Isto é: para que se compreenda o que é o agir é necessário entender a dimensão moral das relações humanas, observar as relações sociais e suas formas históricas.
Na contramão das perspectivas tradicionais que compreendem a ação como produto da consciência e a moralidade como estrutura racional, Nietzsche nos oferece uma perspectiva em que a ação não tem uma origem consciente e a moral é antes uma expressão de certos sentimentos do que outra coisa. No aforismo 39 de Humano, Demasiado Humano, Nietzsche nos oferece uma pequena história desses sentimentos através dos quais, diz ele, passamos a compreendermo-nos como sujeitos livres e responsáveis.
A condição humana visualizada pela ontologia de Nietzsche vê o homem como um ente entre entes, como uma das instâncias nas quais a Vontade de Potência se manifesta. Em outras palavras: a pessoa humana, como qualquer ente, é um campo de batalha de diversos impulsos que lutam pelo direito de manifestar-se. A racionalidade, como é próprio da filosofia da vontade deste período histórico, é reduzida à impulso em sua essencia. Seguindo de perto Schopenhauer – mas guardando certas distinções – Nietzsche vê a racionalidade como uma derivação de uma dimensão pulsional cujo jogo de forças determina o curso dos eventos. Assim, não faz sentido falar em escolhas ou decisões, mas talvez em certos resultados desses jogos de força.
A “fábula da liberdade” – isto é, a história de um conceito que nos faz compreendermo-nos de forma equivocada – atravessa alguns estágios. Cabe aqui mencionar alguns deles.
Na primeira fase dessa história dos sentimentos morais e do conceito de liberdade, o homem era pouco mais que um animal. O valor da ação residia inteiro na utilidade dessa ação para sua comunidade. A moralidade, absolutamente restrita ao círculo comunitário ao qual pertencia cada animal humano em questão, era definida pela utilidade da ação ao grupo. Um assassinato não teria nenhum valor negativo caso trouxesse boas conseqüências para o grupo social.
Em diversos momentos de sua obra Nietzsche faz uso de uma categoria filosófica até então pouco utilizada pela tradição: o esquecimento. Como um indicador da atenção de Nietzsche à historicidade humana, nota-se o início da ação do esquecimento quando adentramos a segunda fase da história da moral e da liberdade: a consideração do valor das “ações-em-si-mesmas”. Isto é: as gerações que descendem das comunidades citadas acima não percebem que as ações tem seu valor ancorado sobre sua utilidade social e acham que as ações podem ser valoradas “em-si mesmas”. Aqui começa a inversão entre o real e o ideal, pois o valor repousa sobre a idéia da ação, não sobre sua efetividade real: um assassinato será considerado em si mesmo “bom” ou “mau”, a despeito de suas conseqüências práticas e reais.
O terceiro momento revela a inauguração de uma dimensão ainda mais delicada do problema: o mundo interior. A responsabilidade pelo ato e o valor da ação já não reside na ação, que torna-se moralmente ambígua. São os motivos que definem o valor da ação. Ainda mais obscuros que as idéias das ações, os “motivos do agente”, por habitarem em uma dimensão absolutamente particular, privada, secreta, tornam-se os protagonistas na história da moral e da liberdade.
O quarto estágio, um passo de ainda maior refinamento e maior profundidade metafísica nos diz que os motivos do agente emanam de um “caráter”, metafísico, transcendental. O sujeito, o agente simplesmente “é” assim ou assado, “bom” ou “mau”, e suas ações são apenas manifestações desse caráter metafísico. Aqui Nietzsche situa Schopenhauer. Machado de Assis, schopenhaueriano em alguns momentos, concordaria com essa perspectiva: “A sociedade faz o roubo, o ladrão já nasce feito”. A essência metafísica de cada pessoa determina o valor de suas ações.
O último momento da história da liberdade e da moral é onde, penso, Nietzsche deseja inserir-se. O momento em que a liberdade e a moralidade são vistas como fios de um manto de significação do mundo absolutamente dispensável, uma perspectiva adoecida. A maneira de curar-se da mania de atribuir liberdade ao sujeito e valor à suas ações é considerando que ações são eventos em um mundo que desenrola-se segundo forças que atuam em um nível que a consciência humana simplesmente não pode alcançar. Aliás, a própria idéia de pensar que as ações brotam da consciência (perspectiva que Sartre – que nunca menciona NIetzsche em suas obras – endossará e levará ao extremo) é um contra-senso. Afinal, para Nietzsche a razão e a consciência, longe de serem a essência do ser humano (ou da realidade, como desejava Hegel) são apenas instrumentos de um animal que deseja conservar-se na existência e vê-se praticamente desarmado.
O grande equívoco que dá origem à essa perspectiva adoecida (que busca atirar essa filha bastarda que é a “responsabilidade” sobre o colo dos “motivos”, do “caráter”, das “ações”, etc) é um impulso: o impulso de punir. O impulso ressentido de vingança que é incapaz de realizar-se de forma efetiva e realiza-se de modo ressentido, disfarçado. Primeiro, para os outros, para a comunidade (disfarçado, afinal, de valor). Em seguida, por força do esquecimento, para si mesmo (constituindo aquilo que Sartre chamará de “má-fé”).
Segundo Nietzsche, Schopenhauer se contradiz ao afirmar o mundo como expressão de uma essência metafísica – que implica em necessidade regendo os eventos – e afirmar em seguida que o sentimento de culpa parece indicar a existência de uma responsabilidade moral. Afinal, a responsabilidade moral exige liberdade: um mundo onde os eventos se seguem necessariamente e a distinção entre ação humana e acontecimento é de grau e não de natureza, enfim, um mundo assim concebido não tem espaço para noções como “responsabilidade”.
O sentimento de culpa é um hábito, um costume. Segundo Nietzsche, os padrões de compreensão que admitem o sentimento de culpa podem simplesmente deixar de existir. A culpa enquanto sentimento (e não a responsabilidade enquanto condição, que é um erro) é um hábito do qual o homem pode livrar-se. O mundo é um jogo de forças. As ações perdem-se no curso de eventos. Os esquemas conceituais que o homem cria para interpretar esses eventos nascem, todos, em íntima relação com a pulsão e com a ocasião de sua realização. Se os impulsos encontram sua realização desimpedida, tudo vai bem. Se o impedimento torna impossível a realização do impulso, a resposta pode ser ativa e contreta ou reativa e simbólica. O esquecimento deixa de cumprir o seu papel: o sofrimento é relembrado e re-sentido. Dessa dinâmica entre esquecimento e ressentimento surgem as diversas perspectivas.
E a liberdade?
A liberdade foi uma bonita fábula que o homem, assim, contou a si e, esquecendo-se que era uma fábula, acabou acreditando.

nietzsche-munch

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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5 respostas para Nietzsche e a Fábula da Liberdade Inteligível

  1. fmaiorino disse:

    Ola Victor, como admiradora de Nietzsche e leitora de filosofia, queria te parabenizar pelo artigo sobre esse aforismo de humano, DH, vou aproveita-lo para comentar com meus alunos ok…caso queira conhecer meu blog ruminacao.wordpress.com ou meu site morada psi http://www.moradapsi.com.br abço

  2. Sartre e Nietzsche… Sabe, certa vez confrontei essas posições, e perguntei como ficava este confronto ao Prof. de Filosofia, Guiraldeli, através de vídeo no youtube. Não obtive resposta! (evidente que fiquei chateado, pois supunha que a questão era ótima! E não comentei escrevendo, mas fazendo um vídeo!) A pergunta era basicamente, como um filósofo pós-Nietzsche, resgata a ideia de liberdade sem contradizer os teores desse aforismo, que refuta tão bem a ideia de liberdade? E o agravante, o que torna a coisa confusa é, ao mesmo tempo, checar, em diversas fontes, o existencialismo apontado como uma filosofia derivada do pensamento de Nietzsche. Você fez uma ótima leitura do aforismo!

  3. Ah, como me ajudou esta postagem! Sou um leitor assíduo de Nietzsche e isto aqui me ajudou a alicerçar meu entendimento. Que bom que tenha se dado a este trabalho, Victor Costa! Tendo o encontrado assim, sem saber como, soa-me como uma dádiva. Sinto gratidão.

  4. Leandro Raphael Vicente disse:

    Posso afirmar que Nietzsche era um determinista? E que a liberdade é uma ilusao humana?
    Voce sabe me dizer se Michel Foucault também foi influenciado nesta perspectiva? Ele tambem é um determinista ou ambos se separam neste ponto em questao? Muito obrigado

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