Les Amants du Flore

Quando li O Século de Sartre, de Bernard-Henri Levy, descobri que podia admirar o pensamento e as idéias de um homem a despeito de achar sua pessoa um tanto canalha, um tanto cafajeste. Foi exatamente o que aconteceu comigo e a imagem que fazia de Jean-Paul Sartre. É o que vem acontecendo gradualmente, cada vez mais em minha relação com esse filósofo.
Dias atrás, essa des-construção foi ainda um pouco mais longe. Pois além de Sartre ser o autor de uma série de idéias da minha mais alta predileção, alguns aspectos de sua biografia continuavam sendo ídolos de minha caverna. Mas se acreditarmos na imagem de Jean-Paul Sartre transmitida pelo filme Les Amants du Flore, não há muito o que se admirar naquele sujeitinho que tornou o cenário intelectual francês um verdadeiro alvoroço por décadas inteiras.
O filme não é senão sobre a relação amorosa e aberta de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Uma relação que eu queria ver como a mais alta realização utópica de amor e liberdade já realizada sobre chão ocidental. Contudo, contado a partir da perspectiva de Simone de Beauvoir em seus romances com Sartre e Nelson Algren, o que parece é que, afinal, há muito pouco para se admirar na figura deste pensador francês.
O filme nos mostra um Sartre à beira da histeria, egoísta e vaidoso. Simone não é senão a companheira apaixonada que cede à praticamente todos os caprichos de um homem que nem sequer se preocupava com o prazer da companheira (imagine-se, então, com seus sentimentos?). E o amor livre não era senão uma necessidade antes de Sartre do que dela própria. Uma necessidade de folia, por assim dizer, folia sem critérios, aparentemente realizada com mulheres de pequena envergadura intelectual, para dizer o mínimo.
Não conheço a obra de Simone de Beauvoir. Provavelmente para os conhecedores de sua obra, seja uma obviedade gritante que a situação de Simone em seu romance com Sartre era antes de escrava do que de senhora, quem sabe? Não faço idéia. Que Simone tenha sido a maior pensadora do século XX, que tenha sido a primeira pessoa a colocar a mulher como questão filosófica, isso pode ser inegável. Contudo, o que o filme sugere é que a despeito de toda sua potência intelectual, Simone era apaixonada pelo pequeno homem à sombra de quem viviam os pequenos e médios intelectuais franceses do século XX. E que esse homem foi, na verdade, um péssimo companheiro, um amante pior ainda.
Com relação ao aspecto estritamente cinematográfico, a caracterização dos atores deste filme francês está muito boa. É verdade que Lorànt Deutsch, o ator que faz o papel de Sartre, não é estrábico. De qualquer forma, em alguns momentos em que está em cena com Anna Mouglalis (Simone de Beauvoir) forma uma dupla que evoca imediatamente à mente e de maneira bastante convincente a dupla Jean-Paul e Simone. Nelson Algren, então, está ainda mais parecido com o próprio, sendo vivido por um ator chamado Kal Weber.
Quanto aos fatos que sucedem durante o filme, não me pareceram pouco fiéis à história vivida por Sartre e Simone. O que me surpreendeu foi justamente a postura de Sartre diante de Simone. Isso, contudo, deixo ao julgamento de quem quiser digerir pessoalmente essa bela obra que nos faz visualizar o relacionamento desses dois dos maiores pensadores do século XX, que constituíram provavelmente o casal mais famoso e interessante do cenário intelectual francês bem como da história da filosofia.
Finalmente, a lição que posso tirar, como já disse, é que as idéias de uma pessoa podem, sim, ser cada vez mais interessantes mesmo que sua pessoa apareça cada vez mais sob a imagem de alguém tão medíocre.
les-amants-du-flore

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Les Amants du Flore

  1. Vinicius disse:

    http://www.imdb.com/title/tt0922597/

    Vitor, nesse filme que assisti o ator é estrábico – acaba tornando tudo mais convincente; foi feito para a TV, é longo – trata também da relação de Sartre com as mulheres, da militância na guerra da argélia… e umas cenas boas que relatam a relação dele com Raymond Aron, enfim, gostei do filme. Do Sartre mesmo eu não gosto.

  2. Victor disse:

    Como eu faço pra assistir esse filme, Vinícius?

  3. Vinicius disse:

    Victor, ele passou algumas vezes no eurochannel – foi onde eu assisti. Vamos ver se o Gilson não descola um link.

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