Por que ser moral? (Ou: O Valor dos Valores)

ENTRADA: Pratos vegetarianos.

Quando decidi diminuir – abolir, na verdade – o consumo de carne de meus hábitos vendo nesta reorientação um sentido profundamente ético (preservar a vida/bem-estar dos animais através de um gesto de negação do consumo de certos produtos), logo descobri que há em torno da questão do vegetarianismo um debate ético intenso. Mais do que isso: alguns grupos como o ALF radicalizam a questão, elevando suas convicções ao posto de justificativas para atos de extrema radicalidade institucional (praticam o que os açougueiros chamariam de terrorismo, por assim dizer). Contudo, ações extremadas não fizeram e não fazem parte do leque de interesses de alguém que se ocupa de filosofia e argumentação. Assim sendo, não demorei a inteirar-me de algumas noções básicas necessárias à qualquer um que queira adentrar no debate acerca da eticidade do vegetarianismo.
ativismo-vegetarianoPeter Singer (1946-) representa o que considero o paradigma da discussão razoável sobre a questão do sofrimento dos animais utilizados em nossa alimentação. Em sua Ética Prática, este pensador utilitarista nos oferece uma interessante reflexão filosófica que serve de base às suas argumentações: o que é, afinal, uma pessoa? Sem nenhum interesse em compor uma ontologia, Singer circunscreve o domínio do conceito de pessoa à todo ente que pode ser considerado “senciente”, isto é, à todo ente que pode ser descrito como capaz de sentir dor ou prazer. Com esse truque semântico, Singer coloca de um só golpe todos os animais não-humanos dentro da dimensão ética e a alimentação “onívora” torna-se, de imediato, uma conduta condenável.
A argumentação de Singer e sua exploração do conceito de senciência como critério para a imputabilidade ética é refinada e colorida por exemplos concretos que enfraquecem a eticidade, por exemplo, do cuidado humano para com bebês, pessoas em coma, velhos senis e todo tipo de ser humano que tem sua sensibilidade comprometida ou questionável. Uma argumentação tão ousada aparentemente seria a base de uma conduta radical. Mesmo não sendo o caso – Singer é considerado um defensor “moderado” das vacas, porcos e galinhas tão amadas pelos vegetarianos -, Singer tornou-se alvo de polêmica e alvoroço em torno de sua pessoa. Donos de abatedouros afetados pela repercussão das idéias deste pensador não hesitaram em batizar de “Peter Singer” alguns dos animais que encaminhavam para o abate. Padres, pais de família e toda sorte de cidadãos de bem – do tipo mais temível – alinharam-se em defesa dos abatedouros e açougues, já que esse senhor herético e desumano preferia seus peixes de aquário à nossos bebês. Evidentemente, Singer – e os vegetarianos em geral – não são apologistas dos animais e genocidas em potencial. De qualquer maneira, quando um pensador transforma o precioso humanismo ocidental em uma sub-categoria de uma outra maior, chamada especismo – e esta sim bem feia – não é de se admirar que fique sozinho, dado que bois e cabras não podem entender o esforço teórico e social desse homem em sua defesa (talvez se pudessem estariam organizados em um movimento social?).
Contudo, embora pareça, não quero falar aqui do vegetarianismo ou de “direitos dos animais” (expressão que considero um tanto absurda). Quero antes falar de Ética e, talvez, do pensamento de meu querido Jean-Paul Sartre.

PRATO PRINCIPAL: Ética e Moral

Um dos traços característicos da  atividade humana que chamam de “filosofia”, desde os tempos em que os homens vestiam toga e não precisavam de diploma para fazê-lo, é uma certa preocupação com a conciliação entre os interesses pessoais e as necessidades coletivas; preocupação que gerou toda uma sorte de investigações e recebeu uma série de denominações (talvez não tenham sido tantas assim). Vou chamar essa preocupação de Ética.
No que tange a tradição ocidental, vejo duas grandes figuras centrais protagonizando o debate dos temas centrais do que seja Ética. A primeira figura central viveu justamente nos tempos da toga, e chamava-se Aristóteles.
Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) não disse que os animais eram pessoas, disse justamente que as pessoas eram animais. Animais racionais. E isso muda tudo. A circunscrição de seres sencientes, aliás, remete à Aristóteles: animais humanos e não-humanos são sencientes, sim. Mas a Ética só diz respeito àqueles que podem dela entender – no caso, os humanos. A Ética seria então a Ciência do Bem. E o Bem é mais ou menos aquilo que faz uma coisa quando obedece sua natureza profunda. Qual é a natureza profunda do ser humano? Ser racional (em termos de uma taxionomia, seria esse o detalhe que diferenciaria o animal humano dos outros, segundo Jorge Furtado o polegar opositor é tão – ou mais – importante).
Na natureza, as coisas devem operar e acontecer segundo uma finalidade que lhes é intrínseca. A inteligência pode conhecer a determinação profunda de um ente. Não é de se admirar que Aristóteles tenha tecido uma Ética e um belo modelo de homem (sim, porque o de mulher é “ser um útero”). Assim, o homem pode ser virtuoso caso aja segundo a razão, evitando excessos e abstinências. Aliás, usar bem a razão é justamente o que caracteriza a atividade filosófica. Novamente, não é de se admirar que Aristóteles não consiga imaginar uma atividade mais nobre à um animal humano do que a filosofia.
O que caracteriza a Ética de Aristóteles é o fato dela ser teleológica: por razões lógicas, toda ação humana visa necessariamente a felicidade. O bom uso da razão garante uma felicidade que é um fim mas que não pode ser alcançada, mas constante e concretamente realizada. Ao homem cabe usar bem a razão para definir quais serão os meios de atingir a felicidade. Os meios, o fim não. O fim é a felicidade. O homem não é livre para não ser feliz. Por razões lógicas, metafísicas, ontológicas, cósmicas, o homem em Aristóteles marcha em linha reta para a felicidade – que é, simplesmente, usar bem a razão para não tropeçar.
O segundo protagonista é Immanuel Kant (1724 – 1804), o Campeão do Iluminismo. A moral de Kant não é teleológica, mas deontológica. É uma Ética do Dever.
Kant, como todo bom pensador moderno, via no homem um desafortunado campo de batalha entre as vis pulsões da dimensão volitiva que impele para más ações e as luzes de uma razão preciosa e perfeita, única pedra de salvação do homem contra si mesmo (semelhanças com uma outra doutrina muito melhor difundida e muito menos bem fundamentada não são mera coincidência).
Segundo Kant, quando a razão volta-se sobre si mesma para examinar sua competência em legislar sobre as ações humanas, encontra dentro de si mesma, necessariamente, uma fórmula – que pode se apresentar de uma meia dúzia de maneiras – chamada Imperativo Categórico. Que diz mais ou menos o seguinte: ações devem obedecer princípios que possam ser os princípios de todos os seres racionais (inclusive anjos). O que se segue disso é que o homem tem acima de si um céu estrelado, dentro de si uma Lei Moral e que só pode ser considerado livre quando age segundo o dever que se depreende da razão como uma fruta madura cai do galho. Isto é: se o homem age como deseja, não é livre. Se age como deve, é livre (e você não leu errado).

SOBREMESA: Libertinagem sartreana.

Se há dois mil anos de filosofia entre Aristóteles e Kant, há mais dois mil anos entre Kant e o francês Jean-Paul Sartre (1905-1980).
sartreEm primeiro lugar, deve-se salientar que Sartre não é um pensador da moral e da ética. Existe, em sua obra, um apelo ético e moral, mas não um sistema sólido e claro como em Aristóteles ou Kant. Assim, introduzí-lo nesta discussão é uma cartada perigosa, ousada, mas sem dúvida, divertida.
A visão de Sartre da condição humana alinha-se com o temperamento contemporâneo – que é em geral econômico em função de diversas crises na filosofia ocorridas por volta do início do século XX. Mas segundo alguns, como Gerd Bornheim, Sartre representa a radicalização absoluta de alguns caminhos tomados pela filosofia. Isto é: Sartre é um beco sem saída (o que significaria então dizer que o fim da estrada da filosofia ocidental não é o “fim da história”, mas um beco?). Se em Aristóteles a pessoa humana é um animal racional e em Kant é um campo de batalha da razão e do desejo, em Sartre o homem é… Nada!
Surpreendente? Talvez nem tanto. Partindo da idéia de que homem e mundo constituem uma totalidade (Heidegger) em que o ser se desvela à consciência (Husserl) que pode atingir a si mesma (Descartes) ainda que precise do Outro como elemento mediador indispensável (Hegel) para descobrir-se como liberdade angustiada (Kierkegaard) em um mundo sem Deus (Nietzsche) podemos, talvez, perceber sem surpresa como Sartre chegou à alguma de suas mais originais conclusões.
O homem é liberdade. A vida de uma pessoa é a síntese concreta das conseqüências de suas escolhas, escolhas para as quais não há pretextos ou desculpas possíveis que não sejam necessaria e precisamente má-fé com que se disfarça a angústia da responsabilidade absoluta. Cada pessoa humana é o que faz de si e nenhuma “essência humana” pode servir de pretexto para justificação de decisões. Esse ponto deveria, a rigor, ser aprofundado, pois a fundamentação ontológica é de uma densidade assustadora (vide às quase oitocentas páginas de O Ser e o Nada).
O que acontece com a teleologia de Aristóteles com com a deontologia de Kant à luz da liberdade entrópica de Jean-Paul Sartre? Simplesmente dissolvem-se em suas próprias pretensões, sendo desmascaradas como apenas dois dos tantos “paradigmas de má-fé” através dos quais o ser humano disfarça e foge de sua responsabilidade sobre sua própria vida, sua condição e seu mundo. Nada pode ser plantado sobre a liberdade sartreana porque ela é justamente esse vórtice de entropia, uma supernova de espontaneidade que afirma nada menos que a responsabilidade humana – sempre pessoal – sobre a construção do sentido de um mundo que em si mesmo apenas jaz existindo aquém de qualquer significação própria.
Utilitarismo, deontologia, teleologia, etc., são apenas esquemas e sistemas com os quais posso avaliar e julgar o mundo em termos éticos e morais? Em certo sentido, sim. O que se pode julgar a respeito da adoção de um esquema é se ele foi adotado de forma lúcida – isto é, sabendo-se que não há nada neste esquema/sistema que imponha sua adoção justamente porque nada pode coagir uma liberdade que, em última instância, sempre possui a própria morte como opção. Pode-se avaliar se o esquema adotado não escorrega para a má-fé por contradizer a condição humana de liberdade trazendo assim conseqüências perniciosas para coletividade. Enfim: uma perspectiva moral pode ser avaliada pelas mais diversas razões e interesses. Muitas perguntas podem ser feitas sobre o homem e sua dimensão moral. A maioria parece ter resposta na ontologia sartreana.
Exceto uma. Que me inquieta. Que me irrita. A pergunta que qualquer aluno atento e realmente interessado em Sartre poderia acabar fazendo a si mesmo – ou a mim quando exercer o magistério – caso perceba o furo na zaga de Sartre.
“Ora, já compreendi diversas coisas sobre a dimensão moral na ontologia sartreana. Mas ainda tenho uma pergunta: Por que ser moral? Sartre consegue nos dar um bom motivo para preferirmos um sistema moral à um imoral? Pois parece-me que mesmo que o homem possa ser considerado imoral, não parece existir, em sua filosofia, boas razões para que se prefira qualquer sistema à qualquer outro…”.
Pode-se domrir com um barulho desses?

INDIGESTÃO: Um buraco no estômago – O Nada. Uma azia – a Náusea.

Quando falo de Singer e de sua refinada e colorida argumentação em favor do vegetarianismo, o faço tendo em mente algo que considero quase triste, certamente perverso: a racionalidade é uma faculdade humana de tal ordem que beira à onipotência. Exceto por algumas pedras bem pesadas que um grego bem forte, e usando toga, encravou e alguns alemães arrastam de lá pra cá nessa superpovoada província chamada filosofia, de resto, fez-se de tudo em torno dessas pedras. Praticamente toda posição – ética, epistemológica, metafísica – permite imediatamente a composição da posição diametralmente contrária. Aliás, não é exagerado esperar que toda nossa rica descoberta/invenção (quem me explicar exatamente a diferença entre descoberta/invenção ganha uma pitada do meu cachimbo) em filosofia sempre terá respaldo em alguma posição já instituída justamente porque toda posição é defensável: a razão humana quase não possui limites nessa brincadeira que inventou e na qual está viciada, desperdiçando toda sua fortuna enquanto perde para si mesma.
Parece-me que essa quase onipotência da razão humana existe justamente porque a racionalidade, muito mais do que uma faculdade como eu disse antes, é uma possibilidade da consciência humana, um modo possível de realização da liberdade, de efetivação da realidade humana. Husserl e Heidegger não construíram a fenomenologia inteira como um novo modo de filosofar (resgatando uma idéia esquecida com as togas que que a filosofia é uma atitude?) senão porque perceberam que a filosofia de seu tempo não era senão o lugar privilegiado onde podia-se perceber os sintomas da doença do ocidente: obsessão pela racionalidade. A bola de neve que Descartes lançou em nome do progresso, como quase todas que são lançadas pelo mesmo motivo, transformou-se em uma avalanche que já podemos ver claramente deslizando de maneira vertiginosa em nossa própria direção.
O que deveríamos fazer frente à essa avalanche?
(Perceba-se o eco do fantasma kantiano sempre que a palavra “dever” é invocada. Talvez em Kant a ética deontológica só tenha encontrado sua fundamentação racional, pois arrisco o palpite de dizer que a mentalidade cristã ocidental impõe uma compreensão deontológica das ações, ainda que fundamentada em mitologia ao invés de filosofia…)
Não faço a menor idéia, e acho que Sartre, que o próprio Sartre, não poderia dar uma resposta que não fosse de má-fé. Claro, esperar encontrar um (ou centenas) imperativo hipotético é uma pretensão mais modesta que o desejo de encontrar uma tábua de mandamentos. “Se querem se salvar, façam X e não façam Y”. Não há nada de errado com isso. Contudo, uma atitude lúcida e “realista” para com a condição humana – do ponto de vista ontológico e/ou histórico – parece justificar um pouco do temperamento que criava a atmosfera daquilo que se chamou existencialismo, do que Sartre foi, então, o Campeão.
Sartre falava em gratuidade. Que a existência de uma pessoa jaz gratuita, injustificável e absurda em um mundo onde essa própria existência é absolutamente contingente. Pior ainda: em um mundo onde o homem não parece ter que fazer nada, ainda é feito da matéria que compõe o Nada, que o faz absolutamente livre. Livre para nada? Bem, o homem pode construir um sentido para a própria vida. E valores morais são uma boa maneira de se preencher esse vazio.
Não ficarei surpreso se você estiver lendo até aqui e achar um absurdo que os preciosos valores morais assumam essa leveza absurda na perspectiva sartreana, assemelhando-se à uma brincadeira, há um passatempo. Tudo bem, se você enfrentar a obra de Sartre – literária ou filosófica – não encontrará essa leveza. Pelo contrário, encontrará um peso insuportável. Em termos freudianos (que Sartre detestava, por considerar a psicanálise uma das tantas maneiras de compreender de má-fé o homem) Sartre é um pai severo. Sua filosofia é pedante, seus romances são chatos, seus personagens são pessoas fracassadas, suas idéias são austeras. Justamente porque, penso, não pode haver nada mais que esse apelo à moral.
O apelo de Sartre à moral é o apelo de alguém que quer, arbitrariamente, uma boa vida para os homens. Arbitrariamente, sim, pois pode-se querer que os homens sejam extintos e os animais vivam felizes (alguns vegetarianos acham essa idéia realmente divertida). Aliás, pode-se querer muita coisa, praticamente tudo, inclusive o nada. E praticamente todo desejo que a consciência pode conceber a racionalidade dessa consciência pode tentar justificar. Afinal, os valores nascem da liberdade e os sistemas morais podem ter uma coerência interna.
Podem, contudo, ser justificados?
É absurdo pretender que Nietzsche esteja mais certo que Schopenhauer, Hegel ou Marx, que a deontologia e o utilitarismo possam estabelecer um debate onde uma possa ganhar da outra exceto em termos de coerência com a própria condição humana. Ao fim e ao cabo, não há razões que justifiquem a escolha de um esquema nietzscheano, marxista ou niilista. Esse existencialismo de Sartre, aliás, só não pode ser “adotado” porque não parece chegar a ser um sistema que justifique condutas, senão apenas permita uma nova forma de compreender o mundo, uma forma de compreender o mundo que leva necessariamente à compreensão que os valores, afinal, não tem valor.
Sartre, um dos maiores moralistas da história da filosofia, não escreveu sua moral. A esboçou, é verdade, mas o tempo fez com que esta obra, em forma de rascunho, fosse condenada a permanecer um momento duvidoso – porque inacabado – de sua obra. De sua obra dura, densa e estritamente filosófica pode-se respirar uma atmosfera de apelo moral, insisto. Acredito que se ele próprio estivesse lendo o que estou escrevendo, apagaria um cigarro na minha testa e me impediria de concluir este texto. Acho, contudo que sei porque faria isso. Faria isso porque a razão humana só é tão poderosa porque o homem é livre. Sartre foi o homem que descobriu essa liberdade. Decidiu contar pra todo mundo, em um lapso de ingênua esperança de que as pessoas fizessem um bom uso desta liberdade (bom uso no sentido mais politicamente correto possível, porque o marxismo ao qual ele se filiou é pleno do temperamento kitsch que constitui a massa dos “cidadãos de bem” que devemos temer). Ao perceber o perigoo que havia criado – e sua incapacidade de destruí-lo – passou anos inteiros envolvido na tarefa de esconder e disfarçar esse perigo que, afinal, é aquilo de que todos somos feitos.

Esse perigo chama-se liberdade.

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PS: Não desmereço aqui as tentativas de construção de morais sartreanas. Acho que é um belo empreendimento filosófico. Embora esteja em dúvida sobre o caráter da pessoa que foi Jean-Paul Sartre (o que é totalmente irrelevante, não passa de uma apreciação distante, quase estética), suas idéias ainda – e cada vez mais – me encantam e fascinam.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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13 respostas para Por que ser moral? (Ou: O Valor dos Valores)

  1. Shelton/Nelson disse:

    Bom, não estou devidamente credenciado para falar sobre o assunto em geral, contudo, creio que minha ignorância não seja completa, ou ao menos, que posso pontuar algumas questões:
    1- O que origina uma lei moral?
    1.1- Porque uma lei moral não se torna uma lei no sentido jurídico (claro que aqui entra Jusnaturalismo X Juspositivismo).
    2- A quem se aplica uma lei moral?

    Se é lícito falar em justificação de uma lei moral, também é lícito perguntar sobre os critérios a serem seguidos para a justificação, e mesmo perguntar sobre a forma de justificação. Penso que, se o vegetarianismo deveria ser uma lei moral, seu defensor deve estar apto a responder tal questão, não no sentido específico de justificar o vegetarianismo, mas sim de justificar as leis morais como um todo, e fornecer os critérios para tal odisséia.
    Esta pergunta óbviamente me convém :P . Costumo não atribuir o mesmo valor para a moral do que para a lei jurídica. Contudo, posso aceitar que (expressando um estado de coisas) a lei moral está em um patamar mais enfraquecido da lei jurídica. Creio que o grande regulador da conduta humana seja, em último caso, o judiciário. Sendo assim, não tenho porque tenho que me preocupar se minha conduta está sendo moral ou não. Porém, reconheço que a moral contribui significativamente para a construção de normas jurídicas. Por este motivo, deveria então adentrar mais profundamente neste tipo de discussão? A resposta me parece simples: não. Uma vez que não é ilegal comer carne, continuarei o fazendo se assim o desejar, e resguardo minha opinião apenas para mim.

  2. Vitor,

    quando fala de Sartre tu faz a distinção entre coerência de um sistema teórico e justificação desse sistema. Nese sentido, uma doutrina como a Utilitarista (independente do tipo) pode ser bastante coerente mesmo sem nunca vir a ser bem justificada. Ainda, mesmo estando na mesma posição do Elton com relação ao tema, parece a mim que o que Peter Singer analisa mais é o aspecto de coerência de certo sistema moral do que a sua justificação. Vê-se na maneira como argumenta: “se aceitarmos certo sistema A, temos de proibir x, pois permitindo x estaríamos também permitindo y,z,w que certamente proibimos. Portanto, proíbamos x”. Isso fala sobre incompatibilidade de “permito x” com “proibo z” mas não da justificação da primeira. Por fim, não ataco os vegetarianos, mas suas estratégias só me mostram que são mais coerentes que eu (que como dois bifes por dia e um pastel de frango, e não tenho bons argumentos pra defender minhas aparentes incoerências), não que estão mais certos. Pensariam alguns que isso nem mesmo é uma vantagem. Não sei. Espero os vegetarianos de plantão pra defenderem suas estratégias.

    Abraço, Bruno.

  3. Victor disse:

    Caros Elton (Shelton/Nelson) e Bruno,

    Agradeço seus comentários que geram, assim, o debate. Contudo, creio que não tenha sido claro em meu posicionamento.
    Minha referência à Singer – considerando-o o representante da posição vegetariana/utilitarista – foi com a intenção de ilustrar um sistema moral que, como o kantiano ou o aristotélico, acabam emergindo para uma dimensão superficial quando expostos à liberdade sartreana.
    Tenho esbarrado em textos que tentam, com algum esforço, compor alguma moral à partir do pensamento de Sartre. Em geral, bons trabalhos. Como eu disse, Sartre é marrento o suficiente para ter impregnado sua ontologia de “apelo moral” antes de se sentir pronto para redigir seus Cadernos por uma Moral – que restaram incompletos e são fruto de um período posterior de sua obra. Pode-se, acompanhando Sartre, ser moral.

    Meu objetivo, contudo, é mostrar como o conceito central do existencialismo sartreano – a liberdade – dissolve tanto a Lei Moral de teor kantiano quanto a legitimidade do debate entre sistemas e suas críticas mútuas, justamente porque a adesão à este ou aquele esquema jaz arbitrária e gratuita em função da impossibilidade de uma resposta à pergunta “Por que ser moral?”.
    Tudo bem, um esquema de julgamentos morais pode ser mais preciso e/ou qualificado que outro para avaliar situações, estabelecer princípio, etc. Meu ponto é que em um sentido ontológico, não há uma necessidade de adoção de um sistema qualificado ou coerente.

    O próprio Sartre diz que um homem pode agir de má-fé, pode ser imoral, etc., e pode ser julgado moralmente por isso. O que ele não consegue mostrar – pois sua fenomenologia não permite uma noção como “dever” – é, afinal, porque o homem deveria adotar qualquer moral entre várias (a deontologia de Kant, por exemplo, dissolve-se quando o dever revela-se, na fenomenologia, como um dever escolhido pelo sujeito; que o homem decida agir segundo ou contra o dever é plausível, se ele puder escolher qual é seu dever, qual é a necessidade dessa noção?).

    Enfim, não defendi o vegetarianismo na medida em que ele flutua sobre a liberdade como uma opção que, por mais coerente que seja, não se impõe justamente porque nada se impõe sobre a liberdade.

  4. Lauren disse:

    Caro Vitor,
    Nossa, caprichou dessa vez hein! Texto longo, longuíssimo. Mas li, li todo. Confesso que naturalmente, a parte mais difícil foi a de Sartre..mas é justamente dela que (ousadamente) vou falar. É inegável o quão perturbadora podem ser as colocações desse filósofo que simplesmente nos atira (com prazer) ao nada. E o faz no melhor estilo, “A vida não tem sentido, aceitem isso. Ela é absurda mesmo.” E o pior, é que se você analisa, analisa mesmo…NÃO TEM (sinto um assomo de pânico). E agora, se você conviver com esse fato, de que (porra..) somos NÓS e apenas NÓS que damos sentido (ou inventamos) para nossa vida, parabéns. Você é corajoso, meu rapaz. Depois que você entender isso, não é qualquer coisa que vai te derrubar (sim, pq já derrubou tudo..). Você já entendeu que não tem mistério, afinal estamos no nada, somos o nada…não há com o que se preocupar. O apocalipse não é amanhã, Jesus não vai voltar, vc não tem que agir por dever, etc (é mais profundo do que isso, mas enfim). Você pode tudo. OOOOOpa!! Era aqui que eu queria chegar. Não sou leitora de Sartre, mas sei que ele não queria dizer que o agente podia tudo ao dar-se conta do absurdo não-sentido da existência humana. NÃO É BEM ASSIM. Descoberta a verdade de que você é um nada meu querido, hora de tomar as rédeas da tua própria vida. Tá achando que ser um nada é fácil? Tcham tcham tcham: isso não te isenta das tuas responsabilidades com relação às tuas escolhas. E por que? Quer dizer que no melhor da festa…?É meu anjo, Sartre te mostrou que não temos nada em que nos apoiar, mas VOCÊ, você…..bem, você EXISTE. E agora? Hora de aceitar tua existência, e admitir que bem, hum..você é livre (sinto medo ao pronunciar essas palavras.) Soltinho, soltinho. é só você com você mesmo. E uma pessoa livre, é livre para realizar as escolhas que desejar. O problema é que vivemos em sociedade, e se você prejudicar alguém com suas escolhas, você será punido, ou o que é pior, você mesmo se punirá ao se arrepender de alguma coisa ruim que tenha feito. E infelizmente, nesses casos, o Sartre não vai te ajudar, nem a idéia de que estamos no nada. Ele, pelo contrário, vai enfiar o dedo na ferida, pois vai olhar bem na tua cara e dizer que não pode fazer “nada” (Hêhê). Funciona mais ou menos assim: Se você estivesse tentando se justificar pro Sartre e ao fazer isso, usasse coisas como a sua família, a sua depressão, a gravidez da sua namorada ou o seu chifre, para justificar uma escolha mal feita ele iria rir gostosamente. Vamos, enfrente: você está no nada! Assuma a responsabilidade que isso exige! Assuma a própria responsabilidade sobre suas escolhas, sobre a sua existência, que é a única coisa que você tem de concreto! E se você conseguir fazer isso…nossa, vai se sentir aliviado. Pior que vai mesmo. Porque daí você faz uma grande incursão ao seu interior (sem usar desculpas) e descobre por que agiu assim ou assado..e então surge o fantasma da má-fé. Tá na tua de novo. Com relação a isso, não tenho mais o que falar. Até aqui, apenas expus na minha infinita ignorância o que penso que Sartre me diria se eu tentasse justificar minhas cag..digo escolhas ruins pra ele, colocando a culpa na minha TPM. Mas seguindo na linha das escolhas…admitamos: ele é bem sádico nesse sentido. Naquelas peças de teatro dele, ele coloca os coitados dos agentes frente a escolhas terríveis..e os deixa..adivinha? SOZINHOS. Sartre foi um mestre na arte de usar exemplos de dilemas morais. Justamente por que ele entendeu a alma da coisa. O agente está sozinho. . e a ANGÚSTIA é infinita. Sufocante. O que fazer meu Deus, o que fazer?! Tenho dois deveres a cumprir, mas ambos têm o mesmo peso, a mesma medida, o mesmo sentido para mim! Aí vêm a turma toda da filosofia: se você for kantiano “faça isso”, mas se for consequencialista, faça uso da regra da felicidade geral, se você for budista, etc. BALELA. Se você tá deparado com um baita pepino pra resolver em tempo reduzido, e o que é pior, um pepino MORAL, com outras pessoas envolvidas, que pode te deixar pro resto da vida traumatizado…você vai procurar os seu princípios, o sentido que você sempre costumou dar pra sua vida, o nirvana e o raio que o parta e não vai achar, ou melhor vai ACHAR, O NADA. E Sartre vai te olhar, de algum lugar e sorrir. (Nessa altura já escuto uma gargalhada maquiavélica).
    É, gente, A liberdade é um fardo pesado.

    Detalhe: Analiso a solução kantiana oferecida para resolução de dilemas morais. Se quiser, um dia falo sobre o que o bom velhinho anda dizendo sobre isso. Por hora, peço desculpa por ter me estendido e pelos inevitáveis erros que posso ter cometido em minha interpretação das idéias de Sartre. Mas como isso não é um texto acadêmico, respiro aliviada. Um grande abraço Vitor, e obrigada por me deixar falar.

  5. Victor disse:

    Eu é que tenho que agradecer, Lauren. Oxalá o pessoal que se ocupa de filosofia compreendesse Sartre assim. Ainda bem que nem todos compreender, pois os que, como eu, querem viver às custas dele, estariam em sérios problemas.

    Mas quero atacar um ponto do teu texto com o qual definitivamente não concordo embora não tenha embasamento no próprio Sartre para fazê-lo.

    Disseste:
    “O problema é que vivemos em sociedade, e se você prejudicar alguém com suas escolhas, você será punido, ou o que é pior, você mesmo se punirá ao se arrepender de alguma coisa ruim que tenha feito.”

    Pois eu queria saber até que ponto o pretexto de “viver em sociedade” não é uma das mais caprichosase refinadas justificações para um verdadeiro paradigma de má-fé. Sei que o Sartre faz, depois, uma rançosa defesa do “chamado do Outro”, que vai dizer que “querer a própria liberdade é querer a liberdade de todos os homens”. Isso pra mim soa como um truque, uma tentativa de encontrar certos freios para a própria liberdade. Claro, ele foi astuto o suficiente pra quase convencer que essa coisa da liberdade do outro (não tratar o outro como coisa) é importante para a minha liberdade. Mas acho que isso é um truque, sim. Que o envolvimento (engajamento, como insistem em traduzir) com um projeto moral, mesmo que lúcido acerca da própria condição humana, não tem mais valor que outro tipo de envolvimento (como decidir ser escritor, jogador de futebol ou estudar física). Em um sentido ontológico, não vejo como a preocupação com o “Outro em sua Liberdade” realmente garanta que vivo minha liberdade de forma autêntica. Em sentido ontológico, sou livre a despeito dos disfarces. Seria então o engajamento moral um paradigma de má-fé?

    Acho que não necessariamente, porque o envolvimento pode ser lúcido – e isto basta para purificar o homem do auto-engano. A diferença entre envolver-se com o outro em sua liberdade e decidir escrever um romance é que estamos acostumados a ficar de consciência tranqüila quando nos envolvemos moralmente.

    Só que – aqui apelo para uma idéia de Nietzsche que a fenomenologia de Sartre poderia muito bem acolher – o arrependimento e a culpa (bem como o ressentimento que dá nome ao blog) são hábitos. Experiências que o homem semeou e enraizou em seu próprio horizonte desde que as admitiu como possibilidade. Em sentido prático, são inúteis – nos ajudam em quê, esses venenos? No sentido da compreensão da condição humana, são equívocos: o arrependimento é um sinal da assunção da responsabilidade ou antes o resgate consciente equivocado da própria ação? Pois quem age lucidamente não tem por que se arrepender, pois sabe que fez o que podia – além de que remoer-se em culpa e arrependimento “por dentro” não move uma palha no mundo concreto.

    O ponto é esse: “Pode-se emergir da má-fé ao mesmo tempo em que pode-se, talvez, adotar uma conduta imoral.”. Essa conclusão a que penso ter chegado é uma posição que julgo defensável e que acho tão plausível, que faz com que eu veja certos elementos da obra de Sartre como expressão do desejo de apagar o incêndio que ele próprio iniciou.

    Mas claro, ele ou Nietzsche me olhariam agora e diriam: “Por que você precisa tanto de razões para ser imoral, meu jovem?” =P

  6. jonathandalmolin disse:

    Opa, boa noite…

    Concordo em associar o arrependimento (e talvez o ressentimento, não sei…) a fracos filhos da mãe que resgatam e tentam aliviar equívocos da própria a ação. Mas não me parece que a culpa tenha origem parecida. Ela é quase um mecanismo de sobrevivência tão evidente quanto a sola do pé. É útil porque é como que um ‘fundamento’ da sociedade, uma viga base pra ela: a culpa implica uma pré-punição para a eventual repetição de um ato errado (erramos, nos enganamos). Mas ao contrário do arrependimento, que é só meu (só um alívio momentâneo pra minha consciência, que não resultará em nada exterior a mim), a culpa pré-remedia, excluindo possibilidades de escolhas que já experimentamos serem ruins; ela tenta evitar deliberações erradas, ou seja, ‘é tão concreta quanto a anti-matéria’. Digo, tem consequências exteriores a mim, mesmo que seja resultando em uma deliberação negativa, em uma ‘não-ação’. Sem culpa, de que adiantaria a memória ao deliberarmos a ação? Repetidamente deixaríamos o volume no volume 32 no apartamento, porque poderíamos. Aí os vizinhos iam querer escutar seus gostos, porque poderiam. A razão e o bom senso nos fariam baixar o volume quando eles aumentassem, pra que todos escutassem a sua música em paz? Sem a culpa, como? Bom senso não é só uma grande convenção nossa fundada em experiências passadas, recheadas de culpa? É um hábito.

    Que, verdade, restringe a nossa liberdade em troca da convivência com o resto. Acho que tô fora do centro da questão de Sartre (e na lua do 3º parágrafo da Sobremesa), mas parece estranho pensar em uma liberdade irrestrita ao custo da não convivência social nossa. Como racionais a sociedade parece ser intrínseca a nós, e inútil não pensá-la. A não ser em mundos possíveis, mas aí eu seria zagueiro do Milan e estaria ajuntado da Scarlett Johansson… E não vejo como pensar a sociedade sem culpa.

    Ou não é nada disso e isso não passa de um resultado dos truques do tio Sartre? :p

  7. bruno disse:

    “Tudo bem, um esquema de julgamentos morais pode ser mais preciso e/ou qualificado que outro para avaliar situações, estabelecer princípio, etc. Meu ponto é que em um sentido ontológico, não há uma necessidade de adoção de um sistema qualificado ou coerente.”

    ok, se entendo teu ponto ele é mais básico que o nosso: ainda que eu possa garantir que esse sistema moral é melhor que aquele como um “guia do bom ser moral” (coisa que eu e Elton vemos com certo ceticismo – esse era o nosso ponto), não há nada, ainda assim, que nos obrigue a seguir esse sistema moral. Analogamente, eu poderia dizer que mesmo tendo boas razões para considerar a Terra redonda, nada me obriga a arcar com essa crença, “além do meu próprio arbítrio”.

    Bem, aí há vários pontos. O primeiro é esse que a analogia nos mostra: isso parece meio artificial. Mas tudo bem, isso é uma analogia pesada. Talvez no âmbito do dever-ser as coisas sejam diferentes. O segundo ponto é que a sua pergunta central, “pq ser moral?”, parece uma pergunta por motivos nesse contexto. E aí está: será que é justo pedir por objetividade quando se trata de motivos? O que seriam bons motivos e, por outro lado, maus motivos. Mais: será que é de fato um problema não haver objetividade nesse caso?

    Abraço.

  8. ressentimento disse:

    Jonathan: A culpa como uma goma social faz todo o sentido. O que pretendo pôr em xeque aqui não é, de um modo geral, a legitimidade das instituições, mas sua natureza: os valores morais são considerados como entidades transcendentais à quem se deva continência como um soldado ao sargento. O ponto é que justamente esses valores – bem como nossa louvável capacidade de sentir culpa – emergem, florescem na liberdade humana. Como pretendia Nietzsche, e se talvez o sentimento de culpa tenha um prazo de validade na história da civilização? E se ele só for necessário neste estágio, neste momento da sinfonia? É uma idéia razoável, não?

    Bruno: É exatamente esse o ponto. Não sei em que medida no plano do dever-ser as regras mudam, mas acho que sim, os motivos são tão objetivos que é para motivos palpáveis (e não “móbeis” passionais) que historiadores apelam quando tem que construir explicações para acontecimentos. Esse tipo de motivo a liberdade não pode encontrar porque ela própria os põe. Ela (nós, no caso) não terá nada a disposição no mundo (como uma tábua de mandamentos) para consultar.

    Esse assunto só me chama tanto a atenção porque não é nem um pouco difícil encontrar trabalhos de conclusão de curso, teses de mestrado, etc., atribuindo uma ética (ou uma moral) à Sartre que, em minha opinião, não dispunha assim de uma sistematização forte para dar sustento à um projeto moral – no máximo, alguns truques. E porque, claro, é exatamente o que estou fazendo agora, do que estou me ocupando: Sartre e ética.

  9. Ventos sopram, o que levam à brevidade de meu comentário. Contudo prometo, num segundo momento, uma consideração mais detida. Enfim, vamos ao prato (espagheti sem almôndegas, e salada, claro) antes que a comida esfrie!

    A questão da ética tem sido colocada sob diversos ângulos e por motivações várias ao longo da história da filosofia, e, Hegel talavez sorria no túmulo, há filosofia “da” e “na” história! E a história é a seguinte: era uma vez um moço de toga, chamado Aristóteles = teleologia, encontrou com um corcunda introspectivo com um relógio na mão e olhar no céu estrelado, cujo nome era Kant, mas ventos tempestuosos trouxeram intempestivos NIetzsche e Kierkegaard, sacudindo o pretensioso Hegel, e da voz de um dedicado e genial Husserl, de um clínico Freud e de um revolucionário inversor de árvores dialéticas Marx, O ÉTICO se tornou O PROBLEMÁTICO. O que guia nossas ações? A ciência da moralidade passa a reivindicar a compreeensão dos valores que guiam a escolha moral a partir da intuição ou da aceitação de uma finalidade última. O BEM? Será ele uma “ídéia das idéias”, uma noção guia que opera na mediania em vista da excel~enca da ação ou uma disposição existencial para “o melhor”? Quem sabe! Mas resta ainda a pergunta pelo “senso de dever”. O que nos leva a escolher a humanidade em vez de meu egoísmo? O que introduz em mim o sentido de abrir mão de meu LIVRE-ARBÍTRIO LICENCIOSO para escolher BEM que vai além de mim mesmo? Kant insiste que LIBERDADE é escolher a transcendência da Lei que me inclui na Humanidade, escolher a humanidade antes que a mim mesmo e para poder escolher a mim mesmo: o belo Imperativo Categórico!

    Entretanto, passamos por Duas Grandes Guerras em que atrocidades foram perpretadas com o produto pro-ativo de uma grande “liberdade” desorientada! Além de milhões de hectares de floresta virarem cinza e fumaça tais como os judeus e ciganos nos fornos nazistas! E temos ainda uma ONU (ironicamente criada a parir dos conselhos kantianos de “A Paz Perpétua”), fechar os olhos tanto para o imperialismo quanto para o vandalismo de guerras interesseiras por poços de petróleo. E tráfico de animais aumentou tanto quanto tráfico de drogas! Não sei quem é pior Bush ou Bin Laden, Rosewelt ou Stálin, Coca-cola ou Big Brother, Grêmio ou Inter, e não me interessa. Seria um debate vazio. VAZIO! Talvez aí haja espaço para depositar algo de nossa atenção!

    O sentimento do vazio nos assusta. Tememos a morte com a certeza da aniquilação e marchamos solitários. O vazio ou nos prende na solidão ou nos convida para um mergulho que nos dissolverá. A ANGÚSTIA veio á baila filosófica com força suficiente para gerar polêmica somente no séc. XX. Sartre sem dúvida foi um dos mais fortes expoentes neste círculo de discussões. A noção de ANGÚSTIA ganhara, antes disso, sua filiação fenomenológica passando, através de Heidegger, a integrar o sentimento unificador de nossa experiência associando nossa INDIVIDUAÇÃO à nossa MORTALIDADE e ao modo como a assumimos. Todavia, o “ser-aí” heideggeriano é simplesmente um modo existencial na formalidade de um círculo ontológico: “eu sou aquele que traz o ser á luz”. A fábula do EU-porta, Eu-clareira ou EU-arauto. Afinal, “há-aí” um EU? Já que a ANGÚSTIA levou a perguntar pelo ser do homem e seu modo de existir, fizeram-se muitas reformas da ontologia de base, mas “perái”: o que têm haver, afinal, ONTOLOGIA e ÉTICA?

    J.P.SARTRE esboça sua “ontologia fenomenológica” situando a subjeitvidade no nível do “ser transfenomênico” da consciência: as coisas em-si escapam á consciência e o próprio sujeito escapa a si mesmo no processo de auto-consciência. Porém de uma coisa o sujeito jamais escapa, a sua LIBERDADE! Liberdade aparece aqui com um estatuto ontológico intrínseco e basilar no homem sartreano. Cada um de nós é condenado a escolher incessantemente até a morte, pois somos incessantemente jogandos em situações que nos põe “em decisão”. E queremos decidir “O MELHOR”! OPA! Melhor para quem? E por quê?

    Sartre percebe, na esteira de Husserl e sob influência de Heidegger, que somos “liberdades”. Por outro lado é curioso ver que surgem temas anexos tais como “má-fé”, “alteridade”, “solidariedade”, “culpa”, etc, que pertubam a escrita sartreana e á jogam acda vez mais, com a força de ondas crescentes, contra esse áspero rochedo.

    Perguntar sobre LIBERDADE implica indagar sobre RESPONSABILIDADE. Eis o retorno da problemática ética com novas cores. Vejamos os matizes progressivos até aqui: fim último, dever, valor, transvaloração, criação, decisão e agora RESPONSABILIDADE.

    Perguntaría alguem afiado e curioso: de que adianta uma liberdade sem responsabilidades? O que nos motiva e nos define mais: nossas relações e nossos vínculos ou nosso poder cru de decidir sobre um hoizonte impessoal? Como se abre tal horizonte? O que lhe confere um sentido? Como somos “livres” diante dos outros? Acaso somos livres “sem” os outros? Estes OUTROS são simplesmente os demais seres humanso ou o ãmbito se estente á toda a fomra viva e sensciente? De onde e quando nasce nossa RESPONSABILIDADE?

    Aquilo que inquieta SARTRE compõe parte essencial da inquietação de muitos filósofos do convívio deste após Auschewitz e Guerra Fria. Emmanuel Lévinas é um deles, sendo que foi este que introduziu sartre na fenomenologia dando-lhe o instrumento vital para sua “ontologia da liberdade”. Porém, para Lévinas o essencial era “anterior” e condição da LIBERDADE: a RESPONSABILIDADE. a Liberdade “bruta” consistiria num egoísmo animal ameaçado de dissolução pelo próprio contato com o entorno que o excita e o provê; portanto, a LIBERDADE encontra a HUMANIDADE somente quando investidade de RESPONSABILIDADE. Isso ocorreria na situação concreta em que o sujeito fica face-a-face com o outro. Para Lévinas a alteridade de outrem afeta diretamente nossa SENSIBILIDADE inveestindo-a de um sentido ético e criando um vínculo interno e externo com outro da “resposta” à sua presença. Assim, toda decisão vêm depois e na corrente da RESPONSIVIDADE/RESPONSABILIDADE. Pode-se dizer que não se deicide ser ético, mas é por sermos “éticos” na base da socialidade é que podemos decidir, comonicar ou valorar qualquer coisa. Outro dado interessante é que, na linha levinasiana, a ÉTICA concerne ao homem na origem mas a RESPONSABILIDADE se estende daí atodo ser vivo sensciente!

    Isto é para abrir um debate!

    ABRAÇO!

  10. henry gary disse:

    Pq a moral de vocês anda tão cheia de pré- conceitos, sem fundamentação totalmente empirica e racionalista sobre o que seja a moral…

  11. thays disse:

    aki nao tem nada do que eu estou procurando!

  12. Wagner disse:

    Muito bom o seu blog e os seus textos. É bom saber que há vida inteligente na blogosfera! Sempre reconforta um pouco! Abraços!

  13. Ana Caroline disse:

    muito bom…

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