“Control” (Ou: Porque não gosto do filme)

Depois de assistir algumas vezes ao filme “Control”, que supostamente nos revela a vida do vocalista do Joy Division, Ian Curtis, dedici falar porque não gosto, afinal, desse filme.
Em primeiro lugar, segundo o que consta, o filme é inspurado na biografia de Ian escrita por Deborah Curtis, sua esposa. O depoimento de seus colegas de banda, por exemplo (os mesmos que formariam o New Order depois da morte de Curtis) parece não ser levado em cosideração. Vale dizer que são representados como idiotas durante os poucos momentos do filme em que aparecem.
O filme nos mostra, contudo, um Ian Curtis cuja angústia parece estar voltada principalmente para seus problemas de relacionamento amoroso. Como se, ao fim e ao cabo, Ian se matasse por não saber se queria ficar com sua esposa Deborah ou sua amante Annik. Podemos formular algumas hipóteses para tentar justificar o suicídio do líder do Joy Division:
1. Depressão profunda, incapacidade para o prazer e alegria. Suas letras servem como diagnóstico dessa depressão e talvez nem mesmo a atividade com o Joy Division pudesse satisfazê-lo. O amor e a arte apareceriam na vida de Curtis, nesse caso, como tentativas malogradas de agarrar-se à vida, obter algum gozo ou satisfação.
2. Carência profunda, nunca sanada por relacionamentos que acabavam sempre se transformando – e transformando o amor – em outra coisa. O filme parece mostrar isso através das excelentes cenas que mostram Ian Curtis em seus momentos de desgosto para com a vida de casado que escolheu precipitadamente, por aparente carência. Se as coisas sucederam como o filme mostra, vemos que Ian Curtis tomou as decisões mais pesadas de sua vida em momentos de plena impulsividade (casar, ter um filho, etc.).
3. Incapacidade de se comunicar. Ian não falava com sua família, com seus companheiros de banda, com sua esposa, com sua amante. Provavelmente certo de que ninguém iria compreendê-lo, transmitia suas angustias mais profundas nos versos e na poesia de suas canções.
4. Tendência à culpa, ao arrependimento, ao remorso. Suas letras expressam essas tendências de maneira clara. Dessa maneira podemos compreender sua incapacidade para sair de um dos relacionamentos – o que resolveria, para qualquer pessoa normal, a angústia do dilema entre a esposa e a amante, por exemplo.
5. Gosto pelo obscuro. Pode-se verificar, afinal, que seja qual fosse a origem desse traço característico de Ian Curtis, era um traço forte e decisivo de sua personalidade. Ian Curtis conhecia, sabia apreciar e mover-se poeticamente dentro da escuridão. Até hoje o Joy Division é considerado um dos precursores do que se chama “rock gótico”, mesmo com sua pegada notadamente punk nas músicas do início da carreira.
Poderia continuar e ir até o décimo tópico, ou o vigésimo talvez. Não faz a menor diferença, pois não passa de especulação barata, sem nenhum alcance objetivo. O problema é que essas especulações só estão ao alcance daqueles que conhecem um pouco da história do Joy Division e de sua música. A qualquer um que assista o filme – e é por isso que não gosto de considerar o filme uma biografia de Ian Curtis (ou, para colocar melhor, é por isso que eu só aceitaria uma “autobiografia” de Ian Curtis) – Ian era o vocalista depressivo de uma banda punk que se matou por causa de um casamento infeliz.
Preciosismo da minha parte? Romantismo kitsch de esperar que um filme sobre um de meus heróis seja realizado de forma perfeita – isto é, conforme minha visão dos fatos que desconheço? Sem sombra de dúvida, é tudo isso. Reconheço que o filme seja bom. Que esteticamente seja agradável e fiel ao espírito do Joy Division e à alma de Ian Curtis. Mesmo assim, dou a mim mesmo o direito de não gostar – ou melhor, de não querer acreditar – que tudo tenha sido tão simples, tão superficial.

ian-curtis

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para “Control” (Ou: Porque não gosto do filme)

  1. Click disse:

    O problema todo dessa análise (a sua) é que daí as letras ficam sendo o repositório para a análise psicológica de Ian e formação dos tópicos apresentados. E isso seria tão redutor, no sentido de perceber causas e de tentar uma interpretação menos simplificadora da vida e morte do cantor, como a justeza de promover os relacionamentos amororos de Ian e aplicar a eles uma pretensa culpabilidade pelo suicídio do artista. Simplificador porque considera-se que a arte seja suficientemente adequada para compreender a complexidade dos dramas existenciais do artista ou vice-versa (no caso de tentar entender a obra a partir da vida do autor). Não estou aqui refutando deliberadamente as posições contraditórias em questão visto que você mesmo aponta as sutilezas e os limites dos seus argumentos, só estou tecendo um comentário cuidadoso a respeito de um equívoco que percebi e que pode, obviamente, incorrer em equívocos, também! Mas uma coisa é certa: sempre será frágil qualquer hipótese que pretenda justificar o suicídio de uma pessoa. Até mesmo naqueles casos em que a própria pessoa deixa uma carta ou uma forma de justificativa qualquer.

    Grande Abraço,

    Rodrigo.

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