A ingenuidade de Franz

(Ou, alternativamente: reflexões sobre a má-fé e a autenticidade na Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera)

Seis meses atrás, postei o trecho da Insustentável onde Milan Kundera fala sobre a compreensão que Sabina tem daquilo que podemos chamar de “autenticidade” na obra de Sartre. Evidentemente, Kundera não utiliza esse termo horroroso, nem faz menção ao pensador francês. No referido trecho, Kundera nos conta que Sabina julga essa autenticidade impossível na medida em que o olhar do outro transforma toda ação em representação.
Não pretendo aqui refletir sobre o alcance dessa noção de representação, por um motivo muito simples: aqueles que desejarem provar que toda ação humana é representação o farão sem dificuldades. Os que desejarem isolar um espaço de autenticidade, conferido por qualquer passe de mágica, também o farão. Em suma, a racionalidade humana é capaz de satisfazer os caprichos tanto dos que desejam ser atores tanto dos que desejam ser personagens.
O que tem me intrigado, ultimamente, é a capacidade que o personagem Franz demonstra em representar para si mesmo. Refiro-me à parte do romance onde Kundera nos explica que tudo o que ele escreve ou faz é pensando sobre qual seria a opinião de Sabina. Num passe de mágica, Franz introduziu Sabina em sua consciência, transformou-a numa deusa – ou, no mínimo, em parte de seu seu superego. Mesmo tendo tomado distância real de Sabina – pois esta era demasiadamente comprometida com sua liberdade para envolver-se em um relacionamento sério com Franz – quando esta o abandonou, Franz decidiu prestar devoção à essa deusa, ao invés de render-lhe rancores ou ressentimentos.
Perceba-se a peculiaridade, o refinamento da resposta de Franz à traição de Sabina: ao invés de se ressentir, a transformou em deusa. Mesmo sem saber sobre a efetividade da atenção de sua deusa sobre seus passos, seus escritos, etc., preferiu dedicar à ela toda sua atividade. Não procurava transformar-se em algo que agradasse Sabina, não: só gostaria de saber o que aquela deusa, auto-suficiente, absoluta e plena de si mesma como um felino, pensaria dele. Ou seja: tinha demasiada estima de si para converter-se por amor. Kundera nos explica que não é, absolutamente, amor o que ele sente por ela. É adoração, adoração do tipo de um fiel à uma divindade. Desejava a atenção, a opinião (qualquer que fosse) de sua deusa, desejava ser notado porque mesmo que fosse feliz com sua estudante de óculos (que, afinal, admirava sua inteligência), sua pessoa só se tornava real quando imaginava o olhar de Sabina sobre si mesma. Era pelo olhar imaginado de Sabina que Franz se tornava real.
Lembremos que Franz é o personagem através do qual Kundera nos mostra a possibilidade de se viver no lirismo, no romantismo, no idealismo (ou, alternativamente, para usar o instrumental teórico sartreano, na má-fé). Enquanto Tereza alimenta desejos de distinção através de sua alma (que faria com que ela não fosse só mais um corpo para Tomas), Franz esgota-se em um personagem absoluto. Fecha os olhos para os aspectos reais de sua vida, vive como se sua vida estivesse em outro lugar. Não tem os assaltos de angústia de Tereza (que ocorrem quando ela enfrenta o fato das traições de Tomas, quando não consegue mais enganar a si mesma).
Ou seja: o olhar do outro falsificava Sabina, o olhar de Sabina dava existência à Franz.
Uma das mensagens da filosofia de Jean-Paul Sartre é a de que, afinal, há um malogro intrínseco ao desejo de ser que uma pessoa pode alimentar. Age-se: eis tudo. O ser é proibido àquele ente cuja existência é a de ser consciência. A condição de ser consciência é a condição de não ser, de ser perpétua possibilidade. Franz, de maneira muito astuta, driblou esse malogro: bastava que existisse a possibilidade de ser contemplado por sua deusa para que ele se tornasse uma pessoa real. De um só golpe, estava pleno como uma pedra. Provavelmente seu temperamento não lhe permitiria as aberturas que Tereza possuia para os assaltos da angústia e do desespero. Mais instruído do que a pobre garçonete do interior, Franz dispunha de elementos conceituais para forjar sua própria Weltanschaung de modo a repelir estrategicamente a verdade de seu auto-engano.
Há uma beleza triste no personagem de Franz, pois as razões que ele se advoga (sem perceber) para julgar-se admirável por Sabina (sua força física, que o próprio supunha ser alvo da admiração de sua deusa) mostram-se, ao fim de sua história no romance, absolutamente insuficientes para lhe salvarem do deu destino: uma morte violenta, gratuita, absurda. Sabina achara um pouco comovente quando Franz lhe mostrava sua força física, pois era uma força que jamais conseguira coagí-la, uma força admirável. E só. Essa força, no fim das contas, não foi sequer capaz de salvar Franz de sua própria ingenuidade.
Sim, é isso que se pode dizer de Franz: sua beleza é a beleza da ingenuidade. Uma ingenuidade perigosa, pois educada pela academia, pelas letras; uma ingenuidade civilizada e refinada. Uma ingenuidade que se admirava por não apreender a si mesma como ingenuidade. Diferente da beleza de Tereza que se angustia, se desespera, que foge para um país distante quando sente-se um fardo na vida de Tomas.
Franz vive em um mundo simbólico e conceitual que lhe permite a construção imaginária de um pequeno universo que vela essa ingenuidade. É fácil para Franz viver sua ingenuidade, morna como um útero, aconchegante como uma passeata onde as pessoas pensam que são uma unidade. Tereza é forçada à ver a verdade e seu romantismo, seu idealismo, seu lirismo não passa de um esforço de re-significar um mundo que perde, todos os dias, a própria beleza. Enquanto a passagem de Sabina pela vida de Franz foi um lampejo do que podia ser a vida (do que era, afinal, a liberdade), Tereza conclui sua história na Insustentável assumindo uma responsabilidade pelo fracasso de Tomas: um médico renomado – neurocirurgião – livre e galante havia descido ao fundo do poço por ela. De lavador de janelas, caíra até o ponto de viver no campo, viver fora do mundo, fazer dela – ela, tão desinteressante, tão frágil, tão feita apenas de angústia e desespero – seu pequeno mundo.
Alguma possibilidade de redenção em uma história assim tão triste?
Certamente. E é justamente a autenticidade (cuja possibilidade preferimos não discutir) que salvará do tormento esses personagens. Afinal, Tomas perdoa Tereza dessa responsabilidade que ela supostamente teria pelo fracasso de Tomas. De maneira autêntica, assume a responsabilidade pelo próprio caminho que trilhou. Está absolutamente livre das ilusões de que a medicina ou as mulheres eram seu destino. Não há destino, eis tudo. Tomas está distante do mundo em que pensava que devia viver. Tereza está enfim redimida do pecado de ter conduzido um homem ao fundo do poço – pois, afinal, ele foi sozinho e livremente. Sabina, por sua vez, arcará com as conseqüências da autenticidade: a solidão. Seu comprometimento com sua liberdade absoluta à leva à mais absoluta solidão, onde o mundo desaba na medida em que o passado desaparece: depois da morte de Tereza e Tomas, não há mais nada para Sabina. Está sozinha com sua liberdade.
E Franz? Franz viveu e morreu em paz, viveu e morreu na má-fé.

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Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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