Meu amigo Nero

“… porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.” – Drummond.

Nero achou belo o incêndio de Roma. Encostava sua tocha luminosa sobre cada ramo seco apenas porque seu espírito degustava irracionalmente a beleza das chamas. Uma cidade inteira – a maior de todas – engolida pelo calor luminoso constituía o milagre do êxtase de seu espírito.

Imagino Nero cavalgando pelas ruas de Roma. Não sei se Nero cavalgava, mas sua imagem à cavalo, com uma tocha em punho, me seduz. Queima tudo o que vê pela frente, como seus soldados. Diferentemente deles, não o faz com rapidez estratégica. Assiste com delicado encanto enquanto as chamas consomem um barril vazio, uma choupana, os trajes da pobre romana que dois soldados seguram pelos braços para que o Imperador possa, extasiado, com a delicadeza de um artista com seu pincel, encostar a labareda no traje da moça. Suas súplicas e seus gritos de desespero são a melodia que dá sentido e fundo musical à seu festival, sua volúvel e fugaz composição artística. O fogo come a madeira e a carne, os estalos e os gritos fazem o contraponto no papel de instrumentos dessa orquestra.

Em seu momento de maior inspiração, Nero sobe ao ponto mais alto de Roma e assiste o espetáculo das chamas, um império de estalos e gritos. Sorri como um menino inebriado pelo vôo de uma pandorga. Sente-se como um semideus que acaba de criar na terra uma estrela de brilho casto e puro.

Imagino que Nero assiste com melancolia enquanto o fogo consome seu combustível e ferve o sangue dos romanos. Uma melancolia oriunda da certeza de que nunca mais poderá criar uma obra tão bela. Melancolia de saber que o fogo vai apagar, que “Roma em chamas” é um momento que precede as “cinzas de Roma”. Que seu nome, pregado na cruz da História, será uma notícia perpetuada que não garantirá a permanência de seu espírito e que, mais que tudo, nada, nada poderá extasiar seu espírito dessa forma novamente. Nero sabe que lembrar aquele momento de calor e luz será até seu último suspiro a razão de seu viver.

Vejo Nero em lágrimas, agradecendo a Deus naquela noite sublime, de céu cheio de estrelas: naquela noite, não choveu.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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