Trechos memoráveis de “O Lobo da Estepe”, Nº1.

A promessa de manter o blog só com o ressentimento não será quebrada por essa referência literária. O caso é que reli “O Lobo da Estepe” de Hermann Hesse e me lembrei de porque não havia gostado dele. O livro é um convite à redenção com elementos de surrealismo que realmente nos convidam (sem querer, suponho) a questionar as possibilidades reais dessa redenção. O pobre Harry Haller, um erudito que tem facilidade demais pra separar o nobre-e-sagrado do vulgar-e-profano vive uma jornada de auto-reconhecimento e auto-destruição espiritual. Antes decidido à cometer suicídio por força de sua falta de motivos para viver, encontra na sabedoria de uma cortesã (claro…) o amparo de que necessita para ver a vida com outros olhos. Hesse é um grande escritor e tem uma inteligência assustadora, mas não gosto das coisas que ele diz porque penso que nem mesmo ele acreditava nelas. Como um romance não precisa ser julgado moralmente, atenho-me a apresentar alguns trechos de memorável sabedoria.

– Entao, agora tem tudo de que necessita?
– Não, Hermínia, não é bem assim. Tenho algo maravilhoso e encantador, uma grande alegria, um adorável consolo. Sou realmente feliz…
– Então, que quer mais?
– Quero mais. Não estou satisfeito em ser feliz, não fui criado para iso, não é este o meu destino. Meu destino é exatamente o contrário.
– Ser infeliz? Mas isso você era antes, quando não queria voltar para casa com medo da navalha.
– Não, Hermínia, é algo mais. Àquela época, concordo, eu era muito infeliz. Mas tratava-se de uma infelicidade idiota que não conduzia a nada.
– Por quê?
– Porque eu não devia sentir medo da morte se ao mesmo tempo a desejava. A infelicidade de que necessito e por que anseio é diferente: é uma infelicidade que me permitiria sofrer com ânsia e morrer com prazer. Essa é a infelicidade, ou felicidade, por que anseio.
– Compreendo. Nisso somos iguais. Mas que tem contra a felicidade que encontrou agora, com Maria? Por que não está contente?
– Não tenho nada contra essa felicidade. Oh, não! Gosto de Maria. Estou satisfeito com ela. É maravilhosa como um dia de sol em meio à um verão chuvoso. Mas sinto que isso não pode durar. Além do mais, trata-se de uma felicidade infrutífera. Dá satisfação, mas a satisfação não é alimento para mim. Faz adormecer o lobo da estepe, torna-o dócil. Mas não é uma felicidade pela qual se possa morrer.
– Mas é preciso morrer por alguma coisa, Lobo da Estepe?
– Creio que sim! Minha felicidade enche-me de contentamento e posso suportá-la ainda por algum tempo. Mas quando a felicidade me permite um pouco de reflexão, aí meu desejo não é de mantê-la para sempre, mas antes voltar a sofrer, só que de maneira mais bela e menos lamentável do que antes. Anseio por uma dor que me prepare e me faça desejar a morte.

– Não me agrada ouví-lo falar assim. Você se esquece da noite em que, desesperado pelo tormento e a solidão, você cruzou por meu caminho e nos tornamos bons amigos? Por que imagina que pude conhece-lo e compreendê-lo, então?
– Por que, Hermínia? Diga-me!
– Porque eu sou como você. Porque estou tão só e amo tão pouco a vida, as pessoas e a mim mesmo quanto você; e como você, não posso levar nada disto a sério. Sempre houve pessoas assim, que exigem da vida o que ela tem de mais alto e não podem conformar-se com sua estupidez e crueldade.

(As palavras de Hesse em uma nota ao fim do romance, sobre a própria obra)
É claro que não posso nem pretendo dizer aos meus leitores como devem entender a minha história. (…) Mas eu me sentiria contente se alguns leitores pudessem perceber que a história do Lobo da Estepe, embora retrte enfermidade e crise, não conduz à destruição e à morte, mas, ao contrário, à redenção.

Mesmo assim, no Teatro Mágico (final do romance) Harry Haller enfia um punhal no peito de Hermínia.

Uma resenha interessante: http://www.poppycorn.com.br/artigo.php?tid=259

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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7 respostas para Trechos memoráveis de “O Lobo da Estepe”, Nº1.

  1. De Hermann Hesse prefiro o “Demian”, o misticismo que não permite a escolha, o sem sentido da vida e a própria beleza dela, tornam o romance mais do meu gosto. O “Lobo” é um personagem patético não é? Quero dizer, parecem dúvidas materialistas, um burguês doentio, algo do tipo.

  2. Victor disse:

    Oh, não estou sozinho.

    O pior pra mim é que a redenção só acontece naquele mundo simbólico-surrealista – o que já denota sua impossibilidade real, à despeito de toda a afetação do Hesse nesse sentido.
    E o Demian é mais bonito mesmo.

  3. Alexx disse:

    “Sidarta” é o topo da obra de Hesse…O âmago…

  4. Marcio_LG disse:

    Olá… comentário vindo ao além.. mas a literatura mora mesmo pra lá do tempo, não é?!
    Então, estou relendo agora “O Lobo da Estepe”do Hesse e, confesso, achei suas palavras bem peculiares e pertinentes a essa obra. Lendo-a de novo, fica muito claro os trechos em que Hesse insere “lições de moral” ou “momentos filosóficos”. Estou achando até curioso conseguir ver isso com tanta clareza… ;)

  5. Herman Ashes disse:

    Olá… já ouviu falar em spoiler? Pois é… valeu mesmo.

  6. Hele Alv disse:

    Li este livro aos 19 e na época não entendi ao certo a razão que ele enfia o punhal… Estou relendo aos 33 ,vamos ver como eu sinto o livro agora que já experienciei outras coisas. :)

    http:www.helealvarenga.blogspot.com.br

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