Vinte e Quatro Horas

Esqueceu de ajustar o despertador, portanto, acordou quase uma hora mais tarde do que costumava. sentiu uma profunda irritação e o corpo parecia não querer obedecê-lo. Cada movimento parecia um combate do qual uma preguiça, um cansaço e a própria irritação eram o resíduo que lhe poluiria a alma durante o dia inteiro. Alguns dias não podem começar mal.

Fez sua toalete e vestiu-se rapidamente. Camisa branca e gravata preta, como era exigido. Enquanto fazia a barba e olhava-se no espelho, pensava: “Estou gordo.”. Não estava, mas outrora fora bastante magro e o contraste de ontem e de hoje era difícil de se acostumar. Desde que havia se separado, estava engordando – o que poderia ser explicado pelos inumeráveis lanches de esquina e pelas poucas refeições decentes. Mesmo a constatação de que estava “gordo” não lhe impedia de fazer a barba com nojo e pressa. Detestava aquela imundície que lhe brotava de dentro dos poros todas as manhãs, e sentia nojo da própria cara gorda enquanto deslizava a lâmina. A pressa, evidentemente, fez com que se cortasse.

Arrumou suas coisas e correu para o ponto de ônibus, pois se perdesse aquele que partia naquele momento, o atraso seria irremediável. Entrou, sentou-se e finalmente descansou. Com a cabeça recostada no vidro, olhava os prédios erguendo-se na direção do céu cinzento. O vento balançava as copas das árvores sem sombra e desarrumava os cabelos dos transeuntes. Ele gostava de vento – trabalhar no hospital exigia cabelos curtos e o vento não o incomodava mais.

Finalmente chegou. Assinou o livro-ponto, dirigiu-se para sua mesa. Abriu a porta e tratou de arrumar as coisas que deixara em desordem no dia anterior. Fichas, relatórios, receitas médicas. Por quinze minutos correu os grandes olhos claros pela papelada e organizou o escritório. O médico chegou, cumprimentou o rapaz e passou para sua sala.

Recebia ligações telefônicas, marcava consultas. Durante esse meio-tempo, pegou de sua pasta o envelope em que estava a carta da ex-mulher. Cada vez que lia a carta suas mãos tremiam, suas sobrancelhas arqueavam-se em uma expressão de sofrimento. Era como se bebesse do puro desespero naquelas palavras, o que quer que fossem. Por que ela o deixara? O amor havia morrido?

Nas dez ou vinte vezes em que releu a carta, pelo menos na metade delas seus olhos marejavam. Era uma rotina da qual não se desligava. Relia todos os dias a mesma carta recebida há meses, como se ao relê-la pudesse parar o tempo e manter-se próximo da ex-mulher, como se a separação fosse recente. O médico já lhe advertira que essa conduta caracterizava um comportamento obsessivo, e que talvez ele devesse procurar um psicólogo. O rapaz preferiu não dizer que durante os meses depois da separação, visitava freqüentemente um psiquiatra. O psiquiatra era um idiota, pensava. Mas lhe conseguia as receitas dos remédios sem os quais não saberia mais viver.

O período da manhã transcorreu entre anotações em fichas e na angustiada releitura da carta. O período de almoço era curto demais para que ele tivesse tempo de ir à um restaurante barato, então pela milésima vez fez um lanche em um buraco qualquer próximo do escritório. Sujou a camisa de molho e teve vontade de atirar-se na frente dos carros. Era sua última camisa branca limpa e não teria uma para trabalhar no dia seguinte, pois adiava todos os dias a lavagem das outras duas.

Durante à tarde, um comentário leve do médico sobre aquela mancha de molho. Afinal, não queria que os pacientes pensassem que ao passar por sua porta estariam entrando no abatedouro de um açougue. Fingiu um riso e pediu desculpas pela mancha, embora tivesse preferido furar a garganta do médico com o lápis que segurava. Depois disso, menos trabalho do que pelo período da manhã e mais releituras da carta. Trancou-se algumas vezes no banheiro para fumar e chorar.

Ao fim do expediente, sentia que simplesmente não podia ir para a casa. Preferiria morrer do que entrar em casa. Sentia isso todo santo dia, quando saia do trabalho e por isso voltara para a casa dos pais. A decisão se mostrou inútil quando percebeu que era completamente impossível conversar com seus familiares. Voltou a morar sozinho, voltou ao inferno particular. Nenhum lugar seria bom novamente sem sua ex-mulher.

Foi à um bar. Pediu um uísque. Conversou com alguns estranhos. Falava de esportes, de política, do clima. Era simples e esquecia de si mesmo na mesma medida em que ficava embriagado. Jogou sinuca durante algumas boas horas, fazendo par com um estranho. Ganhou e perdeu mais ou menos a mesma quantidade de partidas. A noite avançava e o rapaz ficava cada vez mais alegre, mais tranqüilo.

Conversou com uma mulher. Demorou a perceber que se tratava de uma moça que cobrava pelos favores sexuais. A pobre mulher tentara pechinchar três vezes, e sua última oferta era menos da metade da primeira, mas o rapaz definitivamente não tinha a menor vontade de pagar por prazer. Desculpou-se pagando uma bebida para a moça e se sentiu lisonjeado quando ela não quis deitar-se com pelo menos três homens que pagariam bem mais do que ele por seus serviços. Já embriagado e com os pensamentos nublados pelos álcool, repensava a decisão e sentia que aquela garota merecia alguns trocados apenas por preferí-lo à tantos outros. Foino banheiro, lavou o rosto e arrumou um pouco aqueles cabelos curtos e sem forma. Quando saiu viu a prostituta conversando com outro homem – que aos olhos do rapaz era ainda mais repulsivo que todos os outros que o sucederam. Ela o acompanhou e o rapaz teve novos motivos para ressentir-se. Não tinha nada de especial. Bebeu pelo menos mais duas doses de uísque, até o barman avisar que estava fechando.

Olhou o relógio e viu que já havia passado da meia-noite. Tinha de trabalhar cedo, estava bêbado e acordaria mais indisposto ainda do que no dia anterior. Fixava o pensamento na idéia de ajustar o despertador – porque bêbado como estava não teria a sorte de ser acordado pelo seu subconsciente. Foi para casa.

No caminho, atravessaria a rua na qual sempre dobrava quando morava com sua mulher. Parou por um instante. E se tentasse conversar com ela? Não, a idéia era péssima. Estava bêbado, ela o expulsaria.

Mas o que faria? Devia ir para a casa e dormir para repetir a rotina estúpida dessa segunda-feira? Não, isso era absurdo. Se chegasse em casa naquele estado, se degolaria com a navalha de barbear. Não morreria, contudo, se fosse expulso da casa de sua ex-mulher mais uma vez.

Caminhou alguns quarteirões, enfiou o pé em uma poça d’água e caiu. Levantou-se, mas nem percebia o estado deplorável em que se encontrava, estava confuso demais. Tomou um de seus comprimidos à seco e pensou que isso o faria se sentir melhor para poder conversar com ela com calma. Quando passou pela ponte que cruzava sobre o rio, sentiu uma vertigem terrível e teve de caminhar pelo meio da estrada.

De longe, viu que havia luz na casa onde vivera meses atrás. Ela estava acordada. Precisava ser extremamente educado, mostrar que só queria conversar, queria saber se ela estava bem, se ela o odiava. Tocou a campainha.

Nenhuma resposta.

Porque não o recebia? Bem, já era muito tarde. Ninguém atenderia a porta depois da meia noite. Mesmo assim, já caminhara até ali, não custava nada tocar a campainha uma vez mais. Ouviu passos e sentiu que seria atendido.

Atendeu um homem de barba por fazer e cabelos compridos e molhados, enrolado em um robe. Tinha olhos claros como os dele, mas também tinha pêlos pelo corpo inteiro. O robe era conhecido do rapaz, pois quem o vestia meses atrás era ele próprio. Foi enrolada naquele robe, inclusive, que a moça foi levada nos braços pelo rapaz até o hospital, no trágico dia em que ela perdeu o bebê depois de quatro meses de gestação. Fizeram amor sobre aquele robe um sem número de vezes, depois que ela voltava do banho. Agora, um estranho – provavelmente dez anos mais velho do que ele – o vestia.

“Pois não?”

“Quem é você, cara?”

“Como assim? Acho que essa pergunta cabe à mim, afinal você está batendo na minha casa.”

“ESSA NÃO É SUA CASA, FILHO DE UMA…” e avançou na direção do homem que rapidamente lhe deu um soco certeiro no olho, fazendo-o cair. Estava bêbado e não teve como levantar nem esquivar dos pontapés que o homem lhe deu até afastá-lo da casa. Se estivesse sóbrio poderia estrangular aquele homem, era maior e mais pesado do que ele. Metros distante da “própria casa”, viu na janela do andar superior a silhueta da ex-mulher. Ela assistia  tudo. O homem fechou a porta, sem tirar os olhos do rapaz, e apagou as luzes. A moça saiu da janela e também apagou as luzes. Começou a chover.

O rapaz queria chorar, chorar muito, então se levantou para que não fosse visto em lágrimas por aqueles dois. Talvez não haja palavras para descrever o tipo de dor que ele sentia naquele momento, uma dor profunda, espiritual e física, que lhe consumia o peito por dentro e explodia em soluços. Quase foi atropelado duas vezes enquanto vagava, encharcado, como um fantasma pelas ruas.

Enquanto choveu, o rapaz caminhou sem rumo. Procurava algum lugar aberto para beber, beber até perder a consciência e o emprego. Estava exausto, bêbado, ferido e com a alma despedaçada. Não se alimentara pela noite (comera dois sanduíches de queijo no boteco), tremia de fraqueza e sentia que devia tomar seus remédios para acalmar aquela angústia. Caminhava pela ponte, mas não podia ir pelo meio da rua. Seria mais fácil ser atropelado do que cair, em vertigem, no rio. Caminhava escorado no parapeito e em um instante parou, procurando seus comprimidos.

A bebedeira, a fraqueza, o cansaço e o desespero se misturavam: procurou cem vezes em todos os bolsos os malditos comprimidos, até perceber que já os segurava na mão. Deixou cair a cartela duas vezes enquanto tentava tirar um deles. Para facilitar o serviço, tiraria logo todos de uma vez. Estava muito difícil destacá-los e ele podia precisar deles logo em seguida. Destacou os oito e pensou em guardá-los no bolso da camisa. Percebeu, enquanto engolia, a multidão de calmantes que desciam como um enxame por sua garganta.

O susto fez ele recuperar um pouco da lucidez. Levantou-se para ver se estava bem. Sentia-se bem. Ficaria atento às próprias reações para o caso de passar mal. Sentou-se no parapeito e ficou olhando o céu. era irônico, mas aquele tom que se formava lentamente no leste era exatamente o tom de aurora preferido de sua ex-mulher.

Teria chorado, mas não tinha forças. Respirar estava difícil. Precisava descansar. Sentiu mais uma vez o corpo enfrentando suas decisões, só que desta vez era o corpo que vencia. Precisava descansar e simplesmente relaxou. Infelizmente o rapaz estava sentado no parapeito de uma ponte, e relaxar significava cair no rio. Sentiu-se infinitamente leve por um instante, depois sentiu frio, depois sentiu que era difícil respirar, mover-se ou pensar no que quer que fosse. Só sentia um sono profundo. Queria descansar. Tinha os olhos fechados e sentia que com a consciência, um fardo imenso, insustentável lhe deixava. Sentia um pouco de falta de ar e frio, mas sentia ao mesmo tempo que estava infinitamente leve, que estava flutuando. A angústia passara. Adormecer assim seria bom.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Vinte e Quatro Horas

  1. quemsera disse:

    Muito bom cara!
    é a música em forma de conto.
    hahaha….massa mesmo.

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