“Gabrielle Colette – A Vagabunda”.

Quanto mais leio filosofia, mais gosto de literatura. E quanto mais leio literatura, menos gosto da própria literatura.
Mas isso só deve ocorrer porque meus critérios ainda são completamente obtusos, e porque estou agrilhoado à um certo modo de ler cada romance, segundo alguns imperativos intelectualistas que dizem que um bom romance é aquele que “revela possibilidades humanas”. Um vício filosófico, sem dúvida, que impede que a literatura me apareça livre como é e como deve ser.
Estou lendo A Vagabunda, de Gabrielle S. Colette, e acabo de vencer a Primeira Parte do livro. Colette é, como Simone de Beauvoir ou Virginia Woolf, uma escritora da primeira metade do século XX. Procurei não me informar sobre ela na rede ainda, pretendendo fazê-lo logo depois de ler o romance. Usando uma lamentável e bizarra fórmula sexista, posso dizer que Colette escreve “como uma mulher”: o texto é em primeira pessoa, narrado pela personagem Renée. A personagem é uma artista de espetáculos noturnos que fora casada com um artista plástico e na Primeira Parte descreve um pouco de seu cotidiano de artista bem como alguns esparsos – mas mesmo assim tratados com certa profundidade – momentos de sua desastrada vida conjugal ao lado do pintor Adolphe Taillandy.
À guisa de convite (pois o romance ainda não me decepcionou) deixo alguns pequenos excertos dessa primeira parte para dar o tom e o sabor das páginas muito rica e belamente escritas:

“Aqueles que me desejam não escrevem bilhetes ternos, mas cartas apressadas, brutais e deselegantes, que traduzem não o pensamento, e sim a concupiscência…”

“Habituamo-nos à não comer, a ter dor de dentes ou de estômago, habituamo-nos mesmo à ausência de um ente amado, porém ciúme não é hábito que se adquira.”

“(…) tão somente através da dor, pode uma mulher ultrapassar a sua mediocridade, descobrir que é resistente, que tem forças infinitas das quais pode usar e abusar sem temer a morte, se alguma covardi física ou alguma esperança religiosa a tiverem desviado do suicídio simplificador.”

“(…) eis qual foi, logo em seguida, o meu fado, acrescido, porém, de uma desconfiança selvagem, de uma aversão pelo meio em que vivera, de um estúpido medo do homem, dos homens e das mulheres também… Possuía-me uma necessidade doentia de ignorar o que se passava à minha volta, de não ter a meu lado senão esses seres rudimentares, quase impensantes… E esta extravagância ainda, que logo se arraigou em mim, de só me sentir isolada e protegida dos meus semelhantes quando em cena – barreira de fogo que me defende contra todos…”

Vejamos se consigo vencer Gabrielle sem me entregar antes para Flaubert ou Garcia Marquez.
Ou Kundera.

Sindonie Gabrielle Colette

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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6 respostas para “Gabrielle Colette – A Vagabunda”.

  1. Adriana disse:

    Acabei de ler a Vagabunda de Gabrielle Colette fiquei um pouco decepcionada com o final.

  2. jess disse:

    Foi tão difícil achar um texto de qualidade sobre esse livro, que bom que achei esse. :)

  3. Victor disse:

    Mas, mas, mas… foi só ‘qualquer coisa’. Acabou que foi um livro que li e sobre o qual não refleti muito depois. E que só foi me encantar mesmo nas últimas páginas, no último capítulo. =)

  4. Thabita disse:

    apesar do livro ter algumas passagens boas, o ultimo capitulo conseguiu estragar qualquer bom conceito que eu tenha feito dele no decorrer da leitura. achei o final ultrajante, especialmente porque ela se coloca numa posição de vítima que não merece ser amada, sem conseguir superar as escaras do passado. preferível seria ela escolher a liberdade pela própria liberdade e não por ser presa a si mesma e às suas próprias emoções.

  5. Eu gostei muito desse livro, o final é audacioso mesmo nos tempos atuais.
    Na época da leitura, me inspirei a escrever o texto Marcas, no final incluí uma parábase, roubei o termo do teatro para a literatura, pois nunca sei se escrevo ou represento.
    Link da íntegra o texto Marcas.
    http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/945760

  6. Ainda estou na metade do livro.Que me surpreendeu.Esperava uma narrativa comum, iguais as outras que li. Mas, não…Colette escreve diferente,sua narrativa me parece,às vezes sem rumo.Estou gostando do seu humor,do palavreado fácil,dos termos que usa.Ela é única

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