O Nosferatu de Montpellier

Meu nome é Jean-Baptiste. Eu sou um vampiro.
Antes de continuar esse relato, preciso lhe advertir para esquecer o cabelo escovado e o terno de linho. Você não vai me encontrar em algum café de Paris ao fim de tarde, sedento por seu sangue e pronto para levá-la para a cama. Primeiro, porque não visito mais Paris. Segundo, porque você iria querer deitar comigo ainda menos do que eu com você.
A grande maioria dos vampiros é formada por gente bonita, é verdade, e a ficção não exagera quando fala das habilidades de sedução de um vampiro – porque roubar-lhes o sangue quando vocês tremem de prazer deve ser, afinal, muito fácil. Arrisco em dizer que a morte embeleza a carne mortal: os diversos tons e manchas da pele desaparecem quando esta empalidece e se estica sobre os ossos. O corpo se esvazia completamente dos dejetos dos quais vocês estão sempre cheios e o vampiro assumirá uma silhueta quase invariavelmente elegante. Mas esse não é o caso da minha família de vampiros, por uma razão muito simples: nós não paramos de envelhecer.
Sim, essa é a história dos Nosferatu e nossa família se chama assim hoje em dia justamente porque cada um de nós é deformado sob algum aspecto e, por essa razão, completamente impedido de conviver com a humanidade como a maioria dos vampiros.
Fui Abraçado (transformado em vampiro) por uma mulher, embora certamente o gênero sexual virtualmente desapareça entre os Nosferatu. Aconteceu na década de 30. Eu era um ator em ascensão e ela era uma fã. Sim, ela assistia meus filmes nos cinemas, provavelmente ao lado da sua avó ou avô, leitor, pois a condição vampírica tem suas vantagens, e os Nosferatu aprenderam a se fazer invisíveis para não precisar viver nos esgotos como exilados.
Eu estava em minha casa recém-comprada, e estava um pouco bêbado. Desconfiava de traições de minha mulher mas não tinha coragem de inquirí-la a respeito. Preferia fingir que acreditava que quando viajava para Berlim, Erika ia visitar seus pais como me dizia que faria, e não seu ex-marido. Hoje me arrependo um pouco de não tê-la traído. Não que tenha descoberto suas traições (mesmo viajando invisível nos primeiros anos como vampiro, não descobri absolutamente nada). Devia tê-la traído porque ela foi minha única mulher em vinte e oito anos de existência mortal, e nunca pude provar o sabor de outro corpo. Prefiro imaginar que é como o sangue: todos tem o mesmo sabor.
Levemente embriagado em minha casa, ouvi o som do ferrolho e da porta se abrindo. Preferi acreditar que era imaginação minha, até que senti um par de mãos cobrindo meus olhos. A mulher – descobri que era uma mulher quando ouvi a voz – estava atrás do sofá e escondia sua imagem de mim. Pensei que se tratava de uma psicopata, e não saberia o que fazer caso tentasse me matar. Mas sua voz era doce e amável, embora seu vocabulário fosse pobre como o de uma cozinheira e a fala fosse entrecortada por um estranho som de salivação.
A mulher dizia que era minha fã. Que vira todos os meus (dois) filmes. Dizia que me amava, e que queria se casar comigo.
Eu ri e disse, o mais delicadamente que pude, que já era casado e que não poderia. Também pedi para que tirasse as mãos de meus olhos e me deixasse vê-la – pois sim, eu estava com medo. Ela reagiu bruscamente e apertou meus olhos com mais força, dizendo que eu não ia gostar dela se a visse. A estranha salivação me assustava e eu não queria verificar se ela tinha forças para me imobilizar. Imaginei logo uma mulher corpulenta, fugitiva de um manicômio, salivando de forma insana. E velha, pois mesmo que sua voz fosse jovem, suas mãos eram ásperas.
Insisti, dizendo que não me importava com a beleza exterior, que queria apenas conversar com ela. Disse-lhe que se ela tinha sensibilidade para ficar tocada por meus filmes, ela certamente era uma pessoa que eu queria conhecer.
Veja bem, meus filmes eram filmes tolos e ainda mudos, comédias nas quais sempre fiz o papel estúpido de um galã fanfarrão. Não havia nada para encantar a sensibilidade de ninguém naquelas películas. Mesmo assim, senti que a mulher fazia menos força. Tentei abrir os olhos mas não consegui. Ela perguntou se eu tinha certeza de que queria vê-la. Enfatizei tudo o que havia dito e pedi-lhe, de modo sedutor, que me permitisse olhar para ela, pois fosse ela como fosse, eu olharia apenas para sua alma.
Hoje sei que minha senhora era realmente uma menina de mente muito simples antes do Abraço. Infelizmente, meu Abraço não havia sido permitido pelas autoridades vampíricas e ela foi destruída logo em seguida por vampiros de outras famílias. Digo isso com ênfase porque os Nosferatu  dificilmente dão cabo uns dos outros sem razões muito, muito fortes. Somos monstros e só temos uns aos outros. O horror que inspiramos mesmo nos outros vampiros faz com que sejamos uma família unida e cooperativa, embora as mentes simples de meus irmãos inclinem o Clã como um todo à uma postura humilde e submissa aos vampiros da superfície.
Voltando ao relato, devo dizer que minhas palavras foram suficientes para tocar a mulher que residia sobre a carcaça monstruosa. E também devo dizer que mesmo essas décadas de convivência com as aberrações não esmaeceram a lembrança do horror que senti quando vi um Nosferatu pela primeira vez.
Ela tirou lentamente as mãos de cima de meus olhos e me preparei para ver uma mulher muito feia. Uma gorda demente e salivante. A princípio, quando me virei, ainda sentado, não vi nada. Levantei-me e contornei lentamente minha poltrona. Lembro-me do horror crescente ao ver cada nova parte que se insinuava atrás da poltrona.
A coisa não tinha mais do que um metro e cinquenta. Talvez tivesse, mas era terrivelmente corcunda. Vestia um vestido branco belíssimo, de um tamanho infantil. Estava de costas, com vergonha. Pensei que desmaiaria: a pele de sua nuca, totalmente careca, era enrugada como a de uma vítima de uma queimadura terrível. Suas orelhas eram enormes, desproporcionalmente grandes para aquela cabeça pequena. A coisa era magra, esquelética, e era possível ver as vértebras quase saltando sob a pele enrugada do pescoço. Os braços eram tortos, como se tivessem sido quebrados e os ossos calcificados em posições inumanas. Estava um pouco encolhida, e não podia ver suas mãos. Seus pés, contudo, calçavam delicados sapatinhos brancos, e pensei que aquele monstro fosse uma criança deformada, atropelada por um automóvel e queimada em um incêndio. Faria o possível para não reagir de forma desesperada, então pedi para que se virasse.
A coisa virou-se lentamente, mas meu horror só se completou quando finalmente vi seu rosto e entendi que nenhum acidente deixaria um ser humano daquele jeito. Seus dentes eram todos longas presas tortas e podres, e a mandíbula não era senão um arremedo de mandíbula animal, salivante, do qual pendia uma língua enegrecida. O nariz era enorme. Tinha verrugas peludas por toda a face. Um dos olhos havia sido simplesmente fechado por uma má formação óssea, e o olho que me fitava era uma poça de sangue.
Entendam, eu tentei. Mesmo quando a vi de costas, esperava uma criança deformada. Mas o que eu vira era um monstro.
Senti que desmaiaria, mas saltei involuntariamente para trás. Dei um grito. Suava, tremia, me esforçava para acordar de um pesadelo. Era dolorosamente comovente o olhar da criatura: eu havia descumprido a promessa. Eu disse que só olharia para sua alma e agora estava caído sobre meu caríssimo tapete, ofegando e recuando instintivamente daquela coisinha monstruosa. Por mais monstruosa que fosse, aquela criatura ainda guardava um oceano de sentimentos humanos, e eu podia sentí-los naquele olhar. Mesmo sabendo disso, não conseguia evitar aquela reação do mais puro pânico e quando a coisa deu o primeiro passo na minha direção, gritei, sacando o espeto da lareira. Quis morrer quando aquela coisa começou a chorar.

Embora pareça improvável, as lágrimas daquele monstrinho me comoveram. Perguntei seu nome. “Marie”. Perguntei quantos anos ela tinha. Era uma criança de doze anos, com cerca de três meses de existência vampírica. Era afinal, uma criança. Enquanto perguntava e tentava acalmá-la, abaixava lentamente o espeto. Pedi desculpas mais de uma vez e pergntei quem tinha feito isso com ela. Ela disse que foi o Anjo Gabriel. Não entendi, e ela explicou que foi um rapaz muito bom que a salvou de seu pai. Hoje sei que Gabriel era seu senhor, era um vampiro recém-criado e pouco mais velho do que ela, que a salvou de um pai molestador. Era apaixonado pela menina ou coisa assim.
É perfeitamente compreensível: do dia para a noite você se vê impossibilitado de ver o sol e tem de se alimentar de sangue. Descobre que essa condição será eterna e, finalmente, dentro de poucas semanas você se transforma em um monstro. Ninguém com dezesseis (ou vinte, ou trinta, ou cem!) anos tem condições de lidar com isso de forma madura. Marie e Gabriel foram destruídos, pois não tinham condições de respeitar a Máscara e existir como vampiros (há muito poucas crianças nessa faixa etária entre nós, embora algumas piadas-vivas de Abraçados até os cinco ou seis anos sejam figuras poderosas do Clã). Eu fui poupado, me foi dada a chance de tentar conviver entre os Nosferatu.
O Abraço foi terrível. Evidentemente, aquela menina-monstro queria casar comigo. Já não adiantava dizer que eu tinha esposa, alegar um argumento racional. Ela sabia que era “porque ela estava feia”. Avançou sobre mim com uma rapidez impressionante e em um instante aquele sem-fim de presas estava em meu pescoço. Ergueu-me como se eu fosse um frango e bebeu meu sangue com dificuldade, pois mesmo que tivesse força para erguer-me sobre ela, aquele arremedo de boca fazia com que desperdiçasse uma quantia de
vitae que hoje acredito ser preciosa.
Quando acordei, estava bebendo o sangue de seu pulso. O horror de estar com os lábios sobre aquela pele asquerosa não era nada comparado à sensação de sorver o precioso sangue. Antes que pudesse me fartar, ela simplesmente arrancou-me o seio simbólico do qual eu tiraria todo o meu sustento a partir de então.
O que se seguiu pode ser rapidamente descrito. O monstrinho me levou pelos esgotos, recebeu xingamentos de criaturas tão hediondas quanto ela, foi encarcerada por seus humildes irmãos de Clã e seria levada ao julgamento pelos vampiros da superfície. Eu estava atônito, catatônico, em choque, e pensava viver um pesadelo. Soube apenas muito tempo depois que minha jovem senhora havia morrido.

As semanas seguintes foram desoladoras. Foram as semanas da degeneração de meu corpo, da minha transformação em um Nosferatu. Evidentemente essa transformação não acaba nunca: cada dia que passa nos transforma um pouco mais em monstros, e alguns falam dos Matusaléns do Clã que já não possuem um arremedo de forma humana.
Meus cabelos caíram. Minha pele engrossou, tornou-se um couro torto e duro sobre meus ossos. Engordei e vi meus músculos crescerem sob a pele, disformes. Os nódulos de meus dedos eram mais de duas vezes mais grossos que as falanges e as unhas cresciam todos os dias, muito. Meus dentes caíram e logo foram substituídos por uma meia dúzia de presas tortas. Meu nariz e minhas orelhas também caíram, e o branco de meus olhos havia se tornado negro, como se meus olhos fossem apenas um negrume disforme. Tenho certeza que fiquei um pouco esverdeado também, embora no início pensasse que era apenas o limo e o mofo. Relutava em aceitar, e logo percebi que o uso de ternos ou vestidos era o que distinguía os Nosferatu: os de mente mais simples – antigos mendigos, bêbados e vagabundos – usavam farrapos, mantos pesados com capuzes, qualquer pedaço de pano que cobrisse seus corpos deformados. As pessoas que, como eu, tiveram educação razoável – ou pelo menos algum lampejo de inteligência e vida social – insistiam em viver um simulacro da antiga condição.
Alguns de meus irmãos bondosos me ensinaram rapidamente – para nossos padrões – o truque da invisibilidade. Mas foi preciso pelo menos meio ano para que eu tivesse coragem de subir à superfície novamente.
Lembro-me com nitidez da primeira noite em que escalei o caminho do subsolo para a superfície. Era uma noite deserta. Eu estava invisível para ninguém. Ouvi passos – nossos sentidos são infinitamente melhores do que os seus, embora minha falta de orelhas me dê uma pequena desvantagem sobe meus irmãos de Clã – e logo vi uma senhora com seus dois filhos. Crianças, que eu sempre detestara mas que agora desejava justamente porque não poderia mais ter. Eles passaram ao meu lado, indiferentes. Talvez tenham sentido um calafrio ao passar ao meu lado. O menininho, carregado pela mão da mãe, olhou direta e profundamente nos meus olhos. Talvez meu truque não o tivesse enganado, mas nunca sabemos quem são aqueles que nos vêem e quais tem a sorte de nos ignorar.
Você deve estar se perguntando: como eu me alimentava nos primeiros meses, sem sair do subsolo? Bem, pode ser uma novidade repulsiva para os seus sonhos com um vampiro de cinema, com gola rolê preta e cheirando à perfume, se eu lhe disser que praticamente toda nova Criança da Noite que surge, em qualquer Clã, passa quase inevitavelmente pela fase de tentar viver apenas do sangue dos cães, gatos e ratos. Esses últimos abundavam em meu lar, mas tive a oportunidade de beber do menos repulsivo sangue de pequenos filhotes de caes e gatos também. Certa noite meus irmãos deram uma festa: trouxeram um cavalo amarrado até o subsolo. Nos banqueteamos do animal. Eram mesmo criaturas muito bondosas esses meus irmãos: quando vi aquele cavalo relinchando em desespero, perguntei-me o que impedia que fizessem aquilo com um ser humano. Nada, exceto o desejo daqueles vampiros de permanecer humanos.
Na superfície, meu primeiro impulso foi o de visitar minha mulher. Vaguei invisível pela noite, incerto sobre cada olhar que se dirigia à minha figura invisível.

Convenhamos: eu era um monstro refinado. Usava um belo terno de linho, cinza, um blusão de lã de cor preta e sapatos de couro. Havia mesmo roubado, invisível, o chapéu de um senhor. Evidentemente essa produção não recuperaria minha esposa, e não passava de um escudo simbólico que eu erguera contra mim mesmo, sobretudo.
Quando cheguei à minha antiga casa, minha mulher ceava. Olhar para aquele saboroso pato era completamente indiferente. Contudo, estava tão perto de minha mulher, de seu pescoço branco, de seu cabelo liso, que podia sentir o aroma de sua vida pulsando dentro das veias. Era como se seu hálito estivesse impregnado pela essência de seu sangue, e esse aroma me excitava tanto quanto seu corpo o fazia outrora, embora de modo completamente diferente.
Eu havia infelizmente dominado a técnica da invisibilidade. Ela sequer sentia minha presença. Sentei-me, com todo o cuidado, ao seu lado. Deus sabe o quanto quis simplesmente falhar em permanecer invisível – porque desfazer o encanto não, isso era impossível! Não tinha coragem para tanto. Vê-la solitária, ceando sozinha, fazia-me pensar no quanto sentia minha falta. Queria dizer-lhe que estava ali, que não a havia abandonado, que estava vivo e ainda a amava. Eu não fazia idéia das notícias à meu respeito e queria ter forças para aparecer para ela e dizer-lhe: “É tudo mentira, estou aqui, estou vivo”. Contudo, já não podia imaginar o quanto de meu rosto monstruoso estava diferente daquele que ela assistia fazer a barba todas as manhãs.
Perdido em pensamentos, fui interrompido de minhas elucubrações quando ouvi passos. Em seguida, o som de sapatos sendo limpos no capacho. Um homem entrou na minha casa. Um homem de meia idade, meio calvo, cabelos grisalhos e com um imperceptível cheiro de perfume feminino. Minha mulher levantou da mesa e o recebeu com um caloroso beijo.
Meu sangue ferveu e eu me levantei de súbito. Pude ouvir e rir-me por dentro do sobressalto daquele cafajeste gorducho quando viu a cadeira cair sem nenhuma explicação. Sua mente não me via mas seu corpo parecia sentir minha presença. Digo isso porque seu coração entupido de gordura batia duas vezes mais rápido. O idiota suava, mas mulha mulher o sentou e o acalmou, sem entender aquele chilique. Trouxe-lhe água e enxugou a enorme testa daquele porco com um lenço branco. Logo em seguida o serviu de pato, tomates, e conversaram sobre trivialidades.
Nenhuma menção à mim. Nenhuma lembrança.
Passei o resto da noite invisível, seguindo-os silenciosamente. Quando se deitaram, vi aquele corpo asqueroso – infinitamente mais humano que o meu – dobrar-se como um elefante sobre minha adorável esposa, sobre minha mulher, tão macia. Minha única mulher. Assisti cada movimento daquele porco, seu rosto vermelho, o suor que escorria de suas faces e derramava-se sobre a lisura da pele branca de minha mulher. Em um urro surdo do animal, terminaram. Não levou três minutos para adormecer. Minha mulher permaneceu acordada, com o olhar perdido. Por pelo menos uma hora.
O búfalo dormira abraçado à minha esposa. Não podia matá-lo assim. Esperei pacientemente. Esperei seis noites da mesma forma, até o dia em que coloquei comprimidos diuréticos – invisivelmente roubados, claro –  em sua água. Quando ele levantou de madrugada para ir ao banheiro, golpeei sua cabeça com uma pedra pesada usada para calçar a porta do nosso quarto de casal. Segurei como pude o homem para que não fisesse um estardalhaço quando caísse. Deitei-o sobre a privada e enfiei meus dentes em seu pescoço. Era como se tivesse aberto uma represa: seu sangue jorrava na minha garganta e eu me sentia triplamente feliz: saboreva o sangue humano pela primeira vez, matava um ser humano pela primeira vez e não teria conseqüências legais por isso e, finalmente, matava o imundo que dormia com minha mulher.

Minha mulher foi insistente. Tive de matar outros quatro maridos antes dela decidir desistir do matrimônio. Fui eu quem, invisível, ligou para os médicos quando ela tentou se matar depois de ficar viúva pela quinta vez. Coitada jamais entendeu a razão de ter regurgitado os comprimidos, pois não tinha como me ver com o dedo em sua garganta, nem abrindo a chave para a entrada dos médicos. Só não acharam que era um suicídio encenado, para chamar a atenção, porque foi uma voz masculina que chamou o médico. Ela nunca entendeu.
Apenas quando minha mulher morreu, aos 89 anos (ficou solteira desde os 43), eu decidi conhecer os vampiros das outras famílias. Ir, pela primeira vez, no Elísio: o local onde os vampiros faziam suas festas.
É verdade que todos os vampiros competem, se odeiam e se apunhalam pelas costas diante da menor oportunidade. Mas isso também é verdade sobre os seres humanos. Contudo, é impressionante ver imortais de décadas inteiras tremerem quando vêem um Nosferatu pela primeira vez. Sujariam as calças, caso ainda tivessem urina.
Veja bem: me mudei para uma cidade de médio porte, que nunca admitiu muitos vampiros. De meu Clã só havia mais dois (quando falo dos Nosferatu me refiro à meus irmãos de Paris, Viena, Madrid ou Berlim) em Montpellier, e regressaram correndo para Paris quando cheguei, voltando a visitar a cidade apenas muito esporadicamente. Pelo que ouvi, os infelizes eram uma espécie de empregados dos vampiros da superfície. Eram de sangue ainda mais fraco que o meu. Percebi que minha presença causaria um deseqüilíbrio nas relações da Família (uma palavra genérica para descrever nossa raça vampírica como um todo) naquela cidade.
Eu era um homem refinado. Um ator. Escolhi como refúgio o sótão do Teatro na praça central! Houve quem protestasse, mas mesmo que fossem dez, vinte, cinqüenta anos mais velhos do que eu, aqueles vampiros enfiados em peles de onça e fumando charutos cubanos não se atreviam a me desafiar. Apenas o mais antigo vampiro de Montpellier parecia acostumado à ver os Nosferatu, mas ele já tinha pelo menos quatro séculos de existência. Não confundiria minha monstruosidade com poder. Ainda acho que pode ter a ver com o fato dele não ter cabelos, como eu.
Durante anos fui o estraga-prazeres das festas. Em minha presença, as conversas sobre a arte vampírica de fingir-se de humano tornavam-se extremamente tensas. Tinham medo que eu tivesse um ataque de ressentimento ao ouví-los sobre como se divertiam ao piano nos salões dos mortais ou como fingiam bem os orgasmos em suas camas. Eu me ria por dentro e lembrava-me das noites em Paris em que encontrei uns poucos como eu: Nosferatu civilizados. Brincavamos de assustar outros vampiros pelos esgotos da capital até que eles entrassem em Rötschreck – o risível estado de alma no qual a “fera interior” de um vampiro age como um animal acuado que foge com o rabo entre as pernas. Era divertidíssimo esperar uma jovem Toreador à passear pelas ruas, em seu vestido vermelho, e puxar-lhe pelas pernas, através das bocas de lobo, até ser engolida pelo esgoto. Mesmo que já tivesse visto um ou dois Nosferatu nos salões protegidos do Elísio, cair em um esgoto e ser cercada por uma dezena de meus irmãos é um pesadelo que nem saberia descrever! Se a visão de um Nosferatu me fez cair como uma mocinha no tapete da sala, acho que eu morreria ao ver dezenas de mim mesmo, como estou hoje, me cercando no esgoto.
Por décadas fui o único Nosferatu de Montpellier. Fiz tudo o que qualquer criança faria se tivesse o poder de ficar invisível. Entrei no banheiro das meninas, agredi pessoas de quem eu estava com raiva, roubei indiscriminadamente tudo o que quis. Hoje tenho um
laptop, e é a partir dele que escrevo estas linhas no sótão do teatro. Já não sou o único Nosferatu de Montpellier, mas a verdade é que embora meus irmãos de Clã sejam adoráveis, sua presença é quase sempre opressiva: são tolos, submissos, escolhidos entre pessoas que não eram nada e acham que ser um monstro – ser alguma coisa – é melhor do que isso. Não saio de Montpellier porque aqui sou poderoso, enquanto na capital seria mais um rato de esgoto. Tenho amigos entre os membros dos outros Clãs. Um Brujah, rebelde e anarquista, me respeita muito porque sou forte como ele. Era um jovem universitário gótico e imbecil, então não tem vontade de conversar comigo. O Príncipe da cidade é um cafajeste que tem sob seu domínio mental toda a aristocracia de Montpellier. Desconfio que eu ainda pense mais parecido com um ser humano do que ele e tenho medo de imaginar o que quatro séculos fariam comigo. Por mais irônico que pareça, foi com Isabelle, a perua do Clã Toreador, que tive as melhores conversas em Montpellier. Talvez porque tenha sido atriz, como eu. Parece compreender minha existência. E nunca consigo desaparecer para ela: suas capacidades sensitivas são sobrenaturalmente maiores do que minha capacidade de me ocultar.
Minha aparência continua piorando, mas já não tenho nojo de roer minhas unhas podres todas as noites, para mantê-las curtas.
Não tenho amigos no Clã, pois vivo isolado. Troco correspondência um um amigo Nosferatu de Paris que eventualmente me visita por aqui. Os vampiros de Montpellier ainda são jovens e humanos demais para resistir ao medo e ao desconforto que minha presença causa. Isso já não me incomoda tanto: são uns pobres tolos, e minha solidão é preferível à sua companhia. É evidente que as vezes eu gostaria de conversar com alguém. Às vezes, o faço: aprendi um truque que faz com que as pessoas me vejam sob a aparência de outro. Mas tão logo percebo que minha companhia é desejável apenas porque finjo ser outra pessoa, me enfado e volto ao sótão, onde desperdiço minha eternidade entre os livros. É mais fácil roubar livros do que quaisquer outras coisas, pois são ítens que não chamam a atenção e parecem não fazer muita falta. Tenho preferido ler filosofia do que literatura, pois desperdiçar horas lendo sobre situações humanas que jamais viverei não é saudável para o espírito e a filosofia parece ter sido escrita por pessoas que nunca foram muito humanas. E espero. Pelo dia em que poderei conversar com alguém que me compreenda e me aceite pelo que sou. Minto. Isso já não é mais uma esperança, mas a última mentira que criei para mim mesmo e que subsiste em minha alma. Claro, posso sempre recorrer à Paris e aos Nosferatu da capital. Mesmo assim sei que qualquer semelhança em nossas idéias será fruto não da livre reflexão, mas antes da força de nossa própria condição. Uma cumplicidade, uma irmandade que não passa de opção única à monstros como nós. É por esse motivo que não crio outro Nosferatu para me fazer companhia.
Eventualmente eu sou visto nas ruas de Montpellier, mesmo invisível. Uma criança que tinha um ataque de loucura inexplicável, um mendigo bêbado que começava a chorar e correr, um cachorro ladrando para o nada. Eu aprendi a controlar a invisibilidade, e sei aparecer para uma pessoa só se quiser. Assustar é divertido, mas confesso que mesmo depois de décadas, eu ainda posso chorar lágrimas de sangue e tristeza ao pensar nisso. Ao pensar que minha figura não pode causar senão o pânico, o desconforto. Talvez a tristeza esteja no sangue do qual me alimento, mas há dias, principalmente os dias de chuva, em que escolher entre ser invisível ou ser um monstro aparece para mim como a tragédia que é. Nestes dias, caminho até o esgoto de Montpellier e convenço meus pobres companheiros Nosferatu de Montpellier à encher a cara de sangue dos bêbados e assustar algumas pessoas pelas ruas da cidade. É tudo o que me resta.

O Nosferatu de Montpellier

PS: Nosferatu, segundo a Wikipedia, é “um sinônimo para vampiro largamente citado na literatura”. O personagem deste conto foi inspirado no livro Vampiro: A Máscara, de Mark Rein Hagen. Este nos apresenta o Nosferatu como um tipo de vampiro que, após a transformação, sofre terríveis mudanças físicas que o privam de uma aparência humana. Rein Hagen, por sua vez, inspirou-se no Nosferatu cinematográfico, que é um vampiro que, apesar de imortal, continua envelhecendo. O filme, finalmente, foi construído sobre o Dracula, famoso romance de Bram Stoker. O filme pode ser assistido na íntegra no You Tube, neste endereço: http://www.youtube.com/watch?v=hoTeq9h8cv4. O filme é de 1922, e é mudo. Há ainda um outro excelente filme sobre a película de 1922. Chama-se Shadow of the Vampire (A Sombra do Vampiro) e é de 2000, com Willem Dafoe no papel do Nosferatu/Max Schreck e John Malkovich no papel do diretor F. W. Murnau.

PS2: Dedico este conto à meu amigo João Batista Botton.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para O Nosferatu de Montpellier

  1. belo texto, imaginação legal com o tema. Parabens

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