Cut City & Joy Division

“Your life’s just pornography
recited from bad scripts”

O blog The Putz Factory, há pouco mais de um ano, publicou uma postagem entitulada “As crias do Joy Division“. No artigo, uma série de novas bandas são comparadas ao aclamado Joy Division e à um Interpol considerado, pelo jeito, firmado no cenário do indie rock.
Segundo o autor, há toda uma linha do indie rock que parece ser um subproduto do pós-punk do início dos anos 80. O autor cita o Interpol, mas também cita Editors, She Wants Revenge, Elefant, I Love You But I’ve Chosen Darkness, Cut City. E é aí que tenho que discordar.
É evidente que nos tempos de My Space e fones de ouvido é virtualmente impossível fazer música como a das bandas citadas acima e não ter, pelo menos, ouvido falar de Joy Division. Negar uma influência direta é aceitável, mas esquivar-se das comparações, como faz o Interpol, é completamente inútil e só faz fomentar ainda mais as próprias comparações, não importando o quanto a banda tenha desenvolvido elementos de sonoridade muito particulares.
Acho o Interpol uma banda excelente, mas sua sonoridade é mais pop que a do Joy Division, mais fácil de ouvir, e a voz do Paul Banks já encorpa três discos com o Interpol e um solo, o que dá uma obra maior que a do próprio Joy Division. O Editors é o subproduto inglês do Interpol, sem a mesma profundidade mas com um vocal impecável. O She Wants Revenge deveria ser antes comparado ao Sisters of Mercy do que ao Joy Division: o vocal grave de Justin Warfield parece com o de Ian Curtis mas também parece com o de Andrew Eldritch. O Elefant, em minha opinião, caiu de espaçonave nesta lista, e não joga no time do indie-rock-revival-of-post-punk. O Chosen Darkness tem um nome ridículo, uma capa ridícula para o primeiro álbum, mas canções poderosas, originais, bastante criativas. A ousadia de seu primeiro disco é admirável (1/4 do disco é instrumental) e eu considero sua música o mais autêntico revival do pós-punk, por assim dizer. Sem se prender à nenhum deus caído do panteão que dominava o início dos anos 80. Ouví-los é simplesmente se teletransportar para aquele período, e o termo indie só é aplicável à eles por falta de um melhor.
O Cut City é o caso especial.
Quando consultamos a sabedoria do Last FM, descobrimos que o Cut City é, desse time, a banda mais desconhecida. Quando escutamos atentamente percebemos que a produção tosca indica realmente uma provável falta de recursos. Contudo, quando ouvimos atentamente o som dos caras – com uma escuta histórica, por assim dizer – a semelhança com Joy Division aparece. E é gritante.
A voz do Paul Banks parece a do Ian Curtis, mas sem o desespero e a produção tosca do Joy Division (que era certamente pior mesmo do que a do Cut City). O Tom Smith do Editors possui uma voz fluída, limpa e parece indicar um estudo de canto. A de Justin Warfield é carregada e cheia de estilo e a de Christian Goyer, do Chosen Darkness, sequer parece com a de Ian Curtis. O timbre do vocalista do Cut City não se parece tanto com o de Ian Curtis. Mas não é muito diferente. E, o que é mais importante, a métrica e o ritmo de seus versos são muito, muito semelhantes à metrica e o ritmo dos versos de Ian Curtis à frente do Joy Division.
E a sonoridade também. Ouça-se os dois discos do Cut City – Exit Decades (Decades, nome de uma canção do Joy Division) e Narcissus Can Wait – e atente-se à canções como “Antecipation”, “Numb Boys” e “Ulyssian Widow”, “Departure in Particular”. Será que o baixo e a guitarra soam tão parecidos com Joy Division por causa de uma mixagem tosca e uma produção sem muitos recursos? Improvável. Seria coincidência demais.
Querer comparar as letras das canções do Cut City com aquela poética espontânea e original que permeia de uma atmosfera gótica o som quase punk do Joy Division é pecar por exagero, sem dúvida. Mas a temática não dista muito daquela presente nas letras de Ian Curtis: desgosto amoroso, angústia existencial, desordem mental e psicológica, fracasso, solidão e desajuste. Tudo isso ao som de um baixo pulsante, versos metralhados com poucas – mas suficientes – vogais esticadas, uma bateria nervosíssima e uma guitarra esparsa que às vezes soa atmosférica como um shoegaze. Não raro ouve-se teclados em pares de notas convulsivamente repetitivas. “My Hands Are Bloody” é praticamente um quase-shoegaze. “Xo Echo” flerta com alguma coisa de um Interpol já firmado na cena musical, em sua “Next Exit”, mas um esforço pode perceber uma sonoridade parecia com a de “Atmosphere”, uma das mais belas canções da banda de Ian Curtis.
Se algumas canções merecem destaque especial, chamo a atenção para “Just Pornography” e “Manoeuvres”, do Exit Decades. A primeira é uma canção quase triste, com uma letra plena de mágoa, ressentimento e saudade ao som de uma guitarra barulhenta, atmosférica e melancólica. A segunda é uma explosão de tensão que já inicia em êxtase e a letra só não é digna do Joy Division porque provavelmente é preciso sofrer de uma grave perturbação mental para conseguir escrever poesia existencialista como a de Curtis. Mesmo assim, alguns versos das canções da banda (“Some proposal – you’re not welcome here”, “I’ve got the devil by my bedside”, “I’ve got deserters as companions”, “I need the battles to stay in place” ou a letra inteira de Numb Boys) revelam um talento poético que, aliado à estética e a sonoridade de suas canções, não justifica as poucas audições do Last FM senão por uma capacidade muito limitada de publicidade.
Diz-se por aí que o Cut City só apareceu quando, na iminência do lançamento do terceiro álbum do Interpol – Our Love to Admire – a canção “Like Ashes, Like Millions” do Cut City vazou na rede sendo de suposta autoria do Interpol (o que parece ter ocorrido com o álbum inteiro). Em uma dimensão midiática e publicitária isso já denota a posição firme ocupada pelo Interpol na cena musical e o absurdo de uma comparação à uma pobre banda australiana que não teve uma fração dessas audições em um Last FM (onde o Interpol é quase tão ouvido quanto um terrível, mas já consagrado, Oasis). Mesmo assim, acho que uma vez afastada a confusão que pode causar a referência aos antigos deuses punk-góticos dos anos 80 feita à granel pela crítica que não ouve os discos e fala coisas precipitadas, é possível criar uma ponte direta entre o Cut City e o Joy Division mais do que se possa fazer com qualquer outra dessas bandas novas.
Deixo vocês com um vídeo que faz o contrário. Até porque não é um vídeo, mas uma dessas canções enviadas para o You Tube com uma imagem de fundo. E o que é a imagem senão a capa de um dos singles… do Interpol? De qualquer modo, isso já mostra que a banda de Nova Iorque já tem envergadura para ancorar referências à sua sonoridade – até porque se a sabedoria do Last FM conta para alguma coisa, ouve-se mais do dobro de Interpol do que de Joy Division ultimamente, o que faz algum sentido visto que a banda de Manchester já está morta, como seu vocalista, há quase 30 anos. E o Interpol promete o quarto disco para o final de 2009 (embora Paul Banks já tenha nos agraciado com seu interessantíssimo disco solo há poucas semanas).
Altamente recomendável.

Cut City no My Space.
Cut City no Last FM.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Cut City & Joy Division

  1. alcimar disse:

    cara, ouvi hoje. Sou fã de Interpol e gostei bastante.

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