Quatro olhares sobre a coisa filosófica

Dias atrás, adquiri um livro chamado Filosofia Contemporânea em Ação.  É um livro de filosofia absolutamente distinto dos livros que tradicionalmente leio, pois é uma coletânea de artigos esritos por escritores de lingua inglesa. Comprei obedecendo um impulso nascido de um conselho que o professor Ronai Rocha me deu há algum tempo, quando eu disse que estava lendo Sartre: ler autores de língua inglesa para me prevenir do vício comum de colocar antolhos em si mesmo. Comum àqueles que se ocupam de filosofia e que acabam lendo apenas autores de uma mesma família. E até agora não me arrependi. O livro realmente parece uma espécie de jornal filosófico com o intuito de atualizar aquele que se ocupa disso que se chama filosofia, apresentando o “estado da arte” de algumas discussões, bem como algumas reflexões pertinentes de alguns dos principais expoentes vivos da tradição anglo-saxônica.
Na introdução do livro, Simon Blackburn (um gigante vivo de Cambridge) já nos apresenta um problema que é de profundo interesse do profissional em filosofia: qual é o estatuto contemporâneo da filosofia? Como definí-la? O que se pode chamar de filosofia hoje? Blackburn, como um bom filósofo, não nos oferece uma fórmula mágica, mas reflete sobre quatro orientações que parecem comuns àqueles que tentam inútil-mas-necessariamente definir essa coisa filosófica. Eis aqui as quatro perspectivas – rebatizadas por mim – que Blackburn julga majoritárias na hora em que o profissional e a própria cultura parecem tentar definir filosofia. Bem como um pequeno problema que parece, na visão de Blackburn, intrínseco à cada uma dessas perspectivas.

Perspectiva do texto filosófico: Filosofia é aquilo que está presente em A República de Platão, nas Meditações de Descartes, na Crítica da Razão Pura. Filosofia é aquilo que o filósofo escreve.
Problema: Como definir criteriosamente qual texto é e qual texto não é filosófico?

Perspectiva essencialista: Filosofia é aquilo que é definido como filosofia, segundo critérios estanques, sólidos e que permitam o varrimento do não-filosófico para fora dos limites filosóficos.
Problema: Dificilmente os filósofos concordarão com as definições de filosofia uns dos outros.

Perspectiva institucionalista: Filosofia é uma profissão e sua natureza seria definida pela produção filosófica dos profissionais de filosofia nas universidades.
Problema: Se filosofia é o que fazem os filósofos nas universidades, a questão apenas muda de lugar, pois é preciso decidir a natureza daquilo que faz o profissional de filosofia.

Perspectiva do olhar: Qualquer coisa pode ser filosófica, desde que um determinado sujeito vise filosoficamente algum objeto. Assim, a filosofia é antes uma certa atitude de reflexão, uma certa maneira de se conduzir diante de objetos que em si mesmos não teriam nada de intrinsecamente filosóficos.
Problema: É preciso definir exatamente o que distingue o olhar filosófico de outros olhares e o que distinguiria uma leitura por entretenimento de uma leitura científica ou filosófica.

Blackburn também explora, nessa breve introdução, um aspecto muito triste dessa nossa coisa filosófica em comparação com a ciência. Pois existe em teoria da ciência uma coisa que Blackburn chama de “metaindução pessimista”, que é a mentalidade científica de valorizar o processo deconstrução do conhecimento ao invés de seus produtos, mentalidade derivada da quase-certeza de que a ciência se movimenta e se substitui dentro de uma perspectiva de progresso. Com a filosofia isso definitivamente não acontece pois Hume, por exemplo, não representa um progresso em relação à Descartes, mas sua completa destruição.
O compromisso da filosofia para com a Verdade também passa pelo crivo da reflexão de Blackburn. Para ele, não faz sentido em pretender que esse compromisso não passe do status de um leve flerte. Sem se demorar, Blackburn revela que é da opinião de que a filosofia tem sim um compromisso com a verdade.
Mais coisas relevantes são ditas nessa breve introdução, mas são trechos tão memoráveis que reservarei um espaço futuro apenas para eles. Por hora, gostaria de comentar qualquer coisa sobre essas quatro perspectivas que Blackburn aponta.

Em primeiro lugar – e penso que Blackburn não me deixaria mentir sozinho – acho que todas são teorias essencialistas, por razões de uma lógica conteitual, por assim dizer. Seja a coisa misteriosa que jaz lasciva à espera de um exame esotérico em um texto milenar, seja a papelada que jorra das impressoras nas universidades ou seja um etéreo e silencioso olhar abençoado de filosofia, qualquer uma dessas perspectivas será essencialista, pois a filosofia será algo definido: “texto antigo”, “texto novo” ou “olhar”.
Com isso apenas quero dizer que qualquer definição de filosofia será sempre essencialista e o problema intrínseco à essa perspectiva é o fato inescapável de que os filósofos que debatem filosoficamente poderão, muito perigosa e provavelmente, estar debatendo sobre duas coisas que não são a mesma coisa. Se há um problema à definir, esse é o problema que penso que deva ser enfrentado: definir o espaço onde se dá o pensamento  filosófico à despeito de suas querelas sobre a natureza desse espaço. No fundo é um essencialismo excessivamente otimista de minha parte, tenho certeza. Mas também tenho certeza de que, afinal, esse espaço existe.
Quanto às outras três perspectivas, penso que esteja inclinado à concordar com a perspectiva do olhar. Como sartreano subvertido pela idéia de liberdade, acho que filosofia é uma certa atitude filosófica. A querela sobre a natureza da filosofia inclusive, em minha opinião, revela a liberdade com a qual esses critérios definidores da essência da filosofia são “livremente” escolhidos. Assim, uma vez dadas as regras do jogo filosófico, a filosofia se produzirá.
A única baliza que Blackburn aponta nessa introdução – o compromisso com a verdade – vive uma história que me encanta: sim, a filosofia parece ser comprometida com a verdade desde que nasceu, mas vive com ela uma relação de amor e ódio. Já a negou, já a exaltou, já a transformou em outras coisas e a liberdade de fazer com a verdade o que se bem entenda é tão encantadora quanto assustadora e, em minha opinião, é o coração do problema: que a razão seja livre para ditar suas leis, isto é verdadeiro? Pois a liberdade da razão não pode significar onipotência, pois a onipotência é um problema lógico de tal ordem que não resiste à exames refinados. Balizas precisam existir para que a filosofia não possa ser qualquer coisa – que certamente seria sinônimo de ser coisa nenhuma.
Porque eu prefiro a perspectiva do olhar filosófico, então? Por uma razão muito simples: sejam os velhos papiros, sejam as novas folhas de papel branco impressas em máquinas à laser, a filosofia só imprime seu discurso sobre o que quer que seja depois de uma visada filosófica (aqui, geralmente sou interceptado por alguém dizendo que tive uma “educação excessivamente fenomenológica”), depois de um olhar filosófico de uma pessoa humana. O argumento é simplista, simplório, mas acho que pode se defender de alguns ataques. Vejamos:
Blackburn fala que falta, à nossa epoca, um estímulo filosófico historicamente considerado, como foi a tentativa de conciliar a teologia cristã e a teoria do conhecimento de Aristóteles, ou alternativamente a crise do paradigma moderno e a evolução da ciência. Aponta para o fato de que talvez nosso problema análogo seja a questão da insustentabilidade de nossas relações econômicas do modo que são pensadas e realizadas.
Gosto do palpite dele porque revela justamente a liberdade de visar um objeto como filosoficamente pensável. É óbvio que a crise do sistema econômico é um evento de proporções globais, cujas conseqüências atingem direta ou indiretamente todo ser vivente sobre o globo e ameaçam nossa subsistência. Contudo, o fato de um evento ser o protagonista do palco da história e uma ameaça à nossa subsistência no globo não o torna per si um objeto filosoficamente relevante. Penso que exigir da filosofia um compromisso com a nossa história, subsistência e/ou bem-estar é uma, e não a perspectiva filosófica, pois a filosofia talvez seja um certo modo de exercitar a razão, visar um objeto, e talvez apenas isso. Talvez seja apropriado dizer que a idéia de que a filosofia tem um compromisso social e/ou humano constitua filosofias “socialistas” ou “humanistas” (faço uso inapropriado e diferenciado das expressões aqui) mas a filosofia não precisa ser nem “socialista”, nem “humanista”. Tampouco “historicista”: preciso pensar sobre a crise do sistema capitalista? Se me debruçar sobre filosofia da matemática certamente estarei fazendo filosofia.
Estou abusando das palavras de Blackburn, bem sei, mas apenas para tentar pensar como um cidadão cosmopolita de um ocidente liberal, um cidadão que leu filosofia velha (e nova), que pode produzir filosofia nova mas que para isso precisa visar filosoficamente algum problema.
Não quero negar o potencial “socialista-humanista” da filosofia, e o bem que ela pode fazer para a humanidade, para as crianças, para a natureza, etc. Nada disso. Apenas tento aqui justificar a idéia de que a filosofia é, como atitude de olhar diferenciado, um exercício da liberdade humana.
Mas é um exercício cuja natureza eu não poderia e não pretendo definir, mesmo achando que alguma definição é tão possível quanto necessária, e mesmo achando que alguma definição nunca será definição suficiente.

Fragonard - The Reader

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Quatro olhares sobre a coisa filosófica

  1. ronairocha disse:

    Bravo!

  2. Victor disse:

    Bom vê-lo por aqui, professor.

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