Lorelei

“Você sabe do que os sonhos são feitos, Lorelei?”
“Do que sonhos são feitos? Ora, sonhos são apenas… Sonhos.”
“Não. Pessoas pensam que sonhos não são reais porque não são feitos de matéria, de partículas. Sonhos são reais. Mas são feitos de perspectivas, de imagens, de memórias e trocadilhos, de esperanças perdidas. Nós podemos transformá-los em ‘matéria’, Lorelei. Porque, de qualquer maneira, eles precisam se traduzir para nós em formas que podemos reconhecer neste mundo.”
“E como isso seria possível?”
“Simples. A partir de um sonho que já esteja aqui, neste mundo.”
Aquela conversa parecia demasiadamente absurda para Lorelei, mesmo em se tratando daquele seu amigo tão especial. Irritava-lhe profundamente que o olhar dele jamais repousasse sobre ela, que ele lhe falasse como se falar com ela jamais fosse digno de sua completa atenção. Naquela noite, tinha pelo menos o pretexto do palco. A banda se apresentava e Lorelei observava com preocupação os vários amigos de seu amigo imóveis como estátuas, observando a banda executar suas canções. Fruiam do espetáculo certamente, mas de uma maneira mais profunda e completamente diferenciada das pessoas que se acotovelavam na multidão no interesse de perderem a si mesmas na massa disforme da coletividade. Seu amigo – e os amigos de seu amigo – em sua imobilidade de estátua, pareciam ter mil anos de idade e a cansada certeza de que o desejo de comunhão e dissolução poderia constituir o sentido da vida de milhões de pessoas, e ser buscado através dos mais infinitos caminhos, mas que certamente – era esse o significado daquele incisivo e profundamente melancólico olhar – estava fadado ao malogro.
Olhava-o, com certa lascívia. Seus cabelos lisos e negríssimos caiam como uma cascata por seu rosto, em finíssimas mechas, depois de erguerem-se ao máximo do centro da cabeça, como uma fonte que jorra delicadíssimos tentáculos de sombra. Seus olhos, pintados de negro assim como suas unhas, combinavam em contraste com a palidez de sua pele lisa e alva, sem nenhum sinal ou mancha, perfeitamente delineada em traços andróginos e angelicais. A seda negra da camisa contornava seu corpo magro e rijo – mas seu olhar estava perdido, desde o princípio.
Lorelei sentia uma ponta de ódio: o que ele ousava esconder atrás daquela franja que cascateava frente à seus olhos? Qual era a substância daquele cansaço infinito expresso no olhar? Olhar que era o olhar de um espectador da vida convicto da impossibilidade de partilhá-la. Mas por quê? Certamente ele não falaria com Lorelei sobre essas coisas. Falar de si era como trair os seus – àqueles com os quais era possível dialogar sem palavras, apenas com olhares.
Os acordes pareciam ecoavar em paredes invisíveis preenchendo o ambiente e Lorelei tentava dissipar sua raiva e seu desejo – uma só e única coisa – pelo idiota que tantas vezes à tomara nos braços (quando bem quis, por assim dizer, embora não fosse privilégio dele) e que recusava-se à partilhar da própria alma sob o (agora visto como) falacioso argumento de que a comunhão existe para ser desejada mas nunca atingida, que é uma realização impossível. Lorelei olhava para outros rostos e corpos, encobertos por roupas pesadas: casacos longos, cachecóis, bonés, tudo para disfarçar o frio (a coletividade que supostamente dissiparia a angústia da solidão humana não era sequer capaz de amenizar o frio da noite). Lorelei admirava alguns rostos e corpos, e confirmava sua teoria de que pessoas bonitas tendem a gostar de coisas bonitas, e vice-versa (coisas bonitas são alvo do interesse de pessoas bonitas). Tinha vontade de abandonar seu amigo com aquele vinho barato naquela mesa e atirar-se na mulditão, tentar fechar os olhos para o fracasso intrínseco à uma alegria que é antes de tudo uma opção – e não alegria verdadeira, portanto. Mas resistia, e disfarçava seu desejo-sem-objeto, seu desejo livre por qualquer objeto, dando preferência à possibilidade de dividir a noite com aquele de quem ainda roubaria a alma.
O amigo acendeu um cigarro, para dividir com ela. Ficava ainda mais belo fumando, e agora a olhava. Mas Lorelei irritava-se profundamente, novamente: sentia como se fosse um pedaço de carne (mesmo enrolada em uma jaqueta e com um cachecol protegendo seu delicadíssimo pescoço do ar frio). Era seu corpo que seu amigo desejava. Tudo bem, não necessariamente. Aquele anjo da morte era refinado (ou excêntrico), e seu desejo repousava sobre aspectos inusitados: um olhar, uma preferência musical, um modo de falar, sua maneira de mover as mãos ou o formato das calças que ela vestia. Sentia que agradava ao bom-gosto de seu amigo, mas que de fato seus sentimentos passavam ao largo do interesse dele. Por um instante se distraiu, e sentiu o coração palpitar por um leve susto que teve ao notar o corpo do amigo finalmente inclinado sobre a pequena mesa e um dedo, um dedo magro e gelado sobre seus lábios. Involuntariamente sorriu, pois sua alma ainda era feita de amor pelo anjo da morte. Um amor simples e que não se depositava sobre ele, um amor que escorregava. Um amor que para poder viver, ela tinha de ceder parte de si, tentar pensar diferente.
Ele acariciou, com os dedos frios, a face morna e rosada de Lorelei. A garota não tivera vivências que lhe exigissem o hábito de refrear, policiar ou refletir constantemente sobre a dimensão de seu sentir. Nem tampouco teria razões para pensar sobre outras possibilidades de reação do que aquela via comum de agir segundo o sentimento, usando a dimensão do sentir (sentimental ou sensual) como justificativa e fundamento do que quer que fizesse. Assim, não resistiu ao delicado calor que nascia em seu coração, quando os dedos frios roçavam a pele morna de sua face, junto com o impulso de agradá-lo. Assim também, mesmo achando ridícula e surreal a conversa sobre sonhos, decidiu revivê-la para bem de dividir a periferia de sua alma com seu amigo.
“Eu ainda não entendi. Como um sonho poderia estar aqui?”
“Como é que eu estou aqui, Lorelei?”
“Como assim? Você está aqui, eu estou aqui…”, roçou seu rosto, como um felino, na mão carinhosa de seu amigo. “Sua mão está em meu rosto. Isso é real.”
“Não necessariamente, meu amor.” Ele a chamava de meu amor, e isso a irritaria se seus dedos gelados não tivessem feito nascer no coração de Lorelei uma abertura para a ternura do momento. “Eu estou aqui, mas você ainda não chegou.”
“Como? Onde eu não cheguei?”.
“Aqui.”
“Eu estou aqui.”
“Não está. Quando você vier à mim, virá para me destruir…”.
O rapaz beijou os dedos de Lorelei e sorriu. Lorelei ouviu uma explosão e viu o palco e o equipamento sonoro arder em chamas enquanto a multidão, centenas de pessoas, batia em retirada. Nenhum dos amigos de seu amigo estava mais ali, e a garota ficou assustada com o incêndio.
O rapaz recostou-se à cadeira novamente e pegou seu copo de vinho. Lorelei se levantou, assustada com o incêndio e a possibilidade deste se alastrar. O rapaz, recostado à cadeira, sorria. Isso a assustava ainda mais. De costas, dirigiu-se até seu carro. Pode ouví-lo ainda dizer “Não fuja, estamos envoltos pelo fogo sagrado!”. Entrou no carro e assustada, dirigiu apressada até sua casa. Teve uma noite insone, e não se lembrava como o rapaz poderia ter ido parar sob seus lençois brancos. A janela aberta e a cortina branca balançando sob a luz azulada da lua não poderia ser uma explicação, pois eram muitos metros até o chão, era impossível entrar pela janela. Enfim, depois de constatar que a porta de seu quarto estava chaveada e que a chave não estava na porta, deitou-se novamente. Talvez Lorelei passasse a noite inteira olhando para o teto, assustada, mas seu amigo a envolveu, abraçando-a por trás e fazendo seu sono ser mais doce do que o de uma criança. Aquele abraço era suficiente para fazê-la esquecer da própria solidão.

Sandman e a Morte

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Lorelei

  1. quemsera disse:

    Vc sabe do que os sonhos são feitos, Lorelei?
    seu melhor escrito, com certeza.
    quem é tão denso como um sonho pode ver bem os detalhes ontológicos nos olhares de Lorelei… as remissões à totalidade da multidão imbecil… tão imbecil que tb é ontológica.. faz parte do próprio ser.. e será mesmo somente em sonho que se tem um mundo privado? e a solidão além de qualquer situção, portanto aquém de qualquer pessoa, não passa de um sonho?
    bom… se for isso, com certeza é um pesadelo… mas como o que é necessário é simplesmente para além do bem e do mal, que caia o céu sobre a terra…

  2. Victor disse:

    E que caia logo, nesse caso.

    Confesso uma pontinha de David Lynch atrás da Lorelei. Mas só na forma. A substância é existencial – visto o pesadelo que tu diagnosticou e conhece bem.

    Ainda vou queimar a coletividade imbecil muitas vezes em meus escritos. É meu jeito de salvá-la.

    Valeu pelo elogio. Vindo de ti vale dez vezes.

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