Os anjos de Wim Wenders

Há quatro anos atrás me deparei com a obra de Wim Wenders por sugestão do professor Albertinho Gallina, do curso de filosofia da UFSM. Na época o filme Tão Longe, Tão Perto não causou em mim nenhuma impressão muito especial. Tive o prazer de reassistí-lo e descobrir no filme uma das obras mais poéticas já realizadas na sétima arte.
Com o par Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin/Wings of Desire) e Tão Longe, Tão Perto (In weiter Ferne, so nah!/Faraway, So Close!), Wim Wenders nos apresenta uma releitura do mito judaico-cristão da criatura angelical. Os anjos de Wim Wenders são mensageiros, segundo eles próprios. Mas a impotência dessas criaturas beira o trágico desde que, na medida em que a humanidade acordou para o Tempo e para a História, sua compreensão do mundo encerrou cada vez mais a dimensão angelical à um quase exílio de contato com a humanidade. Damiel, Cassiel e Rafaela – os anjos apresentados nos filmes – apresentam um modelo de anjo absolutamente terno e sensível, com a habilidade de escutar os pensamentos dos mortais e, no máximo, influenciar invisivelmente as emoções humanas, nunca suas decisões. Assim, os anjos de Wim Wenders não podem salvar as pessoas do fracasso, da frustração, do esquecimento de si, da imoralidade ou do suicídio. São anjos que assistem invisivelmente e em agonia enquanto as lideranças nazistas deliberam sobre a guerra. Anjos que se encantam com cada fluxo de consciência humano e com a humana capacidade de depositar interesse em pequenas trivialidades. São anjos que, acima de tudo, desejam experimentar a perspectiva e a experiência humana – são tão antigos que precedem a linguagem, a história e a própria idéia de tempo. O desdobramento da condição humana na história tornou a humanidade estranhamente encantadora para os anjos.
Ambos os filmes são esteticamente impecáveis. Wenders utiliza a variação entre o colorido e o preto-e-branco para situar o foco da narrativa nos humanos ou nos anjos: anjos não parecem ter experiências sensíveis; assim é comovente assistir o encantamento de um anjo pelo vislumbre das cores ou pelo sabor de um café no primeiro instante de sua existência humana. Sim, pois o enredo de ambos os filmes é a jornada interior dos anjos que decidem, em algum momento, embarcar no trem da história e participar da experiência humana sobre a terra.
No Asas do Desejo, de 1987, assistimos Damiel e seu encantamento por uma mulher humana. Uma trapezista que, em cenas de extrema sensibilidade, se parece mais com um anjo do que ele próprio, ao fazer seu corpo dançar pelos ares com extrema destreza e graça. Nem tudo são flores: a moça vive uma angústia interior e um clima existencial se instala quando Damiel acompanha o fluxo de consciência da trapezista em suas reflexões sobre a própria vida. Em uma delicada e ao mesmo tempo apoteótica cena ao final do filme, Damiel se apresentará para a trapezista: sim, Damiel terá se tornado humano no interesse de partilhar sua existência com a moça. O diálogo – como o texto inteiro do filme – é extremamente poético e transita em um discurso quase sempre referente à estruturas e categorias muito fundamentais da condição humana, como “sentido da vida”, “escolha” e “destino”. Isso para não mencionar o fato de que esse encontro se dá em uma brilhante apresentação de Nick Cave & The Bad Seeds que, aliás, são responsáveis por pelo menos três canções da trilha sonora do filme.
Em Tão Longe, Tão Perto, de 1993, assistimos o companheiro de Damiel, Cassiel, em sua não tão bem-aventurada jornada de experimentação da condição humana. Ao se tornar mortal quase que por acidente, Cassiel queda em um caminho de degeneração e se tornaria um bêbado e vagabundo se o destino – ou o acaso – não fizesse com que Lou Reed (sim, o próprio interpretando a si mesmo no filme!) não desse uma gorda esmola à Cassiel que, inspirado pelos versos de Lou Reed em Why Can’t I be Good (mais uma belíssimo show incorporado ao cinema por Wenders), decide ser um bom homem. Infelizmente Cassiel descobrirá tarde demais que seu benfeitor-empregador era, na verdade, um traficante de cinema pornô e armas de fogo. A participação de um brilhante Willem Dafoe no papel de uma misteriosa figura capaz de controlar o tempo é central para a história e responsável por transformar a redenção de Cassiel em puro fracasso. A belíssima Nastassja Kinski acompanha Cassiel em sua jornada, mas do outro lado: permanecendo em sua condição angelical, Rafaela assiste com preocupação, alegria e tristeza a queda, a ascensão e a morte de Cassiel – absolutamente pretendida e engendrada pelo misterioso personagem de Willem Dafoe.
A técnica cinematográfica de Wim Wenders ao utilizar anjos como personagens principais é talvez uma das mais bem sucedidas tentativas de visualizar a realidade humana “de fora” na história do cinema. Através do preto-e-branco – elemento cinematográfico utilizado para aludir a incapacidade sensorial dos anjos – sabemos quando e como devemos olhar as situações humanas pelo que são. Algumas análises apontam para elementos políticos nas películas de Wenders, mas me parece que a preocupação central do diretor é a de expor algumas possibilidades essencialmente existenciais à luz do projetor e, através dos olhos de figuras que não partilham da condiçao humana, ilustrar algumas nuances preciosas dessa condição, nuances que inevitavelmente se perdem àqueles que movimentam-se dentro dela.
É interessante observar que o filme Cidade dos Anjos, com Nicholas Cage, é um remake de Asas do Desejo. Contudo – e aqui sou obrigado a reproduzir a crítica comum – mesmo Nicholas Cage não e capaz de salvar o filme se o compararmos com a obra de Wenders: a profundidade e a inteligência do texto e a sensibilidade estética de Wenders são completamente perdidas no filme com Cage e Meg Ryan, onde recebemos em troca um romançola hollywoodiano sonorizado pela fraquíssima música do Goo Goo Dolls.
Em suma, sobre os anjos de Wim Wenders: Altamente recomendáveis.

Olhe o passarinho

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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4 respostas para Os anjos de Wim Wenders

  1. Victor, lembrava desse filme uma noite dessas, Asas do Desejo (Tão Longe, Tão Perto está no meu pc, mas não assisti ainda) mas não tinha aprendido que os anjos são capazes de influenciar as emoções e não as decisões, perfeita observação; e você fez eu lembrar que as cenas de diálogo à beira do muro são a prova de que eles precedem tudo e – um deles – decide participar da história; não precisa ser anjo para ver uma evolução de seres tão pequenos e angustiados.

    PS: Só uma informação, o último filme do Wim Wenders não é uma pérola da sensibilidade (embora seja uma homenagem ao Bergman e ao Antonioni, que justificam a personagem morte e o protagonista fotógrafo), Palermo Shotting perde algo por ser contemporâneo e fútil; mas a informação é que o Lou Reed também dá o ar da sua graça melancólica [ http://www.imdb.com/title/tt1008017/%5D

  2. Victor disse:

    Valeu por me indicar o que não devo assistir, Vinícius. Comecei com o Wim Wenders por seus anjos, e pretendo assistir ao “Paris, Texas”. E, claro, ao “Buena Vista Social Clube”. Não em breve, mas um dia.

    Percebi que eles não influenciam as decisões na cena do suicídio. Percebi que as emoções não determinam as decisões lendo o maldito francês vesgo. =)

  3. Tereza Melo disse:

    Asas do Desejo e Tão longe, tão perto foi dois filmes muito impactantes para mim.

  4. Tereza Melo disse:

    corrigindo: foram dois filmes…

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