Simon Blackburn fala…

… E eu abaixo as orelhas.

“Assim como outrora os campi universitários estavam cheios de professores bem-pagos de meia-idade que se identificavam com o terceiro mundo ou com o proletariado, agora estão cheios de filósofos que carregam pilhas de textos sobre física quântica e biologia na esperança de que suas habilidades como animadores de torcida disfarçarão o fato de que eles próprios não fazem mais ciência, e tampouco oferecem interpretações necessariamente mais perspícuas da ciência do que aquelas que escritores e jornalistas da ciência conseguem obter por conta própria (será que o problema mente-corpo de fato progrediu muito desde a época de Leibniz?).”

“Os filósofos, tanto os supostamente leais à tradição “analítica” quanto à “continental”, celebram diferenças, flertam com o relativismo, mostram desdém pela autoridade da experiência, negam a autonimia da razão, duvidam do conceito de progresso, desmerecem a objetividade e relegam a verdade a um nada etéreo. No lugar da razão temos a persuasão, e no lugar do conhecimento temos o consenso. Desse modo, nossa época substituiu a autoridade civilizada da razão pelo brutal pragmatismo da vantagem. Seus pensadores são, portanto, pouco melhores do que seus políticos, e certamente incapazes de fornecer um conjunto de instrumentos que justifiquem, mesmo se apenas para nossa própria satisfação, o modo de vida científico e secular que sem dúvida preferiríamos que fosse adotado por todos.”

“Será que deveríamos achar isso tudo deprimente? Eu diria que não. Pode não haver uma palavra final em filosofia, mas tampouco há uma palavra final em teatro ou literatura. Ninguém lamenta a falta de “progresso” em peças de teatro ou romances. As pessoas os reconhecem como respostas ao que se sobressai junto aos homens e às mulheres de suas épocas e lugares, e à medida que estas mudam, aquelas também. Tampouco é suficiente proclamar que a filosofia, ms não as peças de teatro e os romances, almeja à verdade. Pois quando estamos lidando com arte ou literatura, e não apenas com entretenimento, julgo que isso é falso. Uma obra séria de ficção almeja à verdade sobre o que importa. Não seria um insulto à filosofia se descobrissemos que ela vai indo tão bem quanto Shakespeare.”

In Prefácio de Filosofia Contemporânea em Ação, por Simon Blackburn.

Relógio Astronômico de Praga

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Simon Blackburn fala…

  1. JoãoB disse:

    Opa! temo que eu concorde com Mr. Blackburn, ou pelo menos me sinta incapaz de “erguer as orelhas”. Pensso que renunciar à pretensão de objetividade não é nescessariamente mal se for pela implosão da esrutura sujeito-objeto – viva a hermenêutica – afinal, a propria cientificidade da ciencia anda a muito tempo meio baleada. O que espanta é um figurão la de Oxford dizer isso. Espanta mas agrada!

  2. Victor disse:

    Seria um “romantismo” (Gerd Bornheim detesta esse uso da expressão “romantismo”, e prefere restringí-la ao uso histórico, mas azar o meu) flertar com a objetividade? Filosofia é conversa mole? Ou, pelo menos, conversa dura? E filosofia boa é conversa que sabe que é conversa?

    O Blackburn me pareceu romântico nestas passagens. A última até pode alinhar filosofia e arte na esperança de salvar a filosofia, mas me parece uma solução do tipo: “O que não tem remédio, remediado está”.

    Mas concordo: espanta-e-agrada ver um “Analítico Romântico” – o que, por definição, é um monstro de tal ordem que deveria ser enfrentado e combatido pelo perigo que representa (imagina uma “new wave” de professores salvando o mundo e o proletariado? [aliás, como se isso tivesse acabado]). Claro, isso se não tivessemos, no fundo, concordado com ele. =)

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