Porque eu comi minha mulher

Eventualmente tudo se funde — tudo é orgânico. É impossível distinguir uma coisa da outra. Quando sua mente está esvaziada do egoísmo, ela se esmigalha e se dissolve na água. Se eu cortar meu corpo e concentrar corretamente, eu não sentirei nada. Cada vez que meu coração bate, ele estremece violentamente e açoita sem eixo, empurrando na base de meu cérebro. Memórias movem-se pela coagulada e putrefata floresta dentro de minha cabeça e esmagam o presente com seus pés. Minhas memórias não me pertencem. Elas são tão desconhecíveis como a lacraia remexendo suas pernas no canto escuro debaixo da pia. Quando uma imagem se move pelo meu sistema nervoso, é com a ganância predatória de um intruso. Meu corpo está deitado aberto, transparente, indefeso. Cada segundo de tempo corresponde a um inseto alimentando-se de meu sangue.
Quando minha mulher e eu juntávamos nossos corpos, eu caí em seu corpo e vesti sua pele como uma coberta de borracha. Ela me protegeu do que está lá fora. Agora que ela está morta, eu estou certo de que logo serei comido. Eu sou um corpo sem pele, meus músculos estão secando ao sol. Eu me sinto encolhendo.
Eu a usei como um processo, um sistema no qual nós podíamos nos misturar com a matéria além de nossos pensamentos egoístas. Quando sua mão acariciava minha perna, quando sua boca molhava minha pele, o estímulo que eu experimentava era a primeira onda de um fluxo que iria derradeiramente apagar a nós dois. Eu a amo mais do que necessito de minha própria identidade. Apesar de seu corpo repousar aqui sobre a mesa em minha frente, eu não preciso abrir meus olhos para vê-la em detalhes, para sentí-la fisicamente saturar meus sentidos. O amor permite a micróbios e vírus passarem pelo meu corpo sem resistência. Ao amá-la, eu perco a vontade de viver. Se eu comer seu corpo agora, eu a tomarei de volta para mim. Mas a cada pedaço que engolir, eu estarei removendo uma equivalente quantidade de mim mesmo.
Sua fragrância depreende tremeluzindo numa nuvem acima dela, e dá ao ar o sabor do mel. Seus seios começam a escorregar o monte de suas costelas, apodrecendo, não mais firmes em arrogância ou inflados com a promessa de fertilidade. Os bicos, que eu havia tomado eu minha boca, chupado e mordido, estão de pé como em desafio contra o volume em retirada de seu peito abaixo e ao lado. A gravidade está empurrando-a para dentro de si mesma como areia movediça. Sua barriga está movendo-se, emitindo obscuras encantações demoníacas de dentro de suas profundezas ao formar gazes ao decompor-se. Olhando logo abaixo para sua boca aberta, eu posso ainda lembrar-me do gosto, do sabor levemente acaramelado de sua saliva, e sentir a resistência borrachosa de sua língua deslizando na minha boca, circunscrevendo meus dentes, embrulhando-se em minha língua. Mas agora, uma caverna aberta em seu rosto mostra o couro grosso e morto de sua língua, como o cadáver de um mamífero na praia, que arrastou-se para o interior de sua boca para esconder-se do sol e dos enxames de moscas. Seus lábios, que já foram um fruto raro cujo suco eu chupava, estão agora enrugados e rachados como um damasco seco. Seus olhos me fitam, cauterizando meu rosto com ácido corrosivo. Minhas lágrimas escorrem devagar para o canto de meus olhos, espessas como querosene.
Sete dias atrás, ela se parou secretamente na entrada de nosso quarto a me observar, enrolado na cama lendo, desatento a sua presença, até que ela silenciosamente aproximou-se exalando um ar quente em minha nuca.
Agora sua carne está aqui, desprovida de gesto ou empatia, reduzida a um mero processo, como fermento reagindo à água. As moléculas que compreendem seu corpo estão movendo-se, separando-se uma das outras, reorganizando-se e dissipando-se na circundante corrente de biologia, não estando mais mantendo-se unidas pelo material adesivo de sua vontade individual. Eu sinto meu próprio corpo espumando-se junto a partículas, material genético, átomos, parasitas…
O cheiro de seu sexo arrasta-se para dentro do útero de dentro do meu cérebro onde gesta, formando uma memória perfeita, um centro vermelho e duro de luxúria impossível que faz brilhar e esquenta meus pensamentos.
Eu me curvo à ela para um último beijo fútil. O interior de sua boca excreta uma grudenta cola branca que cheira como se viesse de um lugar no fundo da terra — uma reserva de composto animal escondido numa tumba escura. Eu pego uma faca de cozinha serrilhada e removo seus dedos cuidadosamente, guardando os fluídos que escorrem numa toalha de banho branca. Eu como estes possuídos fragmentos de sua alma com um cuidado empírico, transfixado por seus olhos fixos. Estou intoxicado com o fim de sua memória e a transmissão de seu gosto, odor, e textura para dentro de minha mente e do meu corpo.
Com o passar das semanas, cada dia traz a ingestão de um outro pedaço de sua essência. Quando a substância de seu corpo me invade, eu sou transformado numa entidade além de mim mesmo, e também além dela. Essa evolução é apenas o primeiro passo na minha própria e lenta decomposição, enquanto me fundo com infinitos organismos que, em troca, se alimentarão de mim, e que, por fim, irão misturar-me na atmosfera…

Texto de Michael Gira, vocalista do Swans. Tradução por Richard John.

Litost

Ouvindo: Bauhaus – Crowds.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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