A despeito do Tempo

Cada novo relâmpago era acompanhado de um trovão, e a tempestade se tornava cada vez mais intensa. Cada novo relâmpago fazia com que ela crispasse as mãos cada vez mais forte na camisa dele. Ela morria de medo das tempestades.
Um enxame de gotas se grudava ao vidro e através dele escoregava, em uma dança tão aleatória quanto hipnótica, dança que se revelava ora brilhante, ora sombria, ao gosto dos relâmpagos. Ela tinha os olhos fechados e a cabeça mergulhada no peito dele. Ele a abraçava e esperava a tempestade terminar, esperaria o tempo que fosse necessário. Estava frio, e ele cobrira à ambos com um manto.
Quando amanheceu, o dia estava cinza e a chuva fina e contínua caía dos céus sem cessar. Quando ele acordou, ela já estava na janela, observando em silêncio a paz do nada através da janela. O cinza claro e quase uniforme das nuvens parecia luzir de leve, e as finas gotas frias se precipitavam em um silêncio quase absoluto na grama lá fora. Ele levantou e a abraçou por trás. Ela virou a cabeça na direção dele, fechou os olhos e, por um instante, aninhou-se nele de novo. Em seguida, voltaram ambos a atenção para a chuva.
“Está bem agora, meu amor?”
“Sim. Agora tudo está bonito de novo.”
Deu um beijo discreto, tocando de leve os cabelos da moça com os lábios. Afagou seu ombro e foi para a cozinha fazer café.
Como não havia água quente, ele foi até o quintal pegar alguns pedaços de lenha. Infelizmente, a lenha estava completamente úmida e seria impossível fazer fogo com ela. Olhou por alguns instantes para a madeira molhada e a lama que se espalhava nas pedras do passeio. As folhas secas repousavam na superfície da lama, sendo lentamente absorvidas por ela. Sentiu as próprias mãos muito geladas, e o vento frio daquela manhã entrava-lhe cinzento por dentro da lã das roupas. Era melhor entrar novamente.
Acendeu o fogo com um velho e pequeno botijão de gás e esquentou as mãos um pouco. Em seguida, espiou para a sala e viu que ela permanecia imóvel, olhando a janela onde nada acontecia. Foi então até o poço. Com o balde, pegou água e trouxe de volta para dentro da casa. Fechou a pesada porta de madeira pois não queria que o vento entrasse novamente. Pôs a água a aquecer e preparou um pouco do pó de café.
Enquanto esperava, voltou para perto dela. Ficou, por alguns instantes, a contemplar a janela e procurava entender que beleza poderia tanto fasciná-la. Preferia fixar sua atenção antes nas gotas grudadas no próprio vidro do que no exterior, que lhe passava quase sempre despercebido. Ao sentir a presença dele, ela falou novamente.
“O tempo parou mais uma vez, não é?”
“Sim.”
Entendeu que ela ficaria prostrada diante da janela até o dia finalmente decidir terminar. Voltou para a cozinha e assistiu as chamas esquentarem o metal da chaleira até o instante em que a água começou a tentar fugir da chaleira porque dentro dela estava quente demais. Fez dois cigarros e deixou-os sobre a mesa, cheia de farelo de pão. Fez a água descer lentamente sobre o pó do café e assistiu pacientemente o líquido mais avermelhado do que negro fluir para o bule. Depois de alguns minutos, preparou uma pequena bandeja com duas xícaras e os dois cigarros, levando-as para a sala e deixando sobre a mesinha que ficava entre as duas poltronas.
“Fiz café”.
Ela saiu da janela pela primeira vez naquela manhã. Deitou um olhar indiferente sobre o café. Sentou-se e pegou um dos cigarros. Riscou o fósforo lentamente, deixando a primeira tragada perder-se no ar e formar uma delicada nuvem próxima a seu rosto, inclinado por seu corpo estar também inclinado, na direção da mesa. O vestido branco parecia pouco apropriado para aquela manhã fria e sua pele pálida parecia denunciar que seu corpo também achava isso. Seu olhar castanho estava completamente perdido, e ela não estaria ali enquanto aquele dia infinito não terminasse. Fumou displicentemente, deixando pedaços de cinzas negras caírem sobre o tapete. Ele recostou-se a poltrona, com a xícara em mãos e o cigarro ainda apagado. Olhava para ela e esperava que ela dissesse qualquer coisa, embora não tivesse esperanças de ouvir nada novo enquanto o dia não terminasse.
Ficaram alguns minutos em silêncio, e ele acendeu o cigarro enquanto bebericava o café. Percebeu que ela tremia de frio e, sem dizer palavra, deixou o cigarro e a xícara sobre a bandeja para cobrí-la com o manto cinza e áspero. Ela não resistiu, mas finalmente olhou para ele enquanto este voltava, igualmente atento à ela, para sua poltrona.
“Quando nós vamos poder partir?”
“Eu não sei. Espero que em breve.”
“Eu sei que o tempo não vai mais voltar a correr, sei que nós não vamos embora.”
Ele tragou mais algumas vezes o cigarro e bebeu mais alguns goles de café, até a pequena xícara de louça branca estar completamente vazia. Serviu-se de mais café e fez o mesmo com a xícara dela. Não queria conversar sobre isso, e poderia passar a eternidade ali com ela. Estava de má-vontade e sabia disso. Mesmo assim, sua vontade de ficar com ela era tão grande quanto a de agradá-la, e ao mesmo tempo em que fazia tudo o que estava em seu alcance para se salvarem, desejava fervorosamente que seus esforços malograssem. Até agora sua consciência estava limpa, e se sentia internamente contente pelo próprio fracasso.
Permaneceu por muitos minutos em silêncio em frente à ela. Até que, enfim, o café acabou. Ela já não o olhava de novo, e assim que terminou seu café e seu cigarro, voltou para a janela. Não fazia o menor esforço para disfarçar que não queria estar ali.
Um pouco irritado pela situação de impasse que teria de desfazer, ele preferiu ir para o quarto. No corredor, por hábito, acertou os ponteiros do relógio que, há tempos parado, marcaria eternamente a hora que ele escolhesse. Sempre tentava arrumá-los da maneira mais exata e aproximada que fosse possível, mas a verdade era que já havia perdido a noção clara do passar do tempo, e os números no mostrador já não faziam mais nenhum sentido.
Chegando ao quarto, tirou os sapatos e as meias. Deitou sobre os cobertores e com os braços cruzados atrás da cabeça, deixou seus pensamentos se perderem enquanto fitava o teto.
Não poderia prendê-la, mas não queria sair dali nunca mais. Embora soubesse que aquele querer estar ali dependia essencialmente da companhia dela.
Surpreendeu-se quando a viu parada, na porta, em silêncio a fitá-lo. Retribuiu o olhar. Ela desceu uma alça do vestido. Em seguida, desceu a outra. Pôs-se nua e caminhou até a cama, onde engatinhou até ficar sobre ele. Tocou os lábios dele com os seus, e o frio fazia com que sua pele estivesse igualmente fria. Via os tremores dela, bem como os arrepios, e desejou aquecê-la.
Depois do amor, ele adormeceu. Não saberia, como já vimos, dizer por quanto tempo. Quando acordou, estava nu e sozinho na cama. Contudo, ela não esava na janela. Tampouco estava em casa. Como haveria de ter saído?
Incrédulo, enrolado em um robe e descalço, procurou por ela na sala, na cozinha, no quintal. Seus pés afundaram na lama úmida enquanto ele caminhou pela vizinhança à procura dela. Infelizmente não haveria à quem perguntar. Depois de caminhar nervosamente – chegando a correr enquanto gritava o nome dela – voltou para dentro da casa com os pés sujos de lama. Ofegava. Estava irritado e a despeito do frio, suava. Havia uma carta sobre a mesa, sobre o farelo de pão.
A carta havia sido iniciada, mas também havia sido interrompida logo na primeira frase. Nenhuma explicação seria possível. Releu cem vezes a mesma frase incompleta até perceber um som que quebrava o silêncio sepulcral de antes. Um tique-taque assustador.
Cautelosamente pegou a marreta que escondia atrás da porta da cozinha e, na ponta dos pés, caminhou até o corredor. O pêndulo oscilava harmoniosamente entre a esquerda e a direita, e os ponteiros estavam se movendo mais uma vez.
Em fúria, acertou o relógio e o destruiu em um só golpe, mas o tique-taque não passaria nunca mais, pois mesmo depois de incendiar aquela casa – o que ele fez assim que terminou de destruir tudo com seu martelo – sabia que nunca mais a encontraria, e que o tempo jamais cessaria de correr novamente.

Let Your Good Heart Lead You Home

Ouvindo: Cocteau Twins – When Mama Was Moth.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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