Mãos-de-Tesoura

É incrível como um simples olhar atento e interessado realmente pode resgatar um valor completamente esquecido.
Tive o prazer de re-ver, hoje, o clássico Edward Scissorhands (Edward Mãos-de-Tesoura). Um clássico da Sessão da Tarde que, por essa razão, não era digno de minha atenção desde minha tenra infância. Ao assistir o filme novamente na tempestuosa tarde deste 7 de setembro, pude ter uma noção da potência da estética de Tim Burton, tanto poética quanto cinematográfica.
Antes de tudo, Edward Scissorhands é um conto de fadas. Um conto de fadas contemporâneo como A Fantástica Fábrica de Chocolates de Willy Wonka (que também mereceu atenção especial de Tim Burton) ou, mais recentemente, como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Diferentemente destes, Edward Scissorhands é uma tragédia, pois as mãos-de-tesoura do ingênuo Edward são uma metáfora poética muito forte: Edward precisa ser extremamente cuidadoso com tudo aquilo em que toca, pois seu toque inevitavelmente fere ou destrói aquilo que ele toca.
A estética do filme no qual a história de Edward se desdobra não poderia ser mais apropriada: a cidade em que Edward vive é uma espécie de arremedo de cidade, com cores berrantes como as de uma cidade de brinquedo, mas fervilhando de pessoas de caráter muito superficial e tolo. Exceto pela família que o acolhe, todos os demais concidadãos de Edward o vêem com segundas intenções. Mas o clima não é pesado, muito pelo contrário. É extremamente leve, e isso dá um toque surreal indispensável ao desenrolar da história: mesmo que Edward seja uma aberração que possui mãos-de-tesoura – o que é completamente inverossímil – o cenário é convincente porque é lúdico e encantado, mas as mãos-de-tesoura não são razão de muito espanto da parte do resto da humanidade (que parece reduzida ao pequeno populacho daquela minúscula cidade que parece parada em um tempo misto dos 50s e dos 80s). As únicas pistas que temos sobre a origem de Edward são os flashbacks do próprio Edward, referentes à seu processo de criação, que se deu em um castelo isolado no alto de uma montanha, onde morava um inventor.
(A cena da prensa fazendo biscoitos no castelo é indispensável para compreender a unidade temática do cenário: é completamente absurda, e parece sair de um desenho animado. Contudo, se por um lado os flashbacks e a conclusão do filme no castelo introduzem o elemento lúdico, também introduzem o elemento sombrio: no castelo nada é colorido e é no castelo que dois personagens morrem)
O enredo do filme é simples: uma vendedora da Avon, em um dia frustrado, visita o castelo, o inusitado castelo encravado no alto da única montanha de uma cidadezinha completamente plana e colorida – mas já falamos disso. Lá chegando, ela encontra a excêntrica figura pálida, escabelada e com mãos-de-tesoura. Edward tem cicatrizes pelo rosto inteiro. Desde os primeiros momentos já percebemos que a atuação de Johnny Depp será genial – e talvez seja uma das melhores de sua carreira inteira. A vendedora acaba “adotando” um quase monossilábico Edward e o levando para sua casa. A ingenuidade e a inocência daquela aberração sombria é completamente sedutora e percebemos desde o instante em que Edward entra na casa de sua benfeitora que a substância do enredo será romântico: a pureza da reação de Edward ao ver a fotografia da filha de sua benfeitora é tocante. E a despeito de um primeiro encontro inusitado, a relação de Edward e Kim Boggs – interpretada por uma angelical Winona Ryder – se desenvolverá de uma forma tão comovente quanto platônica.
Edward passará mais da metade do filme inspirando o encanto, a curiosidade e mesmo o desejo dos habitantes da cidadezinha, até o momento em que sua natureza bizarra sairá de controle: não, Edward não age como um monstro, mas fere acidental e continuamente seus benfeitores, bem como o caricato namorado de sua amada Kim que, por ciúmes e intolerância – o personagem é a personificação da intolerância – faz rapidamente com que a comunidade (que se comporta como um enxame quando o assunto é Edward) fique com receio de Edward. Tudo isso muito rapidamente, nos poucos minutos que vão desde a mágica cena de Edward, pela noite, esculpindo um anjo de gelo  e fazendo nevar no pátio dos Boggs até a delicada cena em que, depois de ferir acidentalmente sua amada Kim e o irmão mais novo desta, um policial muito bondoso e compreensivo sai no encalço de Edward, mas nitidamente interessado em deixá-lo escapar. O filme conclui nesta mesma noite, quando a população inteira da cidade se aglomera em frente ao castelo para o qual Edward foge e onde Kim e o próprio Edward se vêem obrigados à enfrentar o truculento namorado (agora dispensado pela menina) de Kim, em uma rápida contenda que termina pela morte do rapaz pelas mãos-de-tesoura de Edward. Dá-se então o único beijo do casal Edward e Kim. A garota sai do castelo e mente para a comunidade que Edward está morto.

Vale, por fim, comentar que a história é contada por Kim que, neste presente-fora-do-tempo já é avó. Kim conta a história para sua neta em uma noite em que a neve cai delicadamente sobre a cidade. E a velha Kim sente que essa neve, que nunca existiu antes de Edward, é o sinal secreto de que ele está vivo. E é tudo o que ela tem pois, obviamente, Edward e Kim nunca mais voltaram a se ver depois daqueles dias. A trilha sonora impecável é capaz de promover o engasgo ou mesmo as lágrimas nessa sequência final onde vemos o solitário Edward esculpindo, entre outras coisas, estátuas de gelo de sua amada Kim.
Edward Scissorhands pode ser uma espécie de releitura do Frankenstein de Mary Shelley, mas há uma notável originalidade estética em Tim Burton. Edward Scissorhands é sutil, delicado, romântico e idílico quase o tempo todo. A conclusão mantem o espírito romântico e, ao mesmo tempo, acrescenta o elemento de inelutável tragédia: a despeito de toda a inocência através da qual Edward vê o mundo (inocência tematizada principalmente na atuação impecavelmente expressiva de Johnny Depp), ele é um elemento que cedo ou tarde acaba reagindo de forma nociva com o meio em que vive. E mesmo que os personagens do filme sejam caricatos, raros, simples, isso não denota pobreza de enredo, mas pelo contrário: os personagens caricatos de Edward são personificações de arquétipos de personalidades muito simples e fundamentais que funcionam muito bem em contos de fadas justamente por sua clareza e simplicidade. Desde a primeira aparição de cada personagem o espectador sabe o que poderá esperar de cada um: a vizinha lasciva, o compreensivo senhor Boggs, o policial de boa-fé que obedece o coração e não a lei (curiosamente fazendo o contrário do que o sr. Boggs dissera à Edward que era o modo “correto” de se agir), o namorado idiota e a meiga e romântica Kim que, no final, prefere Edward. Dessa forma, contudo, é fácil deduzir que a história se desenrolará de um modo fatal e trágico, mas a perícia cinematográfica de Tim Burton é suficiente para nos fazer descansar e nos encantarmos durante uns 4/5 do filme para, no final, promover de um só golpe todo o drama necessário para que a história seja inescapavelmente digna de apreço.
Por esse temperamento que oscila entre o idílico e o sombrio e pela tragédia intrínseca à um personagem que traz um mal dentro de si simplesmente por ser o que é, prefiro Edward à Amélie Poulain ou Willy Wonka pois mesmo que estes dois últimos sejam excelentes filmes tanto substancial quanto esteticamente considerados, Edward Scissorhands parece nos comunicar algo de estritamente essencial sobre a própria condição humana. Edward parece nos dizer – mesmo que seja principalmente pela força de seu olhar – que a despeito do quão ingênuos ou inocentes sejamos, temos a incrível potencialidade de destruir e ferir o que nos cerca com o simples toque de nossas mãos. E que a falta de zelo – que eventualmente precisa ser extremo – pode fazer com que a única maneira de garantir a segurança alheia e a própria seja um exílio de tal ordem que exija o abandono da própria felicidade.

Edward Scissorhands

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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