Variações sobre a Leveza e o Peso

“(…) Era mesmo a facilidade com que o imaginava que mais o feria.”

Carta de Agnes à Tomas

Sim, Tomas. O que dói é perceber que tudo, inclusive você, é totalmente contingente. Saber-se não-necessário, nada especial, não lhe parece uma boa sensação, não? Fere. Mas como explicar que não, que isso não é ciúme? Quando era só o que Tereza esperava ouvir?
Eu não gostei quando vi Paulo olhando aquela moça daquela forma. Como você, Tomas, eu também esperava ser especial –
“I wish I was special” – mas não sou uma aberração: quem não quer isso?
Cada vez mais me vejo como você, Tomas, apesar de preferir Sabina com seu chapéu-côco. E por razões confortáveis entendo agora a sua decisão. Mas para mim parece mais complicado. Da mesma forma que você via Tereza dançando com aquele rapaz eu vi Paulo em plena sincronia com aquela moça, sorridente, de longos cabelos pretos. Tenho medo de que talvez ela seja a Sabina de Paulo. E se for, que força teria eu contra ela? Talvez ela tenha até um chapéu-côco. Em mim jamais ficaria bem um desses.
É mesmo a facilidade com a qual os vejo como amantes que mais me fere. Sim, Tomas: além de querer ser especial,
acreditei que fosse.
Ela é uma artista, tal qual a artista que Sabina foi em sua vida. Eu, uma garçonete como Tereza. Sim, você ficou com Tereza. Mas sentiu eternamente por Sabina. Mesmo nunca mais tendo a visto. Não gosto dessa minha comparação com Tereza. Não há nada contra ela, e apesar de ter entendido agora sua decisão – ou pelo menos em parte – ainda prefiro Sabina.
Então, Tomas. Como você naquele cabaré, eu percebo agora, por essa situação, minha contingência. Contudo, não sei o que fazer com isso. Não tenho certeza se quero o mesmo destino que você.

De sua distante amiga, Agnes.

Carta de Sabina à Agnes

Cara desconhecida Agnes, tenho de lhe agradecer. Sua carta, dirigida à um homem morto, caiu acidentalmente em minhas mãos e quase confirma minhas suspeitas: Tomas não morreu, mas fugiu de si e do mundo. Suas razões, espero nunca compreender, pois são também as minhas.
Lamento profundamente que meu modo de vida cause tanto tormento à pessoas como Tereza. Tereza que, todos sabemos, confundia Tomas o fazendo crer em um amor que não era senão não mais que desespero e solidão. Se a pobrezinha não fosse vítima das próprias mentiras, seria um monstro.
Não lamento, contudo, o desconforto que minha história com Tomas causa em você. Ou você acha que não senti na própria pele, até a exaustão, a áspera verdade da contingência? Seu fascínio pelo meu chapéu não é mais do que seu convite secreto pela reassunção de si mesma. Certa vez deixei alguém com quem poderia ter sido feliz, saiba disso. Acha mesmo que, depois de alguns meses, eu era algo mais do que uma lembrança distorcida? Acha que ele lembrava das palavras incompreendidas? O que meu querido Tomas não teve de fazer de si próprio para a manutenção de um amor que jamais – jamais! – recebeu na mesma moeda?
Infelizmente não posso lhe apresentar senão dois caminhos análogos: o fracasso do amor ou o fracasso da solidão. O meu chapéu é o símbolo deste segundo tipo. A ausência de laços, uma leveza insustentável, uma liberdade para quase nada. A liberdade divina e a impotência de um ser humano. A incerteza acerca do futuro e a cansada certeza de que simplesmente não há o que dizer a ninguém (porque você acha que pinto quadros?).
Se tivessemos duas vidas, você nem precisaria de um conselho. Infelizmente só temos uma, e eu não sei o que deveria lhe dizer.
O que você quer ouvir?

De sua mais nova amiga, Sabina.

Sabina 03

Escrito à quatro mãos, com Tatiane Costa.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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