Variações sobre a Leveza Nº2.

Querida Sabina,

Apesar de não nos conhecermos pessoalmente, percebe o quanto sei sobre você e seu chapéu-côco e, se me permite, o quanto os admiro. Mas não se preocupe: Tomas sempre foi discreto e apenas em suas cartas me contou parte de suas vidas. Quanto à morte de Tomas, nunca ouvi falar. E talvez suas suspeitas estejam corretas. Pode ser sim que ele se esconda de você – o fracasso que ele teve medo de conhecer. Tomas sempre foi um distante e querido amigo, contudo devo admitir que meu fascínio maior sempre foi por você, que sempre viveu na minha utópica insustentável leveza. Quanto a ele, bem… assim como eu, tentamos ser leves tal qual você, querida, mas ele não conseguiu e quando teve sua oportunidade, correu para Praga em busca de Tereza. E por ser tão pesado, quando percebeu sua contingência por sua situação aceitou mudar-se para outro mundo, negando tudo que podia pôr em dúvida seu modo de vida, inclusive você. Bom, como falei logo acima, nós tentamos ser leves. Agora quanto a mim, não saberia dizer-lhe se tive a mesma oportunidade que Tomas e, se tivesse, o que o que faria com ela. O que posso afirmar por enquanto é apenas minha decepção em demorar tanto a perceber – só o conseguindo por força desta situação – minha contingência. Precisei de elementos externos para ver o que já era de antemão sabido – ou pelo menos deveria ser. Minha apatia e desgaste eram tão desnecessários e tamanho foi meu esforço em me deprimir por isso…

Minha cara, é extremamente difícil falar do que se quer ouvir, principalmente quando creio que palavras já nem são suficientes. Sei bem que poderia me adaptar a essa situação, o que não sei é se realmente quero isso, se é esse fracasso que vou escolher pra mim. Mas claro, se for essa minha escolha o meu pretexto por não saber viver minha leveza seria dizer que você, Sabina, quando negou e deu as costas a seu peso, tinha onde se “agarrar”: você é uma artista, alguém que cria não precisa ser “pesada”, já eu… alguém que não saberia sequer combinar um chapéu-côco e por falta de criatividade optei pelo mais óbvio e por que não dizer, fácil. Mas entre nós, isso seria apenas meu pretexto.

Paulo permanece ao meu lado, como de costume, mas o sinto cada vez mais longe e o fato é que agora creio que jamais – sim, minha cara Sabina jamais! – consiga me aproximar dele novamente, ou sequer buscar sua atenção para mim. Sinto que crescemos como pessoas estando lado a lado e também não me arrependeria de ter vivido esse tempo com ele, entretanto, não sei se temos pra onde crescer ainda. Talvez esteja sim acabando, e o que fazer enquanto isso? Aproveitarmos, não?

Atenciosamente, sua mais nova amiga, Agnes.

Por Tatiane Costa.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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