A fúria de Pedro Bertolino

“A melhor obra é aquela que a gente gostou mais de ler”.

Nos dias em que ler sobre Jean-Paul Sartre era unir o útil ao agradável, fucei a rede atrás de material sobre o pensador francês. O You Tube, por incrível que pareça, pode eventualmente ser uma fonte interessante de material. Láe ncontrei links para entrevistas e documentários onde o autor aparecia ainda vivo – o que é raro para um filósofo metafísico da tradição ocidental, visto que sua grande maioria teve o azar (ou a sorte) de nascer em tempos onde tais registros eram impossíveis.
Em uma dessas andanças virtuais, me deparei com uma entrevista excelente que, além de contribuir um pouco com minha formação, proporcionou boas risadas.
Pedro Bertolino é um intelectual brasileiro nascido em 1940 que, dentre outras coisas, é também um estudioso da obra de Sartre. No You tube, podemos encontrar uma entrevista de Bertolino à TV Cultura, para o programa Prosa e Verso, no ano de 2003. O professor Bertolino é entrevistado por Fábio Lopes e Simone Schmidt e a entrevista, superficial como qualquer entrevista televisiva (mesmo em uma emissora intelectualizada como a TV Cultura), sobrevoa uma série de temas relacionados à Jean-Paul Sartre.
A expressão de Bertolino durante a entrevista é quase completamente a mesma: a de alguém que há mil anos responde perguntas tolas e tem de explicar repetida e inutilmente as mesmas coisas que serão incompreendidas em cada nova ocasião.
É verdade que o professor Pedro Bertolino é efusivo e extenso em suas respostas, mas é preferível (e divertidíssimo) vê-lo corrigindo os impaupérios das perguntas como a que faz Simone Schidt no segundo bloco. Reparem, tentando não rir, a querela sobre a obra de Simone de Beauvoir: discretamente a entrevistadora e o professor discutem se Simone trouxe o feminismo “para dentro” do existencialismo ou este “para dentro” do feminismo.
A indignação honesta com que o professor Bertolino separa “bate-papo de vernissage” e discussão filosófica é comovente e aqueles breves segundos deveriam ser repetidos uma vez por dia para os jovens estudantes da coisa filosófica.
O ponto mais alto da entrevista, seu término, se inicia quando Fábio Lopes menciona “os adágios que se atribuem à Sartre”, e menciona a famosa frase do personagem da peça Entre Quatro Paredes: “o inferno são os outros”. A partir daí, Bertolino será brutal em sua distinção do joio e do trigo e suas palavras não poupam sequer meu querido Gerd Bornheim, porta heideggeriana através da qual eu gosto de transitar pela obra de Sartre.
Contei toda a entrevista. Mas de qualquer modo, isso não tira o sabor de assisti-la. Para qualquer um que flerte com a vida intelectual, a forma com que Pedro Bertolino defende a enxovalhada obra do filósofo francês é comovente e inspiradora. Espero que caso eu trilhe o caminho da vida intelectual, tenha forças para um dia ter a envergadura e o temperamento necessários para defender de forma tão enfática a obra de um pensador.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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