Metafísica e Literatura Fantástica

É um lugar tão comum quanto tolo na filosofia pensar que aqueles que se ocupam de filosofia continental tendem para a literatura e para as artes tal qual os que se ocupam da filosofia analítica tendem para a matemática e para a ciência. Bem, se é um lugar muito comum e tolo, tem necessariamente um inescapável fundo de verdade. De qualquer forma, recomendo fortemente que os irmãos fenomenólogos e/ou hermenêutas desliguem os sabres-de-luz e abaixem as orelhas de vez em quando para ouvir os filósofos filosofarem em inglês. Não apenas pela ampliação do horizonte filosófico, mas também porque estaremos familiarizados com as armas do inimigo quando a próxima guerra filosófica começar.
Brincadeiras à parte, quero dividir aqui a grata, muito grata surpresa de encontrar um artigo simples, curto e ao mesmo tempo genial sobre a relação entre filosofia metafísica e literatura fantástica. Não, a metafísica não é um gênero da literatura fantástica. Ou sim? Bem, talvez seja, mas não é exatamente esse o ponto da professora Evgenia Cherkasova em seu Filosofia como narrativa colateral, presente em Filosofia contemporânea em ação. Bem, talvez não seja somente ou exatamente esse o ponto da discussão em seu artigo.
Cherkasova abre seu artigo fazendo a aproximação entre a metafísica e a literatura fantástica através de um conceito colhido de Saul Morson em seu Narrative and Freedom: The Shadows of Time, o conceito de narrativa colateral – sideshadowing no original.
A narrativa colateral estaria nas antípodas da narrativa prenunciadora que, em moldes aristotélicos, estrutura uma história de modo estanque e linear em início, meio e fim. A estrutura da narrativa prenunciadora faz parte do composto que lhe dá unidade de sentido. Não há espaço para episódios que fujam da ordem – e se há, estes são completamente inessenciais para a história. Cherkasova não fala sobre a categoria aristotélica de episódio, mas apela a própria reflexão para mostrar que no plano existencial mesmo o mais fatalista dos homens tem a plena consciência de que as coisas “poderiam ter acontecido de outra forma”, o que faz com que a própria vida não possua a mesma forma de uma narrativa prenunciadora. Cherkasova menciona que Milan Kundera, em seu A Imortalidade, nos lembra de que nem mesmo a morte nos garante um ponto final sobre a narrativa de nossa própria vida: nossa história será mais objetiva do que nunca sem a subjetividade que lhe dava gênese. Será essencialmente uma história nas mãos daqueles que permanecem vivos. Para além da esperança de um sentido unívoco.
(Lembro aqui do romance onde vi o episódio aparecer com força e nos moldes clássicos pela primeira vez: o Tom Jones, de Henry Fielding. Há um capítulo inteiro sobre as aventuras de Tom Jones e “o homem da colina”. Se fosse completamente apagado da história, se fosse ignorado pelo leitor, se esse capítulo nao existisse isso não faria a menor diferença para a história!)
A narrativa colateral possui o poder de dar conta dessa dimensão de contingência intrínseca à vida. Segundo Cherkasova, “Nossas vidas emergem das escolhas que fazemos, das escolhas que evitamos fazer e das escolhas que ignoramos por completo”. Contudo, essas “potencialidades não atualizadas” que são os caminhos não tomados perseguem a pessoa humana tal qual uma nuvem, e fazem parte da equação que define justamente os caminhos escolhidos. Segundo a autora, mesmo aquela dimensão que está além do possível – ou seja, o impossível – é temporalmente determinada. Não é eterna: o que parece impossível agora outrora não parecia – ou futuramente não parecerá.
Cherkasova coloca na mesma sacola os filósofos metafísicos e os “escritores de inclinação filosófica”, e diz que fazem uma coisa muito parecida: exploram o campo do possível. É assim que Platão, Descartes e Leibniz estarão em um mesmo nível que Kafka ou Borges: e se nosso mundo for um simulacro do mundo real? E se a realidade conhecida for um engodo de um demônio? Ou pior: e se isso tudo for, afinal, o melhor dos mundos possíveis? E se um dia as instituições dissiparem nossa noção de responsabilidade? E se um dia perdessemos o precioso dom de esquecer, conseguiríamos ainda pensar? Essas são questões que emergem do texto filosófico e literário pensado sob a forma de narrativa colaretal.
Esse é, aliás, o princípio moral que rege a prosa de Milan Kundera – princípio que, segundo o escritor tcheco, absorveu de Hermann Broch – e que oferece uma interessantíssima lente através da qual podemos julgar a literatura: ela explora possibilidades humanas? Ela revela a essência de situações? Ela é capaz de sacrifiar a verossimilhança e a linearidade narrativa para apresentar algo de essencial? Se as respostas para tais questões forem negativas, podemos pensar como David Hume e atirá-los na fogueira.
Quando direcionado para a dimensão do conhecimento, o discurso pode justamente explorar os limites da razão humana – isto é, o limite de suas possibilidades. É, no entendimento de Cherkasova, o projeto kantiano. Segundo ela:

“Para Kant, as múltiplas junções do conhecido com o desconhecido definem as fronteiras da investigação filosófica. Ele deixa claro que a razão pode e deve empreender a tarefa de operar no limite, isto é, a tarefa de reunir o que é conhecido e o que jamais será.”

Segundo alguns estudiosos, esse é mesmo um dos grandes méritos – e por isso mesmo um dos maiores problemas – da filosofia de Kant: diferentemente de Descartes, Kant veda completamente o acesso à verdade acerca da experiência. Nenhum Deus está, em Kant, dentro dos limites da razão carimbando com sua eterna bondade nossa experiência. Kant vai mais longe, é verdade, e define o que não pode ser conhecido, ainda que em termos econômicos.
Contudo, o bastião da filosofia moderna torna-se apenas mais uma perspectiva quando pensamos em narração colateral. Outras experiências de pensamento são possíveis, outros sistemas e linhas de raciocínio podem ser construídos a partir de outros interesses. Penso que aqui haja o perigoso flerte com o perspectivismo relativista à que Simon Blackburn faz menção no início da obra. É perigoso inveredar por esse caminho, pois afinal tornar-se-á uma questão de ótica ver o mundo como um desdobramento de processos dialéticos ou como a manifestação de uma vontade irracional e sem-fundamento que perpassa a natureza.
Mas se Blackburn nos alerta para o perigo é certamente porque ele é real: será a filosofia apenas um olhar diferenciado? Posso, então, chamar Kafka de filósofo? E dizer que há uma literatura em Descartes? Milan Kundera não me deixaria fazer isso: romance tem personagens, tem situações. Filosofia se desdobra em um plano abstrato, sem pessoas, sem personagens, sem situações.
E o Ser e o Nada? E quando Sartre menciona o proletariado do início do século XIX? E quando ele menciona a moça que flerta de má-fé? Ou mesmo quando conta sobre sua tentativa de parar de fumar? Não temos aí literatura?
Se faço estas questões que Cherkasova não colocou é justamente no interesse de separar o joio do trigo (sem querer jamais pretender definir qual seria o joio e qual seria o trigo nesse par). Porque filosofia é filosofia e literatura é literatura, ponto final. Walter Benjamin admirava a inteligência de Robert Musil, mas não sua arte. Então aquele monstruoso tijolo que é O Homem Sem Qualidades é um livro filosófico? Sim, quero separar a filosofia e a literatura para, justamente, poder ver mais claramente o que elas podem ter em comum.
Pensar em Kundera é inevitável. O autor tcheco oferece, em sua obra, elementos suficientes para que pensemos as questões postas por Cherkasova. A prosa de Kundera é, de longe, a prosa mais inteligente que tive o prazer de ler. O velho tcheco é um filósofo disfarçado: reflete, analisa conceitos e faz longas digressões durante seus romances. E, sem dúvida, faz aquilo que Cherkasova chama de narrativa colateral: explora possibilidades ao custo da verossimilhança. Os dois exemplos que não me saem da mente são o sexto capítulo do Livro do Riso e do Esquecimento, onde a personagem principal vai parar numa ilha dominada por crianças e o final do romance A Imortalidade, já citado, onde Kundera simplesmente derruba a barreira entre ficção e realidade e encontra seus próprios personagens.
Mas Milan Kundera não é filósofo. Nem Kafka. Nem Camus. Bem, Camus escreveu filosofia, mas O Estrangeiro não é filosofia. Nem A Insustentável Leveza do Ser. Nem O Processo. E acho que para não me estender nesta questão, recorro à um post recente, onde falo de Blackburn e sua reflexão sobre a natureza da filosofia. Sirvo-me novamente da definição de filosofia como “um olhar diferenciado”.
Posso ter um olhar diferenciado para qualquer obra literária, por mais seca e descritiva que seja. Posso filosofar sobre Virginia Woolf (uma das coisas que para mim melhor se enquadra nessa descrição). A diferença é que no caso de uma Virginia Woolf (que tem sua versão da Metamorfose de Kafka, seu Orlando, o homem que um dia acorda e descobre que virou uma moça) eu tenho de preparar a terra e as sementes, em Kafka a terra já está pronta. Em Kundera, só nos cabe regar as sementes, pois está quase tudo pronto. Evidentemente tais juízos, como quaisquer juízos, são absolutamente parciais e revelam mais meus próprios interesses do que a potencialidade da obra. Mas o fato é que, como diz Cherkasova, o “modo” de contar uma história faz toda a diferença. Pode-se projetar uma imagem numa tela e deixar que o leitor/espectador raciocine por si. Pode-se fazer como Fielding, e conceber o ato da escrita próximo ao trabalho de um cozinheiro que deve agradar o paladar do cliente. E se eu tenho um palpite, é o de que o trabalho de um Fielding, de um Kundera ou de um Kafka, pelo seu modo e pela sua forma se aproximam mais da reflexão filosófica do que outros modos de se fazer literatura. Ou não?
Acho que minha conclusão é decepcionante, porque não penso que seja fácil separar, afinal, a filosofia da literatura.

Meu palpite é que boa parte do potencial filosófico de uma obra está na maneira que ela é escrita: Virginia Woolf reflete muito pouco durante o Orlando. Apenas nos conta sua história. Podemos fazer filosofia disso? Talvez sim – como podemos fazer filosofia de Kafka – mas será mais difícil do que fazê-la sobre um texto de Kundera ou Borges.
De qualquer modo, o saldo positivo com o qual eu acho que saio do texto de Evgenia Cherkasova é talvez justamente aquele que eu estava procurando: há, sim, uma dimensão muito comum do discurso e que diz respeito ao proceder do filósofo e ao proceder do romancista. É justamente a possibilidade que eles tem de tecer possibilidades paralelas à condição humana e com isso aprenderem e ensinarem justamente sobre essa condição humana. A virtualmente infinita possibilidade de produção filosófica e literária (a despeito do que se fale sobre a morte dessas dimensões da cultura) parece revelar também uma outra verdade trágica: talvez seja tão impossível mapear completamente a condição humana quanto esgotar as possibilidades da filosofia e da literatura. Mas eu menti, porque isso não é necessariamente trágico. Pois essa impossibilidade, essa inesgotabilidade da tarefa, não deve ser considerada um fracasso a priori. Ou deve? Justamente por não transcender as próprias possibilidades? Por não fazer o impossível? Até porque, segundo Cherkasova, esse “impossível” é tão eterno quanto nossas crenças mais tolas, como a crença na ordem e na unidade de sentido de uma vida.

Um último comentário deve ser feito: eu menti duas vezes. Cherkasova não é uma filósofa analítica. Leciona ética, filosofia da literatura e existencialismo. Tem predileção por questões como liberdade, abitrariedade e o Mal. Ou seja: não foi uma coincidência que eu tenha me deliciado nas poucas páginas de seu artigo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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16 respostas para Metafísica e Literatura Fantástica

  1. Bruno Mendonça disse:

    Minha reação é cética diante dessas aproximações de Filosofia e Literatura. Livros montam quadros, podem fornecer exemplos interessantes, e até mesmo falar sobre filosofia, mas não apresentam argumentos (muito menos válidos) e argumento válido é “se premissas verdadeiras, então conclusão verdadeira”. Me parece, até que me provem o contrário, que não há premissas em Literatura, e ainda que haja, não formam argumentos válidos…. e ainda que formem, não são corretos!

    Conheço de ouvido certas tentativas de mostrar que um bom filme tem legitima capacidade argumentativa, mas reagiria da mesma maneira.

    Abraço, Bruno.

  2. Maria Angela disse:

    Victor disse
    Agosto 1, 2009 às 4:20 am

    Bem vinda à esse mundo.

    Pra que a crase?

  3. ressentimento disse:

    Bem, meu primeiro parágrafo já alertava para a possibilidade de comentários como o teu, Bruno. *Risos*
    Falando sério, entendo teus critérios. Penso inclusive que com ele muita “filosofia” deixa de ser “filosofia”. Mas isso me aparece como uma idéia vaga, vou pensar melhor sobre o assunto. De qualquer modo, a autora não aproxima tanto assim a literatura e a filosofia. Eu é que o faço. Ela só apresenta esse conceito de narrativa colateral pra atentar para uma coisa que a literatura e a filosofia fazem de parecido.

    E Maria Angela: a crase é porque pra mim os “a”s ficam mais bonitos com ela, assim como as moças com chapéus-côco.

  4. Maria Angela disse:

    Você abusa do uso metafórico da linguagem. Pergunto-me: até que ponto o abuso, ou seja, o excesso, não lhe traz dificuldades em filosofia?

    Além disso, assim como há poucas moças nas quais cai bem um chapéu-côco, há alguns “a”s que não gostam da crase. Mas será que tudo é questão de gosto?

  5. Victor disse:

    É justamente porque há poucas moças nas quais um chapéu-côco cai bem que faço questão de que neste espaço tudo seja questão de gosto, sim. ;)

    No mais, você fez uma observação muito precisa: o uso de metáforas e a filosofia não convivem bem, e sou prova disso. E é justamente por isso que me pergunto, todos os dias, se quero continuar brincando com a coisa filosófica. =)

  6. Lauren disse:

    Caro Victor,
    Ganhei meus primeiros livros de contos de fada quando tinha 13 anos. Meu pai comprou de um vendedor, uma caixinha com os contos dos Irmãos Grimm. Me deu aquele presente sem ser data especial alguma, meio que pedindo desculpa por me dar livros infantis. Devorei todos, como era meu costume. Fiquei encantada. Mas na época não disse nada. Eu já estava meio grande pra ficar fascinada com aquele tipo de coisa…
    Dias atrás, dei com a caixinha de livros. Naquele mesmo dia, agradeci meu pai por te me dado um dos presentes mais lindos que eu já tive, mesmo ele não percebendo na época. Ele ficou feliz.
    Hoje percebo que ganhei a tal caixa na idade certa. E se tivesse ganhado hoje, mais encantada ainda eu ficaria.
    É, a vida me levou pelos caminhos da filosofia. Alguém poderia dizer que ao fim e ao cabo, eu sequer me lembraria de tais livros. Ledo engano, quanto mais filosofia eu estudo, mais fortes ficam as cores dos contos de fada. É que alguém, lá no começo dos tempos já estava ilustrando com princesas e castelos tudo aqulilo que eu iria ler em obras filosóficas mais tarde. Parece radical? Pois bem, não é segredo a minha falta de pendor pra fil. analítica. Mas eu sei, que no blog do Victor, isso não é nenhum pecado.
    Naturalmente eu concordo contigo. ALGUNS filósofos e ALGUNS romancistas têm algo em comum. Não incluo os analítcos nesse conjunto. ;)

  7. Victor disse:

    Adoro quando tu aparece por aqui, Lauren.

    Não quero que essa postagem promova uma guerra que eu acho que não existe. Mas concordo com tudo o que tu disseste, hahaha!
    Eu redescobri um conto de fada contemporâneo esses dias. O Edward Scissorhands. É óbvio que ele é uma colagem do Frankenstein, mas também tem qualquer coisa do Rei Midas nele. Ando encantado com a tragédia do Edward e sua capacidade natural de ferir por acidente justamente aqueles que lhe são caros.
    Mas se o conjunto de filósofos que possuem coisas em comum com os literatos é pequeno, será que não se pode dizer que a recíproca é ainda mais verdadeira? Pois o que me parece é que há uma quantidade infinitamente maior de literatos que em nada tem a acrescentar à filosofia. Não será a frigidez de alguns filósofos aliada à incompetência de alguns contadores de história que faz parecer que tais áreas sejam tão distintas? Acho que essa nossa inclinação e nossa fraqueza à inteligência que sabe se expressar de forma bela exige que frenquentemos algumas poucas – mas boas, e é isso o que vale – ilhas do mundo das letras.

    E volte sempre, Lauren. Não posso te oferecer nenhuma teoria original, muito menos um conto de fadas. Mas posso lamentar contigo a falta, cada vez maior, disso tudo. =)

  8. Lauren disse:

    Vitor,
    Lewis descreve em seu artigo “Três maneiras de se escrever para crianças”, a sua própria maneira de escrever. Segundo ele “a única que sou capaz de usar, consiste em escrever uma história para crianças porque é a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer. Do mesmo modo, um compositor pode criar uma Marcha Fúnebre, não em vista de um funeral público, mas porque certas idéias musicais que lhe ocorreram se encaixam melhor nessa forma. Esse método pode ser aplicado a outros tipos de literatura infantil, e não só às histórias. Ouvi dizer que Arthur Mee nunca conversou nem quis conversar com uma criança. Na opinião dele, era pura sorte os meninos gostarem de ler o que ele gostava de escrever”.
    Expus esse pequeno fragmento, porque eu gostaria de deixar marcada de que forma Lewis escrevia. Parece-me que ele acreditava que a forma artística do que você irá escrever, simplesmente “jorra”. E sai de um jeito imprevisível.
    A seguir, vou dividir contigo um grande trecho desse artigo, onde Lewis faz uma defesa do conto de fadas e critica alguns “rótulos” tão utilizados pelos ditos “intelectuais” e sabichões de plantão. Espero que tu tenha paciência de ler. Isso nos mostra mais ou menos como a cabeça de um autor de literatura fantástica e Prof. de Filosofia (sim ele era) trabalha. Muito supercialmente, é claro. A argumentação é notavelmente bem encadeada ;)

  9. Lauren disse:

    “Hoje em dia, a crítica moderna usa o adjetivo “adulto” como marca de aprovação. Ela é hostil ao que denomina “nostalgia” ou “Peter Panteísmo”. Por isso, em nossa época, se um homem de cinquenta e três anos admite ainda adorar anões, gigantes, bruxas e animais falantes, é menos provável que ele seja louvado por sua perpétua juventude do que seja ridicularizado por seu retardamento mental. Se dedico algum tempo a defender-me dessas acusações, não é tanto porque me importe muito em ser ou não ridicularizado e lamentado, mas porque a defesa tem uma relação íntima com toda minha concepção do conto de fadas e até mesmo da literatura em geral. (…) Quando tinha dez anos, eu lia contos de fadas escondido e ficava envergonhado quando me pilhavam. Hoje em dia, com cinquenta anos, leio-os abertamente. Quando me tornei homem, deixei pra trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto. A visão moderna, ao meu ver, envolve uma falsa concepção de crescimento. Somos acusados de retardamento porque não perdemos um gosto que tínhamos na infância. Mas, na verdade, o retardamento consiste não em recusar-se a perder coisas antigas, mas sim em não aceitar coisas novas. Hoje gosto muito de vinho branco alemão, coisa que tenho certeza que não gostaria quando criança; mas não deixei de gostar de limonada. Chamo esse processo de crescimento ou desenvolvimento, porque ele me enriqueceu: se antes eu tinha um único prazer, agora tenho dois. Porém, se eu tivesse que perder o gosto por limonada para adquirir o gosto pelo vinho, isso não seria crescimento, mas simples mudança. Hoje em dia já não gosto somente de contos de fadas, mas também de Tólstoi, Jane Austen e Trollope, e chamo isso de crescimento; se tivesse precisado deixar de lado os contos de fadas para apreciar os romancistas, não diria que cresci, mas que mudei. Uma árvore cresce porque ganha novos anéis; já um trem não cresce quando deixa pra trás uma estação e ruma para a seguinte, esbaforido. Na realidade, meu argumento de defesa é ainda mais forte e mais complexo. Hoje em dia, para mim, meu crescimento aparece tanto na leitura dos romancistas quanto na dos contos de fadas, pois a verdade é que agora aprecio melhor os contos de fadas do que apreciava na infância: como agora sou capaz de inventar mais, também acabo extraindo mais. Mas não é esse o ponto que quero enfatizar.

  10. Lauren disse:

    Continuação

    Mesmo que o gosto pela literatura adulta viesse meramente acrescentar-se ao gosto inalterado pela literatura infantil, o acréscimo ainda assim, mereceria o nome de “crescimento”, o que não aconteceria se o processo consistisse em simplesmente deixar um fardo de lado e pôr outro sobre os ombros. É verdade que o processo de crescimento, por acaso e por infelicidade, acarreta outras perdas. Porém, não é essa a essência do crescimento, e certamente não é o que faz do crescimento algo louvável ou desejável. Se assim fosse, se trocar de fardos ou deixar estações pra trás fossem a essência e a virtude do crescimento, por que parar na idade adulta? Por que não dar também um sentido positivo à palavra senil? Por que não congratular as pessoas por perderem os dentes e o cabelo? Certos críticos parecem confundir o crescimento com o preço do crescimento, e também gostariam de tornar esse preço muito mais alto do que ele naturalmente deve ser.”

  11. Lauren disse:

    P.S. Eu li esse artigo há alguns dias atrás, depois de ter dito aqui que lia contos de fadas aos 13 anos de idade ..e ainda leio :D

  12. Bruno Mendonça disse:

    Vitor,

    creio que meus critérios são aceitáveis (ainda que ligeiras modificações em minhas definições fossem necessárias), e que nenhuma filosofia (boa) se perde com eles. Filósofos procuram testar e avaliar as consequências de suas concepções de mundo. Portanto, não há filosofia sem argumento.

    Também, até onde vejo, não sou corrigido pelas observações acima postadas por Lauren. Literatura oferece uma capacidade heurística e ilustrativa ao filósofo (os exemplos dados por Carroll são elogiados por isso). Literatura não serve de premissa para argumentos. Pode ser útil para catar verdades, mas convenhamos que não é só da enunciação de verdades (se é que é, em algum sentido) que vive o filósofo.

  13. Lauren disse:

    Caro Bruno,
    não pretendi corrigir o teu post.
    Concordo plenamente contigo quando afirmas que a literatura, e em especial, a literatura fantástica, não é uma narrativa formada por premissas verdadeiras que geram argumentos dedutivamente válidos e corrretos, e sim a narrativa comumente usada pelos filósofos.
    O problema, é que isso me angustia. Digo por que.
    Através dos argumentos dedutivamente válidos, muitos filósofos abordam exaustivamente temas como o conhecimento a priori dos objetos, o incondicionado, a “coisa-em-si”, o mundo das formas….explorando até os limites até onde vai o nosso raciocínio dedutivo. Kant até mesmo “criou” a estratégia teórica da esfera noumênica. Ou seja…ele vai até o limite e ainda brinca com a vertigem que ele causa..tudo dentro da argumentação correta. Bem, muitos críticos o acusam de possuir uma teoria metafísica de dois mundos. Mas isso não importa aqui. O que importa é a vertigem causada (pelo menos em mim) quando nossa razão “joga a toalha” e não tem mais instrumentos para lidar com determinadas questões.
    Tal vertigem, incendeia a minha imaginação. Daí meus posts.
    Como o Vitor disse, essa é uma guerra que não existe.
    Mas fico muito feliz de poder discutir isso com alguém.

  14. Lindka Mariana disse:

    Victor, conhece o grupo ” epistemologia do romance”, da UnB?

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