Jules et Jim

Criança gosta de ouvir toda noite a mesma história antes de dormir. Eu também. Não precisa ser sempre do mesmo jeito, desde que seja bem contada. Eventualmente até conto minha própria história pra mim mesmo, sempre de um jeito diferente. Mas as vezes encontro minha história nas palavras ou nas películas – de algum gênio. O gênio da vez é Truffaut, e a história é o clássico Jules et Jim.
Jules et Jim conta a história de um triângulo amoroso na França, no início do séxulo XX. Com essa fórmula eu poderia apresentar Os Sonhadores, mas esqueça a sonolência cult e ao mesmo tempo hiperativa deste: Truffaut é sensível, poético e trágico. Jules et Jim é uma história sobre amor, fidelidade e fracasso. Sobre liberdade também. E uma das coisas que mais gostei foi ver que é uma história sem vilões, onde qualquer julgamento moral exige a adoção da perspectiva de um dos três personagens principais, com quem o espectador provavelmente se identificará em algum momento – até porque os personagens encarnam certos estereótipos humanos muito gerais, ainda que por vezes suas condutas sejam um tanto excêntricas.
A história é simples: Jules e Jim são dois amigos inseparáveis. Jim é um sedutor e Jules um fracassado com as mulheres. Até que Jules encontra Catherine, por quem se apaixona e com quem decide viver. Mas sobre essa linha de história tão simples Truffaut enriquece infinitamente a narrativa através de um bombardeio poético de sutilezas. Sim, os personagens são riquíssimos e seus modos de responder às situações criam uma trama delicada onde valores como “amizade”, “fidelidade”, “amor” e “respeito” vão se  chocar, se transformar e aparecer sob diferentes perspectivas nas quase duas horas de filme (onde, por pelo menos uma hora, os mais românticos estarão engasgados de angústia).
Através das relações dos personagens Truffaut impõe a reflexão ao espectador: é necessário refletir, junto com Jim, Jules e Catherine, sobre a natureza do amor. Jules e Catherine se casam e vão viver longe do mundo. Tem uma linda filhinha chamada Sabine. Mas o que parece ser um quadro típico de felicidade conjugal e amorosa – que é o clima transmitido na cena em que Jim visita o casal pela primeira vez – é, por força da complexidade dos personagens, uma situação bem mais delicada. Jules é irremediavelmente ingênuo e compassivo. “A solicitude de Jules” conquistou Catherine. Mas como todo ingênuo, Jules é tolo e magoa Catherine sem perceber. Assim, Jules assiste com resignação sua amada Catherine adentrar por um caminho de traição que lhe serve como catarse do ressentimento: quando ofendida, Catherine trai. E se Jules é um tolo, sempre ofende Catherine o suficiente para mantê-la plena de pretextos para a traição.
A reaproximação de Jim e Jules (que haviam se afastado durante a guerra) insere um terceiro elemento fixo que instalar-se-á liquidamente na vida do casal. Até, finalmente, instalar-se também em sua casa e passar a viver como amante de Catherine. Com o beatífico consentimento de Jules que, por amor, cede a própria dignidade.
Catherine, contudo, é uma mulher de difícil convívio. É plenamente lúcida dos próprios desejos, mas completamente fria no que tange ao respeito para com seus dois cônjuges. Assim, é com frieza que ela lidará com o ciúme de ambos, embora ao próprio ciúme ela permita uma manifestação passional. Mesmo Jim começará a ser julgado na balança do ressentimento de Catherine: quando este lhe ofende, é pago com traição.
Jim, finalmente, é o elemento mais razoável do trio. Não é nem o santo nem o libertino. Tem uma espécie de namorada em outra cidade e passa pelo menos metade do filme resolvendo a própria angústia: deve ficar com Catherine ou com sua outra amante? É também através de Jim que compreendemos, em um dos últimos e mais brilhantes diálogos, de que maneira podemos ler essa história de um modo racional: Catherine tem um compromisso consigo mesma e sua aversão à hipocrisia da convenção da monogamia à levou a inventar uma forma de amor. Que também fracassou. Assim, Jim diz à Catherine que não se casará com ela, pois ela não lhe oferece o que pede em troca. Entrevemos, então, como será o final do filme: Catherine tenta matar Jim. Este escapa. Mas não por muito tempo. Em um inocente passeio de carro, Catherine atira o veículo em um rio, suicidando-se e levando Jim consigo.
O filme é riquíssimo e preenchido por reflexões – sempre presentes nos diálogos dos personagens – e narrativas paralelas. Como, por exemplo, a história que Jim conta sobre um soldado que foi seu colega na guerra e que apaixonou-se perdidamente por uma mulher à quem vira uma vez e com quem trocou intensa correspondência nas trincheiras. Esse homem ficou noivo por correspondência e seus sentimentos respeitosos se transformaram em uma paixão avassaladora. Infelizmente ele morreu nos campos de batalha antes de poder viver o amor.
De qualquer forma, vale comentar que no início do filme tive a impressão de que não iria gostar do filme. Que talvez fosse injustificada sua presença em algumas listas de “maiores filmes da história”. Mas a sutileza de Truffaut e sua delicada forma de contar uma história onde a moralidade esteja em um segundo plano diante dos projetos e desejos dos personagens individualmente considerados definitivamente valem as duas horas de atenção – e muitas outras de reflexão.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Jules et Jim

  1. Olá Victor,
    eu confesso que apesar de apaixonada pela obra de Truffaut, esse não é um dos meus filmes favoritos, mas a sua reflexão tem basamento muito bem estruturado. está de parabéns. seu texto é muito bem escrito e a sua visão , muito bem endosada. é provavel que poucos expectadores tenham ido além do amor e da tragédia dessa obra

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