E se o trágico nos abandonasse?

Depois de experiências dolorosas, Creonte compreendeu que aqueles que são responsáveis pela pátria têm o dever de dominar as paixões pessoais; firme nessa convicção, ele entra em conflito mortal com Antígona, que defende os deveres não menos legítimos do indivíduo. Ele é intransigente, ela morre, e ele, esmagado de culpa, deseja “nunca mais ver o amanhã”. Antígona inspirou a Hegel sua meditação magistral sobre o trágico: dois antagonistas se enfrentam, cada um inseparavelmente ligado a uma verdade que é parcial, relativa, mas que, se considerarmos em si mesma, é inteiramente justificada. Cada um está disposto a sacrificar a vida por ela, mas não pode fazê-la triunfar senão pela ruína total do adversário. Assim, ambos são ao mesmo tempo justos e culpados. É a honra dos grandes personagens trágicos serem culpados, diz Hegel. A consciência profunda da culpabilidade torna possível uma reconciliação futura.
Liberar os grandes conflitos humanos da interpretação ingênua do combate entre o bem e o mal, compreendê-los sob a luz da tragédia, foi uma imensa realização do espírito humano; fez aparecer a relatividade fatal das verdades humanas; tornou evidente a necessidade de fazer justiça ao inimigo. Mas a vitalidade do maniqueísmo moral é invencível: lembro-me de uma adaptação de Antígona que vi em Praga logo depois da guerra; matando o trágico dentro do trágico, o autor fazia de Creonte um odioso fascista que esmagava a heroína da liberdade.
Tais atualizações políticas de Antígona ficaram muito em voga depois da Segunda Guerra Mundial. Hitler não proporcionou apenas indizíveis horrores à Europa, ele a espoliou de seu sentimento do trágico.
Seguindo o exemplo do combate ao nazismo, toda a história política contemporânea seria desde então vista e vivida como o combate entre o bem e o mal. As guerras, as guerras civis, as revoluções, as contra-revoluções, as lutas nacionais, as revoltas e sua repressão foram expulsas do território do trágico e expedidas para a autoridade de juízes ávidos de castigo. É uma regressão? Uma recaída no estágio pré-trágico da humanidade? Mas nesse caso, quem regrediu? A própria história, usurpada por criminosos? Ou nossa maneira de ver a história? Muitas vezes digo a mim mesmo: o trágico nos abandonou; eis aí, talvez, o verdadeiro castigo.

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Em A Cortina, de Milan Kundera.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para E se o trágico nos abandonasse?

  1. Adriano disse:

    Hoje somos tomados pelo drama mais bagaceiro que existe. A tendência é entender todo evento como tendo um malvado agindo por trás, e um bonzinho (extremamente passivo de tanto seguir seus princípios de não-maldade) passivamente esperando um terceiro (o justo, o juiz, que é o próprio destino) fazer justiça. A concepção de justiça passa pela passividade para confundir-se com pacifismo.

    Espera-se hoje que no fim o mocinho viva feliz para sempre (para sempre quer dizer: depois do fim, quando já não se narra mais a história, quando o personagem não mais vive), que o bandido pague com dor todo o mal que causou (e essa vingança deve ser imposta por outro, já que o bonzinho não pode, por ele mesmo, ser causa de algum sofrimento). Somemos a tudo isso um determinado conceito de amor (o familiar, que seria representado pela estabilidade do amor entre os conjugues)e temos a tragédia transformada em um drama, a tragédia cristianizada. Mas claro, o drama pode ser mais belo que isto, mas não o drama bagaceiro com o qual tende-se a interpretar o viver moral e a história (do ponto de vista não-filosófico e talvez “da maioria”).

    Enfim, algumas colocações podem parecer exageradas, mas esta questão dá pano pra manga.

    Abraço!

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