Mini-Dicionário Kundera

Assim como um colega que nos apresenta uma espécie de glossário de termos definidos pelo seu autor favorito, faço aqui o mesmo, apresentando treze verbetes que me encantam. Os termos foram encomendados ao romancista tcheco Milan Kundera há algumas décadas. São, no total, sessenta e quatro e constituem o corpo da sexta parte de sua Arte do Romance, publicada no Brasil pela Nova Fronteira em 1988. Recortei treze, quase arbitrariamente. Menos pela substância da definição dada ao verbete do que pela sonoridade da força e do verbete em si mesmo e para mim. Assim, temos definições precisas como a de “romance”, que parece refletir o pensamento do escritor, e temos definições descontraídas como a de “não-ser”, que parece tão descomprometida com a verdade quanto comprometida com a beleza. Negligenciei outros verbetes como “Imaginação”, “Kitsch”, “Leveza”, “Valor” e minha intenção inicial era recortar apenas sete, mas por uma razão ou por outra prefiro compartilhar aqui quase o dobro disso. E apreciem com moderação: a assimilação dessas noções à compreensão particular de mundo ainda gera conseqüências imprevisíveis. Falo por experiência.
Vamos aos verbetes.

Caracteres. Letras impressas. Publicam-se livros com caracteres cada vez menores. Eu imagino o fim da literatura: pouco a pouco, sem que ninguem perceba isto, os caracteres diminuirão até que se tornem inteiramente invisíveis.

Cômico. Oferecendo-nos a bela ilusão da grandeza humana, o trágico nos traz uma consolação. O cômico é mais cruel: revela-nos brutalmente a insignificância de tudo. Suponho que todas as coisas humanas contêm seu aspecto cômico que, em alguns casos, é reconhecido, admitido, explorado, em outros, velado. Os verdadeiros gênios do cômico não são os que mais nos fazem rir, mas os que desvendam uma zona desconhecida do cômico. A história sempre foi considerada como um território exclusivamente sério. Ora, existe o desconhecido cômico da História. Como existe o cômico (difícil de ser aceito) da sexualidade.

Excitação. Não prazer, gozo, sentimento, paixão. A excitação é o fundamento do erotismo, seu enigma mais profundo, sua palavra-chave.

Feio. Após tantas infidelidades de seu marido, tantas histórias penosas com tiras, Tereza diz: “Praga ficou feia.” Tradutores querem substituir a palavra feia pelas palavras “horrível” ou “insuportável”. Parece-lhes ilógico reagir a uma situação moral com um julgamento estético. Mas a palavra feio é insubstituível: a onipresente feiúra do mundo moderno, misericordiosamente velada pelo hábito, surge brutalmente no menos de nossos momentos de desespero.

Idílio. Palavra raramente utilizada na França, mas que era um importante conceito para Hegel, Goethe, Schiller: o estado do mundo antes do primeiro conflito; ou, fora dos conflitos; ou, com conflitos que não passam de mal-entendidos, por conseguinte falsos conflitos. “Embora sua vida amorosa fosse extremamente variada, o quadragenário era no fundo um idílico.” O desejo de conciliar a aventura erótica com o idílio é a própria essência do hedonismo – e a razão de sua impossibilidade.

Inexperiência. Primeiro título considerado para A insustentável leveza do ser: “O planeta da inexperiência”. A inexperiência como uma qualidade da condição humana. Nasce-se uma vez por todas, jamais se poderá recomeçar uma outra vida com as experiências da vida precedente. Sai-se da infância sem saber o que é a juventude, casa-se sem saber o que é ser casado, e mesmo, quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos: os velhos são crianças inocentes de sua velhice. Neste sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.

Ironia. Quem tem razão e quem está errado? Ema Bovary é insuportável? Ou corajosa e comovente? E Werther? Sensível e nobre? Ou um sentimental agressivo, apaixonado por si mesmo? Quanto mais atentamente se lê o romance, mais impossível se torna a resposta pois, por definição, o romance é a arte irônica: sua “verdade” é oculta, não pronunciada, não pronunciável. “Lembre-se, Razumov, que as mulheres, as crianças e os revolucionários execram a ironia, negação de todos os instintos generosos, de toda fé, de todo devotamento, de toda ação!” – Joseph Conrad deixa dizer a uma revolucionária tussa em Sob os olhos do Ocidente. A ironia irrita. Não que ela zombe ou ataque, mas porque nos priva das certezas, desvendando o mundo como ambigüidade. Leonardo Sciascia: “Nada mais difícil de compreender, mais indecifrável que a ironia.” Inútil querer tornar um romance “difícil” pela afetação do estilo; cada romance digno deste nome, por mais límpido que seja, é suficientemente difícil por sua irona consubstancial.

Macho (e misógino). O macho adora a feminilidade e deseja dominar o que adora. Exaltando a feminilidade arquetípica da mulher dominada (sua maternidade, sua fecundidade, sua fraqueza, seu caráter caseiro, sua sentimentalidade etc.), ele exalta sua própria virilidade. Em compensação, o misógino tem horror da feminilidade, foge das mulheres excessivamente mulheres. O ideal do macho: a família. O ideal do misógino: solteiro com muitas amantes; ou: casado com uma mulher amada, sem filhos.

Não-ser. “… a morte ternamente azulada como o não-ser” (O livro do riso e do esquecimento). Não se pode dizer: “azulada como o nada”, porque o nada não é azulado. Prova de que o nada e o não-ser são duas coisas totalmente diferentes.

Obscenidade. Numa língua estrangeira, utilizamos as palavras obscenas mas não as sentimos como tais. A palavra obsceno, pronunciada com sotaque, torna-se cômica. Dificuldade de ser obsceno com uma mulher estrangeira. Obscenidade: a mais profunda raiz que nos liga à nossa pátria.

Riso. Para Rabelais, a alegria e o cômico eram ainda uma coisa só. No século XVIII, o humor de Sterne e Diderot é uma lembrança terna e nostálgica da alegria rabelaisiana. No século XIX, Gogol é um humorista melancólico: “Se examinarmos atenta e longamente uma história engraçada, ela se torna cada vez mais triste”, diz ele. A Europa olhou a história engraçada de sua própria existência durante tão longo tempo que, no século XX, a epopéia alegre de Rabelais se transformou em comédia desesperada de Ionesco que diz: “Muito pouca coisa separa o horrível do cômico.” A história européia do riso fecha seu ciclo.

Romance. A grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência.

Trair. “Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.”

Milan_Kundera

Em A arte do romance, Milan Kundera.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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