A princesa da quinta série

Dias atrás eu fui apresentado à uma canção de um músico brasileiro que fala do envelhecimento de Brigitte Bardot. Aquela que outrora foi uma musa é, hoje, na melhor das hipóteses, uma respeitável anciã. Segundo a canção, parece que Bardot murchou como os nossos sonhos. Também pudera. Décadas são tempo suficiente para desidratar a pele mais lisa e os sonhos mais etéreos.
Mas e o que dizer daquilo que murcha em poucos anos?
Foi o que aconteceu com a princesa da minha quinta série.
O nome dela é Juliana. Quando fui seu colega, eu era um menino gorducho de 11 anos e sem muitos amigos. Ela era uma jovem mocinha de treze, quase quatorze anos. Uma jovem mulherzinha ruiva, de cabelo ondulado, rosto cheio de sardas e olhos verdes enormes. Era, de longe, a menina mais bonita da turma. Repentente, experiente, já havia experimentado cigarro, bebida, e já havia ido para a cama com um garoto. Era a líder moral das meninas da turma. E tinha um carinho especial por mim.
O dia da festa de despedida da turma da quinta-série foi um episódio inesquecível. Cada um dos alunos levou os salgadinhos, os refrigerantes e a professora conselheira, responsável pela turma, coordenou a festa. Ouvimos música. Eu levei o meu primeiro disco, o disco de uma cantora colombiana muito famosa na época, da qual eu gostava muito. E ela também.
Juliana estava lindíssima naquele dia. Estava com os cabelos alisados, uma camiseta branca sem estampa, jeans e tênis. Como eu era um amiguinho agradável, ela deixou que eu lhe fizesse um penteado. Arrumei como pude seu cabelo, prendendo a parte superior na nuca, pra deixar seu rosto mais à mostra. Ela gostou, gostou do disco que eu levei, gostou que eu tivesse lembrado qual era o seu salgadinho preferido. Mesmo assim, Juliana preferia beijar o Roberto à mim. Hoje eu entendo: ele tinha uns quatorze anos também. Ela era uma mocinha, ele era um rapazinho, eu era uma criança.
Foi uma das festas mais tristes na qual já fui, pois quando o tal Roberto sentou ao lado dela, perdi a atenção de Juliana e a razão de estar naquela festa, de ter estudado o ano inteiro, de ter nascido. Tinha vontade de chorar e de fato chorei no corredor, enquanto engolia os salgadinhos com refrigerante. Mesmo assim, voltei para a festa e fingi interesse por outras conversas, sempre atento à Juliana e ao infeliz do Roberto. Era o último dia do ano letivo e eu tinha certeza de que assim como Juliana aparecera naquele ano, desapareceria da mesma forma. Era o último dia que eu a veria.
Permaneci naquela festa por um tempo infinito, mas já eram quase seis horas da tarde e minha mãe ficaria furiosa caso eu não estivesse em casa ao escurecer. Juliana, Roberto e meus colegas mais espertos ficariam na lanchonete da esquina, em frente à escola, até anoitecer. Eu tinha que ir embora. Estava empanturrado de comida e refrigerante, e devia também estar suado de jogar futebol no pátio da escola, com uma bolinha de tênis – hábito que tivemos aquele ano inteiro. Mesmo assim, Juliana me pegou pela mão e me levou para a calçada, para fora da lanchonete. O céu estava ficando de um azul quase escuro e eu tive medo de que ela quisesse alguma coisa comigo. O que eu faria? Afinal, se eu chegasse atrasado por causa dela, seria provavelmente proibido de namorar com ela. Seria o meu primeiro grande dilema, se Juliana não tivesse dito o que disse:

“Faz um favor? Pergunte ao Roberto se ele gosta de mim. Se ele responder que sim, diga que também gosto dele…”.

Bem na hora em que ela terminou de pronunciar a sentença do fim da minha esperança e da minha felicidade, o ônibus que eu pegava para ir para casa estava dobrando a esquina. Eu teria que ir caminhando e, àquela altura, chegaria tarde de qualquer forma. Desejei por um instante que aquele ônibus perdesse o controle e atingisse a lanchonete, que se iniciasse um incêndio onde o maldito Roberto poderia morrer queimado. Mas isso não aconteceu, e eu fiz o que Juliana pediu. A resposta para a pergunta foi um ‘sim’. Como fiz questão de fazê-la bem alto, todos ouviram quando eu tive que dizer que Juliana também gostava dele e que o esperava do lado de fora da lanchonete. Roberto foi ovacionado pelos meninos, mas como era um pouco mais velho, não precisava muito disso. Ele foi lá fora e eu sentei onde ele estava para terminar o refrigerante que ele deixou. Um colega perguntou se eu estava com ciúmes. Eu disse que a amava como amiga, e que era totalmente diferente. Claro que ninguém acreditou, exceto eu mesmo.
Uns dois minutos depois do moleque sair da lanchonete e ir encontrar Juliana, ouviu-se um estalo e vi Juliana sair correndo. Roberto entrou na lanchonete de novo com o rosto vermelho, dizendo que ela era idiota porque não deixara ele fazer certas coisas. Ela havia lhe dado um tapa na cara. Deu-se então uma fervorosa discussão entre os meninos e as meninas sobre o que se devia ou não permitir aos meninos, e em que condições. Eu peguei minhas coisas e praticamente corri atrás de Juliana. Ela corria. Devia estar chorando. Mas morava muito perto da escola e logo entrou em casa sem que eu pudesse fazer nada.
Não tive coragem de bater na porta, e inventei, durante a semana seguinte inteira, que tinha de ajudar os colegas em recuperação. Só para poder passar duas vezes por dia em frente a casa de Juliana. Mas ela não apareceu na escola, nem na janela, nem nunca mais na minha vida.
Evidentemente com a sexta-série deve ter advindo um outro amor, bem como na sétima e na oitava. Mas Juliana sempre teve um espaço especial na minha memória porque foi o amor mais puro que eu já tive, praticamente o paradigma do verdadeiro amor a partir do qual pesei e medi todos os outros amores platônicos que tive na pré-adolescência. E porque não admitir que um resquício desse platonismo romântico perdura até hoje? A maior prova disso foi a reação que eu tive quando revi Juliana.
Cerca de dez anos depois da quinta-série, tornei-me professor. E voltei à escola onde estudei com Juliana. Nestes dias, as lembranças remetiam à muitas outras coisas, não à ela. E não, eu não a vi durante o período em que dei aulas naquela escola. Foi justamente no último dia, quando tive de retirar os últimos documentos referentes à minha formatura que, ao parar em frente à escola para terminar meu cigarro, eu a vi.
Em frente à escola há um posto médico público, onde as pessoas são emergencialmente atendidas ou então agendam consultas com especialistas. O típico posto de saúde onde as pessoas tem de chegar muito cedo para ter a chance de ser atendidas. E lá estava Juliana. Quase não a reconheci. Pesava uns vinte quilos a mais do que deveria e pesava da última vez que a vi. Tinha os lindos cabelos ruivos tingidos de um louro vulgar e que já revelavam quase um palmo de raiz ruiva, um louro nojento que transformava sua constelação de sardas em sujeira. Usava uma roupa de dona-de-casa. Segurava em um dos braços um bebê ruivinho e uma menina sardenta e de cabelos muito compridos, sem forma, corria pelo pátio do posto. Juliana brigava com a menina e falava de um modo inacreditavelmente grosseiro. Tenho certeza de que me viu, quase posso ter certeza de que me reconheceu, mas certamente preferiu não cumprimentar um pateta que, ao sentir as pernas fraquejarem, recostava-se ao muro e tentava sentar-se à calçada.
O que havia acontecido?
Teria sido culpa daquele moleque chamado Roberto?
Ou seria, sobretudo, minha culpa?
Porque eu não bati na porta da sua casa aquele dia? Porque não tentei continuar sendo seu amigo? Não poderia tê-la salvado de se tornar uma jovem mãe gorda e vulgar? E não poderia, principalmente, ter salvado a mim mesmo de ser alguém que quase desmaia quando vê a princesa da quinta-série transformada em uma dona-de-casa aos vinte-e-poucos anos?
Depois desse episódio, vi Juliana pelo menos umas dez vezes. Por volta da quinta ou sexta vez, ela sorriu e me cumprimentou. Ela havia me reconhecido, ela lembrava quem eu era. Cumprimentei com satisfação e sorri, como se ao sorrir para aquela mulher estivesse mandando um recado secreto, de um menino apaixonado que nunca cresceu para uma mocinha ruiva que nunca existiu.

Freckles

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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4 respostas para A princesa da quinta série

  1. luciana' disse:

    muito bom (:

  2. ronairocha disse:

    Talento assim não se desperdiça, ouve bem.

  3. Marina disse:

    Ai Vitor. Que lindeza.

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