Ensaio Sobre a Cegueira

Depois de um longo período exposto à obra romanesca e ensaística de Milan Kundera, me permiti a leitura de um romance que ganhei de presente e que provavelmente jamais teria conhecido não fosse esse o caso. Trata-se de Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.
José Saramago (1922-) é um escritor português que eu só conhecia de ouvir falar o nome, de saber que era um daqueles gênios socialistas que a militância em geral admira sem provavelmente tê-lo compreendido. Lembro-me incusive de ouvir dizer que estivera presente ao lado de outro guru canhoto – Eduardo Galeano – em uma das edições do Fórum Social Mundial, discutindo o tema da utopia. Por fim – e este é o referencial mais curioso – lembro-me que um desses militantes autômatos me recomendara um de seus livros como referência de boa literatura. Lembro que li o livro. Que não gostei e que sequer gravei na memória seu título (hoje desconfio que seja A Jangada de Pedra, de 1986). A culpa de meu esquecimento não é provavelmente senão minha, não de Saramago. É possível que eu não estivesse em condições de compreender sua mensagem.
É evidente que a perspectiva a partir da qual eu li o romance de Saramago é a perspectiva sugerida por Milan Kundera. Kundera nos sugere que o único valor que um romance pode possuir é o de descobrir um novo território da existência, desvelar uma novidade – ou uma trivialidade, ainda que de forma nova – intrínseca da condição humana. É uma postura que aproxima-se da tradição fenomenológico-existencialista, seja em seu vocabulário ou em sua mentalidade. De qualquer forma, ouso dizer que Saramago atende a essa exigência de nosso autor tcheco.
Alinhando-se à estética contemporânea, Saramago compõe um romance de personagens sem nome, de localização indefinida. São pessoas ocidentais em uma cidade ocidental, eis tudo. É o que se pode constatar através da leitura do romance. Sua prosa é refinada – e por ser um escritor de língua portuguesa, garante certamente horas de deleite puramente estético aos falantes da língua. É uma prosa densa de descrição marcada por uma preocupação poética constante: Saramago não ousa nos privar de sua constante opinião, de seu juízo, de sua visão de mundo, de sua moral. Uma Weltanschaung delicada e poeticamente dissolvida na descrição que mistura a negligência para com o frívolo com a trágica atenção em relação ao que o autor julga essencial.
O enredo parte de uma idéia simples que, segundo o pouco que li sobre o livro na internet (prefere-se falar do filme de Fernando Meirelles, adaptação do romance realizada em 2008), Saramago alinha-se com aquele tipo de ficção que herda o espírito kafkiano, onde o surreal e o absurdo se fundem nos oferecendo um mundo nos limites do verossímil: uma epidemia de cegueira inexplicável acomete, rapidamente, toda a humanidade.
A história é centrada em um grupo de personagens que se caracteriza por ser um dos primeiros grupos à ser condenado à um exílio por parte do governo, medida tomada como precaução diante de uma epidemia inexplicável e incontrolável. O exílio como medida de segurança revela-se um malogro no decorrer do romance, na medida em que a cegueira espalha-se incontrolavelmente pela população. Contudo, a narração dos eventos que sucedem-se dentro do exílio ocupa pelo menos dois terços do romance, e é este o espaço em que se desenrolam os fatos que revelam possibilidades humanas hediondas: condenados à cegueira e exilados em um manicômio, cercados por militares armados e apavorados com a possibilidade de seu próprio contágio, os personagens revelam uma possibilidade hedionda da convivência humana. Disputas mortais por alimentos, abuso sexual e impossibilidade de higiene são apenas alguns dos elementos que Saramago traça para revelar a fragilidade da noção de dignidade humana. Apegados à restos de sua herança civilizada, os cegos ainda tentam manter algum respeito pelos mortos embora a própria substância da sociabilidade da comunidade de cegos pareça ser, como sugere Saramago, um misto de inércia e covardia que leva à uma conclusão que me parece marcada por uma pitada de teoria marxista: apenas quando a situação se torna insustentável – isto é, converte-se em contradição real – as coisas parecem resolver-se por si mesmas. Em termos de história, Saramago expressa essa conclusão através do incêndio do manicômio realizado pelos próprios cegos quando estes são oprimidos por um outro grupo de cegos, armados com paus, ferros e uma arma de fogo e que decidem monopolizar o alimento, condenando os outros cegos à inanição caso estes não lhes oferecessem as riquezas materiais e também suas mulheres.
Uma das personagens principais – a mulher do oftalmologista cego – distingue-se do grupo por ser aparentemente a única pessoa que conservou o dom da visão dentro da epidemia. Sua capacidade de ver entre os cegos auxilia a manutenção de um arremedo, uma sombra de ordem social que se estabelece dentro do exílio. A mulher do médico esconde sua distinção por uma série de razões que podemos sintetizar em uma espécie de medo do ressentimento da comunidade cega que provavelmente a escravizaria de diversas formas podendo, quiçá, dar cabo de sua vida caso essas exigências não fossem atendidas. Assim sendo, o dom da visão não a impede de ver o manicômio transformar-se em um caos completo, chafurdando na imundície e na merda dos cegos já sem possibilidade de saciar suas necessidades mínimas de asseio. Também não consegue evitar o estupro e a morte de uma das mulheres abusadas pelo grupo de cegos opressores. Finalmente, mesmo que tenha conseguido dar cabo do líder do cego opressor, a mulher do médico não conseguiu sozinha derrubar a ditadura dos cegos opressores, detentores de toda a comida restante após o contágio dos soldados que desapareceram das guaritas onde mantinham os cegos sobre controle. Foi preciso que uma cega incendiasse o sistema por dentro, causando o colapso e libertando a comunidade – composta por pessoas doentes e enfraquecidas – da opressão.
Uma vez libertados, os cegos voltam às ruas. O grupo conduzido pela mulher do médico depara-se com uma cidade sem ordem, onde cegos vagam feito fantasmas, abrigando-se como podem. Nem uma sombra da antiga ordem e civismo restara: saques às lojas restantes constituiam a principal ocupação de cegos que não dispunham mais do meio tecnológico ou mesmo de saneamento básico. As ruas eram lentamente contaminadas pela mesma imundície do exílio e algumas pessoas incapazes de disputar a existência nas ruas resignava-se a viver em suas casas, comendo desde carne crua à lixo. Em um esforço mártir, a mulher do médico conduz o grupo até sua casa, onde tentam por alguns dias conviver com as migalhas de subsídios deixados pela sua antiga vida. Por pelo menos duas vezes, Saramago faz menção ao interesse de organização: seja intrínseco à condição humana, seja um resíduo da vida civilizada, as pessoas precisam e querem se organizar em sociedade. Mesmo que habitem os limites da humanidade, os homens não querem voltar à ser animais.
O desfecho do romance lembra-me resenhas que li há muitos anos sobre o filme Magnólia, de Paul Thomas Anderson: o filme – um drama absolutamente verossímil – é concluído por uma inexplicável chuva de sapos. Os críticos não hesitaram em dizer que era uma maneira de P.T.A. concluir um filme de três horas que já havia perdido muitas vezes a possibilidade de um desfecho com clímax. Saramago leva os personagens à uma igreja onde as imagens de santos foram vendadas, o que possui um significado muito metafórico, muito vago. Após o retorno dessa expedição, o grupo de cegos conduzido pela mulher do médico recupera a visão. Uma a uma as pessoas voltam à enxergar. Fenômeno que podem observar estar acontecendo também nas ruas, onde a população, num pásse de mágica, recupera a visão. Neste exato instante, a mulher do médico perde a visão. E o romance termina.
A cegueira, aliás, é branca: as pessoas não se vêem imersas em escuridão, mas em uma claridade pálida, leitosa. Tudo fica branco quando alguém é acometido pela cegueira de Saramago. Seria esse elemento alguma espécie de simbolismo que minha ignorância é incapaz de interpretar? Um simbolismo ainda menos vago do que as vendas sobre os olhos dos santos? A mensagem da cegueira final da mulher do médico é clara? São questões que suponho resistentes mesmo à uma releitura, uma vez que o texto não é denso de reflexões, mas de descrições. Saramago não nos questiona mais do que nos revela: somos constituídos de um tal modo que, caso todos ficássemos cegos, nos transformaríamos em coisas absolutamente distintas. Nossos horizontes mais sólidos – a civilidade, a dignidade, a honestidade – não resistiriam à uma queda súbita do dom da visão caso essa queda não fosse individual, mas coletiva. O dom da visão nesta obra de Saramago, aliás, não me parece senão uma espécie de dom maldito, através do qual se pode constatar de maneira ainda mais nítida a miséria humana, a fragilidade de nossa realidade. Quero propositalmente evitar a interpretação política do texto, as possíveis leituras classistas a partir das quais sempre é possível deduzir máximas para a ação, uma moral de Bem e Mal onde o texto se resolveria. Por respeito à poesia prefiro manter as questões – ou mais precisamente a minha ignorância acerca do suposto simbolismo que ventila o texto – abertas e resguardar à Saramago um direito ao mistério que, penso, o qualifica como autor e faz dele o compositor de uma das mais cativantes obras que já li. Não apenas um texto belo – coisa que Ensaio Sobre a Cegueira consegue ser – mas também um texto com um valor: o valor de, ao modo de um Kafka ou um Camus, nos revelar possibilidades tão desagradáveis de nossa condição que exigem a invenção de nossas próprias respostas.

Pretendo assistir ao filme de Meirelles. Surpreendeu-me ver no cast os nomes de Julianne Moore e Gael Garcia Bernal, pois ver tais nomes me faz esperar belas atuações. Surpreendeu-me ainda mais ver que Saramago parece ter realmente gostado da adaptação cinematográfica de seu romance, o que é raro entre escritores e praticamente impossível às pessoas que preferem preferir os romances a fim de pagar a si mesmos com distinção a dura pena de ter cedido algumas horas à leitura. As palavras de Saramago à Meirelles podem ser vistas aqui:

Fica a recomendação.

Atualização: Quando escrevi sobre o romance ainda não havia assistido ao filme, como se vê. Como essa pré-postagen já tinha uns cinco meses, acabei assistindo ao filme nesse meio tempo. Infelizmente tenho que admitir que o filme é de uma sensaboria ímpar, chegando ao ponto de eu não ter conservado na lembrança senão algumas poucas cenas. Obedecendo ao imperativo cult e pseudo-intelectual de preferir a obra romanesca a cinematográfica, sugiro que leiam o livro e não percam tempo com o filme.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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