O gato morto da UFSM

O escândalo sobre o gato morto da UFSM esgotou minha paciência. É nessa hora que um quase-filósofo e quase-vegetariano tem vontade de enfiar algumas “idéias” nas cabeças das pessoas. À marteladas.
Matou-se um gato na UFSM. Gente das ciências rurais. Até aí, tudo bem, a mesma crueldade de sempre para com os nossos irmãos terráqueos irracionais. A parte irritante é justamente a comoção pública para com o gatinho: diz-se que pessoas chegam ao ponto de ameaçar o assassino do gato. Obviamente ninguém quer bater nos açougueiros.
Sim, estou irritado e cansado desse tipo de discussão, então não vou fazer nenhuma argumentação ampla ou exposição de teoria ética que englobe animais. Quero apenas expressar minha irritação com a hipocrisia velada em nossa cultura, que produz a granel acadêmicos – isto é, a elite intelectual da sociedade – que não tem forças intelectuais pra fazer um raciocínio simples e, antes de chamar alguém de assassino, olhar para o próprio umbigo – ou para o próprio prato: será que a vaquinha feliz da caixa de leite correu sorrindo e mugindo alegremente para o moedor de carne, ávida por virar guisado?
Certa vez um amigo jornalista me disse que é importante que as pessoas se comovam com crianças arrastadas por ladrões de carro, crianças que são atiradas pela janela, etc., porque mesmo que as pessoas prefiram não atentar para o fato de que essas coisas também acontecem quando NÃO passam na Globo (e que também acontecem com gente mais pobre) é importante que se comovam, é um sinal de que ainda possuem um senso de moralidade, ainda que nebuloso, ainda que julguem de forma incoerente, com dois pesos e duas medidas – um para gatinhos fofos e outros para a picanha da vaca.
Eu, que vivi por pelo menos dois anos a perspectiva moral do vegetarianismo – e que respeito profundamente essa moralidade por sua coerência – fico impaciente quando vejo esses escândalos: escandaloso é que a “mentalidade” das sociedades na história marche de forma tão lenta. Não vou dizer que uma adesão ao vegetarianismo é sinônimo de progresso, mas vou respeitar e entender se alguém disser que é. Vou aceitar se disserem que a humanidade, dentre outras coisas, marcha lentamente para um vegetarianismo que emerge como aspecto de uma consciência cada vez mais “global”. Enquanto isso, vou ter satisfação em discutir – e eventualmente irritar – as pessoas que se comovem com gatinhos enquanto saboreiam um peito de frango. Aliás, penso que esse é um dos meus papéis enquanto quase-filósofo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Fábulas Para Entristecer, Filosofança e marcado , , , , . Guardar link permanente.

9 respostas para O gato morto da UFSM

  1. Susie disse:

    A questão não é a morte do gato e a morte dos bichos pra alimentar os não-vegetarianos. O gato foi torturado. Esse é o problema. Ninguém tem o direito de torturar outro ser vivo.

  2. Saulo disse:

    “nossos irmãos terráqueos irracionais”. Já tá ofendendo a bicharada, creio que não ser racional não implica, necessariamente, em ser irracional.

    Há alguns dias, foi noticiado que um açougue clandestino que engordava e abatia cachorros e gatos (de rua) foi descoberto pela vigilância sanitária em SP. O mesmo fornecia carne para restaurantes chineses, igualmente clandestinos. A reação foi a mesma, pessoas revoltadas e bla bla bla. Dizendo que abater cães e gatos p/ alimentação era um crime etc.

    Primeiro. Não é crime comer carne de cachorro ou gato no Brasil, nossa constituição, felizmente, ao contrário de algumas pessoas, é mais racional. Se é permitido comer uma ovelhinha, um porquinho etc, qual é o problema de comer carne de cusco? Crime são os maus tratos (isso se for possível abater um bicho sem mal tratá-lo) e a falta de higiene no preparo da ‘especiaria’ etc. Não me agrada a ideia de comer meu cachorro (por questões culturais), mas não há pq não come-lo se faço o mesmo com outros animais não humanos.

    Aqui, não é preciso entrar na questão de que se é moralmente aceitável fazer churrasco com animais não humanos, não é essa a questão, mas para quem gosta de saborear uma costela de gado, se vê impedido pela lógica em querer colocar na cadeia alguém que goste de costela de gato… Enfim, isso já está me dando fome.

  3. Victor disse:

    Acho que quando não se trata de lei, mas de moral, “direito” é uma coisa que a gente “se dá”: como o direito de se comover, por exemplo. Ou o direito de “achar que”. Assim sendo, Susie, enquanto tu se dá o direito de achar que “ninguém tem o direito de torturar”, eu me dou o direito de achar que “ninguém tem o direito de matar”, independentemente da cota de tortura ou cuidado. Posso até argumentar pela frente ou pelos fundos: “não tenho o direito de tomar uma vida porque não a produzi”. Ou então “não tenho o direito de tirar uma vida porque isso daria à outro o direito de tirarem a minha”, etc. Quero dizer, no fundo, que o acento na tortura ou na morte se funda meio que “no nada”, é meio que uma opção injustificável que eu faço acerca do quão longe eu me permito ir no que tange a ferir a existência de outro ser vivo.

    Acho que isso responde também ao Saulo, que viu que meu ponto aqui é a falta de coerência e não tanto a moralidade.

    No fundo, quero dizer que quando uma moralidade se funda na afetividade – e essa questão revela fundamentos afetivos da nossa moralidade – ela torna-se relativa e, portanto, incoerente e inútil. Ou mais que isso: perigosa – afinal, a legislação eventualmente se constrói sobre a moralidade. Hoje ainda “nos damos o direito” de preferir o gatinho que a vaca. A conversa, porém, fica feia e politicamente incorreta quando lembramos que ontem preferíamos o homem branco ao negro, ao vermelho, ao amarelo e mesmo à mulher (branca, negra, vermelha ou amarela) e isso por si já bastava não apenas para fundamentar a legalidade inteira, bem como para contaminar de racismo e sexismo os nossos paradigmas científicos.

    Pra finalizar, faço referência à um velho tcheco de quem muito me agradam seus romances: falar de especismo e coerência só incomoda – isto é, podemos nos dar o direito de não pensar nisso – porque não houve ainda uma só espécie que nos pusesse no espeto (lembremos que quando um homem puxou a carroça de outro homem a louvável Razão humana usou os argumentos que foram necessários para enganar a si mesma e dizer que aquele puxador de carroça não era exatamente um homem).

  4. Felipe disse:

    O gato foi torturado, por pessoas que deviam zelar pelo bem estar dele. Quem faz isso com um gato faz tb com um ser humano. É preocupante, deviam ser expulsos.

  5. Silvana disse:

    Victor…
    gostei da tua opinião. O que particularmente me irrita nessa história é ver toda uma mobilização por causa de um gato. É claro que sou contra maus tratos a animais, mas as mesmas pessoas que choram pelo gato não tem o mesmo comportamento se vissem uma criança de rua sendo mal tratada. Por que os maus tratos a animais comovem mais do que o próprio sofrimento humano? é isso que não consigo entender.

  6. Bruno Mendonça disse:

    Olá, Victor

    Gostei do post. Parece haver uma crítica importante aqui, e numa primeira leitura me convenceu. Mas como não me convence mais, gostaria de um esclarecimento.

    Você aponta uma incoerência nos indignados. Que incoerência é essa? Parece se tratar de uma incoerência na escolha de seus princípios morais, mas não vejo o que você denuncia. Universalidade nas leis morais não é necessariamente uma questão de coerência e não parece ser o caso aqui (me parece que essa é uma crítica da Anscombe a universalidade das máximas morais na ética kantiana – é possível ser universal sem ser maximamente geral).

    “Acho que isso responde também ao Saulo, que viu que meu ponto aqui é a falta de coerência e não tanto a moralidade.”.

    Com relação a moralidade concordo: se se salva o gato também se salva o gado. Se se trata de coerência, não preciso concordar: se se salva o gato, não necessariamnete preciso salvar o gado.

    Mais uma vez, bom post.

    Abraço, Bruno.

  7. Victor disse:

    Sempre bom vê-lo por aqui, Bruno. Ainda devo à você e à Lauren uma exploração mais rigorosa da idéia de que um texto literário pode ser um bom lastro para demonstração de uma teoria filosófica.

    Contudo, por agora, preciso pedir que tu me explique melhor onde tu “não vê” incoerência. Não sei se o caso seja exatamente de incoerência na escolha do princípio – a escolha do princípio me parece, em certo sentido, além/aquém da coerência. Me parece que apenas o próprio princípio é que pode ser “incoerente”, isto é, não-racional (não necessariamente irracional como diz o Saulo).

    O que me parece incoerente é que haja um princípio moral “para gatos” e outro “para vacas”. Cheguei a pensar que estava exagerando ao atribuir o status de “princípio moral” à indignação coletiva em torno do assunto, mas o fato é que acho que é válido sim dizer que as pessoas estão “achando moralmente errado” o que foi feito do gato. Mas não estão “achando errado” o que se faz nos açougues, e tal.

    Estou partindo de uma posição que coloca a vaca no balaio do gato, que procura circunscrever um conjunto de elementos que tenham algo em comum – a saber, a sensibilidade à dor (ou senciência, como prefere o Garmendia). É claro que admito a possibilidade lógica da adoção de uma moral que salve o gato mas não a vaca pelo simples fato de que seu princípio seja “afetivo”. Só que acho que uma moral desse tipo é problemática enquanto torna praticamente impossível que dela se deduzam preceitos para a ação ou esquemas de julgamento de situações.

    No fundo e em certo sentido, estou julgando a moralidade comum a partir de meus próprios valores. Acho que vale dizer que sei estar cometendo um equívoco: esta postagem não tinha o fito – como ela própria anuncia – de ser “filosófica”, mas é bom que tu tenha aparecido e trazido a questão ao plano a que ela pertence e onde ela talvez possa se resolver. Não era pra ser filosófica porque estou fazendo vista grossa para um fenômeno muito comum que pode ser levado em conta nesse caso: o auto-engano. Pois no fundo eu sei que as pessoas que “se comovem” estão se comovendo “de verdade” a partir de suas próprias perspectivas morais. O que estou tentando fazer aqui é apenas mostrar que essa perspectiva moral pode ser vista a partir de outra na qual fazer diferença entre uma vaca e um gato é uma contradição. A própria postagem é uma manifestação de indignação à comoção daqueles que nunca pensaram o bem-estar animal ou, pior ainda, daqueles que o pensaram, ignoraram essa problemática e agora julgam moralmente esse caso como se, em certa perspectiva, não pudessem ser acusados de cumplicidade para com esse crime.

    Estou considerando a possibilidade de compor toda uma nova postagem sobre o assunto e reiniciar a discussão. Mas, reitero, peço que tu me mostre como “não ver” essa incoerência, pois essa discussão me interessa em muito: não a da moralidade, mas a da coerência. :)

  8. Bruno Mendonça disse:

    As escolhas das pessoas não são tão transparentes quanto se gostaria. Tenho certeza que concorda comigo: qualquer raciocínio prima facie equivocado é corrigivel com adição de informação (ainda que isso implique em uma total deturpação do “pensado” – nunca sabemos ao certo…). O primeiro passo aí seria perguntar a um dos indignados o porquê de sua indignação, esperar que essa pessoa seja capaz de ler suas próprias intuições, e comparar a resposta com suas outras crenças captáveis (trabalho nada fácil). Apenas uma má reflexão pode dar um resposta “incoerente”. mas nenhuma resposta pode ser igualada diretamente ao que a pessoa pensa. Se as pessoas são incoerentes? Não sei te responder. Eu tendo a pensar o mesmo que você: é tudo uma questão de má-fé.

    Um abraço, Bruno.

  9. Rafa disse:

    Vítor, sou eu o Rafa! =P
    Parabéns pelo tópico! Bem, eu não sou vegetariano e sou Zootecnista. E nada! Nada pode justificar as atitudes dos estudantes se realmente ocorreu a tal barbárie. Mas na comunidade da UFSM tem cada comentário infeliz. Falam até do jeito que matam os porcos, discutem regras de português! Como se ninguém fosse inteligente o bastante pra saber o que o outro quis dizer. Tá uma bagunça aquilo. Até esqueceram do gato. =P Acho que se já foi feito a denúncia do caso, resta a entidade responsável resolver. E quem garante que os relatos afirmados, foi mesmo o ocorrido. Sabe-se muito bem da disputa entre Veterinários e Zootecnistas pelo espaço. O Zootecnista sempre como açogueiro, e Médico Veterinário anjos da guarda dos animais. Que a justiça resolva o caso. E para aqueles que gostam de falar… achem o que fazer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s