Låt den rätte komma in

Depois de assistir pela terceira vez, decidi me pronunciar sobre o belíssimo Låt den rätte komma in (Deixe Ela Entrar, no Brasil). Acho que o filme merece uma menção especial simplesmente porque é o único filme onde vi uma temática pela qual tanto me interesso – vampiros – receber, enfim, o tratamento que merece.
Antes de falar sobre o filme, é preciso evitar algumas injustiças: Drácula de Bram Stoker, Entrevista com o Vampiro ou A Sombra do Vampiro são filmes que me agradam e não poderiam ser comparados aos divertidos enlatados sobre vampiros que, há pelo menos uma década, não cessam de perverter uma das mais ricas e belas metáforas que conheço para a reflexão acerca da própria condição humana. Mesmo assim, esses filmes obedecem uma lógica estética que acaba acostumando o espectador, uma lógica própria do cinema americano. Espectador que certamente é surpreendido por produções do tipo de Låt den rätte komma in. Positiva ou negativamente.
Låt den rätte komma in é adaptação de um romance de John Ajvide Lindqvist. Lançado no ano passado, tem aproximadamente duas horas de duração. Mas é extremamente lento, denso e a belíssima fotografia simplesmente encanta tanto quanto exige a atenção do espectador que, diante de um filme sutil e no qual é preciso intuir e deduzir muito (porque o romance parece ter sido adaptado na medida em que um “mistério” poderia ser preservado como ingrediente essencial do filme), poderá se deleitar com a delicadeza da arquitetônica de composição fílmica ou, nos primeiros vinte minutos, cansar e deixar o filme.
O enredo é tão simples quanto comum: uma menina vampira e um menino humano se tornam vizinhos e se envolvem em um relacionamento afetivo perigosíssimo à ambos. Ela – chamada Eli – vive em uma misteriosa relação com um atrapalhado lacaio, responsável pela “alimentação” da pequena (sim, vocês podem imaginar o que faz um lacaio de vampiro). O garoto – chamado Oskar – é o típico garoto solitário atormentado pelos colegas malvados. Através da afeição que vão construindo um pelo outro, Eli e Oskar vão se servindo do que o outro pode oferecer: Oskar e eli parecem ser a única opção mútua de escapar da própria solidão.
Na medida em que a história se desenrola, algumas questões são completamente veladas pela direção, mas constituem o mistério que tempera o filme e lhe dá uma atmosfera especial, ímpar no gênero. Não saberemos nada sobre o passado de Eli ou sobre sua relação com seu lacaio; não saberemos sequer que Eli é um menino castrado e não uma menina – informação presente no romance de Lindqvist em passagem que mostra o passado de Eli. A relação de Eli com seu lacaio – que espero que também seja mais explorada no romance – é tão misteriosa que me deixa com a inescapável sensação de que Oskar não está livre do mesmo destino do pobre senhor que sacrifica sua moralidade, sua dignidade e sua própria vida pela pequena vampira. Contudo, o mistério – aspecto praticamente ausente de qualquer produção “americana” do gênero – não deve ser o ingrediente principal, mas talvez seja o maior mérito estético da direção no que tange à adaptação cinematográfica da obra. No mais, a boa e velha temática moral subjacente à ficção vampiresca será ricamente explorada, como na passagem em que, depois de sofrer com a cruel brincadeira de Oskar não permitir que a vampira entre em sua casa (lugar-comum da mitologia vampiresca onde o vampiro só pode entrar em lugares aos quais é convidado), Eli consegue mostrar ao menino que o Mal que ela representa também reside nele próprio e que talvez esse Mal precise mesmo ser melhor explorado pelo garoto para sua própria sobevivência diante dos moleques malvados da escola. Ou seria antes uma maneira da pequena monstrinha acostumar Oskar com a mentalidade necessária à um lacaio que deverá cometer os delitos que ela própria detesta praticar? Em outra cena, veremos Eli atacar um inocente em busca de seu sangue e chorar depois de matá-lo. A mesma Eli que trata com impaciencia e crueldade a incapacidade do atrapalhado lacaio em obter seu alimento. Palpite? Talvez o fato de que Eli seja uma criança-vampira esteja diretamente relacionado com os próprios limites de seu amadurecimento: Eli confessa ter doze anos “há muito tempo”, e crianças de doze anos definitivamente não são o melhor modelo de sujeito moral: aquilo que parece crueldade talvez não passe da impulsividade própria de uma pré-adolescente presa à condição de viver de sangue para toda a eternidade.
O filme não apresenta nenhuma redenção possível para Eli e Oskar, e as situações parecem convergir para desenlaces que não se resolveriam de forma não-violenta de qualquer maneira – embora as demonstrações de violência da vampirinha cheguem à extremos: os pequenos inimigos de Oskar serão violentamente esquartejados por Eli, e a genialidade da direção fará com que essa sequência seja o mais densa e dramática possível, e que as cenas de seu desenlace sejam delicadamente sutis, nem um pouco óbvias ou vulgares. Não vemos nenhuma cena de agressão, mas seus grotescos resultados, coroados com a troca de sorrisos do casal protagonista. Sobre seu futuro não saberemos quase nada, exceto o fato de que fugirão para algum lugar, em uma seqüência final que, como tudo no filme, se mostra impecável: Oskar vai embora em um trem com Eli dentro de uma caixa, onde conversam por código morse como conversavam enquanto eram vizinhos. O que será feito de Oskar? Como ele conviverá com Eli? Por quanto tempo? Essas perguntas não me ocorreram – e penso que talvez nem deveriam – nas duas primeiras vezes em que assisti o filme, dado que aquela fuga na verdade era a salvação de ambos. Uma salvação do avesso, uma salvação apenas possível por uma certa aceitação desse elemento intrínseco às histórias de vampiro, o Mal.
Em termos estritamente estéticos, o filme é bastante agradável. A paisagem escandinava evoca a melancolia que combina perfeitamente com o enredo. A escolha dos atores parece muito feliz: Oskar é suficientemente exótico para encarnar o papel do menino estranho. A jovem Lina Leandersson tem um olhar raro, fortíssimo, e sua expressão realmente consegue passar a impressão de alguém que vive há muito, muito tempo; em suma, possui um rosto que não precisa falar nada para dizer tudo. A trilha sonora aparece só quando necessária, e não corremos o risco de ver uma sequência de filme sabotada por uma canção genial de um Radiohead ou de um R.E.M., por exemplo.
Para finalizar, acho bobagem a apologia do cinema alternativo e a depreciação do cinema americano (poucas coisas poderiam me divertir tanto quando trilogias como Matrix, Star Wars – os novos, por favor – ou O Senhor dos Anéis). Mas confesso que fico preocupadíssimo em saber que está sendo realizada uma refilmagem de Låt den rätte komma in. Já não bastando a saturação do cenário vampiresco com enlatados como Crepúsculo ou True Blood, poderemos ver uma obra verdadeiramente artística e poética degenerar em entretenimento adolescente de qualidade duvidosa. Reservo-me então o direito de ler o romance e esperar que esteja pelo menos à altura de sua adaptação cinematográfica. De qualquer forma, Låt den rätte komma in é uma excelente sugestão não apenas para quem se interessa por histórias de vampiros. Aliás, eu arrisco dizer o contrário: Låt den rätte komma in é um filme que provavelmente agradará muito menos o público de produções vampirescas do que aquele interessado em um bom filme.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Låt den rätte komma in

  1. quemsera disse:

    Poderias ter iniciado a postagem com a advertência: não leia tudo, caso não queira saber o final do filme.
    No entanto, nesse tipo de filme, tipo de filme bom, no caso – não que filmes bons não precisem de enredo e filmes ruins sobrevivam disso, mts vzs é simplesmente o contrário – o próprio modo no qual se desenrola a história, juntamente com a bela fotografia, o final não é tão mais importante do que o começo.
    De qualquer forma, creio que algo merece uma menção honrosa, que a interpretação da bela jovem Lina Leandersson, que realmente parece ser mto mais velha do que é. A interpretação dela é incrível, não que a de Oskar não seja, mas quem vê o filme dificilmente não se encantará com ela.. Enfim, não tenho muito o que dizer, mas concordo que possivelmte seja um filme que agradará mais aos não fanáticos por vampiros do que a esses, ainda que seja a melhor interpretação em cinema dessa metáfora tão rica. Como tu mesmo disse, não desmereço outros filmes, inclusive os citados, mas esse creio que toma por uma perspectiva pela qual eu não lembro de ter visto ainda.

  2. Victor disse:

    O romance não existe em português, por enquanto. No mais, sugestão anotada. E realmente não avisei que o texto continha spoilers, mas isso foi meio que de propósito. Por fim… Estou com medo da adaptação, porque nem todas as adaptações são o Vanilla Sky. Mas, paciência.

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