Treasure

Já que eventualmente eu falo de música aqui no blog, faria mais sentido – dentro de meus gostos e interesses – falar do novo disco do Editors, onde eles decidiram virar uma banda de darkwave para provavelmente cessarem as comparações ao Interpol. O disco, aliás, é muito bom. Contudo só vou falar dele daqui a uns 20-25 anos, quando toda essa nova safra do indie rock que é revival do post-punk estiver sendo cultuada por um novo revival, quando os dois álbuns do Joy Division já tiverem 50 anos de história. Agora preciso falar do terceiro disco de uma série de três que ouvi tão compulsiva quanto apaixonadamente, e encerrar a série de três postagens que iniciei há alguns meses e não terminei.
Obviamente estou falando do Cocteau Twins.
Cocteau Twins é Elizabeth Fraser. Elizabeth Fraser é sua voz de anjo, uma voz que não encontrará par no cenário post-punk, dominado por jovens rapazes perturbados com suas vozes de trovão. E pra mim o álbum Treasure, de 1984, encerra a história do Cocteau Twins – que lançará mais uma série de discos, mas se afastará completamente da temática sombria e densa que marca seus trabalhos iniciais.
O primeiro disco é mais cru, mais simples, mais tosco. As primeiras músicas chegavam a ser puramente assustadoras, perturbadoras. O segundo disco ganha uma injeção de sensibilidade e se torna profundamente melodioso, abrindo e fechando o trabalho com canções altamente emocionais. O terceiro não me agrada tanto quanto o segundo, eu confesso. Mas também tenho que admitir que o senso estético do Cocteau Twins está mais apurado do que nunca – e, em minha opinião, como não voltará a estar depois – e a banda consegue compilar nesse disco uma dezena de canções muito bem pensadas. Embora não seja tão perturbador quanto Garlands nem tão intenso quanto Head Over Heels, Treasure é muito mais artístico e muito mais bem-feito do que os anteriores, embora represente uma perfeita continuação – uma evolução – dentro da linha atmosférica, sombria e densa do post-punk. Aliás, o termo “post-punk” só se aplica muito genericamente ao Cocteau Twins, em um sentido mais histórico do que melódico: suas canções, por sua sonoridade, são melhor classificadas sob as alcunhas de “dream pop” ou até mesmo, para alguns, de “shoegaze”. O que faz sentido e fará ainda mais em Treasure: as guitarras esticadas, atmosféricas, compõem um clima onírico insuperável, ímpar no gênero. A voz de Fraser está amadurecida e suas proezas vocais não tem comparação. A sexta canção do disco, “Amelia”, sem nenhum exagero, é uma das melhores canções que já ouvi em toda a minha vida.
Por fim, como não pretendo voltar a falar tão cedo dessa jóia quase-secreta dos anos 80, cabem algumas considerações acerca da história da banda.
Embora os discos que comentei aqui tenham sido lançados no início dos anos 80, a banda existiu desde o ano de 1979, e durou até 1997. Contudo, a banda não possuiu uma formação regular, sendo eventualmente formada apenas por Liz Fraser e seu marido Robin Guthrie. A separação de Fraser e Guthrie pode mesmo ser considerada um fator decisivo para o término definitivo da banda no final dos anos 90. Os Cocteau Twins lançaram dez discos de estúdio e mais um sem-número de compilações, ao-vivos e etc.
Alternativamente os discos mais recentes podem ser melhor apreciados, na medida em que, coo já foi dito, a atmosfera post-punk se dissolveu e permitiu que a banda pudesse realmente desenvolver uma estética própria. Minha predileção por esses três discos, esses três momentos desse acontecimento ímpar na história recente da música, é simplesmente pelo fato de que provavelmente nenhuma banda cantou aquele momento crítico e de desconfiança para o futuro – ou mesmo para sua possibilidade – com tanto lirismo e melancolia. Isso, por si mesmo, já seria um bom argumento para que muitos não ouçam os discos. Mas recomendo uma breve e atenta escuta, uma rápida entrega aos acordes que preenchem o ambiente para que a fada da voz de Liz Fraser possa dançar pelo ar.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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