Perspectivismo

– Mas esse filme é ridículo!
– Por quê?
– Porque a União Soviética não era assim!
– Você estava lá?
– Ora, claro que não. Mas eu li a respeito.
– Os autores que você leu descrevem uma outra União Soviética?
– Totalmente diferente!
– Mas certamente há autores que endossam a visão desse filme…
– Sim, autores igualmente ridículos!
– Ridículos por quê?
– Ridículos porque mentem, ora! Porque oferecem uma visão mentirosa da União Soviética!
– Mas como você sabe que é mentirosa? Você estava lá?
– Ora, eu já disse que não. Mas as coisas não eram assim, posso citar dez autores que oferecem uma outra visão da União Soviética.
– Oposta à do filme, presumo.
– Sim. Diametralmente oposta.
– E eles são bons por que apresentam essa outra perspectiva?
– Não… Mas porque dizem a verdade.
– Mas como você sabe que é verdade?
– Olha, eu não sei onde você quer chegar com essa conversa.
– Só acho que não são as informações que te convencem. Acho que você já está convencido e, a partir daí, classifica as informações em boas ou más.
– Eu acredito na verdade.
– Que verdade?
– A verdade dos fatos.
– Você não estava lá.
– Muitos estiveram e testemunharam a verdade.
– Ou testemunharam fatos e expuseram interpretações?
– As coisas só podem ter acontecido de uma forma!
– No entanto, há mais de uma perspectiva sobre os acontecimentos…
– Sim. E uma delas é certa, a outra é errada.
– Certa é a perspectiva daqueles que concordam com a sua?
– Não, o contrário! A minha perspectiva é que se une à daqueles que tem a perspectiva correta!
– Que você, no entanto, não consegue me mostrar por que é a correta.
– Os autores que li são melhores do que o diretor desse filme patético.
– Melhores segundo os seus critérios.
– Melhores segundo os critérios corretos!
– E o que são esses critérios corretos?
– Ora, o de dizer a verdade!
– Mas como você sabe que é verdade?
– Você já me perguntou isso.
– Mas você não me respondeu.
– Como não?
– Você perguntou onde eu queria chegar com essa conversa. E eu disse que você já estava convencido da sua verdade, e que a partir daí julgava fatos, critérios, tudo.
– Certo, você quer que eu diga que não tenho nenhuma razão para crer no que creio, que decidi acreditar naquilo que me interessa e que no fundo eu decidi até o que é a verdade, é isso?
– É.
– Mas por quê?
– Porque se você admitir que sua política é uma espécie de preconceito ou mania, que não se justifica por razão nenhuma, não vou mais precisar assistir à filmes tão idiotas quanto esse, ou ouvir sua ladainha. Aliás, passar bem.

Semelhanças com a realidade nunca são mera coincidência.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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