A marcha

O filósofo alemão G. W. F. Hegel dizia que o Espírito tem figuras e momentos, que evolui segundo certa lógica, que amadurece sobre trilhos determinados. Para este filósofo, contudo, o Espírito não era algo que se reduzia à uma simples consciência individual: era o sentido da própria História e se manifestava na cultura.
Muitos leitores do pensamento contemporâneo tem dificuldade de compreender um Espírito assim concebido, pois partem da premissa de que o homem, em sua individualidade, é o fundamento da História. Um Espírito Absoluto parecerá, a estes filósofos, como uma aberração exagerada; uma abstração que não explica, descreve ou sequer ilustra nenhum movimento necessário, seja da cultura e da história dos povos, seja da psicologia de um indivíduo. A fatalidade de um movimento que se desdobra de forma lógica e necessária parece contra-producente, contra-intuitiva ou, em última instância, inútil ao viver e ao filosofar.
Confesso que tenho grande dificuldade em ver o mundo pela ótica hegeliana, pois sou um filho do final do século XX e fui untado com o espírito contemporâneo. Do lugar de onde minhas raízes se espalham pelo solo, explicar a História por uma lógica necessária parece não mais do que raciocinar a partir dos próprios interesses, forjar pretextos pouco convincentes, mas suficientes para a ação. Mas se estou tão condicionado pela minha posição histórica, não acabo escorregando novamente para o grande sistema hegeliano? Não será justamente esta sua grande mensagem, sua grande herança?
Eu não sei responder à essa pergunta, pois não sou mais filósofo do que, talvez, psicólogo – e eu não sou psicólogo. E confesso que as grandes revoluções da História não poderiam me encantar mais do que as pequenas revoluções dentro de uma alma. Talvez tais revoluções sejam, como pretende Hegel, expressões de uma mesma dimensão transcendental, metafísica, etc. Proíbo-me, contudo, de pensar dessa forma: apelar para uma instância dessa natureza é flertar com uma espécie de mitologia racional a partir da qual o homem pode, cedo ou tarde, esquecer da própria responsabilidade, responsabilidade por sua própria existência.
Contudo, percebo hoje que a idéia de trilhos de lógica e necessidade pelos quais o espírito – individual ou coletivo – possa evoluir não é, afinal, uma idéia contraditória à idéia de responsabilidade. É perfeitamente possível conceber uma seqüência de momentos pré-destinados à uma vida humana, pois esses momentos serão, em última instância, responsabilidade de cada um. Se uma moça decide casar e ser uma boa esposa, descortinar-se-á todo um caminho entre ela e seu ideal. Caminho que ela própria irá compor, que trilhará ou não se quiser. Pois é mesmo possível estagnar em um momento do amadurecimento, é possível mesmo viver até o último dos dias estacionado em qualquer ponto entre o projeto e sua realização. Definir-se pela frustração, por exemplo: se a moça viver o fracasso do amor nesse casamento, pode definir-se pela frustração. Mas o que se deve fazer depois da frustração? Pode-se superá-la ou ela é o fim de um caminho? Não poderia existir apenas uma resposta para essa questão.
A marcha entre o presente e o ideal inatingível é concebível, desde que se atente para a infinita pluralidade de formas que essa marcha pode assumir. As incontáveis formas que assume – tão incontáveis quanto foram, são e serão as pessoas do mundo – podem fundar toda a incompreensão que permeia as relações dos homens. Pois se cada um elege seu ideal e dispõe os próprios trilhos, a coletividade seria impossível. Essa é uma das razões, penso, por que surgem os padrões de comportamento. Mas isso é assunto para uma outro momento.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para A marcha

  1. JoãoB disse:

    Muito interessante, acho que a idéia merece ser explorada. Talvez, até, ela não seja tão estranha ao próprio Hegel, talvez a lógica hegeliana não implique necessariamente em um determinismo da ação individual, ou em qq outro determinismo. Mas o problema, é claro, é o absoluto. Sem ele, poder-se-ia dizer que, se há uma necessidade, ela é retroativa, só surge quando organizamos a ação em meios e fins. Isso soa sartreano? rsrsrs

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