Clarissa – Epílogo

Eu estaria correto em simplesmente matar Clarissa? Justamente Clarissa, a personagem que mais me ensinou durante os últimos anos? Acho que posso dar um destino mais justo e digno para essa tão querida personagem.
Vejo Clarissa mais velha. Como já vimos, Clarissa decide viver ao lado de seu pai. Isso é um fracasso, certamente. Mas como Camus alertava Sartre sobre a questão do absurdo em sua obra, o fracasso não precisa ser uma conclusão entorpecente, mas justamente o ponto de partida para um novo começo.
Vejo Clarissa mais velha, e conversando sobre as mesmas coisas com seu pai. Está sentada na areia da praia, olhando o mar. É dia, e é a primeira vez que consigo visualizar Clarissa sob a luz do sol novamente. Seu pai lhe traz uma bebida e juntos, em um longo silêncio, olham as ondas. É Clarissa quem quebra o silêncio.
“Sabe pai… Nunca entendi de verdade a história do ressentimento como origem de nossos valores.”
A confissão de Clarissa surpreende seu pai. Praticamente o choca: como ela havia ascendido tanto em meio à essa incompreensão fundamental? Evidentemente, expressar espanto não era do feitio do pai de Clarissa e ele preferiu explicar à filha pela última vez, mas como se fosse a primeira.
“Como não entendeu? É extremamente simples, filha. O ressentimento é a vingança dos covardes. Perceba: quando algo lhe fere, seu impulso é o de se vingar, certo? O covarde não pode efetivar essa vingança, então essa dor simplesmente não se esvai. Permanece ardendo na alma. Contudo, a vingança dos covardes – que sempre andam em bando, lembremos que isso é um sinal para reconhecê-los – é a criação de valores que possam constranger os corajosos naquilo que eles acabam ferindo os fracos. Se você quer decidir sobre o que seja certo e errado, preste atenção se não há uma mágoa ou um rancor na origem dessa decisão. Você sabe, as pessoas agem assim o tempo todo…”.
O pai de Clarissa escolhia o vocabulário de modo calculado. Não usava forte e fraco, que apontariam para uma dimensão inata do ser humano. E ser forte ou fraco em essência é sem dúvida a maneira mais simples de se eximir da responsabilidade sobre as próprias ações. Falando em coragem e covardia o pai de Clarissa criava uma atmosfera de arbítrio sem a qual era impossível pretender resultados em sua educação que supunha já estar completa.
O que o pai de Clarissa escondia era que a opção pela coragem ou pela covardia era indiferente à quem sabia que criava os próprios valores: ora, que valor em si mesma pode ter a coragem inventada por um corajoso, senão aquele que este lhe atribui? E se, ao contrário, a covardia fosse preferida à coragem, com que argumentos poderia o pai de Clarissa condenar a própria filha?
Clarissa continuava olhando o mar e seu pai sabia que aquele olhar expressava o movimento de uma força irresistível, que nem ele nem Deus podiam conter: a liberdade de Clarissa. Se ele era afinal astuto em promover à filha uma educação imoralista virtualmente perfeita, era completamente impotente diante da possibilidade dela adotar uma escala de valores oposta à dele. A liberdade de Clarissa poderia, como uma brisa, desmontar o castelo de cartas das idéias de seu pai.
Mas Clarissa já não precisava disso. Outrora ficaria angustiada, pois percebia de forma intuitiva que a liberdade sem a força é antes uma maldição do que uma benção. Agora, contudo, sabia que a força era construída pela coragem, e não uma condição metafísica e secreta para esta. Foi assim que Clarissa teve força e coragem para, durante seu último momento de amor com seu pai, afogá-lo nas águas do mar. E partir, para sempre, para uma outra vida.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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