A má-fé e o amor (ou o amor e a má-fé) de André Gorz

Um dia depois de desejar um feliz ano novo aos leitores e de enviar um artigo sobre a má-fé em Sartre para a II Jornada Regional de Pesquisa na Pós-Graduação em Filosofia – UFSM, descubro quase que por acaso a melhor ilustração que já vi de um projeto existencial pelo próprio sujeito que o vivencia. Trata-se de um trecho de Carta a D., de André Gorz, um dos tantos pensadores que se afrancesaram por força do existencialismo de Sartre. O livro, gentilmente emprestado pelo camarada Sanfelice, é poético, de uma lucidez notável. O que me faz pensar cada vez mais que o pensador que viveu de modo menos sartreano foi o próprio Sartre.
O livro todo é bonito – desde sua capa, em forma de envelope. Mas o conteúdo não fica atrás: André Gorz revisa em menos de oitenta páginas em fonte grande sua vida e seu relacionamento com sua mulher, com quem viveu décadas e cuja morte o levou ao próprio suicídio como ato último de amor. Em termos filosóficos, a passagem que mais me impressionou foi na metade do livro, quando Gorz volta sobre si mesmo sua análise existencial, demonstrando claro conhecimento acerca do instrumental teórico da psicanálise existencial sartreana. Eis a passagem:

“Até 1958 ou 59, eu estava consciente de que, ao escrever Le Traître, não tinha liquidado meu desejo ‘de ser Nada, ninguém; inteiramente dentro de mim mesmo, não objetivável e não identificável’. Consciente o bastante para notar que ‘essa reflexão sobre mim mesmo necessariamente confirmava e prolongava a escolha undamental [da inexistência], logo não podia esperar alterá-la’. E isso não apenas porque essa reflexão não me envolvia, mas também porque eu não me envolvia nela de verdade. Tinha decidido escrever na terceira pessoa para evitar a cumplicidade – a complacência – comigo mesmo. A terceira pessoa me mantinha à distância de mim mesmo, me permitia elaborar, numa linguagem neutra, codificada, um retrato quase clínico do meu jeito de ser e de funcionar. Esse retrato era freqüentemente feroz e carregado de escárnio. Eu evitava a armadilha da complacência para cair nesta outra: me comprazia na ferocidade da autocrítica. Eu era o puro olhar invisível, estranho ao que vê. Transformava aquilo que conseguia compreender de mim em conhecimento de mim e, com isso, nunca coincidia com aquele Eu que eu conhecia como Outro. Esse ensaio não parava de afirmar: ‘Veja, sou superior a quem eu sou’.”

André Gorz estava, como se poderia dizer sartreana-mente, de má-fé: queria ser o próprio nada, como a maioria dos anti-heróis lúcidos de Sartre, como Mathieu Delarue ou Antoine Roquentin, de Idade da Razão e A Náusea respectivamente. Anti-heróis porque na pena de Sartre essa lucidez é sempre antes uma grande capacidade de auto-crítica acompanhada de uma incapacidade incorrigível para a ação – que não é de todo mau, convenhamos, quando a idéia de “ação” será identificada posteriormente à de “revolução”. Gorz demonstra, contudo, que a lucidez não é suficiente para expurgar a má-fé de um projeto: reconhecia o próprio projeto e continuava vivendo este projeto reconhecido. Cometia o equívoco da reflexão impura, de supor que o auto-conhecimento é uma possibilidade, e reconhecia esse equívoco logo em seguida. Contudo, a única redenção possível para um sujeito com manias de ver a si mesmo pelas lentes tortas do filósofo estrábico, a conversão pela ação, não foi realizada. E, em certo sentido, não foi realizada até o fim da vida do pensador. Arrisco dizer: até o momento de seu suicídio. E o relato de Gorz é comovente ao mostrar como, em cada estágio de sua vida, ele reinventava a maneira de dedicar-se às letras, relegando sua amada Dorina à um segundo plano. Que ela fosse condição para seus escritos, que o amor do casal fosse condição para a obra de Gorz é aceitável. Contudo, isso não significa, por razão alguma, que o amor que Gorz destinava à Dorine fosse adequado ou suficiente à essa mulher que passou a vida inteira incentivando-o a viver seu projeto de escritor/escrevedor, não importando o quanto de desatenção e negligência para com a relação isto implicasse.

De todo modo e a despeito de meus juízos desarrazoados e interesseiros sobre a história de Gorz e Dorine, o livro nos oferece alguns momentos de beleza poética que justificam a boa-vontade com que se torna possível a leitura do livro, principalmente para aqueles que, como eu, sentem uma espécie de azia diante das biografias que relatam a libertinagem de Sartre e Beauvoir. Aqui alguns recortes que carinhosamente seleciono e que penso ilustrarem o amor mais autêntico do que o do casal Sapo-Castor, bem como o tipo de relação, exigência, expectativa e visão que Gorz tinha de sua amada Dorine:

“Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si.”

“A precisão das lembranças que eu guardo me diz a que ponto eu o amava, a que ponto nós nos amávamos.”

“Você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda; meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo.”

“Tive dificuldades com o amor (ao qual Sartre dedicou umas trinta páginas de O Ser e o Nada), pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras.”

“Acho que precisava mais do seu julgamento do que você do meu.”

“Você ia se desenvolvendo sem essas próteses psíquicas que são as doutrinas teóricas e os sistemas de pensamento. Eu precisava dessas coisas para me situar no mundo intelectual.”

Se Gorz realmente negligenciou as exigências que um amor traz consigo e a despeito disso compreendeu a si mesmo como uma pessoa que viveu um grande amor, não será essa história uma das mais belas realizações de um projeto de má-fé que se pode ler? E não é um privilégio poder lê-la nas palavras do próprio sujeito consciente (reflexivamente consciente, ora pois!) da própria má-fé? Eu penso que sim, e que a existência contraditória e instável que é a má-fé, resistente mesmo ao poder da mais lúcida reflexão, não pode ter nada de intrinsecamente “ruim” ou “feia” em si mesma. E que esse suicídio de Gorz, por mais ultra-romântico que seja, por mais que seja uma forma de redenção pessoal do próprio Gorz, é um dos atos de amor mais belos que já tive o prazer de encontrar na história das humanidades e dos relacionamentos amorosos.

Citações retiradas de Carta à D., Andre Gorz. Tradução de Celso Azzan Jr. São Paulo, Annablume Cosac Naify, 2008.

PS: Que 2010 seja um ano de muita má-fé para todos nós.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para A má-fé e o amor (ou o amor e a má-fé) de André Gorz

  1. É um livro muito bonito mesmo – há quem prefira romances impossíveis entre vampiros e emos, príncipes e plebeus, etc., mas os filósofos suicidas estão mais para o meu gosto. O ponto, você encontrou: “Se Gorz e Dorina pudessem viver outra vida, viveriam juntos.” Liberdade (abdicada?) maior que essa eu desconheço. E vamos marcar uma cerveja quando tiveres tempo, indicação sempre há uma que outra, pode ser? Apareça, Abraço!

  2. Andreabla disse:

    Parece estranho comentar um post antigo, mas não consigo pensar em maiores razões para não fazê-lo. Gostei muito da análise sobre Carta a D. Estou lendo e relendo o Gorz desde 2007 e me parece que sempre “esqueço” sua abordagem filosófica. Reconheço minha má-fé de aceitar as fronteiras tão delimitadas entre a filosofia e a sociologia. Tentei encontrar um texto antigo também postado num blog que tínhamos feito uma amiga e eu sobre o mesmo livro, mas a fim de debater se poderia um marxista amar, mas não pude encontrar. Nosso interesse nessse “tema” esdrúxulo e impopular – ao menos para a sociologia – tinha surgido porque a autocrítica mais severa de Gorz no livro referiam-se sobre seu “período” marxista. O livro Le Traite, que está referido na sua primeira citação dele, marca a “conversão” de Gorz ao marxismo. Foi Sartre inclusive quem escreveu o prefácio do livro.
    Nunca pensei no suicídio como redenção, mas sim como escolha. O livro, para mim, sempre foi a redenção.
    Talvez tenha entendido errado, mas pareceu-me que você apontou que ele se suicidou após a morte dela, quando, de fato, dado a doença incurável dela, os dois se suicidaram juntos. Esse fato não altera a vivacidade do seu ensaio que me fez pensar seriamente que há muito mais de Sartre em Gorz do que costumo pensar. Só agora me vem a percepção de que a mesma crítica de irracionalista é feita a Gorz… Humm. Refletirei mais sobre isso.

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