O sentido da Traição

Ontem eu disse uma frase na qual, hoje, reconheço uma certa dose de erro. Disse exatamente que “ações expressam princípios, logo quem nada pede à ninguém demonstra interesse em não ser perturbado”. Então um amigo filósofo me fez perceber que com isso eu ignorava simplesmente toda a dimensão da análise existencial do comportamento. E embora eu tenha demorado para encontrar, acabei achando onde estava o erro de minha proposição. Vejamos.
Ontem eu tive o des-prazer de ler sobre um estudo que está sendo publicado e cujas conclusões me causam um extremo desconforto: mesmo que a psicóloga Maryse Vaillant me ofereça supostas razões para que eu traia sem remorsos qualquer mulher com quem eu venha a me envolver, penso que o uso que ela parece fazer da psicologia não só é problemático em termos teóricos bem como as possíveis conseqüências sociais e culturais de uma aceitação de sua obra só podem ser as piores possíveis. Vaillant afirma que a infidelidade masculina é psicologicamente compreensível e mesmo recomendável, pois é apenas uma expressão da manutenção de um “espaço” da masculinidade, uma maneira do homem cultivar sua própria individualidade e, assim, se dispor de uma maneira mais adequada na própria relação com a esposa. Vaillant vai mais longe: o homem que não trai tem uma fraqueza de caráter derivada da ausência de uma figura masculina na infância. Assim, leitoras, se seus maridos e namorados não as traem isso não significa que eles lhes tenham amor, mas apenas que estão tentando ser os pais que nunca tiveram.
O exemplo é emblemático e nele podemos, pensando à partir de Sartre, visualizar a mesma estrutura do equívoco que eu cometi. E qual seria esse erro? Simples: ações sempre expressam princípios, valores ou algum tipo de norma para a ação. Até aí tudo bem. O problema é que o mesmo comportamento empiricamente constatável pode expressar coisas completamente diferentes. Isto é, se alguns homens traem porque lhes falta o referencial paterno, é metade ingenuidade e metade cinismo quando uma mulher divorciada à vinte anos propõe uma fórmula que explique a tendência à traição com “problemas com o pai na infância”.
Preciso confessar que tenho um interlocutor com o qual já proseei algo sobre psicanálise, e que quase posso ver seus olhos à correrem por sobre estas linhas, a pensar: “Vítor, Vítor… se tu soubesse o alcance da proposta dessa mulher e a porcentagem de casos que ele explica corretamente, pensaria duas vezes antes de atacar essa psicóloga…”. Contudo, como não estou mais interessado em estatísticas do que em metafísica, afirmo que meu papel de quase-filósofo é justamente o de mostrar que pode-se acertar pelas razões erradas. Voltemos à minha modesta frase.
A primeira parte da frase procede: ações expressam uma dimensão mais fundamental de uma individualidade. Contudo, a maneira que os motivos, fins e valores hão de se organizar no interior de uma individualidade habita uma região ontológica que escapa ao determinismo, a saber, uma região chamada liberdade. Dessa forma, assim como a infidelidade pode estar relacionada à inumeráveis motivos, a atitude de pedir ou não pedir coisas à pessoas definitivamente expressa um conjunto de motivos, valores e finalidades, mas nada determina que neste esquema vamos encontrar um desejo de não ser perturbado: e se a atitude de não solicitar nada à ninguém puder ser a maneira individual de realizar precisamente a solicitude? E se a infidelidade estiver sendo praticada por uma pessoa que quer terminar um relacionamento mas prefere dar ao companheiro uma série de razões objetivas para que este tome a decisão de terminar simplesmente porque acha sofrível arcar com a responsabilidade de pura e simplesmente não querer mais o envolvimento? Não pode a infidelidade ser explicada pelo desejo de realizar uma sexualidade que não se satisfaz com o parceiro? E a mulher que aceita uma relação aberta, é de um caráter forte ou uma pervertida? Certamente não haveria espaço suficiente para os exemplos que são tão inumeráveis quanto são inumeráveis os indivíduos. Milan Kundera, meu querido romancista predileto, tem uma seção de sua Insustentável Leveza do Ser dedicada apenas à análise dos códigos existenciais de seus personagens e, para a alegria de qualquer quase-filósofo, demonstra como a traição assume formas completamente distintas nas vidas de Franz e Sabina.
(É irônico, porém: se por um lado é risível explicar de modo determinista os comportamentos a partir de complexos familiares, a própria análise existencial de Milan Kundera não escapa à regra da relação com as figuras paterna e materna: Sabina inicia seu apreço pela traição como um estilo de vida traindo justamente seu pai, Franz pensa que se referindo elogiosamente à própria mãe faz uma apologia da fidelidade que o torna interessante à Sabina.)
A adequada explicitação das razões pelas quais os projetos constituem-se de forma diferente em cada pessoa humana – isto é, de porque “pessoas fazem as mesmas coisas por motivos diferentes” ou “fazem coisas completamente opostas por motivos idênticos” – exigiria a demonstração filosófica da tese sartreana segundo a qual “não existe nada entre o motivo e o ato”. Exigiria, em suma, uma nova postagem, mais rigorosa e argumentativa. Encerro concluindo que talvez seja mais interessante àquele que não quer que lhe solicitem nada que seja explícito a esse respeito, pois não ter o hábito de solicitar o outro não pode significar apenas o desejo de não ser perturbado pelas mesmas razões que a infidelidade pode, afinal, significar diversos projetos.


Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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4 respostas para O sentido da Traição

  1. JoãoB disse:

    hahahahahahaha!
    é uma tese… engraçada, a dessa moça.

  2. Silvana disse:

    Gostei da tua reflexão, Vitor.Traição é um tema muito interessante…Não gosto do peso cristão e pecaminoso que se confere a ela. Qual o sentido da traição? difícil responder.

  3. Caro Victor Hugo

    Que em 2010 possamos ajudar a construir uma nova era de paz, amor, felicidade, mudanças e avanços para todas as pessoas. Uma nova era de afeto, respeito e tolerância para com as diferenças!
    UM FELIZ ANO NOVO PRA VOCÊ!

    Francisco Júnior D. Paiva

  4. Cristina disse:

    Olá,

    Guardadas as devidas proporções de possíveis debates, é muito inteligente e original a maneira como você relacionou os dois temas (ato de trair/ser infiel com ato de agir/e seus motivos).
    Cara, te digo, quase filósofo é do que precisaríamos em nossa sociedade, principalmente entre os jovens brasileiros imersos nessas conversas de comadres que é esses Big Brothers e Fazenda da vida…. Parabéns! (Cris: Letras/USP!)

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