Porque eu prefiro Milan Kundera

Há uma denúncia que Gerd Bornheim faz da filosofia de Jean-Paul Sartre que poderia se aplicar quase perfeitamente à literatura de Milan Kundera: o fracasso de suas categorias só acontece porque existiria na pena deste pensador, desde o princípio, a admissão da possibilidade do sucesso.
Penso que Bornheim via na obra de Sartre uma espécie de “fim da metafísica”. Sem o medo de cometer um exagero, é como se Bornheim visse na obra de Sartre o colapso do projeto metafísico iniciado em Platão. Em Sartre todas as categorias da metafísica tradicional simplesmente fracassam: a intersubjetividade se torna impossível em um mundo onde o homem é um sujeito que lida necessariamente com tudo o que existe, sobretudo com a alteridade, sob o registro do objeto. A moral colapsa porque os valores objetivos não tem direito de cidadania em um mundo de sentido erigido sempre na solidão de uma individualidade. A própria ontologia problemática de Sartre, em certo sentido injustificável, não é senão uma espécie de exploração de um fracasso intrínseco à ontologia hegeliana onde a síntese última é impossível e o homem jamais participará do Ser senão se constituindo como seu perpétuo contraditório. Uma compreensão adequada de si do sujeito humano por ele mesmo está para sempre comprometida em função de uma concepção da condição humana como movimento intencional, onde o “eu” apreendido, por força de um lapso temporal constitutivo da realidade humana, não é e não será jamais o eu que vive a experiência da análise. Quando Sartre se aproxima do marxismo podemos ver nisso mais do que um desejo de ação: é uma rendição à Hegel, último momento onde a filosofia pode ser considerada enquanto esforço teórico comprometido com um fim humano universal; uma última tentativa de Sartre de escapar de fato do niilismo do qual o existencialismo era acusado.
Se esse comprometimento com o progresso da humanidade torna a filosofia mais pragmática, também faz com que perca um elemento central do seu próprio charme. A filosofia deixa de ser uma finalidade em si mesma para ser, no caso de Sartre, um instrumento à serviço do homem, do povo, das massas, do proletariado – e mesmo do intelectual envolvido com o povo, “engajado”.
Não penso – respeitando mesmo um espírito sartreano – que a filosofia deva ser charmosa nem tampouco engajada. Acho e espero continuar achando – mantendo minhas idéias do mesmo modo que apenas os mais tolos e os mais sábios conseguem não mudar de opinião – que há uma liberdade fundamental sobre a qual se funda a filosofia. Prefiro, contudo, o charme da ontologia fenomenológica de Sartre do que a preocupação prática de sua dialética marxista. Infelizmente, a ontologia fenomenológica fracassa, é a própria filosofia do fracasso. E o tipo de exigência que o mundo da cultura direciona à filosofia não destina um lugar privilegiado à filosofias bonitinhas mas inúteis. Meus queridos Schopenhauer, Nietzsche e Sartre servirão muito mais como apoio de indivíduos desajustados do que como programas para a ação coletiva. Tendo em vista as conseqüências políticas de ações inspiradas ou apoiadas por tais pensadores, prefiro mesmo que as coisas se passem assim.
O que tem o romance de Milan Kundera a ver com tudo isso?
De início, é possível visualizar nos romances de Milan Kundera um tratamento literário para temas filosóficos por excelência, a saber o temas elencados no início deste desto. Isto é: não há um só tema sartreano aqui mencionado que não seja, em certa medida, explorado por Milan Kundera. O colapso da intersubjetividade é ilustrado de forma brilhante nas páginas em que o romancista tcheco nos mostra a incapacidade humana de comunicação (“As Palavras Incompreendidas” de A Insustentável Leveza do Ser ou “A Fronteira” de O Livro do Riso e do Esquecimento); o fracasso da moralidade objetiva expresso no tema recorrente da relatividade de todos os valores humanos (tema que preenche toda a primeira fase de sua obra romanesca através da exploração das intenções e das conseqüências do comunismo); o malogro do conhecimento de si através da incapacidade que mesmo os personagens mais lúcidos tem em perceber para onde estão indo com suas escolhas (Sabina, heroína da Insustentável, descobre talvez tarde demais que construíra uma vida de completa solidão); a fragilidade da identidade pessoal (não é o rosto, o nome ou os gestos de Agnes que a distinguem das outras pessoas). A lista seria extensa e exigiria um exame mais apurado do que estou disposto à fazer.
Prefiro Milan Kundera pela sua inteligência. Porque fala dos temas que me interessam de uma forma que me agrada: através da ilustração, a literatura ensina. Como diria Paul Ricoeur, a literatura é mais interessante que a História dos historiadores quando consegue explorar possibilidades existenciais. Essa é a opinião de Milan Kundera, essa é a moral de seu romance e a única possível em sua opinião.
Eu não sou um conhecedor da literatura. Li alguma coisa de autores próximos da filosofia e solicitados por esta. Já abandonei mais de um romance por sua pobreza de espírito – ou mais provavelmente pela minha pobreza de espírito e, sobretudo, por preguiça. Já cheguei a pensar que gostava mais de literatura do que de filosofia por força da atração que as páginas desse velho tcheco louco – e anda vivo – exerciam e exercem sobre mim. Já não tenho certeza sobre isso. Sei que prefiro Milan Kundera pelo pensador que seus romances revelam, pensador que não se exime de aparecer no cenário de seus personagens, que rejeita rótulos, que principalmente não pensa que seu romance seja um fracasso porque sabe, de antemão, que as coisas não fracassam por não ultrapassarem suas próprias possibilidades.
Quero, com este texto, encerrar um ciclo de postagens sobre a obra de Milan Kundera. Um ciclo que caracterizou por mais de dois anos este espaço, e que caracterizará enquanto ele existir uma vez que é das páginas de Milan Kundera que ele retira seu nome. Quero encerrar convidando àqueles que tenham um temperamento niilista, melancólico e/ou irônico à mergulhar brevemente nas páginas desse gênio tcheco e, com Sabina, Tomas, Agnes, Ludvik, Jaromil, Tamina, o estudante que é Litost em forma de gente e outros tantos personagens queridos, acompanhar as possibilidades da existência humana que a imagem das vidas e das escolhas que esses personagens ilustram através da mais refinada técnica romanesca, onde cada parágrafo será denso e dinâmico.
Penso que é sensato fazer um último alerta, para evitar a frustração do eventual leitor aventureiro: quando visitar o universo de Milan Kundera, lembre-se da máxima que pode ser obedecida por todos aqueles que não querem se comprometer com a grande marcha da humanidade em direção ao progresso: não ultrapassar as próprias possibilidades não é fracasso. Embora passar a vida inteira tentando fazê-lo seja, talvez, o mais comum modo humano de existir. Por ter permitido que eu visse isso antes que fosse tarde, prefiro Milan Kundera.

Milan Kundera nasceu na República Tcheca, em 1929, e emigrou para a França em 1975, onde hoje vive como cidadão francês.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Porque eu prefiro Milan Kundera

  1. Kaline Cunha disse:

    Olá…
    Adorei seu post, há pocuco tempo comecei a ler “a instutentável leveza do ser” do Kundera.
    Um romance que me prendeu por horas frente ao computador, pois a obra etá em formato pdf, o que me contraria um pouco, ao meu ver nada se compara a um livro tradicional.
    É a primeira vez que visito seu blog, mas a partir de hoje o farei com mais frequência, sou estudante de filosofia e de psicologia, adoro ler e o conteúdo que encontrei aqui me chamou muito a atenção.
    até mais…

  2. Gorette disse:

    Oi…vim aqui atras de algo como ironia. talvez encontrasse em kundera. talvez n. o fato é q desde q li sobre a litost num livro dele nunca mais o esqueci. depois de ler aquilo considerei q todas as humilhações pq passei tiveram nome. e hj sou resignada e triste, porem contente, se me entendes. saber é sempre uma alegria, embora que o que se saiba seja uma tristeza.
    desejo q vc fique em paz com suas possibilidades! rs
    ateh

  3. Jorge Luiz disse:

    Confesso a voce que não entendi bem a logica de sua resignação profunda, mas lendo as palavras de sua resposta a um comentario anterior,digo a voce que é bobagem sustentar certas verdades,e que passamos muito tempo produzindo conceitos,verdades…quando estamos em constante processo de transformação.Poderia dizer a voce,para ser como o super homem de Nietzsche, aquele que não se perde em idealismos, mas enfrenta as alegrias e as agonias de cada dia.
    Sinceramente não digo a voce verdade alguma,pois o que sustentamos hoje como verdade- e muitas vezes usamos até essas nossas verdades para julgar e moralizar os outros- pode não nos sustentar amanhã.
    Desculpe-me caso tenha o interpretado mal.

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