Sandman, de Neil Gaiman

Devo iniciar este texto seguindo a sugestão de avisar que ele contém spoilers e que não deve ser lido por aqueles que não quiserem revelações sobre o enredo de Sandman, de Neil Gaiman.

São cinco horas da manhã do dia 13 de janeiro de 2010. Uma data que não teria nada de extraordinário não fosse o fato de eu ter concluído neste dia a leitura não apenas da melhor série de quadrinhos que já vi, mas também da provavelmente melhor obra de ficção que já tive o prazer de ler.

Sandman é uma obra de quadrinhos e por essa razão habita uma dimensão artística que eu até hoje não hesitaria em considerar naturalmente inferior a, por exemplo, dimensão romanesca. Tendo sido lançada no Brasil durante a década de 90, confesso que acho que acabei lendo Sandman um pouco tarde ao fazê-lo aos 24 anos e mais de dez anos depois do fim de seu primeiro lançamento em solo tupiniquim. Confesso também que achava que “quadrinhos adultos” era coisa para adolescente. Agora posso admitir de bom grado o fato de que ainda sou um adolescente, pois o melhor momento para se ler Sandman talvez seja justamente quando já for tarde demais para os quadrinhos.

Meu interesse por Sandman tem a mesma origem que meu recente retorno à obras como Edward Scissorhands, Donnie Darko ou aos anjos de Wim Wenders. Estas obras teriam em comum o fato de serem fruto da repercussão e da influência da cena musical do post-punk para além da própria cena musical, pois a exemplo de Edward, o Rei dos Sonhos é também um personagem cuja aparência teria sido supostamente inspirada na de Robert Smith, vocalista do The Cure – bem como sua irmã Morte e o rei do Inferno Lúcifer Estrela-da-Manhã seriam respectivamente sósias de Siouxsie Sioux e David Bowie – e a própria imagem usada como cabeçalho do blog trai esta intenção. Mas a exemplo do que acontece com o espectador do Dogville de Lars von Trier ao deixar de notar que o filme não tem cenário, acabei esquecendo meu intento inicial e mergulhando no reino dos sonhos de Neil Gaiman durante as setenta e cinco edições que poderiam muito bem ser publicadas sob a forma de romance se Gaiman o desejasse, vista a qualidade do enredo e a maestria com a qual sua narrativa é conduzida.

Sandman conta a história de Lorde Morpheus – ou simplesmente Sonho dos Perpétuos. Governante do Sonhar, Lorde Morpheus é um dos sete Perpétuos: criaturas de ordem divina, mas não exatamente deuses, sendo antes personificações de aspectos fundamentais da realidade. Diferentemente dos deuses dos diversos panteões antigos, que hoje são decadentes em função do quase total esquecimento da humanidade, os Perpétuos continuam representando os aspectos da realidade que personificam. A partir dessas premissas, o que vemos durante setenta e cinco edições são histórias em que o Rei dos Sonhos não é necessariamente o protagonista, histórias que se entrelaçam e exploram novos sentidos para eventos da própria história humana, mostrando as interações de Lorde Morpheus com os outros Perpétuos ou mesmo das divindades de outros panteões e destes seres com a própria humanidade, seja na figura de uma garçonete de lanchonete, na de Robespierre ou William Shakespeare. E como os Perpétuos não são deuses, não é sem sentido que eventualmente Sonho ou seus irmãos sejam os coadjuvantes das histórias, e não seus protagonistas.

O enredo é construído com genialidade e maestria por Neil Gaiman e ouso dizer que Gaiman é provavelmente o maior mestre contemporâneo da arte da elipse narrativa, isto é, da arte de deixar pontas soltas para tecer uma trama cada vez mais complexa da história. Assim, personagens completamente coadjuvantes de edições anteriores são catapultados ao protagonismo e tornados o cerne de sagas posteriores, mesmo que eventualmente os eventos narrados nas sagas posteriores sejam eles próprios anteriores aos narrados anteriormente. Essa capacidade de sacrificar a linearidade temporal na construção narrativa em favor da ilustração de seu sentido existencial é, em minha opinião, um sinal de genialidade. Gaiman não narra assim, porém, apenas por razões estéticas. Essa forma de narração é, sem dúvida, uma maneira de permitir a exploração psicológica e existencial de nosso protagonista: e a despeito e para além da temporalidade história que Gaiman nos revela os momentos essenciais da existência de Lorde Morpheus ou daqueles que participam de forma fundamental de sua história, desde o início da narrativa – iniciada no momento do século XX, quando Sonho é preso por engano durante décadas – até seu final, quando nosso herói, em conversa com William Shakespeare, nos revela suas escolhas fundamentais a partir das quais é possível iluminar todas as edições anteriores.

Parece um pouco interesseiro da minha parte pretender fazer parecer que Gaiman explora, através de Sandman, temas existenciais. Mas essa foi uma grata surpresa: é só na última saga, Entes Queridos, que podemos ver nitidamente que Sandman é uma história sobre escolhas e responsabilidade. Diferentemente de seu irmão Destruição, Sonho não é o tipo de sujeito que se permite o abandono das responsabilidades. Temperamental, passional, soturno e irremediavelmente melancólico, é triste e belo ver Lorde Morpheus, com a nobreza que apenas um rei pode ostentar, ouvir as palavras de sua querida irmã Morte: Sonho estava colhendo o que semeara, a despeito do quanto fosse capaz de perceber ou admitir. Sonho havia enganado a si mesmo se pensava que não teria que lidar com as conseqüências de suas ações passadas. E é vertiginoso imaginar a magnitude das conseqüências de escolhas feitas por semi-deuses com dezenas de milênios de idade. Tão vertiginoso que nem mesmo o próprio Rei dos Sonhos consegue resistir à tentação de ceder à vertigem.

Mas estamos falando de semideuses que embora encarnem aspectos fundamentais da humanidade, já a transcendem em muito. E que existem de uma forma finita: quando a história tiver seu fim, os Perpétuos deixarão esse plano da existência junto com os seres humanos através dos quais eles próprios adquirem substância. Assim sendo, o que poderia significar a morte de um Perpétuo cuja realidade ainda é intensamente evocada pela humanidade como um todo? Um Perpétuo pode morrer, ou antes, assume uma nova perspectiva, qual uma melodia que não é mais do que uma variação de si mesma? As últimas edições de Sandman me deixaram completamente atônito, pois são de um “surrealismo” sem limites. Pois o Sonhar é a dimensão do possível, das histórias que não aconteceram, dos livros que não foram lidos. A intensa exposição à esse aspecto do enredo acaba dissolvendo um pouco a realidade do mundo desperto apresentado por Gaiman, uma dissolução do real e do onírico na dimensão do narrativo. Ver o novo aspecto do Rei dos Sonhos – um aspecto que eu já conhecia desde meus doze ou treze anos através de quadrinhos da LJA – foi uma experiência profundamente melancólica. Pois há qualquer coisa de redentor nessa ressurreição de um Perpétuo, uma redenção vedada à nós mortais: a redenção da segunda chance. A redenção de conservar a própria identidade em uma existência completamente nova, virgem, aberta a escolhas completamente originais.

Ainda há um epílogo: não apenas pretendo reler Sandman, como também devo ler as sagas que Neil Gaiman escreveu especialmente para aquela que talvez seja a mais charmosa de suas personagens: a Morte. Bem como as edições em que os protagonistas são cada um dos outros Perpétuos. Pois se ao final de setenta e cinco edições somos encantados com a melancolia do soturno Rei dos Sonhos, sua bela e sexy irmã mais velha seduz justamente por possuir um temperamento diametralmente oposto ao de Lorde Morpheus: Morte é descontraída, divertida e o próprio Sonho não compreende por que a humanidade teme tanto aquela que representa um aspecto tão ou mais essencial da existência quanto ele próprio.

Saio dessa leitura um pouco diferente do que entrei. Mesmo porque a idéia de que “pessoas mudam” – mesmo pessoas “perpétuas” – é uma premissa sem a qual a narrativa simplesmente não funciona. Pois em última instância, Sandman é uma história sobre mudança. Uma história sobre histórias e sobre as mudanças (palavra pela qual Delírio, irmã mais jovem de Lorde Morpheus, possui certo fascínio) que realizamos e sofremos durante essas histórias. Uma história sobre sonhos, o sonho de uma história sobre sonhos, que nos mostra que no final o próprio final é apenas aquele momento da história onde colocamos o ponto final, mesmo que ela não tenha terminado e que, em certo sentido, não pode terminar. Pois o sonho, por mais que mude, que se transforme em outro parecido ou diferente, não morrerá até que o último de nós tenha desaparecido da face do mundo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Sandman, de Neil Gaiman

  1. ajno gotico disse:

    somo seres de sentimentu obscuro que vive a vagar no derradeiro da escuridao

  2. Fernando disse:

    Eu acabei de ler Sandman recentemente, na mesma época que acabei de ler Y – The Last Man.

    Eu acho que Sandman e Y – The Last Man são obras que trabalham com a questão das escolhas, seus possíveis desdobramentos e principalmente, com o amadurecimento dos personagens.

    Em Sandman, após ler o final de “Entes Queridos”, aferi que a história foi arquitetada em detalhes precisos e que Neil Gaiman não jogava aquelas referências mitológicas gratuitamente só pra dizer “viram como eu leio muito?”

    Gostei muito do arco “Casa de Bonecas”, o “Fim dos Mundos” e “Um Jogo de Você”, que para mim é o melhor.

    Sandman é uma obra-prima dos quadrinhos e ainda bem, não descobri essa saga durante a minha adolescência.

  3. amandla disse:

    Parabéns pelo texto, conseguiu abordar tudo e mais um pouco, estou em fase de finalização de um ensaio fotográfico inspirado nestes seres “perpétuos”, e é sempre bom encontrar pessoas dedicadas a este tema!
    Um abraço+<

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