Prova de Filosofia II – Vestibular UFSM 2010

Com relação a prova II, não tive paciência de tentar reconhecer as questões de filosofia, preferindo deixar um colega fazê-lo por mim. Assim poupo-me do trabalho de responder questões que são muito bem elaboradas e até bastante filosóficas, embora sejam de geografia. Vamos às questões:
1ª – Questão 03.
Uma questão bem bonita, de filosofia, como eu acho que deve ser. Se você estudar a filosofia em um manual qualquer, mais ou menos razoável, pode responder sem dificuldade à essa questão. As duas primeiras opções são verdadeiras, a terceira é falsa: Kant não se importa se você seja feliz, desde que você faça o que é certo e aja segundo a razão. Aristóteles e Kant são os dois maiores modelos da ética e da moral na tradição da filosofia ocidental e eu acho importantíssimo que um jovem que esteja prestando o vestibular possa refletir se prefere fazer o que é certo ou agir segundo uma virtude que conduza à uma felicidade que não se atinge mas se realiza constantemente.
2ª – Questão 05.
Outra questão tipicamente filosófica. Uma questão que resvala na questão da formalização segundo a substituição de proposições por símbolos e, principalmente, uma questão sobre a natureza e função do símbolo: quem responde esta questão tem de saber que o símbolo está representando e substituindo uma proposição inteira. Não me parece que seja preciso mais do que saber ler para resolvê-la, de qualquer modo, Platão parecia pensar o mesmo a respeito da filosofia.
3ª – Questão 08
Essa é a questão estranha do dia. No gabarito diz que a resposta é a B. Eu e alguns colegas realmente queremos acreditar que o gabarito esteja errado, para o bem de nossos cérebros não estarem apodrecendo dentro dos crânios. Porque a opção I NÃO PODE estar certa. Dizer que a modéstia é preferível ao luxo por qualquer razão é completamente diferente de identificar o luxo ao mal e dizer que deve ser evitado.
4ª – Questão 13
Uma questão de filosofia política pura como água cristalina. E que eu erraria, porque ignorava que “não há mobilidade social”. Achei que a ascensão das pessoas da condição de simples povo à soldados e finalmente a reis-filósofos fosse, em certo sentido, uma mobilidade social, ainda que restrita. Muito provavelmente eu estaria ferrado na República Ideal e seria um lavador de pratos sonhando com o dia de poder pegar em armas e matar pessoas na guerra.
5ª – Questão 35
Esse é o tipo de questão que eu não colocaria em um vestibular. Colocaria em uma prova comum acompanhada da observação: “justifique sua resposta”. Porque embora eu até tenha acertado – letra C – acho que não são impossíveis casos em que, por exemplo, as letras D ou E poderiam ser aceitáveis. Proibo-me de comprar essa discussão, até porque meu desempenho nas questões do primeiro dia me arrancam completamente a credencial para discutir estatuto de justificação de teorias.
Em um saldo geral, acertei 4 de 5 na segunda prova e 7 no total. E gostei mais das questões do segundo dia do que da primeira, mas isso por razões pessoais. Acho que cada um dos dias possui uma questão questionável: a questão 46 do primeiro dia, por sua própria natureza: em que medida aquilo é filosofia? Percebam que é um ex-schopenhaueriano falando aqui, e que não me é estranho conceber o homem como um animal de impulsos, etc. Mas isso não é um lugar-comum da filosofia e aquela questão, colocada em termos científicos e com um vocabulário completamente estranho, não tem nada de absurda em si mesma se situada em outro campo do saber. Quanto a questão 08 do segundo dia, acho que o gabarito está equivocado por um lapso, uma distração, apenas isso. Ou isso, ou há mofo dentro do meu crânio e além de negligenciar lógica, acabei negligenciando o dicionário durante cinco anos de curso e não sei ler nem um texto, nem uma questão.
E se querem saber minha opinião, há um aspecto da quase-totalidade das questões que me deixou bastante satisfeito: a filosofia não foi dissolvida em água morna. Sua especificidade foi respeitada. Acho que em tempos como esses, é indispensável que a identidade da disciplina seja firmada e reafirmada: ninguém terá o direito de dizer que “não reconheceu” as questões de filosofia esse ano.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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14 respostas para Prova de Filosofia II – Vestibular UFSM 2010

  1. Kariane disse:

    É… me caiu os butiás do bolso quando vi a resposta da questão 8. Espero que revisem o gabarito, ou eu terei que reevisar o pouco que sei de filosofia.

  2. Gisele disse:

    Here I am again!
    Concordo com teu comentário acerca da primeira questão. Apenas acrescentando que eu gostaria que também a gurizada estudasse um pouco da ética do Spinoza… assim, pra quebrar o gelo do kantismo, sabe?
    Sobre a segunda, bom também. O básico do básico em lógica é saber pelo que estão os símbolos, e saber o que é uma operação cognitiva é uma exigência mais do que razoável.
    Victor, creio que o problema com a primeira afirmação da questão 08 é que ela só poderia ser verdadeira caso não houvesse ambigüidade em “todo o luxo do mundo com perigos e preocupações”. Pra mim essa parte da frase é ambígua porque não se sabe se todo luxo vem com perigos e preocupações ou se é preciso evitar somente os luxo que venha acompanhado de perigos e preocupações, não concordas?
    Bem, a questão 13 me pareceu mal formulada. Especialmente no que diz respeito à afirmação que tu disseste não saber ser verdadeira. Creio que não se deveria colocar na prova afirmações assim tão diretas sobre um tema nada descomplicado. Haveria que se explicar o que se entende por “mobilidade social” aqui. Para Platão, diz meu especialista em filosofia política de Platão, que por sinal está estudando a República, alguém que nasce filho de pedreiro poderia ser outra coisa quando crescesse. A ver suas qualidades e disposições naturais. Uma vez dado o diagnóstico (lembro bem de ter estudado isso com o professor Spinelli), cuja responsabilidade não é dos pais, mas da Estado-Educador, depois dos 8 anos, se não me engano, as crianças estaria com sua classe determinada e aí sim, não haveria a tal “mobilidade”. Daí a extrema importância, a função educativa, da lei na teoria política de Platão.

    E a última questão, por razões de preferência pessoal, me parece ótima! Essa gurizada fica pasma quando numa aula a gente tenta fazê-los pensar na natureza da matemática, é fantástico! Uma disciplina tão bicho-papão, mas tão fundamental, não pode, a meu ver, ficar no limbo da incompreensão de sua própria natureza. Outro dia mostrei em aula no cursinho a construção de um triangulo eqüilátero e foi um choque! “Como assim, na aula de filosofia?” “Pra quê?” Ora: pra mostra às pessoas que a filosofia é um pouco liquida, sim, seus conceitos permeiam as demais disciplinas, ela tem especificidades (o modo de tratar esses conceitos), pode ser cobrada objetivamente, e ser interessante simplesmente por ser o que é. Nesse sentido, acredito que aí em Santa Maria acontece algo precioso, que não se deve deixar escapar entre os dedos, e que precisa ser aprimorado cada vez mais (por que não insistir na sugestão de um “justifique sua resposta”?). Iniciativas como a tua, de comentar e criticar essas questões, ajudam nessa tarefa. Sigamos esse debate!

  3. Leonardo disse:

    EU IA PASSAR NO VESTIBULAR!!! MAIS EU ZEREI FILOSOFIA!!!
    EU IA FICAR EM 20º DE 25!!!!!
    -Óh, como eu queria matar a mãe de Sócrates antes dela “empenhar”! hahahahahaha

  4. Adriano Kurle disse:

    Primeira questão: bem resolvida pelo vítor, parece facil pra mim, mas não sei se saber o que é “eudaimonia” é realmente importante pra um vestibulando ou que seja algo essencial de se aprender no ensino médio. Acho que podemos deixar de lado os termos gregos.

    Segunda questão: muito fácil. A maior dificuldade qeu algum vestibulando poderia ter é saber o que significa “cognitivo” (isso no pior dos casos).

    Terceira: só pode ser a C. Acredito que o gabarito esteja errado.

    quarta questão: fácil pra quem já leu a República. Evidente que Platão critica a democracia, que não há mobilidade social e que os trabalhadores estão na ponta de baixo da hierarquia. A “mobilidade social” pode ser discutida em ambito academico, mas o que se pode dizer superficialmente (principalmente por dividir a “qualidade social” dos participantes em ‘ouro”, ‘prata’, ‘bronze’, e mistura entre estes, o que é tornar absoluto o status da pessoa na sociedade) é que não há mobilidade social no sentido que entendemos hoje por mobilidade social (nascer pobre e ficar rico, e depois pobre de novo, ser filho de milico e professora e virar advogado, largar tudo pra jogar futebol e depois vender cosméticos com 76 anos). Bom que caia este tipo de questão, que exige conhecimento dos próprios textos de filosofia, e não apenas interpretação de trechos (que geralmente, nos ultimos vestibulares, geraram questões que são mal elaboradas e problemáticas, pelo menos tem sido na minha singela opinião.)

    quitna questão: não me interessa nem um pouco discutir filosoficamente a matemática, acho um pé no saco. mas enfim, que se ponham algumas questões filosóficas relacionadas a ela é itneressante até para esclarecer aos estudantes o caráter da filosofia. Só pra acrescentar: a matemática avalia qualidade? acredito que não, ela justamente abstrai das qualidades para considerar apenas quantidade. e talvez por isso seja estranho dizer que a matemática é uma ciência semântica, pois ela se refere apenas a quantidade e significa apenas isto. Mas deve ter alguém no mundo discutindo isso e dizendo que a matemática é semântica e qualitativa e que um número pode ser um urubu. Vai saber!

    Gisele: ética de spinoza? tudo bem você gostar, mas nem na faculdade a gente estuda (eu nunca estudei a ética de spinoza). Será que não existem teoria éticas mais importantes que spinoza, e que não se refiram apenas a Kant e Aristóteles? Hume não é um candidato mais importante nesta discussão? Rousseau quem sabe?

    • Petrus disse:

      Discordo plenamente, a lógica é a base da Filosofia e da própria língua, hoje a linguagem se acomoda com as facilidades da comunicação, mas nunca deixará de ser importante. Quem domina a etimologia das palavras compreende a própria linguagem em um nível superior comparado a quem não domina, cria um campo de dedução mais plausível, o que permite ao indivíduo maior segurança ao refletir sobre assuntos os quais não possui pleno domínio. De tantas críticas que fazem à educação brasileira, credito este ser um acerto, a educação humanista não deve ceder às pressões do pragmatismo da contemporaneidade, devemos sim estimular a retenção de conteúdos, mesmo porque a Filosofia depende disso, a crítica não é questionar, mas questionar sobre bases lógicas, o que depende da assimilação e aplicação de conceitos na leitura da realidade.

  5. Bruno R. Mendonça disse:

    Olá, Vitor.

    Eu, contrariando a profa. Gisele :), não gostei da última questão de filosofia dessa segunda prova. O ponto de discórdia é que é uma questão frustrante! Eu comecei a lê-la e fiquei na espera de que ela cumprisse o papel de confrontar o aluno com um par de argumentos a favor ou contra determinada concepção sobre a matemática -enfim, deixasse ele de fato com uma pulga atrás da orelha sobre o assunto- e o que venho estava mais para catecismo do que para reflexão. Catecismo porque pede uma resposta rasteira sem nem mesmo definir bem os termos apresentados (p.ex., o que devo entender por “formal” na resposta correta à questão? Os alunos que saem do ensino médio não necessariamente aprenderam os conteúdos com a mesma terminologia utilizada pela prova).

    Conversava ontem sobre isso para tentar clarear as idéias e me fizeram pensar o seguinte: devido a natureza da filosofia, as questões fáceis serão necessariamente menos profundas do que as questões difíceis. A minha queixa com relação a essa questão, então pode ser fruto de mera incompreensão: eu posso estar pedindo de uma questão fácil o nível de profundidade de uma questão difícil. Pode até ser, mas se a distinção entre tratamentos rasos e profundos em uma prova de filosofia for gradual, meu desejo é que tivesse sido feita um pouquinho mais profunda…

    Abraços, Bruno.

  6. Gisele disse:

    Adriano: não sei não esse negócio de deixar de lado os termos gregos. Às vezes a etimologia pode ser bacana pra entender melhor a idéia mesma em questão, sabe?

    Bom, o que nos interessa ou não, que achamos um saco ou não, não pode determinar completamente o que deveria ser cobrado numa prova de filosofia. Estaríamos muito mal (como aliás estamos por não termos estudado Spinoza na UFSM, NA UFSM eu disse, por exemplo) caso só estudássemos o que nossos professores gostam de lecionar. Já pensou um professor de biologia que só curtisse genética? Não é diferente na filosofia, não tem porque o ser.

    Agora, tuas considerações acerca da natureza da matemática são completamente equivocadas. É claro que se tu estás diferenciando, como os modernos faziam, entre características qualitativas e quantitativas dos corpos, a matemática lida com as relações entre os aspectos quantitativos. Mas isso em nada, nada, nada tem a ver com excluir o caráter eminentemente simbólico da disciplina (a ver Lebniz, Wittgenstein). E para nada há que se dizer, seja lá o que isso quer dizer que “a matemática é uma ciência semântica” (me dê um exemplo de ciência semântica??), “pois ela se refere apenas a quantidade e significa apenas isto” (explique, por favor, o que é esse “isto” Um geômetra ou alguém que trabalha com teoria de grafos, diria que tu não sabes do que está falando). “Mas deve ter alguém no mundo discutindo isso e dizendo que a matemática é semântica e qualitativa e que um número pode ser um urubu.” Olha, tem uma GALERA de respeito na filosofia discutindo temas de filosofia da matemática sim. Até hoje não ouvi ninguém dizer que um número pode ser um urubu, mas já ouvi dizer que alguns se preocupam com o critério de identificação dos números, pra poder garantir que Julio César não seja um número. Uma coisa é tu não te interessares pelo assunto, outra é avacalhar quem considera interessante o mesmo.

    Minhas considerações acerca do desejo que tenho de que a gente devesse falar um pouco da ética do Spinoza no ensino médio talvez tenham justamente a ver com o fato de que eu nunca o estudei formalmente na faculdade, mas quando entrei em contato com seu modo de refletir sobre a ética, tenha pensado: que sacanagem, porque eu não corri atrás disso antes? Querido, não é porque não estudamos alguém na faculdade, que as idéias desse alguém não possam ser ensinadas. Pobre de quem se prende ao que foi mastigado na graduação. E eu acho que as considerações do Hume são bacanas sim, deveriam entrar, como as de Rousseau, e por que não as de Hegel? Essa é a problemática em torno de pensar um currículo! Vai ser com nomes de filósofos? Com modelos de teorias? Por que um e não outro? Eu te diria porque Spinoza: justamente pelo baita contraponto a uma ética como a de Kant. Porque já que não dá (ainda bem!) pra dar a história da filosofia em uma aula por semana, parece mais plausível apresentar teorias éticas bastante diferentes em seus pressupostos e argumentações. Isso até contribui para que as pessoas percebam que na filosofia não há consensos do mesmo modo que em outras áreas, embora possa e deva haver objetividade na análise dos argumentos em questão em cada posição que se contrapões à outra. E a mim parece que Spinoza e Kant dariam um bom debate!

    E, como seguimos?

  7. Victor disse:

    Er… eu gosto da Ética do Spinoza. E ainda mais da do Schopenhauer, que também acho um puta contraponto à Ética Kantiana (que adoro, vale dizer). Mas também gosto da Genealogia da Moral do Nietzsche.

    Bruno: Conversando com o Gilson Olegario – e sobre a conversa dele contigo – e depois conversando com a minha irmã, que prestou o vestibular, pensei em algumas coisas e acho que entendo o que queres dizer, bem como acho que concordo contigo.
    Acho que uma questão de vestibular deve ser simples, pontual e econômica – como aquela de Aristóteles. Pode ser até mesmo POBRE, desde que seja clara e não peça o que não está oferecendo, justamente como faz essa quinta questão. O vestibular não é a melhor hora de fazer a pessoa refletir sobre a natureza de uma disciplina. Então uma questão dessas me parece terrível. Eu mais ou menos entendo o sentimento que motiva o que o Adriano acabou de dizer. É mais ou menos o espírito por trás daquela frase clichê que diz que “não há loucura que possamos dizer que não seja endossada por algum filósofo”. No fundo, estou com esse sentimento me acompanhando como um corvo (ou um urubu, ou um número) pousado no ombro: há, nas humanidades em geral, uma aparente liberdade de tentar legitimar qualquer absurdo concebível. Eu acho que ao ver tradições se confrontando (não uma ou duas, mas dezenas) sobre um assunto pode muito bem deixar o estudante sério com a sensação de que “tudo é possível” em humanidades. E alguém assim que se depare com uma questão dessas num vestibular pode acabar muito facilmente arruinar a possibilidade de acerto da resposta através de uma reflexão simples: “a partir de que perspectiva devo pensar?”. E teremos loucos e filósofos nos oferecendo muitas perspectivas que simplesmente tiram o solo seguro para uma resposta objetiva. Por essas razões, penso que é melhor que uma questão seja pobre do que vaga.

  8. Afora nossas conversas não publicadas sobre todas as questões, gostaria de comentar sobre essa última questão. Gostei da proposta dela, ela foi abrangente o suficiente para demonstrar um pouco o caráter da filosofia de misturar-se em outras disciplinas, geralmente pela base, como a Gisele comentou, o caráter “líquido”. Contudo, creio que a questão ficou um pouco tendenciosa (isso vai me deixar mostrar um tipo de questão gostaria de ver no vestibular), por um aspecto técnico (há quem pense que eles não dizem respeito aos vestibulandos, que teriam que responder questões que mostrariam uma síntese da filosofia, mas em último grau dizem respeito sim), a questão pergunta qual é a opção que melhor caracteriza a natureza do conhecimento matemático, do modo como foi formulada a pergunta insinua um assunto acabado, Quine p.ex. acha que o conhecimento matemático é empírico (apenas está em um grau bastante distante da experiência, o que faz que suas teses dificilmente sejam revisadas). Defender uma concepção de matemática não é o ponto aqui, se a questão fosse formulada de uma forma como: tal e tal filósofo acha que o conhecimento é dividido em tal e tal (aqui seria um lugar interessante de adicionar um trecho de um texto filosófico que permeie o assunto… até talvez que indique aproximadamente a resposta) seguindo tal concepção o conhecimento matemático seria…
    Bom… essa é uma opinião pessoal (acho que isso já fica implícito em uma postagem em um blog) e talvez não seja a melhor forma, do mesmo modo gostaria de ver algumas sugestões de formatos de questões para o vestibular por aqui.

    De um modo geral achei as questões de filosofia bastante pequenas, o trabalho filosófico envolve muita leitura e esse caráter também poderia ser mostrado junto com as questões da mesma forma como é com a literatura.

    Seguimos conversando…

  9. Adriano disse:

    Gisele: Bem quanto a questão da matemática e sua filosofia, apenas coloquei uma posição ironica, pois exigir tudo isto que a Gisele, que estuda especificamente este assunto sabe, e o que um aluno ou até mesmo um professor com apenas a graduação sabem seja o mesmo, é pedir demais. Quanto a questão da semantica, a princípio (e agora entra o mesmo problea de muitas outras questões do vestibular) temos esta visão: matemática lida com quantidade, não com qualidade. Se discutesse em âmbito academico semântica matemática, ou a sua possibilidade (que imagino que tenha um caráter específico para este discussão) é totalmente diferente exigir isto no ensino médio e no vestibular. Pelo que tu me respondeu, deu a entender que a própria questão, portanto, deve ser entendida como confusa por alguém especialista na área, posição que tu não tomaste antes (ou não quis explicitar?).

    Quanto ao Spinoza, não me oponho a ensinar Spinoza, mas sim que seja tratado no vestibular da UFSM um assunto que nem na graduação da UFSM nós estudamos. De maneira nenhuma me coloco como alguém (assim como tu pareces me colocar pela minha resposta) que não busca nada além do que se ensina dentro da faculdade (mastigado pelo que tu entendes), mas vejo spinoza pouco discutido em comparação com outros autores. Talvez isto seja ruim, eu mesmo gostaria de conhecer spinoza. Mas quem, em Santa Maria, vai ensinar? Concordo que seja uma pena. Uma pena que eu não seja tão “genial” quanto tu por não poder estudar todos os filósofos ao mesmo tempo e por não saber (que estúpido eu!) quais são os posicionamentos que um professor deve ter PRONTO para ensinar no ensino médio (como instinto versus humano, que burro eu em não concordar com isto).

    O Vestibular de Filosofia da UFSM prende o professor de Filosofia a buscar QUAIS SÃO AS POSIÇÕES QUE QUALQUER UM DEVE TER, o que automaticamente se contrapõe ao próprio exercício autonomo da Filosofia. DEVO ensinar ética assim, mesmo que me pareça incoerente, e pior: DEVO adivinhar quais são os temas que caem no vestibular e como serão elaborados a partir de como aparecem nos péssimos livros didáticos que temos disponibilizados! òtimo…e agora, o que eu faço com a porcaria do meu diploma, se nem pra resolver essas questões do vestibular eu sirvo?

    Se os próprios formados na instituição tem dúvidas e confusões sobre as questões da mesma disciplina que são formados, nesta mesma instituição, temos, pelo menos, um problema: fomos formados para outra coisa, mas não para ensinar filosofia no ensino médio. Ou, nem deveríamos formar-nos. Incrível!
    ——————————————–
    Enfim, o simples colocar “segundo fulano”, como o Gilson já comentou, resolveria muitas ambiguidades, vaguezas etc. Assim sobraria apenas o problema a partir de quais textos e quais autores devemos trabalhar. Por mais que não concordassemos com os autores e textos escolhidos, ao menos seria justo no sentido de legitimar as questões, tornando-as mais claras e sabendo que o assunto esta sendo abordado sob “tal perspectiva, de acordo com tal texto”.

    Imaginem agora uma prova de Literatura, que tratasse sobre um tema específico de um romance mas não explicistasse personagens, contexto, autor e obra. Ou menos que isto: uma prova de literatura que tratasse sobre obras específicas, mas que não antecipasse o programa de quais obras podem ser exigidas na prova. É claro que este exemplo é mais radical, mas serve apenas para mostrar em que direcionamento acredito que o concurso deveria seguir para elaboração das questões.

  10. Gisele disse:

    Normalmente, Adriano, eu nem responderia aos teus comentários, dada a deselegância do teu tom comigo. Ironia é diferente de deboche. Mas como o que me interessa é (tentar) entender os argumentos contra e a favor da aceitação de algumas questões, vamos lá. É verdade que eu estudo filosofia da matemática, mas isso não quer dizer que uma questão de vestibular deva passar por cima de coisas básicas. Veja, tu dizes “temos esta visão: matemática lida com quantidade, não com qualidade.” Ótimo. Podemos ter a visão de que os negros não tem alma. Ok. Dai podemos fazer uma questão de (Filosofia!) vestibular que pressuponha isso e tudo bem. Essa parte da tua argumentação é fraca, porque vai ao encontro do que no final justamente apontas como devendo ser preservado: “o exercício autônomo da Filosofia”. Se tem que haver um tal exercício de alguma maneira representado numa questão de Ética, porque não numa de filosofia da matemática? Não seria interessante que um professor pudesse explicar aos seus alunos que a natureza da matemática é um assunto filosoficamente relevante, e mostrar as razões pra isso? Não seria uma dessas razões o fato de que ela não é apenas “lidar com quantidades” e sim manipular signos através de regras, e que essa manipulação pode servir pra muitas coisas e se perguntar como tudo isso é possível? Se isso não é pergunta filosófica, então não sei… E depois, tu não me apresentaste um exemplo de “ciência semântica” pra eu entender direito a contraposição que esteas fazendo.
    Especialidades à parte, me parece que tua consideração acerca das dúvidas que os formandos possuem com relação a se estão ou não preparados para ensinar o que a prova cobra é mais do que legítima. Mas aí te pergunto que estratégias estnao sendo elaboradas pra dar conta disso na graduação? E não apenas estratégias dos docentes, mas dos próprios dicentes? Alguém se preocupa em discutir a sério isso em algum grupo de estudos, uma disciplina específica sobre didática de filosofia? É muito fácil reclamar no final, com as questões prontas, e o diploma na mão. Mas há que se perguntar como fomos lidando com isso ao longo de nossa graduação e pra mim o comprometimento com essas questões sempre SEMPRE foi essencial.
    Não pode ser cobrado na prova apenas o que vemos na graduação. É claro que isso aponta para o fato de que precisamos de livros didáticos melhores (e nenhuma questão é feita com base nos ruins aí do mercado, o que tudo indica), que precisamos a partir do programa de conteúdos tentar antecipar o que vai ser cobrado… Mas isso não é o fim do mundo, cara. Exige esforço, diálogo, correr atrás…
    Eu vejo às vezes nessas discussões umas tempestades em copo d’água, como se o processo de ter filosofia no vestibular não fosse isso um PROCESSO que enquanto tal é incompleto, está sujeito à equívocos, e TEM QUE gerar as discussões que temos, e mais outras.
    E o argumento que de que o vestibular “prende” o professor… Cara, isso não é assim e te digo que não é porque memso quando tu te sentes “preso” pelo conteúdo, há muitas maneiras diferentes de fazer ver diferente, de ensinar diferente. E eu só posso falar disso porque dei muita aula. Mesmo. E nada como a prática para ensinar a fazer. Eu não sou “gênio”, nem a melhor professora que conheço. Longe disso. Mas sei que dar aula de filosofia é um desafio dos grandes, e que com o tesão suficiente, e a dedicação pra dar conta dele direito, não há currículo que engesse a prática de dar aulas bacanas, o que inclui contestar as questões que se apresentam no nosso vestibular, mas também não quer dizer, am absoluto, que se deva criticar por criticar, sem tentar tirar o que nelas há de bom.

    • adrianobk disse:

      E então…a questão sobre a matemática, como fica? Enfim, reconheço não entender patavinas. Mas não acha que aí existe um conflito entre o que se pode pensar sobre o assunto e o que se deve pensar pra resolver a questão? Não parece que quando se reflete sobre a questão ela parece cada vez mais confusa? Pelo que eu entendi tu concordaria que a questão é ambígua, principalmente se prestarmos atenção às respostas. Basta isto. Não tiro teu mérito, mas justamente quando se sabe que se pode criticar SE DEVE criticar.

      Tapar o buraco com a peneira NÃO DÁ! Por mais que isto possa trazer vantagens pra uns ou pra outros…

      E convenhamos, imagine um professor responsável por diversos alunos que vão prestar vestibular ( você sabe bem disto, e por favor, não confunda com ironia) saber que não pode ser responsável pelos erros e acertos dos seus alunos no vestibular porque o programa da disciplina é tão ambíguo e amplo (parece pequeninho no programa, menos de meia página!) que você nunca teria condições de saber se vai trabalhar todo conteúdo ou não, e se vai saber se ensinou DE ACORDO COM O VETIBULAR OU NÃO (OBRIGAÇÃO de um professor que prepara alunos para o vestibular, e não só cursinho exigem isso, mas muitas escolas, gostemos disto ou não).

      E aí… vale a pena tapar o buraco só pra agradar três ou quatro?

  11. adrianobk disse:

    E desculpa o mal entendido, não discordo que a filosofia da matemática possa ser uma coisa relevante, a ironia (que você entende como deboche) é que este tema nunca tinha aparecido na prova, nem aparece no programa. No curso de graduação estas questões são estudadas apenas por aqueles que se interessam especificamente pelo assunto (por isso a ironia, e não deboche), e isto seria tão absurdo quanto cair interpretações da Fenomenologia do Espírito de Hegel, texto que eu gosto muito, mas nem por isso acharia lindo que caísse no vestibular, e nem por isso fico brabo por ouvir tantos deboches (inclusive da supracitada) com relação ao assunto.

    Não responda mais nada, meu nível é muito baixo mesmo. Vamos é comemorar o belo vestibular de filosofia. (agora pode ser deboche!)

  12. Bruno R. Mendonça disse:

    A questão 35 é uma questão simples: a asserção (a) e (b) são inconsistentes, portanto falsas; (d) e (e) também são falsas: a matemática é uma ciência complexa que possui áreas em que se lida com a noção de quantidade (por ex.,aritmética), assim como áreas em que isso não acontece (um exemplo simples, sobre o qual tive aulas básicas na universidade é a geometria euclidiana); (c) é coerente com a prática matemática portanto verdadeira.

    O aluno para acertar essa questão precisava de uma aula sobre tipos de uso da linguagem, e uma aula introdutória de filosofia da matemática (no núcleo sobre epistemologia), ambas bem dadas. A aula sobre tipos de linguagem lhe apresentaria o caráter essencialmente simbólico da matemática e lhe permitiria pensar sobre a necessidade dessa condição. Já a aula sobre filosofia da matemática lhe permitiria avaliar as relações entre pares conceituais formal-material, empírico-apriori, exato-contingente, além de lhe apresentar tipos de conhecimento matemático.

    Concordo com o Adriano que os professores que estão se formando não estão preparados para essa prova. No entanto acho que esse é um processo natural. A discussão pública dos processos de avaliação permite que essas falhas sejam consertadas.

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