Freud e os sonhos de Schopenhauer

Por mais que se possa fazer piada da psicanálise, ela pode acabar explicando a piada no final e deixando você sem graça. E muito embora eu já não preste a devoção que outrora prestei ao Pai da Psicanálise, sei que traí-lo é no fundo minha forma de ser fiel à ele. Assim acabei cedendo ao impulso e estou lendo a famosa Interpretação dos Sonhos, obra magna do mestre Freud segundo o próprio autor. E divido aqui com o eventual leitor um trecho que, em minha opiião, é importantíssimo: Freud citando Schopenhauer.

Isso é interessante para quem faz filosofia porque eventualmente o quase-filósofo como eu poderá ouvir – e se deixar seduzir – pela idéia de que toda a psicanálise freudiana não é senão uma exploração das filosofias de pensadores como Schopenhauer e Nietzsche que, enquanto filósofos, descobriram o poder da irracionalidade muito antes de Freud deitar histéricas em seu divã. O quase-filósofo poderá mesmo encontrar um ou outro trabalho tentando aproximar – ou afastar, dependendo do gosto do articulista – Freud da filosofia através dessa porta dos fundos representada pelos chamados irracionalistas. De qualquer maneira, compartilho aqui um trecho da Interpretação dos Sonhos para mostrar não apenas que Freud cita Schopenhauer, mas também em que medida ele parece se servir da filosofia. Espero encontrar mais referências aos meus queridos filósofos no decorrer do texto. E espero também que as referências sejam todas do tipo que vemos aqui abaixo, pois esta me parece uma referência de um tipo que salvaguarda a especificidade filosófica do filósofo e psicanalítica do psicanalista, tornando artificial qualquer tentativa de deduzir uma disciplina da outra.

“A linha de argumentação desenvolvida pelo filósofo Schopenhauer, em 1851, exerceu uma influência decisiva em diversos autores. Nossa imagem do universo, na opinião dele, é alcançada pelo fato de nosso intelecto tomar as impressões que o atingem de fora e remodelá-las segundo as formas de tempo, espaço e causalidade. Durante o dia, os estímulos vindos do interior do organismo, do sistema nervoso simpático, exercem, no máximo, um efeito inconsciente sobre nosso estado de espírito. Mas, à noite, quando já não somos ensurdecidos pelas impressões do dia, as que provêm de dentro são capazes de atrair a atenção – do mesmo modo que, à noite, podemos ouvir o murmúrio de um regato que é abafado pelos ruídos diurnos. Mas, como pode o intelecto reagir a esses estímulos senão exercendo sobre eles sua própria função específica? Os estímulos por conseguinte, são remodelados como formas que ocupam espaço e tempo e obedecem às regras da causalidade, e assim surgem os sonhos.”

Em A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Freud e os sonhos de Schopenhauer

  1. Daniel de Oliveira disse:

    Olá, Victor Costa. Belo tópico abordado! Estudo a psicanálise já há alguns anos, primeiramente por conta própria, depois ao longo da graduação em psicologia e alguns cursos paralelos (ou seja, ainda por conta própria, rsrs). Estou fazendo o processo inverso: estou lendo O Mundo como Vontade e como Representação, o que acredito ser o capolavoro de Schopenhauer. Você está no caminho certo, esta é realmente a obra máxima do Freudão. Ali está resumida toda a base de seu pensamento, muito mais do que ele próprio conseguia medir na época. Boa sorte com a experiência!

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