Os Onironautas: Parte I – Quem são Sigmund e Victória?

Depois que o mundo enfim acabou, Sigmund e Victória se instalaram em um trailer, nas redondezas de Praga. Não tinham televisão ou computador, pois afinal já não serviria para nada possuí-los. Tinham um velho rádio, onde podiam ouvir discos de vinil e velhas fitas, bem como um velho aparelho de videocassete, onde podiam assistir aos mesmos filmes quantas vezes quisessem, ligado à um velho monitor preto-e-branco que a necessidade e a imaginação os ensinou a consertar quantas vezes foi necessário. Passavam a maior parte do tempo conversando sobre coisas que não existem, mas que poderiam existir, e isso os entretinha quase que integralmente, pois o tempo parecia ter parado – e talvez de fato fosse esse o caso. Uma vez por semana iam à velha Praga em bicicletas ou em sua moto roubada e saqueavam algum supermercado abandonado em busca de provisões para os dias subseqüentes, embora o fizessem mais por diversão do que por necessidade. Preferiam fazê-lo nos dias de chuva, embora há muito tempo o branco tivesse substituído o azul do céu e o sol não fosse mais do que uma lembrança de dias que se confundiam com as histórias que contavam um ao outro sobre as coisas que poderiam ter acontecido. É difícil precisar se viviam como amantes ou como irmãos, já que há muito tempo essas noções haviam se dissolvido em seus vocabulários, conseqüência necessária à qualquer par de pessoas que viva dessa forma, longe do palco da civilização, onde cada papel é bem definido por sua função. Viviam em um paraíso artificial tão frágil quanto poderia ser perpétuo, se assim desejassem, e pareciam desejar iniciar todos os dias brancos da mesma forma: fazendo café, fumando cigarros, colocando os mesmos discos a repetir as mesmas canções. Se ventava, sentavam-se na relva, ou deitavam-se um no colo do outro e tentavam adivinhar que histórias o vento trazia, e as vezes adivinhavam. Se chovia, podiam tentar contar as gotas de chuva, e as vezes acertavam. E se o sol ameaçasse aparecer entre o branco inquebrantável do céu, olhavam-se mutuamente sem dizer palavra, entravam e se trancavam dentro do trailer onde, em uma grande cama de casal sempre desfeita, enfiavam-se debaixo das cobertas e, em sonho, faziam quase as mesmas coisas que fariam despertos, pois há muito haviam aprendido a se encontrar em sonhos. Viviam um pequeno paraíso, mas as coisas nem sempre foram assim.

Quando Sigmund e Victória se encontraram pela primeira vez, foi em uma ocasião que podemos chamar, se quisermos, de coincidência. Caminhavam pela rua absortos por seus próprios pensamentos, nos arredores da pracinha central de sua pequena cidade. Era uma festividade local, e uma banda de rock estava se apresentando. Ambos ficaram encantados com o mesmo acaso: quando os primeiros acordes da guitarra soaram, parecendo dissolver tudo em sonho, os primeiros raios de luz do sol apareceram entre as nuvens, colorindo a cidade inteira de um só golpe. Eram onze horas e onze minutos da manhã, e o sol dissiparia as nuvens pelo resto do dia. Naquele momento, contudo, tanto Sigmund quanto Victória se deixaram encantar pelo colorido que emergia das árvores, da pintura das casas e das roupas das pessoas. Foi assim que acabaram colidindo um com o outro sem querer, em um episódio que seria absolutamente trivial e que desapareceria no esquecimento após um pedido de desculpas. Mas o momento estava colorido por uma beleza tácita e absolutamente irresistível, da mesma natureza da beleza que transmuta a substância de um momento qualquer e faz com que ele pareça especial e único, tão especial e único que toda uma vida pode parecer, nesse exato momento, um grande prelúdio dessa beleza tão intensamente esperada que acabamos chamando-a de Destino. Sim, Sigmund e Victória sentiram a mão do Destino naquele preciso momento.

Como o Destino é infinitamente sábio – e parecia estar de excelente humor – não apenas promoveu o encontro de Sigmund e Victória como lhes proveu sinais claros de que seu encontro não era um acaso. Assim, coincidentemente Sigmund e Victória tinham, quando se encontraram, um livro em mãos. E era precisamente o mesmo livro, o mesmo romance. Que ensinava, entre outras coisas, que a cegueira para a beleza do acaso é um dos poucos pecados que se pode cometer na vida (o autor era birrento e ao invés de abrir os olhos para a mão do Destino preferia ver em suas interferências apenas uma maneira do acaso se apresentar de forma bela, mas Sigmund e Victória eram inteligentes demais para aceitar a idéia de um Destino, e este, sabendo disso, lhes proveu exatamente daquilo que necessitavam para que não ficassem cegos para a beleza de suas próprias vidas). Assim, quando viram o título que carregavam, os dois sentiram o coração saltar dentro do peito e acharam que seria conveniente dispensar alguns minutos com o outro. Sentaram-se à um banco daquela pracinha e distraídos para os acordes da guitarra que dissipavam as nuvens e coloriam o dia, trocaram as primeiras palavras. Palavras que, sem dúvida, ditaram o tom de todos os seus diálogos vindouros. E que formaram laços invisíveis desde o momento em que planejaram se encontrar no dia seguinte, ali naquela mesma praça, para um café. A festividade local lhes dava o pretexto necessário para um reencontro, mas se não desse provavelmente eles inventariam outro.

Durante a semana de festividades, Sigmund e Victória se encontraram todos os dias, dividiram café e conversavam sobre trivialidades. Sigmund estava encantado com a desenvoltura que aquela menina tinha no tocante à saber ser agradável em uma conversa. Era infinitamente agradável estar em sua presença e a despeito da certeza mútua do vínculo que se formava e se fortalecia (e que jamais se desfaria) ficava encantado ao não ser exigido sobre nada, como se ela soubesse antecipar cada um de seus passos, como alguém que conduz uma dança. Victória, por sua vez, divertia-se infinitamente com aquele rapaz que parecia não ser preso a nada e ao mesmo tempo falava de coisas complexas – e que seriam até mesmo chatas – de um modo completamente descontraído, como se ao terminar de pintar um retrato ele preferisse sempre fazer um smiley no lugar do rosto. Essa companhia acabou rendendo um convite à Sigmund por parte de sua amiga: suas aulas de psicologia começariam na semana seguinte, e ela afirmou categoricamente que adoraria a companhia dele em suas lições iniciais sobre psicanálise. Sigmund trabalhava como atendente em um café-tabacaria durante o dia, mas poderia exercer a profissão de professor de filosofia caso quisesse. Interessava-se mais pelo comportamento humano do que por metafísica, contudo. Assim, aceitou prontamente o convite de Victória e, sem saber, iniciou o que seria o fim do mundo.

(continua)

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer, Por um mundo Punk-Gótico. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Os Onironautas: Parte I – Quem são Sigmund e Victória?

  1. Sieglynnd Stockhausen; disse:

    Essa é a minha parte favorita d’Os Onironautas, por mais fabulosas que as outras sejam!
    Nesse trecho eu vejo tudo o que eu gostaria de viver e também o que eu gostaria de ter vivido. Essa história é perfeita, Victor! *-*

  2. Lauren disse:

    :)~

  3. Gabriel Dietrich disse:

    Pois bem, a narrativa pulsa e vibra como um arganismo. Cada parte é passível de ligação comas demais, de modo que se lermos um só parágrafo ele fará sentido, por si só, mas quando colocado em um contexto maior fica ainda melhor. Como aquele café que se adora e que, em um dia de inspiração, tem acrescido a ele um chocolate amargo.
    Me senti conduzido pela leitura, aproveitando e me demorando em cada uma das palavras que a compõe. Preciso e sedutor; um pouco misterioso e, certamente, dono de um estilo irrenunciável.
    Parabéns, despertou em mim uma curiosidade que há muito não se via: preciso saber o que ocorre com esses dois, que compõe um mundo especialmente interessante.

  4. Gilson disse:

    Bom, fazia já algum tempo que não lia nada seu. Vejo que largou um pouco dos vícios passados, afetações.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s